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sábado, 17 de novembro de 2018
domingo, 4 de novembro de 2018
O que é isso companheiro?
Conta a história verídica do sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, por integrantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e da Ação Libertadora Nacional (ALN), que lutavam contra a ditadura militar instalada no país em 1964. O objetivo do grupo era trocar o embaixador por 15 companheiros presos pelo regime.
quarta-feira, 19 de julho de 2017
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
Uma reflexão sobre o trabalhismo
Sobre a dificuldade da esquerda em entender o trabalhismo como uma prática progressista, fundamental para o desenvolvimento do Brasil
A esquerda brasileira, principalmente a que foi formada na segunda metade dos anos 1970, na esteira das greves de São Bernardo do Campo, e em toda a região do Grande ABC, tem dificuldade de enxergar o trabalhismo como prática política progressista. Informados e formados pela sociologia paulista de inspiração contrária ao varguismo, os marxistas da luta contra a ditadura civil-militar associaram o trabalhismo ao populismo. É como procurar agulha no palheiro um intelectual uspiano que seja simpático ao legado de Vargas, Jango e Brizola . Pudera! A USP, fundada em 1934, é a consequência das derrotas de São Paulo em 1930 e na Revolução Constitucionalista de 1932.
Getúlio Vargas
Há uma tradição reacionária em matéria de política em São Paulo. A imprensa paulista sempre foi contra os interesses nacionais. A “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, que foi uma das manifestações que desencadearam o golpe de 1964, teve o apoio entusiasmado de Carlos Lacerda, que com os olhos lacrimejantes disse: “São Paulo começa a salvar o Brasil”. O II Exército, sediado em São Paulo e sob o comando o general Amaury Kruel , foi decisivo para o sucesso dos militares.
A USP foi criada para formar líderes que, baseados nas metodologias científicas, pudessem entender o país e governá-lo. Qual intelectual uspiano se levantou, na época, contra o golpe? Qual deles esocreveu algo positivo sobre João Goulart? Em que livro o professor Florestan Fernandes analisou Vargas, Jango e Brizola? Aliás, Florestan criticou Brizola por seu “nacionalismo machão”. Alfredo Bosi foi o único intelectual uspiano que abriu o jogo: A USP não se interessou pelo golpe de 1964. Em 1994, quando a USP chega ao poder, Fernando Henrique Cardoso em discurso de posse soltou o verbo: precisamos enterrar a Era Vargas.
Origem e evolução do trabalhismo
Com origem na Inglaterra, a partir da Revolução Industrial, o trabalhismo se estabeleceu e começou a se organizar enquanto movimento objetivando lutar por melhores condições de vida para os trabalhadores. Formou-se, então, um conjunto de doutrinas com ênfase no cenário econômico. Com seu crescimento, o movimento trabalhista dialogou com diferentes ideologias sob a mesma matriz, como democracia-cristã, social-democracia, socialismo, anarquismo e comunismo. No Brasil, começou a ganhar corpo no início do século XX, durante a fase final da República Velha, tornando-se mais presente em 1945, com a fundação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), inspirado por Getúlio Vargas. Teve um papel fundamental como principal braço político da esquerda moderada, durante as décadas de 1950 e 1960, especialmente porque atraía pessoas que não se identificavam com os extremos (direita e comunismo). No final dos anos 1970, o PTB perdeu seus ideais originais trabalhistas, principalmente depois da morte de Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio Vargas. O grupo liderado por Leonel Brizola criou o Partido Democrático Trabalhista (PDT), que reuniu grande parte dos trabalhistas de esquerda. Outras pequenas correntes do trabalhismo se concentraram em outras legendas, como o Partido Trabalhista do Brasil e o Partida Trabalhista Nacional.
TEORIA DO POPULISMO
A teoria do populismo etiquetado com grife de Weffort fez muito mal à interpretação da história política do Brasil. Populismo entendido como prática política que usa o povo como massa de manobra é um conceito que liga nada a coisa nenhuma. O pior é que esse conceito é responsável por uma das maiores esquizofrenias do pensamento sociológico brasileiro. Faz com que a chamada esquerda marxista seja contra o golpe militar de 1964 e, ao mesmo tempo, contra os trabalhistas que foram apeados do poder.
Amaury Kruel » General de exército, depois marechal, Amaury Kruel (1901-1996) formou-se na Escola Militar do Realengo e participou da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. Era chefe do Gabinete Militar e, depois, ministro da Guerra de João Goulart. Aderiu, porém, ao golpe de 1964.
Octavio Ianni » Professor emérito na Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além de ter lecionado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Octavio Ianni (1926-2004) foi um dos maiores sociólogos da história do Brasil. Produziu trabalhos sobre racismo, desenvolvimento, mudança social, populismo, teoria sociológica e nova ordem global.
A teoria do populismo teve o disparate de fazer com que o maior inimigo da esquerda fosse o trabalhismo. Octavio Ianni chega a dizer que Vargas impediu o desenvolvimento do comunismo no Brasil. Será apenas fruto da manipulação das massas o fato de Getúlio Vargas ter sido idolatrado pelos trabalhadores? Como um ex-ditador “sanguinário” e “fascista” que defendia os empresários e iludia o povo volta eleito para a Presidência em 1950?
Usando o raciocínio lógico: se o trabalhismo deveria ser eliminado suas realizações tinham que ter o mesmo destino. Uma árvore ruim não pode dar frutos bons. Então são péssimas as seguintes realizações: a criação do Ministério do Trabalho; a CLT; o voto secreto; o voto feminino; a nacional Vale do Rio Doce; a luta contra o imperialismo; o aumento de 100% do salário mínimo em 1953; a criação da Petrobras; o anteprojeto de criação da Eletrobrás e a lei contra a remessa de lucros. Todas essas ações, portanto, são execráveis porque contribuíram para tirar a autonomia organizacional da classe trabalhadora.
A deportação de olga Benário, companheira de Prestes, para a Alemanha nazista foi um episódio lamentável da era Vargas
Confinar Getúlio Vargas ao período de Estado Novo, de 1937 até 1945, é um reducionismo histórico. É outro Vargas de 1950-1954. Tancredo Neves, no episódio do atentado da rua Toneleros, quando Vargas abriu desnecessária e temerariamente o Palácio do Catete à devassa da República do Galeão, disse que o ex-presidente tinha complexo de ditador. Ou seja, que tinha bode com esse passado, de modo que não criou nenhum empecilho às investigações.
A crítica mais emblemática a Vargas é em relação à deportação para a Alemanha de Olga Benário, que viria a morrer numa câmara de gás. É absolutamente lamentável esse fato. Contudo, é sintomático que Luiz Carlos Prestes tenha defendido a Constituição com Getúlio logo que deixou a prisão. Só para constar: Prestes era marido de Olga Benário. E não deixa de ser curioso que os trabalhadores conquistaram seus maiores direitos no Estado Novo.
Jango e Brizola foram outras vítimas da direita e da teoria do populismo dos marxistas brasileiros. Os dois são responsabilizados pelo golpe de 1964. O primeiro era visto como fraco, com desejo insaciável pelo poder, um despreparado e incapaz de governar o Brasil. Quem fugiu dessa interpretação reacionária foi Darcy Ribeiro. Para o antropólogo, Jango foi deposto por causa de suas virtudes. O segundo foi chamado de populista, demagogo, dinossauro, lunático, radical, descolado da realidade, etc. Num congresso da UNE de 1998, quando Leonel Brizola começou a discursar os estudantes do PT começaram a entoar o seguinte coro: “Eu vou, eu vou, eu vou entrar de sola, fazer reforma agrária, na fazenda do Brizola”. Um absurdo revelador da falta de conhecimento histórico do que representou Leonel Brizola na política brasileira.
Qual líder da esquerda no Brasil fez o que Brizola conseguiu em 1961 na época da campanha da legalidade? foi a primeira e única vez que a esquerda (…) teve apoio da opinião pública.
A CAMPANHA DA LEGALIDADE
Leonel Brizola morreu antes de conseguir realizar o seu destino histórico: ser presidente do Brasil
Qual líder da esquerda no Brasil fez o que Brizola conseguiu em 1961 na época da Campanha da Legalidade? Foi a primeira e única vez que a esquerda (situo o trabalhismo à esquerda do espectro político) teve apoio da opinião pública. Pelas ondas do rádio, Brizola armou a população do Rio Grande do Sul, dividiu o Exército e poderia ter subido com o povo até Brasília e feito uma transformação social e política no Brasil. Atitude populista? Inclusive Carlos Lacerda, que se referia à Campanha da Legalidade como “gracinha trágica”, disse que Brizola ganhou a batalha das comunicações.
Quando governador do Rio Grande do Sul fez a primeira reforma agrária do país – em Sarandi. Aos trabalhadores acampados colocou toda a estrutura do Estado para apoiá-los. Desapropriou terras e realizou o assentamento. Nacionalizou duas multinacionais, a ITT e a Bonde & Share. Criou o Banco Estadual para fomentar o desenvolvimento industrial. No Rio de Janeiro criou os CIEPs e enfrentou como nenhum outro político brasileiro o poder de Roberto Marinho. O conceito de perdas internacionais como uma bomba de sucção drenando nossas riquezas, Brizola o desenvolveu vinculando a partir de sua prática como governador, quando sentiu de perto a espoliação que os estados menos desenvolvidos e o país sofriam.
Roberto Marinho » Empresário da comunicação, Roberto Pisani Marinho (1904-2003) é uma das figuras mais controversas da história do Brasil. Construiu um verdadeiro império, as Organizações Globo, porém seu maior crescimento ocorreu durante a ditadura civil-militar. Católico, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. O lado sombrio de sua trajetória é narrado no documentário britânico Muito além do cidadão Kane (1993), exibido pela emissora pública do Reino Unido Channel 4.
