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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A luta continua

Não sou patrulheiro ideológico e não compartilho ideias extremista. As divergências e consenso fazem pate do jogo democrático e nos ajuda na conscientização política e amplia o conhecimento de cidadania. Tenho evitado debater com seguidores do candidato do PSL, pois em grande pate disseminam mentiras e ódio. Esse comportamento não agrega nada ao debate e esvazia de certa forma um embate no sentido de fortalecimento do processo democrático. O que me assusta é a falta de lucidez e o apoio ao culto da violência, o culto da nacionalidade e insensibilidade em relação as classes vista como minorias.   



domingo, 8 de abril de 2018

Liberdade

Tudo aquilo em que me colocam sem o meu consentimento será como uma prisão. Mesmo que seja Amor, se vier de maneira imposta, autoritária ou fora de hora parecerá abuso, parecerá uma prisão. Mesmo que seja uma Amizade, se funcionar com impedimentos e condições, se me poda na evolução e me obriga a repetir padrões de aceitação, será como uma prisão. Mesmo que seja Família, se me boicota, me diminui, se me agride ou humilha, física ou psicologicamente, será como uma prisão. Estejamos atentos às prisões disfarçadas pela cultura da gente, pelos costumes da gente, pelas tradições. Se para entrar em alguma relação você tiver que esconder, anular ou amputar um pedaço de si. Pode estar certo, será como uma prisão.


navegatatiana

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O entendimento do amor.

Amor não é algo que se dá para uns e para outros não, ou o amor está em você, ou não. Amor não é objeto, algo que se possa obter, devolver, separar. Amor é estado de vida, é crença legítima no valor da vida, de cada vida, no direito de existir de cada um de nós. Ao buscar o amor, não apenas companhia, não apenas distração, saiba que ele não poderá ser parcial, não poderá ser pedaço, não existirá em proporções, ele não pode ser medido, não existe amar um pouco, amar agora sim agora não, o amor simplesmente é e estará abençoando o caminho daqueles que se deixam fazer difusor quando necessário em qualquer lugar. O Amor será realidade para aqueles que oferecem como abrigo o próprio coração.


navegatatiana

Refletir

A vida não perde sentido fora, é por dentro que ela se apaga, é o interno que precisa ser continuamente visto como templo sagrado onde pensamentos são como o ar, limpos e bons ou poluídos e ruins. De tanto respirarmos tal qualidade de ar nosso corpo irá, aos poucos, refletir a saúde desse respirar. É preciso limpá-lo continuamente já que o vento de fora trará sujeiras inevitavelmente, mas com dedicação é possível deixá-lo livre de elementos que contaminam o interior. Fechar as portas não será opção pois limitará a entrada de brisas suaves, de cheiros de flores e sons naturais, o segredo está na disciplina desta tarefa, mantenha-se continuamente atento às necessidades de limpeza de si mesmo, com todo o amor, já que a pessoa que habitará esse lugar, será sempre você



navegatatiana

segunda-feira, 26 de março de 2018

perfeito

“Não é só colocar dentro, é estar dentro! Das inseguranças, das incertezas, do medo de não dar certo. Não é só abrir as pernas, é abrir a alma, abrir o coração. Não é suar o corpo, puxar o cabelo, é puxar um sorriso, é dar um abraço, tocar o rosto, olhar nos olhos. Pois o prazer dura minutos, mas o carinho, o cuidado e o amor, esses duram uma vida inteira.”

domingo, 18 de março de 2018

levantar e seguir

Pode separar o lenço porque você vai chorar. ✨ É meu bem, algumas dores estão garantidas, comprovadas pela existência de uma casa 12 em seu mapa astral. Eu costumo chamá-la de “a cruz” já que a única opção será a de carregar. Posso abandoná-la? Você pode até tentar! Mas onde já se viu sofrimento, dor, uma ferida desaparecer da noite pro dia? Você pode disfarçar, fingir, mas quando uma música mais lenta tocar vai ser difícil segurar. Costumo ver a tristeza assim: ela é uma cruz, você vai ter que carregar por um determinado tempo, compreenda, e se precisar, perdoe quem a colocou em suas costas e comece a caminhar! Quando mais rápido você começar mais rápido chegará no fim! Como saberemos que chegou? Um belo dia você vai acordar e a dor não estará mais lá. O problema é se apaixonar pela cruz, procurar sofrimento, relembrar, buscar e estacionar com ela no colo sem forças para caminhar! Levante-se! Siga em linha reta, não olhe para trás, obviamente sua mente vai trazer memórias antigas durante o caminho, afinal é para isso que ela serve, senão nem dos nossos nomes lembraríamos, mas não pare, agradeça pela recordação que fará parte de sua história e continue, lá na frente, no amanhã, terá um lugarzinho especial para o descanso, a redenção, você estará mais forte e a madeira da cruz servirá de combustível para o fogo que afinal secará as águas que hoje sobram em seu coração. ❤️


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Contardo Calligaris: "Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante"

"Ter uma vida interessante significa viver plenamente. Isso pressupõe poder se desesperar quando se fica sem alguma coisa que é muito importante para você. É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do fracasso. Eu acho um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que é ruim."

por Dagmar Serpa/M de Mulher

Doutor em psicologia clínica e psicanalista, Contardo Calligaris estará na série especial do Fronteiras do Pensamento em Salvador no dia 01 de outubro. Último conferencista da edição 2015 na capital baiana, Calligaris argumenta que mais do que buscar permanentemente felicidade máxima, um arrebatamento mágico, deveríamos nos preocupar em tornar interessante nossa vida de todo dia. Confira na entrevista abaixo.

O que é felicidade hoje?
Não gosto muito da palavra felicidade, para dizer a verdade. Acho que é, inclusive, uma ilusão mercadológica. Oque a gente pode estudar são as condições do bem-estar. A sensação de competência no exercício do trabalho, já se sabe, é a maior fonte de bem-estar, mais que a remuneração. Nós temos um ideal de felicidade um pouco ridículo.

