Total de visualizações de página

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A terra é plana!

Por Frei Betto, no site Correio da Cidadania:


Homem de fé que sou, e ainda mais mi­neiro, sempre des­con­fiei dessa ci­ência in­flu­en­ciada pelo marxismo. Se a Terra fosse re­donda e gi­rasse em torno do pró­prio eixo, no mí­nimo de­ve­ríamos sentir ton­turas. Esse pre­con­ceito contra o ge­o­cen­trismo de Pto­lomeu de­corre dos ma­lé­volos con­ceitos paulo­frei­ri­anos as­su­midos por Co­pér­nico e Ga­lileu. Eles ado­taram o prin­cípio mar­xista de que o lugar so­cial de­ter­mina o lugar epis­tê­mico, e ao re­tirar os pés da Terra para fixá-los no Sol, in­ven­taram a teoria do he­li­o­cen­trismo. Ora, basta er­guer os olhos ao céu e cons­tatar que o Sol gira em torno da Terra, caso con­trário não ha­veria dia e noite.

Não há nada de ana­cro­nismo quando acuso Co­pér­nico e Ga­lileu de in­fluência mar­xista. Nosso chanceler, Er­nesto Araújo, já de­mons­trou que as te­o­rias de Marx, tão per­ni­ci­osas, pre­cedem o pró­prio Marx, pois, se­gundo ele, o “mar­xismo cul­tural glo­ba­lista” teve como marco ini­cial a Re­vo­lução Francesa.

Outro ab­surdo pre­ten­sa­mente ci­en­tí­fico, que es­pero ser cor­ri­gido pela Es­cola sem Par­tidos, é a te­oria de que nós, seres hu­manos, des­cen­demos dos sí­mios. Somos des­cen­dentes di­retos de Adão e Eva! Está na Bí­blia! De­cor­remos da Cri­ação di­vina, e não desses ma­cacos que se de­pen­duram com o rabo nos ga­lhos, en­quanto des­cascam ba­nanas com as mãos.

Sim, sei que Adão e Eva ti­veram dois fi­lhos ho­mens, Caim e Abel. O fato de es­tarmos aqui se ex­plica porque ao menos um deles transou com a mãe. Con­tudo, na época o in­cesto ainda não era pe­cado. No má­ximo, um mal ne­ces­sário, como hoje a li­be­ração de armas de fogo para a de­fesa da vida.

O mar­xismo é como essas par­tí­culas de po­eira que flu­tuam no ar e são vistas apenas quando forte inci­dência de raio solar atra­vessa à nossa frente. Toda a nossa cul­tura, em es­pe­cial a his­tória e a arte, está con­ta­mi­nada pelo mar­xismo. Afirmar que Moisés li­bertou os es­cravos do Egito é pura ide­o­logia. Não havia es­cravos às mar­gens do Nilo, havia servos. E o grande feito de Moisés não foi li­bertar escravos, e sim abrir ca­minho para os he­breus, em terra seca, entre as águas do Mar Ver­melho (que, de fato, era ocre, mas a in­fluência co­mu­nista...).

Não existe Es­tado laico. Há que se de­finir, ou é de Deus ou é do diabo. É pura ide­o­logia co­locar a ciência acima da fé e afirmar que o Es­tado é laico em uma nação cristã.

Já que o su­per­mi­nis­tério da Eco­nomia já sabe como re­duzir o de­sem­prego, e os pro­blemas de saúde podem en­con­trar cura na igreja da es­quina, faz bem o go­verno em li­berar, como pri­meiro grande gesto da nova gestão, a posse de armas! O Es­tado pre­cisa conter gastos e a se­gu­rança pú­blica é onerosa. Me­lhor que cada ci­dadão se de­fenda como puder!

E se uma cri­ança acessar a arma do pai?, in­dagam mães pre­o­cu­padas. Ora, es­cla­rece o mi­nistro, arma é menos pe­ri­gosa que li­qui­di­fi­cador. No en­tanto, não se co­gita des­cartar esse ele­tro­do­més­tico. O que faltou ao mi­nistro ex­plicar é que, como o nome do apa­relho alerta, li­qui­di­fi­cador, além de tri­turar tenras mão­zi­nhas, é uma arma in­de­lével, fica a dor...

Ora, chegou a hora de dar um basta nessas ide­o­lo­gias ne­fastas que con­fundem a ca­beça do povo. O po­li­ti­ca­mente cor­reto é ci­en­tí­fica e te­o­lo­gi­ca­mente in­cor­reto.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Jean Wyllys e a selvageria bolsonariana

Por Marcelo Zero

O exílio forçado de Jean Wyllys, comemorado com deboche por Bolsonaro, demonstra não apenas a falência da democracia no Brasil. 

Demonstra o desmoronamento da nossa civilização. E demonstra algo pior: a perda da nossa humanidade.

Não são somente as instituições democráticas que não estão mais funcionando. 

Algo mais profundo se rompeu em nossa sociedade.

Estamos voltamos ao estágio de bellum omnia omnes, de luta de todos contra todos, do homo homini lupus, referido por Hobbes. 

Rumamos céleres a uma situação de pré-contrato social, na qual vigoraria a ausência de justiça e o império das paixões violentas e egoístas.

O mau exemplo vem de cima, bem de cima. Bolsonaro e seguidores nunca esconderam sua admiração por ditaduras, seu culto hediondo e bárbaro a torturadores, seu mal contido desejo de extermínio de "inimigos". 

Sempre deixaram claro a todos sua tosca homofobia, seu racismo, sua misoginia repulsiva. Manifestam abertamente seu ódio brutal a tudo que lhes parece diferente e desviante da sua norma medíocre, retrógrada e pueril.

Como suínos morais, se refestelam orgulhosos e felizes na sua lama de ódio, brutalidade e preconceito. 

Comemoram com alarde a perseguição ignóbil aos que consideram inimigos, tal qual os nazistas riam e zombavam dos judeus e comunistas que eram queimados nos fornos dos campos de concentração.

Comemoraram o golpe contra a presidente honesta. 

Comemoram a prisão sem provas de Lula. Comemoraram a morte da esposa de Lula.

Comemoraram as inúmeras agressões contra membros do PT e da oposição e os tiros contra a caravana de Lula. 

Comemoram o brutal assassinato de Marielle. 

O próprio governador do Rio e um dos filhos do capitão participaram do ato hediondo de destruir a placa de homenagem à vereadora assassinada.

Houve até desembargadoras e juízes que afirmaram, em redes sociais, que Jean Wyllys deveria ser assassinado, para aplauso de uma legião de seguidores acéfalos.

Essa onda alarmante de selvageria fascista vem de longe e contou com o estímulo ou a omissão das instituições democráticas, que deveriam tê-la contido a tempo. 

Contou também com o estímulo de grande parte da imprensa e das forças políticas que deveriam ter tido algum compromisso, mínimo que fosse, com a democracia. 

Senão com a democracia, com, pelo menos, algum verniz civilizatório.

Agora, é tarde. A caixa de Pandora do neofascismo tupiniquim foi aberta.

O que chegou ao poder no Brasil não foi um simples "candidato de direita". 

Chegou ao poder no Brasil um movimento de caráter nitidamente neofascista. Chegou ao poder o ódio. Chegou ao poder a brutalidade. Chegou ao poder o preconceito mais primitivo. Chegou ao poder a ignorância orgulhosa de si.

Chegou ao poder a selvageria. Chegou ao poder a desumanidade.

Quando Bolsonaro afirmava que iria "acabar com tudo isso que está aí", creio que ele se referia, no fundo, de forma talvez inconsciente, à queda da civilidade e da humanidade.

De fato, é difícil reconhecer algo de humano na selvageria que está se instalando no Brasil. 

Selvageria econômica e selvageria política.

No campo econômico, pretende-se a instalação de um "salve-se quem puder" ultraneoliberal, que dispensará a existência do Estado de Bem-Estar, a legislação trabalhista protetiva e os investimentos em serviços públicos para a população mais pobre. 

Vigorará, como no mundo natural de Hobbes, a "meritocracia" dos mais fortes ou mais afortunados.

Essa selvageria econômica seria complementada pela selvageria política, incrustada não mais num Estado de exceção seletivo, mas num Estado miliciano, que promove abertamente o ódio aos adversários e sua eliminação política ou mesmo física.

Bolsonaro bem que advertiu, às vésperas do segundo turno, que seus "inimigos" só teriam duas opções: a prisão ou o exílio. Insinuou também uma terceira opção: a morte na "ponta da praia".

Jean Wyllys escolheu o exílio à morte ou à prisão. 

Fez bem. Afinal, quando o próprio presidente da República promove ódio e tem um clã ligado às milícias, é sinal de que as ameaças têm de ser levadas a sério. Muito a sério. Ninguém está a salvo.

O grau de degradação democrática e civilizatória promovida por Bolsonaro permitiria, quem sabe, no limite e com o tempo, que ele fosse enquadrado até mesmo no Estatuto de Roma, que criou a Corte Penal Internacional.

Com efeito, o artigo 7º, alínea h), do Estatuto de Roma define como um dos "crimes contra a humanidade" a "perseguição de um grupo ou coletividade que possa ser identificado, por motivos políticos, raciais, nacionais, étnicos, culturais, religiosos ou de gênero, tal como definido no parágrafo 3º, ou em função de outros critérios universalmente reconhecidos como inaceitáveis no direito internacional, relacionados com qualquer ato referido neste parágrafo ou com qualquer crime da competência do Tribunal".

O Estatuto entende por perseguição a "privação intencional e grave de direitos fundamentais em violação do direito internacional, por motivos relacionados com a identidade do grupo ou da coletividade em causa". 