Palavras de Gilberto Vasconcellos
“[…] Às vezes eu me pergunto se o balé antipopulista da USP sociológica não é uma paranoia elitista inimiga do folclore, pois no Sul a figura lendária do caudilho se origina de gaudério, assim como no Nordeste o jagunço cangaceiro é uma invenção sertaneja. O cineasta Glauber Rocha já dizia, num artigo belíssimo sobre o romancista José Lins do Rego, que a prosa brasilianista da sociologia substituiu o ciclo épico do cangaço, ou seja, o boom sociológico dos anos 60, fabricado pela ideologia automobilística dos Esteites, é uma armação colonialista para eliminação do nosso imaginário a linguagem do romance nordestino de 1930 […].” (VASCONCELLOS, 1989, p. 53)
“Somos governados pelas palavras. Então a consulta ao dicionário torna-se fundamental, antes, durante e depois da campanha. Não nos esqueçamos de que a crise brasileira é também a crise da linguagem. O que é autoritário? Qual a definição de populista? E caudilho, o que significa?
Autoridade é o direito de tomar decisões, o poder legítimo de se fazer obedecer. É o caso do piloto de avião que exerce uma autoridade racional. Inquestionável. Portanto, sem autoridade é impossível viver.
Autoritário é o abuso da autoridade que procura se impor pela força. Despótico. Quem manda sem o poder legítimo de mandar. Arrogante. Violento. Ditatorial. Dominador. Golpista.
Populista é o amigo do povo.
Caudilho ou chefe, civil e militar. Aquele que conduz o povo. Sem líder não há povo.” (VASCONCELLOS, 1989, p. 99)
“[…] Segundo as análises sociológicas, cabe ao governo João Goulart a culpa do golpe de 64, porque foi um governo que provocou a agitação política das massas, e não a agitação política de classe. Trata-se de raciocínio abstrato, mera inadequação do ‘tipo ideal’ weberiano, construído por quem passou inteiramente alheio à vida política em 1964. A sociologia da USP sobre o fracasso janguista é post factum. Os sociólogos metapopulistas não estão interessados em explicar o destino trágico e sim preocupados apenas em testarem os conceitos de suas teses acadêmicas […].” (VASCONCELLOS, 1989, p. 107-108)
O que estamos presenciando no atual estágio político brasileiro não deixa de ser interessante. Primeiro deixa claro que a direita, quando perde seguidamente, como a UDN nos anos 40, 50 e 60 do século passado, recorre ao expediente golpista. Antes usaram os militares, agora usam politicamente a Justiça. Segundo: o único movimento teórico e político que efetivamente se contrapõe ao modelo hegemônico neoliberal é o trabalhismo. De modo que o PSDB e o PT, amlenin bos gestados na ideologia antigetulista, jogaram água no moinho de gastar gente do grande capital.
Lenin dizia que a prática é o único critério da verdade. lendo a história do Brasil, o trabalhismo foi a única força que enfrentou na prática o imperialismo. Portanto, não é incompatível com o socialismo
Não dá para desconhecer que com todos os avanços sociais que vivenciamos nesses últimos anos com o PT na Presidência nunca os empresários e principalmente banqueiros ganharam tanto. Agora que a política de conciliação de classes entrou em crise por conta da queda no preço das commodities, a direita se rearticula para implementar políticas de superexploração do trabalho. Trocando em miúdos: o desmonte de direitos que foram implantados pelos líderes trabalhistas. A prosódia é horrorosa: custo Brasil, flexibilização das leis trabalhistas, privatizações, choque de capitalismo, mais mercado menos estado, etc.
O PT nunca enfrentou o capital internacional. Qual a contradição do partido com as privatizações? As denúncias contra as privatizações foram usadas como retórica marqueteira contra o PSDB. No governo, o PT também privatizou. Henrique Meirelles, eleito deputado pelo PSDB, foi catapultado a presidente do Banco Central. Até essa onda de denúncias pela imprensa – que se transformou em partido político -, qual a contradição real do PT com a Rede Globo? Só agora, em 2016, Lula resolveu enfrentar a Globo.
Quando Brizola volta do exílio, em 1979, vai até o sindicato dos metalúrgicos se encontrar com Lula e propor uma aliança entre o trabalhismo e o sindicalismo paulista. Lula o faz esperar por duas horas e quando conversa com Brizola o trata de forma fria e absolutamente deselegante. Deu no que deu! Gilberto Vasconcellos em 1989 escreveu um livro chamado Brizulla, em que defende a aliança para as eleições presidenciais de Brizola e Lula. O samba Brizulla da democracia atravessou. Collor é eleito, Itamar, empossado depois do impeachment, e FHC, com o Plano Real, cumpre a função de vender o Brasil.
POLARIZAÇÃO POLÍTICA
Nesse momento de polarização extrema da política brasileira, Lula deveria fazer uma profunda autocrítica. Simbolicamente deveria ir até São Borja, e se reconciliar com Vargas, Jango e Brizola e, diante dos túmulos dos líderes trabalhistas, assumir o compromisso histórico de tomar a Carta-Testamento em suas mãos e lutar em defesa da soberania nacional. Não há povo sem líder, de modo que essa aversão ao caudilho é incompatível com o momento decisivo em que nos encontramos.
É visível o fracasso da interpretação histórica uspiana que desaguou na tragédia do desmonte do Estado nacional. É urgente a retomada do fio da história. Usar como discurso que a perseguição que sofre da imprensa é igual à que Vargas e Jango também sofreram como Lula vem fazendo não basta. Vargas e Jango foram vítimas de uma campanha sórdida porque bateram de frente com os latifundiários; com a burguesia; com os banqueiros; com o capital internacional e com os EUA.
Contra as manifestações elitistas recentes, é preciso investir no trabalhismo e no desenvolvimentismo de esquerda
Lula tem a chance histórica, como o maior líder de massa no Brasil atual, de pegar a bandeira do trabalhismo. A Petrobras está mais uma vez no epicentro da crise política. As mesmas forças que hoje se assanham para se apossar do nosso petróleo são as mesmas que levaram o presidente Vargas ao suicídio. O capital internacional de olho em nossas riquezas faz alianças com setores entreguistas da Nação, e com a mesma estratégia de sempre utiliza a imprensa para preparar a opinião pública.
Não dá para desconhecermos uma verdade inquestionável: o Brasil está sob o bombardeio do imperialismo das multinacionais que, se precisar, em conluio com os Estados de maior poderio bélico, roubam os bens naturais de que não dispõem. O trabalhismo era o obstáculo. Em 1964 foi eliminado. Brizola não poderia nunca chegar à Presidência, não conseguiu. Tiraram dele a sigla PTB, depois de uma campanha sem tréguas para desmoralizá-lo promovida principalmente pela Rede Globo. Inclusive o PT foi um dos responsáveis pela não eleição de Brizola em 1989. Leonel Brizola morreu sem cumprir seu destino histórico: ser presidente do Brasil.
Lenin dizia que a prática é o único critério da verdade. Lendo a história do Brasil, o trabalhismo foi a única força que enfrentou na prática o imperialismo. Portanto, não é incompatível com o socialismo. Aliás, Brizola acreditava que o trabalhismo era o caminho para o socialismo. Por isso, não resta outra opção para o PT – e Lula – que não seja brizolar.
Yago Junho é sociólogo e mestre em Teoria da literatura e identidade cultural pela Universidade federal de Juiz de fora (UfJf) e autor do livro sociologia Pau Brasil (multifoco, 2014). e-mail: yeuzebio@gmail.com.
REFERÊNCIAS
BANDEIRA, moniz. O governo João Goulart – as lutas sociais no Brasil (1961-1964). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. 187 p.
____________ Brizola e o trabalhismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. 203 p.
CAZARRONI, André. Getúlio Vargas. Rio de Janeiro: José olympio, 1939. 295 p.
FERREIRA, Jorge. João Goulart, uma biografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. 713 p.
FREITAS, décio; LARANGEIRA, Álvaro (orgs.). A serpente e o dragão. Porto Alegre: Sulina, 2003. 160 p.
LEITE FILHO, F. C. El caudillo – Leonel Brizola, um perfil biográfico. São Paulo: Aquariana, 2008. 543 p.
NETO, lira. Getúlio. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 3 v
RIBEIRO, Darcy. Jango e eu. Brasília: UnB, 2010. (Darcy no Bolso), 107 p.
RIBEIRO, José augusto. A Era Vargas. rio de Janeiro: casa Jorge editorial, 2001. 3 v.
VASCONCELLOS, Gilberto Felisberto. Brizulla – o samba da democracia ou a parafernália do populismo. Brasília: Pajelança, 1989.
____________________ Jangada do Sul. são Paulo: casa amarela, 2005. 133 p.
VILLA, marco antonio. Jango, um perfil (1945-1964). são Paulo: globo, 2004. 287 p.
Revista Sociologia Ed. 64 ( Texto completo, com imagens )
domingo, 15 de maio de 2016
Leandro Karnal: Cheios de fome
Não existe contradição em termos porque não existem termos no PMDB. Não há negação de valores porque isto implicaria a existência deles.
Escrevo com o Brasil já sob nova administração. Crônica de uma morte longamente anunciada, a presidente Dilma foi afastada do cargo e o vice, Michel Temer, assumiu o posto máximo do Executivo.
Vices são fundamentais no Brasil. A história da República tem tantos que seria prudente colocar em primeiro plano, nas próximas eleições, as ideias e a biografia do eventual substituto.
Deodoro foi nosso primeiro presidente, mas renunciou meses após ter sido eleito. Seu vice- Floriano Peixoto, trouxe energia e ideologia ao cargo, e é chamado de “consolidador da República”.
Nosso primeiro presidente civil, Prudente de Morais, tinha saúde frágil e o vice, o médico Manuel Vitorino Pereira, teve oportunidade de substituí-lo. A morte do presidente Afonso Pena, em 1909, levou o vice Nilo Peçanha ao poder. A gripe espanhola levou o eleito Rodrigues Alves e seu vice, Delfim Moreira, assumiu entre 1918 e 1919.
