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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Mais um avião caiu: somos todos Chape, Rafael Braga não é ninguém





(Para Rafael Braga, porque é sobre ele, e para Rafinha, porque a ideia é dela)


Lamentamos informar que neste terrível ano que parece não acabar nunca, tivemos a notícia de mais um terrível acidente envolvendo uma aeronave. As informações ainda são muito desencontradas uma vez que grandes redes de televisão insistem em dizer que o acidente não ocorreu, destorcem e ocultam os fatos, prejudicando muito a compreensão do ocorrido.

Ainda não sabemos ao certo o número de vítimas e sobreviventes. O avião caiu em um lugar de difícil acesso. As equipes de salvamento tiveram que pegar vários ônibus, fazer baldeação para pegar o trem e se demoram a chegar ao local que ainda sofre, nesta época do ano, com inundações frequentes.

Sabe-se, entretanto, que a maioria das vitimas é jovem e negra. As causas da morte são estranhamente bizarras: muitos morreram porque foram atingidos por balas perdidas, outros tem marcas de tiro pelas costas ou na nuca, numa evidência que pode ter havido execuções. Uma mulher parece ter sido arrastada ao ser presa no compartimento de bagagem quando ainda estava viva. Muitos corpos estão desaparecidos e outros aparecem com claros sinais de tortura.

A polícia que investiga o estranho ocorrido afirma que há fortes indícios de que todas as vitimas resistiram ao acidente o que acabou levando-as à morte.

Outro aspecto que nos chama a atenção é a quantidade de mulheres entre as vítimas. Apesar de serem um pouco mais da metade do número de passageiros, foram elas que ficaram mais machucadas com a violência da queda. Apresentam hematomas, braços quebrados, marcas de queimadura pelo corpo e, em muitos casos, a alma partida e o coração despedaçado. Estranhamente, entre as sobreviventes, muitas negam que tenham se machucado no acidente, alegando que caíram da escada ou outro motivo improvável.

Para agravar ainda mais este terrível sinistro, o avião parece ter caído em várias escolas e hospitais. As autoridades alegam que não poderão investir recursos para a reconstrução dos serviços nos próximos vinte anos uma vez que o dinheiro está comprometido com o pagamento dos juros da dívida pública, com altos salários do judiciário, subsídios vultuosos para empresários, o perdão da dívida do agronegócio e para um suntuoso jantar que o presidente vai dar em homenagem a si mesmo no final do ano.

Além da evidente dor das famílias com a perda de seus entes queridos, há muita preocupação, também, entre os sobreviventes e seus familiares. As viúvas não receberão mais sua pensões integrais e só as terão por um tempo bem menor. Sobreviventes, por vezes mutilados pelo acidente, terão que continuar trabalhando até a idade mínima de 65 anos e contribuir por 49 anos o que, em muitos casos, os forçará a trabalhar até depois dos 70 anos.

O Ministério Público investiga as denuncias que alguns setores se beneficiaram com o acidente e que esperam ganhar fortunas com o ocorrido. As suspeitas recaem não apenas sobre a companhia aérea, mas nos fornecedores, bancos, empresas de seguro e uma infinidade de políticos. As investigações vão durar anos até que se apure tudo, mas a polícia já prendeu uma pessoa que passava pelo local do acidente portando um recipiente plástico contento um suspeito produto de limpeza. Apesar de não haver nenhuma relação plausível entre o desinfetante líquido e a queda do avião, o moço negro e pobre foi condenado e já se encontra preso.

Diferente de um recente acidente aéreo envolvendo uma equipe de futebol, a respeito do qual nos solidarizamos com as vítimas e seus familiares, este parece ter provocado reações dispares. Ao contrário daquele que motivou uma intensa solidariedade e consternação geral, levando a atos inusitados de equipes abrindo mão de títulos, adversários emprestando jogadores e recursos, cartolas fazendo de conta que se preocupam com jogadores, este acidente não gerou uma empatia unânime.

Muitos foram às ruas protestar e demonstrar seu inconformismo com tudo isso, mas outros, estranhamente festejam a catástrofe. Alguns dos passageiros, mesmo entre os mortos destroçados por partes do avião que lhe atravessavam o corpo, vestem camisas da seleção brasileira e batem panelas afirmando que apesar da dureza da queda, alguma coisa precisava ser feita. O avião não podia continuar voando daquele jeito, alegam, pois poderia acabar pousando na Bolívia, na Venezuela ou, pior ainda, em Cuba.

Com razão, ficamos abalados com o acidente que vitimou toda uma equipe de jovens esportistas que, saindo das divisões inferiores, estavam bem perto de um titulo inédito. Mas, por que esta indiferença com as vitimas desta catástrofe que se abate cotidianamente sobre nós? Talvez porque sejam pessoas que nunca sairiam das divisões inferiores, porque são muitas, porque são pobres, porque são negros, porque nunca iriam ganhar nada mesmo. Sei lá.

Quem se importa com esta gente, se é que gente mesmo isso aí? Quem se importa com um filho de marceneiro, com uma mãe doida que está grávida e acha que é virgem? Quem se importa com uma família perdida no deserto ou a deriva num mar de indiferença, fugindo de governos que matam crianças? Quem se importa? Que morram…

Os sobreviventes tentam racionalizar com aquelas coisas de costume, dizendo que se atrasaram para aquele vôo, podiam estar mortos, mas escaparam. Outros falam de sua sorte porque estavam na única cadeira de toda uma fila que foi dizimada, ou porque entraram na regra de transição e vão se aposentar assim mesmo, ou porque não são líbios, nem sírios, não moram em Mariana nem na baixada fluminense. Conversamos a respeito deste comportamento com Mario Benedetti, que escapou de um acidente similar no Uruguai, porque os poetas nunca morrem, e ele nos disse o seguinte:


“cuando en un accidente

una explosión

un terremoto

un atentado

se salvan cuatro o cinco

creemos

insensatos

que derrotamos a la muerte
pero la muerte nunca
se impacienta

seguramente 
porque
sabe
mejor que nadie

que los sobrevivientes

también mueren.”

***

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

sábado, 21 de novembro de 2015

Falar em racismo reverso é como acreditar em unicórnios

Não existe racismo de negros contra brancos porque este é um sistema de opressão. Negros não possuem poder institucional para serem racistas

por Djamila Ribeiro



Em quase todas as discussões sobre racismo, aparece alguém para dizer que já sofreu racismo por ser branco ou que conhece um amigo que sim. Pessoa, esse texto é para você.

Não existe racismo de negros contra brancos ou, como gostam de chamar, o tão famigerado racismo reverso. Primeiro, é necessário se ater aos conceitos. Racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para serem racistas. A população negra sofre um histórico de opressão e violência que a exclui.

Para haver racismo reverso, deveria ter existido navios branqueiros, escravização por mais de 300 anos da população branca, negação de direitos a essa população. Brancos são mortos por serem brancos? São seguidos por seguranças em lojas? Qual é a cor da maioria dos atores, atrizes e apresentadores de TV? Dos diretores de novelas? Qual é a cor da maioria dos universitários? Quem são os donos dos meios de produção? Há uma hegemonia branca criada pelo racismo que confere privilégios sociais a um grupo em detrimento de outro.

Em agosto deste ano, Danilo Gentili quis comparar o fato de ser chamado de palmito com o fato de um negro ser chamado de carvão. E disse ser vítima de racismo, mostrando o quanto ignora o conceito. Ser chamado de palmito pode até ser chato e de mau gosto, mas racismo não é. A estética branca não é estigmatizada. Ao contrário, é a que é colocada como bela, como padrão. Danilo Gentili cresceu num País onde pessoas como ele estão em maioria na mídia, ele desde sempre pôde se reconhecer. Pode até ser chato, mas ele não é discriminado por isso. Que poder tem uma pessoa negra de influenciar a vida dele por chamá-lo de palmito? Nenhum. Agora, um jovem negro pode ser morto por ser negro, eu posso não ser contratada por uma empresa porque eu sou negra, ter mais dificuldades para ter acesso à universidade por conta do racismo estrutural. Isso sim tem poder de influenciar minha vida. Racismo vai além de ofensas, é um sistema que nos nega direitos.

Gentili com esse discurso de falsa simetria só mostra o quanto precisa estudar mais. Não se pode comparar situações radicalmente diferentes. Quantas vezes esse ser foi impedido de entrar em algum lugar por que é branco? Em contrapartida, a população negra tem suas escolhas limitadas. Crianças negras crescem sem auto-estima porque não se veem na TV, nos livros didáticos. Mesmo raciocínio se aplica às loiras que são vítimas de piadas de mau gosto ao serem associadas à burrice.

É óbvio que se trata de preconceito dizer que loiras são burras e isso deve ser combatido. Mas não existe uma ideologia de ódio em relação às mulheres loiras, elas não deixaram de ser a maioria das apresentadoras de TV, das estrelas de cinema, das capas de revistas por causa disso. Não são barradas em estabelecimentos por serem brancas e loiras. Sofrem com a opressão machista, sim, mas não são discriminadas por serem brancas porque o grupo racial a que fazem parte é o grupo que está no poder. Há que se fazer a diferenciação aqui entre sofrimento e opressão. Sofrer, todos sofrem, faz parte da condição humana, mas opressão é quando um grupo detém privilégios em detrimento de outro. Ser chamado de palmito é ruim e pode machucar, mas não impede que a pessoa desfrute de um lugar privilegiado na sociedade, não causa sofrimento social.