Parece-me que o direito a vida e o direito à livre representação e manifestação fazem parte dos direitos fundamentais.

A homofobia e o extermínio de gays e negros fazem parte do cenário brasileiro há muito. 

Mas quando o próprio Chefe de Estado a estimula, com seu triste exemplo e seu deboche contínuo, a coisa tende a mudar de patamar. Jean Wyllys não é exceção, é confirmação de uma nova realidade política.

Claro está que tal enquadramento seria o que se chama em inglês de "long shot", algo, pelo menos por enquanto, bastante improvável. 

Mas não se pode deixar de levar em consideração que, em qualquer país minimamente civilizado, alguém como Bolsonaro já teria tido sérios problemas com a justiça e jamais teria sido eleito para coisa alguma.

Por isso, no exterior, Bolsonaro só provoca medo, repulsa e, mais recentemente, após sua brilhante participação em Davos, profunda decepção e vergonha.

Selvageria se combate com princípios civilizatórios, ódio se combate com tolerância, ignorância se combate com conhecimento e autoritarismo se combate com democracia.

Passou da hora do Brasil procurar se curar e se livrar da doença mortal do bolsonarismo. Para tanto, é preciso que todas as forças que ainda têm algum compromisso mínimo com a democracia e com a civilização se unam.

Quem ainda não entendeu que o adversário principal do Brasil democrático, civilizado e humano é o neofascismo, e que o antipetismo é seu irmão gêmeo, não entendeu nada. 

Ou entendeu e está se lixando.

Precisamos dessa clareza e dessa determinação, ou então continuaremos a rumar para aquele estado de pré-civilização, para aquilo que Hobbes descreveu de forma esplêndida no Leviatã, uma espécie de morte em vida:

"....E a vida do homem, solitária, pobre, sórdida, brutal e curta."

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Confira a íntegra da carta que Jean Wyllys entregou ao PSOL

O deputado federal, eleito pelo Rio de Janeiro, resolveu não tomar posse para um novo mandato na Câmara. Ele afirma ser vítima de constantes ameaças de morte.

À Executiva do Partido Socialismo e Liberdade - PSol

Queridas companheiras e queridos companheiros,

Dirijo-me hoje a vocês, com dor e profundo pesar no coração, para comunicarlhes que não tomarei posse no cargo de deputado federal para o qual fui eleito no ano passado.

Comuniquei o fato, no início desta semana, ao presidente do nosso partido, Juliano Medeiros, e também ao líder de nossa bancada, deputado Ivan Valente.

Tenho orgulho de compor as fileiras do PSol, ao lado de todas e todos vocês, na luta incansável por um mundo mais justo, igualitário e livre de preconceitos.

Tenho consciência do legado que estou deixando ao partido e ao Brasil, especialmente no que diz respeito às chamadas “pautas identitárias” (na
verdade, as reivindicações de minorias sociais, sexuais e étnicas por cidadania plena e estima social) e de vanguarda, que estão contidas nos projetos que apresentei e nas bandeiras que defendo; conto com vocês para darem continuidade a essa luta no Parlamento.

Não deixo o cargo de maneira irrefletida. Foi decisão pensada, ponderada, porém sofrida, difícil. Mas o fato é que eu cheguei ao meu limite. Minha vida está, há muito tempo, pela metade; quebrada, por conta das ameaças de morte e da pesada difamação que sofro desde o primeiro mandato e que se intensificaram nos últimos três anos, notadamente no ano passado. Por conta delas, deixei de fazer as coisas simples e comuns que qualquer um de vocês pode fazer com tranquilidade. Vivo sob escolta há quase um ano. Praticamente só saía de casa para ir a agendas de trabalho e aeroportos. Afinal, como não se sentir constrangido de ir escoltado à praia ou a uma festa? Preferia não ir, me resignando à solidão doméstica. Aos amigos, costumava dizer que estava em cárcere privado ou prisão domiciliar sem ter cometido nenhum crime.

Todo esse horror também afetou muito a minha família, de quem sou arrimo. As ameaças se estenderam também a meus irmãos, irmãs e à minha mãe. E não posso nem devo mantê-los em situação de risco; da mesma forma, tenho obrigação de preservar minha vida.

Ressalto que até a imprensa mais reacionária reconheceu, no ano passado, que sou a personalidade pública mais vítima de fake news no país. São mentiras e calúnias frequentes e abundantes que objetivam me destruir como homem público e também como ser humano. Mais: mesmo diante da Medida Cautelar que me foi concedida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da OEA, reconhecendo que estou sob risco iminente de morte, o Estado brasileiro se calou; no recurso, não chegou a dizer sequer que sofro preconceito, e colocaram a palavra homofobia entre aspas, como se a homofobia que mata centenas de LGBTs no Brasil por ano fosse uma invenção minha. Da polícia federal brasileira, para os inúmeros protocolos de denúncias que fiz, recebi o silêncio.

Esta semana, em que tive convicção de que não poderia - para minha saúde física e emocional e de minha família - continuar a viver de maneira precária e pela metade, foi a semana em que notícias começaram a desnudar o planejamento cruel e inaceitável da brutal execução de nossa companheira e minha amiga Marielle Franco. Vejam, companheiras e companheiros, estamos falando de sicários que vivem no Rio de Janeiro, estado onde moro, que assassinaram uma companheira de lutas, e que mantém ligações estreitas com pessoas que se opõem publicamente às minhas bandeiras e até mesmo à própria existência de pessoas LGBT. Exemplo disso foi o aumento, nos últimos meses, do índice de assassinatos de pessoas LGBTs no Brasil.

Portanto, volto a dizer, essa decisão dolorosa e dificílima visa à preservação de minha vida. O Brasil nunca foi terra segura para LGBTs nem para os defensores de direitos humanos, e agora o cenário piorou muito. Quero reencontrar a tranquilidade que está numa vida sem as palavras medo, risco, ameaça, calúnias, insultos, insegurança. Redescobri essa vida no recesso parlamentar, fora do país. E estou certo de preciso disso por mais tempo, para continuar vivo e me fortalecer. Deixar de tomar posse; deixar o Parlamento para não ter que estar sob ameaças de morte e difamação não significa abandonar as minhas convicções nem deixar o lado certo da história. Significa apenas a opção por viver por inteiro para me entregar as essas convicções por inteiro em outro momento e de outra forma.

Diz a canção que cada ser, em si, carrega o dom de ser capaz e ser feliz. Estou indo em busca de um lugar para exercitar esse dom novamente, pois aí, sob esse clima, já não era mais possível. Agradeço ao Juliano e ao Ivan pelas palavras de apoio e outorgo ao nosso presidente a tarefa de tratar de toda a tramitação burocrática que se fará necessária.

Despeço-me de vocês com meu abraço forte, um salve aos que estão chegando no Legislativo agora e à militância do partido, um beijo nos que conviveram comigo na Câmara, mais um abraço fortíssimo nos meus assessores e assessoras queridas, sem os quais não haveria mandato, esperando que a vida nos coloque juntos novamente um dia. Até um dia!

Jean Wyllys
23 de janeiro de 2019

Moro investigará ameaças a Jean Wyllys?

Por Jeferson Miola, em seu blog:

Renunciar a mandato conferido pelo voto popular não é um ato trivial. Tem-se registro de renúncias de mandatos parlamentares por condenações, enfermidade, eleição para cargo Executivo, ou outros.

Não existia precedente, entretanto, na história do Brasil, de deputado federal que tenha renunciado por correr risco de morte por desempenhar atividade parlamentar comprometida com os direitos humanos, a pluralidade, a liberdade, a democracia.

A renúncia do Jean Wyllys/PSOL, neste sentido, é uma pesada denúncia de que a pistolagem adentrou o território da política e, se não for detida, poderá colonizar a política da mesma maneira que já domina comunidades no Rio e no país afora.

A negligência do Estado, que não assegurou a Jean Wyllys a proteção e a segurança que corresponderia, é ainda mais grave que as ameaças de morte feitas contra ele e sua família. Na carta que entregou ao PSOL [ler aqui], o deputado denunciou que

“Mesmo diante da Medida Cautelar que me foi concedida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da OEA, reconhecendo que estou sob risco iminente de morte, o Estado brasileiro se calou; no recurso, não chegou a dizer sequer que sofro preconceito, e colocaram a palavra homofobia entre aspas, como se a homofobia que mata centenas de LGBTs no Brasil por ano fosse uma invenção minha. Da polícia federal brasileira, para os inúmeros protocolos de denúncias que fiz, recebi o silêncio”.
Jean também denunciou que os sicários que assassinaram Marielle Franco e Anderson Gomes

“mantêm ligações estreitas com pessoas que se opõem publicamente às minhas bandeiras e até mesmo à própria existência de pessoas LGBT. Exemplo disso foi o aumento, nos últimos meses, do índice de assassinatos de pessoas LGBTs no Brasil”.
O aumento da violência e da crueldade contra pessoas LGBTs é uma realidade indesmentível. O bárbaro assassinato da travesti Quelly da Silva em Campinas/SP, em 20/1, comprova esta realidade denunciada pelo deputado do PSOL. Além de assassinar Quelly brutalmente, o assassino arrancou-lhe o coração.

Jean Wyllys não renunciou por covardia. O exílio tornou-se o único recurso de sobrevivência diante da desproteção do Estado brasileiro. Ele farejou o cheiro do seu próprio sangue jorrando em rituais de intolerância, preconceito e ódio num país francamente ameaçado pelo poder miliciano e crime organizado.