Um exemplo é a fala do churrasco. Você pega um táxi domingo ao meio-dia para ir ao escritório e o taxista diz: "Ah, estamos aqui trabalhando, mas legal seria estar num churrasco tomando cerveja". Talvez você ou otaxista sofram de úlcera, e não haveria prazer em tomar cerveja. Nem em comer picanha.

Mesmo que não vissem problema, pode ser que detestassem as pessoas lá e não se divertissem. Em geral, somos péssimos em matéria de prazer. Por exemplo, estamos sempre lamentando que nossos filhos seriam uma geração hedonista, dedicada a prazeres imediatos, quando, de fato, vivemos numa civilização muito pouco hedonista. Por isso, nos queixamos de excessos e nos permitimos prazeres medíocres ou muito discretos.

Mas continuamos acreditando que ser feliz é ter esses prazeres que não nos permitimos. E agora?
Ligamos felicidade à satisfação de desejos, o que é totalmente antinômico com o próprio funcionamento danossa cultura, fundada na insatisfação. Nenhum objeto pode nos satisfazer plenamente.

O fato de que você pode desejar muito um homem, uma mulher, um carro, um relógio, uma joia ou uma viagem não tem relevância. No dia em que você tiver aquele homem, aquela mulher, aquele carro, aquele relógio, aquela joia ou aquela viagem, se dará conta de que está na hora de desejar outra coisa. Esse mecanismo sustenta ao mesmo tempo um sistema econômico, o capitalismo moderno, e o nosso desejo, que não se esgota nunca. Então, costumo dizer que não quero ser feliz.. Quero é ter uma vida interessante.

Mas isso inclui os pequenos prazeres?
Inclui pequenos prazeres, mas também grandes dores. Ter uma vida interessante significa viver plenamente. Isso pressupõe poder se desesperar quando se fica sem alguma coisa que é muito importante para você. É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do fracasso. Eu acho um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que é ruim.

O que adianta garantir uma vida longa se não for para vivê-la de verdade? É isso que temos de nos perguntar?
Quem descreveu isso bem foi (o escritor italiano) Dino Buzatti, no romance O Deserto dos Tártaros. Conta a história de um militar que passa a vida inteira em um posto avançado diante do deserto na expectativa de defender o país contra a invasão dos tártaros, que nunca chegam. Mas tem um lado simpático na ideologia do preparo. É que está subentendida a ideia de que um dia a pessoa viverá uma grande aventura. Mas o que acontece, em geral, é que a preparação é a única coisa a que a gente se autoriza.

Então, pelo menos há um desejo de viver uma aventura?
Mas os sonhos estão pequenos. A noção de felicidade hoje é um emprego seguro, um futuro tranquilo, saúde e, como diz a música dos aniversários, muitos anos de vida. Acho estranho quando vejo alguém de 18 anos que, ao fazer a escolha profissional, leva em conta o mercado de trabalho, as oportunidades, o dinheiro... Isso nem passaria pela cabeça de um jovem dos anos 1960.

A julgar pela quantidade de fotos colocadas nas redes sociais de pessoas sorridentes, elas têm aproveitado a vida e se sentem felizes. Ou, como você aborda em uma crônica, hoje mais importante do que ser é parecer feliz?
O perfil é a sua apresentação para o mundo, o que implica um certo trabalho de falsificação da sua imagem e até autoimagem. Nas redes sociais, a felicidade dá status. Mas esse fenômeno é anterior ao Facebook. Se você olhar as fotografias de família do final do século 19, início do 20, todo mundo colocava a melhor roupa e posava seriíssimo. Ninguém estava lá para mostrar que era feliz. Ao contrário, era um momento solene. É a partir dacâmera fotográfica portátil que aparecem as fotos das férias felizes, com todo mundo sempre sorridente.

E a gente olha para elas e pensa: "Eu era feliz e não sabia".
Não gosto dessa frase porque contém uma cota de lamentação. E acho que a gente nunca deveria lamentar nada, em particular as próprias decisões. Acredito que, no fundo, a gente quase sempre toma a única decisão que poderia tomar naquelas circunstâncias. Então, não vale a pena lamentar o passado. Mas é verdade que existe isso.

As escolhas ao longo da vida geram insegurança e medo. Em relação a isso, você diz que há dois tipos de pessoa: os "maximizadores", que querem ter certeza antes de que aquela é a opção certa, e a turma do "suficientemente bom". O segundo grupo sofre menos?
Tem uma coisa interessante no "maximizador": é como se ele acreditasse que existe o objeto mais adequado de todos, aquele que é perfeito. Mas é claro que não existe.

A busca da perfeição não gera frustração, pois sempre haverá algo que a gente perdeu?
Freud dizia que o único objeto verdadeiramente insubstituível para a gente é o perdido. E não é que foi perdido porque caiu do bolso. Ele fala daquilo que nunca tivemos. Então, faz sentido que nossa relação com o desejo seja esta: imaginamos existir algo que nunca tivemos, mas que teria nos satisfeito totalmente. Só não sabemos o que é.

Como nos livrar desse sentimento?
Temos de tornar cada uma de nossas escolhas interessante. Isso só é possível quando temos simpatia pela vida e pelos outros - o que parece básico, mas não é no mundo de hoje. Não por acaso, o grande espantalho do nosso século é a depressão. A falta de interesse pelo mundo e pelos outros é o que pode nos acontecer de pior.

Complica ainda mais o fato de, como você já abordou, enfrentarmos um dilema eterno: desejamos a estabilidade e também a aventura. Então, entramos em uma relação ou um emprego, mas sofremos porque nos sentimos presos e achamos que estamos deixando de viver grandes aventuras. Isso tem solução?
Não sei se tem solução. A gente vive mesmo eternamente nesse conflito. Agora, como cada um o administra é outra história. Pode-se optar por uma espécie de inércia constante, que será sempre acompanhada dasensação de que você está realmente desperdiçando seu tempo e sua vida, porque toda a aventura está acontecendo lá fora e, a cada instante, você está perdendo os cavalos encilhados que passam e não passarão nunca mais. Viver dessa maneira não é uma das opções. Mas você pode também, em vez disso, permitir se perder.

