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terça-feira, 4 de abril de 2017

Fernando Haddad responde ao "João Trabalhador"





A Verdade é Filha do Tempo

Por que a Organização Mundial da Saúde recomendou a todos os prefeitos do planeta que reduzissem a velocidade máxima das vias urbanas?

Porque a CIÊNCIA demonstrou que isso significava menos congestionamentos, menos acidentes, menos poluição e, portanto, mais SAÚDE, física e mental.

Não tenho a menor pretensão de que argumentos racionais façam diferença para aqueles que optaram pelo obscurantismo. Nem acredito que as instituições que servem hoje à politicagem ajam em favor da verdade.

Mas, é bom saber que a ciência, pelo menos no resto do mundo, avança sem fronteiras.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O perigoso Haddad e a Paulista






Estive em São Paulo. Observei várias coisas interessantes desde a saída de Porto Alegre: voos lotados, filas imensas, aeroporto transbordando. Pensei ironicamente: só pode ser a crise. Sei que ela existe e é grave. Bicho está pegando. Fiquei procurando explicação para essa contradição acachapante. Hotel lotado. Saímos com amigos para jantar em São Paulo. Tempo médio de espera numa pizzaria da moda: duas horas. Ouvi a explicação de que a crise não pega parte da classe média. Deve ser isso mesmo.

Estamos bem no fundo do poço.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, é perigoso. Desconfio que seja até comunista. Adotou medidas terríveis que desencadearam a ira de parte dos paulistanos. Diminuiu a velocidade dos automóveis nas marginais e com isso aumentou a fluência do tráfego e reduziu o número de acidentes. Um paradoxo. Lesou os paulistanos no sagrado direito diário ao engarrafamento. Foi acusado de estar na contramão da história, de ser bicho-grilo, de odiar carros e de representar o bolivarianismo atrasado e ideológico. Liberou paredes para grafiteiros. Foi atacado por estimular o vandalismo. Está lindo. Dificilmente Haddad será reeleito. É visto por muitos como o pior prefeito do mundo.

Há eleitores que preferem opções mais gabaritadas e com experiência administrativa como João Doria e José Luís Datena, que desistiu ao descobrir, só agora, que o PP não é santo.

Outra atividade assustadora de Fernando Haddad, que pude comprovar pessoalmente, é o fechamento da imponente avenida Paulista aos carros nos domingos para que se transforme em área de lazer. Virou um terrível parque de diversões com ciclistas, mulheres tomando banho de sol, crianças correndo, músicos tocando e cantando, casais dançando, gente caminhando, correndo e pulando.

Mais uma vez, Haddad foi rotulado de anacrônico e ideológico.

O PSDB, sempre tão moderno e racional, entrou na justiça para tentar desbloquear a Paulista. José Serra foi ao local, num domingo de chuva, para demonstrar que é um desperdício fechá-la.

Fiquei com a impressão que Haddad está mal-informado: não sabe que a Paulista é o coração do capitalismo brasileiro e não pode ter tempo morto, salvo se, quem sabe, for cobrado pedágio dos que a ocupam aos domingos para se divertir infantilmente. Chega a ser humilhante ver a Paulista sem engarrafamento, salvo de bicicletas e gente sem camisa. Onde já se viu humanizar o núcleo trepidante da Pauliceia Desvairada! A ideia de reservar a Paulista para lazer aos domingos é tão ridícula que pretende ser copiada por Paris, que quer reservar a luxuosa Champs-Elysées para “promenades dominicales”.

Haddad propôs também a regulamentação do Uber em termos que serão ótimos para todas as partes, começando com uma consulta popular. A Câmara de Vereadores não pretende deixar passar tamanho absurdo. Voltei de São Paulo aturdido. Se eu morasse e votasse lá, Haddad jamais teria o meu voto. É muito perigoso. Deve ser até comunista. Além disso, até pouco tempo era apenas um poste do Lula. Se a capital paulista continuar com administrações desse tipo, a cidade perderá a sua identidade. É visível que está sendo descaracterizada. Um pouco mais e será um lugar habitável.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Um governo que fecha escolas





O que dizer de um governo que anuncia a política de fechar centenas de escolas em nome da "melhora na gestão do ensino"?

Como alguém diz uma coisa dessas – aliás, um secretário de Estado – sem corar de vergonha? Como se pode chamar isso pelo eufemismo de "reorganização"?

É o mesmo que dizer que vai melhorar a gestão do SUS (Sistema Único de Saúde) fechando leitos hospitalares ou reorganizar o lazer de uma cidade fechando praças e parques. É simplesmente absurdo. Indefensável.

Mas é o que está ocorrendo no estado de São Paulo, por iniciativa do governo de Geraldo Alckmin (PSDB).

Os argumentos oficiais foram trazidos à cena pelo secretário de educação Herman Voorwald e também pela ex-secretária Rose Neubauer. Esta última tem notório saber quando o assunto é "fechar escolas". Em 1995, Rose era secretária de educação no governo Covas e conduziu outra "reorganização", que levou ao fechamento de 150 escolas, mais de 10 mil classes e a milhares de professores demitidos.

O argumento apresentado por eles é de ordem pedagógica. A proposta seria dividir as escolas de acordo com três ciclos de ensino: do 1º ao 5º ano; do 6º ao 9º; e o ensino médio. Assim, os equipamentos escolares poderiam estar melhor adaptados às especificidades de cada faixa etária de estudantes.

Pois bem, suponhamos a validade desse argumento. Agora, que diabos isso tem a ver com fechar escolas?

A resposta dada pelo secretário Herman é que "há uma ociosidade na rede". Ociosidade com 50 alunos por sala? Ociosidade com lista de espera em várias escolas da periferia? A única ociosidade, no caso, parece ser de política educacional no estado de São Paulo.

A "reorganização", se mantida por Alckmin, trará efeitos desorganizadores para a rede pública de educação. Estima-se que mais de 1 milhão de alunos sejam deslocados de suas escolas para outras com até 1,5 km de distância. Muitas crianças e jovens vão sozinhos para a escola dada a proximidade de suas casas. Como ficará agora? O Estado bancará o transporte e garantirá sua segurança? Parece que não.

Além disso, segundo a Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), 155 escolas já foram notificadas quanto ao fechamento e milhares de professores serão demitidos.

Quando somamos o fechamento de escolas com a demissão de professores começam a ficar claros os verdadeiros motivos — nada pedagógicos — da reorganização: dinheiro, dinheiro e dinheiro. Trata-se simplesmente de arrochar as contas do Estado cortando verbas da educação.

É a versão paulista e tucana do ajuste fiscal que tem sido conduzido por Dilma e Levy no governo federal. Adequação a "necessidades pedagógicas" e à "ociosidade da rede" são apenas o blá-blá-blá necessário para encobrir uma política antipopular de ajuste. Cai no embuste quem quer.

Estudantes, professores e pais já começaram a manifestar os primeiros sinais de resistência, com várias mobilizações nas últimas semanas. Têm ocorrido atos praticamente todos os dias em escolas da periferia de São Paulo.

A esperança é que a ampliação dessas manifestações populares faça o governo do Estado recuar da política desastrosa de fazer caixa fechando escolas.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O poder moderador de São Paulo na política nacional



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Desde que os escândalos de 2005 jogaram o governo Lula no canto do ringue, cresceu infrene a mobilização dos setores médios contra ele. Mas, apesar do desgosto com a aproximação dos mais pobres aos seus espaços de sociabilidade exclusiva, protestos como o "Cansei" se esvaziaram rapidamente.

Hoje, entretanto, é nítido que o portão do zoológico se abriu, e a subcultura da extrema direita levou a agressões de todo tipo. O líder do MST não pode ir ao aeroporto, e mesmo policiais militares se sentem à vontade para intimidar professores de uma escola de Sorocaba por discutirem publicamente a obra "Vigiar e Punir", de Foucault. Há ainda os que conseguiram associar a política de mobilidade urbana da Prefeitura de São Paulo a Cuba. Embora seja risível que certas pessoas confundam "ciclista" com "comunista", não deixa de ser preocupante quando o ovo da serpente se insinua.

É verdade que as manifestações desse tipo são de grupos esdrúxulos e tão pequenos quanto eram os separatistas paulistas em 1932. Na Guerra Civil contra Getúlio Vargas, a elite paulista queria retomar a liderança do país, e não se separar dele. Mas, para mobilizar as classes médias, ela foi obrigada soltar as "feras" e, depois, não havia como recolocá-las na jaula.

Seria, no entanto, muito cômodo achar que o extremismo de direita não compartilha um terreno comum com o liberalismo moderado. Em 1938 lá estavam os próceres do constitucionalismo paulista envolvidos na intentona integralista contra Vargas. Em 1964 participaram das marchas contra João Goulart e, hoje, não enrubescem nas manifestações de ódio contra Dilma Rousseff.

Na verdade, depois de perder o poder de que desfrutava na República Velha, a elite paulista se tornou um poder moderador no país. Ela se crê um corpo separado da sociedade, dotado de virtudes únicas e com um direito especial de intervir na vida política quando sente contrariados seus interesses, os quais naturalmente, se confundem com os da nação.

