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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Façamos pouco pelos moradores de rua

Às vezes estão lendo um desses jornais distribuídos gratuitamente na rua (sim, eles querem saber o que rola no mundo). Às vezes ganham um café quente de moradores ou transeuntes

Taísa, Tiago e seu Francisco. Taísa abraça Bob, cachorro que um dia já foi também um morador de rua na região da Avenida Paulista.


Fabiana Motroni na Carta Capital

Bom dia pra você que amanheceu de mau humor porque está fazendo 15 graus em plena primavera paulistana.

A Taísa, o Tiago e o seu Francisco também amanheceram nessa mesma São Paulo. Eles são meus vizinhos aqui na Paulista, mas, diferente de mim, não dormem dentro de um apê quentinho. Eles dormem ao relento numa esquina, na frente de um Mc Donald's. São moradores de rua na avenida mais importante da cidade.

Mesmo assim, toda manhã, não importa se quente ou fria, eles acordam de bom humor. Sorriem pra mim, me dão bom dia, e fazem festa com o Bob, meu cachorro. Às vezes estão lendo um desses jornais distribuídos gratuitamente na rua (sim, eles lêem e querem saber o que rola no mundo). Às vezes ganham um café quente de moradores ou transeuntes (sim, eles tomam café da manhã). Mas às vezes só estão olhando para as milhares de pessoas que andam pela avenida, contabilizando quantas delas os enxergarão de verdade, quantas os olharão como se fossem apenas paisagem (sim, eles existem, e sentem).

Quando paro pra conversar com eles, algumas dessas pessoas me olham, incomodadas. Tanto as que vão e vem, quanto as que trabalham nos prédios ao lado. Incomodadas por eu atravessar a faixa imaginária que separa esses moradores de rua da sua humanidade, diariamente negada, faixa metafórica e conveniente que separa pessoas por suas supostas relevâncias humanas. Incomodadas porque se eu falo com um morador de rua, é porque ele é visível, então o incomodado se sente despido na sua farsa do não-enxergamento.

Me lembro de uma entrevista que Lino Bocchini fez tempos atrás com um grupo de ativistas contra o sexismo na mídia, do qual faço parte, onde nos perguntava porque o 'militante' incomoda tanto. "Porque a gente obriga algumas pessoas a se repensarem, a reverem suas posições, saírem da inércia, e mudar incomoda... porque a gente insiste em lembrar de coisas que todo mundo tenta desesperadamente esquecer, mas que todos sabem, no fundo, que são as coisas certas a serem feitas."

É muita coisa a ser feita pra mudar a situação de moradores de rua --- ou 'pessoas em situação de rua', como são eufemisticamente classificados. E já tem muita gente boa, tanto na sociedade civil organizada quanto no governo, agindo para mudar isso, trabalhando em soluções a médio e longo prazo. Podemos nos juntar a elas. Mas individualmente também podemos fazer um pouco. Podemos ao menos reconhecer as suas existências, respeitar suas presenças no local que ficam ou dormem, tratá-los com afeto, saber seus nomes, ajudá-los pontualmente quando possível.

Isso é muito pouco e muito fácil de ser feito por quem tem onde dormir todo dia. Mas é muito, muito, para a auto-estima e a dignidade da Taísa, do Tiago e do seu Francisco. É o suficiente para fazê-los acreditar em mudanças e em dias menos frios. E é o bastante para fazê-los sorrir todo dia.
Façamos pouco.

Era 7 de outubro

Larissa Acosta - Melocotón

Aquele som invadia minha sala. Tomava o lugar de uma monotonia habitual, que costumava preencher os espaços entre mesas, cadeiras, computadores e cabeças.

Aquelas vozes batiam com fervor às janelas fechadas das margens verticais da Avenida Presidente Vargas. Elas clamavam pelo silêncio conformado de todos nós.

Porém, já eram 18h. Arrumei minhas coisas e levantei.

De saída, vi que as pessoas compartilhavam sua preocupação sobre como voltariam para casa. Ninguém parecia escutar o que diziam as vozes da rua. O canto que vibrava o ar frio daquele início de noite era ali só mais um barulho da cidade.

Eu estava no hall, encarando aquelas portas de madeira, esperando que uma se abrisse e me levasse direto ao fim do expediente de mais um dia de trabalho. Mas aqueles gritos haviam me seguido. Atravessaram portas e paredes e também minha pele e ossos. Ecoavam dentro de mim. Aflita, entrei no elevador.

A rua estava repleta de pensamentos e palavras. Enquanto caminhava contra aquela corrente de gente, quis me deixar levar a maior parte do tempo. Olhar para aqueles olhos sedentos de solidariedade era como encarar um espelho: eu tampouco entendia porque não me juntava àquela massa cidadã.

Decepcionada, segui meu rumo. Sabia que mais tarde aquelas pessoas teriam que encarar a PM e suas armas, que ferem o corpo e a dignidade de quem luta pelo coletivo (e isso inclui os próprios policiais). Mas continuei dando, um a um, meus passos egoístas em direção à Estação Uruguaiana.

Entrei no metrô. O som ali não tinha a solidez das ruas: eram fragmentos individuais, dispersos, pessoais. Eram muitas pessoas, mas apenas pessoas. Sem força, sem união, ligadas apenas pelo desejo de chegar logo a suas casas. E ali estava eu.

Sentei triste e acanhada no trem. Empunhei minha educação e escrevi, li e me informei. Lembrei-me de cada palavra de progresso, cada lição que já levei das salas de aula por onde passei, de todo o esforço e nobreza daqueles que dedicam a vida a construir uma sociedade melhor.

Meu grito não havia se juntado ao dos professores naquela noite. Mas ali, no meio daquelas dezenas de pessoas que acompanhavam o balanço do vagão, eu me importava. Eu pensava e refletia.

E novamente, aquelas vozes invadiram o espaço. Dessa vez, porém, emanavam silenciosamente de dentro de mim.

Com a culpa dos omissos pesando sobre meus ombros, me escorei na janela escura do trem. Sentada, adormeci.

Via:http://mariadapenhaneles.blogspot.com.br/