Permitir se perder no sentido de transformar a vida em uma eterna aventura?
Mas também nesse caso você terá coisas a lamentar. Eu, pessoalmente, fui mais por esse caminho. Mas opreço foi muito alto. Por exemplo, eu não estive presente na morte de nenhum dos meus entes próximos, porque morava em outro país e sempre chegava atrasado, no avião do dia seguinte. Hoje, por sorte, meu filho - que é grande, tem 30 anos - vive perto de mim. Por acaso, ele decidiu vir para o Brasil. Mas não o vi crescer realmente.

Para ser feliz, enfim, o segredo é não buscar a felicidade?
Isso eu acho uma excelente ideia. A felicidade, em si, é realmente uma preocupação desnecessária. Se meu filho dissesse "quero ser feliz", eu me preocuparia seriamente.

Preferia que dissesse o quê?
Só gostaria que ele me dissesse: “Estou a fim de…" A partir disso, qualquer coisa é válida. O que angustia é ver falta de desejo nas pessoas, em particular nos jovens. Agora, se ele está a fim de algo, mesmo que isso pareça muito distante do campo do possível dentro da vida que leva, eu acho ótimo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

DIREITO À ESPERANÇA


Nunca vivemos crise igual! 
Algumas mentiras, insistentemente repetidas, viram verdades e se cristalizam como blocos de concreto, impedindo que o olhar avance para as infinitas possibilidades que se apresentam.
Então, acreditamos no Estado do bem estar social e canalizamos nossas crenças e energias para o mercado, solução de todos os males e cura para todas as injustiças?
Imaginamos que os esforços individuais enfrentariam com maestria os abismos da desigualdade, e nos elevariam aos templos do consumo e da saciedade que resolveriam as nossas angústias inexplicáveis?
Então explodimos o mundo em duas grandes guerras, assassinamos judeus, escravizamos pessoas, investimos em armas e repressão para garantir a ordem necessária à convivência pacífica?
Como vitória da nossa arrogância, matamos nossos deuses, desconstruímos nossas instituições e nossos muros, fragmentamos nossos valores e nos apropriamos das palavras “liberdade” e justiça”, como panaceia de todo o mal que continuamos a alimentar?
Na nossa casa, pactuamos consensos inexistentes e sepultamos a verdade na cova rasa da leniência com o arbítrio cometido, e do qual não deveríamos jamais ter esquecido?
Conseguimos, contudo, chegar até aqui. Diante desse complexo mar de contradições, precariedades, avanços e retrocessos, nada melhor para amenizar o nosso desamparo, do que escolher alguém ou alguma coisa que se responsabilize por nossos erros e acertos ao longo da história.
O personagem de Simone de Beauvoir, em “Todos os homens são mortais”, condenado à vida eterna, se entedia diante da dolorosa repetição da realidade. Nos raros momentos em que retoma o desejo, se encontra diante do afeto, tímida medicação que o permite tréguas na eternidade compulsória.
Vivemos sim, uma grave crise. Mas vivemos também tempos dignos de serem celebrados.
Com tantas notícias de corrupção entranhada na vida pública, vem também a afirmação da democracia, com o funcionamento das investigações e da Justiça.
Com a economia em frangalhos, há também a expectativa e a esperança de muitos, que há até poucos anos, nunca precisaram se ocupar de nenhuma crise porque eram invisíveis a ela e aos benefícios que a inclusão trouxe.
Mesmo com a incômoda sensação de instabilidade, ganhamos a liberdade para falar, ouvir e pensar, o que parece óbvio, mas não é pouco, se confrontado com nossa recente história.
Mesmo com as representações políticas em xeque, temos encontrado mecanismos para nos reunir coletivamente, nas cidades, nas comunidades, nos afetos e temos exercido, criativamente, nosso direito ao pertencimento.
O mundo nunca será perfeito. O Brasil nunca será perfeito. Nós nunca seremos perfeitos. Melhor ou pior dependerá da utopia que desejamos.
A ingenuidade não é o desejo de esperança, mas a escolha do lugar onde a depositamos.
Pode ser tão ingênuo continuar acreditando na capacidade do ser humano para se reinventar e celebrar o bem que conseguimos até aqui, quanto imaginar que destruindo um partido ou criminalizando a política, chegaremos ao paraíso.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Sangue negro



Não que o Brasil precise de mais um feriado, mas é significativo que 13 de maio esteja fora das "datas nacionais". Pouco celebramos aquele dia de 1888 em que, com vergonhoso atraso, aboliu-se a escravidão. Ela é a nossa tragédia maior e, paradoxalmente, também a nossa glória, pois não seríamos nada, em qualquer aspecto, sem a presença africana. 

A antropóloga Lilia Schwarcz, que está lançando com a historiadora Heloisa Starling o livro "Brasil: Uma Biografia", relatou nesta Folha a indignação que sentiu ao ouvir pessoas, após uma sessão do filme americano "12 Anos de Escravidão", dizerem coisas como "que bom que no Brasil não foi assim". 

Por desconhecimento ou má-fé, encampamos falácias como as de que a ditadura militar não foi tão dura quanto de fato foi e que a corrupção é obra de alguns malfeitores --e não uma chaga que está no DNA do país e que praticamos no nosso cotidiano. 

Entre os séculos 16 e 19, chegaram ao Brasil, em navios negreiros, 4,8 milhões de seres humanos escravizados --e outros 300 mil morreram nas viagens. A fantasia de uma boa convivência entre casa-grande e senzala e o consequente mito da democracia racial não resistem aos fatos nem a um mínimo de inteligência. 

Cegos para a verdade, banalizamos a brutalidade. Pesquisa divulgada no dia 7 --por Unesco, governo federal e Fórum Brasileiro de Segurança Pública "" aponta que jovens (12 a 29 anos) negros são duas vezes e meia mais vítimas de homicídios do que os brancos. O último Mapa da Violência, com dados de 2010, mostra que são negros 75% dos jovens que tiveram morte violenta. 