A liderança paulista se cristalizara num território até 1930, mas como a nova centralização política do país não permitia mais a sua direção, o Exército ocupou o seu lugar, pois era a única instituição que operava em escala nacional. Não, contudo, sem se aliar à elite paulista, dotada de indispensável poder econômico e ideológico.

A dominação hoje não se assenta imediatamente nas Forças Armadas, e se erigiu uma sociedade civil muito mais complexa. O desenvolvimento paulista se interiorizou e integrou as fímbrias de outras regiões. Uma enorme classe média do mundo corporativo, baseada em nova tecnologia de difusão de seus pensamentos mais recônditos, tornou-se muito mais influente do que aquela que saiu às ruas em 1964.

Mesmo a elite paulista que nunca obtivera voto adquiriu corpo social. Até anos recentes, ela fora dispensável às classes econômicas fundamentais por não conseguir se livrar da concorrência da "direita popular" herdeira do ademarismo, do janismo e do malufismo. Quando o ademarismo apareceu na cena política, a elite paulista tradicional já vivia o exílio interno da alienação –decerto financiada pelo crescimento econômico.

A participação de São Paulo no PIB nacional teve a sua maior taxa de crescimento nos anos 1940. Enquanto as fábricas Matarazzo não paravam, o conde oferecia recepções em que quatrocentões decadentes e seus poetas de versos domesticados furtavam a prataria de sua mansão da avenida Paulista. O retrato daquelas festas registrado por Joel Silveira no livro "Grã-Finos em São Paulo" mostrou como a velha classe engoliu o preconceito contra o "parvenu" e casou seus filhos em "famiglia".

PSDB
Quem finalmente deu uma base eleitoral à velha direita constitucionalista e liberal foi o PSDB. Mas ele demorou a se definir num campo político. Antes de ser uma alternativa viável, a sua cúpula acalentou a autoimagem de centro-esquerda, apesar de ter surgido de uma mera disputa de espaço no PMDB paulista. Uma vez no poder, o PSDB adquiriu duas características que implantaram sua força numa região ao mesmo tempo em que exibiram seus limites nacionais. Tornou-se um partido de classe (média) e estreitamente ideológico (liberal conservador).

Curiosamente, foi inverso o movimento do seu antípoda paulista, o PT. Embora ambos tenham criticado o legado de Getúlio Vargas por distintas razões, este ampliou sua base social inicialmente restrita aos trabalhadores organizados em sindicatos e se tornou mais plural do ponto de vista ideológico. Hoje o novo sindicalismo é só uma fotografia no gabinete de algum ministério. Já a identidade tucana conseguiu entrincheirar o partido no interior paulista e lhe garantiu o poder estadual desde 1995.

No entanto, aquelas duas características impediram-no de conquistar a Presidência porque, como na Era Vargas, o discurso liberal é incapaz de responder à questão social nas áreas com maior índice de pobreza material. Foram quatro derrotas consecutivas nas eleições presidenciais desde 2002.

"Eppur si muove". Apesar das derrotas, a demonstração de força oposicionista nas eleições de 2014 revela que também o PT chegou a um impasse. A razão disso está em dois processos conjugados. O ciclo econômico recessivo (fenômeno conjuntural) e o modelo petista de conciliação de classes (fenômeno estrutural) não permitiram mais atender os de baixo e os de cima simultaneamente.

Dessa forma chegamos a uma polarização que, por mais teatral que seja, não pode mais ser resolvida neste sistema político. Trata-se do duplo impasse de um grupo que não conquista a maioria eleitoral e outro que não pode mais sustentar sua aliança de classes.

JUNHO

Os protestos de junho de 2013 já antecipavam essa crise. Tanto a esquerda autêntica representada pelo Movimento Passe Livre quanto os conservadores fragmentados com suas demandas dispersas não tinham referência nos partidos. O fato novo de 2015 é que uma novíssima direita paulista sequestrou a técnica de junho e mimetizou até a sigla do MPL, substituindo-a por MBL. Assim, estabeleceu uma cadeia significante de continuidade entre um movimento que demandava mais igualdade e outro que visa o contrário.

É certo que houve um junho em cada região do Brasil. Porém os mapas de influência dos centros urbanos do IBGE confirmam que a Grande São Paulo continua com o maior raio de incidência política, cultural e empresarial na América do Sul. Os valores "paulistas" há muito ultrapassaram suas fronteiras oficiais. O seu espaço não se limita mais ao seu território oficial.

Embora alijada do poder central, a elite política de São Paulo reproduz valores que são hegemônicos na maior parte do país. Ela se apresenta dotada de mentalidade "técnica" porque sua "política" não necessita ser elaborada no partido, mas nas instituições privadas que reforçam sua hegemonia.

Mesmo envolta em escândalos colossais e monopolizando o poder de seu Estado por tanto tempo, a elite "paulista" combate a corrupção e o aparelhamento do Estado. Dessa maneira, simula entrincheirar-se no discurso administrativo, quando na verdade acua seus inimigos num republicanismo que ela mesma jamais seguiu.

Mas, se os valores "paulistas" agora são hegemônicos, significa que eles vão se traduzir em vitória eleitoral? Ao contrário do que parece, o zoológico político em que vivemos não prenuncia isso.

Em primeiro lugar a sua direção política tem um calcanhar de aquiles, como já vimos. A difusão de seus valores não depende do partido. Em segundo lugar, a frustração de sua base eleitoral, que assistiu a seguidas derrotas, engendrou uma radicalização que transborda o leito da política partidária. E, por fim, a destruição de um dos pilares do atual sistema político (o PT) tende a desmoralizá-lo por completo.

Dessa maneira, o seu triunfo ideológico anuncia a sua derrocada. Para derrotar o seu adversário, a direita moderna o interdita. Ao fazê-lo, começa a perder a "direção moral" que exerce na sociedade civil. Em palavras simples: se o PT perde sua função de "eletrodo negativo" da dominação política, ela entra em curto-circuito.

Isso talvez explique a divisão que existe entre a geração mais paciente do PSDB paulista e sua afoita bancada na Câmara dos Deputados. Uns falam o que não desejam –o impeachment– e outros acreditam no que não podem realizar, já que a iniciativa depende exclusivamente do PMDB.

No fundo, os mais experimentados sabem que essa polarização é artificial e eles só querem derrubar o governo se houver acordo de como repartir o butim. Recomenda-se, portanto, que qualquer um que vença pelo voto em 2018 ou por um golpe antes disso seja bem vigiado.

Quando o conde Matarazzo ofereceu a maior festa do Brasil para casar sua filha com um paulista "de verdade", não cometeu o erro de outras recepções. Contratou cem seguranças bem-vestidos. Se um convidado se aproximava de um objeto de valor, sentia um calor incômodo nas costas e se indignava com a desconfiança. Daquela vez, nada foi roubado, e cada um saiu com uma caneta-tinteiro e um broche de lembrança.


LINCOLN SECCO, 46, é professor livre-docente de história na USP e autor de "História do PT" (Ateliê Editorial)

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Direito de ir e vir não é direito de dirigir, diz ativista em mobilidade urbana



Bruno Bocchini - Repórter da Agência Brasil



Diretor da Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade), uma das entidades mais ativas na defesa do uso de bicicletas na capital paulista, Daniel Guth defendeu o desestímulo ao uso de veículos na cidade e o incremento a outros modais de transporte como a bicicleta e o transporte coletivo.

Para ele, a instalação de vias exclusivas de ônibus na cidade, assim como para as bicicletas, a retirada de vagas de estacionamento para carros e o fechamento de rua aos veículos motorizados tem gerado nos motoristas o sentimento de perda de espaço e a falsa sensação da perda de direitos.

“As pessoas estão confundindo o direito de ir e vir com o direito de dirigir. Não pode haver essa confusão. Quando não é permitido a você circular de carro, não está se cerceando o seu direito de ir e vir, você pode muito bem se deslocar, a pé, de bicicleta, de transporte público, uma série de outros modos de transporte. As pessoas confundem, muitas vezes, o direito constitucional de ir e vir com o direito de dirigir”, disse Guth, em entrevista à Agência Brasil, para marcar o Dia Nacional sem Carro, comemorado hoje (22).

A seguir, a íntegra da entrevista:

Agência Brasil: os modais bicicleta e carro não têm como se complementar sem que haja um enfrentamento entre as partes, como hoje vemos em São Paulo?

Daniel Guth: não é que existe um enfrentamento deliberado, do ponto de vista do discurso. Quando você tira uma faixa de estacionamento na rua e coloca uma ciclovia, os motoristas têm visto isso como enfrentamento. Mas isso não é enfrentamento, isso é só uma política de inclusão.

Quem se desloca de automóvel na cidade de São Paulo representa pouco menos de um terço da população, e esse um terço ocupa 80% da via pública. A via pública é para todos, não é só para o automóvel. Um único meio de transporte está ocupando 80% do espaço que é para todo mundo. Isso é chocante, isso é falta de equidade.