O assunto é extremamente grave. Um dos sicários suspeitos do assassinato da Marielle, o chefe da milícia Escritório do Crime, enquanto estava preso por homicídio foi homenageado na ALERJ pelo deputado Flávio Bolsonaro, nada menos que o filho do presidente da República. Até novembro passado, Flávio empregava no seu gabinete a mãe e a esposa dele, que é o principal suspeito de ter efetuado os disparos mortais em Marielle.

A renúncia do Jean Wyllys, em vista disso, é uma denúncia de que a política e o Parlamento estão sendo sitiados pela bandidagem; é um alerta de que democracia está sitiada. É uma denúncia, enfim, de que o Estado de Direito corre o risco de ser dominado pelas milícias e pelo crime organizado.

O Ministro da Justiça Sérgio Moro, a quem o COAF, a PF e outros órgãos de combate ao crime organizado estão subordinados, tem a obrigação constitucional de investigar as ameaças de morte que levaram Jean Wyllys à renúncia do mandato e o forçaram ao exílio.

Moro precisa mandar investigar com o máximo rigor as organizações criminosas [Escritório do Crime e outras], mas também os agentes públicos dos legislativos, dos executivos em todos os níveis e do judiciário que têm conexão orgânica com o crime organizado e com as milícias.

Moro não pode se esquivar desta responsabilidade institucional e legal. Ele tem o dever de investigar a fundo; ele jamais poderá dizer que esse assunto não é com ele, sob pena de se confundir com a própria criminalidade que se recusa a combater.

Ivana Bentes: Jean Wyllys não está desistindo, está sendo expulso do país por criminosos

“Eu já servi à Pátria amada!”. Eu só queria dar esse abraço apertado em Jean Wyllys nesse momento em que, vivendo sob escolta policial e ameaçado de morte ele tomou a difícil decisão de abandonar a vida pública e sair do Brasil, deixando do seu mandato como Deputado Federal. É muito triste para o país, para as lutas e para a democracia. Mas Jean será uma voz no exílio de combate a política mafiosa que se apodera do Brasil.

Como milhares de pessoas participei de todas as campanhas de Jean Wyllys com empolgação e entusiasmo desde que apareceu na cena política, como o primeiro parlamentar brasileiro a se assumir gay e travar todas as lutas contra o obscurantismo!

Jean foi um dos mais combativos e corajosos parlamentares de nossa instável democracia.

Com uma trajetória surpreendente e imprevisível, literalmente “hackeou” a mídia e os mecanismos de visibilidade máxima da TV e da cultura de massa, saindo de um programa de entretenimento como Big Brother Brasil para chegar no Congresso brasileiro e subverter o conservadorismo mais tacanho e propor outras pautas. Jean não fazia a diferença simplesmente, ele era a diferença. Sua causa passa pela sua vida, toda implicada nas lutas que trava.

Jean Wyllys tem a cara de uma nova geração de políticos: antenado com seu tempo, pop, com uma presença forte e diária nas redes sociais, interagindo com qualquer um, e que abraça as causas mais impopulares e as mais difíceis, no campo do comportamento e das diferenças.

Era um contrapeso no Congresso para Felicianos, Bolsonaros, Malafaias e Sarneys e tudo o que temos de mais atrasado! É preciso ter muita convicção e crença para lutar, com as armas da democracia representativa tão combalida, pelo que acreditamos. Num pais em que nos ensinaram a ter “horror” a política.

Nesse momento sai do Brasil ameaçado pelas mesmas forças e milícias associadas a morte de Marielle Franco. Uma mulher negra da periferia e um parlamentar gay! Uma assassinada e outro ameaçado de morte pelos mesmos poderes fáticos e odiosos, pelo lodo que se subiu para a superfície!

Na Folha de São Paulo de hoje expõe suas razões: “De acordo com Wyllys, também pesaram em sua resolução de deixar o país as recentes informações de que familiares de um ex-PM suspeito de chefiar milícia investigada pela morte de Marielle trabalharam para o senador eleito Flávio Bolsonaro durante seu mandato como deputado estadual pelo Rio de Janeiro.”

“Me apavora saber que o filho do presidente contratou no seu gabinete a esposa e a mãe do sicário”, afirma Wyllys. “O presidente que sempre me difamou, que sempre me insultou de maneira aberta, que sempre utilizou de homofobia contra mim. Esse ambiente não é seguro para mim”, acrescenta.’

Jean adora música e fala por música. Só lembrei de Raul Seixas, nesse momento: “Mamãe, não quero ser prefeito/ Pode ser que eu seja eleito/ E alguém pode querer me assassinar/Eu não preciso ler jornais/ Mentir sozinho eu sou capaz/ Não quero ir de encontro ao azar/ Papai não quero provar nada/ Eu já servi à Pátria amada/ E todo mundo cobra minha luz/ Oh, coitado, foi tão cedo/ Deus me livre, eu tenho medo/ Morrer dependurado numa cruz”

Jean Wyllys queremos você vivo! Volte logo! Volte com a democracia! Todo nosso amor e apoio nesse momento!

Não tenho dúvida que serão as Marielles e os Jeans que vão derrotar os governos mafiosos. Com suas ideias!

Juan Guaidó e a estratégia imperialista

Por Wevergton Brito Lima, no site Diálogos do Sul:

Nesta quarta-feira (23), o roteiro dos setores pró-imperialistas na Venezuela previa o seguinte: massivas marchas opositoras tomariam conta das ruas. Estas marchas sofreriam “ataques” de simpatizantes do chavismo, provocando dezenas de mortes e, em efeito cascata, uma onda de indignação interna e externa. Diante de um governo acuado, Juan Gauidó seria proclamado presidente interino do país pela opositora Assembleia Nacional, sendo imediatamente reconhecido pelos países imperialistas e seus satélites. 

Embora a situação seja, de fato, muito grave e a maior parte do roteiro golpista tenha se realizado, outra parte importante não se concretizou e o legítimo presidente Nicolás Maduro continua no poder e a luta está distante de um desfecho.

Não aconteceram as dezenas de mortes planejadas, pois o governo bolivariano, com dias de antecedência, veio a público e denunciou, com nomes, dados e provas, os planos criminosos que a extrema-direita preparava. 

O governo também não ficou acuado. Nesta quarta-feira (23) a população que apoia Maduro igualmente saiu às ruas e, assim como a oposição, realizou atos massivos, com a diferença de que estes atos dos bolivarianos são tornados invisíveis pela mídia hegemônica brasileira. O Estado venezuelano tampouco está a serviço dos golpistas. 

Isso porque a Sala Constitucional do Tribunal de Justiça (TSJ), o equivalente ao STF brasileiro, condenou a tentativa de golpe e chamou a coisa pelo nome: “usurpação”. Em declaração publicada pela Telesur, o juiz do TSJ, Juan José Mendoza, indicou, logo após o pretenso juramento do “novo presidente”, que a Assembleia Nacional “viola expressamente o artigo 236 números 4 e 15, pois pretende usurpar a competência do Presidente da República na direção das relações exteriores do Estado”. Ele também ratificou a inconstitucionalidade dos atos da Assembleia Nacional e constatou que ela continua em desacato à Constituição. O TSJ determinou que seja investigada esta ilegalidade e seus responsáveis sejam punidos.

Segundo o site G1, os seguinte países reconhecem Juan Gauidó como novo presidente: Estados Unidos, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, além da Organização dos Estados Americanos.

Certamente outros seguirão na mesma linha que tenta isolar Maduro e justificar uma intervenção militar, sonho antigo do imperialismo, facilitado pela existência de governos servis ao império e em alguns até “com relação carnal” com Trump como é o caso dos fanáticos de extrema-direita Bolsonaro e seu chanceler.

Por outro lado, diversos países já respaldaram o governo, como é o caso de Rússia, Turquia, Bolívia, México, Uruguai e os integrantes da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba).

Esta, no entanto, não é uma situação nova que a Revolução Bolivariana enfrenta. Em 2002, depois de um golpe que prendeu Hugo Chávez, o presidente golpista, Pedro Carmona Estanga, foi reconhecido por Espanha, Estados Unidos, El Salvador, Colômbia, Equador, Costa Rica e Nicarágua e só não foi reconhecido por mais países porque o golpe logo foi derrotado. Lembramos igualmente que, no início de 2017, esta mesma Assembleia Nacional declarou “vago” o cargo de presidente e com pompa e circunstância “assumiu o poder”.

A situação, repito, é grave. É preciso que o campo democrático, popular e progressista saia em defesa da Venezuela, da sua soberania e apoie os esforços que o governo Nicolás Maduro empreende para uma solução pacífica para a crise. Mas, por outro lado, o comando da Revolução Bolivariana tem se mostrado capaz de responder com coragem e amplitude no momento de maiores ataques e o povo venezuelano mais de uma vez já surpreendeu o mundo por sua capacidade de resistência.

No momento em que escrevo esta matéria, o presidente Nicolás Maduro anuncia, do balcão do Palácio Miraflores, sede oficial do governo, que a Venezuela está rompendo relações com os EUAcom prazo de 72 horas para retirada de todo o pessoal do corpo diplomático estadunidense. A hastag da transmissão do pronunciamento é: “As Ruas São do Chavismo“ (#LasCallesSonDelChavismo).

Mais cedo, a vice-presidenta, Delcy Rodríguez, em meio a uma grande manifestação de apoio a Maduro, declarou: “na Venezuela há um governo e um povo que defende a paz e a soberania”.

A mídia hegemônica brasileira irá, a partir de agora, fazer seu habitual trabalho de mentiras e distorções, para deleite de toda a direita. Mas, em se tratando da Revolução Bolivariana, aconselho a ouvir o saudoso Belchior: “Não cante vitória muito cedo, não / Nem leve flores para a cova do inimigo”.

