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sábado, 2 de fevereiro de 2019

A culpa é da esquerda

A culpa é um afeto pouco transformativo. Assim como criticar tornou-se o mesmo que desqualificar e agredir, autocrítica tornou-se sinônimo de admissão de culpa.


Agora que o castelo de areia criado pelo ódio e pela desinformação começa a ser varrido pelas ondas de corrupção e lama que vêm caracterizando as primeiras semanas do governo Bolsonaro, talvez tenha chegado a hora da autocrítica da esquerda. Qual parte lhe cabe nesse latifúndio de miséria, ignorância e regressão? Imagino que vários outros (bem mais qualificados em ciência política e no entendimento de processos institucionais, que efetivamente comandam o chão de fábrica da política) tenham muito mais e melhor a dizer do que eu. Mas aqui vai minha contribuição lateral para esse começo de conversa que teve bons e maus motivos para ser adiada.

Uma das razões para este adiamento decorre do fato de que fazer autocrítica é reconhecer que esta teria sido insuficientemente realizada até então. A tentação de deter o monopólio da crítica tem suas raízes na afinidade histórica entre a esquerda e a invenção de outros modelos de mundo, de vida e de Estado, caracterizando, ainda que provisoriamente, a direita como campo da conservação e manutenção de um determinado estado de coisas. Por isso, reconhecer o atraso nesta matéria não é apenas assunto de correção e ajuste de rota, mas discussão de essências, pertinências e prerrogativas no uso do qualificativo: esquerda. Afinal, o estado natural da esquerda é ou deveria ser a crítica.

A autocrítica, como reverso interno e necessário da crítica, tem também suas patologias. Assim como criticar tornou-se o mesmo que desqualificar e agredir, autocrítica tornou-se sinônimo de admissão de culpa. Desde que certa esquerda chegou ao poder, o afeto político ascendente, neste quadrante, tornou-se a culpa. Culpa por não ser suficientemente representativa e por não estar à altura daqueles a quem se representa. Culpa por representar imperfeitamente aqueles até estão excluídos ou minorizados. Culpa de frequentar universidades, de possuir um pouco ou um muito a mais de capital cultural, social ou econômico. Culpa de pertencer à classe média, de ser elite, ainda que operária, negra, feminista ou LGBTI+. Culpa por sentir que não se está fazendo nada de “realmente relevante” (o que seria isso mesmo?). Culpa porque as mesas de congressos não contemplam proporcionalmente indígenas, ou porque não nos dedicamos de forma mais radical e comprometida à redução do preconceito à da desigualdade social. Culpa porque não exercemos controle crítico do Estado, dos partidos ou grupos que nos são próximos, ou de causas ecológicas e de sustentabilidade. Culpa e sentimento de impostura por invadir o lugar de fala alheio.

A culpa tornou-se afeto característico do sofrimento de classe. Percebe-se, por meio de uma enumeração errática como esta, que isso abriu espaço para a emergência do gozo cínico, que instrumentalizará a culpa alheia dizendo que ela é apenas vitimização, “mimimi” ou ritual narcísico de desimplicação. Creio que Francisco Bosco estava tentando nos alertar para isso. A culpa é um afeto individualizante que trava a ação coletiva. Isso se vê também no fato de que em estado de massa ou de anonimato digital perdemos de vista a função inibidora da culpa, nos tornando assim falsamente corajosos e hipercríticos. O sujeito pode sair orgulhoso do debate ou da reunião de condomínio, por destruir aquele colega que pisou em falso naquela expressão inconveniente ou que se excedeu nos argumentos, mas a disputa em torno da culpa é assim: o que hoje você expurga em cima de outro, amanhã lhe será retribuído em dobro. A anestesia provisória, criada pela superioridade moral vai sendo corroída pela culpa, que precisa cada vez de mais atos de exibição purificadores. Nesse ciclo, quem vence é sempre a culpa. Dois dias depois do #EleNão, perdeu-se a chance de uma virada no discurso, quando embarcamos na conversa da culpa.

