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sábado, 8 de setembro de 2018

O holocausto cobrado pelo neoliberalismo

Por Roberto Amaral, em seu blog:


A destruição do Museu Nacional não foi um acidente, mas um crime doloso: pensado, calculado, planejado, executado com precisão. É o holocausto cobrado pelo neoliberalismo.

Tragédia anunciada como outras que estão a caminho (e a próxima vítima pode ser o Arquivo Nacional), resultou, fundamentalmente, da política conservadora, regressiva, dita de austeridade, que, sem apoio na soberania popular, impôs ao País o corte dos gastos públicos, medida estúpida que impôs à Universidade brasileira, ao ensino e à pesquisa, à tecnologia e à inovação, à cultura e à educação de um modo geral, a mais cruel das dietas orçamentárias de que se tem notícia, determinando a suspensão de projetos de ensino e pesquisa, o cancelamento arbitrário de investimentos em instalações e equipamentos desprovidos de manutenção e condenados à obsolescência.

Esse incêndio é a materialização da Emenda Constitucional 95, uma negociação entre um presidente ilegítimo e um Congresso carente de legitimidade que, não obstante, determina o congelamento das despesas públicas por 20 anos.

Essa política, em nome de ‘ajustes fiscais’, corta projetos de pesquisa em áreas críticas para a vida nacional como saúde e biotecnologia, e bolsas de estudo, no Brasil e no exterior, ameaçando de colapso os programas de formação de nossos cientistas, professores e pesquisadores.

Em nome e a serviço dessa emenda, a súcia que nos governa trava o desenvolvimento nacional. Enquanto em todo o mundo a ciência e a aplicação tecnológica avançam dominando a produção e estabelecendo novos padrões de vida social, o Brasil, por força dessa política, opta pelo atraso.

Amanhã não haverá mais como compensar o tempo perdido.

Nem o ainda presidente, nem o ex-ministro Meireles (representante da banca internacional no governo e idealizador da emenda), nem ninguém, ignora as consequências dessa política. Ao contrário, prelibaram seus efeitos, e podem comemorar a marcha a ré que estamos dando, trocando progresso por atraso, avanço por recuo, riqueza por pobreza.

Este é, aliás, o ponto comum das políticas dependentistas das direitas antinacionais, primas do fascismo que, com sua ajuda, nos bate à porta. O discurso protofascista de ódio à cidadania, à cultura e à inteligência é bastante claro e, se assusta o brasileiro médio, faz o encanto da grande burguesia e do mercado.

Deu no que deu.

Quando assumi o comando do Ministério da Ciência e Tecnologia, em 2003, no primeiro governo Lula, encontramos na mais critica das situações o acervo científico, de particular o patrimônio documental, e nessa contingência o CNPq, dirigido por Erney Camargo, emérito pesquisado, organizou uma comissão, presidida pelo seu vice-presidente, professor Manuel Domingos Neto que, além de levantar o quadro crítico da preservação do patrimônio científico, conseguiu salvar as Bibliotecas do Instituto Artur Ramos e da Faculdade de Medicina da Bahia, a mais antiga do país, e o precioso acervo do DNOCS, em Fortaleza.

Dessa experiência resultou o primeiro Edital do CNPq voltado para custear a preservação de acervos, que, do contrário, teriam o mesmo destino do acervo do Museu Nacional. Enfrentávamos então a ressaca do governo FHC, que esvaziara a Universidade brasileira e, insaciável, reduzira sensivelmente as verbas do programa espacial, exatamente às vésperas do seu terceiro ensaio de lançamento (frustrado) do VLS, sigla de Veículo (foguete) Lançador de Satélites (um projeto de muitos nos da Aeronáutica), hoje abandonado.

A dieta de recursos deu no que deu, a saber, no desastre que destruiu foguete e plataforma de lançamento e ceifou a vida de 21 cientistas brasileiros. Presentemente, o governo que ainda ai está, negocia a cessão de nossa base de lançamentos de Alcântara (CLA) com os EUA, que dela não precisam, mas, tendo-a, nos impedem de tê-la.

Na contramão de seu antecessor, entendendo essa área como um dos motores insubstituíveis do crescimento nacional, Lula impediu o contingenciamento dos recursos destinados à Ciência e Tecnologia.

O desapreço de nossa classe dominante pelas coisas da cultura, o tratamento conferido à educação, à memória nacional, vêm de longe, e são responsáveis pelo quadro de hoje, caracterizado pelo descaso com as políticas de preservação do patrimônio histórico e científico.

Esse desapreço (que a política de austeridade neoliberal leva ao paroxismo) se reflete na política orçamentária da União. Nos últimos anos verifica-se a drástica redução dos recursos destinados à Ciência e à Tecnologia.

Sirva a consumação da tragédia como um grito de advertência, dizendo à sociedade brasileira que, se não mudarmos essa política, se não proclamarmos um não bem forte ao desmonte do Estado brasileiro, muitas outras tragédias ocorrerão e mais profundo será o gap tecnológico nos separando das sociedades industrializadas.

Segundo a Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados, os valores recebidos pelo Museu Nacional caíram de 979 milhões de reais em 2013 para 98 milhões de reais em 2018. A mesma dieta foi imposta à Universidade Federal do Rio de Janeiro, à qual o Museu está/estava ligado. Seu orçamento caiu de 500 milhões de reais em 2013 para menos de 100 milhões em 2018.

Consequência dos cortes geométricos, burros e cegos, que não consideram prioridades (como explicar que um museu instalado em um prédio de 200 anos não tivesse estrutura antifogo?), não há, na Universidade e no Museu, reposição de funcionários que se aposentam, mas há a permanente ameaça de corte dos serviços de energia e água, e mesmo os serviços de limpeza são suspensos, por inexistência de recursos.

Quem atiçou a chama que em poucas horas consumiu o maior acervo de história natural, antropologia, etnografia e paleontologia da América Latina? Quem transformou em cinzas parte da memória nacional?

Esse projeto diabólico foi sempre o grande sonho acalentado da direita brasileira, que jamais se conciliou com as tentativas de fazer desta terra um país soberano, desenvolvido, rico. Nos anos 40 investiu contra o projeto de industrialização defendido por Roberto Simonsen.

O Brasil tinha de cumprir com sua ‘vocação agrária’, exportar alimentos para o mundo e importar produtos manufaturados dos EUA e da Europa, proclamava Eugênio Gudin, falando em nome da classe dominante. Nos anos 50 a mesma elite garantia que o Brasil não tinha petróleo e, portanto, não devíamos gastar dinheiro com pesquisa, tecnóloga e prospecção.

Essa classe dominante mesquinha procura agora destruir com toda e qualquer possibilidade de desenvolvimento e soberania, destruindo com nossos programas estratégicos – espacial, nuclear e cibernético (Estratégia Nacional de Defesa, Decreto nº 6.703 de 18/12/2008), porque, sabe ela, a base de qualquer projeto de soberania deita raízes num processo de industrialização, absolutamente condicionado ao saber científico. A destruição das bases de desenvolvimento científico e tecnológico de nosso país é sua condenação, desta feita definitiva, ao atraso e à pobreza.

O governo que corta os recursos da Universidade brasileira é o mesmo que aliena a Embraer, compromete a fabricação de nossos caças e põe em banho-maria o projeto de construção de nossos submarinos.

Quem não desenvolve sua própria ciência, renuncia à industrialização, e sem tecnologia e indústria não há soberania, porque não haverá, sequer, forças armadas dignas desse nome.

Cumpre, contra a crise e a perspectiva de seu aprofundamento, a história cobra a reação da sociedade científica e das forças políticas, da intelectualidade e dos agentes da cultura. Silenciar, cruzar os braços, evitar o confronto ideológico, é ceder espaço ao desmonte, acomodar-se com o presente e renunciar ao futuro.

*****

Degradação – O ministro Evandro Lins e Silva, jurista, um dos maiores criminalistas brasileiros, foi um dos refundadores do PSB em 1985. No episódio do julgamento de Fernando Collor de Melo, exerceu, em nome da sociedade, o papel de advogado de acusação, auxiliado por Sérgio Sérvulo da Cunha, então também filiado ao PSB. Hoje, nessas eleições, o que ainda se chama de PSB está apoiando a candidatura de Collor ao governo do Estado de Alagoas.

Marielle, sempre – Quando a polícia fluminense e a força militar interventora anunciarão os nomes dos mandantes e dos executores do assassinato da vereadora Marielle Franco? Ficaremos esperando, assim de braços cruzados, até que chacina caia no esquecimento?

domingo, 23 de abril de 2017

Pedagogia Histórico-Crítica e a Escola Pública

Aulas da disciplina Pedagogia Histórico-Crítica e a Escola Pública oferecida pelo Programa de Pós-graduação em Educação da FE-UNICAMP sob a responsabilidade do professor José Claudinei Lombardi.