Uma amiga, na infância, uma vez, não deixou que eu e meus irmãos entrássemos na sua festa, apesar de nos ter convidado, porque seu tio não gostava de negros. E nos servia na calçada da casa dela até que, indignados, fomos embora. Alguma pessoa branca já passou por isso exclusivamente por ser branca?

Muitas vezes o que pode ocorrer é um modo de defesa, algumas pessoas negras, cansadas de sofrer racismo, agem de modo a rejeitar de modo direto a branquitude, mas isso é uma reação à opressão e também não configura racismo. Eu posso fazer uma careta e chamar alguém de branquela. A pessoa fica triste, mas que poder social essa minha atitude tem? Agora, ser xingada por ser negra é mais um elemento do racismo instituído que, além de me ofender, me nega espaço e limita minhas escolhas. Vestir nossa pele e ter empatia por nossas dores, a maioria não quer. Melhor fingir-se de vítima numa situação onde se é o algoz. Esse discursinho barato de "brancofobia" quando a população branca é a que está nos espaços de poder faz Dandara se remexer no túmulo.

Não se pode confundir racismo com preconceito e com má educação. É errado xingar alguém, óbvio, ser chamado de palmito é feio e bobo, mas racismo não é. Para haver racismo, deve haver relação de poder, e a população negra não é a que está no poder. Acreditar em racismo reverso é mais um modo de mascarar esse racismo perverso em que vivemos. É a mesma coisa que acreditar em unicórnios, só que acreditar em cavalos com chifres não causa mal algum e não perpetua a desigualdade.

Esse vídeo de Aamer Rahman explica muito bem:


sábado, 10 de outubro de 2015

Onde você esconde seu racismo?

Joice Berth
Urbanista e Ativista Feminista Negra


É necessário que as pessoas brancas olhem para as suas vidas com honestidade e não apenas reconheça seus privilégios, mas trabalhe para que dentro do meio onde se relacionam socialmente, essas distâncias sejam eliminadas. Os avanços na questão racial são ínfimos, apesar de estarmos exatamente há 127 anos do pós-abolição. Tivemos um hiato de quase um século e meio e as distâncias entre negros e brancos são abismais.

No vocabulário técnico das práticas racistas e machistas, chamamos de TOKEN quando uma pessoa acusada de ser opressora usa pessoas de suas relações sociais que pertence as ditas minorias para se defender e justificar sua atitude ofensiva e preconceituosa.

O grupo de humoristas do programa Porta dos Fundos, exemplificou isso de maneira brilhante e ousada, no vídeo intitulado “Amiguinho” onde um casal que mantém filho em escola particular vai questionar a direção da escola sobre a expulsão de um aluno negro. Eles imploram para que a diretora mantenha o aluno negro, porque sem esse aluno eles não teriam como se desviar das acusações de racismo.




Grande sacada. Não é a primeira vez que o programa esboça críticas sociais desse nível, eu por acaso já vi mais dois vídeos sobre a questão, um deles que descreve uma excursão na favela e outro que fala da questão da dificuldade de se dizer a palavra ‘negro’.

Esses vídeos, embora explorem de maneira bem humorada questões sérias para discussões sobre racismo, desperta questionamentos que casam com a fama da democracia racial que nosso país ostentava antes dos apontamentos da ONU que visitou o Brasil em dezembro de 2013.

É justamente esse mito que representa o grande entrave na luta contra o racismo institucionalizado, pois seus efeitos são bastante convincentes no senso comum da sociedade. Para quem vê o vídeo humorístico entre outras manifestações de pessoas brancas em outras mídias (como o #somostodoshumanos por exemplo), inevitavelmente acredita nas eficácias das boas intenções e a impressão que fica é que todos estão lutando juntos pela igualdade de oportunidades para as raças estruturais que ocupam nosso país.

Mas, olhando de perto, facilmente se destrói esse pensamento. Apesar do bem intencionado programa expor uma situação típica de tokenização, faltou a crítica de suas próprias práticas e condutas. Ora, se uma turma de brancos jovens, talentosos e intelectualizados o suficiente para captar a sutileza dessa prática racista e retratá-la de maneira consciente, porque a mesma precisão de raciocínio não se volta para o fato de que no seu elenco não há pessoas negras?




Temos aí uma segunda situação de tokenização, só que dessa vez inconsciente até certo ponto, pois apesar de assertiva, a crítica racial não vem acompanhada de um mea culpa capaz de identificar que embora os roteiristas sejam supostamente contra a situação exposta, não caminham em direção a solução da situação de racismo.

Ou seja, racismo é ruim quando é com os outros, comigo é naturalizado a ponto de eu nunca ter notado que não há representatividade negra no meu programa.

Isso é bem costumeiro na rotina das relações sociais entre negros e brancos no Brasil. Temos um contingente de cerca de 90% de pessoas que afirmam que racismo existe e que já presenciaram situações de racismo contra 92% de pessoas que se afirmam não racistas. Essa discrepância entre discurso e realidade é resultante da falta de crítica da pessoa branca, que grosso modo, não se inclui no conjunto de práticas que fomentam o racismo. Ela na verdade nem cogita o fato de que pode (e é!) racista

Também devemos considerar a total falta de interesse por parte das pessoas brancas em estudar a fundo o que de fato é o racismo.

Sendo assim, não sabem exatamente do que se trata em termos teóricos, prioritariamente reduzem a uma simples expressão de preconceito e acham que conviver com pessoas negras de maneira aceitável o excluí do conjunto de práticas que constituem a institucionalização do racismo.

Pergunte a uma pessoa branca, quantos autores negros ela já leu, em quantos eventos que discutem essas questões com seriedade ela já participou, entre outras coisas que pessoas negras promovem e a resposta não virá, porque não fazem isso.

Pergunte a uma pessoa branca, quais são os reais problemas que a população negra sofre e como lidam com as inúmeras limitações que enfrentam no seu cotidiano e ela não saberá. Peça para uma pessoa branca identificar uma situação de racismo, daquelas extremamente sutis que só quem convive com a sua pele negra desde o nascimento reconhece, e ela não vai passar do lugar comum.

Mas sejamos francos, há uma necessidade urgente de cada pessoa branca fazer uma autocrítica e perguntar a si mesmo:

Onde eu escondo MEU RACISMO?

Porque vivendo em uma sociedade estruturada pelo sistema de poder onde um grupo está acima do outro e um dos determinantes que estabelece essas relações é o fator raça, é mais do que óbvio que dificilmente alguma pessoa branca consegue escapar. Todos são racistas, em escalas diferenciadas, guardadas as devidas desconstruções a que alguns se permitem, mas à medida que usufruem livremente dos privilégios que esse sistema de poder lhes garante já está automaticamente enquadrado na estrutura racial que oprime pessoas em função da manutenção desses privilégios.

É necessário que as pessoas brancas olhem para as suas vidas com honestidade e não apenas reconheça seus privilégios, mas trabalhe para que dentro do meio onde se relacionam socialmente, essas distâncias sejam eliminadas. Os avanços na questão racial são ínfimos, apesar de estarmos exatamente há 127 anos do pós-abolição. Tivemos um hiato de quase um século e meio e as distâncias entre negros e brancos são abismais.

O racismo, como bem observou a ONU, é institucionalizado. Ele está nos hospitais, nas escolas, na mídia, nas rodas de conversa, nas bibliotecas, nos centros de consumo, nas relações afetivas, nas relações familiares, em toda parte. Ele está lá naturalizado e é preciso que se diga o óbvio: não estamos falando de uma entidade autônoma que se mantém à revelia das dinâmicas sociais e sim de um conjunto de práticas onde pessoas brancas são protagonistas ativas e/ou passivas.

Mas em todos os lugares onde o assunto racismo é abordado, há sempre uma pessoa branca usando a presença de pessoas negras em suas vidas como passaporte para a absolvição do posto de racista.

No Brasil, ser racista é considerado abominável pelo senso comum justamente pela ignorância que a sociedade mantém sobre o assunto. Essa ignorância vem da recusa em não se aprofundar no assunto, que por sua vez vem da falta de importância dada ao assunto. E não é importante para quem não é atingido diariamente por ele. E esse o maior cinismo do racista brasileiro: achar o racismo insuportável, mas nadar no raso quando a oportunidade de se mudar a situação é apontada por pessoas negras.

Assim, uma sociedade inteira mantém as diferenças gritantes entre indivíduos da raça negra e da raça branca, simplesmente porque não se permite ouvir e refletir para além da superficialidade de considerar casos de preconceito racial como racismo propriamente dito.

No nível coletivo, a culpabilidade do racismo alheio é unânime, vide o caso do Goleiro Aranha. As pessoas brancas que condenaram pareciam estar convencidas de que não são racistas tanto quanto a acusada. Mas no nível individual, se permite, por exemplo usar o problema central da vida de pessoas negras para garantir sua visibilidade e ao mesmo tempo rejeitar a presença de pessoas negras no mesmo lugar em que ocupa.