Uma determinada culpa existencial, de extração católica, acompanhou a formação da esquerda no Brasil desde a Juventude Universitária Católica (JUC) até as Comunidades Eclesiais de Base. Uma culpa raiz que não servia nem à evasão nem à punição moral. Uma culpa que nos fazia pensar com Antônio Cândido e Alfredo Bosi, com Paulo Freire e Darcy Ribeiro, com João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector. Gradativamente, o universo dessa “terra em transe” baseada na autocontradição e na angústia que vinha da tomada de consciência sobre o que significa Brasil, derivou para outra economia moral. Mais simples e pragmática, essa nova consciência sedimentou-se na ideia de que culpa é apenas transgressão da norma, e a norma é bem posta, com exemplos claros e distintos. Aqui se diria que estou falando do neopentecostalismo, mas não é este o caso, pois trata-se de um movimento mais amplo e capilar. É a culpa dos professores impotentes porque lhes impingem mais e mais ideais, com menos e menos condições de cumpri-los. É a culpa dos trabalhadores massacrados por sua própria empregabilidade, dos apaixonados pelo compliance de suas corporações, das relações dietéticas e disciplinares com seus corpos, das relações veementes com seus desejos e palavras, dos axiomas de saúde que nos levam a uma série de pequenas resignações e ao recolhimento em uma vida funcional.

Bem antes de inventarem a Lava Jato – aliás, uma benfeitoria de Dilma – já estávamos culpados. Este é o ponto que quero trazer para a discussão. É certo que o chamado campo progressista, a esquerda ampla, partidária ou comunitária, organizada ou “meio intelectual meio de esquerda”, como formulou Antonio Prata, esquerda “caviar” ou popular, organizada em coletivos ou escrevendo textões nas redes sociais, enfim, todos nós (me incluo nisso) que nos engajamos nesse projeto de mudar a face miserável e faminta do Brasil nos vimos, durante todos estes anos, diante de coisas que não considerávamos corretas (deixo a lista para a próxima coluna). Mas a atitude era de aposta. Olhávamos para o lado e víamos a barbárie de sempre no outro lado e dizíamos a nós mesmos: melhor assim, porque outra coisa não dá.

O preço por essa união à base do mal menor foi alto. Quando renegamos nossos desejos, quando deixamos de nos implicar com o que queremos, quando barganhamos nossa responsabilidade com relação às nossas aspirações, o resultado é um só: culpa. Para a psicanálise, este é um ponto inegociável: cedeu de seu desejo, pode esperar que a fatura da culpa virá, cedo ou tarde, clara ou obscura. Uma esquerda culpada só pode operar por divisões cada vez mais fragmentadas de si mesmo, buscando saber quem é mais culpado do que eu e eliminando impurezas até chegar à solidão solipsista final. Quando entrei nesta conversa, esquerda era transgressão, confronto e desafio de normas, como bem colocou Kleber Mendonça, na pele de Sonia Braga, em Aquarius. Trinta anos depois, nos acostumamos a jogar para não perder.

Em determinado momento da história, a direita parece ter descoberto essa fragilidade. A coisa começou pela imputação de culpa e imoralidade generalizada. Traição aos ideais éticos praticada pelos líderes. A resposta, ainda que vacilante, confiava na ideia de que a Lava Jato era parte da autocrítica e que, na roleta geral da culpa, a esquerda ainda tinha farto capital moral para gastar. O erro impercebido foi ignorar que do outro lado emergia um adversário que tinha outra gramática para a culpa. Um adversário que fazia política na base da teologia da prosperidade, e na equação de que: se tenho mais, mais me é devido. Isso não é meritocracia, mas autojustificação do poder. É claro que essa retórica exige massiva repressão da culpa. Se você pensou que isso se faz à base do reforço delirante da convicção de que a culpa é do outro e somente do outro, acertou.