Aula 1 – Introdução
EXPOSITOR: Dermeval Saviani



Aula 2 – Fundamentos Históricos e Filosóficos da Pedagogia Histórico-Crítica
EXPOSITOR: Newton Duarte



Aula 3 – Fundamentos Psicológicos da Pedagogia Histórico-Crítica
EXPOSITORA: Lígia Márcia Martins



Aula 4 – Pedagogia Histórico-Crítica como teoria pedagógica para uma escola em tempos de transição
EXPOSITOR: Cláudio de Lira Santos Júnior, José Claudinei Lombardi e Paulino José Orso



Aula 5 – Pedagogia Histórico-Crítica e Concepção de Educação Integral e Tempo Integral
EXPOSITORES: Antonio Carlos Maciel e Mara Regina Martins Jacomeli



Aula 6 – Gestão da Educação e da Escola
EXPOSITORES: José Claudinei Lombardi, Luciana Coutinho e Marlene Andrighetti Bialeski



Aula 7 – Implementação do Currículo em Redes Municipais
EXPOSITORAS: Juliana Pasqualini e Rosiane Ponce



Aula 8 – Aprofundamento da Discussão Sobre a Implementação do Currículo
EXPOSITORES: Julia Malanchen e Ricardo Pereira



Aula 9 – Didática: Problemas Teóricos, Metodológicos e Práticos
EXPOSITORAS: Ana Carolina Galvão Marsiglia e Lígia Márcia Martins



Aula 10 –Contribuições da Pedagogia Histórico-Crítica ao Ensino Infantil
EXPOSITORAS: Alessandra Arce e Lucinéia Lazaretti




Aula 11 – Contribuições da Pedagogia Histórico-Crítica ao Ensino Fundamental
EXPOSITORES: Jeferson Gonzalez, Larissa Quacchio e Lucas Teixeira



Aula 12 –Contribuições da Pedagogia Histórico-Crítica ao Ensino Médio
EXPOSITORES: Ricardo Eleutério dos Anjos e Tiago Nicola Lavoura



Aula 13 - Educação Especial na Perspectiva da Pedagogia Histórico-Crítica
EXPOSITORES: Marilda Gonçalves Dias Facci, Silvana Tuleski, Sônia Maria Shima Barroco e Régis Henrique dos Reis Silva



Aula 14 – Formação de Professores na Perspectiva da Pedagogia Histórico-Crítica
EXPOSITORES: José Claudinei Lombardi, Luciana Coutinho e Newton Duarte



Aula 15 - Conclusão: Possibilidades e Perspectivas
EXPOSITORES: Dermeval Saviani e José Claudinei Lombardi


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Uerj: uma universidade na UTI




A instituição enfrenta problemas devido à falta de repasses do governo do Rio, que já dura mais de um ano


Por Lu Sudré, na revista Caros Amigos:

O estado de calamidade pública do Rio de Janeiro - reconhecido pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) em novembro de 2016 - pode causar sérios danos à Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), 11ª melhor universidade do País, de acordo com o ranking da Times Higher Education, também do ano passado. Nesta terça-feira (10), o reitor Ruy Garcia Marques e a reitora Maria Georgina Munis Washington divulgaram uma carta afirmando que a crise financeira pode fazer com que a universidade não seja aberta no início do ano letivo, que começa nesta segunda-feira (16).

A instituição, que está entre as melhores da América Latina, enfrenta problemas devido ao corte de repasses do governo, que já dura mais de um ano. A falta de verba se agravou no segundo semestre de 2016 e resultou em atrasos no pagamento dos técnicos-administrativos, dos docentes e dos funcionários terceirizados. 

Em assembleia nesta terça-feira (12), os técnicos deliberaram greve a partir de segunda (16), quando deve começar o ano letivo; já os professores realizarão assembleia ao longo da semana para discutir a situação. Os salários referentes a novembro e dezembro não foram pagos até o momento, assim como o 13º, informa a reitoria em um ofício ao governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), enviado em 6 de janeiro.

O documento da reitoria reforça a necessidade do pagamento integral dos servidores e da liberação dos recursos orçamentários para o funcionamento imediato e permanente da universidade. O custeio para manutenção mensal de todas as unidades da Uerj é de R$ 23 milhões.

Em outro manifesto, a carta aberta intitulada “A Uerj e o Futuro do Rio de Janeiro”, os reitores se posicionaram em defesa da educação e afirmaram que esta é a maior crise da Uerj desde sua fundação, em 1950.

"A Uerj está sendo sucateada, numa absoluta falta de visão estratégica por parte dos governantes do nosso Estado, a quem incumbe o financiamento de uma universidade pública e inclusiva como a nossa”, diz trecho da carta. "Desprezar o ensino superior, a pós-graduação e a pesquisa é apostar na miséria, na violência e num futuro sem perspectivas positivas. Forçar o fechamento da Uerj é não pensar no futuro de nosso Estado e de nosso País. A Uerj e o Estado são perenes, os governantes não", continua o texto, assinado também por seis ex-reitores.

Terceirizados 

Maria Luiza Tambellini, uma das diretoras da Associação de Docentes da Uerj (Asduerj), explica que a situação financeira da instituição se agravou com o não pagamento de empresas responsáveis por limpeza, manutenção e segurança a partir de setembro de 2015. Na ocasião, as aulas foram suspensas por insalubridade e a falta de pagamento levou à rescisão de contrato com as empresas. Em julho do ano passado foram abertos novos processos de licitação mas as dívidas anteriores permaneceram irregulares. Atualmente, os terceirizados não receberam os salários referentes a dezembro.

"Eles são os mais precarizados, ou seja, os que mais sofrem com o impacto da crise. Estamos 'em suspenso'. As aulas deveriam voltar na próxima semana, mas a universidade não pode funcionar sem as devidas condições. Não temos segurança, limpeza e manutenção da estrutura", lamenta Tambellini, afirmando que o processo de desfinanciamento da universidade é antigo. Ela endossa a gravidade da situação, que já havia sido denunciada pelos três setores - professores, estudantes e funcionários - durante a greve que ocorreu entre março e julho de 2016.

Segundo Renê Forster, docente do Instituto de Letras, há risco de paralisação total dos serviços terceirizados se os pagamentos não forem realizados. Ele ressalta que a falta de verba prejudica o Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), que, segundo a Uerj, conta com mais de 500 leitos, 10.000 internações e 180.000 consultas ambulatoriais especializadas por ano.

"O Hospital Universitário está funcionando com menos da metade da capacidade, muitos leitos foram fechados. Isso afeta a comunidade. A universidade vive há muito tempo com falta de coisas básicas. A manutenção é totalmente precária. Tem dia que não temos nem mesmo energia, elevador, limpeza e segurança. Livros, por exemplo, nós compramos com o próprio dinheiro", afirma Forster, em entrevista à Caros Amigos.

Sobre o atraso e parcelamento de salários, o docente não visualiza uma resolução a curto prazo. "O governo do Estado efetivamente deu um calote. Não há qualquer perspectiva de pagamento dos salários atrasados. A situação dos docentes substitutos, com contratos de emergência, é ainda pior: não recebem desde setembro. As contas não esperam, temos dificuldades para ir à universidade e de custear os materiais das próprias atividades".

Segundo João Edilson, aluno do curso de Letras e militante do coletivo Rua - Juventude Anticapitalista, os estudantes também pagam a conta da crise. "A política de assistência estudantil da Uerj nunca foi satisfatória, mas os ataques e cortes do governo estão retirando até mesmo o mais simples. Estamos indo para a terceiro mês sem pagamento da bolsa de assistência estudantil, que é essencial para muitos estudantes. O valor é pouco, mas muitas vezes é a única fonte de renda que o estudante tem para, pelo menos, estar na universidade", explica o estudante.

Para ele, Pezão demonstra pouca vontade política de manter a Uerj como uma instituição pública. “O Pezão deu continuidade ao projeto de sucateamento da universidade. O PMDB conseguiu quebrar o Estado e quer fazer a educação pagar a conta”, critica.

Diante da gravidade da situação e após um longo processo de greve, a comunidade acadêmica já sinaliza reorganização em defesa da Uerj e do Hupe. Nesta quinta-feira (12), o Centro Acadêmico Sir Alexander Fleming (Casef) organizou um ato que contou com a presença de estudantes, ex-alunos e entidades. Outra manifestação está sendo articulada para próxima segunda-feira (16), data que marcaria o início das aulas.

Críticas à atuação dos governos

Em 21 de dezembro do ano passado, o governo pagou o 13º salário da Procuradoria Geral do Estado, enquanto a maioria das categorias do Estado teve o salário parcelado em nove vezes ou ainda não recebeu o benefício. O pagamento foi mais uma ação de Pezão criticada pelos movimentos sociais, principalmente pelo Movimento Unificado dos Servidores Públicos Estaduais (Muspe), que reúne dezenas de sindicatos e tem articulados manifestações.