Quando você tira um pouco desse espaço para dar a outros modais, que têm tantos direitos ou mais, como diz a legislação, então as pessoas veem isso como enfrentamento. Mas isso tem a ver muito mais com um século de narrativa da indústria automobilística, da publicidade, do que efetivamente um enfrentamento na prática, como você citou.

Tem muito mais a ver com a sensação de perda de direitos que, na verdade, não são direitos, são privilégios. Estacionar na rua nunca foi um direito, sempre foi um privilégio, e um privilégio que a gente tem que aprender a abrir mão. Estacionar na via pública é uma privatização tosca do espaço público. Quando se retira estacionamentos, as pessoas sentem que perderam direito.

Há uma confusão entre direito de ir e vir e direito de dirigir. Não pode haver essa confusão. Quando não é permitido a você circular de carro, não está se cerceando o seu direito de ir e vir, você pode muito bem se deslocar, a pé, de bicicleta, de transporte público, uma série de outros modos de transporte. As pessoas confundem muitas vezes o direito constitucional de ir e vir com o direito de dirigir.

No caso do fechamento de ruas para carros, como ocorre na Avenida Paulista, o debate, em vez de ser feito no sentido de entender que esse espaço tem de ser devolvido às pessoas, que podem usufruir a avenida de outra maneira, as pessoas elas encaram isso como um enfrentamento, como se tivessem perdendo direitos. Isso tem a ver muito mais com uma análise subjetiva, social, cultural, do que com enfrentamento direto, um embate, uma acareação de ideias, de argumentos.

Agência Brasil: há muita resistência dos motoristas?

Guth: não há nenhuma medida de desestímulo ao uso do carro que não seja acompanhada de uma resistência dos motoristas. E não é falta de diálogo, não é falta de argumentos, não é falta de campanhas, é simplesmente o fato de que essas pessoas estão sentindo a perda de privilégios.

Todas as cidades do mundo que entenderam que o modelo “rodoviarista” tem um limite - há um ponto em que a cidade não anda mais porque não há sistema que comporte a quantidade de automóveis - passaram a criar medidas e políticas públicas que, de certa forma, criaram resistências porque tiveram que tirar espaço desse único modal que reinou nas cidades.

Nova York, Londres e Paris passaram por isso, Bogotá passou por isso, Buenos Aires tem passado por isso, a Cidade do México tem passado por isso, e não estou só falando de cidades europeias, estou falando de cidades vizinhas nossas. São Paulo tem de enfrentar isso com serenidade, com argumentação, porque não é uma questão de bicicleta contra o carro, transporte público contra o carro, não.

É uma questão de dar maior equidade àqueles que merecem ser incluídos, aqueles que sempre estiveram marginalizados, e isso significa obviamente tirar espaço do carro. Isso não é um enfrentamento, isso é um processo natural, que tem que acontecer.

Agência Brasil: em que medida o uso da bicicleta pode dar mais acesso à cidade e à cidadania?

Guth: a bicicleta é um veículo porta a porta. Você consegue sair da sua origem e chegar a seu destino com esse único meio de transporte. Isso dá autonomia, garante direito ao deslocamento. É um veículo econômico, não apenas porque é mais barato comprar uma bicicleta, mas também porque a manutenção é mínima, é com a sua própria energia que você vai se deslocar.

Ela não requer nenhuma outra mediação de combustível, a não ser a sua própria energia, o que também garante maior direito à cidade, uma vez que ela pode ser acessível a todos, todos que tenham condições físicas de utilizá-la. Outro elemento importante é a velocidade, a bicicleta traz um elemento importante para a relação com a cidade que é velocidade mais baixa.

Faz com que a pessoa tenha uma relação de maior troca, de maior diversidade de trocas com a cidade, seja com o comércio de rua, seja com as pessoas. Ao pedalar a uma média de 10 a 15 quilômetros por hora, você está muito mais afeito a consumir em uma loja, a parar para cumprimentar alguém, a conversar com as pessoas, a interagir com a cidade de outra maneira, coisa que com outros meios de transporte, no caso o carro, ônibus ou o metrô e trem, você não consegue fazer.

Há vários outros elementos, como promover a saúde, seja para a cidade seja para si mesmo, a sensação de pertencimento e de senso crítico da cidade, Todo mundo que passa a se deslocar de bicicleta naturalmente acaba tendo uma visão mais crítica sobre o meio urbano. Passa a sentir as agruras da cidade de uma maneira mais intensa, seja a violência do trânsito, sejam os cheiros, a falta de infraestrutura, a qualidade do asfalto, a feiura e a beleza da arquitetura. Ou seja, em cima de uma bicicleta você consegue perceber a sutileza dos elementos urbanísticos de maneira muito mais intensa, o que aguça o senso crítico.

Agência Brasil: hoje se comemora o Dia Mundial Sem Carro. Como você avalia as alternativas a esse meio de transporte em São Paulo?

Guth: é um dia de concentração de esforços para mostrar que outra cidade, do ponto de vista da mobilidade, é possível. São Paulo chegou a um esgotamento do modelo “carrocêntrico”, de só nortear as políticas de mobilidade em uma visão exclusivista nesse modelo “rodoviárista”. Um novo paradigma para a mobilidade urbana é necessário, e ele está em curso.

Nós temos o amparo bastante forte de legislações, sejam elas federais, estaduais ou municipais, que colocam a devida prioridade para a mobilidade urbana a partir do transporte coletivo, e depois dos modos ativos de transporte, que são majoritariamente a bicicleta e o pedestre.

Tendo esses marcos legais importantes, a gente entende que a cidade de São Paulo tem feito isso, talvez com um pouco mais de intensidade, e por isso tem gerado mais debates. [A cidade] tem passado a inverter a lógica que sempre foi vigente. E, necessariamente para isso, é preciso desestimular o uso do carro.

São Paulo tem tomado diversas medidas para desestimular o uso do carro, de maneira piloto. Mudanças que precisam ser feitas, como por exemplo a remoção de faixas de estacionamento nas ruas, a criação de mais infraestrutura cicloviária, a criação de corredores e faixas exclusivas de ônibus, a ampliação de calçadas, a retirada de vagas de estacionamento para ampliar as calçadas, para que quem queira caminhar a pé possa fazer isso com conforto e segurança.

O que o Poder Público faz ao dar prioridade ao transporte coletivo, aos modos ativos de transporte, não é nada mais do que seguir o que a legislação já manda. Então, não há nenhuma grande iluminação de um gestor, político ou prefeito. O que há é o cumprimento do que está na legislação. Que precisa ser intensificado.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Após Datena e Russomano, SP terá também Feliciano



Brasil 24/7

A briga pela prefeitura de São Paulo não para de aumentar. Após o apresentador José Luiz Datenaconfirmar que irá concorrer ao páreo, agora é a vez do deputado Marco Feliciano entrar na corrida, pelo PSC. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (31) pelo presidente do partido, o ex-candidato a presidente da República Pastor Everaldo. As informações são do jornal Folha de S. Paulo.

Feliciano é integrante da bancada evangélica e um fervoroso ativista contra o casamento gay. A favor de bandeiras religiosas, como o ensino do criacionismo nas escolas públicas e privadas brasileiras, seu mandato no Congresso é sustentado pelo mote "em defesa da família". "Vamos buscar partidos para aumentar nosso tempo de TV", disse o Pastor Everaldo à Folha.

O PSDB é outro partido que deve passar por prévias para decidir seu nome. O partido já tem quatro pré-candidatos: o empresário e apresentador de TV João Dória Jr. – que já formalizou a pré-candidatura –, o vereador paulistano Andrea Matarazzo e os deputados federais Ricardo Trípoli eBruno Covas.

Também devem disputar a prefeitura o deputado federal Celso Russomano (PRB) e o apresentadorJosé Luiz Datena, que em julho chegou a anunciar que sairia como candidato a prefeito pelo PP, mas hoje afirma que está analisando propostas e ainda não tomou uma decisão.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A revolução por que passa São Paulo

Paulista fechada para veículos aos domingos: 
ousadia que vai virar exemplo para outras cidades
(Foto: André Tambucci/Fotos Públicas)

O papel de São Paulo como centro difusor de cultura é inquestionável. 

Se o Rio ainda é capaz de influenciar alguns padrões de comportamento, São Paulo vai além e exporta tanto seu conservadorismo político como seu vanguardismo artístico, numa aparente contradição de difícil entendimento.

Essa última medida do prefeito paulistano Fernando Haddad é exemplar. 

Sua ousadia de querer fechar para a circulação de veículos a Avenida Paulista, transformando-a, nos domingos, num amplo parque para o lazer da população, certamente fez com que fosse ainda mais odiado por setores que rejeitam mudanças e que querem continuar a viver num Brasil acostumado a uma iníqua desigualdade social. 

São os que gritam, histericamente, "fora PT", "fora Dilma", "fora Lula", pois, para eles, até a social-democracia é uma ameaça aos privilégios seculares a que se aferram.

Há, porém, como se viu na Paulista neste último domingo, ocupada por milhares de pessoas das mais variadas extrações sociais, uma imensa parcela da população que deseja muito mais que a metrópole lhe oferece hoje em termos de lazer, mobilidade, arte, serviços básicos...