Quando a pessoa branca se permite retirar a venda dos olhos, um mundo novo se abre e os efeitos do racismo na vida de pessoas negras, passa a constituir para essa pessoa motivo de vergonha. Mas isso é ainda muito raro. Para nossa tristeza.



O racismo de uma pessoa pode estar escondido atrás da falta de autocrítica, como no caso dos redatores do programa Porta dos Fundos, pode estar escondido atrás da afirmação de que não se relaciona afetivamente com pessoas negras por questão de gosto pessoal, pode estar escondido atrás da suposta falta de oportunidade de conhecer a cultura negra e seus principais atores, pode estar escondido na recusa da empregabilidade de pessoas negras em lugares de poder e alta intelectualidade, pode estar escondido na aparente inocência em negar seu próprio racismo. Enfim, em algum lugar ele está escondido e em algum momento vai fugir do controle.

Então, chegamos a uma conclusão óbvia: pessoas brancas escondem seu racismo, principalmente de si mesmas, por covardia, por conforto, por ignorância e por conveniência. Mas ele continuará lá, atuando silencioso, independente do seu amigo/amor/familiar/colega participar da sua vida e independente da frequência com que você convive com essas pessoas.

A ausência de pessoas negras no cotidiano de pessoas brancas é sim sintomático, mas a presença também não é indicativo de um lugar onde racismo é inexistente, principalmente quando fica muito visível que a pessoa negra está ali para cumprir cotas e proteger pessoas brancas de suas próprias consciências pesadas (ou não!).

E esse racismo que age livremente, embora silencioso para quem é branco, porque para negros ele é extremamente ruidoso, vai continuar alimentando o caos social em que vivemos e do qual em maior escala atinge negro, mas em menor escala atinge brancos também. E ele precisa da sua sinceridade para ser expurgado de maneira eficiente para que seja desconstruído a passos curtos e não vai ser com acusações e apontamentos isolados ao racismo do outro que esse processo será implementado.



Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Carteira cheia, carteira vazia



Fui criado, como diz Gil Brother Away, a leite com pera. Toda segunda-feira meus pais me davam cinquenta reais -uma pequena fortuna para um adolescente do ano dois mil. Conseguia a proeza de gastar tudo com balas Garoto, milk-shakes do Bob's e o aluguel de fitas de Nintendo 64 (em geral a mesma fita: "007 contra GoldenEye").

No domingo eu estava invariavelmente quebrado. E nunca fiquei em casa porque não tinha dinheiro.

Ir à praia sem um centavo no bolso é um esporte, e eu era craque da camisa número 9. O primeiro desafio era o ônibus. Eram muitas as formas de não pagar. Lembro de duas. A primeira consistia em curvar-se humildemente, com olhar de súplica e voz chorosa, usando termos que denotassem afeto ("irmão") e polidez ("na moral"): "Irmão, na moral, tem que condição de me quebrar essa, na humildade, só dessa vez, na moral, irmão? Fui assaltado, irmão, quebra essa pra mim, na moral".

A segunda opção era mais trabalhosa, mas quase infalível: consistia em perguntar ao trocador se o ônibus passava por um bairro pelo qual ele certamente não passaria. "Passa no Grajaú?" "Não". "Obrigado, vou descer no próximo ponto". No ponto seguinte, a mesma coisa: "Passa no Grajaú?" Até chegar em Ipanema.

Só falhou uma vez. Perguntei: "Passa no Grajaú?" E o trocador: "Passa". Tive que responder: "Que pena, tô proibido de entrar no Grajaú".

Chegando na praia, quase tudo era de graça: o mar, o sol, o pôr do sol, o futebol, a altinha. Na fome, filava-se um biscoito Globo, pedia-se um golinho de mate de galão, às vezes um amigo mais abastado emprestava dois reais e isso era suficiente para um banquete de queijo coalho. E a gente era feliz.

Para impedir arrastões, a polícia, sob o comando do secretário de segurança, está parando os ônibus que vão do subúrbio em direção à praia de Ipanema. Os passageiros que não têm dinheiro na carteira são detidos. Segundo o secretário, um jovem com a carteira vazia vai ter que assaltar pra voltar pra casa.

Secretário: existem mil maneiras de se viver sem dinheiro. Carteira vazia não é crime previsto por lei. Crime é pedir para alguém abrir a carteira com base na sua procedência ou cor de pele.Para se investigar alguém é preciso que pesem acusações sérias, como as que pesam, por exemplo, sobre os políticos para quem o senhor trabalha. Mas talvez no seu critério sejam todos inocentes, pois têm a carteira cheia.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Zero Hora, vamos falar de racismo?





O que leva um veículo de imprensa a divulgar a opinião preconceituosa e ofensiva de um de seus leitores? Seria liberdade de expressão ou discurso de ódio?

Reprodução / Facebook Cristiano Goldschimidt

Comentário publicado no 'Zero Hora', veículo do Rio Grande do Sul

Fiquei extremamente chocada com um comentário publicado na edição deste domingo 31 de maio do jornal Zero Hora, veículo do Rio Grande do Sul. Nele, o leitor é claramente racista e desinformado.

O comentário em si não me choca, como mulher negra já ouvi e li muitas coisas horríveis; o que me choca é o fato de o jornal ter publicado algo explicitamente racista. Até que ponto o jornal vai se esconder sob o argumento da liberdade de expressão? É sabido que racismo é crime, certo? Logo, publicar algo racista é igualmente crime, ou não? O comentário em questão foi publicado na versão impressa, logo foi lido antes e selecionado, diferentemente de quando se é num portal de internet, o que torna o fato ainda mais grave.

No comentário, um senhor diz que é sabido que pessoas negras têm propensão natural ao crime e são menos qualificadas e é justamente por isso que lotam os presídios no Brasil. Essa inferioridade natural atribuída à população negra foi utilizada na história como forma de opressão.

Os estudos de evolução biológica do século XIX que aplicaram o conceito de racismo biológico marcando a relação de superioridade e inferioridade entre colonizadores e conquistados, mais precisamente na América, legitimaram as relações de dominação européia, ao atribuir aos negros uma “inferioridade natural” devido à cor e tamanho do cérebro. Autores como James Watson, Nina Rodrigues se utilizaram desse racismo biológico em suas pesquisas, e hoje ele é considerado algo totalmente deslegitimado e arcaico.

O comentário desse senhor mostra que ele ignora as construções do racismo em nossa sociedade. Foram 354 anos de escravidão e, depois, no pós abolição, não se criaram mecanismos de inclusão para a população negra, como foram criados para os imigrantes que vieram para cá no processo de industrialização. Esses também vieram, como diz o senhor, “sem nenhuma formação”, mas receberam oportunidades de trabalho, terras para iniciarem suas vidas por aqui.

Se hoje usufruem de uma realidade diferente da dos negros foi porque receberam auxílios deste País para isso, o que não ocorreu com a população negra, que veio para cá como escrava e em condição muito mais desumana, portanto. O poder sempre se esforçou para esconder a origem social das desigualdades, como se as disparidades fossem naturais, meritocráticas ou providencialmente fixadas. O que faz, por exemplo, que esse senhor não perceba ou não queira perceber que os direitos negados e a situação de pobreza da maioria da população negra são decorrência de uma estrutura social herdeira do escravismo.

Porém, o mais chocante aqui é um veículo de imprensa divulgar essa opinião racista, e, por conseguinte, ofensiva. Qual o limite da liberdade de expressão ou seria isso discurso de ódio? Como diz a filósofa estadunidense Judith Butler, em Excitable Speech: “A linguagem opressora do discurso de ódio não é mera representação de uma ideia odiosa; Ela é em si mesma uma conduta violenta, que visa submeter o outro, desconstruindo sua própria condição de sujeito, arrancando-o do seu contexto e colocando-o em outro onde paira a ameaça de uma violência real a ser cometida - uma verdadeira ameaça, por certo”.

domingo, 9 de março de 2014

Nocividades de igrejas no Brasil e a afronta da marcha com Deus



Querido amigo Marcos Velasques

Alegro-me em contá-lo como amigo no Facebook. Conhece-te desde tua tenra idade quando teus queridos pais eram jovens. Tive a honra de ser aluno de teu pai, o Dr. e Teólogo Prócoro Velasques Fº. Ele era uma pessoa interessante: rigoroso como professor e um amigo simples nos contatos pessoais. 

Certamente acompanhaste pela mídia online a repercussão de meu artigo “Joaquim Barbosa é uma chaga social violenta e malcheirosa”. 

Choquei-me em alguns casos com a violência dos comentários nos sites, no meu blog e com as ameaças que recebi por telefone. Impressionante, as pessoas sabem que as ligações são rastreadas mesmo assim não vacilam em ofender e a ameaçar com bobagens que não significam nada em termos práticos, apenas representam mesquinharia humana e intelectual para debater os problemas que preocupam o País. 

Porém, um tipo de ameaça e conteúdo comentado me chama a atenção e que merece análise. Trata-se da postura política de setores católicos romanos, outros católicos e evangélicos. 