Na opinião do professor Renê Forster, o governo estadual tem sido irresponsável e injusto com os servidores públicos ao implementar uma política que privilegia o pagamento de certas categorias. "Pessoas com salários imensos receberam antes. É muito nocivo. Por exemplo, privilegiar um coronel aposentado, que ganha R$ 15 mil, é prejudicar os demais. Ele vai receber antes e atrasar o pagamento de um professor aposentado que ganha um pouco mais de um salário mínimo na educação básica. O ideal seria pegar o fluxo de caixa e dividir. Pagar primeiro quem recebe menos", argumenta o docente, que credita grande parte da falência do Estado às isenções fiscais de empresas e gastos com as Olímpiadas.

Os números confirmam. De acordo com o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), o Rio, que iniciou 2016 com um déficit estimado em R$ 20 bilhões em suas contas, concedeu, entre 2007 e 2015, R$ 185,85 bilhões em benefícios fiscais para empresas. Em relação às Olimpíadas, com custeio previsto de R$ 28,8 bilhões, foram gastos R$ 37,6 bilhões. “Só a verba das isenções fiscais daria para custear o trabalho dos servidores por mais cinco anos integralmente. O que há de mais grave na atuação do PMDB no estado do Rio é a relação que eles têm com o poder privado, de fazer com que o fundo público financie empresas privadas efetivamente”, aponta Forster. No segundo semestre do ano passado, o Estado divulgou que possui R$ 66 bilhões para receber entre dívidas e créditos vencidos de pessoas físicas e pessoas jurídicas.

Na visão de movimentos como Muspe, a atuação do governo federal tem sido insuficiente para auxiliar a crise no Rio e criticada publicamente. No final de dezembro de 2016, o presidente em exercício Michel Temer sancionou a renegociação das dívidas dos estados, mas vetou parte do texto que trata do Regime de Recuperação Fiscal, criado para socorrer estados em situação financeira mais grave como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. No mês anterior à decisão, a União bloqueou R$ 170 milhões das contas do governo do Rio por atraso no pagamento de parcelas da dívida.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Fim da obrigatoriedade de filosofia e sociologia gera ensino mutilado

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 artigo de Vladimir Safatle


Na semana passada, o relator da medida provisória sobre as modificações do ensino médio, editada por aquilo que alguns chamam de "governo", fez algumas considerações a respeito de suas preferências. Dentre elas, ele sugere que as disciplinas de filosofia e sociologia deixem de ser disciplinas de fato e se transformem em "conteúdos transversais" lecionados em aulas de história. Ou seja, mesmo que seus filhos escolham seguir uma concentração em ciências humanas, tais conteúdos não seriam mais oferecidos como disciplinas autônomas, o que vai contra todo o discurso a respeito de oferecer mais condições para os alunos aprofundarem seus interesses efetivos.

Essa consideração do senhor relator nos leva, no entanto, a colocar questões a respeito da importância do ensino de filosofia e sociologia para adolescentes. Afinal, devem nossos adolescentes aprender filosofia e sociologia? Pois é claro que a proposta de reduzi-las a "conteúdos transversais" é apenas uma maneira um pouco mais cínica de retirá-las. Um professor de história, embora possa e deva conhecer questões de filosofia e sociologia que são pertinentes a seu objeto de estudo, não teria condições de tratar de tais conteúdos com a profundidade devida à docência.

Na verdade, o que procura se colocar é que filosofia e sociologia não são tão relevantes assim e poderiam muito bem ser eliminadas como disciplinas. Seus filhos poderiam muito bem viver sem elas. Mas coloquemos a questão implícita neste debate na sua forma correta, a saber: por que há setores da sociedade brasileira que se incomodam tanto com seus filhos aprendendo filosofia e sociologia?

Poderíamos contra-argumentar dizendo não se tratar de incômodo, mas de uma simples análise de prioridades. A prioridade na formação seria garantir a empregabilidade e a qualificação técnica. Nesse sentido, há de se cortar o que é supérfluo. Por outro lado, os estudantes brasileiros são sempre mal avaliados em disciplinas básicas, como línguas e matemática. Melhor então focar o essencial.

No entanto, tais argumentos não se sustentam. Limitar nossos alunos ao básico não é o melhor caminho para levá-los a lidar com realidades complexas e em mutação, como são nossas sociedades contemporâneas. Eles não conseguirão tomar melhores decisões com uma formação mais limitada. Por outro lado, se seus conhecimentos de línguas e matemática são deficitários, não é por alguma forma de "excesso" de disciplinas, mas pela péssima qualidade de nossas escolas, pela precarização de nossos professores (só o Estado de São Paulo perdeu 44.500 professores apenas nos últimos dois anos) e pela ausência de cultura literária de muitas famílias.

Nesse sentido, há de se lembrar o que significa aprender filosofia e sociologia. O ensino da filosofia, por exemplo, pressupõe o desenvolvimento de algumas habilidades fundamentais. Lembremos de ao menos três: a capacidade de constituir problemas a partir da crítica a pressupostos aparentemente naturalizados, a capacidade de articular problemas em campos aparentemente dispersos, desenvolvendo assim um forte pensamento de relações e quebrando a tendência atual em isolar o pensamento em especialidades incomunicáveis. Isto significa ser capaz, por exemplo, de compreender como questões éticas têm relações com questões de teoria do conhecimento, de estética, de política e de lógica, entre outras.

Por fim, e esta é sua característica mais impressionante, o aprendizado da filosofia pressupõe a capacidade de pensar como um outro. Lembro-me de um professor que, ao ver muita pressa em "refutar" Descartes, olhou para mim com sua sabedoria costumeira e disse: "Veja, não é possível ler um filósofo com luvas de boxe". Ou seja, é necessário saber, por um momento, pensar como um outro, até para poder se contrapor com mais propriedade.

Bem, é isto que alguns querem que seus filhos não aprendam. Eles sabem muito bem por que querem isso. Temo que o verdadeiro objetivo não tenha relação alguma com o futuro profissional de seus filhos. Temo que, no fundo, queira-se calar, de uma vez por todas, o projeto de alguns de nossos maiores filósofos, como Condorcet, quem dizia: "A função da educação pública é tornar o povo indócil e difícil de governar".


Vladimir Safatle

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Impropérios mal humorados sobre a Escola sem Partido

Por Rodrigo Perez

Tenho muita dificuldade, muita mesmo, de tratar a proposta “Escola Sem Partido” como um legítimo tema de discussão. É que fico com receio de que ao fazê-lo, estaremos o correndo o risco de trazer os defensores desse absurdo para o campo dos interlocutores e, dessa forma, qualificando-os como participantes do debate público. Devemos combater o grotesco e não discutir com ele. A premissa da discussão é exatamente essa: a legitimação do outro, e das posições do outro, ainda que sejam diferentes das minhas. Não consigo ver esses caras como interlocutores legítimos; sou incapaz de conversar com eles, de respeitá-los.

Mas como os tempos estão sombrios, é necessário fazer algum esforço, por mais que isso seja perigoso. Então, segurem a onda e me acompanhem até o fim, que lá vem textão.

Bom, a proposta “Escola Sem Partido” não tem nenhum conteúdo epistemológico, ou seja, não é relativa à produção do conhecimento. O que está em jogo é, tão somente, um ataque político (e da pior qualidade) por parte daqueles que acham que a educação brasileira tem inclinação ideológica de esquerda. Essas pessoas nunca frequentaram, de fato, uma sala de professores, pois do contrário saberiam que a educação brasileira não é sequer progressista; é reacionária, preconceituosa e elitista.

Mas façamos algum esforço (esforção!) para tentar tratar o tema na chave epistemológica. As discussões a respeito do lugar da subjetividade no processo de produção do conhecimento (e é exatamente isso que uma boa aula é) são mais velhas que a virgindade das nossas avós. Pra ficar na modernidade, pelo menos desde meados do século XVII, após a publicação, em 1637, do “Discurso sobre o método” de René Descartes, os cientistas e intelectuais perseguem a tal “neutralidade objetiva”.

Muita água passou por essa ponte, muitas árvores foram derrubadas para que filósofos pudessem escrever um um monte sobre a relação entre o conhecimento e a subjetividade autoral. Aí, em 1904 (percebam, 1904!), uma alemão chamado Max Weber publicou um ensaio intitulado “A objetividade nas ciências sociais”. No texto, Weber resolveu o problema, em 1904. Repito, em 1904! Vejamos como.