E ainda há o quartinho de empregada, a entrada de serviço, a roupa branca das babás, os salários menores... Pode ser que falte festa para o fim da escravidão porque ela ainda não acabou de fato.

domingo, 5 de abril de 2015

Por um novo pacto civilizatório nas redes

Por Rita Almeida

Em algum momento, no inicio da constituição da comunidade humana, tivemos que fazer um pacto civilizatório. Como bem disse Freud, tivemos que recalcar nossos impulsos mais primitivos, perversos e egoístas em nome da convivência coletiva. Então, desde o início, mesmo com todos os equívocos que invariavelmente cometemos na nossa frágil condição humana, temos optado pelo amor, pelos laços que nos unem numa coletividade. Apesar de não sabemos até quando, é assim que nossa espécie tem sobrevivido até então. 

Fico pensando que o advento da Internet, especialmente das redes sociais, tem nos colocado diante de uma nova forma de laço social diferente da que estávamos acostumados e daí, talvez, a sua fragilidade. A mediação tecnológica, já percebemos, dificulta a empatia. A comunicação pela escrita tende a ser mais fria. Ficam imperceptíveis a entonação da voz e a linguagem corporal o que faz com que os mal entendidos próprios da linguagem se fixem ainda mais no território do impossível de suportar o outro na sua diferença. Enquanto que o cara-a-cara e o olho-no-olho ou as nuances da voz favorecem a empatia fazendo do outro um semelhante mesmo quando diz algo que me causa mal estar, a impessoalidade de um post ou um tuíto transforma o outro num estranho insuportável. Ou não é verdade que seja totalmente possível e suportável discutir política, religião e outros assuntos difíceis na mesa do bar, na sala de aula ou na reunião de trabalho e totalmente inviável discuti-los nas redes?

Outra coisa que muita gente ainda não se deu conta é que publicar alguma coisa nas redes sociais hoje em dia é enviar uma mensagem para o Planeta inteiro ouvir. Mesmo sentadinhos e protegidos atrás de nossas telas de computador e smartfones, o que dizemos na esfera virtual tem mais transparência, rapidez e capacidade de alcance que qualquer outro modo de comunicação que já foi inventado. Uma publicação irrefletida pode nos levar do constrangimento público ao linchamento virtual. 

Isso não quer dizer que as redes sociais e a internet sejam o demônio. Não sou partidária dos melancólicos nostálgicos que sempre temem os novos modos de existência. As novas formas de laço inauguradas pelas redes são uma realidade e, possivelmente, vieram para ficar, entretanto, elas estão exigindo de nós um novo pacto civilizatório. E precisamos fazer isso com urgência, sob o risco do esgarçamento do tecido social com a fabricação cada vez maior de guetos: políticos, religiosos, científicos ou ideológicos. Pois, na tentativa de manter um nível suportável de socialização nas redes, nossa saída tem sido o simples descarte do outro.

Enquanto na vida real o exercício de suportar o outro inclui não poder mata-lo, nas redes sociais matar o outro é tarefa simples e limpa, sem qualquer punição. “Unfollow”, “unblock” e “desfazer a amizade” são formas de eliminar o outro da nossa linha do tempo, mecanismos simples e rápidos que temos utilizado para lidar com os diferentes. Diante do impossível de transigir com o outro na sua diferença a saída tem sido apagá-lo simplesmente, nos relacionando apenas com aqueles que pensam como nós. É assim que os guetos das redes vão se constituindo e se fortalecendo, e não havendo discursos contraditórios, suas verdades vão se tornam ainda mais unificadas, fortes e inabaláveis. E ainda, insuflados pelo nosso narcisismo, pelo prazer de encontrarmos pessoas parecidas conosco e que pensam como nós, nos fechamos cada vez mais em nossos grupelhos com suas verdadezinhas inabaláveis. 

Como já dizia o poeta: “toda unanimidade é burra”. E eu completo: todo fundamentalismo é perigoso. Nada é mais perigoso do que um grupo de pessoas munidas de verdades compartilhadas e inabaláveis. 

Sendo assim, é urgentemente que façamos um novo pacto civilizatório para as redes. Precisamos resgatar a humanidade, nossa e do outro, por traz de um post. Precisamos cuidar do que postamos para não destruir pessoas, reforçar mentiras ou contribuir para linchamentos. Precisamos entender que um post é apenas um recorte de um sujeito, não diz tudo sobre ele. Precisamos aprender a suportar a diferença, escutar o contraditório, debater sem atacar. Escutar. 

A política do amor, aquilo que nos enlaça enquanto espécie humana é o que nos tem sustentado. O amor é um ato político, sem o qual já teríamos sucumbido. O salto evolutivo que precisamos nesses tempos, talvez seja, levar a política do amor também para as redes.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Um natal sem hipocrisia !

guilherme boulos


Hoje é Natal. Quase um terço da população mundial celebra o nascimento de Jesus Cristo. Só no Brasil são mais de 160 milhões de cristãos. A data, é verdade, tornou-se mais que tudo um grande evento comercial, mas vale a pena aproveitarmos a ocasião natalina para uma breve reflexão.

Jesus Cristo, do modo como nos apresenta a Bíblia, não era um apologeta da ordem e da tradição. Enfrentou os poderosos de seu tempo e defendeu ideias que a consciência dominante não podia admitir.

Não por acaso morreu na cruz, depois de perseguido, preso e torturado. Como gosta de lembrar Frei Betto, Jesus não morreu de hepatite na cama nem atropelado por um camelo em alguma esquina de Jerusalém. Morreu como preso político nas mãos do prefeito Pôncio Pilatos e dos sacerdotes judeus. Isso, as escrituras nos dizem.

Nos falam também sobre as razões que fizeram de Jesus tão odiado pelos poderosos. Defendeu a igualdade e os mais pobres, condenando aqueles que se apegavam demais às riquezas: "É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus" (Mateus 19, 24).