Haddad, pode-se dizer, descobriu a roda.

O impacto dessas medidas que vem tomando - criação de uma malha cicloviária, ampliação das faixas de ônibus, redução da velocidade dos veículos nas vias públicas, instalação de equipamentos culturais na periferia, adoção de novo plano diretor etc -, algumas aparentemente simples, é extraordinário para a concepção de uma cidade que atenda minimamente as necessidades de seus moradores.

E mais: elas representam uma revolução urbanística que será notada brevemente, já que serão inevitavelmente replicadas em outras comunidades Brasil afora.

Como disse no início desta croniqueta, a influência de São Paulo no resto do país é enorme.

Daqui a pouco tempo haverá, nos fins de semana, um monte de Avenidas Paulistas, ou "ruas de lazer", por todo o país.

Assim como muitas cidades começarão a construir ciclovias, ampliarão os quilômetros de faixas de ônibus, reduzirão a velocidade máxima de suas ruas...

O processo evolutivo da civilização é assim mesmo, dialético, feito de embates, de brigas e discussões.

Nesse sentido, Haddad é uma benção para o Brasil, além de ser o mais que necessário contraponto para o conservadorismo radical do governador do Estado.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A guerra primitiva dos paulistanos contra a bicicleta e contra o progresso


Punido por tentar tirar SP do atraso




Você mede hoje o avanço social de uma grande cidade pelas bicicletas.

Quanto mais ciclistas, mais avançada.

Copenhague e Amsterdã são modelos mundiais.

Londres, Nova York e Paris se empenham tenazmente para aumentar o número de bicicletas nas ruas e reduzir o de carros.

São Paulo, miseravelmente, ficou para trás, por conta de administrações ineptas como a de Serra.

E quando aparece enfim um prefeito disposto a corrigir um atraso humilhante ele é recebido não com aplausos – mas com uma camada selvagem de resistência.

Um dia vamos tentar entender como São Paulo se tornou uma cidade tão infestada de pessoas que abominam inovações e mudanças.

O túmulo do samba se converteu no túmulo das novidades.

Um episódio simbólico ocorreu neste domingo, quando Haddad, de bicicleta, inaugurava uma ciclovia. Um casal de patetas imobilizou sua bicicleta e proferiu insultos. Sinal dos tempos, as mulheres dos desvairados se tornaram cúmplices. Antes, sensatas, elas eram um contraponto a maridos encrenqueiros. Agora, contribuem para o incêndio.

Haddad não inventou a roda. Estava na cara, quando ele assumiu a prefeitura, que o maior drama da cidade era a mobilidade.

Se antecessores como Serra e Kassab não viram isso é porque a incompetência deles é desumana.

Haddad viu, portanto, o óbvio.

E agiu.

Sob o estímulo de uma mídia cujo cérebro estacionou no século passado, os donos de carros começaram a criar problemas sobre problemas.

É como se a cidade pertencesse a eles.

Em sua cegueira egoísta, não se deram conta de que a diminuição dos carros nas ruas seria um bem para todos.

Haddad teve a explicar a jornalistas ignorantes como o professor Villa que primeiro você tem que abrir ciclovias para depois aparecerem e se multiplicarem os ciclistas.

Nas eleições municipais do ano que vem, é possível que Haddad seja punido por ter tentado tirar São Paulo do primitivismo em termos de bicicletas.

Mas a história da cidade reconhecerá nele um espírito sintonizado com o sue tempo.

Pois não é possível que, indefinidamente, os paulistanos serão cobertos pelo grau de obtusidade e reacionarismo que é hoje a marca de uma metrópole que foi sempre tão dinâmica e aberta a novas ideias.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

No acordo com o PCC, o tabu da grande chacina de maio



Luis Nassif

O Estadão de hoje publica uma bela reportagem de Alexandre Hisayasu sobre o acordo celebrado em 2006, entre o estado de São Paulo e o PCC. Não foi acordo: foi rendição.

A reportagem faz um balanço das vítimas do PCC: 23 PMs, 7 policiais civis, 3 guardas, 8 agentes penitenciários, 4 civis e 107 supostos criminosos. Faltaram mais de 600 inocentes nessa conta.

Descreve os encontros entre os dois secretários do governo paulista - Saulo de Castro Abreu, da Segurança, Nagashi Furukawa, da Administração Penitenciária - com Marcola e como, depois do encontro, cessaram os ataques.

Antes disso, Marcola tinha dois pedidos: autorizar visitas no Dia das Mães e permitir que os detentos pudessem falar com seus advogados. Saulo preferiu partir para o enfrentamento. Terminou rendendo-se aos fatos e aceitando o acordo.

A reportagem para por aí, para não entrar no terreno minado do maior massacre da história de São Paulo, que ocorreria nos dias seguintes por determinação expressa do Secretário Saulo de Castro Abreu.

O então governador Cláudio Lembo certamente irá se lembrar de um encontro que tivemos no Palácio dos Bandeirantes. Ele havia demitido Nagashi e reforçado o poder de Saulo. Fui até o Palácio e alertei que Saulo estava fora de si. O alucinado Saulo invadira a Assembleia Legislativa acompanhado de dezenas de PMs; ameaçara de prisão o dono de um restaurante, meramente por não conseguir estacionar seu carro.

Contei-lhe das conversas que tivera com Nagashi e o Secretário de Justiça Alexandre Morais. Ambos relataram que reuniam-se com Alckmin para traçar a política de segurança. E as reuniões foram interrompidas pela radicalização de Saulo, transformando as discussões em questões pessoais. Em vez de enquadrar Saulo, Alckmin optou por interromper as reuniões e, com isso, esfacelou o sistema de segurança do estado. Os criminosos eram presos, ficavam sob a guarda da Secretaria de Administração Penitenciária, mas as investigações tinham que ser conduzidas pela Secretaria de Segurança. E Saulo considerava-se rompido com Nagashi e nada fazia.

Foi em vão. Lembo não estava a par. Disse-me que a informação que recebera era a de que Saulo era eficiente e Nagashi muito mole. Naqueles dias trágicos, Saulo tornou-se seu principal interlocutor.

Foi o período em que PM saiu às ruas das periferias de São Paulo e da Baixada Santista com os rádios desligados para não serem acessados por jornalistas, com a missão de matar qualquer vulto que se movesse. Foram mais de 600 assassinatos em poucos dias. A raiva não foi despejada em membros do PCC, mas - na maioria absoluta dos casos - em jovens inocentes de periferia, estudantes indo para as escolas. Assassinaram a sangue frio até uma jovem cujo parto estava marcado para o dia seguinte.

Foi um espetáculo dantesco, mil vezes pior que o massacre de Carajás.

Homens encapuçados, em motos, alvejavam as pessoas. Em seguida, apareciam viaturas da polícia para destruir as provas. Os corpos eram encaminhados ao IML (Instituto Médico Legal) para as provas finais serem destruídas em laudos inconclusivos.

A matança só cessou quando bravos procuradores federais e médicos do Conselho Regional de Medicina correram para o IML para acompanhar os laudos. A experiência com os mortos da ditadura demonstrava que o laudo era a peça central para a abertura de inquéritos. Ao chegarem no IML, os médicos se depararam com dezenas de cadáveres com tiros na nuca, nas costas, em clara comprovação de execução. Assim que assumiram a vigília o número diário de corpos caiu de uma centena para menos de dez.

Aqui, o Blog criado pelas mães de maio para denunciar o massacre: http://maesdemaio.blogspot.com.br/2011/11/mestrado-denuncia-massacre-de-maio-de.html

Nada foi apurado pelo Ministério Público Estadual, pela Justiça de São Paulo, pela imprensa paulista. Uma brava procuradora federal levantou o caso enviou para Brasilia, para federalizar a apuração. O Procurador Geral Rodrigo Janot sentou em cima do caso, que não anda.

Restaram apenas os lamentos e as denúncias das mães de maio.





Datena candidato? É a barbárie!


Na semana passada, a Folha tucana especulou com a possibilidade de José Luiz Datena, apresentador do programa “Brasil Urgente”, da Band, ser candidato à prefeitura de São Paulo em 2016. Segundo o jornal da famiglia Frias, que não dá ponto sem nó, três legendas já teriam procurado o jornalista, que se tornou celebridade com as suas atrações policialescas e sensacionalistas. Sua candidatura também teria a simpatia do governador Geraldo Alckmin (PSDB), que fará de tudo para desalojar o petista Fernando Haddad da prefeitura da mais importante capital do país. Vale conferir alguns trechos da matéria de encomenda, publicada nesta quarta-feira (22) e assinada por Daniela Lima, que evidencia como será pesada a disputa eleitoral do próximo ano:

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Três dos maiores partidos do país tentam fazer com que José Luiz Datena troque a apresentação do programa Brasil Urgente, da Band, pelo horário eleitoral. Líderes do PSDB, PSB e PP disputam nos bastidores a filiação do âncora, para fazer dele candidato à Prefeitura de São Paulo. Nas últimas semanas, Datena teve um jantar com o vice-governador Márcio França, que é presidente estadual do PSB. Em outra frente, foi convidado para duas reuniões no Palácio dos Bandeirantes, uma delas com o governador Geraldo Alckmin. Na primeira ocasião, conversou com dois secretários do tucano sobre o cenário político. Depois, voltou à sede do governo para uma reunião privada com Alckmin, que há meses diz nos bastidores que gostaria de lançar "um nome novo" na capital.