Pra início de conversa, Weber diz que:

“Não existe análise puramente objetiva dos fenômenos culturais e sociais, independentemente de perspectivas particulares e unilaterais, de acordo com as quais elas são selecionadas [e definidas. A razão disso reside no propósito cognitivo dos projetos científicos sociais. Queremos compreender a realidade nos seus aspectos característicos – a interconexão e o significado cultural de seus fenômenos particulares em sua forma contemporânea e os fundamentos que a levaram a se tornar historicamente assim e não de outro modo. (WEBER; 2006, p. 170)

Traduzindo: Parem de encher a porra do saco! Não existe neutralidade na produção do conhecimento. Toda obra humana é marcada pela subjetividade do seu produtor.

Mas Weber vai além, e propõe uma solução pra esse impasse, ao apresentar a noção de “análise axiológica”. Para o alemão:

Obviamente, o tipo de “interpretação” que aqui denominamos análise axiológica é o guia introdutório àquele outro, a saber, a “interpretação” causal “histórica”. A primeira análise ressaltava os elementos “valorizados” do objeto, cuja “explicação” causal é o problema da segunda; a primeira definia os pontos de partida para a análise causal e assim fornecia as perspectivas cruciais, sem as quais ela se perderia numa infinidade inexplorada. (WEBER; 2006, p. 251)

Traduzindo: Já que não existe a merda da neutralidade, basta que o cientista, o intelectual, o professor ou o quem quer que seja, diga com clareza para o seu público quais os valores subjetivos (ideologia, religião, time de futebol e os caralhos) que prefiguram aquele discurso. Feito isso, o público, ao saber que aquela não é a unica forma de tratar o objeto, mas uma forma entre tantas outras possíveis, estará preparado para a crítica e para a busca por outras perspectivas.

Ou seja, em 1904, em 1904 (!), Weber já resolveu essa pendenga, e nós, em 2016, estamos punhetando (e sim, o termo é adequado) com esta merda. Sabem por que isso acontece? Porque quem está propondo esse absurdo não sabe absolutamente nada sobre teoria do conhecimento ou sobre pedagogia. Essas pessoas estão querendo, tão somente, promover censura. Não á toa, essa proposta se fortaleceu institucionalmente na esteira de um golpe de Estado.

Pronto. É isso!

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A criminalização do pensamento crítico





Por Luis Felipe Miguel.



Entre as múltiplas ameaças de retrocesso que surgem do Congresso Nacional hoje, uma das mais graves é a voltada à educação. O espantalho da “doutrinação” dos alunos por professores esquerdistas é um pretexto para a criminalização do pensamento crítico em sala de aula, frustrando o objetivo pedagógico de produzir cidadãos e cidadãs capazes de reflexão autônoma, respeitosos das diferenças, acostumados ao debate e à dissensão, conscientes de seu papel, individual e coletivo, na reprodução e na transformação do mundo social. Em seu lugar, voltamos à ultrapassada compreensão de uma educação limitada à transmissão de “conteúdos” factuais, dos quais o professor é um mero repetidor e o aluno, receptáculo passivo. O slogan vazio da “escola sem partido” busca passar a ideia de que o ensino acrítico é “neutro”, quando, na verdade, ao naturalizar o mundo existente e inibir a discussão sobre suas contradições internas, é um mecanismo poderoso de reprodução do status quo.

São diversos projetos em tramitação no Congresso, que partem do veredito comum de que haveria um esforço de doutrinamento em curso, seja pelo PT, seja pela esquerda de modo geral, que faria com que as escolas tivessem se tornado centros de difusão do socialismo e/ou do feminismo. É uma reação ao arejamento – na verdade, ainda muito insuficiente – das práticas pedagógicas; uma reação que não vem de hoje, mas que se intensificou com a ofensiva diretista dos últimos anos. Alguns talvez se lembrem que, nos anos finais da ditadura militar, pré-escolas alternativas eram acusadas de adotar cartilhas marxistas. É o mesmo tipo de paranoia, mas agora vendo o pretenso doutrinamento como política de Estado, que está por trás das fantasias do movimento Escola Sem Partido, do repúdio a Paulo Freire nas manifestações públicas da direita ou da reação histérica à recente prova do ENEM.

Cada vez que a escola se desloca, por pouco que seja, de seu papel tradicional de aparelho ideológico reprodutor da ordem social, erguem-se as bandeiras de “doutrinamento”. A manobra argumentativa é evidente. A reprodução transita como “não ideológica” porque a ordem social vigente é naturalizada. É como se ela não fosse o fruto de processos históricos, de conflitos sociais com ganhadores e perdedores, mas um dado da realidade que existe por si só. A “neutralidade” do discurso que não questiona o porquê do mundo social ser como é, nem indica que essa ordenação não é uma necessidade, é falsa: ele é um elemento ativo de perpetuação, uma maneira de bloquear as potencialidades de mudança presentes do mundo em que vivemos.

Na atual ofensiva da direita brasileira, há dois alvos simultâneos. Permanece o ódio ao marxismo e, de modo mais geral, a qualquer forma de questionamento à desigualdade de classe. É sustentado por uma leitura delirante da teoria de Gramsci, difundida pelo astrólogo Olavo de Carvalho, em que a ideia de uma luta pela produção de sentido no mundo social é transformada num plano diabólico de lavagem cerebral em massa.

Mas há uma grande ênfase também na denúncia contra qualquer tentativa de desnaturalizar os papéis estereotipados atribuídos a mulheres e homens. É a “ideologia de gênero”, termo que foi cunhado pelos setores conservadores da Igreja Católica, mas adotado também por denominações protestantes, e colocada em curso em vários países do mundo, entre eles o Brasil, como forma de organizar a oposição aos avanços – mais lentos do que gostaríamos, mas inquestionáveis – na direção de maior igualdade entre os sexos e maior respeito a gays e lésbicas. Ao afirmar que “ideológica” é a luta contra a discriminação de gênero, fica implícito que a desigualdade e a intolerância seriam naturais.

O rótulo “ideologia de gênero” foi rapidamente incorporado à linguagem destes grupos. Sintético, ele permite que se descarte, sem discussão, tudo aquilo que já se sabe sobre a produção social do feminino e do masculino. Quando militantes conservadores reagem à frase de Simone de Beauvoir incluída na prova do ENEM escrevendo coisas como “eu nasci mulher sim, nasci com vagina”, como se viu nas redes sociais, revelam, mais do que apenas uma ignorância brutal e constrangedora, uma impermeabilidade deliberada a qualquer discussão sobre o tema.

Ao lado da ameaça que a emancipação feminina e a conquista dos direitos degays e lésbicas de fato representa aos privilégios de homens e de heterossexuais, e ao lado também do fundamentalismo religioso de alguns, há no destaque dado à “ideologia de gênero” uma demonstração de oportunismo político. Como afirmei em outro lugar, hoje a homofobia é o ópio do povo. Deslocando o eixo do conflito para as questões “morais” (que, na verdade, são questões de direitos individuais), a direita se põe em sintonia com uma parcela do eleitorado que, sobretudo a partir das políticas compensatórias do governo Lula, se movimentava na direção de seus adversários. Também por isso, para as forças da esquerda a luta pela igualdade de gênero e contra a homofobia não pode ser considerada uma pauta secundária.

Entre os projetos em tramitação no Congresso, vários têm o fantasma da “ideologia de gênero” como alvo. O PL 7180/2014 e o PL 7181/2014, ambos de autoria de Erivelton Santana (PSC/BA), determinam a mesma coisa: que “os valores de ordem familiar [têm] precedência sobre a educação escolar nos aspectos relacionados à educação moral, sexual e religiosa, vedada a transversalidade ou técnicas subliminares no ensino desses temas”. O primeiro projeto visa instituir esta regra na Lei de Diretrizes e Bases da Educação e o outro, redundantemente, quer torná-la obrigatória nos parâmetros curriculares (que já devem obedecer à LDBE).

A intocabilidade da família, como sujeito coletivo com direitos próprios, irredutíveis aos de seus integrantes, é o que fundamenta tal proposta. Muitas vezes, mesmo os grupos mais progressistas têm receio de discutir o statusatribuído à unidade familiar, preferindo deslocar a luta para a necessidade de pluralizar o entendimento do que é família. Claro que que é importante dar a todos que o queiram a possibilidade de buscar formar famílias, no formato que desejem, mas ainda precisamos dessacralizar a “família”. A família é também um lugar de opressão e de violência. A defesa de uma concepção plural de família não pode colocar em segundo plano a ideia de que, em primeiro lugar, estão os direitos individuais dos seus integrantes. E entre estes direitos está o de ter acesso a uma pluralidade de visões de mundo, a fim de ampliar a possibilidade de produção autônoma de suas próprias ideias.

As propostas do deputado baiano impedem a educação sexual e o combate ao preconceito e à intolerância nas escolas, sob o argumento de preservar a soberania da família na formação “moral” dos mais novos. Com isso, retiram da escola a possibilidade de contribuir para disseminar os valores de igualdade e de respeito à diferença, que são cruciais para uma sociedade democrática. E retiram dos jovens o direito de ter acesso a informações que são necessárias para que eles possam refletir sobre sua própria posição nesse mundo e avançar de maneira segura para a vida adulta.