Defendeu a divisão dos bens, como signo da igualdade social: "Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos" (Lucas 1, 53). E assim o fez, partilhou o pão e os peixes entre todos (Marcos 6, 41).

Jesus enfrentou também decididamente os preconceitos, como mostra o caso bíblico da mulher samaritana (João 4, 1-42). Acolheu os marginalizados (Marcos 7, 31) e foi misericordioso com as prostitutas (Lucas 7, 36-50). Combateu o ódio e a intolerância.

Hoje, 2.000 anos depois, nosso mundo permanece profundamente desigual. Os 2% mais ricos da população mundial detêm mais da metade de todas as riquezas, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 1%. Os donos do poder, via de regra, continuam atuando para manter esta estrutura de privilégios e reprimir o povo quando ousa enfrentá-la.

Muitos dos que hoje se dizem cristãos consideram a desigualdade como fato imutável e a legitimam pelo discurso hipócrita da meritocracia. Sem falar no ódio e na intolerância. Defendem o linchamento público de "marginais", silenciam com cumplicidade ante a chacina da juventude negra nas periferias, ofendem homossexuais e toleram a agressão a mulheres.

Jesus dedicou sua vida à igualdade, justiça e paz entre os povos. Se reaparecesse em 2014, no Brasil, ficaria espantado com o que dizem e fazem muitos dos cristãos. Seria achincalhado com palavras inomináveis nas seções de comentários da internet. Seria chamado de bolivariano na avenida Paulista. Certa comentarista de telejornal o mandaria levar para casa a mulher adúltera que ele salvou do apedrejamento. E alguém, de dentro de algum carro no Leblon, gritaria a ele: "Vai pra Cuba, Jesus!".

Uma coisa é certa. O Jesus de que a Bíblia nos conta, se vivesse hoje, estaria ao lado dos direitos sociais e humanos. Estaria com os sem-teto e os sem-terra, com os negros, as mulheres violentadas e os homossexuais vítimas de preconceito. Estaria com os imigrantes haitianos e defendendo –como o papa Francisco– o fim do vergonhoso embargo a Cuba.

Talvez fosse preso e torturado, do mesmo modo que milhares de brasileiros que não há muito lutavam por igualdade e justiça. Seria sem dúvida crucificado, desta vez não pelas autoridades romanas e os sacerdotes judeus, mas crucificado moralmente por muitos dos cristãos que, em seu nome, insistem em combater tudo aquilo que ele defendeu.

Dizem que o Natal e a passagem de ano são momentos para reflexões e mudanças. Assim seja. Esperamos que muitos dos que partilham da fé cristã possam aproveitar a oportunidade natalina para inspirarem-se mais no exemplo de seu mestre.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Reformar o pensamento é a grande tarefa na contemporaneidade

É preciso aprender a pensar, diz Nietzsche no final do século XIX, pensar é uma atividade que exige aquisição de uma técnica, assim como na dança. É preciso aprendê-la, exercitá-la, até adquirir a sofisticação de um mestre, de um bailarino. Nas escolas, e até mesmo nas Universidades, ninguém tem ideia do que isso seja.

Retomar a potência criativa do pensamento é o alvo, resgatar o prazer de ver uma questão a partir de diferentes perspectivas, de olhá-la cuidadosamente, perceber o que manifesta e o que oculta, onde se desdobra, antes de emitir um valor. Em vez disso, como franco-atiradores, lançamos juízos rasos e maniqueístas sobre o mundo, o outro, nós mesmos, a vida, e nos tornamos as maiores vítimas destas avaliações.

A função do pensamento deve ser sempre afirmar a vida, potencializá-la, por isso a vida deve ser o único critério para a aquisição de conceitos e valores: que importância este saber, este conteúdo tem para a vida, de que modo nos faz viver melhor?

Trechos do livro “O Homem que sabe- Do homo sapiens à crítica da razão” de Viviane Mosé.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Relato indignado: Mesmo com os rapazes pagando a refeição do morador de rua, gerente do restaurante o agride

Parabéns, Thiago.

"Não frequentem o Pigalle Restaurante em Copacabana!




Vi uma covardia muito grande acontecer lá, e logo depois um dos maiores gestos de humildade que eu já vi na minha vida.

Esse lugar tem um rodízio de petiscos na avenida atlântica, em frente a praia de Copacabana.
Depois de sair ali de ipanema eu e um amigo resolvemos comer por lá. Ele já tinha ido e é um rodízio bom e barato.

Sentamos e começamos a comer. Comida pra caramba em cima da mesa.
De repente aparece uma pessoa em situação de rua e pede, com licença, se podíamos dar alguma comida pra ele.
Não pediu dinheiro, pediu "qualquer coisa daquela mesa, já que não iamos comer tudo"
Ok, resolvemos dar comida pra ele. Mas o gerente se meteu no meio e não deixou. Disse que se déssemos a comida teríamos que pagar outro rodízio, afinal é por pessoa o preço.
Ele viu, mas continuou pedindo, afinal estava com fome.
O gerente disse "vamos ali atrás que eu te dou um prato de comida"

Ele voltou assustado e dizendo que na verdade o gerente queria enfiar a porrada nele.
Não tinha mais o que fazer. Enchemos um guardanapo e iamos dar a carne pra ele.
Quando de repente o filho da puta do gerente pega o cara num mata leão e o derruba no chão, quase batendo com a cabeça num vaso de plantas.
Eu e meu amigos ficamos sem reação, só olhamos e começamos a gritar coisas do tipo "que isso cara, ta maluco?", "solta ele porra!!".

Ele soltou o esfomeado que ficou ali no chão, humilhado, olhando de lado pra gente com um olhar triste pra caramba, misturado de fome com humilhação.
Não tinha como ele não comer. Ele ia comer, agora era uma questão de honra.
Isso porque ele ficou com medo de irmos até a delegacia prender o gerente por agressão. Disse que tinha medo.
Resolvemos fazer o seguinte.
Chamamos ele pra sentar na nossa mesa e pagamos o rodízio e guaraná dele. Assim o gerente ia ter que respeitar, era um cliente como qualquer outro.