* Wevergton Brito Lima é jornalista, secretário-geral do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) e membro da Comissão de Política e Relações Internacionais do PCdoB.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Janaina Paschoal: "Tenho horror à militância, tenho horror ao ativismo





A 'doutrina Doria' para a segurança pública

Por Thais Reis Oliveira, na revista CartaCapital:

O governador de São Paulo, João Doria, faz companhia para Jair Bolsonaro e seus ministros no Fórum Econômico Mundial na Suíça. A viagem é a primeira desde a posse, e contrasta com a agenda linha-dura posta em prática no estado.

Doria mostra um São Paulo de cinema aos investidores e líderes estrangeiros. Em um vídeo com ares de superprodução, ele apresentou oportunidades de negócios em aeroportos regionais, estradas, exploração de energia e transporte fluvial.

No plano local, o grande assunto é segurança pública. Os primeiros 23 dias do tucano no governo do Estado mostram que a retórica linha-dura que ele adotou durante a campanha eleitoral caminha rápido para se tornar realidade.

É visível a intenção de pagar ao eleitor a fatura da vitória nas urnas: a mais apertada entre todas as disputas estaduais de 2018. Já houve três grandes operações policiais, que colocaram 67 mil agentes nas ruas e rodovias – número recorde para o estado. Conforme os dados oficiais (e amplamente divulgados pelo governo) foram utilizadas ao todo 24 aeronaves e mais de 20 mil viaturas.

Sob a caneta do governador, também caminham mudanças nas regras de condutas da PM em protestos e reintegração de posse, privatização de presídios e o veto a um projeto de lei que estendia o horário de atendimento da Delegacia da Mulher.

Em artigo recente ao jornal O Globo, Doria diz que o estado está “pronto a encabeçar uma nova era da segurança pública no país”.

Confira algumas das ações significativas nessa área:

Espingarda dia e noite

Doria autorizou o uso de espingardas calibre 12 por toda a PM paulista, dia e noite, em todas as regiões do estado. Até então, esse tipo de armamento só era utilizado em operações noturnas. Justamente pelo alto poder letal. O governador deixou claras suas intenções ao anunciar oficialmente a novidade, no dia 11: “A orientação da PM é imobilizar o bandido. Se ele reagir, ele vai para o cemitério”.

Máscaras proibidas (só para os manifestantes)

No sábado 19, o governador baixou um decreto proibindo o uso de máscaras em manifestações. A canetada vale para qualquer acessório que cubra o rosto e prevê ainda que todo protesto com mais de 300 participantes seja comunicado às autoridades cinco dias antes.

De acordo com o governo estadual, a intenção do veto é coibir a ação “dos black blocs que, cobrindo o rosto com máscaras, se infiltram em protestos para ferir pessoas e causar atos de vandalismo e depredação de patrimônios públicos e privados”. Mas a ofensiva contra o anonimato não vale para a Polícia Militar.

Nas últimas manifestações do Movimento Passe Livre (MPL), os policiais traziam na farda um código alfanumérico – ao invés do crachá com sobrenome e patente como nas abordagens diárias. Também passaram a cobrir o rosto com balaclavas (o acessório é conhecido como ‘touca ninja’).

A PM diz que a mudança serve para simplificar a identificação dos agentes e torná-la mais precisa. Na prática, dificulta-se o acesso do cidadão comum à informação. É muito mais difícil, por exemplo, memorizar um código cheio de letras e números do que um sobrenome.

O primeiro protesto depois do veto, organizado pelo Movimento Passe Livre na terça 22, teve manifestantes usando máscaras de Doria e Bruno Covas.

PM com mais poder nas reintegração de posse

Nesta terça 22, Doria revogou o decreto do antecessor, Marcio França (PSB), que obrigava a PM a submeter ao governo qualquer medida de apoio em ações de reintegração de posse. Na prática, volta a carta branca para os agentes agirem livremente na tomada de terrenos e imóveis.

Trata-se de uma ofensiva contra os movimentos sociais, que muitas vezes denunciam truculência da PM de nessas ações. Durante a campanha eleitoral, Doria disse que grupos como o MST seriam “tratados como bandidos”. O secretário da Agricultura do tucano, Gustavo Junqueira, afirmou que o movimento é “terrorista”.

Sem atendimento 24 horas na delegacia da mulher

Doria vetou o projeto da deputada Beth Sahão (PT) que previa expediente de 24 horas em todas as 133 Delegacias da Mulher do estado. Apenas a DEAM, da região da Sé, tem expediente estendido. Todas as outras operam apenas em horário comercial.

O projeto era reivindicação antiga de movimentos sociais e fora aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa. Pressionado a oferecer outra solução, Doria anunciou que mais três DEAMs funcionarão ininterruptamente a partir do mês que vem. Mas não informou quais.

Ele também prometeu ajustar, aprovar e ampliar o projeto da deputada petista, mas não estabeleceu nenhum prazo.

Presídios privatizados

Na última semana, o governador anunciou que vai privatizar os novos presídios do estado. Por enquanto, 4 das 12 penitenciárias em construção serão entregues a empresários por meio de parcerias-público-privadas (PPPs). O plano é repassar à iniciativa privada todas unidades prisionais do estado.

Essas empresas administradoras receberão dinheiro público conforme o número de detentos – um prato cheio para a explosão do encarceramento em massa. Vale lembrar que São Paulo já é o estado que mais prende no país.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Fake news de Bolsonaro aos italianos

Por Dilma Rousseff, em seu site:

O presidente Jair Bolsonaro divulgou uma fake news que seus apoiadores vêm disseminando há bastante tempo. Tornou-se transparente, assim, a origem dessas acusações, uma vez que agora foram feitas diretamente pelo próprio presidente para um público internacional.

Em entrevista concedida a um programa de auditório da RAI, emissora italiana de TV, o presidente proferiu acusação falsa e ignomiosa, atribuindo a mim participação na VPR, organização de oposição à ditadura militar. Construiu a sua fala, de modo a passar a ideia de que eu teria participado de ações violentas, em especial de uma que causou a morte de um soldado.

A verdade é que nunca fui integrante deste grupo, jamais participei de qualquer ação armada e não propus ou contribui para a morte de quem quer que seja.

Pertenci, na verdade, a outra organização política de oposição a ditadura, a VAR-Palmares.

O curioso é que os detalhes da minha atuação contra a ditadura militar no Brasil foram investigados e julgados pelos órgãos integrantes do aparato judicial-repressivo do regime militar, dos quais o então militar Bolsonaro foi próximo. Fui presa por três anos, fui torturada, e jamais me interrogaram ou julgaram por tais acusações, que agora, de forma irresponsável e injuriosa, me faz o presidente.

Meu nome também não é citado entre os militantes acusados de participarem da ação de São Paulo, no livro que trata do assunto, editado pelos próprios militares, após o fim da ditadura.

A ação específica a que Bolsonaro e seus apoiadores se referem ocorreu em São Paulo, em 26 de junho de 1968, período em que eu residia em Belo Horizonte e frequentava a Faculdade de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais. Não tinha o dom da ubiquidade, e ainda não tenho.

O presidente está apenas repetindo uma notícia falsa e insidiosa espalhada por seus apoiadores durante a campanha eleitoral, por meio de um vídeo comprovadamente forjado.

É a terceira vez que, por má-fé, essa mesma fake news é usada contra mim. A primeira foi em 2010, quando assumi a Presidência da República. A mentira foi divulgada por blogs fascistas. A segunda vez ocorreu na campanha eleitoral do ano passado, quando enormes somas de dinheiro foram gastas para espalhar notícias falsas contra os principais candidatos do PT, nas redes sociais. Agora, já na Presidência da República, Jair Bolsonaro repete aos telespectadores italianos informações falsas usadas para enganar o eleitor brasileiro.

É profundamente lamentável que um chefe de Estado venha a proceder dessa forma.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Doria visa lucro para setor privado com o encarceramento em massa





por Jorge Ferreira / Mídia NINJA

João Dória (PSDB), governador de São Paulo, anunciou nessa sexta-feira (18) a privatização de ao menos 4 dos 12 presídios que estão em construção no estado. Segundo ele, as referências serão o presidio da cidade de Ribeirão das Neves – MG, e o sistema norteamericano. Os critérios apontados são a melhoria nas condições do cárcere e a ressocialização do apenado com o trabalho. No entanto as experiências de privatização de presídios apontam em outra direção: ampliação do encarceramento em massa.

Num país como o Brasil, com quase 800 mil presos, terceira maior população carcerária do mundo, deveria ser ponto de partida a discussão de como diminuir esse contingente, pois apesar do número de encarcerados ter aumentado em 170% somente entre 2000 e 2015, a segurança pública continua sendo um dos principais problemas apontado pelos brasileiros. É com essa constatação de que prender mais não é a solução que muitos países, incluindo Estados Unidos, tem caminhado no sentido de frear o encarceramento. A privatização das cadeias por sua vez aponta em direção oposta pois inclui no sistema empresas privadas que tem por objetivo lucrar na medida que se prende mais.

No contrato firmado com o presídio de Ribeirão das Neves, modelo para o governador de São Paulo, está previsto como “obrigação do poder público” a manutenção constante de ao menos 90% da demanda durante todo o tempo da parceria público -privado.