Aprendi com meu amigo e meu professor Psicólogo Social, Padre Pedrinho Guareschi, principalmente no seu livro Sociologia Crítica Alternativas de Mudanças, que a sociedade, além ser movida pela luta de classes, em virtude dos aparelhos ideológicos usados pela classe dominante ocupante do Estado, ou Bloco Histórico no dizer de Antonio Gramsci e de seu estudioso Louis Althusser, move-se com certos grupos que ganham poderes autônomos dentro da sociedade civil. Tais “autonomias” se constituem em força com fóruns de partidos e poderes de barganha ao ponto de ameaçar a paz social, sempre a serviço disfarçado da classe dominante, de quem recebe abastecimentos materiais. 

A partir de ofensas de que fui alvo a partir de meu artigo, que enfrenta o que representa Joaquim Barbosa num poder da república, o STF, sensibilizei-me para pensar e entender a ação de grupos de igrejas fundamentalistas em nossa sociedade. 

Vejo nas redes sociais e em sites religiosos “convocando” a sociedade para a tal “Marcha da Família com Deus pela liberdade”. Leio sobre fundamentalismo dogmático virulento pleno de ódio de agentes despertando racismo, homofobia e mentiras gravemente caluniosas e, por isso, criminosas contra negros, pobres, homossexuais e a esquerda. 

1. Política macabra de direita. Basta um bocadinho de análise para que os fios que costuram o tecido das posturas de pastores, padres e bispos, com atitudes fascistas mostrem suas ligações com interesses escusos e golpistas em nosso País. Em ano eleitoral como o que vivemos as fúrias dos interesseiros se exalta e se escancara ainda mais. 

Nas quadras eleitorais pastores, padres e bispos correm para todos os lados para fecharem acordos com candidatos abastados financeiramente. A resistência que setores de direita têm em relação a uma reforma política, que imponha financiamento público das campanhas e desbarate os currais alimentados por muita corrupção na compra de votos e de pressões da classe dominante sobre os de quem bancaram patrocínios eleitorais, possibilita que milhões de reais jorrem nestas ocasiões. É aí que muitos grupos de igrejas entram para trocar votos de seus frequentadores por dinheiro de candidatos corruptos, algozes dos pobres e da justiça social. As práticas, por tanto, nada guardam de santidade e fé. Aí, pelo contrário, rolam muitas corrupções, manipulações e atentados à justiça social em nome do “deixa assim que é melhor para nossos interesses”. 

A partir desses interesses mesquinhos, feios e imorais tudo cabe. É possível caluniar, ajudar a manipular as consciências informes, desde que se assegurem mais “recursos” para as “obras do Senhor, leia-se mais ladroagem de dinheiro para sustentar o aparelho idiológico religioso da manutenção do status quo. Por isso esse ódio contra a esquerda, que luta para quebrar esse pedestal sujo que sustenta a ideologia dominante e golpista.

2. Desprezo ao conhecimento. Os tais “líderes” religiosos afirmam que basta ler a “palavra” e ouvir seus pastores, verdadeiros capitães de grotas, para ser abençoado e feliz, principalmente para ir para o céu e deixar as riquezas da terra para os chefes de igreja. 

Uma crente resolveu, apesar de toda a sua pobreza econômica como empregada doméstica, ingressar numa universidade para fazer um curso superior. Finda a graduação comunicou ao seu pastor que ingressaria no mestrado. Meu Deus, ele se desesperou e lhe pediu para não fazê-lo. Disse-lhe que os estudos a tirariam da igreja e que ela viraria ateia. Um aluno meu me contou que informou à sua comunidade que faria um curso superior e que nele teria filosofia. Ato contínuo, desde o pastor até o mais humilde irmão, recomendaram que ele não prestasse atenção nas aulas de filosofia porque essa disciplina afasta de Deus e leva as pessoas ao ateísmo. 

E assim vai. A rasura intelectual, o desprezo à ciência e ao conhecimento é tamanho que cega as pessoas até mesmo na leitura da Bíblia, que chamam de “a palavra”, termo já tingido ideologicamente. A interpretação da sagrada escritura é ideológica a favor da classe dominante. Deus para essa interpretação é um poderoso rei sentado num trono, distante das desgraças dos pecadores. Para essa pregação Deus um dia, antes era no ano 2000, não se sabe quando, enviará de seu trono o seu Filho, que virá em nuvens para arrebatar os que dão dízimos, os santos e os puros. Noutras palavras, o Deus a quem se referem não tem nenhuma relação com o Deus pobre, sofrido, cuspido e crucificado como um sedicioso na Palestina, como Jesus ensinou e viveu. O Jesus que eles pregam, com o objeito de embotar a consciência dos direitos humanos e da luta de classes, é o de um fantasma sem história e sem contexto social. É um vulto ressurreto que mora no céu e nos corações dos dizimistas e puros. 

Pregam vida sem pés no chão, sem contexto, sem história e sem compromisso social. Seus cultos e missas são ruídos sem nexo com a realidade. Sua devoção não os remete aos injustiçados. Aliás, fora do arraial de cada um desses grupos, não há salvação. Todos são pecadores e merecem as desgraças que se empulham sobre seus ombros. Não se importam com nada desde que suas chefias consigam dinheiros para seus programas de TVs, de rádios e luxúrias. Daí para aliarem-se com candidatos e eleitos é um passo, se suas vontades são satisfeitas. Ouvi um deles dizer quando José Serra era candidato a presidente: “Serra é melhor para nós”. Perguntei porque e a resposta veio rápido: “ah porque o pastor Silas Malafaia conseguirá um canal de TV prá nós”. 

Quer dizer, esses grupos fanáticos, que praticam cizânias e guerras sociais não se importam com o povo, com a sociedade e com o Brasil. Tudo o que os move são os interesses igrejeiros. Entendem-se como um estado dentro da sociedade. São risco à paz social. 

O resultado é o luxo, é ânsia burguesa com que templos e líderes religiosos se organizam e se constroem. Todos os “grandes” líderes não existem sem um programa de TV. Para mantê-lo é preciso muito dinheiro. Daí a necessidade de arrancar dinheiro das pessoas e de fazer “parcerias” com candidatos ricos e de campanhas eleitorais ricas, como os da direita do espectro social. A direita, historicamente sem votos e sem povo, despeja dinheiro nas burras dos pastores em troca dos seus cabrestreados membros, que falaciosamente votam nas pessoas e não em partidos, para não dizer que votam nas pessoas corruptas que dão dinheiro para suas igrejas e instituições. 

Como sempre, onde há dinheiro há poder e corrupção. Isso alimenta fanatismos e fanáticos desvairados sem argumentos, sem conhecimento e sem sabedoria. 

3. Rasura ética e hipocrisia. Os grupos religiosos que agem a reboque da classe dominante apregoam que não gostam de política e que não se filiam a partidos. Mentem quando assim se afirmam. Podem não ser filiados cartorialmente a partidos, mas filiam-se política e ideologicamente a partidos e a partidários do sistema dominante e conservador dos privilégios dos 1º dos poderosos, sustentados pelo trabalho e pelo sacrifício dos 99% da sociedade. 

Esses grupos fundamentalistas e fanáticos são os que perseguem homossexuais, os negros, os pobres e os comunistas. Um site de um desses fanáticos chega ao ponto de dizer sem rodeios que Lula e Dilma foram eleitos por gentalhas desclassificadas e ignorantes, ao se referir aos pobres, aos nordestinos, aos trabalhadores e aos usuários da Bolsa Família. 

Um dos argumentos falaciosos que usam para induzir o povo a votar na direita é que os socialistas e comunistas são ateus. Porém, o conceito de ateísmo que manejam é senso comum, vulgar e destorcido. O preconceito é infundado e idológico com o claro objetivo de intimidar. Herdam a propaganda imperialista de que os países socialistas perseguem os cristãos. Só não explicam que tais “cristãos” são sabotadores de direita que servem aos interesses imperialistas contra a redenção humana pelo socialismo. 

É bom afirmar que nos países socialistas atuais os cristãos engajados na luta pelo novo ser humano, mais justo, de pensamento coletivo, de compromisso social com o constante processo educativo de construção de sociedade mais humana, são profundamente respeitados. É como diz o comandante Fidel Castro a Frei Betto, na famosa entrevista que se transformou no livro “Fidel Castro e a Religião”: “cristãos e socialistas têm aliança estratégica”. 

É sinceramente lamentável ver pastores, padres e bispos incitando suas comunidades ao ódio. Sua falta de fundamento derrapa para as mentiras caluniosas de caráter divisionista e ofensivo, próprias às práticas da direita, que não dialoga, servindo-se de técnicas maculantes das imagens das pessoas e dos projetos de caráter popular. 

Certamente lembras do “berrão” Silas Malafaia que prometeu, na sua típica linguagem grosseira, “rebentar com o Haddad” quando o prefeito de São Paulo disputou as eleições. 

Um leigo pentecostal aqui em Goiás, professor de língua portuguesa, entregou-se a uma cruzada mentirosa e desonesta contra os que ele chamava de petistas. O mentiroso escreveu um artiguetizinho acusando o MEC de destruir a família ao solicitar que as escolas ensinassem as crianças a respeitar as diversidades sexuais e religiosas. Descaradamente se lançou a distribuir seu artigo indigente de ética pedindo clamorosamente que jornais e sites o publicassem. Os que assim não o faziam os acusava de se juntar ao petismo na destruição da família. Uma coisa que ele mostrou, muito própria desses grupos que integra, é o autoritarismo dogmático. Nunca aceitou dialogar sobre sua falta de fundamento. O que dizia se revestia de verdade caída do céu. Pedi-lhe que me desse os textos do MEC que propagavam a alegada destruição da família. Fazia-se de surdo e nunca me entregou nada, até mesmo porque não existem. Sua desonestidade nunca lhe permitiu declarar que se juntava a grupos de direita aqui para sabotar a educação fazendo discurso tipicamente global e mentiroso. 