Ainda mais bisonho, o PL 1859/2015, de autoria de Izalci Lucas (PSDB/DF), Givaldo Carimbão (PROS/AL) e outros, propõe que a LDBE inclua dispositivo que proíba as escolas de apresentar conteúdo “que tendam a aplicar a ideologia de gênero, o termo ‘gênero’ ou ‘orientação sexual’”. A política linguística destes deputados incorpora ao vocabulário legislativo o termo “ideologia de gênero”, inventado recentemente pela direita fundamentalista, e veta do vocabulário escolar os termos “gênero” e “orientação sexual”, impedindo assim que vastos setores do conhecimento produzido na sociologia e na psicologia cheguem ao ensino. O objetivo é evitar qualquer questionamento da percepção naturalizada dos papéis sexuais. É por isso que, quase 70 anos depois, Simone de Beauvoir ainda causa arrepios.

Na mesma linha, o PL 2731/2015, de Eros Biondini (PTB/MG), quer incluir, no Plano Nacional de Educação, uma proibição à “utilização de qualquer tipo de ideologia na educação nacional, em especial o uso da ideologia de gênero, orientação sexual, identidade de gênero e seus derivados, sob qualquer pretexto”. Para além do absurdo do texto (uma “ideologia” é “utilizada” na “educação nacional”?), o PL é significativo pelas punições previstas. O profissional de educação que descumprir a norma, isto é, que tematizar a desigualdade de gênero ou a homofobia, ou mesmo que apresente qualquer raciocínio crítico que seja rotulado como “ideológico”, perderá o cargo e estará sujeito às punições previstas, no Estatuto da Criança e do Adolescente, àqueles que submetem “criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou constrangimento ilegal”: seis meses a dois anos de prisão.

O projeto mais ambicioso, porém, é o PL 867/2015, novamente de Izalci Lucas, que é representante da ala do PSDB mais despreparada intelectualmente e retrógrada politicamente. Seu objetivo é incluir, nas diretrizes e bases da educação nacional, um programa intitulado “Escola sem Partido”. De fato, o deputado simplesmente apõe seu nome à iniciativa do “movimento” de mesmo nome. Assim, a educação deve ser baseada na “neutralidade política” e a escola não pode desenvolver nenhuma atividade que possa “estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes”. Embora escolas confessionais privadas possam exercer seu proselitismo, desde que contem com a anuência dos pais. O artigo 5º prevê que serão afixados cartazes nas escolas para que os estudantes saibam que podem denunciar seus professores. O programa se aplica ao material didático e a todos os níveis de ensino, incluindo o superior.

Os dois pilares são, portanto, a soberania da família, que se sobrepõe ao direito do estudante de obter elementos para produzir de forma autônoma sua visão de mundo, e uma ideia de “neutralidade” que se baseia na ficção de um conhecimento que não é situado socialmente. Um relato da história do Brasil ou do mundo que se limite a nomes ou datas, como no ensino do regime militar, pode parecer “neutro”, por não assumir expressamente juízos de valor. Mas, ao negar ao aluno as condições de situar os processos históricos e de compreender os interesses em conflito, cumpre um inegável papel conservador.

Se a “neutralidade” não existe, uma vez que toda produção de conhecimento parte de um lugar social específico, qual é o contrário da doutrinação? É o pensamento crítico, aquele que permite que os estudantes sejam não objetos, mas sujeitos da aprendizagem, refletindo sobre os conteúdos e construindo suas próprias percepções, no diálogo com professores e colegas. É esse pensamento crítico que assusta os promotores da “Escola sem Partido”. Seu discurso ensaiado não disfarça o fato de que são eles que desejam uma escola doutrinária, que imponha aos estudantes um pensamento fechado – o conformismo – e os impeça de pensar com as próprias cabeças e, pensando, quem sabe inventar um mundo novo.

***

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde edita a Revista Brasileira de Ciência Política e coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê, que mantém o Blog do Demodê, onde escreve regularmente. Autor, entre outros, de Democracia e representação: territórias em disputa (Editora Unesp, 2014), e, junto com Flávia Biroli, de Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014). Ambos colaboram com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

sábado, 26 de setembro de 2015

Oito materiais para entender Paulo Freire

Por Dafne Melo do, Centro de Referências em Educação Interal


No mês do nascimento do educador, o Instituto Paulo Freire selecionou, a pedido do Centro de Referências, textos, áudios e vídeos sobre o pernambucano




Dia 19 de setembro de 1921, nascia em Recife (PE) Paulo Freire, patrono da educação brasileira e um dos pedagogos mais prestigiados do mundo.

Apesar do reconhecimento, a vasta obra de Freire ainda é pouco estudada no Brasil. Na data de seu aniversário, o Instituto Paulo Freire - a pedido do Centro de Referências em Educação Integral- selecionou, a partir de seu Acervo, alguns materiais que permitem entrar em contato com a obra do educador. Confira abaixo a seleção de materiais, todos disponíveis online.

Saiba +Paulo Freire em seu devido lugar


Nesse artigo, que leva o subtítulo “Lembranças sobre sua vida e seu pensamento”, o professor da Universidade de Campinas (Unicamp), Carlos Rodrigues Brandão, faz um relato pessoal e afetivo do educador, traçando um perfil de sua personalidade e abordando aspectos importantes de sua obra, como a ideia da consciência humana como uma construção e a centralidade do diálogo em seu método pedagógico. 

2. ”Freire: tudo sobre o homem e o educador“, Maria José Ferreira. 

Nesse pequeno texto, Maria José faz uma breve resenha do livro Convite à leitura de Paulo Freire, de Moacir Gadotti, um dos grandes parceiros de Freire durante a vida. “Pelos 15 anos de convivência, e possivelmente pela amizade pessoal que os une, temos no livro acima um dos mais completos sobre Paulo Freire”, escreve.


A monografia se dedica a analisar as contribuições político-pedagógicas do pernambucano para a educação brasileira, destacando o Método Paulo Freire. O texto descreve suas propostas, traçando as bases nas quais se assentam. A autora também salienta o aspecto revolucionário da concepção metodológica proposta por ele, posto que institui uma nova relação entre educador e educando.

4. Educação e conscientização, Paulo Freire. 

Trata-se do capítulo IV da obra Educação como prática da liberdade, de 1967. Nele, o autor fundamenta historicamente sua concepção de educação, vista sempre em uma relação indissociável da conscientização política. Dessa forma, o processo de ensino-aprendizagem envolve a transformação de homens e mulheres em sujeitos de transformação social. As pessoas devem saber ler não apenas letras, mas ler o mundo, a partir de uma perspectiva crítica e autônoma.

5. Paulo Freire: uma biobibliografia, Moacir Gadotti (organização).

Essa obra reúne diversos estudiosos da obra do educador, bem como dezenas de pessoas que conviveram com ele. A característica do livro é buscar relacionar sua biografia com sua bibliografia, ou seja, descrever as imbricações entre o que Freire escrevia e o que fazia: entre teoria e práxis. Extratos da obra também estão disponíveis em formato audiolivro.


Uma das obras mais famosas e traduzidas do educador está disponível no Acervo em formato de audiolivro, lido pelo seu filho, Lutgardes Costa Freire. O livro foi escrito no Chile, em 1968, quando Freire estava no exílio, durante a Ditadura Militar brasileira. No Brasil, foi lançado apenas 6 anos depois. O trabalho é fruto das reflexões e da prática de Freire, a partir de sua experiência com a alfabetização de adultos. O educador escreve sobre a concepção “bancária” da educação como um instrumento da opressão e propõe uma ruptura a partir de um novo modelo, pautado por uma educação conscientizadora e libertadora. Os áudios podem ser baixados separadamente e o livro, inteiro, em formato mp3, aqui.

7. Paulo Freire Contemporâneo, Toni Venturi.

O documentário, feito para a TV Escola, é assinado pelo cineasta Toni Ventura, que dirigiu filmes como Cabra Cega, Dia de Festa e Latitude Zero. Em 50 minutos, somos apresentados às ideias, vida e obra do educador pernambucano, por meio de depoimentos de seus familiares, amigos e estudiosos. O filme aborda a perseguição a Freire e ao seu método, no período da ditadura militar, e também resgata experiências contemporâneas herdeiras do pedagogo.