Mesmo assim ainda continuou sofrendo preconceito. Ele tentou ir ao banheiro e foi barrado. Estávamos sentados na "varanda" e o banheiro ficava na parte de dentro, com ar condicionado e pessoas "ricas" comendo. Acho que não queriam um negro, pobre e morador de rua ali dentro.

Ele voltou e dessa vez foi no banheiro comigo. Quando eu abri a porta ninguém tentou segurar. Ninguém tentou impedir. Só olhavam torto pra mim com aquela cara de burguês incomodado de ter que jantar no mesmo lugar que um pobre. Com aquela cara de nojo.
Fiz questão de ir bem devagarzinho.

Depois de usar o banheiro voltamos pra mesa. Ele ainda estava com muita raiva, levantou com uma faca na mão e chamou o gerente pra brigar com ele. Mas logo viu que tava fazendo besteira com raiva e largou a faca e sentou de novo.

Pedimos pra ele não fazer isso de novo, que mesmo estando com a razão isso poderia dar merda pra ele.
Não deu outra, chamaram a polícia.

O PM chegou no restaurante já indo em direção a nossa mesa, mas no meio do caminho um gringo já levantou e começou a defesa do Piauí (chamando assim pois é de onde ele disse que veio, mas seu nome é Clarindo). Disse num portunhol todo enrolado que o gerente tinha batido nele.

O policial veio perguntar se ele estava nos incomodando. Dissemos que se alguém estava incomodando ali era o gerente, e que se fosse pra levar alguém ele que teria que ser levado, por agressão.

O PM foi embora, continuamos comendo, e aí eu vi uma das coisas mais bonitas da minha vida.
O cara levantou e chamou o gerente de novo
"Aê irmão, vamos conversar..."
Foi na direção dele. Pensei "fudeu, ele não vai se controlar"

Eis que de repente ele estende a mão, aperta a mão do cara que agrediu ele, dá um abraço e diz "Eu te perdoo"
Depois dessa, o cara me quebrou. Quase chorei ali sentado na mesa perante tamanha humildade de uma pessoa.
Acho que agora entendo pq chamam pobre de humilde.

NÃO COMAM NESTE LUGAR!
NÃO SEI O NOME DO GERENTE. NÃO INTERESSA TAMBÉM."



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Chora por Mandela, mas acha um absurdo pobre querer os mesmos direitos


Precisamos de mais pessoas como Mandela.

Pessoas que são capazes de usar a força quando necessário e adotar uma atitude conciliadora quando preciso. Mas que não descartam qualquer uma das duas acões políticas.

Por conta da morte de Mandela, estamos sendo soterrados por reportagens que louvam apenas um desses lados e esquece o outro, como se as folhas de uma árvore existissem sem o seu tronco e os galhos. O apartheid não morreu apenas por conta do sorriso bonito e das falas carismáticas do líder sul-africano, mas por décadas de luta firme contra a segregação coordenada por uma resistência que ele ajudou a estruturar.

É fascinante como regimes execrados pelo Ocidente foram, muitas vezes, os únicos que estenderam a mão a Mandela e à luta contra o apartheid. E como, décadas depois, muitos países prestam suas homenagens a ele, sem um mísero mea culpa por seu papel covarde durante sua prisão. Ou, pior: como veículos de comunicação desse mesmo Ocidente ignoram a complexidade da luta de Mandela, defendendo que o pacifismo foi o seu caminho.

Desculpem, mas a necessária conciliação para curar feridas ou a tolerância são diferentes de injustiça. E ser pacifista não significa morrer em silêncio, em paz, de fome ou baioneta. A desobediência civil professada por Gandhi é uma saída, mas não a única e nem cabe em todas as situações em que um grupo de pessoas é aviltado por outro.

“Eu celebrei a ideia de uma sociedade livre e democrática, na qual todas as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver e o qual espero alcançar. Mas, se for necessário, é um ideal pelo qual estou pronto para morrer'', disse ele, ao ser condenado a 27 anos de prisão.

As histórias das lutas sociais ao redor do mundo são porcamente ensinadas. Ao ler o que os jovens aprendem nas carteiras escolares ou no conteúdo trazido por nós jornalistas, fico com a impressão que a descolonização da Índia, o fim do apartheid na África do Sul ou a independência de Timor Leste foram obtidas apenas através de longas discussões regadas a chá e um pouco de desobediência. Dessa forma, a interpretação dos fatos, passada adiante, segue satisfatória aos grupos no poder.

Muitos que hoje lamentam por Mandela detestam manifestações públicas e mudanças no status quo.

Adoram um revolucionário quando este é reconhecido internacionalmente e aparece em estampas de camisetas, mas repudiam quem ocupa propriedades, por exemplo, “impedindo o progresso''.

Leio reclamações da violência de protestos quando estes vêm dos mais pobres entre os mais pobres – “um estupro à legalidade” – feitas por uma legião de pés-descalços empunhando armas de destruição em massa, como enxadas, foices e facões. Ou contra povos indígenas, cansados de passar fome e frio, reivindicando territórios que historicamente foram deles, na maioria das vezes com flechas, enxadas e paciência. Ou ainda professores que exigem melhores salários e resolvem ir às ruas para mostrar sua indignação e pressionar para que o poder público mude o comportamento. Todos eles são uns vândalos.

Daí, essa pessoa que ama Mandela, mas não sabe quem ele é, pensa: poxa, por que essa gente maltrapilha simplesmente não sofre em silêncio, né?

Muitas das leis criticadas em protestos e ocupações de terra ou mesmo no apartheid não foram criadas pelos que sofrem em decorrência de injustiça social, mas sim por aqueles que estavam ou estão na raiz do problema e defendem regras para que tudo fique como está. Nem sempre a legalidade é justa. E essa frase assusta muita gente.

Mandela é a inspiração. Com ele, é possível acreditar que manifestações populares e ocupações resultem nos pequenos vencendo os grandes. E, com o tempo, os rotos e rasgados sendo capazes de sobrepujar ricos e poderosos.