Ou seja, além de não ter no horizonte políticas para amenizar o encarceramento, existe na verdade uma lógica inversa. Não bastasse as garantias de lucro concedidas pelo estado à iniciativa privada, especialistas apontam também para o lucro em cima da mão de obra do preso, uma vez que a relação trabalhista não é regida pela CLT, e sim pela Lei de Execução Penal, que por sua vez afirma que presos podem ganhar menos que um salário mínimo, e ainda não ter benefícios. Com uma mão de obra mais barata, os produtos produzidos tem preço mais competitivo, e consequentemente as empresas lucram mais.

Quando se fala em prender mais no país que quase 70% dos presos são negros, não se pode deixar de lado o fator racial , e é por isso que a declaração de privatizar os presídios surge em paralelo com o discurso de intensificar a guerra às drogas, estrutura central do genocídio de negros e negras que ocorre no país.

A medida de João Dória não surpreende tendo em vista que ainda enquanto prefeito implementou o programa Cidade Linda, política higienista que visava tirar do centro da cidade pessoas em situação de rua, e não é preciso ir longe para compreender que os negros foram os mais atingidos.

Agora enquanto governador, parece não querer perder de vista, mas sim intensificar o controle sobre corpos negros, tudo em nome do lucro do setor privado.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Minhas melhores leituras

Não li tanto quanto gostaria em 2018, e em grande parte foi a área de Humanas. Mas segue os livros que li:

Treinamento desportivo - Estrutura e Periodização (Antonio Carlos Gomes)

Fundamentos de nutrição no esporte e no exercício (Marie Dunford) 

Conversas sobre o Brasil - Ensaios de críticas históricas (Géssica Guimarães, Leonado Bruno e Rodrigo Perez)

1917 O ano que abalou o mundo

A elite do Atraso - da escravidão à lavo jato (Jessé Souza)


Que 2019 seja um ano mais leve, realizações e leituras incríveis para nós!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Cultura inútil: Para que serve a utopia?

Mouzar Benedito propõe uma reflexão sobre utopia hoje, e faz um fértil apanhado das melhores frases e ditados sobre o tema, de Lamartine a Simone de Beauvoir, passando por Rosa Luxemburgo e Glauber Rocha.



Por Mouzar Benedito.

Para que chorar o que passou?
Lamentar perdidas ilusões,
Se o ideal que sempre nos acalentou
Renascerá em outros corações.
(Trecho da música tema do filme Luzes da Ribalta, de Charles Chaplin.)

Em 1516, o inglês Thomas More publicou o livro Utopia, palavra que significa “não lugar” ou “lugar que não existe”. Neste livro, descreve um lugar uma ilha com uma sociedade perfeita, ideal, harmoniosa, sem guerras, sem poderosos, sem exploração das pessoas umas pelas outras. Segundo li em algum lugar, Thomas Morus baseou suas ideias em informações passadas por Américo Vespúcio sobre o que ele viu no novo continente, principalmente no Brasil. Nossos povos indígenas teriam sido inspiradores da Utopia do escritor e humanista.

E a palavra utopia ganhou um outro significado, além do dado por ele, de sociedade ideal. É também algo irrealizável, ideia generosa mas impraticável, fantasia…

Mas para muita gente (inclusive eu) é algo extremamente necessário para que a vida valha a pena. Maluquice? Pode ser. Mas maluquice das boas. Eduardo Galeano escreveu: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

Muitas vezes temos que nos consolar por reconhecer que nossos sonhos são utópicos, quer dizer, irrealizáveis. Eu mesmo tenho como utopia um mundo sem governos, sem fronteiras, sem exploração, em que todos vivam bem e harmoniosamente. Anarquista! Sim, minha utopia é esta. Mas para que o mundo seja assim, é preciso que todas as pessoas sejam boas, a ponto, por exemplo, de não precisar de existir polícia, sistema judiciário e prisões. Isso é pra lá de utópico, pelo menos por uns séculos a virem, né? Mas a gente sonha assim mesmo. No meu caso, enquanto meus sonhos são irrealizáveis, me contentaria com um socialismo real, democrático, mas continuaria com meu sonho anarquista. Sonho. Utopia.

Bom… Um intervalo aqui. Antes de falar mais um pouco sobre utopia (ou ausência dela), quero lembrar que Thomas Morus era um filósofo cristão, influenciou bastante Henrique VIII no início de seu reinado, na Inglaterra. Mas quando desaprovou o divórcio do rei, que pretendia se casar com Ana Bolena, foi afastado do cargo e preso. Condenado à morte, o rei – vejam que bonzinho – lhe deu o privilégio de escolher a forma como queria ser morto: enforcado, afogado, eviscerado (eviscerar é retirar as vísceras) ou esquartejado. Ele preferiu ser decapitado. Canonizado em 1935, com o nome Thomas More, é santo da igreja católica.

Voltemos à utopia.

Algumas pessoas se sentem incomodadas com uma coisa: o sentimento de que estamos vivendo, em certos aspectos, numa situação pior do que durante a ditadura. Tudo na ditadura era pior. Esta é a regra. E eu acredito nela, quase totalmente.

Mas uma questão mexe comigo: a utopia. A utopia estava mais presente nos pensamentos e nas ações das pessoas “do nosso lado”. Ou melhor, tinha mais gente utopista. A primeira meta do nosso sonho não era chegar ao mundo utópico, mas o começo de uma caminhada rumo a ele. Era derrubar a ditadura, depois partir para a demorada construção de uma sociedade ideal, justa, como a da Utopia de Thomas More.

Parece que há um tempo as utopias vem se rareando. Podemos dizer que as pessoas (em seu conjunto – claro que há indivíduos que destoam do conjunto, e nem são poucos) têm uma utopia? Qual é ela?

Aí é que a coisa pega. O individualismo está vencendo e não sabemos até onde vai isso, até quando… As pessoas que vivem uma mesma situação parecem não ter intenção de se unirem para a procura de um bem comum. Elas competem umas com as outras. O modelo de sociedade em que vivemos tem muito a ver com isso. Por exemplo: lá pelos anos cheios de utopia, estudantes que pretendiam fazer vestibular estudavam juntos e colaboravam uns com os outros, torcendo para que todos eles fossem aprovados. Tinha, claro, uma boa porcentagem de gente que queria só “subir na vida”, ganhar dinheiro, enriquecer. Mas tinha também os cheios de utopias, os que queriam fazer juntos o curso universitário e ajudar a construir juntos o mundo com que sonhavam.

A sociedade brasileira (e do mundo todo) mudou muito, e as pessoas acompanham as mudanças, mas tem umas “coisinhas” que é bom lembrar, e que caracterizam um pouco o momento em que se vive. Detalhes reveladores, acho. Por exemplo, isso de estudar juntos, somando conhecimentos. Na época, o vestibular avaliava os conhecimentos dos estudantes, e quem tinha nota acima de 5 estava capacitado para entrar na universidade. Então, se todos nós tirássemos nota acima de 5, todos estávamos aprovados. Claro, houve a questão dos excedentes, quando o número de aprovados era maior do que o número de vagas. Então sobravam alguns dos aprovados. Mas os que eram aceitos e matriculados brigavam juntos com os excluídos, os excedentes, pela inclusão de todos.

Há algum tempo, o vestibular é “classificatório”, o que significa que, por exemplo, um curso que tem 50 vagas para calouros, aprova os primeiros 50 classificados, independente da nota que tiraram. Então, o sujeito pensa: e se meu colega for o número 50 e eu for o 51? Tá aí o pomo da discórdia. O companheiro vira concorrente. E isso parece valer para tudo, empregos inclusive. Então, vivemos num mundo de competição e não de colaboração e companheirismo. Em vez de soma, divisão.

E surgem defensores da tal “meritocracia”, por pessoas que se julgam com mais méritos que as outras. Torna-se comum a indiferença com a miséria alheia, com sofrimentos alheios…

Como tenho feito sobre outros temas, coletei alguns pensamentos sobre este. O que disseram sobre utopia, sonhos utópicos?

* * *



Anatole France: “Sim, o sonho! Sim, a quimera! Sim, a ilusão! Sem os sonhos, sem as quimeras, sem as ilusões a vida não tem sentido e não oferece interesse. A utopia é o princípio de todo o progresso. Sem as utopias de outrora, os homens viveriam miseráveis e nus nas cavernas. Foram os utopistas que traçaram as linhas da primeira cidade… Dos sonhos generosos nascem as realidades benéficas”.

* * *

Anatole France, de novo: “A utopia é o princípio de todo progresso e o direito de um porvir melhor”.

* * *

Agostinho da Silva: “De uma maneira geral, todas as ideias que visam o futuro são utópicas, ainda não estão realizadas em parte alguma, por isso são tanto mais ativas quanto menos realizadas são”.

* * *

Alphonse de Lamartine: “As utopias são, muitas vezes, verdades prematuras”.

* * *

Oscar Wilde: “O progresso não é senão a realização de utopias”.

* * *

Millôr Fernandes: “A maior utopia é a resistência diária”.

* * *

Eugênia Thereza de Andrade (diretora de teatro, comentando a peça “Liberdade, Liberdade”, de Millôr Fernandes, que ela dirigiu): “A utopia não é uma moda, ela não passa. Ela é o desejo do homem de ter e dar afeto”.

* * *

Oscar Niemeyer: “A humanidade precisa de sonhos para suportar a miséria; nem que seja por um instante”.

* * *

Niemeyer, de novo: “A gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem”.

* * *

Victor Hugo: “Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã”.

* * *

Marcela Serrano: “Sem uma dimensão utópica, o efêmero rodeia-me, apanha-me e diz-me que a vida é apenas isso: o que vejo e toco. Nada mais. A utopia ainda é possível?”.

* * *

Mário Quintana: “Se as coisas são inatingíveis… Ora! / Não é motivo para não querê-las… / Que tristes os caminhos, se não fora / A presença das estrelas”.