Portanto, há um fragmento de verdade na acusação de que faltou autocrítica. Faltou autocrítica e sobrou culpa. Certamente isso influiu nos julgamentos decisivos nos quais começamos a perceber matizes de vingança e parcialidade, bem como personagens “imunes” a culpa. Há um fragmento de verdade no déficit de autocrítica, na impossibilidade de reconhecer erros e na resistência a voltar a trás. Esse fragmento não foi o pedalinho do Lula, mas a gramática da culpa que se viu revertida e assumida pela direita como máquina de guerra. Foi assim que pessoas imorais, indecentes e com ficha corrida na corrupção puderam elevar-se à condição de acusadores. Isso só foi possível porque o lugar do acusador já estava feito, polido e esperando seu novo ocupante.

Quando dizíamos, generalizando o consenso de uma conversa interna, que o outro era fascista, machista, misógino, preconceituoso e homofóbico, nos vimos, estarrecidos e desprevenidos, diante de um interlocutor que dizia: “Sou sim, sem culpa alguma! Aliás, a culpa é do PT!” O argumento transitivista, próprio a toda narrativa de sofrimento, abriu o flanco para ouvirmos: “Se você é feminista, eu posso ser machista! Se você tem direito de achar que a terra é redonda, minha opinião de que a terra é plana tem que ter o mesmo valor e importância!” Essa parasitagem de argumentos, essa instrumentalização retórica talvez não tivesse acontecido se o afeto político hegemônico na esquerda não fosse a culpa.

A culpa é um afeto pouco transformativo. Em geral, assim que achamos o culpado nos desimplicamos do processo. Confundimos culpa e responsabilidade. Ser responsável é reparar, manter-se fiel ao processo, interessar-se pela sua continuidade. Ser culpado é o que basta para punirmos o outro, ou a nós mesmos, pela nossa própria impotência e cair fora. A lógica da culpa serve para esquecermos de nossa responsabilidade e implicação, por isso ela tem uma função catártica: uma espécie de alívio imediato, mas seguido de um aumento gradual da carga de angústia. No longo prazo, é pela culpa que nos devora o superego, este glutão que sempre quer mais, que nos diz sempre que ainda não está bom e que não chegamos… ainda, na perfeição. Quanto mais respondemos ao superego, mais ele pede e mais nos sentimos inadequados, infelizes e impotentes. Gozam pelo superego estes que se apaixonaram pela correção e pela acusação dos impuros. Gozam com a força da lei e com a humilhação do outro o seu parceiro fantasmático. Uma nova nova esquerda pode beneficiar-se com um deslocamento de afetos, permitindo que a autocrítica se separe da imputação de culpa colocando em sua cúspide o desejo de transformação.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A criminalização do pensamento crítico





Por Luis Felipe Miguel.



Entre as múltiplas ameaças de retrocesso que surgem do Congresso Nacional hoje, uma das mais graves é a voltada à educação. O espantalho da “doutrinação” dos alunos por professores esquerdistas é um pretexto para a criminalização do pensamento crítico em sala de aula, frustrando o objetivo pedagógico de produzir cidadãos e cidadãs capazes de reflexão autônoma, respeitosos das diferenças, acostumados ao debate e à dissensão, conscientes de seu papel, individual e coletivo, na reprodução e na transformação do mundo social. Em seu lugar, voltamos à ultrapassada compreensão de uma educação limitada à transmissão de “conteúdos” factuais, dos quais o professor é um mero repetidor e o aluno, receptáculo passivo. O slogan vazio da “escola sem partido” busca passar a ideia de que o ensino acrítico é “neutro”, quando, na verdade, ao naturalizar o mundo existente e inibir a discussão sobre suas contradições internas, é um mecanismo poderoso de reprodução do status quo.