Atitudes assim levam-nos a compreender que muitos desses grupos que usam o terror na prática de preconceitos segregacionistas têm ligações escusas com organizações corrosivas à paz social. Este é o caso do famoso pastor Charles Fox Parham, célebre fundador do pentecostalismo moderno. Parham foi acusado de envolvimento em assassinatos de negros, de participar da temida organização racista Ku Klux Klan e de abusar sexualmente de um guri, a despeito de seu imenso e hipócrita moralismo. São dignas de vigilância também certas missões que igrejas do Brasil fazem na África. O que fazem lá? 

Destaco, contudo, Marcos, que recebi apoios impressionantes de católicos romanos e de evangélicos sérios. Padres, religiosos e pastores me escreveram e pediram minha amizade nas redes sociais. Essas pessoas entendem plenamente que seguir Jesus é necessariamente aliar-se a projetos de luta pela justiça social e não se entregar aos berros para que Deus venha fazer o que é de nossa responsabilidade e engajamento. Viva!

Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz.

Dom Orvandil: bispo cabano, farrapo e republicano.

Via:http://ajusticeiradeesquerda.blogspot.com.br/

quinta-feira, 6 de março de 2014

Mano Brown: "Não tolero mais ficar de cabeça baixa para a polícia”

Reprodução/TVT

Rapper se manifestou durante encontro promovido pela ONG Capão Cidadão, que debateu a violência policial


A ONG Capão Cidadão realizou nesta quarta-feira (5) debate sobre violência das abordagens policiais contra jovens negros. Representantes de movimentos sociais ligados à população periférica participaram do evento, que aconteceu na sede do Bloco do Beco, bloco carnavalesco do Jardim Ibirapuera, na zona sul de São Paulo. O debate contou com a participação do rapper Mano Brown, do grupo Racionais MCs, e do ativista Sérgio Vaz, da Cooperifa, entre outros.

“Eu não suporto, não tolero mais ficar de cabeça baixa para a polícia”, afirmou Brown, durante o debate, como mostrado em reportagem realizada pela TVT. O rapper ressaltou que a população jovem negra não deve aceitar o preconceito da polícia.

Pedro Henrique Rocha, do coletivo Tamo Vivo, apontou que o racismo está enraizado pelo sistema, e que é preciso “se impor como negro” para combatê-lo.

A ONG Capão Cidadão foi criada em 2000, com o movimento “Não à violência, eu quero lazer!”. O objetivo é resgatar a cidadania para a comunidade do Capão Redondo através do acesso a cultura, esporte e lazer.

Assista a reportagem realizada pela TVT


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Não participava dos protesto e foi condenado. Justiça?: O catador que virou bode expiatório de Junho

Direto de Bangu 5, entrevista com o único condenado pelos protestos: o perigoso homem que carregava dois frascos de PinhoSol e agora cumpre pena de cinco anos

Por Matias Maxx, na Vice


Rafael Braga Vieira fez 26 anos dia 31 de janeiro. Nascido e criado na Vila da Penha, no Rio de Janeiro, trabalhava como garimpeiro urbano, coletando antiguidades e objetos usados no lixo para vender no “Dingo Mall” como é conhecida a feira de coisas usadas montada por moradores de rua nas proximidades da feira de antiguidades da Praça XV. No dia 20 de Junho de 2013, a PM carioca utilizou cavalaria, Tropa de Choque, muitas bombas e o famigerado Caveirão contra as centenas de milhares de pessoas que se manifestavam contra o aumento das passagens em frente à prefeitura. Enquanto alguns resistiam com escudos e barricadas, impedindo o avanço da tropa, vários manifestantes se espalharam pelo centro ateando fogo em lixo e quebrando vidraças de bancos. Por volta das 18h, Rafael, que diz nunca ter participado de manifestação nenhuma, voltava de seu garimpo para um sobrado abandonado onde ele morava. Ele declara que lá encontrou duas garrafas de produtos de limpeza que pretendia levar para uma tia, quando foi abordado por PMs e conduzido à delegacia, onde as garrafas se transformaram em coquetéis molotovs.

Rafael foi condenado no estatuto do desarmamento, por posse de explosivos e cumpre a pena de cinco anos no Presídio Elisabeth Sá Rego, também conhecido como Bangu 5. Trata-se de uma penitenciária de regime fechado, destinada normalmente a condenados ligados à facção criminosa Comando Vermelho, que controla a comunidade onde Rafael foi criado. Mesmo sem envolvimento com o crime organizado, o fato de ser cria de uma comunidade dominada por uma facção rival costuma ser uma sentença de morte no sistema prisional do Rio de Janeiro. Acompanhado de agentes e da assessoria de imprensa da SEAP, conversei por vinte minutos com Rafael. Com fala mansa e um triste conformismo, ele me contou a história da única pessoa condenada após ser presa nos protestos que tomaram conta do país desde junho do ano passado.



Me conta, o que aconteceu no dia 20 de Junho?
Rafael Braga Vieira: Tinha manifestação no centro, e eu estava chegando do trabalho e fui para o casarão onde eu morava. Quando eu saí, os PMs já me abordaram e falaram que eu estava com coquetel molotov na mão, mas eu não tava com coquetel molotov nenhum… Era uma garrafa de Pinho Sol que achei quando eu cheguei no casarão. Lá é aberto, é um casarão que foi invadido, na hora que eu cheguei lá, tinha essa garrafa e uma daquelas garrafas verdes de cloro… Aí pegaram a garrafa de Pinho Sol e esvaziaram, botaram lá algo que eu acho que era gasolina, amarraram um paninho e falaram que era coquetel molotov perante ao juiz. Só isso…

Você morava nesse casarão?
Eu morava sozinho nesse casarão aberto que tem na Lapa, dormia lá. Sou camelô, trabalho na feira da Praça XV. Como eu não tinha lugar para guardar minhas coisas, guardava lá. Minhas peças usadas. Trabalho com peças usadas, peças raras, não tenho nada a ver com essa manifestação aí. Nunca participei, nunca vi…

Você foi assistido por algum advogado quando foi preso?
Quando fui preso vieram dois advogados que me acompanharam, assinei até um papel lá com eles… Foram até lá na casa da minha família… Mas só isso mesmo… Não sei se tão acompanhando ainda, não pediram dinheiro… Lá no juiz eu tava com a Defensoria Pública…

E você viu os PMs esvaziando a garrafa?
As duas garrafas estavam lacradas quando eu peguei, não era molotov não. Peguei porque tem uma tia minha que mora lá no outro casarão do lado desse onde eu moro, eu ia dar pra ela. Aí eles me abordaram na saída do casarão, que fica de frente à delegacia das crianças lá na Lapa. Nem tinha visto eles quando eu saí, estava carregando as garrafas na mão, já chegaram me agredindo já, me deixaram no portão e seguraram as garrafas. Me levaram lá pra 5ª [DP], e lá as garrafas já estavam com gasolina. Eles esvaziaram e colocaram gasolina pra dizer que era coquetel molotov, mas isso não tem nada a ver não. Falaram isso pro juiz e ele foi e me condenou sei lá por quê, acho que é porque eu já tenho passagens.

Quais foram essas passagens?
Cheguei a ser condenado já em outras passagens por roubo. Cumpri pena e saí por ordem do juiz, saí de condicional e eu tava trabalhando tranquilão na paz de Deus, aí aconteceu isso aí.

E em quais presídios você passou antes de chegar aqui em Bangu 5?
Primeiro eu fui pra Japeri, depois pro setor B e ai me mandaram pra cá. Me mandaram pra cá. Eu tô aqui mesmo porque eu sou morador da comunidade da Penha, desde pequeno, minha família é de lá… Aí me botaram aqui. O convívio é tranquilo, tranquilão… Mas não tenho recebido visita, porque aqui fica um pouquinho distante pra eles.

Você acha que foi preso injustamente?
Fui preso injustamente com certeza, é porque eu tive duas passagens, por isso aí… Eu não fiz nada, sou inocente de verdade. Mas já fui condenado mesmo, o juiz me condenou, cinco anos… Tô pagando…

E o que você pretende fazer quando sair?
Quando sair pretendo voltar a trabalhar mesmo, resolver minha vida, arrumar um trabalho de carteira assinada que é melhor, ajudar minha família. Eu que ajudo minha família em casa, o mais velho dos irmãos sou eu. Minha mãe não tem marido. Tá morando sozinha agora, comigo somos sete irmãos e eu que ajudava.