* * *

Helen Keller: “Literatura é minha utopia. Não há barreira que possa tirar esse prazer. Os livros falam comigo em impedimentos de qualquer tipo”.

* * *

Nietzsche: “O filósofo é o homem de amanhã, aquele que recusa o ideal do dia, aquele que cultiva a utopia”.

* * *

Nietzsche, de novo: “É preciso seguir sonhando para não sucumbir”

* * *

Caio Fernando Abreu: “Porque no fundo eu sei que a realidade que eu sonhava afundou num copo de cachaça e virou utopia”.

* * *

Gabriel García Márquez: “Eu acredito que ainda não é tarde demais para construir uma utopia que nos permita compartilhar a terra”

* * *

Gramsci: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Neste interregno, um monte de sintomas mórbidos aparecem”.

* * *

Glauber Rocha: “O cinema novo ficou com a utopia brasileira. Se ela é feia, irregular, suja, confusa, caótica, é também bonita, desarmônica, iluminante, revolucionária”.

* * *

Paulo Freire: “Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo utiliza toda possibilidade que tenha para não falar da minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes”.

* * *

Afonso Duarte de Barros: “O homem que não sonha embrutece ainda mais o mundo”.

* * *

Maria Lacerda de Moura: “A resposta ao despeito, ao fanatismo, ao sectarismo, às injúrias, às calúnias, será continuar a pensar e a viver nobremente a coragem excepcional de dizer, bem al, o que penso, o que sinto, o que sonho”.

* * *

Simone de Beauvoir: “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância”.

* * *

Machado de Assis: “Os sonhos antigos foram aposentados e os modernos moram no cérebro da pessoa”.

* * *

Olavo Bilac: “O que realizamos nunca é tão belo como o que sonhamos”.

* * *

Jean-Paul Sartre: “Como todos os sonhadores, confundi o desencanto com a verdade”.

* * *

Rosa Luxemburgo: “Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.
***
Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar(2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária(1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2017, e-book). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

A quem interessa a intervenção na Venezuela?

Por Gleisi Hoffmann, no site da Fundação Perseu Abramo:

Acabo de voltar da Venezuela, onde participei, como presidenta do PT e a convite do governo eleito, das solenidades de posse do presidente Nicolás Maduro. Não me surpreendi com os ataques e reações por parte de quem não compreende princípios como autodeterminação e soberania popular; quem não reconhece que partidos e governos de diferentes países possam dialogar respeitosamente.

Por várias razões, os problemas internos da Venezuela, econômicos, sociais e políticos, têm sido motivo de pressões externas indevidas, que só agravam a situação interna. Mas a posse de Maduro em seu segundo mandato desatou um movimento coordenado de intervenção sobre a Venezuela, patrocinado pelo governo dos Estados Unidos e referendado por governos de direita na América Latina, entre os quais se destaca, pela vergonhosa subserviência a Donald Trump, o de Jair Bolsonaro.

Gostem ou não, Maduro foi eleito com 67% dos votos. O voto na Venezuela é facultativo. Três candidatos de oposição concorreram e as eleições se deram nos marcos legais e constitucionais do país (Constituição de 1999), o que foi atestado por uma comissão externa independente. Um dos membros da comissão, o ex-presidente do governo da Espanha, José Luiz Zapatero, declarou: “Não tenho dúvida de que (os venezuelanos) votam livremente”. Como outros países se acham no direito de questionar o voto do povo venezuelano?

Não podemos nos iludir: a ação coordenada contra o governo da Venezuela não passa nem de longe por uma suposta defesa da democracia e da liberdade de oposição na Venezuela. Não há nenhum interesse em ajudar o povo venezuelano a superar seus desafios reais. O que existe é a combinação de interesses econômicos e geopolíticos com jogadas oportunistas de alguns governos, como é o caso, infelizmente, do Brasil.

A Venezuela não é um país qualquer. É a detentora das maiores reservas de petróleo do planeta. O país assumiu, desde 1° de janeiro, a presidência da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) no ano de 2019. Desde a eleição de Hugo Chávez, em 1998, a Venezuela vem desafiando os modelos econômicos e políticos excludentes que vigoravam naquele país – e na América Latina – e exercendo cada vez mais fortemente sua soberania.

O interesse dos Estados Unidos e seus aliados de subjugar esse incômodo vizinho e avançar sobre suas reservas estratégicas é notório. Nós já vimos esse filme: a invasão americana no Iraque, em nome de defender os direitos do povo e instalar a democracia, resultou em 250 mil mortos, cidades destruídas, miséria, fome e terror na ocupação. Depois, largaram tudo para trás, deixando um rastro de destruição e desalento, sem antes terem propiciado que suas empresas ganhassem muito dinheiro e, como país, se posicionassem estrategicamente no acesso ao petróleo dos países árabes. Como está o Iraque agora? Melhor ou pior do que estava antes? Tem democracia? Seu povo é mais feliz? Isso não interessa mais. O que interessa é que o império conquistou o que queria.

São muito preocupantes os movimentos dos governos Trump e Bolsonaro, entre outros, para desestabilizar o governo eleito de Maduro e sustentar um governo paralelo da oposição. Usam uma retórica de guerra como há muito não se ouvia em nosso continente. Querem intervir na Venezuela – considerando até uma intervenção militar – com a narrativa de que seria uma ditadura, que os direitos humanos não são respeitados, que há crise humanitária; precisa-se intervir para salvar o povo.

Alguém acha, sinceramente, que os EUA estão preocupados com a democracia e com os diretos humanos na Venezuela? Por que não se preocupam com a fome no Iêmen? Por que tratam as pessoas em processo migratório de forma hostil? Foi a preocupação com os diretos humanos que fez o governo Trump enjaular crianças como animais?

Nossa Constituição e a tradição da diplomacia brasileira defendem a não-intervenção em outros países. É o respeito às nações e à autodeterminação dos povos. Não precisamos adular impérios que se utilizam das crises alheias pra cobrir seus próprios problemas e tirar vantagens políticas e econômicas, fazendo guerras e intervenções. Já assistimos esse filme e ele só traz mais dores. Quando o ex-presidente George W. Bush quis comprometer o Brasil na guerra contra o Iraque, o ex-presidente Lula reagiu com altivez: “Nossa guerra é contra a fome”.

As dificuldades por que passa o povo da Venezuela só foram agravadas pelas sanções e bloqueios econômicos impostos pelos EUA e seus aliados. Nunca é demais lembrar que o governo da Colômbia recusou vender remédio ao governo venezuelano. Assim acontece com outros produtos. A Venezuela é muito dependente de importações. Enquanto bloqueios e sanções permanecerem, o povo sofrerá e migrará, impondo também sofrimento aos que fazem fronteira com o país.

A saída, a solução pacífica para a crise venezuelana, que tem impacto na América Latina, é a negociação política, é conversar com todos os lados. Papel que o Brasil deveria estar fazendo, como já fez com sucesso, e não colocando mais lenha na fogueira.

Esta semana, Bolsonaro se encontrará com o presidente Macri na Argentina. Jornais dizem que primeiro ponto da pauta será a Venezuela. Se tiverem o mínimo de responsabilidade com a paz, a ordem e a boa convivência dos países e povos latino-americanos, proporão diálogo com as partes venezuelanas. Caso contrário, só vamos acelerar a crise. Uma intervenção lá sobrará para todos nós.

Os democratas brasileiros, que se preocupam sinceramente com o destino de nossos povos, sabem que a intervenção, de qualquer espécie, não é a saída para a crise da Venezuela. E não é preciso estar de acordo com Nicolás Maduro, com seu governo ou com os processos institucionais venezuelanos para entender que, no caso de uma intervenção militar, o papel do Brasil, infelizmente, será de bucha-de-canhão.

* Gleisi Hoffmann é senadora (PT-PR) e presidenta nacional do Partido dos Trabalhadores.

Governo, mídia e fake news da Previdência

Por Marcio Pochmann, na Rede Brasil Atual:


Se para Nelson Rodrigues "toda unanimidade é burra", caberia então questionar o circulo de ferro atualmente armado nos meios de comunicação para reproduzir, insistente e convergentemente, por comentaristas e porta-vozes do dinheiro, que no Brasil a Previdência social seria fiscalmente insustentável e promotor da desigualdade social. A começar pelo fato de que o país, desde a Constituição Federal de 1988, implementou outro regime de aposentadoria e pensão que não poderia ser simplificado no conceito de Previdência Social, como predominou entre os anos de 1923 e 1987.

Naquele período passado, o então modelo de previdência social adotado em solo brasileiro era o bismarckiano, conforme concebido por Otto von Bismarck (1815-1898), responsável pela forma contributiva do Estado, trabalhadores e empresários financiar a inatividade da classe operária alemã, após longo período de trabalho realizado.

Com a Lei Elói Chaves, de 1923, o Brasil passou a consolidar o seu sistema previdenciário a partir da criação da Caixa de Aposentadorias e Pensões (CAP) para trabalhadores de empresas ferroviárias, cujo benefício era concedido aos 35 anos de trabalho.

Na década de 1930, em substituição às CAPs, foram implementados os Institutos de Aposentadoria e Pensão (IAP) por categoria profissional, com financiamento e gestão tripartite (empresários, trabalhadores e Estado). Na década de 1960, por força da ditadura civil-militar (1964-1985), os IAPs foram unificados no Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) e que prevaleceu até o final dos anos de 1980, sem mais a gestão tripartite.