O assassinato de um vice, João Pessoa, em 1930, foi o estopim de um movimento que levou Getúlio Vargas ao Catete. Sem vice ao subir, Getúlio caiu sem vice em 1945, levando o presidente do STF (José Linhares) a se tornar a alternativa possível. Outro vice, Café Filho, assumiu quando do suicídio de Vargas, em 1954, sendo o primeiro protestante a subir à presidência do Brasil. Outro vice, João Goulart, tornou-se presidente em 1961, com a renúncia de Jânio Quadros. Pedro Aleixo foi impedido de assumir quando o marechal Costa e Silva teve um problema de saúde. Daqui em diante a memória de muita gente ajuda: desde a redemocratização, 3 vices (Sarney, Itamar e Temer) tornaram-se presidentes.
Os três últimos apresentam em comum serem membros do PMDB. Partido surgido com o Ato Institucional número 2 (outubro de 1965) que dissolveu o pluripartidarismo e criou MDB e ARENA, uma oposição confiável e um partido da situação.
Curiosamente, nas justificativas para o ato institucional, os militares usaram um argumento que, de alguma forma, foi repetido por muitas pessoas nas votações da Câmara e do Senado recentes. Dizia o texto : “A Revolução é um movimento que veio da inspiração do povo brasileiro para atender às suas aspirações mais legítimas: erradicar uma situação e um Governo que afundavam o País na corrupção e na subversão.”
É uma característica quase universal dos movimentos políticos invocarem que falam em nome do povo e não de interesses partidários ou pessoais. Desde que o conceito povo entrou no vocabulário político do Ocidente, com a Revolução Francesa, ele tem sido usado para tudo, menos para os interesses do povo propriamente ditos. O nome povo sempre foi sagrado, mas o povo real sempre foi alvo de gás de pimenta.
O MDB virou PMDB e continuou sendo uma frente ampla, sem uma posição clara sobre a maioria das questões. Acima de tudo, o partido virou peça estratégica. Por quê? Ele é suficientemente variado e amplo para poder estar associado a qualquer projeto político mais claro. Pode estar ao lado de um político tradicional como Tancredo Neves ou ao lado de um emergente da política como Collor. Também não faz má figura ao lado de um ex-operário socialista como Lula. Não existe contradição em termos porque não existem termos no PMDB. Não há negação de valores porque isto implicaria a existência deles.
Eventualmente, críticos do governo FHC podem levantar pontos e medidas que contrariam a tradição sociológica do ex-presidente ou a alegada social-democracia do seu partido. Da mesma forma, inimigos da era Lula-Dilma podem demonstrar que o mercado financeiro foi beneficiado de forma estranha para a orientação esquerdista de ambos. Esqueçam o que escrevi ou deletem quem eu fui são frases inerentes ao exercício do poder real no Brasil. Porém, seria injusto alegar qualquer incoerência com o PMDB. Incoerência em relação a qual princípio?
O PMDB foi convidado para estas chapas eleitorais não pelos valores, mas pela sua presença no legislativo federal e nas prefeituras, pela sua imensa atomização e maleabilidade. Sei exatamente o que pensam os deputados Bolsonaro ou Jean Wyllys. E um deputado do PMDB?
O novo presidente da República, Michel Temer, anunciou que constituiria um ministério de notáveis e com cortes no absurdo número daquela esplanada. Retrocedeu nas duas decisões. Lógica da Realpolitik: não é o idealismo da transformação que marca a ação nem de Temer e nem do PMDB, mas da já gasta ideia do príncipe de Salina de Lampedusa, da mudança superficial para garantir a manutenção estrutural. Dilma levou tempo para entender que o cão de guarda furioso ajuda o dono, desde que muito bem alimentado.
O curioso é que o PMDB foi escolhido por representar esta segurança. Sarney era o líder do partido que apoiou a ditadura e seu nome deveria acalmar conservadores sobre as intenções da Nova República. Itamar Franco era o contrapeso à ação coruscante de Collor. Temer cumpriu o mesmo papel. O PMDB garantia a blindagem do governo e esta quase autonomia bonapartista que marca Brasília em relação à nação.
O poder dos bastidores, o conchavo de sacristia, as reuniões que decidem tudo antes de levar a questão já acordada para o plenário foram e são as marcas dos políticos profissionais. A política assim concebida, só entende valores como “clamor das ruas”, “respeito à constituição”, “bandeira da ética” ou outra qualquer como óleo a ser usado para lubrificar as engrenagens do poder. Democracia e povo são fundamentais, desde que, claro, não contrariem o objetivo prático e imediato do interesse político.
Mas há um risco em passar de vice a titular. É o risco inerente a toda amante que deseja ser esposa. A vida alternativa tinha quase todos os benefícios e pouca exposição. Agora, a vidraça está exposta ao sol e ao alcance dos estilingues. Poderíamos inverter a frase de Jesus no Calvário: “Pai, eles podem ser perdoados? Não sei, mas eles sabem exatamente o que fazem”. Não duvide disto, leitor!
domingo, 20 de dezembro de 2015
Não aprendem nada, não esquecem nada
Essa direita sempre se caracterizou pelo golpismo. Nunca foi boa em ganhar eleições. Sempre tentaram o golpe, pela força ou por artifícios jurídicos.
Tocqueville dizia que quando o passado não ilumina o futuro o espírito vive em trevas.
Ainda vivemos a luta entre forças sociais e políticas que emergiram no final da II Guerra.
Derrotado o nazi-fascismo, dois blocos se estruturaram globalmente. O reflexo disto entre nós está na gênese da direita contemporânea brasileira, especialmente desprezível. Entreguista, sempre de joelhos perante os interesses dos EUA, arrogante e incapaz de disfarçar o desprezo pelo povo.
No imediato pós-guerra esta direita se aglutinou e se articulou na oposição ao ditador Vargas na UDN, abrigando alguns liberais de boa cepa, mas também, ao longo de seu triste percurso, o mais deslavado golpismo.
Por uma opção estratégica, na perspectiva dos dois blocos globais e não por alguma estima a Vargas, que havia massacrado os comunistas, a esquerda e forças populares apoiam Getúlio e Prestes divide palanques com o ditador que entregou sua mulher grávida, judia, à Alemanha nazista, para morrer em um campo de concentração.
Essa direita sempre se caracterizou pelo golpismo. Nunca foi boa em ganhar eleições. Perdendo-as, seguia-se imediatamente a tentativa de golpe, pela força ou por artifícios jurídicos.
Getúlio candidato em 1950, o golpista Lacerda profere a célebre frase: "o Sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar." Começamos a ver que não há exatamente algo de novo neste nosso momento: após a vitória de Vargas, a UDN vai ao TSE defender a tese, extravagante diante da Constituição de 1946, de que havia necessidade de maioria absoluta e assim impedir a posse do presidente eleito. Não é original a prática de arregimentar juristas amigos para estraçalhar textos constitucionais claros.
Eleito e empossado, Vargas no segundo governo não se alinha automaticamente aos EUA e adota medidas populares. Surge a Petrobrás, alvo permanente e obsessivo da direita brasileira. O ministro do Trabalho João Goulart é forçado a demitir-se por pressão dos militares ao conceder reajuste de 100% do salário-mínimo. Sob feroz ataque da imprensa, a crise de agosto de 1954 leva Getúlio ao suicídio, gesto que adia por 10 anos o golpe.
A UDN perde novamente as eleições de 1955 e mais uma vez, liderada pelo renitente golpista Lacerda, recorre aos Tribunais ressuscitando a tese da maioria absoluta para impedir a posse de Juscelino.
A renúncia de Jânio dá ensejo a nova tentativa de golpe, derrotada pela corajosa resistência de Brizola, que garante a posse de Goulart.
Em 1964, por fim, triunfa o ansiado golpe da direita que atrasou o desenvolvimento do país, manteve e aprofundou a estrutura desigual da sociedade brasileira, alinhou definitivamente o Brasil aos EUA e aos interesses imperialistas e, para tudo isso, exilou, matou e torturou.
Olhando para 1946, 1950, 1954, 1961 e 1964 contemplamos agora algo de novo? Vimos nas eleições de 2014 que Lacerda não morreu. Proclamado o resultado das eleições, imediatamente a palavra de ordem da direita golpista é impeachment. Os fundamentos exatos eles veem depois.
O espírito de Lacerda vive em Aécio, Serra e cúmplices, mas suspeito que Lacerda talvez tivesse algum pudor de dar sustentação e proteger a delinquência de Eduardo Cunha.
Realmente, nada de novo. Nos métodos e nos fins. Nos anos 50, o objetivo era entregar o petróleo a interesses estrangeiros, arrocho salarial, etc. Hoje, aprofundar o neoliberalismo, eliminar direitos sociais, entregar o pré-sal, como persegue obsessivamente Serra, garantir um superávit primário que remunere parasitas rentistas, abocanhando recursos da saúde, educação, previdência, moradia, etc. Nunca e nenhuma palavra, por exemplo, sobre a histórica e iníqua desigualdade que condena milhões de brasileiros a uma subvida, ou sobre o massacre de jovens e negros nas periferias.
Não se trata de barrar o impeachment como defesa político-partidária do governo Dilma, o que, per se, é uma tarefa inglória, do mesmo modo como era inglório subir aos palanques de Vargas em 1945. Ela cometeu erros em série que aplainaram os caminhos da tentativa de golpe. Isolamento das forças que a elegeram com um ajuste fiscal torpe, lei antiterrorismo, indiferença ante a brutalidade do aparato repressivo do Estado, completa ausência de uma política de direitos humanos (como ocorreu também, aliás, nos anteriores governos do PT). O corpo humano não consegue distinguir a porrada no Estado de Direito e a porrada nos regimes autoritários. Elas doem igualzinho.
Há, no entanto, dois aspectos que levam à defesa do seu mandato.
Em primeiro lugar, do outro lado está o adversário extremo e histórico das forças populares, a velha direita golpista brasileira e seu projeto antipopular que, em seu arco de alianças, reúne hoje tudo que há na sociedade de retrógrado, obscurantista e pré-iluminista.