8. Educar para Transformar, Tânia Quaresma.

O vídeo-documentário percorre os cenários urbano e rural, mediante várias linguagens, trazendo a vida e a obrado pedagogo. Usando linguagens como o rap, hip-hop, grafite e cordel, o vídeo reúne ainda depoimentos de familiares, amigos e estudiosos, que ajudam a construir um panorama sobre a história de Paulo Freire, registrando e divulgando um legado expressivo de nossa cultura. O vídeo faz parte de um conjunto de ações do Projeto Memória 2005.


terça-feira, 5 de maio de 2015

Não seja professor



Quem escreve este artigo é alguém que é professor universitário há quase 20 anos e que gostaria de estar neste momento escrevendo o contrário do que se vê obrigado agora a dizer. Pois, diante das circunstâncias, gostaria de aproveitar o espaço para escrever diretamente a meus alunos e pedir a eles que não sejam professores, não cometam esse equívoco. Esta "pátria educadora" não merece ter professores. 

Um professor, principalmente aquele que se dedicou ao ensino fundamental e médio, será cotidianamente desprezado. Seu salário será, em média, 51% do salário médio daqueles que terão a mesma formação. Em um estudo publicado há meses pela OCDE, o salário do professor brasileiro aparece em penúltimo lugar em uma lista de 35 países, atrás da Turquia, do Chile e do México, entre tantos outros. 

Mesmo assim, você ouvirá que ser professor é uma vocação, que seu salário não é assim tão ruim e outras amenidades do gênero. Suas salas de aula terão, em média, 32 alunos, enquanto no Chile são 27 e Portugal, 8. Sua escola provavelmente não terá biblioteca, como é o caso de 72% das escolas públicas brasileiras. 

Se você tiver a péssima ideia de se manifestar contra o descalabro e a precarização, caso você more no Paraná, o governo o tratará à base de bomba de gás lacrimogêneo, cachorro e bala de borracha. Em outros Estados, a pura e simples indiferença. Imagens correrão o mundo, a Anistia Internacional irá emitir notas condenando, mas as principais revistas semanárias do país não darão nada a respeito nem do fato nem de sua situação. Para elas e para a "opinião pública" que elas parecem representar, você não existe. 

Mais importante para eles não é sua situação, base para os resultados medíocres da educação nacional, mas alguma diatribe canina contra o governo ou os emocionantes embates entre os presidentes da Câmara e do Senado a fim de saber quem espolia mais um Executivo nas cordas. 

No entanto, depois de voltar para casa sangrando por ter levado uma bala de borracha da nossa simpática PM, você poderá ter o prazer de ligar a televisão e ouvir alguma celebridade deplorando o fato de o país "ter pouca educação" ou algum candidato a governador dizer que educação será sempre a prioridade das prioridades. 

Diante de tamanho cinismo, você não terá nada a fazer a não ser alimentar uma incompreensão profunda por ter sido professor, em vez de ter aberto um restaurante. Por isso o melhor a fazer é recusar-se a ser professor de ensino médio e fundamental. Assim, acordaremos um dia em um país que não poderá mais mentir para si mesmo, pois as escolas estarão fechadas pela recusa de nossos jovens a serem humilhados como professores e a perpetuarem a farsa.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Dever de casa com o vampiro de Curitiba



Hei de vencer, mesmo sendo professor. O mantra do adesivo que circulava em muitos fusquinhas dos anos 1970 e 80 está mais em voga do que nunca. Hei de vencer, vejo aqui no retrovisor da infância, Grupo Escolar Virgílio Távora, o mantra dos mestres estampado em uma faixa gigante na praça dos Ourives, Juazeiro do Norte.

Hei de vencer, mesmo sob as bombas e as porradas do governo Beto Richa ou Rixa (PSDB) na capital paranaense. Hei de vencer, mesmo depois de uma longa greve, uma quaresma, que o tucano Geraldo Alckmin define simplesmente como novela —parte da imprensa também lista o protesto no gênero ficção, acredite sem-querer-querendo, meu brother Jack Palance.

Hei de vencer, mesmo que pancadaria braba e covarde seja chamada tecnicamente de “confronto” nas emissoras de rádio e TV. Hão de pensar: se o cão, mesmo policial, mordeu o homem, no caso o cinegrafista Luiz Carlos de Jesus (TV Band), ainda não é lá essas notícias. Afinal de contas, o conceito clássico de notícia, como aprendemos na faculdade, é quando o homem morde o cachorro.

Hei de vencer, mesmo sendo professor em qualquer ponto desta terra que já foi a pátria de chuteiras e agora se propõe, ainda somente no slogan publicitário, uma pátria educadora. Hei de vencer, ilustríssimo Paulo Freire, mesmo sendo terceirizado e não mais dono do meu próprio suor para vendê-lo sem atravessadores, como tu já discutias, método por método, ti-jo-lo por ti-jo-lo, ainda em tempos mobrais.

Hei de vencer, professor Darcy Ribeiro, mesmo copiando, como em um antiditado construtivista, a sua lição de coisas mais conhecida:

"Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu".

Vampiro de Curitiba


Hei de vencer, mesmo que tenha que convocar o “vampiro de Curitiba”, o perverso Nelsinho, personagem clássico do escritor Dalton Trevisan, para explicar como o sr. Rixa pode ser tão sádico com a turma do pó de giz. Só o vampiro, vagando pela madruga fria do Centro Cívico, é capaz de reconstituir o crime e explicar, tintim por tintim, miúdo humano por miúdo humano, a sanguinolenta pedagogia aplicada.

Hei de vencer, mesmo sendo professor em qualquer ponto desta terra que já foi a pátria de chuteiras e agora se propõe, ainda somente no slogan publicitário, uma pátria educadora

Estava escrito nos contos de Trevisan, curtos como os salários professorais, todo esse Boletim de Ocorrência. Um B.O. à maneira de Nelsinho talvez explicasse tudo, afinal de contas o vampiro, na sua ambivalência permanente, sempre fica entre o estranho e o familiar. É familiar que um governo tipo Rixa trate assim os professores: é estranho, mas necessário, que a gente ainda se espante e rejeite enxergar com a lente fumê da banalidade.

Hei de vencer, mesmo sob a tonfa de uma gestão “desgracida”. Até parece frase, embora este cronista seja um péssimo aluno de redação e estilo, do professor Dalton, mestre dos meninos e velhos contistas. Donde tonfa —“ai que saudade da professorinha que me ensinou o beabá”—, venha a ser o popularíssimo cassetete, pedagogia de quem força na marra o ajoelhamento no milho da humilhação política.

Agora de forma mais didática, repare como começa essa história de tonfa, na boca de um dos comandantes da PM paranaense:

"Se precisar usar a tonfa, é por baixo! Nada de sair girando por cima", deu ordens aos espartanos.

Problema é que, no “confronto”, sabe cumequié, meu caro vampiro de Curitiba, a tonfa acaba atingindo os elementos docentes em partes indesejadas da anatomia e não apenas nos membros inferiores, conforme orientação inicial à tropa.

Hei de vencer, mesmo dando a cara a bater aos corretos portadores de tonfa. Hei de vencer, mesmo que chova bombas de helicópteros.

Tonfa neles


Quem essa professorada pensa que é, só porque dá aulas neste país de analfas, só por ensinar alguma coisa... Sabe-se lá o que passa em sala, deve ensinar um comunismo medonho às pobres criaturas indefesas. Coitada das criancinhas. Eu poderia estar por ai protestando, bando de vagabundo, cada abusadinho desses ganha muito mais que eu, no entanto sigo na lida, na trabalheira, com farda ou na base do bico... Desço a tonfa mesmo, sem dó nem piedade, quem manda vandalizar o coreto?

Hei de vencer, mesmo diante do pensamento reto de qualquer soldado PM anônimo que vira herói imediato dos comentaristas de portais da Internet.

Hei de vencer, mesmo que pancadaria braba e covarde seja chamada tecnicamente de “confronto” nas emissoras de rádio e TV

Exclamações sangrentas nas manchetes dos jornais clamam por “Confronto”. Hei de vencer, mesmo eu entrando com a face e o PM com a tonfa, hei-de.

Tonfa neles, por baixo, por cima... Hoje a tonfa vai comer solta. Não foi por falta de aviso. Vai protestar, que deixe sua cabeça em casa. Hoje não tem selfie policial, só tonfa na confa —o mesmo que porrada, correria e confusão—, como o Nelsinho, o vampiro de Curitiba, sempre ele, descreveria o ocorrido no seu distrito.

Por pouco a confa não sobra mesmo até para o vampiro. Conhecendo o cara minimamente, deveria estar na área do “confronto”, na cobiça de uma normalista linda, óbvio. O vampiro tarado busca alimentar seu desejo nos lugares mais impróprios, independentemente das ordens expressas dos sangues de barata de todas as patentes, ideologias, religiões e credos.

O próprio criador, seu Dalton, reza a lenda, flanou, sob a proteção de um boné abaixado e com passadas largas do velho pisante Vulcabrás, no meio da carnificina. No seu raro passeio anual pela cidade, como o mais anônimo dos curitibanos, ninguém deu conta do vencedor do Prêmio Camões de literatura. Seu Dalton afina a surdina existencial todas as manhãs com o canto das corruíras. De tão discreto, seu Dalton nem chorou com gás lacrimogênio.