Por quase todo esse período, o fundo previdenciário registrou, em suas distintas fases, arrecadação superavitária e que terminou sendo desviada, sem que houvesse o seu retorno, para o financiamento de várias políticas públicas, como habitação e infraestrutura (rodovias, pontes, usina hidrelétrica e outras).

Pela Constituição de 1988, a Previdência Social tal como existia até então no país foi substituída profundamente pelo novo modelo de seguridade social beverigiano, cuja inspiração foi o projeto de William Beveridge (1879-1963) que incorporou nas funções do Estado britânico, a partir da década de 1940, a proteção e promoção social da população desde o nascimento à morte, por meio de um conjunto articulado de políticas públicas.

Embora a promulgação da seguridade social no Brasil não tenha sido motivada por razões – inexistentes à época –- de insuficiência de financiamento, houve a ampliação de recursos para cobrir compromissos com a saúde, assistência social e aposentadorias e pensões, ainda que não tenha sido regulamentada na forma prevista pela Constituição.

Diante disso, emergiu, pela via liberal-conservadora, a reação encadeada pela perspectiva de retorno ao modelo previdenciário da década de 1980, com base nos argumentos de ser insustentável fiscalmente e promover desigualdade social.

Em termos atuais, trata-se de matéria prima para a difusão de fake news, pois dificilmente pode haver sustentabilidade fiscal quando a economia não cresce, como se verifica nos últimos cinco anos no Brasil. E isso sem destacar o crescente vazamento de recursos previdenciários provenientes da Desvinculação das Receitas da União (DRU) desde 1994, da isenção tributária de lucros e dividendos desde 1995, que retirou recursos previdenciários por conta da substituição de contrato assalariado de médios e altos rendimentos pelo de pessoa jurídica (PJ) e de várias situações de desonerações fiscais.

Em função disso, a arrecadação para a seguridade social foi sendo comprimida, além de ter perdido base de fiscalização e receita por conta da criação da super Receita Federal, em 2005.

Ao se pensar fora da caixinha do neoliberalismo, percebe-se que há alternativas à "deforma" previdenciária atualmente defendida. A começar pelo fato que o país poderia considerar a adoção de uma nova política demográfica, como ocorre em vários países e que permitiria reverter o sentido da taxa de fecundidade, ampliando, no médio e longo prazo, a relação entre inativos e ativos.

Além disso, as bases de tributação estão por ser reavaliadas, caso o país volte a crescer sustentavelmente e reconsidere fontes adicionais de recursos. As perspectivas dos ganhos fiscais com a exploração do petróleo no Brasil parecem ser extremamente positivas, assim como ganhos na transição ecológica, o que poderia contribuir, em muito, para a sustentação fiscal da seguridade social.

Sobre a desigualdade social e sua relação com o modelo de Previdência Social anterior parece indicar viés ideológico importante. Os estudos especializados a respeito da seguridade social em relação ao modelo de previdência anterior apontam, em geral, a redução drástica da pobreza entre pessoas com mais idade, invertendo a situação vigente até a década de 1980. E, concomitante com a redução da pobreza, a sequência da queda na desigualdade social.

Por uma discussão decente sobre a seguridade social no Brasil, sem o risco de que os ideólogos do neoliberalismo coloquem tudo a perder, conforme realizado em alguns países, como o caso do Chile. Um fracasso, com enorme prejuízo aos trabalhadores.

* Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).Por Marcio Pochmann, na Rede Brasil Atual:


Se para Nelson Rodrigues "toda unanimidade é burra", caberia então questionar o circulo de ferro atualmente armado nos meios de comunicação para reproduzir, insistente e convergentemente, por comentaristas e porta-vozes do dinheiro, que no Brasil a Previdência social seria fiscalmente insustentável e promotor da desigualdade social. A começar pelo fato de que o país, desde a Constituição Federal de 1988, implementou outro regime de aposentadoria e pensão que não poderia ser simplificado no conceito de Previdência Social, como predominou entre os anos de 1923 e 1987.

Naquele período passado, o então modelo de previdência social adotado em solo brasileiro era o bismarckiano, conforme concebido por Otto von Bismarck (1815-1898), responsável pela forma contributiva do Estado, trabalhadores e empresários financiar a inatividade da classe operária alemã, após longo período de trabalho realizado.

Com a Lei Elói Chaves, de 1923, o Brasil passou a consolidar o seu sistema previdenciário a partir da criação da Caixa de Aposentadorias e Pensões (CAP) para trabalhadores de empresas ferroviárias, cujo benefício era concedido aos 35 anos de trabalho.

Na década de 1930, em substituição às CAPs, foram implementados os Institutos de Aposentadoria e Pensão (IAP) por categoria profissional, com financiamento e gestão tripartite (empresários, trabalhadores e Estado). Na década de 1960, por força da ditadura civil-militar (1964-1985), os IAPs foram unificados no Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) e que prevaleceu até o final dos anos de 1980, sem mais a gestão tripartite.

Por quase todo esse período, o fundo previdenciário registrou, em suas distintas fases, arrecadação superavitária e que terminou sendo desviada, sem que houvesse o seu retorno, para o financiamento de várias políticas públicas, como habitação e infraestrutura (rodovias, pontes, usina hidrelétrica e outras).

Pela Constituição de 1988, a Previdência Social tal como existia até então no país foi substituída profundamente pelo novo modelo de seguridade social beverigiano, cuja inspiração foi o projeto de William Beveridge (1879-1963) que incorporou nas funções do Estado britânico, a partir da década de 1940, a proteção e promoção social da população desde o nascimento à morte, por meio de um conjunto articulado de políticas públicas.

Embora a promulgação da seguridade social no Brasil não tenha sido motivada por razões – inexistentes à época –- de insuficiência de financiamento, houve a ampliação de recursos para cobrir compromissos com a saúde, assistência social e aposentadorias e pensões, ainda que não tenha sido regulamentada na forma prevista pela Constituição.

Diante disso, emergiu, pela via liberal-conservadora, a reação encadeada pela perspectiva de retorno ao modelo previdenciário da década de 1980, com base nos argumentos de ser insustentável fiscalmente e promover desigualdade social.

Em termos atuais, trata-se de matéria prima para a difusão de fake news, pois dificilmente pode haver sustentabilidade fiscal quando a economia não cresce, como se verifica nos últimos cinco anos no Brasil. E isso sem destacar o crescente vazamento de recursos previdenciários provenientes da Desvinculação das Receitas da União (DRU) desde 1994, da isenção tributária de lucros e dividendos desde 1995, que retirou recursos previdenciários por conta da substituição de contrato assalariado de médios e altos rendimentos pelo de pessoa jurídica (PJ) e de várias situações de desonerações fiscais.

Em função disso, a arrecadação para a seguridade social foi sendo comprimida, além de ter perdido base de fiscalização e receita por conta da criação da super Receita Federal, em 2005.

Ao se pensar fora da caixinha do neoliberalismo, percebe-se que há alternativas à "deforma" previdenciária atualmente defendida. A começar pelo fato que o país poderia considerar a adoção de uma nova política demográfica, como ocorre em vários países e que permitiria reverter o sentido da taxa de fecundidade, ampliando, no médio e longo prazo, a relação entre inativos e ativos.

Além disso, as bases de tributação estão por ser reavaliadas, caso o país volte a crescer sustentavelmente e reconsidere fontes adicionais de recursos. As perspectivas dos ganhos fiscais com a exploração do petróleo no Brasil parecem ser extremamente positivas, assim como ganhos na transição ecológica, o que poderia contribuir, em muito, para a sustentação fiscal da seguridade social.

Sobre a desigualdade social e sua relação com o modelo de Previdência Social anterior parece indicar viés ideológico importante. Os estudos especializados a respeito da seguridade social em relação ao modelo de previdência anterior apontam, em geral, a redução drástica da pobreza entre pessoas com mais idade, invertendo a situação vigente até a década de 1980. E, concomitante com a redução da pobreza, a sequência da queda na desigualdade social.

Por uma discussão decente sobre a seguridade social no Brasil, sem o risco de que os ideólogos do neoliberalismo coloquem tudo a perder, conforme realizado em alguns países, como o caso do Chile. Um fracasso, com enorme prejuízo aos trabalhadores.

* Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Venezuela: Maduro, até o fim

Por Leandro Fortes, em sua página no Facebook:


Eu juro que queria ter essas certezas absolutas que leio em toda parte sobre a tal ditadura de Nicolás Maduro, mas não tenho. E por uma razão bem simples: são todas enviesadas, tanto pela direita que o odeia como pela esquerda que o inveja.

O fato é que Maduro, apesar de ser atacado pelos Estados Unidos sem intermediários, está de pé. A Venezuela não se dobrou, nem mesmo fustigada por uma crise econômica devastadora, com as consequências sociais que todos testemunhamos.

O Brasil, pelas mãos de um juiz de primeira instância apoiado por uma multidão de analfabetos políticos, não só sucumbiu ao um golpe parlamentar como, de quebra, elegeu uma besta quadrada cercada de lunáticos e fanáticos religiosos.

É preciso ter em mente que toda a informação que temos sobre a Venezuela é filtrada pela mídia, a nossa mídia, a pior e mais servil do planeta. Nela, a Venezuela é uma ditadura porque o presidente domina os poderes constituídos e as Forças Armadas, sem dar moleza a uma oposição golpista e entreguista, que ama mais Miami que o país onde mora.

Ou seja, tudo que o PT foi acusado de fazer, mas não fez, para desgraça de todos.

Todas as eleições na Venezuela, desde a Era Chávez, portanto, há quase duas décadas, são realizadas com a presença de observadores internacionais. Todas.