Um segundo aspecto expresso com as palavras de Ivo Tonet, professor de Filosofia da Federal de Alagoas: “Marx já afirmava que a democracia burguesa é o melhor espaço para o proletariado levar a sua luta contra a burguesia até o fim. O que significa que a democracia é um meio, não um fim. O fim é a emancipação humana. Então, certamente, defender a democracia é do interesse dos trabalhadores, mas, enquanto isso, é preciso avançar em direção ao objetivo maior: a revolução, o socialismo, a efetiva liberdade humana, o fim de toda exploração e dominação do homem pelo homem”
De qualquer modo, e ainda que a perspectiva não seja a estritamente marxista, não interessa aos excluídos a quebra da ordem constitucional conquistada após a ditadura militar, mormente com este assustador avanço das forças retrógradas.
Ajudaria se a presidenta Dilma deixasse de adotar o programa dos que querem derrubá-la, supondo que de joelhos defende melhor seu mandato e sua trajetória política. A lógica mais trivial assegura que é melhor amparar-se nos aliados do que nos adversários e que não é razoável esperar que seu mandato seja defendido nas ruas pelos que sofrem na carne os efeitos das duras medidas adotadas no segundo mandato.
Enfrentando o histórico golpismo da repugnante direita brasileira, que nada aprende e nada esquece, que Dilma olhe o passado e não nos arraste de vez para as trevas.
Marcio Sotelo Felippe é pós-graduado em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo. Procurador do Estado, exerceu o cargo de Procurador-Geral do Estado de 1995 a 2000. Membro da Comissão da Verdade da OAB Federal.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
sábado, 30 de maio de 2015
quinta-feira, 21 de maio de 2015
O Brasil no pêndulo das elites: entre liberalismo submisso e desenvolvimentismo autoritário
Por Edemilson Paraná.
Várias leituras da história brasileira no último século, algumas delas já canônicas entre nós, adequadamente contextualizadas em termos da inseparabilidade dos grandes embates políticos de seus respectivos contextos culturais e intelectuais, apontam para um antagonismo clássico, que vive a nos assombrar de tempos em tempos: de um lado um suposto liberalismo cosmopolita, democrático e sustentado na pregação das liberdades individuais e de mercado; de outro certo estatismo nacionalista de tons positivistas, desenvolvimentista e voltado para os problemas da “organização nacional”. Em sua busca conjunta pela superação do “atraso” na luta prometeica por um “Brasil moderno”, ambos denunciam-se mutuamente como inimigos mortais: de um lado o anti-nacionalismo submisso, dependente, elitista e inautêntico; de outro o dirigismo populista, burocrático, corrupto e autoritário.
Ainda que seja absolutamente questionável a pureza desses “tipos-ideias” quando se fala de gestão do capitalismo aqui ou alhures, ler a disputa entre tais “projetos” a partir de seus supostos antagonismos pode até ser útil do ponto de vista taxonômico. Compreender a história política do país no último século a partir desta chave interpretativa, no entanto, é o mesmo que tornar-se refém de uma meia verdade, simplória e simplificadora em sua incompletude. É que, dessa forma enquadrada, tal contraposição esconde as flagrantes homologias entre tais (o)posições por meio das quais um acordo tácito fica nebulosamente encoberto: a manutenção das graves e intocadas estruturas de poder, controle e propriedade social no Brasil. Talvez seja mais adequado, alternativamente, caracterizar nossa história política como um pêndulo: um movimento previsível que varia entre centralização e descentralização, liberalismo e estatismo, nacionalismo e cosmopolitismo, sustentado por um mesmo eixo de tensão: nossa condição dependente em termos da divisão internacional do trabalho e escandalosamente desigual em termos de configuração interna.
Os pontos de encontro a sustentar o eixo desse pêndulo das elites são muitos: estadocentrismo político, elitismo e ideologia anti-popular (seja pelo porrete, seja pela “assistência”, as massas são vistas como submissas, perigosas ou incapazes), o racismo (implícito e/ou explícito), a crença na força do “império da lei” como via para o controle social e manutenção da estrutura de desigualdades, de onde emana o compartilhamento de certo autoritarismo judicial e, por fim, a crença na tecnocracia meritocrática como saída para o “atraso” por ambos diagnosticado: a leitura, em suma, do país primitivo, do Estado sem sociedade, do capitalismo sem iniciativa, da revolução sem proletariado.
Contemporaneamente, em especial a partir da Nova República, mas com raízes mais profundas, o apego a um conceito vazio de democracia, bonito no papel e pavorosamente violento na prática, reificado na estabilidade institucional e macroeconômica (rentista e patrimonial) como remédio para todos os males de que padecemos, consubstancia-se num pacto nada silencioso dessas mesmas elites, que a cada quatro anos, no entanto, voltam a encenar para o grande público o grande espetáculo de seus viscerais desafetos.
É evidente, e sobretudo quando o gotejar desse copo cheio ameaça transbordar, que o povo em movimento e resistência joga papel fundamental nas tensões, arranjos e rearranjos de poder antes como hoje. Mais do que desconhecimento desse fator, o que há de parte de nossas elites dirigentes é um medo inconfesso da raiva justa, encaminhado de forma cínica e brutal. Tudo somado, há entre Geisel e Dilma, Getúlio e Lula, JK e FHC, Beto Richa e Paulo Garcia menos diferenças do que se supõe: ruidosas na superfície, talvez, mas quase imperceptíveis em suas profundezas. Eis algumas das origens do mal-estar atual: já é passada a hora de desestabilizarmos de vez a “máquina” pendular do poder no Brasil.
Várias leituras da história brasileira no último século, algumas delas já canônicas entre nós, adequadamente contextualizadas em termos da inseparabilidade dos grandes embates políticos de seus respectivos contextos culturais e intelectuais, apontam para um antagonismo clássico, que vive a nos assombrar de tempos em tempos: de um lado um suposto liberalismo cosmopolita, democrático e sustentado na pregação das liberdades individuais e de mercado; de outro certo estatismo nacionalista de tons positivistas, desenvolvimentista e voltado para os problemas da “organização nacional”. Em sua busca conjunta pela superação do “atraso” na luta prometeica por um “Brasil moderno”, ambos denunciam-se mutuamente como inimigos mortais: de um lado o anti-nacionalismo submisso, dependente, elitista e inautêntico; de outro o dirigismo populista, burocrático, corrupto e autoritário.
Ainda que seja absolutamente questionável a pureza desses “tipos-ideias” quando se fala de gestão do capitalismo aqui ou alhures, ler a disputa entre tais “projetos” a partir de seus supostos antagonismos pode até ser útil do ponto de vista taxonômico. Compreender a história política do país no último século a partir desta chave interpretativa, no entanto, é o mesmo que tornar-se refém de uma meia verdade, simplória e simplificadora em sua incompletude. É que, dessa forma enquadrada, tal contraposição esconde as flagrantes homologias entre tais (o)posições por meio das quais um acordo tácito fica nebulosamente encoberto: a manutenção das graves e intocadas estruturas de poder, controle e propriedade social no Brasil. Talvez seja mais adequado, alternativamente, caracterizar nossa história política como um pêndulo: um movimento previsível que varia entre centralização e descentralização, liberalismo e estatismo, nacionalismo e cosmopolitismo, sustentado por um mesmo eixo de tensão: nossa condição dependente em termos da divisão internacional do trabalho e escandalosamente desigual em termos de configuração interna.
Os pontos de encontro a sustentar o eixo desse pêndulo das elites são muitos: estadocentrismo político, elitismo e ideologia anti-popular (seja pelo porrete, seja pela “assistência”, as massas são vistas como submissas, perigosas ou incapazes), o racismo (implícito e/ou explícito), a crença na força do “império da lei” como via para o controle social e manutenção da estrutura de desigualdades, de onde emana o compartilhamento de certo autoritarismo judicial e, por fim, a crença na tecnocracia meritocrática como saída para o “atraso” por ambos diagnosticado: a leitura, em suma, do país primitivo, do Estado sem sociedade, do capitalismo sem iniciativa, da revolução sem proletariado.
Contemporaneamente, em especial a partir da Nova República, mas com raízes mais profundas, o apego a um conceito vazio de democracia, bonito no papel e pavorosamente violento na prática, reificado na estabilidade institucional e macroeconômica (rentista e patrimonial) como remédio para todos os males de que padecemos, consubstancia-se num pacto nada silencioso dessas mesmas elites, que a cada quatro anos, no entanto, voltam a encenar para o grande público o grande espetáculo de seus viscerais desafetos.
É evidente, e sobretudo quando o gotejar desse copo cheio ameaça transbordar, que o povo em movimento e resistência joga papel fundamental nas tensões, arranjos e rearranjos de poder antes como hoje. Mais do que desconhecimento desse fator, o que há de parte de nossas elites dirigentes é um medo inconfesso da raiva justa, encaminhado de forma cínica e brutal. Tudo somado, há entre Geisel e Dilma, Getúlio e Lula, JK e FHC, Beto Richa e Paulo Garcia menos diferenças do que se supõe: ruidosas na superfície, talvez, mas quase imperceptíveis em suas profundezas. Eis algumas das origens do mal-estar atual: já é passada a hora de desestabilizarmos de vez a “máquina” pendular do poder no Brasil.
Via:http://blogdaboitempo.com.br
quarta-feira, 20 de maio de 2015
A autoridade moral de Fernando Henrique Cardoso – I
O ex-presidente, que pontifica lições de boa governança para Dilma Rousseff, foi reeleito com dinheiro dos bancos e depois jogou o Brasil na crise
por Maria Inês Nassif, em Carta Maior
A crise econômica vivida pelo governo Dilma Rousseff, no primeiro ano de seu segundo mandato, nem de longe tem a gravidade da que balançou o país no primeiro ano do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (1999-2002). A crise política enfrentada por Dilma apenas é mais intensa que a de FHC nesse primeiro ano de segundo mandato porque ele tinha uma base de apoio que, embora mais vulnerável do que a dos primeiros quatro anos, reunia elementos de coesão ideológica inexistentes na atual coalizão governista. FHC apenas tinha uma posição um pouco mais confortável do que tem Dilma agora.