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Ainda de acordo com a reportagem, o apresentador admitiu estar “propenso a aceitar” a candidatura. “Realmente fui sondado e passei a analisar se vale a pena. Quem sabe não posso ajudar? Eu sou honesto. Não sou vagabundo e não roubo, ao contrário do que existe por aí. E mesmo que eu decida sair, só vou me filiar no tempo certo. Dois ou três dias antes de esgotar o prazo”, afirmou. No seu jogo de especulação, a Folha tucana ainda testa as hipóteses. “A ida do apresentador para o PSB poderia liquidar as chances de a senadora Marta Suplicy (sem partido) se filiar à sigla para concorrer à Prefeitura. O partido passou a procurar opções depois que a ex-petista adiou sua filiação por duas vezes e fez acenos ao PMDB”.

A própria especulação sobre a candidatura de José Luiz Datena confirma a onda conservadora que assola o Brasil. Nas eleições do ano passado, vários nomes ligados aos programas policialescos de rádio e televisão foram eleitos para a Câmara Federal. Eles ganharam projeção midiática explorando o preconceito e o ódio, estimulando os piores instintos. Nos primeiros seis meses de legislatura, eles se uniram aos fundamentalistas e aos barões do agronegócio, compondo a famosa “bancada do BBB” – Bala, Bíblia e Boi. No parlamento mais reacionário desde o fim da ditadura militar, esta turma da pesada tem pregado posições ultradireitistas, que beiram o fascismo. José Luiz Datena é um expoente desta regressão civilizatória, desta barbárie.

Bolsonaro e a onda conservadora

Esta ameaça atemoriza até mesmo um colunista da própria Folha. Em texto publicado na quinta-feira, Bernardo Mello Franco comparou o âncora da Band ao bilionário Donald Trump, que recentemente anunciou sua candidatura à presidência dos EUA. “Sem serem políticos tradicionais, eles investem no carisma pessoal, no discurso conservador e na imagem de que podem resolver tudo sozinhos, acima dos partidos e das instituições. Datena, o locutor policial, apela ao medo da violência e do caos urbano. É capaz de narrar um roubo de galinha como o crime do século, ou um engavetamento na Marginal como o novo 11 de Setembro. Com estilo agressivo, os dois encarnam o populismo de direita que prolifera na tevê aberta e nas redes sociais. Parecem estar sempre indignados, mas só atacam os elos mais fracos da sociedade, nunca a elite ou o sistema. São revoltados a favor”.

Talvez embalado por esta onda conservadora, o deputado fascista Jair Bolsonaro (PP-RJ) anunciou neste final de semana que exigirá que o seu nome seja incluído nas próximas pesquisas de opinião pública sobre as eleições presidenciais de 2018. “Peço que contatem os institutos de pesquisa e solicitem manter (e incluir) meu nome nas próximas pesquisas. Estamos no G-4”, afirmou o patético parlamentar ao jornalista Ilimar Franco, do jornal O Globo. Ainda segundo o repórter, o agressivo deputado disse já contar com o apoio à sua candidatura de vários grupelhos direitistas, como o “Movimento Brasil Livre”, o “Revoltados Online” e o “S.O.S. Forças Armadas”, que organizaram as recentes marchas golpistas pelo impeachment de Dilma e pela volta dos militares ao poder. É pura barbárie!

domingo, 5 de julho de 2015

Sobre intolerâncias




Guido Mantega

A muito custo o Brasil conseguiu construir uma democracia sólida, com instituições fortes e ampla participação popular. Na democracia convivem análises, percepções e posições diferentes. Essa é uma disputa entre forças que tonifica a política e engrandece a sociedade.

Manifestações e protestos são partes integrantes do regime democrático. O contraditório é sempre necessário e muito bem-vindo, estimula o debate e constitui um avanço para o país. A democracia criou mecanismos e instituições que permitem esse debate e garantem a pluralidade de ideias, um pilar que vem sendo erguido há 30 anos.

O Brasil, no entanto, parece caminhar em terreno perigoso. Há algo diferente no ar. Algo que ameaça essa pluralidade. Trata-se do fantasma do autoritarismo, raiz de golpes, que, infelizmente, se manifesta de forma corriqueira, sempre pronto a agir no dia a dia das pessoas.

Atitudes autoritárias podem ocorrer no trânsito, na porta de uma escola, num museu, num hospital ou num restaurante. Não é porque a democracia está consolidada que devemos descuidar dela. Nós, cidadãos, temos que regar essa planta frágil todos os dias --o que nem sempre tem acontecido.

O aumento da intolerância tem provocado atitudes antidemocráticas praticadas por cidadãos que se acham acima do bem e do mal. Alguém escreveu esses dias que o brasileiro está deixando de ser cordial. No Rio, uma pedra foi atirada na cabeça de uma menina de apenas 11 anos por intolerância religiosa.

Eu mesmo, em episódios que nem de longe têm a mesma gravidade, tenho sido alvo de uma intolerância que extrapola o limite da convivência e o direito à liberdade.

Quem é a principal vítima? A menina? O ex-ministro? Não. A vítima é a democracia. Não podemos permitir que essa intolerância se instaure na sociedade brasileira, sob pena de estarmos nos descuidando do mais precioso dos bens.

É oportuna a advertência do teólogo protestante alemão Martin Niemöller diante da escalada do autoritarismo. "Primeiro perseguiram os socialistas, e não protestei porque não era socialista. Então perseguiram os sindicalistas, e não protestei porque não era sindicalista. Então perseguiram os judeus, e não protestei porque não era judeu. Então vieram atrás de mim, e não tinha sobrado ninguém para falar por mim."

Não podemos nos permitir acordar tarde demais para essa realidade. Na França, o ataque ao jornal satírico "Charlie Hebdo" fez com que as pessoas adotassem prontamente, em repúdio à intolerância, o lema "Je suis Charlie". Nos EUA, o presidente Barack Obama se engajou no repúdio ao massacre racista em um templo religioso.

Se deixarmos nos apedrejar, física ou moralmente, daqui a pouco estaremos diante de um Estado fascista. O fascismo, como bem definiu Hannah Arendt, nasceu muito antes de sua existência formal.
Não podemos permitir que se instaure entre nós esse espírito autoritário. Atitudes como essas são perniciosas para o convívio democrático na sociedade brasileira.

Qualquer cidadão tem o direito de discordar do que fiz como ministro da Fazenda, mas no terreno das ideias, do debate. A agressão, a injúria, a difamação são inaceitáveis e devem ser respondidas dentro da lei.

Em nove anos à frente do Ministério da Fazenda, esforcei-me para aumentar o emprego e expandir a produção do país, mesmo num cenário de grave crise internacional, que aliás ainda não acabou.
O resultado foi que o PIB cresceu, a renda subiu e a situação dos brasileiros, ricos ou pobres, melhorou. Apesar dos problemas que nós e outros países enfrentamos, o Brasil deu um salto de qualidade e nos tornamos a sétima economia do mundo.

O Brasil passa hoje por problemas conjunturais que podem perfeitamente ser superados com determinação do governo e da classe política. O país continua sólido para enfrentar qualquer turbulência internacional, como a que pode ser provocada pela Grécia.

Temos US$ 370 bilhões em reservas, somos credores do FMI, nossa dívida externa é pequena, nosso sistema financeiro é saudável e temos um dos maiores mercados consumidores do mundo, que continua atraindo investimento.

Ninguém é obrigado a concordar com essas análises e perspectivas, mas temos que nos manifestar de acordo com as regras democráticas, além de dizer não ao autoritarismo.



GUIDO MANTEGA, 66, economista, é professor da Escola de Economia de São Paulo, da FGV. Foi ministro da Fazenda (governos Lula e Dilma) e ministro do Planejamento (governo Lula)

domingo, 21 de junho de 2015

Um prefeito necessário






Só agora, com Haddad, São Paulo se concentra em si mesma como cidade carente de ações que a direcionem para um novo modo de vida 

São Paulo tem, hoje, o prefeito que deveria ter conhecido há mais de uma década. A engenharia antiurbanística da ditadura militar, que se apresentava como solução para o futuro, era, na verdade, um atraso de vida, uma obsessão viarista de olhos fechados para a qualidade de vida na cidade. 

As administrações de Luiza Erundina (1989-93) e Marta Suplicy (2001-05) se voltaram para realizações sociais, mas não exatamente citadinas. José Serra (2005-06) e Gilberto Kassab (2006-2013) deixaram correr solto o barco da urbe neoliberal. E perdemos tempo. 