Na última, em maio de 2018, foram 200 observadores, sem que nenhuma ocorrência de fraude fosse notificada. Nenhuma. O voto na Venezuela sequer é obrigatório, portanto, não há, como ocorre aqui, a possibilidade de criação de currais eleitorais. Há, sim, gente politizada, principalmente, à esquerda.

A posse de Maduro contou com delegações internacionais de 94 países, além de representantes de organismos internacionais como as diversas agências da ONU, a Organização da Unidade Africana (OUA) e a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) – da qual ele será o próximo presidente.

Maduro e o povo venezuelano são odiados por gente como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Em 2015, uma patética comitiva de senadores comandada por Aécio Neves, do PSDB, com gente do naipe de Ronaldo Caiado e Aloysio Nunes Ferreira, foi a Caracas para criar um factoide contra Maduro. Foram recebidos a pedradas e tiveram que voltar com o rabo entre as pernas.

Aqui, deixaram essa gente se criar. Agora, com a ajuda de certa esquerda ressentida, ficam criticando a presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, por prestigiar a posse de Maduro.

Fez ela muito bem.

Antipetismo como ideologia de poder

Por Jeferson Miola, em seu blog:


“Nós não podemos errar. Se nós errarmos, os senhores bem sabem quem poderá voltar. E as pessoas de bem, que foi a maioria que acreditou naquilo que nós pregamos nos últimos anos [racismo, violência, ódio, autoritarismo e preconceitos] não poderá se decepcionar conosco” - Bolsonaro, em 7/1/2019, na posse dos presidentes do BNDES, BB e CEF.

“Se eu errar, o PT volta” - Bolsonaro, em 2/11/2018, em entrevista.


“Nós ainda só somos uma democracia e um país com liberdade graças às Forças Armadas. Nós somos o último obstáculo para o socialismo. Se envergarem a nossa coluna, tristeza virá sobre todos nós e nós não queremos isso” - Bolsonaro, em 25/12/2018, em entrevista.

Ao discursar na cerimônia de transmissão do comando do Exército que Bolsonaro “libertou” o país “das amarras ideológicas”, Villas Bôas não pretendeu anunciar o fim das ideologias.

O general quis se referir ao que, na visão dele, significaria o “fim” especificamente de uma ideologia em particular: a “ideologia inimiga”, cujas “amarras” “sequestraram o livre pensar, embotaram o discernimento e induziram a um pensamento único e nefasto”.

Na vida real, contudo, não existem sinais que confirmem delírios como a supressão do livre pensar e a imposição de pensamento único, que na gramática do Villas Bôas parece ser sinônimo de pensamento marxista ou do chamado “marxismo cultural”.

Os pressupostos do general, empiricamente indemonstráveis porque inexistentes na realidade e na vida, têm como propósito exclusivo, portanto, construir a narrativa oficial de um regime falsamente nascido “livre de amarras ideológicas”.

É o discurso do chefe militar vitorioso que, no momento em que se retira do terreno de guerra uma vez completada a missão de sobrepujar seu inimigo, proclama a vitória da sua ideologia, erguida em cima da ideologia dos “inimigos internos” que foram derrotados na guerra.

[Obs.: Villas Bôas se retira apenas do comando do Exército. Este general que teve notório papel na tutela do STF, ganhou cargo de assessor especial do GSI (sic), a despeito das sérias limitações impostas pela enfermidade degenerativa de que padece].

A des-ideologização como simulacro

Em que pese o simulacro de “neutralidade” e isenção ideológica embutido no pronunciamento do Villas Bôas, seu discurso é radicalmente ideológico – na forma e no conteúdo.

O argumento da des-ideologização é insustentável, pela simples razão de que não existem governos ideologicamente neutros ou livres de ideologias. Nem mesmo governos militares – como o do Bolsonaro – o são.

A retórica de des-ideologização proferida ad nauseam serve, na realidade, de biombo para o doutrinarismo teocrático-militar que orienta as políticas públicas de educação, saúde, assistência social, de ciência, tecnologia etc; a gestão estatal e a política externa de desbragado capachismo ao presidente dos EUA, Donald Trump.

É da natureza de governos ditatoriais pretextarem a des-ideologização para legitimarem o aniquilamento dos seus inimigos internos e a imposição da sua ideologia reacionária, anti-democrática e, sob o comando atual das Forças Armadas, ideologia também entreguista.

A explicação do Onyx Lorenzoni de que a demissão de 320 funcionários foi uma medida para “despetizar” o Estado, é parte desse teatro burlesco, dissociado da realidade. Basta lembrar que o PT foi derrubado do governo federal em 2016, e os cargos comissionados foram todos ocupados pela camarilha que tomou o Planalto de assalto por meio do golpe apoiado pelos militares e oferecido por Bolsonaro como homenagem ao sanguinário torturador coronel Brilhante Ustra.

O fascismo e a ideologia para a construção do poder

No artigo “Um fascismo do século XXI” [ler aqui], Juarez Guimarães/UFMG resgata a reflexão do historiador inglês Roger Griffin, para quem é equivocado catalogar o fascismo como fenômeno datado no período do entre-guerras [1920-1945] e, portanto, congelado no tempo e na história.

Para Griffin, o fascismo é uma tradição política viva, uma opção do próprio capitalismo e que se apresenta como alternativa ao liberalismo e ao socialismo. É uma tradição que não desapareceu com a derrota do Hitler e do Mussolini.

O fascismo é, enfim, uma corrente político-ideológica que subsiste desde após a 2ª guerra e cuja representação pública cresceu sobremaneira na última década do século 20, em especial na Europa, e se expandiu de maneira exponencial nos últimos anos deste século.

Como anota Juarez Guimarães, para Griffin o fascismo é

“uma ideologia de construção de poder que, em meio a uma sociedade em crise, mobiliza todas as energias para operar um renascimento que envolve uma regeneração tanto da cultura política, quanto da cultura social e ética que a sustenta. Um ideal de purgação, limpeza, recomeço e redenção legitimaria o uso da violência para extrair do organismo unitário, nacional e/ou racial, que se almeja construir, as partes não sadias. Auschwitz, símbolo maior do extermínio de seis milhões de judeus pelo nazismo, seria o ‘ânus da Europa’, na linguagem hitleriana documentada”.

Apesar da tirania se tornar a característica marcante no estágio avançado de regimes fascistas, governos fascistas não se originam de golpes de Estado; chegam ao poder pelas vias “normais”, mediante processos eleitorais, como na eleição do Bolsonaro.

Para reforçar sua identidade ideológica, a extrema-direita precisa eleger um inimigo central; um bode expiatório. Na Alemanha dos anos 1930, os inimigos eram os judeus, os ciganos, os gays, os comunistas.

No Brasil, os inimigos são os pobres, os negros, as mulheres, as políticas distributivas, as juventudes, as pessoas LGBTQI+, a esquerda, os socialistas, os progressistas, os democratas – enfim, todo gênero humano e social que pode ser envelopado sob o invólucro de “petista”, independentemente do pertencimento partidário, se do PDT, do PSOL, PCdoB, PSTU, do PT etc [ler aqui O antipetismo e os judeus na Alemanha dos anos 1930].

Enquanto o neoliberalismo des-democratiza a política, ou seja, estreita e limita a soberania popular mediante a dominação do poder econômico e a manipulação da mídia, o fascismo elimina fisicamente, com terror e violência estatal, todas as formas de resistências e oposições populares e democráticas, como bem ensina a experiência histórica.

O antipetismo como ideologia de poder

A burguesia brasileira faz da estigmatização do PT um método para a manutenção da sua hegemonia e poder, mesmo que nos seus governos o PT não tenha posto em xeque os pilares da dominação burguesa. No chamado mensalão, em 2005, o oligarca Jorge Bornhausen, do atual DEM, já defendia, abertamente, a “eliminação dessa raça [dos petistas] pelos próximos 30 anos”.

Bolsonaro ocupou o posto do antipetismo antes ocupado pelo conglomerado PSDB/DEM, e com isso conseguiu se eleger presidente numa eleição ocorrida no marco do Estado de Exceção que impediu a candidatura virtualmente vitoriosa do Lula.

O antipetismo atingiu um nível assombroso de histeria. Enquanto Bolsonaro “ameaçou” seus aliados com o retorno do PT em caso de fracasso do seu governo e Onyx fez a pantomima da “despetização”, o lunático chanceler Ernesto Araújo desencadeou um processo de caça às bruxas para esmagar os melhores e mais experientes diplomatas já formados pelo Estado brasileiro pelo simples fato de terem sido profissionalmente valorizados nos governos passados, e não só os do PT, porque melhor desempenhariam a política externa do país.

Apesar de centrar o ódio, a raiva e o preconceito nominalmente contra o PT, na realidade o foco deste governo militar de extrema-direita são todos os movimentos sociais, organizações civis e partidos políticos de oposição ao regime.

Antipetismo é tão somente o nome genérico da ideologia da extrema-direita para instalar-se no poder para dar continuidade ao golpe de 2016 e executar o mais audacioso projeto anti-povo, anti-nação, anti-soberania e anti-democracia jamais antes conhecido no Brasil.

A luta pela libertação do Lula e a defesa dos militantes petistas, dos militantes do MST, do MTST e dos demais movimentos e organizações sociais, nesta perspectiva, é muito maior que a defesa do maior partido popular do Brasil, o PT, porque se confunde com a defesa da democracia e do Estado de Direito contra o avanço fascista.

É preciso ter consciência de que o antipetismo é o passaporte para o fascismo. A divisão do campo progressista, decorrente de mesquinharias, incompreensões e ressentimentos políticos, carimba o passaporte para a extrema-direita implantar uma ditadura fascista no Brasil.