No governo FHC, a aliança parlamentar se fazia do centro à direita ideológica. Assim, mesmo que houvesse discordâncias pessoais na base parlamentar e quedas-de-braço do Congresso com o Palácio do Planalto – e o então senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) fazia questão que isso acontecesse com regularidade –, nas questões fundamentais para o projeto econômico os interesses convergiam. Ajudava a constituir maiorias parlamentares o apoio dos meios de comunicação às chamadas “reformas estruturais” – e a pressão de fora para dentro do Congresso tinha o poder de resolver as disputas mais mesquinhas.
Nas gestões do PT, a diluição ideológica do apoio parlamentar – ao centro, à direita e à esquerda – tornaram a vida dos presidentes Lula e Dilma mais difícil. No governo Dilma, a exposição de uma fragilidade econômica deu à mídia oposicionista o elemento que faltava para pressionar os parlamentares, de fora para dentro do Congresso, a assumirem posições contrárias ao governo; e, junto à opinião pública, jogar elementos de insegurança e desqualificar toda a gestão anterior.
Ainda assim, e apesar da propaganda contrária ao governo Dilma, não se pode atribuir ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso qualidades morais para pontificar julgamentos sobre política econômica, ajuste fiscal, relacionamento com a base parlamentar, relações apropriadas com financiadores de campanha ou de fidelidade a promessas eleitorais da atual presidente. Se sua experiência ajudar em alguma coisa a crise de agora, é para dar o exemplo de como não fazer o ajuste fiscal, de como não se relacionar com a base parlamentar e de como não fazer política eleitoral.
No ano de 1999, segundo os jornais, o Brasil pagava a conta do governo anterior tucano, que manteve a estabilidade de preços às custas de uma âncora cambial artificial e de uma política fiscal rigorosa, que resultou numa enorme fragilidade externa, em grande desemprego, pífio crescimento econômico e, ironicamente, aumento da inflação.
A conta foi alta. Em 1998, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,4%, e em 1999, 0,5%; o dólar, que valia R$ 1,2 em 1998, saltou para R$ 1,8 no ano seguinte. A inflação foi de 8,9% em 1999; o ajuste fiscal do governo imprimiu uma inflação de 19,2% em 1999 sobre os preços monitorados (petróleo e energia). O consumo das famílias teve crescimento negativo de 0,7% em 1998 e apenas 0,4% positivo no ano seguinte. O investimento público federal caiu de 2,1% do PIB em 1998 para 1,4% em 1999; a taxa de investimento, de 17% para 15,7% do PIB; a formação bruta de capital fixo, que sofreu variação negativa de 0,2% em 1998, chegou ao fundo do poço em 1999, com queda de 8,9% em relação ao ano anterior.
As reservas internacionais, que eram de US$ 52,1 bilhões em 1997 e haviam caído para US$ 34,4 bilhões em 1998, chegaram ao perigoso nível de US$ 23,9 bilhões em 1999. O saldo da balança comercial no final do ano eleitoral de 1998 foi negativo em US$ 6,6 bilhões, e em 1999 de US$ 1,3 bilhões. Em 1998, o Brasil perdeu 36 mil postos de trabalho, e 582 mil em 1989.
Eleições caras
Em outubro de 1998, Fernando Henrique Cardoso conquistou o seu segundo mandato no primeiro turno, com a ajuda de financiadores privados de campanha que haviam sido enormemente beneficiados no seu primeiro governo e no governo Itamar Franco, quando o PSDB ocupou o comando econômico que permitiu ao partido e a FHC se credenciarem como os pais do Plano Real nas eleições de 1994.
Segundo a Folha de S. Paulo (“Bancos lideram doações para campanha de FHC”, 26/11/1998 e “Bancos lideraram contribuições a FHC”, 6/6/1999), bancos e instituições financeiras foram os principais doadores de campanha, e contribuíram com 25,7% do total de R$ 43 milhões arrecadados pelo comitê do presidente reeleito.
É o próprio jornal que lembra a razão do interesse de financiadores de campanha do mercado financeiro pelo candidato: “Em novembro de 95, o governo FHC criou o Proer, o programa de socorro a bancos em dificuldade. Já foram injetados R$ 21 bilhões para financiar fusões bancárias”, diz na material de 1998.
Na matéria publicada em 1999, o jornal afirma: “No primeiro mandato de FHC, as instituições [financeiras] viveram anos de prosperidade, segundo balanços divulgados pelo Banco Central, e escaparam dos impostos, segundo a Receita Federal. A soma do patrimônio líquido do conjunto das 223 instituições financeiras mais do que duplicou no periodo, passando de R$ 26,426 bilhões para R$ 55,653 bilhões”.
Além disso, FHC teve uma generosa contribuição de empresas com interesse direto no processo de privatização levado a termo pelo PSDB desde o governo Itamar. Figuravam entre os dez maiores financiadores da campanha de 1998 de FHC a Inepar (que participou do Consórcio Telemar), a Vale do Rio Doce (privatizada em 1997), a Companha Siderúrgica Nacional (CSN, privatizada em 1993, quando FHC era ministro de Itamar), a Copesul (privatizada em 1992) e a Copene (privatizada em 1993). A Andrade e Gutierrez, que também fez parte do Consórcio Telemar, figurava no 11º lugar entre os financiadores de campanha do tucano.
por Maria Inês Nassif, em Carta Maior
A crise econômica vivida pelo governo Dilma Rousseff, no primeiro ano de seu segundo mandato, nem de longe tem a gravidade da que balançou o país no primeiro ano do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (1999-2002). A crise política enfrentada por Dilma apenas é mais intensa que a de FHC nesse primeiro ano de segundo mandato porque ele tinha uma base de apoio que, embora mais vulnerável do que a dos primeiros quatro anos, reunia elementos de coesão ideológica inexistentes na atual coalizão governista. FHC apenas tinha uma posição um pouco mais confortável do que tem Dilma agora.
No governo FHC, a aliança parlamentar se fazia do centro à direita ideológica. Assim, mesmo que houvesse discordâncias pessoais na base parlamentar e quedas-de-braço do Congresso com o Palácio do Planalto – e o então senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) fazia questão que isso acontecesse com regularidade –, nas questões fundamentais para o projeto econômico os interesses convergiam. Ajudava a constituir maiorias parlamentares o apoio dos meios de comunicação às chamadas “reformas estruturais” – e a pressão de fora para dentro do Congresso tinha o poder de resolver as disputas mais mesquinhas.
Nas gestões do PT, a diluição ideológica do apoio parlamentar – ao centro, à direita e à esquerda – tornaram a vida dos presidentes Lula e Dilma mais difícil. No governo Dilma, a exposição de uma fragilidade econômica deu à mídia oposicionista o elemento que faltava para pressionar os parlamentares, de fora para dentro do Congresso, a assumirem posições contrárias ao governo; e, junto à opinião pública, jogar elementos de insegurança e desqualificar toda a gestão anterior.
Ainda assim, e apesar da propaganda contrária ao governo Dilma, não se pode atribuir ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso qualidades morais para pontificar julgamentos sobre política econômica, ajuste fiscal, relacionamento com a base parlamentar, relações apropriadas com financiadores de campanha ou de fidelidade a promessas eleitorais da atual presidente. Se sua experiência ajudar em alguma coisa a crise de agora, é para dar o exemplo de como não fazer o ajuste fiscal, de como não se relacionar com a base parlamentar e de como não fazer política eleitoral.
No ano de 1999, segundo os jornais, o Brasil pagava a conta do governo anterior tucano, que manteve a estabilidade de preços às custas de uma âncora cambial artificial e de uma política fiscal rigorosa, que resultou numa enorme fragilidade externa, em grande desemprego, pífio crescimento econômico e, ironicamente, aumento da inflação.
A conta foi alta. Em 1998, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,4%, e em 1999, 0,5%; o dólar, que valia R$ 1,2 em 1998, saltou para R$ 1,8 no ano seguinte. A inflação foi de 8,9% em 1999; o ajuste fiscal do governo imprimiu uma inflação de 19,2% em 1999 sobre os preços monitorados (petróleo e energia). O consumo das famílias teve crescimento negativo de 0,7% em 1998 e apenas 0,4% positivo no ano seguinte. O investimento público federal caiu de 2,1% do PIB em 1998 para 1,4% em 1999; a taxa de investimento, de 17% para 15,7% do PIB; a formação bruta de capital fixo, que sofreu variação negativa de 0,2% em 1998, chegou ao fundo do poço em 1999, com queda de 8,9% em relação ao ano anterior.
As reservas internacionais, que eram de US$ 52,1 bilhões em 1997 e haviam caído para US$ 34,4 bilhões em 1998, chegaram ao perigoso nível de US$ 23,9 bilhões em 1999. O saldo da balança comercial no final do ano eleitoral de 1998 foi negativo em US$ 6,6 bilhões, e em 1999 de US$ 1,3 bilhões. Em 1998, o Brasil perdeu 36 mil postos de trabalho, e 582 mil em 1989.
Eleições caras
Em outubro de 1998, Fernando Henrique Cardoso conquistou o seu segundo mandato no primeiro turno, com a ajuda de financiadores privados de campanha que haviam sido enormemente beneficiados no seu primeiro governo e no governo Itamar Franco, quando o PSDB ocupou o comando econômico que permitiu ao partido e a FHC se credenciarem como os pais do Plano Real nas eleições de 1994.
Segundo a Folha de S. Paulo (“Bancos lideram doações para campanha de FHC”, 26/11/1998 e “Bancos lideraram contribuições a FHC”, 6/6/1999), bancos e instituições financeiras foram os principais doadores de campanha, e contribuíram com 25,7% do total de R$ 43 milhões arrecadados pelo comitê do presidente reeleito.
É o próprio jornal que lembra a razão do interesse de financiadores de campanha do mercado financeiro pelo candidato: “Em novembro de 95, o governo FHC criou o Proer, o programa de socorro a bancos em dificuldade. Já foram injetados R$ 21 bilhões para financiar fusões bancárias”, diz na material de 1998.