Só agora, com Fernando Haddad, São Paulo se concentra em si mesma como realidade socioespacial específica, carente de ações que a direcionem para um novo modo de vida. Haddad entrou em campo muito mal, cambaleante, quase ferido de morte por seus supostos companheiros. 

Ainda durante a campanha eleitoral, a novidade que ele pretendia encarnar foi desfigurada impiedosamente por uma aliança oportunista com Paulo Maluf, que foi obrigado por Lula a fazer. 

Em seguida, Dilma o humilhou publicamente, obrigando-o a recuar numa decisão sobre aumento do preço da passagem de ônibus. Haddad parecia um perdido, um sujeito que seria manobrado facilmente em qualquer direção determinada por seus superiores na hierarquia política (ou partidária) brasileira. 

Mas não é isso o que vem acontecendo. Haddad descobriu, em tempo, que a saída era ser ele mesmo. E tirar partido, inclusive, da distância e do isolamento com relação aos ditames tantas vezes estreitos do PT. Sim, há momentos em que a solidão política é boa conselheira. Até porque o pensamento de Haddad encontrou uma "ecologia" favorável para medrar. 

Era cada vez maior o número de paulistanos convencidos de que a cidade precisava buscar soluções fora da cartilha de sempre, encarando a questão da mobilidade urbana e discutindo sem temor o beco sem saída automobilístico, com todas as suas implicações ambientais. 

É certo que esses paulistanos abertos para as novas soluções constituem ainda uma minoria --e não tão barulhenta quanto a dos proprietários de automóveis individuais. O que significa que Haddad se move, ao mesmo tempo, numa conjuntura mental propícia, mas minoritária. 

A situação cultural e política é complicada. Se é cada vez maior o número dos que aceitam a vantagem ambiental da cidade compacta e a mescla programática de classes sociais no espaço citadino, assim como o retorno ao centro, persistem, na contramão, tabus arraigados, signos de status, falsos direitos adquiridos. E a batalha é pesada. 

Mas Haddad entendeu três coisas fundamentais. Que teria de trabalhar com dificuldades orçamentárias, sem esperar qualquer solidariedade federal. Que teria de repensar e rediscutir o sentido desta cidade em maré adversa, enfrentando os preconceitos do conjunto da população, sem contar com a boa vontade da mídia. E deixar taticamente de lado o projetismo tipo "Arco do Futuro" em favor de um realismo mais pedestre, no horizonte do possível. 

Não teremos mais de levar utopia alguma à sociedade. A sociedade é que se verá obrigada a entender que a cidade ideal, agora, está se fazendo cidade necessária. 


ANTONIO RISÉRIO, 61, antropólogo e urbanista, é autor de "A Cidade no Brasil" (Editora 34)

quinta-feira, 18 de junho de 2015

A virada civilizatória de Haddad






O prefeito Fernando Haddad segue hoje uma agenda própria, que confronta tabus de São Paulo, como o protagonismo do carro 


É difícil hoje alguém ter a coragem de contestar o fato de que as cidades precisam encontrar novas soluções para o deslocamento em massa, e deixar de construir mais viadutos e túneis. Elas precisam de soluções que não consumam tanto petróleo, que não poluam tanto o ar, que não induzam à impermeabilização do solo e que não gerem tanto congestionamento. 

Em São Paulo, nem os maiores opositores da gestão de Fernando Haddad podem negar o fato de que as ações do prefeito estão orientadas para o interesse coletivo, em termos tanto sociais como econômicos e ambientais. 

Os 358 km de novas faixas exclusivas de ônibus em São Paulo são ações evidentes nessa direção, assim como os 78 km de ciclofaixas recentemente instaladas (a previsão é chegar a 400 km até o final de 2015). A considerável melhora na avaliação do prefeito pela população é sinal claro dessa consciência. 

Diferentemente do que se costuma pensar, a bicicleta pode ser, sim, uma modalidade significativa no transporte da cidade. Isso porque 25% do congestionamento que temos hoje se deve a percursos curtos feitos de carro --menos de 3 km. Mas a bicicleta não é só um meio de transporte menos poluente e mais compacto: sobre ela temos maior empatia com o entorno. 

As ações de Haddad se conectam com as recentes mudanças de comportamento. Existe atualmente uma tendência de abandono das regiões suburbanas (como Alphaville e Granja Viana) e de volta para as áreas mais centrais da cidade. 

Além disso, o carro vem deixando de ser um bem de consumo imprescindível para as novas gerações, e os espaços públicos passaram a ser mais utilizados e reivindicados pela população, de par com as intensas mobilizações em prol do transporte público como um "direito à cidade". 

Daí a tônica do novo Plano Diretor, que procura conectar as ações de mobilidade ao adensamento populacional nesses eixos de transporte, diminuindo a distância entre moradia e trabalho e restringindo o número de vagas de garagem nessas áreas. Isso porque, ao contrário do que ocorre na maior parte do mundo desenvolvido, a nossa legislação até agora exigia números mínimos de vagas, e não máximos. 

Outros exemplos positivos da gestão Haddad podem ser citados, como o IPTU progressivo sobre os imóveis vazios, a inauguração das duas primeiras centrais mecanizadas de triagem de resíduos sólidos e a ampliação da coleta seletiva do lixo. Há também o apoio aos moradores da cracolândia por meio de um programa que associa saúde, emprego, moradia e assistência social. 

A defesa dessas posições não deve ser confundida com uma campanha eleitoreira. Boa parte da independência das ações da prefeitura se deve, a meu ver, ao próprio isolamento de Haddad dentro do PT. 

Visto com má vontade pela mídia, dispondo de baixo Orçamento, engessado pela progressiva judicialização da política e menos comprometido com a "realpolitik" do seu partido, o prefeito não viu outro caminho que não o de seguir a sua própria agenda. Uma agenda que confronta tabus cruciais da nossa sociedade, como o protagonismo do carro na cidade. 

Haddad, no entanto, não faz um voo solo. Caso raro entre nós, é um político que concilia ações imediatas e cirúrgicas com uma visão abrangente e de longo prazo. É, portanto, um ator de ponta na política, assumindo uma liderança em decisões estratégicas na linha de outros prefeitos de grandes metrópoles, de espectros políticos variados, como Nova York, Medellín e Bogotá. 

Quando a política parece estar submetida à hegemonia do marketing, como um reality show de estatísticas e de pesquisas construídas de maneira autogerada e pouco refletida, vejo a coerência contundente de Haddad com grande admiração. Não me espantarei se esses anos ficarem marcados na história como um ponto de virada civilizatória em São Paulo. 


GUILHERME WISNIK, 42, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, foi curador da 10ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, em 2013

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A situação escandalosa dos professores do Estado de São Paulo



Do professor Silvio Prado

Por que os professores não se revoltam?

Os salários são ofensivos e desrespeitosos. As condições de trabalho são incrivelmente estafantes e detonam o professor já no primeiro semestre. No segundo semestre, o professor busca ânimo em alguma força desconhecida para ver se chega inteiro até dezembro. Ufa, que luta insana!

Sobre a violência que circunda a maioria das escolas estaduais paulistas e explode inclusive dentro da sala de aula, ela é tão escandalosa e rotineira que a imprensa, mesmo sendo tucana e financiada por verbas da FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação), não consegue escondê-la como gostaria o governador Geraldo Alckmin.

Difícil a escola que não tenha professor ou funcionário agredidos fisicamente, pois agressão moral e verbal professores e funcionários sofrem todo o dia. Devido a esse massacre moral, não é por acaso que em São Paulo um número elevado de professores vivem largados à depressão, sem cuidado algum do estado, responsável direto pelo acréscimo desmedido de profissionais doentes.

No riquíssimo estado paulista (204 bilhões de reais é o orçamento de 2015), o caos toma conta do setor mais importante para o desenvolvimento social e econômico do país, a educação.

Nela, encontramos professor com mais de duas décadas de ensino tendo um mínimo de aulas e sob salário miserável, deteriorando suas condições materiais de vida e zerando seu ânimo para trabalhar em sala de aula.

Milhares de outros professores estão na humilhante categoria O, chantageados (e sacaneados) moral e profissionalmente pela politica irresponsável de um governo que em vinte anos mexeu e remexeu na educação e a ela nada acrescentou de positivo.

Aqui na região de Taubaté, Vale do Paraíba, encontramos professores trabalhando em até 4 escolas, recheados de aulas picadas, horários que se chocam, gastos escandalosos com combustível , alimentação, saúde sendo destruída.Alguns outros amargam, da residência ao local de trabalho, entre ida e volta, até 160 quilómetros de distância e ainda são castigados com o pagamento de pedágios, como acontece com quem sai de Taubaté para lecionar no bairro do Cedro, na distante cidade de Paraibuna.

Dentro do quadro macabro desenhado por Mario Covas, José Serra e Geraldo Alckmin encontramos o drama do funcionário adoecido e que não recebe do estado sequer uma aspirina como socorro imediato. Da rotina do professor doente podemos extrair histórias dignas de Kafka. Professores de educação física, com artrose comprovada por laudo médico, obrigados a dar aula como se estivessem em condições físicas ideais. Outros professores doentes, devido ao desmonte do sistema de perícias médicas, viajam 1400 km para serem periciados. Sabe-se de professores comprovadamente destruídos física e moralmente que, depois de gastar o que não tinham nas mãos de médicos particulares, ou de sofrer humilhações permanentes nas filas do IAMSP, mesmo não curados se viram obrigados a voltar para a sala de aula.