Por isso, o desespero inconsciente presente em muitas reclamações sobre a violência inerente ou involuntária desses atos. Ou na tentativa de reescrever a história editando aquilo que não interessa.

Enquanto isso, mais um indígena foi morto no Mato Grosso do Sul. Mas tudo bem. Devia ser apenas mais um vândalo, não um homem de bem como Mandela.

Enfim, precisamos de mais pessoas como Mandela. Pois os bons do século 20 estão morrendo antes que realmente entendamos suas mensagens.

sábado, 30 de novembro de 2013

Esquerda X Direita: o nobre e o ressentido



Por um bom tempo entre as mensagens e material visualizados por mim em facebook predominaram os compartilhados por simpatizantes de esquerda, conhecidos e amigos vinculados a movimentos sociais e vários educadores populares, seguidores dos ensinamentos do filósofo e pedagogo Paulo Freire. Provavelmente por conta dos desdobramentos dos movimentos de junho, este pessoal tornou-se mais silencioso. Creio que estejam por demais ocupados com as atividades práticas exigidas pela educação popular neste momento histórico tão importante. 

Ultimamente, a orientação se inverteu e os simpatizantes de direita têm se manifestado mais. Na verdade, eles parecem estar gritando bastante... E eu achei até interessante prestar atenção ao que eles dizem. Apesar de não ter nenhuma simpatia pela direita, entendo que meu papel como filósofa – que é o que eu tenho me esforçado para ser –, não é exatamente defender esta ou aquela tendência, mas antes tomar contato e compreender as várias perspectivas próprias de um fenômeno em estudo, no caso os movimentos políticos contemporâneos. 

Filósofo não é ideólogo, ou pelo menos não deveria agir como tal. A paixão de um filósofo antes deve ser (entendo eu) o processo de questionamento, reflexão, compreensão e síntese em busca de verdades que são utopias no horizonte. Então, importa ouvir o que os lados opostos dizem. E daí, como chaves de interpretação do que eu tenho observado, me vêm dois conceitos de Nietzsche: o de ressentimento e o de nobreza.

Enquanto a esquerda parece empenhada em estudar e trabalhar pela mudança social (e não digo que façam isso da melhor forma, pois para afirmar tal coisa seriam necessárias muitas e muitas considerações) a gritaria da direita se resume a escárnio, xingamentos, disseminação de preconceitos e ódio. Pelo menos é isso o que eu tenho visto.

Se ideologias conflitantes são conjunto de ideias desarmônicas entre si, então seria de se esperar um debate de ideias entre os envolvidos para o benefício de todos. Mas a contribuição dos intelectuais de direita (e ai me refiro aos acadêmicos) também vem se resumindo a manifestações reacionárias, que não contribuem com nada além de disseminação de ódio e preconceito. A contribuição desses intelectuais tem se resumido a apontar o dedo para o outro com a máxima soberba e fazer julgamentos negativos sobre fundamentos que eles mesmos não explicam (se é que realmente existem e se justificam).

Lugar comum é afirmar que a direita se ressente, egoisticamente, contra aqueles que ameaçam suas posses e privilégios supérfluos. E fico eu procurando o que contrarie esta tese, talvez simplista... E não encontro. A direita dirige seus discursos inflamados, frequentemente de baixíssimo nível, contra o Lula, contra a Dilma, contra o PT. E ignora que o PT está no poder há pouco mais de uma década, enquanto o país tem problemas seculares. 

Então, a categoria do ressentido parece fazer sentido. Ressentimento pelo avanço do outro que lhe ameaça as posses e privilégios e, não duvido, ressentimento contra si mesmo, contra as próprias origens e fragilidades neste mundo de instabilidades e incertezas. Assim, escondem-se por trás da soberba e do ódio e perdem a chance de alcançar o estado de nobreza.

Para Nietzsche o nobre é um conquistador que vence o outro e as próprias limitações num processo de constante superação. Porém, a nobreza mais elevada é aquela que transborda e, assim, acaba por beneficia os não nobres, os vencidos, os deserdados... E transborda ao culminar com o não contentamento com o que é mesquinho e baixo. Um nobre não pode conviver com a miséria de seus subalternos, pois esta daria testemunho da sua insuficiência como provedor daqueles que o rodeiam. O nobre também se orgulha de prover a todos.

Não me lembro de exemplos reais desse transbordamento de nobreza por parte da direita. Me lembro de nazismo, fascismo, totalitarismo... Formas de controle que também os regimes de esquerda exerceram... E aí as elites das duas tendências, em situações extremas, se equiparam... Na prepotência de ignorar perspectivas contrárias e visualizar onde está o que beneficia o máximo de indivíduos, independentemente de disputas ideológicas. Ideologias são para serem transcendidas.

Enquanto os homens não se tornarem apaixonados pela busca por aquilo que beneficie toda a humanidade e não primeiramente seus próprios interesses e egos, a humanidade continuará envolvida em conflitos vãos e gritarias de baixo nível. Me parece que a esquerda percebe isso melhor do que a direita. Até onde eu posso ver, nos dias de hoje, quando a esquerda se manifesta com ódio é porque não lhe restou outra opção.

Via:http://claro-escuro.blogspot.com.br/2013/11/esquerda-x-direita-o-nobre-e-o.html#comment-form

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Façamos pouco pelos moradores de rua

Às vezes estão lendo um desses jornais distribuídos gratuitamente na rua (sim, eles querem saber o que rola no mundo). Às vezes ganham um café quente de moradores ou transeuntes

Taísa, Tiago e seu Francisco. Taísa abraça Bob, cachorro que um dia já foi também um morador de rua na região da Avenida Paulista.


Fabiana Motroni na Carta Capital

Bom dia pra você que amanheceu de mau humor porque está fazendo 15 graus em plena primavera paulistana.