E por falar em testemunhas oculares da história, quem também deu pinta na área do “confronto” foi o escriba Guilherme Caldas. Saiu para investigar comidinhas de baixa gastronomia, especialidade do seu blog na “Gazeta do Povo”, e voltou com o melhor retrato do sanguinolento ocorrido:

“Gente ferida e assustada, um governador, digamos assim, desonesto, muita sujeira espalhada, incluindo cápsulas de escopeta e de invólucros de bombas molhados pela chuva do começo da noite. No meio daquele final de confusão, encontrei um amigo indignado com, entre outras coisas, a pipoca a R$ 5: “até o pipoqueiro metendo a mão na gente!”.

Hei de vencer, mesmo diante do pensamento reto de qualquer soldado PM anônimo que vira herói imediato dos comentaristas de portais da Internet

Calma, amigos do vampiro, o cronista que combate o raio gourmetizador, ali no meio da confa da tonfa, topou também, graças a Deus, com o Donizete, o Rei do Espetinho, que, alheio às pressões econômicas do momento, vendia seus sapecados de carne, linguiça, frango e coração a R$ 2. Donizete, autêntico habitante daquela Daltolândia, disse mais: só vai ao Centro Cívico em dias de bafafás, greves e protestos. No que o Caldas, safo, se saiu:

“Pedi um de frango, paguei e tomei rumo. Num dia com tantas coisas ruins, o tempero do Rei do Espetinho estava bom”.

Hei de vencer. Não me pergunte como. Hei de vencer, mesmo sendo o professor, naturalmente, um para-raio de tonfas e vampiros.


Xico Sá, jornalista e escritor, publicou “Big Jato” (editora Companhia das Letras), entre outros livros.

A legitimidade da greve dos professores



Esta semana a greve dos professores da rede estadual de São Paulo completa 50 dias, sem negociação nem reconhecimento por parte do governo Alckmin. 

Em vez de dialogar com as demandas apresentadas, o governo optou por atacar os grevistas e desqualificar o movimento. Alckmin chegou a declarar que não existia greve alguma. Reafirmou suas palavras na última segunda-feira (27), apesar dos fatos. 

Não há como não recordar do já folclórico "não falta água em São Paulo, não vai faltar água em São Paulo!", dito em debate eleitoral no ano passado. Isso não impediu o desabastecimento sistemático nas periferias. Negar a realidade não costuma ser uma boa tática para resolver problemas. 

A greve cresceu e se prolongou desde seu início, em 13 de março. Milhares de professores de todo o Estado têm lotado as assembleias semanalmente e feito grandes manifestações na capital paulista. Acamparam em frente à Secretaria de Educação, foram à Assembleia Legislativa e ao Palácio dos Bandeirantes. 

A reação do governo estadual? Atacou o direito constitucional de greve, com apontamento de faltas injustificadas e ameaças de demissão. Permaneceu sem apresentar nenhuma proposta e Alckmin, num discurso recente, classificou a greve como "política". 

Aliás, o governador precisa decidir-se: ou a greve não existe ou ela é política. 

De todo modo, em relação à tentativa de desqualificação, vale mencionar que toda mobilização social é política, talvez com exceção do carnaval. Uma greve que defende políticas públicas de educação e valorização dos educadores é obviamente política. 

Mas, para além deste truísmo, parece que o governador quis dizer outra coisa: que o movimento seria politicagem contra seu governo, sem pauta real. 

Vejamos as reivindicações dos professores. Reabertura de salas de aula fechadas, desmembramento de salas visando um máximo de 25 alunos, garantia de condições básicas de infraestrutura nas escolas e reajuste salarial. Politicagem? 

Segundo a Apeoesp (Sindicato dos professores da rede estadual), foram mais de 3 mil salas fechadas só em 2015. O resultado foi a superlotação, com classes com mais de 50 alunos e desemprego para profissionais da educação de diversas disciplinas. 

Além disso, o governo anunciou neste ano corte de um terço das verbas para manutenção das escolas. Há relatos de falta de papel higiênico e giz em escolas paulistas. A situação é crítica. 

O salário dos professores está profundamente defasado em relação aos demais profissionais com ensino superior. Em São Paulo, o professor recebe pouco mais que R$11 por aula. 

Os motivos da indignação, portanto, são mais do que legítimos. Como ensinar num ambiente sem as condições básicas de trabalho? Como dar aulas em salas superlotadas? Como esperar motivação de profissionais sem plano de carreira e com salário de R$11 por aula? 

Engraçado é ver os mesmos que agora atacam ou condenam a greve dos professores fazer, de tempos em tempos, seu proselitismo sobre a importância da educação para o futuro do país. "Valorizam" a educação, mas desvalorizam os educadores. A equação não fecha. 

O movimento dos professores estaduais paulistas merece respeito e reconhecimento. Alckmin faria melhor ao Estado se, em vez de negar o óbvio, abrisse negociações efetivas para atendimento da pauta da categoria.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Governo autista


Não há nada mais patético no Brasil do que ouvir políticos falarem sobre educação. 


Todos concordarão que a educação é a prioridade nacional, assim como descreverão programas maravilhosos aplicados em seus Estados que teriam redundado em inquestionável impacto na qualidade do ensino. Então, números fabulosos aparecem corroborando mais uma história de sucesso, até que um mal intencionado programa internacional de avaliação joga todos os números nacionais no chão. 

O princípio vale para o problema central do ensino brasileiro, a saber, a destruição da carreira de professor. A Coreia do Sul é sempre lembrada como exemplo de salto educacional. Seus professores do ensino público ganham em média US$ 4.000, ou seja, ao menos quatro vezes mais do que seus similares brasileiros. 

Com isso, não admira que nossos melhores alunos não queiram mais ser professores, criando uma profissão completamente sucateada e precarizada. Sem bons professores, não haverá tablet, matemática em 3D ou consultor de Harvard que conseguirá transformar nossa educação pública em algo minimamente aceitável. 

Então você lê, em algum pé de página de jornal, que "professores do Estado de São Paulo estão em greve há 44 dias" ou "professores do Estado do Paraná entram em greve por tempo indeterminado". Começam a aparecer relatos das condições precárias de trabalho, salas de aulas fechadas para a concentração de alunos em outras unidades, professores com mestrado e doutorado há dois anos sem reclassificação salarial e defasagens inexplicáveis de salários entre professores e outros funcionários públicos com o mesmo nível de formação. 

Em outras épocas, depois de 44 dias de greve, você esperaria que o poder público se mobilizasse para dar alguma resposta ou que a sociedade civil se indignasse com a passividade daqueles que gerem o dinheiro de seus impostos. Mas, ao menos em São Paulo, temos outra forma de resolver problemas. Aqui, o governo desenvolveu um método incrivelmente eficaz que pode ser chamado "eliminação nominalista". Por exemplo, perguntado sobre a greve de seus professores, o governador de São Paulo afirmou nesta segunda-feira (27): "Não existe greve de professores em São Paulo". 

Ele é particularmente bom nisso. Há alguns meses, confrontado com racionamentos de água que afetavam a população de seu Estado, não temeu em afirmar: "Não existe racionamento de água em São Paulo". 

Você também pode tentar isso em casa. Faça cara de sério, pense em algum problema grave e diga de maneira firme e pausada: "Este problema não existe". Ao menos em São Paulo, a técnica funciona.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Um novo Ministro: sem sal


Deu Janine. Melhor que Cid. Para saber quanto melhor, teremos que esperar pela equipe que deverá montar e pelas medidas concretas. No discurso de posse, saberemos mais. O novo Ministro não é formalmente ligado a partidos. Está sendo vendido como um técnico independente. Sua indicação produziu “um vácuo político” – não é PT e nem PMDB.Suprapartidário? Não acredito, pois não há vácuo na política, como já vimos antes.

Dilma, Mercadante, Haddad, Paim desenvolveram uma postura suprapartidária para a educação. Isso não é bom. Os Estados Unidos também trataram a educação como uma área suprapartidária nos últimos 20 anos e deu no que deu: a área virou território dos reformadores empresariais da educação. Janine encarna esta natureza suprapartidária que Dilma quer dar à questão educacional – a tal “pátria educadora”.

Se este for o sentido de escolher um “técnico” para o ministério, teremos problemas com a defesa da educação pública com gestão pública. Explico. A visão suprapartidária incorpora com facilidade a ideia da educação pública gerida por terceirização, à moda das escolas charters (que ela não considera privatização), e convive bem com a ideia da complementação dos serviços públicos por vouchers distribuídos à iniciativa privada.