E agora? Como eles estão se virando?
Pô! Não tenho nem notícias. Não sei como o pessoal tá se virando aí.
Me conta mais sobre seu trabalho na Praça XV.
Trabalho lá há muito tempo, desde os treze anos de idade. Vendo peças usadas que acho no garimpo, sou garimpeiro. Vou juntando lá no casarão, levo pra feira, espalho lá e começo a vender, pra arrumar dinheiro. Tudo que eu acho, liquidificador, televisão, aí eu alugo uma barraca lá e armo. É maneiro. Televisão funcionando, coisas boas que eu acho no lixo… Tudo vende lá cara, até peça ruim vende lá (risos), os caras compram pra tirar alguma coisa. Pô! Porcelana! Porcelana dá dinheiro legal, jarrinhos, quadros antigos, molduras… Eu tirava um dinheiro lá, de 300 a 500 por semana. Dava pra ajudar minha família tranquilo…
Eu ficava três semanas ali por baixo, ia pra casa lá na Penha, ficava uma semana em casa… Acabava ficando mais tempo lá embaixo do que em casa. Só ia lá em casa mesmo pra levar um dinheiro pra minha família, tô com duas irmãs recém-nascidas. Minha mãe chegou até a trabalhar comigo lá, mas não tava dando mais não…

Você já tinha participado de alguma manifestação? Ou sabe o porquê dessas manifestações?
Na manifestação anterior eu nem tava por perto. Nem sei por que estavam rolando essas manifestações. Não sei de nada, eu tava só voltando do trabalho, vi aquele monte de gente e aí isso aconteceu do nada. Tava vindo do Largo do Machado, eu garimpo lá, em Laranjeiras. Foi eu chegar e aconteceu isso comigo, mais ou menos umas seis horas da tarde.
Quatro meses depois, quase 200 pessoas foram presas numa manifestação, chegaram a passar um tempo aqui em Bangu, mas já foram todos liberados. 

Por que você acha que é o único que foi condenado e continua preso?
É… Só eu… É porque eu já fui condenado antes por roubo. Realmente, estava roubando, mas parei com isso, não quero mais saber de roubo, nem de mais nada dessa vida. Estava trabalhando tranquilão na rua, tô voltando do trabalho aí o cara pega, me agride. E acho que porque eles me agrediram lá na frente de um monte de pessoas eles tiveram que esvaziar aquilo ali e dizer que era molotov. Já tinham me agredido, já foram me chamando, falando que eu tava no meio… “Você tava ali né? No meio daquela bagunça ali né?”, tava nada. Falaram pro juiz que já tinham me visto por lá, que tinham me visto com uma mochila, realmente eu andava todo dia com mochila, vindo do meu garimpo, várias bolsas só com as peças usadas que eu achava no lixo. Eles falaram pro juiz que eu andava com bolsas. Pô! Nada a ver! Forjado. Foi tudo forjado.

Então você acha que eles inventaram essa história na delegacia para justificar o abuso de autoridade que tinham cometido antes?
Isso! Eles chegaram me agredindo à pampa, me deram coronhada, bateram minha cabeça na parede da delegacia. Tinha um montão de policial lá mesmo, dois já me levaram lá pra dentro já me metendo a porrada, chegaram lá dentro acabaram de me arrebentar e colocaram no “porquinho”, me deixaram um tempão lá e depois me chamaram, “tua casa caiu, não sei o quê…”. Aí me levaram pra 5ª e apresentaram a garrafa de Pinho Sol já com gasolina e com um pano na garrafa. Só isso mesmo. Falaram que era molotov, eu falei que não era. Mas não tava ninguém comigo, eu tava sozinho. Mas um montão de gente que tava com molotov mesmo foi tudo embora. Tudo liberado. Eu não tava com nada disso não e fui condenado.

domingo, 24 de novembro de 2013

Primeiro fomos estupradas, agora enterramos nossos filhos. E assim se fecha o ciclo da violência no Brasil.

Por Márcia Santos Severino para as Blogueiras Negras

No Brasil atual temos visto o esforço de intelectuais para tentar explicar a escalada da violência no país. Tal esforço é de suma importância, no entanto, muitas das teses parecem esconder um viés fundamental para essa análise: nosso passado obscuro.

Com efeito a violência no país se generaliza de forma mais contundente com a chegada da civilização européia ao nosso território. Sim, a civilização, o desenvolvimento, os bons costumes da cultura européia geraram um ciclo de violência no Brasil que persiste até a nossa atualidade.

Aqui buscarei fazer uma análise da ótica que nos importa e interessa, a ótica da mulher negra. Ora, a tal miscigenação nacional que apontavam os arautos da democracia racial no país, não foi feita à base do romance e do amor, mas sim à base da violência e da opressão. Vejamos como se inicia o ciclo de violência que até hoje açoita a nós negros: o senhor de engenho que via em seus escravos nada mais nada menos do que máquinas de trabalho que deveriam produzir para gerar sua riqueza, não tratava de forma diferente suas escravas, meras máquinas de reprodução dos trabalhos domésticos e do sexo fácil para os senhores e seus filhos. Como máquinas não possuem sentimentos e nem alma, a violência sexual sobre as escravas se dá de forma natural para os poderosos senhores que despejavam suas frustrações sexuais no corpo, transformado em máquina, dessas mulheres.

As crianças negras bastardas frutos dessa violência tiveram o seu lugar no ciclo violento que se fecharia: como não seriam jamais considerados filhos e membros da família do senhor, teriam lá sua serventia, qual seja, reprimir e caçar seus próprios ascendentes e descendentes escravos impedindo-os de qualquer fuga, qualquer resistência. São os capitães do mato. Aí começa a lógica do irmão matando irmão. A casa grande talvez não imaginasse a importância dessa inve(n)rsão.

Com o fim da escravidão, os ex-escravos foram literalmente jogados no mundo. Sem nunca ter tido acesso à educação, sem nunca ter vivido em uma sociedade mercantil e sem nunca antes terem tido a “liberdade” pregada pelo liberalismo burguês capitalista, era óbvio o abismo que se criaria entre eles e o resto da sociedade. Estava inscrita a lógica da marginalidade. O negro na sociedade brasileira nunca se marginalizou mas sim foi marginalizado desde os primórdios da fundação dela.

Para certificar-se de que nos separariam ainda mais para prosseguirem nos dominando, trataram de gerar divisões, assim, existiam os negros da casa grande e os negros do eito.

Os últimos eram responsáveis pelas funções mais rústicas, não sabiam ler e escrever e não possuíam contatos que pudessem lhes auxiliar de alguma maneira. Viviam de “bicos” e muitas vezes tornavam-se viciados em álcool, dando início, assim, ao nosso drama com o alcoolismo que persiste até os dias de hoje. Já as mulheres negras desse grupo, podemos dizer que foram menos desafortunadas pois conseguiram postos como empregadas, lavadeiras e cozinheiras. Começa aí nosso drama com o trabalho doméstico “assalariado” persistente também até os dias atuais.

Tal situação desestruturou nossas famílias nos encaminhando, entre outras coisas, para pequenos crimes e prostituição. Isso não foi uma opção que nos foi dada, isso foi claramente imposto, diante das condições que nos deram. Já os negros da casa grande, conseguiram ao menos sobreviver de maneira um pouco menos sofrida. Alguns sabiam ler e escrever e tinham alguma influência, sendo integrados de forma ínfima.

Hoje esse passado obscuro bate à nossa porta. O capitão do mato ainda existe é, nada mais nada menos que a polícia. As mulheres negras que no passado foram violentadas, hoje enterram seus filhos vítimas da violêncuia urbana. Ah! A cidade! Dento dela o lugar do negro desde o início foi a favela. Jogados no mundo sem ter para onde ir, como alugar ou comprar uma casa? Não bastasse isso vieram as piores drogas. Drogas: a melhor invenção que o capitalismo poderia criar para manter sua hegemonia.

Continuam injetando-as dentro da periferia e, aliás, porque será que o poder público não se empenha em debater a descriminalização delas?

Como podem perceber o papel de todos os negros mas, principalmente da mulher negra em todo esse processo é um papel subalterno. A mulher negra não é dona de seu corpo não tem escolhas e a violência faz parte de seu íntimo e de seu cotidiano.

O grande genocício empetrado principalmente contra os homens negros traz em seu bojo um passado onde está (ainda) presente a divisão dos irmãos e o que é principal: a fragilização de um dos maiores símbolos de resistência aos arbítrios da dita “civilização”: a mulher negra.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Te quero, mas não te assumo

Por Silvia Nascimento para as Blogueiras Negras

A classe C compõe 54% da população brasileira. Estima-se que nos últimos anos, mais de 23milhões de pessoas saíram da classe D e E para integrar grupo que se tornou condutor da locomotiva do crescimento do país. Números do instituto de pesquisa Data Popular apontam que a classe C movimenta R$ 1 trilhão por ano na economia nacional. Esse parcela é formada em sua maioria por negros, mulheres e jovens. “Colocar negros na comunicação tem a ver com um mercado de R$ 720 bilhões”, assegura o sócio-diretor do instituto Renato Meirelles.

Fazer ações de marketing que dê visibilidade a este nicho de mercado, não é uma questão de responsabilidade social, muito menos de reconhecimento da diversidade, ou altruísmo, trata-se de uma questão de sobrevivência. O mercado de cosmético demorou mas despertou para atender este público que dá valor ao seu dinheiro e exige qualidade. A partir deste panorama econômico vamos refletir: será que o investimento na fabricação de produtos para este público, também passa pelo esforço em retratar esses novos consumidores em suas campanhas publicitárias, sejam elas impressas, pela TV, pontos de venda ou Internet? Negativo.