Num outro quadro de sofrimento e descaso, São Paulo tem hoje de cinco a dez mil professores com direito a aposentadoria humilhados numa espécie de fila indiana que não se sabe onde começa e nem termina. E a aposentadoria tão sonhada nunca chega para, finalmente, livra-lo do campo minado da escola pública, algo, antes que os tucanos transformassem num pesadelo, era para o magistério um sonho tão bonito.O clima da educação de São Paulo vive marcado pela insegurança, caos administrativo, mão dura implacável do secretário da educação e do governador, queda na qualidade de ensino, escola divorciada dos interesses estratégicos da sociedade, assédio moral adotado como prática administrativa dos negócios do ensino.Tudo isso tem consequências graves, como produção massiva de analfabetos funcionais, um nivelamento cultural primário e o despreparo intelectual e politico da juventude paulista, hoje refém das perniciosas ideias neoliberais assumidas por um Estado que foge de seu papel social transformador e se adequa aos interesses que não são os da população.

Vejam que aqui nem foi tocada na questão da tal FDE, cofre de 3,5 bilhões de reais arrombados faz tempo por inúmeras gangs de engravatados ligadas ao mundo de negociatas tucanas.Compras superfaturadas,reformas de prédios escolares com preços estratosféricos, destruição criminosa de material didático, assinaturas de jornais e revistas (sem o processo de licitação), que dão amparo ideológico ao PSDB e blindam o governo na grande mídia.

Todos esses e mais outros fatos receberam a confirmação do Ministério Público, por investigações de deputados na Assembleia Legislativa e pela imprensa que não tem o bolso preso com os tucanos. Só em Taubaté, o Ministério Público confirmou que o PSDB arrancou 1,7 milhões de reais para financiar a eleição de Ortiz Jr, filho de Bernardo Ortiz, amigo pessoal de Geraldo Alckmin, que até 2013 tinha a chave dos cofres daquela fundação, criada para financiar a educação, mas que...

Olhando de perto a educação de São Paulo não é possível entender porque a grande mídia hoje tem centrado fogo apenas na questão da Petrobras. Se há crimes e estão ocultos naquela poderosa e estratégica estatal, em São Paulo os crimes cometidos contra a educação estão visíveis há 20 anos e não se vê na imprensa denúncias que mostrem a tragédia da escola pública paulista, afetando negativamente 250 mil professores, outros milhares de funcionários, quase cinco milhões de alunos e toda uma população de 40 milhões de habitantes impactados pelo crescimento da violência e criminalidade entre os jovens, fato que pode ser computado ao descaso do governador com a formação da juventude, impossível de ser realizada com uma escola pública intencionalmente funcionando sob frangalhos.

Fala-se tanto em impeachment da presidente Dilma. E o impeachment do médico anestesista (e anestesista social) Geraldo Alckmin, quando é que a grande mídia vai tocar no assunto? Nunca. Afinal fica muito chato investigar os podres de quem lhe enche os cofres e, com tanto dinheiro, coloca um pouco de gás nessa mafiosa organização jornalística que perde a cada dia terreno para a Internet.

Para encerrar, diante de quadro tão desfavorável é sempre bom perguntar: por que as 4500 escolas e os duzentos e cinquenta mil professores paulistas não se revoltam contra tantos desmandos de um governo autoritário, destrutivo e irresponsável?

Silvio Prado

Professor da rede Estadual de Ensino

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Haddad, ao 247: mudar é valorizar o espaço público



SP 247 - A julgar pelos índices atuais de popularidade, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, está bem distante de sua reeleição, em 2016. A despeito disso, ele mantém o otimismo e aposta que o eleitor irá enxergar as transformações em curso na cidade de São Paulo.

"Nossa gestão mudou o paradigma. Tudo o que é espaço público está sendo ocupado na cidade. Pelo público. Tem um conceito que perpassa toda a administração: é a reapropriação do público pela cidadania. A praça wi-fi é isso, a ciclofaixa é isso, a faixa exclusiva de ônibus é isso, a comida de rua é isso, o carnaval de rua é isso. Agora, dois anos não mudam o que se fez nos últimos 50 anos. Mas minha aposta é que as pessoas compreenderão que uma nova cidade está sendo forjada", disse ele, em entrevista aos jornalistas Leonardo Attuch e Marco Damiani.

No encontro, ele manifestou seu receio diante da negação da política e defendeu o PT. "Não me vejo em outro partido. O militante do PT empunha as bandeiras que eu considero mais modernas, que são o combate à desigualdade e à intolerância", afirmou. Ele também condenou o financiamento privado de campanhas políticas e comentou a eventual volta de Lula em 2018. "Se ele o fizer, terá o entusiasmo dos petistas e de muitos não-petistas".


Confira, abaixo, a íntegra:

247 - Depois de enfrentar resistência para implantar faixas exclusivas de ônibus, o sr. se vê diante da oposição às ciclofaixas. Qual é sua posição a respeito?

Fernando Haddad - As ciclofaixas vivem exatamente o mesmo tipo de campanha que as faixas de ônibus viveram no início da gestão. É um período de acomodação. Daqui a pouco, as pessoas percebem os benefícios e isso se resolve. Hoje, ninguém mais fala das faixas de ônibus e foram 360 quilômetros. Isso, sim, com um impacto gigantesco na cidade.

247 - Qual é o seu balanço sobre as faixas de ônibus?

Haddad - Houve um aumento de 46% na velocidade dos ônibus. O usuário ganhou 38 minutos por dia. Eu acredito que não haja precedente histórico nisso: devolver, em média, 38 minutos/dia ao trabalhador. As ciclovias vivem o mesmo momento, mas com uma incompreensão maior, porque essa mudança é mais transformadora.

247 - Como assim?

Haddad - A ciclovia dialoga com outras dimensões da vida. Dialoga com a agenda da saúde, do esporte, do meio ambiente – e não apenas com a questão da mobilidade. Ela atinge vários setores.

247 - Mas muitos criticam a pouca utilização e também o custo de implantação.

Haddad - Não haverá plena utilização enquanto toda a malha não estiver instalada. Há quem diga que só será plenamente utilizada quando atingir mil quilômetros de malha. Eram 60 quilômetros quando eu assumi e hoje são 230. Vamos chegar a 500 até o fim do meu mandato.

247 - Há quem diga que a topografia de São Paulo, com subidas e descidas, não é adequada para o uso das bicicletas, assim como o clima.

Haddad - Várias cidades têm subida e descida. É o caso, por exemplo, de São Francisco, que tem uma das maiores malhas cicloviárias do mundo. Eu consultei vários especialistas com a seguinte questão: 'o que vem primeiro, o ciclista ou a ciclovia?'. Todos são unânimes em dizer que a ciclovia vem primeiro, com excecão do cicloativista que é uma figura à parte nesse processo. O cicloativista é o pioneiro que toma risco, em defesa da causa.

247 - Muitos estavam morrendo...

Haddad - Pois é. Se você for a Buenos Aires, o prefeito Macri tem excelentes níveis de aprovação e as ciclovias são tão ou menos utilizadas do que em São Paulo. Estivemos lá recentemente e ele nos disse que as pessoas querem ter à disposição a ciclovia. É um serviço a mais.

247 - Mas pegou na classe média a acusação feita por Veja São Paulo sobre o custo de R$ 650 mil por quilômetro.

Haddad - Bom, mas é uma acusação falsa, com falhas aritméticas. Dei várias entrevistas demonstrando isso. Misturavam outras obras, como o aterramento de fios na Paulista, a reforma semafórica na Faria Lima, como se isso fosse o custo da ciclofaixa.

247 - Má-fé?

Haddad - Acredito que não, mas talvez essa ânsia de escandalizar, de querer dizer que ninguém presta.

247 - Essa política sofre um cerco midiático?

Haddad - Pode até ser, mas a pesquisa mostra que 66% dos paulistanos aprovam a mudança. Podem até tentar, mas não vão conseguir mudar essa percepção. As pessoas querem esse serviço e querem se conectar com a modernidade. Além disso, mandamos todas as planilhas para os tribunais demonstrando que o custo é de R$ 185 mil por quilômetro e não de R$ 650 mil.

247 - Mas a classe média não se sente mais espremida, ao se ver entre a ciclofaixa e a faixa exclusiva de ônibus?

Haddad - A ciclofaixa não tirou nenhuma faixa de rolamento do carro. E o que muita gente não sabe é que, por incrível que pareça, o trânsito piora a taxas decrescentes desde que eu assumi. Vou te dar um dado técnico da CET. De 2011 para 2012, último ano da administração anterior, o trânsito piorou 14%. De 2012 para 2013, primeiro ano das faixas exclusivas, piorou 7%. De 2013 para 2014, piorou 2%.