Esse distanciamento de uma política de compromissos claros com a escola pública de gestão pública, que olha apenas para o lado técnico das ações de governo, não deve ajudar quando se tratar de enfrentar o Movimento Todos pela Educação e seus reformadores empresariais da educação com suas ideias privatizantes. Mercadante dizia que queria muitas vagas para as crianças estudarem não importando se eram vagas públicas ou privadas. Isso vai se reforçar. Neste sentido Janine é tão “sem sal” (vale dizer “técnico”) quanto é Dilma ou Mercadante.

Não acho que isso beneficie a educação pública e comprometida com teses avançadas. Com o PNE que temos, uma Lei de Responsabilidade Educacional em curso e um ministro que vai fazer uma “imersão na área da educação” até o dia da posse – 6 de abril – para entender o ministério, não vejo um futuro promissor.

Primeiro porque o governo Dilma está em sérios apuros e desgastado pela armadilha em que a aliança com o PMDB acabou se convertendo. Terá que ceder nas políticas mais ainda. Segundo porque, como admite Janine: “o PT teria de perceber que toda a inclusão social foi transformada em um grande projeto de consumo.” Tendo gerado esta expectativa, agora tem que corresponder ao desejo de consumo também no campo da educação. Na outra ponta, os empresários reclamam da baixa produtividade do trabalhador brasileiro e querem que a educação faça sua parte na preparação de mão de obra para aumentar o número de qualificados. Com o Estado quebrado e a economia no chão, não restará outra alternativa senão recorrer à iniciativa privada para ajudar a ampliar a oferta de serviços na educação. É aí que os reformadores empresariais entram.

A imagem de um “técnico” no ministério visa passar a ideia desta visão suprapartidária da educação e portanto, bem de acordo à visão de Dilma, um pragmatismo na adoção de soluções – inclusive daquelas que venham da direita privatizante – na mesma linha da argumentação de Mercadante: “não importa se são vagas privadas ou públicas” – importa resultados. Dia 24 de março, o Todos pela Educação reproduzia a opinião de Antonio Gois no “O Globo”:

“Já tivemos no Brasil bons ministros de áreas técnicas que eram políticos tradicionais. E também já houve nomes considerados técnicos que fracassaram. Mas, na educação, a história recente indica que misturar política partidária com os desafios da pasta é sempre uma péssima escolha.”

Cid era um ministro de cabeça feita (regada a sal e pimenta). Já tinha uma orientação política e técnica clara: fazer a política educacional dos reformadores empresariais. Como se previa, o desgaste ia ser grande (como acabou sendo). Com Janine esta política poderá ser contemplada talvez com menos convicção, talvez até com alguns acenos à esquerda, e com a aura de uma decisão “técnica”, ou seja, imparcial e suprapartidária (sem sal), bem a gosto do “pátria educadora”, cuja estratégia está sendo traçada na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, por Mangabeira Unger (outro sem sal).

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A situação escandalosa dos professores do Estado de São Paulo



Do professor Silvio Prado

Por que os professores não se revoltam?

Os salários são ofensivos e desrespeitosos. As condições de trabalho são incrivelmente estafantes e detonam o professor já no primeiro semestre. No segundo semestre, o professor busca ânimo em alguma força desconhecida para ver se chega inteiro até dezembro. Ufa, que luta insana!

Sobre a violência que circunda a maioria das escolas estaduais paulistas e explode inclusive dentro da sala de aula, ela é tão escandalosa e rotineira que a imprensa, mesmo sendo tucana e financiada por verbas da FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação), não consegue escondê-la como gostaria o governador Geraldo Alckmin.

Difícil a escola que não tenha professor ou funcionário agredidos fisicamente, pois agressão moral e verbal professores e funcionários sofrem todo o dia. Devido a esse massacre moral, não é por acaso que em São Paulo um número elevado de professores vivem largados à depressão, sem cuidado algum do estado, responsável direto pelo acréscimo desmedido de profissionais doentes.

No riquíssimo estado paulista (204 bilhões de reais é o orçamento de 2015), o caos toma conta do setor mais importante para o desenvolvimento social e econômico do país, a educação.

Nela, encontramos professor com mais de duas décadas de ensino tendo um mínimo de aulas e sob salário miserável, deteriorando suas condições materiais de vida e zerando seu ânimo para trabalhar em sala de aula.

Milhares de outros professores estão na humilhante categoria O, chantageados (e sacaneados) moral e profissionalmente pela politica irresponsável de um governo que em vinte anos mexeu e remexeu na educação e a ela nada acrescentou de positivo.

Aqui na região de Taubaté, Vale do Paraíba, encontramos professores trabalhando em até 4 escolas, recheados de aulas picadas, horários que se chocam, gastos escandalosos com combustível , alimentação, saúde sendo destruída.Alguns outros amargam, da residência ao local de trabalho, entre ida e volta, até 160 quilómetros de distância e ainda são castigados com o pagamento de pedágios, como acontece com quem sai de Taubaté para lecionar no bairro do Cedro, na distante cidade de Paraibuna.

Dentro do quadro macabro desenhado por Mario Covas, José Serra e Geraldo Alckmin encontramos o drama do funcionário adoecido e que não recebe do estado sequer uma aspirina como socorro imediato. Da rotina do professor doente podemos extrair histórias dignas de Kafka. Professores de educação física, com artrose comprovada por laudo médico, obrigados a dar aula como se estivessem em condições físicas ideais. Outros professores doentes, devido ao desmonte do sistema de perícias médicas, viajam 1400 km para serem periciados. Sabe-se de professores comprovadamente destruídos física e moralmente que, depois de gastar o que não tinham nas mãos de médicos particulares, ou de sofrer humilhações permanentes nas filas do IAMSP, mesmo não curados se viram obrigados a voltar para a sala de aula.

Num outro quadro de sofrimento e descaso, São Paulo tem hoje de cinco a dez mil professores com direito a aposentadoria humilhados numa espécie de fila indiana que não se sabe onde começa e nem termina. E a aposentadoria tão sonhada nunca chega para, finalmente, livra-lo do campo minado da escola pública, algo, antes que os tucanos transformassem num pesadelo, era para o magistério um sonho tão bonito.O clima da educação de São Paulo vive marcado pela insegurança, caos administrativo, mão dura implacável do secretário da educação e do governador, queda na qualidade de ensino, escola divorciada dos interesses estratégicos da sociedade, assédio moral adotado como prática administrativa dos negócios do ensino.Tudo isso tem consequências graves, como produção massiva de analfabetos funcionais, um nivelamento cultural primário e o despreparo intelectual e politico da juventude paulista, hoje refém das perniciosas ideias neoliberais assumidas por um Estado que foge de seu papel social transformador e se adequa aos interesses que não são os da população.

Vejam que aqui nem foi tocada na questão da tal FDE, cofre de 3,5 bilhões de reais arrombados faz tempo por inúmeras gangs de engravatados ligadas ao mundo de negociatas tucanas.Compras superfaturadas,reformas de prédios escolares com preços estratosféricos, destruição criminosa de material didático, assinaturas de jornais e revistas (sem o processo de licitação), que dão amparo ideológico ao PSDB e blindam o governo na grande mídia.

Todos esses e mais outros fatos receberam a confirmação do Ministério Público, por investigações de deputados na Assembleia Legislativa e pela imprensa que não tem o bolso preso com os tucanos. Só em Taubaté, o Ministério Público confirmou que o PSDB arrancou 1,7 milhões de reais para financiar a eleição de Ortiz Jr, filho de Bernardo Ortiz, amigo pessoal de Geraldo Alckmin, que até 2013 tinha a chave dos cofres daquela fundação, criada para financiar a educação, mas que...

Olhando de perto a educação de São Paulo não é possível entender porque a grande mídia hoje tem centrado fogo apenas na questão da Petrobras. Se há crimes e estão ocultos naquela poderosa e estratégica estatal, em São Paulo os crimes cometidos contra a educação estão visíveis há 20 anos e não se vê na imprensa denúncias que mostrem a tragédia da escola pública paulista, afetando negativamente 250 mil professores, outros milhares de funcionários, quase cinco milhões de alunos e toda uma população de 40 milhões de habitantes impactados pelo crescimento da violência e criminalidade entre os jovens, fato que pode ser computado ao descaso do governador com a formação da juventude, impossível de ser realizada com uma escola pública intencionalmente funcionando sob frangalhos.

Fala-se tanto em impeachment da presidente Dilma. E o impeachment do médico anestesista (e anestesista social) Geraldo Alckmin, quando é que a grande mídia vai tocar no assunto? Nunca. Afinal fica muito chato investigar os podres de quem lhe enche os cofres e, com tanto dinheiro, coloca um pouco de gás nessa mafiosa organização jornalística que perde a cada dia terreno para a Internet.

Para encerrar, diante de quadro tão desfavorável é sempre bom perguntar: por que as 4500 escolas e os duzentos e cinquenta mil professores paulistas não se revoltam contra tantos desmandos de um governo autoritário, destrutivo e irresponsável?

Silvio Prado

Professor da rede Estadual de Ensino