Para O Boticário, ela é invisível

O Boticário, empresa que completou 34 anos em 2013, com mais de 3 mil lojas espalhadas no Brasil e que reconhece a diversidade nos tons de pele da brasileira, por meio da generosa gama de cores da sua linha de maquiagem oferecida em suas lojas, não transporta a mesma estratégia realista na escolha das modelos da sua nova campanha publicitária para a linha Make B Rio Sixties, inspirada na beleza do Rio nos anos 60. “A beleza do Rio que encantou o mundo” é retratada pelo vídeo da campanha, de pouco mais de 30 segundos, por modelos de pele branca branca cantando a famosa marcha “Cidade Maravilhosa”. O sol está lá, a praia aparece ao fundo, a “vibe” é tropical, mas as protagonistas do comercial não representam o biotipo das mulheres brasileiras. Há até uma estrangeira que canta com seu sotaque mas nenhuma negra, como aquelas que habitam nosso imaginário quando lembramos do carnaval. Para O Boticário, a mulher carioca que atrai os olhares do mundo é branca, de olhos claros, cabelos longos e loiros.

Indignadas com a campanha, muitas internautas prontamente manifestaram seu repúdio ao vídeo. Uma delas, a blogueira Carolina Candido escreveu uma longa mensagem ao departamento de marketing retratando sua indignação. “Como que num país com diversidade étnica tão grande quanto o Brasil, apenas uma etnia pode ser representada em uma propaganda, ainda mais se tratando de uma campanha que busca enaltecer as belezas da cidade do Rio de Janeiro? ”, protesta Carolina . A empresa se defende e diz que a “campanha Make B. Rio Sixties foi criada com muito carinho, especialmente para todas as mulheres que adoram novidades de make up”. Todas as mulheres?

“Só tem loiras no Brasil”, “No Brasil só tem brancos?”, “O Rio é repleto de negros e caso O Boticário não saiba, o negro é lindo”, dos manifestos das consumidoras na página da marca no Youtube, onde a Central de Relacionamento ao consumidor pede desculpas e se compromete a encaminhar as mensagens à equipe de marketing.

Qual nome se dá a uma empresa que investe na sua linha de produção para um determinado público que ela não assume ter publicamente? Dizer que a empresa cria produtos, de forma especial, para mulheres que adoram novidades em make up, mas nas campanhas publicitárias ignora as negras, não é o mesmo que dizer que seus produtos são feitos apenas para brancas?

O velho ditado diz que só valorizamos o que perdemos. A mulher negra brasileira tem o perfil da consumidora em potencial. Hoje ela finalmente tem o poder econômico para escolher produtos que suas mães e avós nem sonhavam em ter. Na hora de compra, ela deve optar por empresas que reconheçam sua beleza, não apenas por estar de olho na sua carteira, mas por promover ações publicitárias que deem visibilidade e enalteçam suas características físicas sim, mas também seu hábitos culturais e comportamentais. Para O Boticário na cidade cheia de encantos mil, a negra é invisível.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

DE MUCAMA A DOMÉSTICA, UM BREVE RELATO DA MULHER NEGRA CONTEMPORÂNEA

Por Mara Gomes para as Blogueiras Negras

Acompanhei recentemente uma reportagem que dizia que a cada cem negras trabalhadoras vinte duas eram empregadas domésticas, com isso, concluí que essa profissão perpassa as mulheres negras com muito mais freqüência que qualquer outra profissão e obviamente esse fato acontece por causa do encargo social que acompanha a raça negra desde que o primeiro navio negreiro desembarcou no Brasil por volta de 1563. Mas também vão junto, além disso, questões fortes de gênero que incitam para que se dê repetidamente a ocorrência desse ofício entre as mulheres, questões como a explicitada nesta frase machista que está completamente naturalizada em nossa cultura: “Lugar de mulher é na cozinha”.

Percebi o quanto é difícil encontrar mulheres negras que não sejam domésticas ou, ao menos, filhas, netas, sobrinhas e irmãs de domésticas. De certo modo comprovamos que está cravado em nossa história que ser uma empregada doméstica é a única profissão que devemos seguir e que em apenas raras exceções não a seguiremos. A relação da mulher negra com o trabalho doméstico não acontece em uma forma de escolha, mas sim de coação, até mesmo de obrigação por muitas vezes. Por mais que pareça muito claro acredito que muitos não saibam qual é o grande problema que traz essa situação.

Em 1850, há exatos 38 anos antes da abolição, foi criada no Brasil uma lei chamada Lei de Terras, essa foi a primeira lei agrária do Brasil e tinha um motivo camuflado, que quase nunca é apresentado ao conhecimento do senso comum, o tal motivo era o de impedir que negros tivessem terras propriamente deles. Por causa disso por “coincidência” a Lei de Terras foi aprovada no mesmo ano da lei Eusébio de Queirós, que presumia o fim do tráfico negreiro e sinalizava que estava por perto a abolição da escravatura no Brasil. A terra se transformava a partir daí em uma mercadoria, só conseguiria ser propriedade de alguém se fosse recebida como herança ou comprada, logo por não ter dinheiro nem empregos bem remunerados após a abolição os negros foram jogados na periferia da cidade por isso hoje em dia existe uma porcentagem esmagadora de negros vivendo nas favelas brasileiras.

Ok, mas onde quero chegar com esses dados? É uma simples matemática feita da soma de dolorosas e falsas coincidências. Após o fim da escravidão, sem terras, sem educação e sem qualquer experiência profissional além de trabalho escravo, o negro se viu anulado de conseguir qualquer emprego além do que já fazia antes sem ganhar nenhuma remuneração. Se ele trabalhava antes de graça, por que agora dariam algum valor justo para o seu trabalho? Algumas das profissões destinadas ao negro eram: carregador de caixas, cozinheiro, copeiro, lavadeira, mucama/criado, carregador de cestos, padeiro, forneiro, carpinteiro, ama de leite, ajudante de cozinha, lavador de pratos e etc. Já que disputava os empregos com um grande número de imigrantes, sobravam sempre os serviços com as piores remunerações. Para a mulher negra continua sendo o de criada, que hoje apenas só mudou de nome.

Constatamos que a profissão doméstica é uma das mais negligenciadas e isso é um resultado claro do histórico escravista, ou melhor é visivelmente uma extensão da escravidão só que disfarçada. Afirmo isso por causa da falta de direitos trabalhistas, das longas e árduas horas de trabalho para um salário indigno que faz com que elas façam diversas diárias no mesmo dia para terem chance de pagar as contas. Quando mãe de família a mulher tem que abandonar seus filhos em casa para cuidar dos filhos de outras mulheres. O filme The Help (Histórias cruzadas) apresenta bem essa relação. Lembro da cena em que uma das mulheres leva a sua filha adolescente até a parada de ônibus para seu primeiro dia de trabalho como doméstica, as duas de uniforme, a mãe estava desempregada e por um empecilho não podia trabalhar, como sendo a mais velha das filhas a menina assumiria a função passada de geração por geração, sem ter nem o direito de escolha. Se tratava da profissão que era dada e deveria ser desempenhada, porque isso era natural e, de acordo com os dados atuais, ainda é.

Eu, mulher negra filha de uma mãe negra e trabalhadora doméstica me senti profundamente atingida por esse estereotipo profissional, mesmo não comprovando ele na prática. Dentro de onde cresci sempre fui coagida pelos meus pais a ter um futuro diferente do que eles tiveram, a estudar, ter um emprego que me fizesse feliz, dentre outras coisas que todos os pais desejam para os seus filhos. Mas mesmo assim, passando por escolas públicas precárias e um ensino ruim, sempre dentro de mim ficava aquele receio de um dia não conseguir o que eu sonhava e aceitar o destino que me era dado e colocado desde o meu nascimento aos meus pés. Acredito que essa situação com certeza não é apenas minha, mulheres negras passam por isso todos os dias o que o torna um dilema geral.

Nosso esforço para chegar a uma faculdade ou carreira de sucesso é duplamente difícil, porque no fim nossos caminhos sempre nos levam a crer que o nosso destino era o de nossas avós, tias, amigas de escola, mães, irmãs, destino que está na televisão, onde a mulher negra só aparece como empregada nos comerciais, filmes e novelas. Não quero por nenhum segundo aqui desmerecer essa profissão, porque tenho um orgulho imenso da minha mãe, ela se virava em mais de dez mulheres para criar eu e meus 4 irmãos, trabalhou desde os 7 anos de idade abafando dentro de seu peito o desejo de estudar e ser professora. O que é explicito aqui é o jeito que a profissão doméstica nos é dada e não escolhida por nós, quantas meninas não abafam sonhos todos os dias porque precisam trabalhar em casas de madame com direitos precários?