Na matéria publicada em 1999, o jornal afirma: “No primeiro mandato de FHC, as instituições [financeiras] viveram anos de prosperidade, segundo balanços divulgados pelo Banco Central, e escaparam dos impostos, segundo a Receita Federal. A soma do patrimônio líquido do conjunto das 223 instituições financeiras mais do que duplicou no periodo, passando de R$ 26,426 bilhões para R$ 55,653 bilhões”.
Além disso, FHC teve uma generosa contribuição de empresas com interesse direto no processo de privatização levado a termo pelo PSDB desde o governo Itamar. Figuravam entre os dez maiores financiadores da campanha de 1998 de FHC a Inepar (que participou do Consórcio Telemar), a Vale do Rio Doce (privatizada em 1997), a Companha Siderúrgica Nacional (CSN, privatizada em 1993, quando FHC era ministro de Itamar), a Copesul (privatizada em 1992) e a Copene (privatizada em 1993). A Andrade e Gutierrez, que também fez parte do Consórcio Telemar, figurava no 11º lugar entre os financiadores de campanha do tucano.
sexta-feira, 15 de maio de 2015
O dia seguinte ao fim da escravidão
Por Douglas Belchior
Imagine um amigo seu ou um parente que fosse tratado como um animal. Imagine as pessoas que você ama vivendo sem ter nenhum direito, podendo ser vendidos, trocados, castigados, mutilados ou mesmo mortos sem que ninguém ou nenhuma instituição pudesse intervir em seu favor. Imagine você, seu pai, sua mãe ou seu filho sendo tratados como coisa qualquer, como um porco, um cavalo, ou um cachorro. Imagine sua filha sendo levada ou mesmo ao seu lado, estuprada, todos os dias e depois, grávida à serventia do negócio de seu dono.
Clóvis Moura (Moura, 1989, p.15-16), faz o relato sem personagens. Eu os incluí para pedir que imagine.
Você que já chorou diante das cenas que remetem o sofrimento de Jesus Cristo na sexta feira da paixão; Você que fechou os olhos frente às fortes imagens deDjango Livre; Você que se emocionou com 12 anos de escravidão, imagine.
Imagine – e saiba – que teu país e as riquezas que o conformam existem em função de 4 séculos de escravidão. E de tudo que deste período e deste sistema decorreu a partir de então.
Mas enfim, a escravidão acabou: 13 de maio, princesa Isabel e muita festa! Festa e promessa de abonança, tal qual desrespeitosamente a amiga Globo nos lembrou.
E no dia seguinte tudo seria diferente.
Desde que acompanho o movimento negro, aprendi que dia 14 de maio, o dia seguinte ao fim da escravidão, foi o dia mais longo da história. Aliás, dizem outros, é o dia que não terminou.
Depois de séculos de sequestros, escravidão e assassinatos, o que se viu nos anos pós-abolição foi a formação e o desenvolvimento de um país que negou e ainda nega à população negra condições mínimas de integração e participação na riqueza.
Sem terra, sem empregos, sem educação, sem saúde, sem teto, sem representação. Sequer a mais liberal das reformas, a agrária, fora possível no país das capitanias hereditárias. Vamos olhar para o campo e observar as fileiras ou os acampamentos de Sem Terra, maioria negras e negros. Vamos buscar na memória os rostos de quem conforma o pelotão que estremece São Paulo na justa luta por moradia capitaneada pelos movimentos de Sem-Teto nos dias de hoje: negras e negros! Bora olhar para as filas dos hospitais, para os que esperam exames e tratamentos, para os analfabetos ou para as crianças em idade escolar que estão fora da escola. Vamos olhar para a população carceráriae suas condições de existência. Vamos olhar para as vítimas de violência policial, para os números de desaparecimentos e homicídios. Vamos olhar para os dependentes do bolsa-família ou da previdência social. Vamos olhar para a pobreza. De fato, ela atinge a todos. Mas a presença de negras e negros nas condições narradas aqui, tem sido desproporcional e pouco se alterou desde 1888.
O dia seguinte, a década seguinte, os 127 anos seguintes ao fim da escravidão não foram suficientes para nos livrar de uma herança racista, reafirmada cotidianamente pelos descendentes dos colonizadores que sempre dirigiram o Brasil. Estes mantém a posse do latifúndio, hoje rebatizado agronegócio. Mantém o domínio dos grandes meios de comunicação, são donos das grandes empresas, bancos, conglomerados educacionais-empresariais, além de dirigir politicamente as maiores Igrejas. Com isso garantem o poderio econômico a supremacia política e a representação eleitoral de maneira a manter intocáveis seus interesses.
Nada diferente do que tem sido os últimos 127 anos. Ou os últimos 515?
E nesse dia seguinte ao 13 de maio, nesse dia depois do “fim da escravidão”, resistimos! E em saraus, cursinhos comunitários, coletivos negros, nas rodas de samba e candomblé, nos bondes funkeiros, no hip-hop, na poesia, na literatura, nas artes, na internet, no movimento negro, e aos pouquinhos, nas universidades, existimos.
E sendo assim, dotados de tamanha resiliência, imaginem a revolta!
segunda-feira, 11 de maio de 2015
Sangue negro
Não que o Brasil precise de mais um feriado, mas é significativo que 13 de maio esteja fora das "datas nacionais". Pouco celebramos aquele dia de 1888 em que, com vergonhoso atraso, aboliu-se a escravidão. Ela é a nossa tragédia maior e, paradoxalmente, também a nossa glória, pois não seríamos nada, em qualquer aspecto, sem a presença africana.
A antropóloga Lilia Schwarcz, que está lançando com a historiadora Heloisa Starling o livro "Brasil: Uma Biografia", relatou nesta Folha a indignação que sentiu ao ouvir pessoas, após uma sessão do filme americano "12 Anos de Escravidão", dizerem coisas como "que bom que no Brasil não foi assim".
Por desconhecimento ou má-fé, encampamos falácias como as de que a ditadura militar não foi tão dura quanto de fato foi e que a corrupção é obra de alguns malfeitores --e não uma chaga que está no DNA do país e que praticamos no nosso cotidiano.
Entre os séculos 16 e 19, chegaram ao Brasil, em navios negreiros, 4,8 milhões de seres humanos escravizados --e outros 300 mil morreram nas viagens. A fantasia de uma boa convivência entre casa-grande e senzala e o consequente mito da democracia racial não resistem aos fatos nem a um mínimo de inteligência.
Cegos para a verdade, banalizamos a brutalidade. Pesquisa divulgada no dia 7 --por Unesco, governo federal e Fórum Brasileiro de Segurança Pública "" aponta que jovens (12 a 29 anos) negros são duas vezes e meia mais vítimas de homicídios do que os brancos. O último Mapa da Violência, com dados de 2010, mostra que são negros 75% dos jovens que tiveram morte violenta.
E ainda há o quartinho de empregada, a entrada de serviço, a roupa branca das babás, os salários menores... Pode ser que falte festa para o fim da escravidão porque ela ainda não acabou de fato.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
“As elites não evoluíram. Ainda é muito parecido com 1964”, afirma historiadora
Maria Aparecida de Aquino é professora titular aposentada da Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, colabora com o Programa de Pós-Graduação em História Social da mesma instituição. Durante a carreira, se dedicou ao estudo da repressão política durante o período da ditadura civil-militar no Brasil, especialmente a censura exercida sobre os veículos de comunicação.
Nesta entrevista à Agência Brasil de Fato, ela aborda os motivos que levaram ao ao golpe de Estado, o papel exercido pela imprensa e faz comparações com o atual cenário da política nacional. Segundo a historiadora, há um elemento em comum entre passado e presente: “Uma das coisas que persistem é o comportamento das elites. Ainda é muito parecido com o que era em 1964.”
Brasil de Fato: Quais foram os motivos que levaram ao golpe de 1964?
A gente precisa levar em consideração que no golpe estão presentes diversas forças dentro do Brasil, bem como existiu apoio internacional - mais especificamente, apoio dos Estados Unidos. Quando a gente pensa quais seriam os motivos que levariam essas forças internas e externas a embarcarem numa aventura, que foi o golpe de 1964 - aventura essa ilegal e ilegítima sobre todos os aspectos - existem razões bastantes diversas. Se tivéssemos que centralizar essas razões eu diria que, basicamente, foi o programa de reformas, as chamadas reformas de base do então presidente João Goulart, o elemento detonador dessa questão. Essas reformas atingiriam todos os setores: penetrariam na educação, no mundo agrícola, na indústria. Era uma proposta para mudar o Brasil.
Mas não se tratavam de reformas feitas em outros países? Por que aqui não foram aceitas pela elite?
Sim, era um projeto reformista, não revolucionário, mas “há elites e há elites”. Ela não aceitou porque não suporta partilhar, essa é a característica da nossa elite. Não apenas da elite do nosso país. É uma marca das elites dos países que eram consideradas subdesenvolvidas.
Enquanto você tem nos países considerados avançados, como Inglaterra, França, Alemanha, uma determinada caracterização das elites, na medida em que não existe um distanciamento tão grande entre aquele que pertence à elite e aquele que está alijado na sociedade, no Brasil e em outras nações, você tem uma distância imensa. Existem nações em que o menor salário e o maior não ultrapassa dez vezes. Aqui não dá para mensurar quantas vezes ultrapassa. Consequentemente esse distanciamento tão grande faz com que essa elite nossa não seja tão permissiva.
Ela não admite, ela não é democrática. Ela é cruel, mesquinha. No momento em que ela diz “não podem se sentar à mesa”, ela está negando o próprio desenvolvimento. Porque é do acesso dessas pessoas a bens que elas não teriam, e a possibilidade que elas teriam que, inclusive, você tem o maior desenvolvimento do país. Quanto mais gente consumindo, partilhando, mais o país será desenvolvido. Nossa elite nega inclusive o desenvolvimento. O seu próprio desenvolvimento. É predatória, talvez seja o melhor adjetivo para ela.
Hoje se fala muito do papel de resistência à ditadura que os órgão de imprensa desempenharam. Como eles atuaram antes do golpe?