A Taísa, o Tiago e o seu Francisco também amanheceram nessa mesma São Paulo. Eles são meus vizinhos aqui na Paulista, mas, diferente de mim, não dormem dentro de um apê quentinho. Eles dormem ao relento numa esquina, na frente de um Mc Donald's. São moradores de rua na avenida mais importante da cidade.

Mesmo assim, toda manhã, não importa se quente ou fria, eles acordam de bom humor. Sorriem pra mim, me dão bom dia, e fazem festa com o Bob, meu cachorro. Às vezes estão lendo um desses jornais distribuídos gratuitamente na rua (sim, eles lêem e querem saber o que rola no mundo). Às vezes ganham um café quente de moradores ou transeuntes (sim, eles tomam café da manhã). Mas às vezes só estão olhando para as milhares de pessoas que andam pela avenida, contabilizando quantas delas os enxergarão de verdade, quantas os olharão como se fossem apenas paisagem (sim, eles existem, e sentem).

Quando paro pra conversar com eles, algumas dessas pessoas me olham, incomodadas. Tanto as que vão e vem, quanto as que trabalham nos prédios ao lado. Incomodadas por eu atravessar a faixa imaginária que separa esses moradores de rua da sua humanidade, diariamente negada, faixa metafórica e conveniente que separa pessoas por suas supostas relevâncias humanas. Incomodadas porque se eu falo com um morador de rua, é porque ele é visível, então o incomodado se sente despido na sua farsa do não-enxergamento.

Me lembro de uma entrevista que Lino Bocchini fez tempos atrás com um grupo de ativistas contra o sexismo na mídia, do qual faço parte, onde nos perguntava porque o 'militante' incomoda tanto. "Porque a gente obriga algumas pessoas a se repensarem, a reverem suas posições, saírem da inércia, e mudar incomoda... porque a gente insiste em lembrar de coisas que todo mundo tenta desesperadamente esquecer, mas que todos sabem, no fundo, que são as coisas certas a serem feitas."

É muita coisa a ser feita pra mudar a situação de moradores de rua --- ou 'pessoas em situação de rua', como são eufemisticamente classificados. E já tem muita gente boa, tanto na sociedade civil organizada quanto no governo, agindo para mudar isso, trabalhando em soluções a médio e longo prazo. Podemos nos juntar a elas. Mas individualmente também podemos fazer um pouco. Podemos ao menos reconhecer as suas existências, respeitar suas presenças no local que ficam ou dormem, tratá-los com afeto, saber seus nomes, ajudá-los pontualmente quando possível.

Isso é muito pouco e muito fácil de ser feito por quem tem onde dormir todo dia. Mas é muito, muito, para a auto-estima e a dignidade da Taísa, do Tiago e do seu Francisco. É o suficiente para fazê-los acreditar em mudanças e em dias menos frios. E é o bastante para fazê-los sorrir todo dia.
Façamos pouco.

Era 7 de outubro

Larissa Acosta - Melocotón

Aquele som invadia minha sala. Tomava o lugar de uma monotonia habitual, que costumava preencher os espaços entre mesas, cadeiras, computadores e cabeças.

Aquelas vozes batiam com fervor às janelas fechadas das margens verticais da Avenida Presidente Vargas. Elas clamavam pelo silêncio conformado de todos nós.

Porém, já eram 18h. Arrumei minhas coisas e levantei.

De saída, vi que as pessoas compartilhavam sua preocupação sobre como voltariam para casa. Ninguém parecia escutar o que diziam as vozes da rua. O canto que vibrava o ar frio daquele início de noite era ali só mais um barulho da cidade.

Eu estava no hall, encarando aquelas portas de madeira, esperando que uma se abrisse e me levasse direto ao fim do expediente de mais um dia de trabalho. Mas aqueles gritos haviam me seguido. Atravessaram portas e paredes e também minha pele e ossos. Ecoavam dentro de mim. Aflita, entrei no elevador.

A rua estava repleta de pensamentos e palavras. Enquanto caminhava contra aquela corrente de gente, quis me deixar levar a maior parte do tempo. Olhar para aqueles olhos sedentos de solidariedade era como encarar um espelho: eu tampouco entendia porque não me juntava àquela massa cidadã.

Decepcionada, segui meu rumo. Sabia que mais tarde aquelas pessoas teriam que encarar a PM e suas armas, que ferem o corpo e a dignidade de quem luta pelo coletivo (e isso inclui os próprios policiais). Mas continuei dando, um a um, meus passos egoístas em direção à Estação Uruguaiana.

Entrei no metrô. O som ali não tinha a solidez das ruas: eram fragmentos individuais, dispersos, pessoais. Eram muitas pessoas, mas apenas pessoas. Sem força, sem união, ligadas apenas pelo desejo de chegar logo a suas casas. E ali estava eu.

Sentei triste e acanhada no trem. Empunhei minha educação e escrevi, li e me informei. Lembrei-me de cada palavra de progresso, cada lição que já levei das salas de aula por onde passei, de todo o esforço e nobreza daqueles que dedicam a vida a construir uma sociedade melhor.

Meu grito não havia se juntado ao dos professores naquela noite. Mas ali, no meio daquelas dezenas de pessoas que acompanhavam o balanço do vagão, eu me importava. Eu pensava e refletia.

E novamente, aquelas vozes invadiram o espaço. Dessa vez, porém, emanavam silenciosamente de dentro de mim.

Com a culpa dos omissos pesando sobre meus ombros, me escorei na janela escura do trem. Sentada, adormeci.

Via:http://mariadapenhaneles.blogspot.com.br/

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

'Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível' . Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado sobre 'invisibilidade pública'

'Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível'

Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da 'invisibilidade pública'. Ele ...comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.

Plínio Delphino, Diário de São Paulo.

O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa. Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:

'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o pesquisador.

O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz.

No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

O que você sentiu na pele, trabalhando como gari? Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.

E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivessepassando por um poste, uma árvore, um orelhão.

E quando você volta para casa, para seu mundo real? Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você estáinserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa.

Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe.

Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo
nome.

São tratados como se fossem uma 'COISA'
 
Via:http://blogdocappacete.blogspot.com.br