247 - Não tem como melhorar?

Haddad - Olha, nós estamos fazendo muita obra viária em São Paulo. Mas muitas pessoas não veem porque essas obras estão acontecendo na periferia. Agora, túnel e viaduto, eu tô fora. Aí é uma questão de concepção de cidade. Está provado cientificamente que quanto mais viário, mais trânsito. Isso é cientista falando, não é o prefeito. Veja o que o José Serra fez na Marginal Tietê. Destruiu o pouco verde que havia, fez duas faixas de rolamento pra carro e o trânsito é pior do que era antes disso. Como é contraintuitivo, as pessoas não acreditam. Mas também era contraintuitivo que a Terra girava em torno do sol.

247 - Do ponto de vista quantitativo, os investimentos estão maiores ou menores do que nas gestões anteriores?

Haddad - Olha, a demagogia tirou R$ 2,5 bilhões dos cofres de São Paulo. Primeiro, com o congelamento das tarifas de ônibus. Depois, com a suspensão da revisão do IPTU. Apesar disso, investimos no ano passado R$ 4,4 bilhões, o que foi um recorde.

247 - De onde vieram os recursos?

Haddad - Combate à corrupção e redução dos gastos de custeio. Só na recuperação de ativos desviados pela corrupção, vamos chegar a R$ 300 milhões. Isso, numa cidade, é inédito. Só os bancos que foram usados nesse processo já devolveram mais de R$ 100 milhões. Esse dinheiro será carimbado para as creches.

247 - Um setor em que o ritmo de investimentos segue abaixo do prometido.

Haddad - Nós perdemos R$ 2,5 bilhões em arrecadação, mas estamos correndo atrás disso.

247 - O sr. citou vários pontos, mas sua popularidade segue baixa. Há uma incompreensão?

Haddad - É preciso olhar a série histórica. São Paulo é uma montanha russa. Um dia você tem 40%, no outro 20%, depois 30% e assim por diante. Não é só a complexidade dos problemas. É a única cidade do mundo em que todos os meios de comunicação falam mal da cidade simultaneamente. O Bom Dia Rio, Bom Dia Bahia e outros do tipo não têm 10% do mau humor do Bom Dia São Paulo.

247 - É hora de valorizar o orgulho de ser paulistano?

Haddad - Eu não só tenho orgulho de ser paulistano, como tenho certeza de que é a melhor cidade para se viver no Brasil. Outro dia fizeram uma pesquisa sobre trânsito. São Paulo ficou em sexto lugar. Rio, Salvador, Recife, Fortaleza e Belo Horizonte são piores.

247 - Um sucesso recente foi o Carnaval, especialmente com os blocos de rua. Como isso aconteceu?

Haddad - Nossa gestão mudou o paradigma. Tudo o que é espaço público está sendo ocupado na cidade. Pelo público. Tem um conceito que perpassa toda a administração: é a reapropriação do público pela cidadania. A praça wi-fi é isso, a ciclofaixa é isso, a faixa exclusiva de ônibus é isso, a comida de rua é isso, o carnaval de rua é isso. Agora, dois anos não mudam o que se fez nos últimos 50 anos. Mas minha aposta é que as pessoas compreenderão que uma nova cidade está sendo forjada.

247 - Mas hoje sua reeleição parece distante.

Haddad - Em alguns locais, existe um padrão. No Rio Grande do Sul, por exemplo, ninguém se reelege. Aqui, em São Paulo, há também um padrão. A direita fez sucessores e a esquerda, não. O Maluf elegeu o Pitta e o Serra fez o Kassab. Marta e Erundina não se reelegeram.

247 - O sr. está conformado ou espera mudar esse padrão?

Haddad - Se o padrão vai mudar, 2016 é que vai dizer. 2016 vai dizer se São Paulo quer se encontrar com a modernidade ou não. É isso, a meu ver, o que está em jogo. Uma concepção de cidade como espaço público ou como espaço privado. Agora, eu nunca me prendi a pesquisas. Se levasse isso em consideração, não teria vencido em 2012. Até porque eu nunca cheguei a aparecer nem em segundo lugar.

247 - O fato de ser petista, a ser ver, afeta sua popularidade?

Haddad - Sim, o PT hoje está sob ataque. Mas a conduta de uma pessoa, ou de um dirigente, não pode ser estendida a um partido. É muito perigoso criminalizar a política, ou assumir a negação da política. E tem muitas outras coisas, que não têm nada a ver com o município, como a crise de segurança e a crise da água, que também afetam o bom ou o mau humor do paulistano. Você acha que o cidadão tem os compartimentos federativos na cabeça? Quando eu vou à periferia, a primeira coisa que me questionam é sobre o policiamento. O que não é da nossa esfera.

247 - Como o sr. vê o ambiente político de hoje no País?

Haddad - Com muita preocupação. A democracia não é apenas o espaço da divergência. É também o espaço da construção de consensos, entre forças antagônicas. Uma democracia que é só consenso é utopia, jamais vai existir. Uma democracia que é só divergência cria as condições da sua destruição. É o que estamos vivendo hoje. Um Fla-Flu radical solapa as bases da democracia. Você precisa ser tem um espaço do entendimento, nem que seja apenas no plano institucional. E nem esse está sendo respeitado.

247 - Em São Paulo, o clima de radicalização política parece mais acentuado. Isso já o atingiu?

Haddad - Eu ando a pé pelo meu bairro e nunca foi hostilizado, nem ofendido na rua. Há quem aborde, cobre, peça explicações. Mas uma ofensa jamais ocorreu.

247 - Mas o PT vem sendo muito associado à corrupção.

Haddad - Criminalizar agremiações ou coletivos é muito errado. Isso vale para igreja, time de futebol, partido, o que for. Se há problemas, eles têm que ser combatidos. Você não pode rifar uma instituição porque um outro indivíduo cometeram erros. Você depura e retoma os princípios originais. Não creio que possa ser positivo para a democracia brasileira rifar o PT.

247 - O sr. vê esse desejo de depuração?

Haddad - Sim, mas com as cautelas devidas. É preciso esperar as pessoas serem julgadas.

247 - O sr. se orgulha de ser petista?

Haddad - Eu não me vejo em outro partido porque entendo que o militante médio do PT está comprometido com princípios nos quais eu acredito, sobretudo o combate à desigualdade e à intolerância. As bandeiras mais avançadas ainda são empunhadas pelo militante do PT.

247 - Numa entrevista recente, o sr. disse que não aguenta mais a corrupção. Qual é a solução? O fim do financiamento privado?

Haddad - Eu acredito que o financiamento empresarial de campanha é um mal que deve desaparecer. Inclusive, o Supremo Tribunal Federal já decidiu isso e só não promulga isso porque houve um pedido de vista. O empresário financiar a política é uma perversa Lei Rouanet da política. Assim como os departamentos de marketing das empresas passaram a definir o que merece ser apoiado, no limite, os empresários definirão as políticas públicas. Está errado isso.

247 - Como seria sua reforma política?

Haddad - Acho que com pequenos reparos é possível fazer uma boa reforma. Cito dois exemplos: o fim do financiamento privado e a proibição das coligações proporcionais. Resolvendo esses dois pontos, resolvemos 80% dos problemas da democracia representativa do País.

247 - Como o sr. vê o Brasil pós-Lava Jato? Veremos a 'berlusconização' do Brasil, com salvadores da pátria, ou uma depuração mais madura, com uma reforma política?

Haddad - Hoje, a grande mídia favorece esse movimento de berlusconização. Eu tenho receio de um processo parecido no Brasil. Hoje, a coisa mais difícil é convencer alguém a ficar na máquina pública. A pessoa bem-sucedida abre mão de recursos. Ela vai se privar da família, do tempo livre, em troca de fazer o bem, se a pessoa for bem intencionada. Isso é reconhecido por alguém? Não vejo nenhum movimento no sentido de fazer a cidadania discernir sobre isso. Quando você criminaliza coletivos, ao dizer que ninguém de determinado partido presta, é um equívoco muito grande.

247 - O sr. é favorável à volta do ex-presidente Lula, em 2018?

Haddad - Na eleição passada, eu apostei com amigos que o Lula não seria candidato. Disse que ele respeitaria o espaço da presidente Dilma Rousseff. E agora? Lula será o candidato em 2018? Pode ser, mas não é certo que será. Se ele pudesse desenhar o futuro, talvez não quisesse voltar à presidência. Não custa lembrar que o Eduardo Campos vinha sendo preparado para isso. Todo mundo sabe disso e todo mundo se esquece disso. Acho que ele só poderá se recolocar se sentir que há ameaças às conquistas da população mais pobre. Se ele o fizer, terá o entusiasmo dos petistas e de muitos não-petistas.

247 - E em São Paulo? Haverá coesão interna, com a ex-prefeita Marta Suplicy o apoiando?

Haddad - Acredito que o PT inteiro deve trabalhar pela permanência da Marta. É um grande quadro, foi quem eu comecei na vida pública e fez uma administração reconhecida pela população. O meu mandato, em grande medida, é de continuidade ao que ela fez.