Essa profissão carregou até pouco tempo total falta de direitos trabalhistas, até que algo mudou, quando neste ano foi aprovada pelo Congresso Nacional a PEC das domésticas. Essa PEC é responsabilizada pela regularização do direito dos trabalhadores domésticos, entre eles, a remuneração igual ou superior a um salário mínimo, décimo terceiro salário, folga semanal remunerada, férias, licença-maternidade e paternidade e aposentadoria. Direitos que todo o trabalhador deve ter e só foram conquistados agora, ainda existem umas lacunas no projeto que não foram conferidas perfeitamente, mas a PEC é um avanço, todavia não deve parar por aí. Creuza Maria Oliveira mulher, negra e a frente da Federação Nacional dos Trabalhadores Domésticos (Fenatrad) em um de seus relatos afirma que se a PEC existisse antes ela não teria sofrido tanto, esse mesmo pensamento minha mãe carrega nos seus 63 anos.

Ambas têm uma história muito parecida, ambas começaram a trabalhar na infância e tem quase 30 anos de trabalho doméstico na história. Acredito ao mesmo tempo, se você for negra, que a sua mãe, irmã, tia, sobrinha, amiga, também tenham experiências ou estejam vivenciando situações semelhantes a essa. As chances de você também estar vivendo isso são igualmente grandes, nossa história foi construída com base no trabalho doméstico por isso não é estranho que essa seja uma das profissões menos valorizadas do Brasil, pelo contrário isso é apenas o que se espera.

Bibliografia

PEIXOTO, Ricardo Corrêa. Mucamas, Criadas ou Domésticas: sinônimos de uma história de exclusão. Disponível em:(http://www.brasilescola.com/sociologia/mucamas-criadas-ou-domesticas.htm).

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata!

Considerações sobre elogios racistas


Por Charô Nunes para as Blogueiras Negras

Elogio racista é toda demonstração de admiração, afetividade ou carinho que se concretiza por meio de ideias ou expressões próprias ao racismo. Com ou sem a intenção de, que fique bem claro. Um dos mais conhecidos é o famoso “negro de alma branca” que nossos antepassados tanto ouviram. Mas não são apenas nossos homens que conhecem muito bem os elogios racistas. Nós mulheres negras também somos agraciadas com esses pequenos monstrinhos, usados inadvertidamente por amigxs, familiares. Muitas vezes até por nossos parceirxs.

Decidi fazer uma lista com 5 elogios racistas (e sexistas, diga-se de passagem) que muitas de nós escutamos quase que diariamente. Alguns são consenso, acredito. Outros nem tanto. Fico aguardando ansiosa para que você, mulher negra, deixe seu comentário dizendo se também acontece com você. Se concorda, se discorda. E sobretudo, o que você faz para deixar bem claro que esse tipo de comentário pode ser tudo, menos benvindo e apreciado.


Adriana Alves é atriz e frequentemente é chamada de morena


01. “Você é uma morena muito bonita”

Esse é o elogio racista que mais escutei em toda minha vida. Minhas primeirass lembranças são do tempo da escolinha. Mesmo mulheres como Adriana Alves ainda são chamadas de morenas, pois se acredita que chamar alguém de negra é uma ofensa racial. Se você precisa se expressar, tente um simples “você é bonita ou atraente”. Ou ainda “você é uma negra linda”, o que, dependendo do contexto pode ser tão ruim quanto.

Mas em hipótese alguma diga que uma negra é morena, moreninha, morena escura. Que não é negra. Isto sim é racismo dos graúdos, pura e simplesmente. Quando acontece comigo, digo que não sou morena e nem moreninha, sou n.e.g.r.a. O bom é que, dependendo de como essa resposta é dada, a pessoa já se toca que ela não deveria ter começado o conversê, que simplesmente não estou disponível para esse tipo de diálogo. Nem com conhecidos, muito menos com estranhos.

Não toque no meu cabelo. Foto Afrobella.


02. “Seu cabelo é muito bonito, posso pegar?”

Há alguns anos atrás, uma senhora ultrapasssou todos os limites de uma convivência pacífica ao se aproximar de mim, cheia de dedos, me tocando sem permissão e dizendo que eu tinha uma “peruca muito bonita”. Não retruquei de caso pensado, antecipando seu constrangimento por jamais ter cogitado que uma mulher negra pudesse ter um cabelo comprido, ao natural. Minha vingancinha, e sou dessas, foi olhar aquela expressão de arrependimento por ter percebido o que fez.

Entendo que simples visão de uma negra com cabelo natural pode ser inebriante. Que persiste a completa desinformação sobre o nosso cabelo. Porém, isso não justifica o toque sem permissão. Não importa se é cabelo natural ou não. A menos que você conheça muito bem a pessoa, não toque em seu cabelo sem consentimento. Eu iria mais longe. Para mim a boa etiqueta simplesmente reza que não se deve nem mesmo pedir para tocar o cabelo de uma pessoa desconhecida

Alek Wek também é uma modelo de traços delicados


03. “Você tem os traços delicados”

Dizer que uma negra tem traços “delicados” muitas vezes tem a ver com a ideia de que será bonita se tiver uma expressão “fina”, leia-se semelhante a de uma pessoa branca. Como se determinado tipo de nariz (ou bochechas) fosse exclusivamente dessa ou daquela etnia. Uma de suas variantes é outra expressão igualmente racista – “você é uma mulher negra bonita” – algo que ao meu ver é a mesma coisa de dizer que “você é bonita para uma negra”.

Afinal, qual a dificuldade de dizer que uma mulher negra simplesmente é… Uma mulher bonita? Porque Alek Wek tem de ser descrita como uma “mulher negra bonita” enquanto as mulheres brancas são apenas “mulheres bonitas”? Mais uma vez, toda a sutileza do elogio racista. Ele reconhece que você é uma pessoa admirável, mas sempre fazendo questão de te colocar “no seu lugar”, como se algumas fronteiras jamais pudessem ser cruzadas.

Cena de Vênus Negra, de Abdellatif Kechiche


04. “Você tem a bunda linda”

Essa é uma opinião que certamente não é unânime. Faço questão de expressá-la como uma provocação que representa o pensamento de uma parcela significativa de mulheres negras. Para muitas de nós, esse comentário expressa a hipersexualização a que somos historicamente submetidas como exemplifica a triste biografia de Saartjie, denominada a Vênus Hotentote, exposta como atração circense em função da admiração que suas nádegas causaram na Europa do século XIX.

Apesar de todo respeito que tenho por tudo aquilo que acontece entre duas pessoas, preciso considerar a tradição racista secular desse tipo de discurso. Trata-se de reduzir a mulher negra a um pedacinho do seu corpo, desconsiderar sua humanidade, transformá-la num pedaço de carne exposto no açougue como aconteceu e acontece diariamente. Meu conselho é perguntar se a mulher a quem você pretende cumprimentar tem a mesma leitura sobre esse tipo de elogio.

Mulata da Leandro de Itaquera

05. “Você é uma mulata tipo exportação!”

Esse elogio resgata o tratamento dispensado à mulher negra no seio da senzala, da casa grande. O pensamento que nos reduz em brinquedos sexuais. Dizer que uma mulher negra é uma “mulata tipo exportação” é esquecer uma tradição escravocrata secular, que transforma a mulher negra em “peça” que alcancará boa cotação no mercado onde a carne mais barata é a nossa. O nome desse mercado é exotificação. Em alguns casos, hiperssexualização.

Infelizmente também estamos falando sobre o modo racista com que as mulatas de escola de samba, mulheres que respeito e admiro, são mostradas e consumidas. Mulheres que levam o samba no pé, no sorriso, na raça. Que, ao invés de serem uma referência de beleza, são vendidas como frutas exóticas na temporada do carnaval. Mulheres que recentemente tem sido preteridas por “personalidades da mídia” em nome de uma pretensa “democracia racial” e muitas vezes com a anuências de algumas agremiações.
Qual é a sua opinião?

Porém, preciso dizer que os elogio racistas podem (e devem) subvertidos. Quando o assunto são as mulatas de quem já falei aqui, isso é bastante evidente. Ser uma mulata exportação também atesta um padrão de excelência e traduz qualidades como perseverança, força. Minha professora de dança adora dizer que a graça de uma bailarina é diretamente proporcional à sua força. Mulatas são a expressão mais concreta desse enunciado.

Por isso fiz questão de usar como título desse post, um trecho do poema de Elisa Lucinda, Mulata Exportação, que resume tudo o que tentei dizer até aqui: “deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata” como muita gente gosta de pensar. E acrescento, “opressão, barbaridade, genocídio, nada disso se cura trepando com uma escura!”. Muito menos tecendo elogios racistas, diga-se de passagem. Quem o diz é a mulata exportação do poema. Sou eu, somos todas nós que já ouvimos essas porcarias.

Confesso que essa lista tem algo de muito pessoal, cujas entrelinhas tem muitas dedicatórias alimentadas por ironia. Nem por isso menos pertinente. Por isso adoraria ouvir a opinião de vocês. Esqueci algum elogio racista que te incomoda? Que te fez espumar de ódio, revirar os zóios e dizer algumas verdades? Você também acredita que esse tipo de comentário, como tudo aquilo que é racista e preconceituoso, diz muito sobre a pessoa que o faz do que sobre a pessoa a quem se destina?

Me conta!

Post scriptum
01. Em nenhum momento esse post quis dizer que é errado manifestar carinho e amor. A questão é sobre consentimento e preconceito.

02. Fica implícita a dupla incidência de racismo e sexismo desses comentários, conforme ditto no corpo do texto.