Têm um papel de protagonismo. Eles foram conspiradores. Toda a grande imprensa estava na conspiração contra a democracia. Vai ser uma das articuladoras mais importantes do golpe. O único veículo que não apoiou o golpe e se manteve ao lado do regime deposto foi o jornal “Última Hora”, do Samuel Wainer. Por conta disso, ele ganhou um inimigo total, que vai destruir o jornal. Demora pelo menos quatro anos até ele perder a posse do jornal em 1968, mas é destruído. Também ocorreu com o “Correio da Manhã”, que apoia o golpe, mas que dois dias depois já está contra, se colocando na oposição, já que percebeu o monstro que ajudou a criar. Por conta disso, também será destruído, pelo mesmo grupo que comprou o “Última Hora”.
Então como se explica que parte da grande impressa, após esse momento inicial, passa a resistir à ditadura?
A maior parte dos órgãos de divulgação de notícias tem um tendência absolutamente liberal. Faz parte dos objetivos do liberalismo a defesa da liberdade de expressão e de opinião. Então, a liberdade de imprensa é um elemento central no interior da plataforma liberal. A imprensa tem essa plataforma. Não é o tipo de coisa que eles queriam que acontecesse. Embarcou numa terrível aventura, descobriu que a canoa era furada, nem determinado momento a canoa deles também fura. O exemplo lapidar é o jornal que eu estudei, “O Estado de S. Paulo”. Foi um grande conspirador. Os Mesquita [família dona do jornal] assumem que estavam na conspiração, dois anos antes do golpe eles já faziam parte das reuniões que discutiam como seriam o Brasil depois do apocalipse. Mas três anos depois do golpe já está na linha de tiro, tanto que vai receber a censura. Talvez o único, ao lado da revista “Veja” órgão da grande imprensa que tem censura prévia no interior da redação.
Com o fim da ditadura, é possível dizer que há uma contradição entre democratização política e a ausência de democratização da mídia?
Os grandes blocos de comunicação, o Brasil tem meia dúzia, se chegar a tanto, você observa que eles não tem como seu ideal a defesa da democratização das comunicações. Porque democratizar significa, ao fim, que você dará liberdade para as pessoas se organizarem em pequenos jornais que nasceriam, que passariam a ter direito à luz do sol. Para grande imprensa isso não interessa.
Quando você pega “o grande jornal A” versus “o grande jornal B” você vai ver manchetes idênticas, até a fotografia de capa muito parecida. O mesmo para as grandes revistas, parece tudo a mesma coisa. É bom esse mundo, né? Esse mundo entre “iguais” agrada a grande imprensa, o mundo da diversidade não.
Na realidade se está na defesa do oligopólio. Há grupos enormes que dominam fatias gigantescas do mercado das comunicações. É uma defesa cooperativista. Não quer que outros entrem. Para eles o “mesmismo” é bom. De forma alguma tem a ver com liberdade imprensa. Liberdade de imprensa, inclusive, seria lutar pela diversidade
Você vai em uma cidade do Acre, tem uma concessionária dos grandes veículos. É isso que está em jogo. Por isso que está jogo, a perda de domínio. No Brasil, antes mesmo de se colocar em pauta, se faz o discurso de dizer que está se ameaçando a liberdade de imprensa.
Nesse sentido, qual sua avaliação mais geral sobre o papel da imprensa no fortalecimento da democracia?
Fortalece enquanto defensora das liberdades democráticas, dentre elas a liberdade de expressão e imprensa. Tem um papel importante sim, mas não se pode dizer que ela seja fiel à democracia no sentido de que a democracia também significa conviver com o diferente, com o antagônico. O que se vê hoje é a incapacidade de viver com o antagônico. “Vocês estão de um lado, eu de outro, não quero diálogo”. Hoje cumpre um papel péssimo, nesse sentido
Eu fico muito chateada e entristecida quando eu comparo as manchetes que antecedem o golpe de 1964 e o que se faz hoje na grande imprensa. Só é comparável o que se faz hoje em relação ao governo. A grande imprensa está fazendo isso de novo, não aprendeu com a censura, com o fechamento com o empastelamento, não aprendeu nada, repete a mesma coisa. Só a semelhança com a destruição que hoje se faz do governo com o processo de destruição de que foi alvo o governo de João Goulart.
Quando você acompanha as manchetes, as primeiras páginas, os editoriais daquela época, eles são devastadores. Não é “queremos um Brasil melhor”, mas sim “o que está aí não nos serve”, independente de ser democrático ou não, então partiram pro ataque. Está acontecendo o pior que pode ocorrer, não se está dando possibilidade de defesa para alguém que você colocou no chão. Usa-se todo seu potencial e destrata cada um dos pontos do governo. “Nada é bom”.
“O Brasil teve coisas negativas, mas cresceu o nível de emprego”. O “mas cresceu o nível de emprego” é o mais importante, mas aparece no rodapé da página. É clara a iniciativa para quem quiser ver e estiver prestando atenção.
Na sua opinião o que permaneceu intocado mesmo com o fim da ditadura?
Hoje pouca coisa. Uma das coisas que persistem é o comportamento das elites. Ainda é muito parecido com o que era em 1964. As elites não evoluíram, não avançaram. Enquanto o Brasil mudou muito, para melhor, um país que inclui muito mais pessoas, e não só por causa dos últimos anos, vem num processo de inclusão muito importante. A realidade que vivemos hoje está a léguas de diferença da realidade de 50 anos atrás. Talvez a única que que persista é uma atitude semelhante das elites, infelizmente.
Então as elites ainda se comportam do mesmo jeito?
Quando você analisa as elites que estavam posicionadas em 1964 elas são claramente golpistas. Elas querem a derrubada do regime democrático. Elas não sabem e não conseguem conviver com o Estado democrático. Portanto, partem, para sua destruição e dissolução, que ocorre através do golpe, ilegal e ilegítimo.
Hoje você tem uma elite que tem um pouco de receio. Ela tem um pouco de receio de dizer “para nós acabou a brincadeira, a bola é minha e não brinco mais” e assumir uma caracterização abertamente golpista. Não que ela não flerte. Não que ela não seja capaz de embarcar em um aventura terrível, pela forma como age, pelas considerações que ela faz.
Um exemplo foi quando a presidenta Dilma se elegeu. Ela teve uma capacidade eleitoral bastante grande no Nordeste. Quando você olha as redes sociais falando dos nordestinos, você vai ver a cara dessa elite. Ela é exatamente aquilo. Ela começa a dizer: “é esse tipo de gente que elegeu, e nós somos melhores”. Ela tem condições, desejo e vontade de flertar abertamente [com o autoritarismo].
Ou seja, hoje você tem um processo ou uma proposta de inclusão social, que de uma maneira ou de outra dá o acesso às pessoas que não teriam a determinadas instâncias, desde a casa própria até o ensino universitário.
Essa proposta descontentava, como descontenta hoje. A proposta de inclusão. Se o Brasil vive um momento de crise, se é que existe a crise, se ela não é fabricada pelos meios de comunicação, essa crise se deve fundamentalmente a esse descontentamento. São os mesmos grupos, a mesma raiz, que não aceita que as pessoas que não têm nem acesso às migalhas passem a se sentar na mesa.
Como a senhora analisa os protestos pedindo impeachment, os “panelaços”?
Quem bateu panelas? Foi a grande elite? Eu sou capaz de entender o porquê. Tem o que perder, e é só por isso que está batendo panela. Eu não tenho dúvida que essa gente está em defesa de seus privilégios. Existiu a tentativa de puxar um fio de corrupção que envolveria o PSDB, mas foi engavetado. Então por que se diz que só existe um criminoso, o PT?
O Paulo Francis, há mais de vinte anos já falava de corrupção na Petrobras. Faleceu porque veio um processo judicial que ele não conseguiu arcar. A corrupção é exclusiva desse governo?
Mas o consevadorismo, atualmente, não se resume à elite...
Uma coisa é pensarmos no Brasil como um país jovem, que está vivendo um processo de ascensão das chamadas classes médias, quanto a isso não há dúvida, mas é um erro achar que nesse mesmo processo progressivo também terá o mesmo processo no sentido de qual leitura eles terão da realidade brasileira. Infelizmente, a leitura que se tem, na média, é conservadora.
Isso se deve à formação do Brasil, uma escolarização muito baixa. Teve o acesso das pessoas ao ensino, mas é um ensino transformador? Quando se pega a escola pública, que atende à vasta maioria, essa educação transforma sua mentalidade, prepara para os novos tempos? Se tivesse uma imprensa que fosse muito mais plural, também contribuiria para que tivéssemos esses debates ampliados.
O que você diria para alguém que defende o retorno da ditadura?
Pensa, raciocina e observa o que o regime militar produziu. Um mundo sem luz. A desigualdade se ampliou enormemente nesse período, os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. É isso que você quer para a sociedade brasileira? O remédio para a sociedade brasileira é uma aventura antidemocrática? Para combater a corrupção é necessário acabar com a democracia?
Para pessoas que pensam nisso, eu aconselharia a ver as contas da Transamazonica. Ou as contas nunca fechadas da Ponte Rio-Niterói. Ninguém falou, porque naquele momento não podia falar. Se você levantar, você vai trazer uma quantidade de coisas irregulares que arrepia os cabelos de qualquer um. Hoje, graças ao caminho que a sociedade brasileira trilhou, nós temos liberdade falar. O autoritarismo corre ao lado da irregularidade, porque ele abafa a irregularidade.
sábado, 23 de agosto de 2014
60 anos da morte de Getulio Vargas
Via Correio da Cidadania
Léo de Almeida Neves
Faz 60 anos que o inesquecível estadista Getulio Vargas, que tanto amou o povo brasileiro, dilacerou ele próprio seu coração com tiro certeiro na manhã de 24 de agosto de 1954.
O sonho brasileiro de justiça social, emancipação econômica, soberania, grandeza e ideal de transformar o país em potência mundial tem um símbolo a ser reverenciado sempre, Getulio Dornelles Vargas.
A Revolução de 30 por ele chefiada é um divisor histórico na Pátria brasileira, deixando para traz o Brasil arcaico, feudal, produtor de bens primários, profundamente desigual socialmente e que não reconhecia os direitos mais elementares da maioria da população. Ele cumpriu fielmente seus compromissos democráticos de introduzir o voto secreto e universal, de assegurar o direito de voto às mulheres e de criar a Justiça Eleitoral. Quanto mais passa o tempo, agiganta-se a recordação das iniciativas pioneiras e das realizações concretas de Getulio Vargas em prol do Brasil e da nossa gente.
Neste mês de agosto de 2014, foi lançado o 3º volume do aplaudido livro GETULIO 1945 – 1954, do renomado historiador Lira Neto. Também foram relançados, devidamente atualizados, os volumes 1, 2 e 3 da obra A ERA VARGAS, do notável jornalista e escritor José Augusto Ribeiro, por iniciativa da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini de estudos políticos do PDT.
Precedido de grande publicidade foi exibido em todo o Brasil o filme GETULIO, focalizando os últimos dias do presidente a partir do “Atentado da Rua Toneleros” contra Carlos Lacerda, que resultou no assassinato do Major Rubens Florentino Vaz, no dia 5 de agosto de 1954.
A película tem duas falhas gritantes: não divulga a íntegra da Carta-Testamento de Vargas, o documento mais dramático da história brasileira, e omite a reportagem de sete páginas publicada em 19.04.1958 na principal revista da época, O CRUZEIRO, sobre o inventário de Getulio Vargas, revelando que havia deixado de herança apenas os bens recebidos de seus pais e um apartamento no Rio de Janeiro financiado pela Caixa Econômica Federal.
Após 45 anos de vida pública – deputado estadual, deputado federal, ministro da Fazenda, governador do Rio Grande do Sul, senador e 19 anos como Presidente da República, Getulio Vargas não aumentou bens no seu patrimônio, mostrando absoluta honestidade pessoal. Acrescente-se que seus filhos Lutero, Jandira, Alzira e Manuel, e seus irmãos Viriato, Protásio, Espartaco e Benjamim também não acumularam fortuna.
Getulio Vargas assumiu o poder em 03 de novembro de 1930 e já no dia 26 do mesmo mês decretou a criação do Ministério do Trabalho. Sucederam-se muitas medidas legais de proteção ao trabalhador, criação da Justiça do Trabalho e legislação previdenciária, culminando na Consolidação das Leis do Trabalho, em 1º de maio de 1943, com mais de 900 artigos, até hoje vigente.
Nenhum outro Presidente da República preocupou-se em escrever um diário, mais uma demonstração inequívoca do seu patriotismo e magnitude de estadista. Fantástico é que em todos seus discursos e manifestos escritos ele coloca no alto e em destaque absoluto a Pátria e o povo. Elaborado desde 03 de outubro de 1930 até 1942, o manuscrito foi transformado em livro (dois volumes) pela Editora Siciliano – 1995, e relata todos os principais acontecimentos que envolveram sua vida político-administrativa e a sua vigilância constante com a moralidade pública, o interesse permanente pela solução dos problemas brasileiros e da melhoria das condições de vida dos trabalhadores e do povo mais humilde.
Ele criou a Carteira de Crédito Agrícola e Industrial do Banco do Brasil, a Cia. Vale do Rio Doce (encampando a Itabira Iron), a Usina Siderúrgica de Volta Redonda, a Fábrica Nacional de Motores, o DASP, o Conselho Nacional do Petróleo.
Nacionalizou o subsolo, decretou o Código de Minas, e criou a Petrobras em 03 de outubro de 1953. Hoje, o Brasil é autossuficiente na produção de petróleo e estão em construção três grandes refinarias que garantirão o suprimento de derivados com tecnologia própria. A Petrobras descobriu e explora o pré-sal, já produzindo 500 mil barris diários. E, em 2020, o Brasil estará extraindo mais de quatro milhões de barris diários de óleo bruto, tornando-se um dos maiores produtores mundiais de petróleo.
A Eletrobrás que ele lançou, e seu sucessor João Goulart sancionou em lei, nos deu Tucuruí e Itaipu, a segunda maior usina hidrelétrica do universo.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico fundado em 1952 por Vargas empresta mais dinheiro que o Banco Mundial e financia as grandes, médias e pequenas empresas brasileiras.
Getulio Vargas consolidou a unidade nacional e governou o país com visão de estadista, integridade pessoal, autoridade no exercício do cargo, competência e criatividade, nacionalismo e patriotismo exacerbados e, principalmente, com soluções brasileiras para problemas brasileiros, sem copiar figurinos estrangeiros ou a eles submeter-se, embora atento aos fatos universais e às suas repercussões internas.
Léo de Almeida Neves, membro da Academia Paranaense de Letras, ex-diretor do Banco do Brasil e ex-deputado federal.
Léo de Almeida Neves
Faz 60 anos que o inesquecível estadista Getulio Vargas, que tanto amou o povo brasileiro, dilacerou ele próprio seu coração com tiro certeiro na manhã de 24 de agosto de 1954.
O sonho brasileiro de justiça social, emancipação econômica, soberania, grandeza e ideal de transformar o país em potência mundial tem um símbolo a ser reverenciado sempre, Getulio Dornelles Vargas.
A Revolução de 30 por ele chefiada é um divisor histórico na Pátria brasileira, deixando para traz o Brasil arcaico, feudal, produtor de bens primários, profundamente desigual socialmente e que não reconhecia os direitos mais elementares da maioria da população. Ele cumpriu fielmente seus compromissos democráticos de introduzir o voto secreto e universal, de assegurar o direito de voto às mulheres e de criar a Justiça Eleitoral. Quanto mais passa o tempo, agiganta-se a recordação das iniciativas pioneiras e das realizações concretas de Getulio Vargas em prol do Brasil e da nossa gente.
Neste mês de agosto de 2014, foi lançado o 3º volume do aplaudido livro GETULIO 1945 – 1954, do renomado historiador Lira Neto. Também foram relançados, devidamente atualizados, os volumes 1, 2 e 3 da obra A ERA VARGAS, do notável jornalista e escritor José Augusto Ribeiro, por iniciativa da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini de estudos políticos do PDT.
Precedido de grande publicidade foi exibido em todo o Brasil o filme GETULIO, focalizando os últimos dias do presidente a partir do “Atentado da Rua Toneleros” contra Carlos Lacerda, que resultou no assassinato do Major Rubens Florentino Vaz, no dia 5 de agosto de 1954.
A película tem duas falhas gritantes: não divulga a íntegra da Carta-Testamento de Vargas, o documento mais dramático da história brasileira, e omite a reportagem de sete páginas publicada em 19.04.1958 na principal revista da época, O CRUZEIRO, sobre o inventário de Getulio Vargas, revelando que havia deixado de herança apenas os bens recebidos de seus pais e um apartamento no Rio de Janeiro financiado pela Caixa Econômica Federal.
Após 45 anos de vida pública – deputado estadual, deputado federal, ministro da Fazenda, governador do Rio Grande do Sul, senador e 19 anos como Presidente da República, Getulio Vargas não aumentou bens no seu patrimônio, mostrando absoluta honestidade pessoal. Acrescente-se que seus filhos Lutero, Jandira, Alzira e Manuel, e seus irmãos Viriato, Protásio, Espartaco e Benjamim também não acumularam fortuna.
Getulio Vargas assumiu o poder em 03 de novembro de 1930 e já no dia 26 do mesmo mês decretou a criação do Ministério do Trabalho. Sucederam-se muitas medidas legais de proteção ao trabalhador, criação da Justiça do Trabalho e legislação previdenciária, culminando na Consolidação das Leis do Trabalho, em 1º de maio de 1943, com mais de 900 artigos, até hoje vigente.
Nenhum outro Presidente da República preocupou-se em escrever um diário, mais uma demonstração inequívoca do seu patriotismo e magnitude de estadista. Fantástico é que em todos seus discursos e manifestos escritos ele coloca no alto e em destaque absoluto a Pátria e o povo. Elaborado desde 03 de outubro de 1930 até 1942, o manuscrito foi transformado em livro (dois volumes) pela Editora Siciliano – 1995, e relata todos os principais acontecimentos que envolveram sua vida político-administrativa e a sua vigilância constante com a moralidade pública, o interesse permanente pela solução dos problemas brasileiros e da melhoria das condições de vida dos trabalhadores e do povo mais humilde.
Ele criou a Carteira de Crédito Agrícola e Industrial do Banco do Brasil, a Cia. Vale do Rio Doce (encampando a Itabira Iron), a Usina Siderúrgica de Volta Redonda, a Fábrica Nacional de Motores, o DASP, o Conselho Nacional do Petróleo.
Nacionalizou o subsolo, decretou o Código de Minas, e criou a Petrobras em 03 de outubro de 1953. Hoje, o Brasil é autossuficiente na produção de petróleo e estão em construção três grandes refinarias que garantirão o suprimento de derivados com tecnologia própria. A Petrobras descobriu e explora o pré-sal, já produzindo 500 mil barris diários. E, em 2020, o Brasil estará extraindo mais de quatro milhões de barris diários de óleo bruto, tornando-se um dos maiores produtores mundiais de petróleo.
A Eletrobrás que ele lançou, e seu sucessor João Goulart sancionou em lei, nos deu Tucuruí e Itaipu, a segunda maior usina hidrelétrica do universo.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico fundado em 1952 por Vargas empresta mais dinheiro que o Banco Mundial e financia as grandes, médias e pequenas empresas brasileiras.
Getulio Vargas consolidou a unidade nacional e governou o país com visão de estadista, integridade pessoal, autoridade no exercício do cargo, competência e criatividade, nacionalismo e patriotismo exacerbados e, principalmente, com soluções brasileiras para problemas brasileiros, sem copiar figurinos estrangeiros ou a eles submeter-se, embora atento aos fatos universais e às suas repercussões internas.
Léo de Almeida Neves, membro da Academia Paranaense de Letras, ex-diretor do Banco do Brasil e ex-deputado federal.
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