São diversos projetos em tramitação no Congresso, que partem do veredito comum de que haveria um esforço de doutrinamento em curso, seja pelo PT, seja pela esquerda de modo geral, que faria com que as escolas tivessem se tornado centros de difusão do socialismo e/ou do feminismo. É uma reação ao arejamento – na verdade, ainda muito insuficiente – das práticas pedagógicas; uma reação que não vem de hoje, mas que se intensificou com a ofensiva diretista dos últimos anos. Alguns talvez se lembrem que, nos anos finais da ditadura militar, pré-escolas alternativas eram acusadas de adotar cartilhas marxistas. É o mesmo tipo de paranoia, mas agora vendo o pretenso doutrinamento como política de Estado, que está por trás das fantasias do movimento Escola Sem Partido, do repúdio a Paulo Freire nas manifestações públicas da direita ou da reação histérica à recente prova do ENEM.

Cada vez que a escola se desloca, por pouco que seja, de seu papel tradicional de aparelho ideológico reprodutor da ordem social, erguem-se as bandeiras de “doutrinamento”. A manobra argumentativa é evidente. A reprodução transita como “não ideológica” porque a ordem social vigente é naturalizada. É como se ela não fosse o fruto de processos históricos, de conflitos sociais com ganhadores e perdedores, mas um dado da realidade que existe por si só. A “neutralidade” do discurso que não questiona o porquê do mundo social ser como é, nem indica que essa ordenação não é uma necessidade, é falsa: ele é um elemento ativo de perpetuação, uma maneira de bloquear as potencialidades de mudança presentes do mundo em que vivemos.

Na atual ofensiva da direita brasileira, há dois alvos simultâneos. Permanece o ódio ao marxismo e, de modo mais geral, a qualquer forma de questionamento à desigualdade de classe. É sustentado por uma leitura delirante da teoria de Gramsci, difundida pelo astrólogo Olavo de Carvalho, em que a ideia de uma luta pela produção de sentido no mundo social é transformada num plano diabólico de lavagem cerebral em massa.

Mas há uma grande ênfase também na denúncia contra qualquer tentativa de desnaturalizar os papéis estereotipados atribuídos a mulheres e homens. É a “ideologia de gênero”, termo que foi cunhado pelos setores conservadores da Igreja Católica, mas adotado também por denominações protestantes, e colocada em curso em vários países do mundo, entre eles o Brasil, como forma de organizar a oposição aos avanços – mais lentos do que gostaríamos, mas inquestionáveis – na direção de maior igualdade entre os sexos e maior respeito a gays e lésbicas. Ao afirmar que “ideológica” é a luta contra a discriminação de gênero, fica implícito que a desigualdade e a intolerância seriam naturais.

O rótulo “ideologia de gênero” foi rapidamente incorporado à linguagem destes grupos. Sintético, ele permite que se descarte, sem discussão, tudo aquilo que já se sabe sobre a produção social do feminino e do masculino. Quando militantes conservadores reagem à frase de Simone de Beauvoir incluída na prova do ENEM escrevendo coisas como “eu nasci mulher sim, nasci com vagina”, como se viu nas redes sociais, revelam, mais do que apenas uma ignorância brutal e constrangedora, uma impermeabilidade deliberada a qualquer discussão sobre o tema.

Ao lado da ameaça que a emancipação feminina e a conquista dos direitos degays e lésbicas de fato representa aos privilégios de homens e de heterossexuais, e ao lado também do fundamentalismo religioso de alguns, há no destaque dado à “ideologia de gênero” uma demonstração de oportunismo político. Como afirmei em outro lugar, hoje a homofobia é o ópio do povo. Deslocando o eixo do conflito para as questões “morais” (que, na verdade, são questões de direitos individuais), a direita se põe em sintonia com uma parcela do eleitorado que, sobretudo a partir das políticas compensatórias do governo Lula, se movimentava na direção de seus adversários. Também por isso, para as forças da esquerda a luta pela igualdade de gênero e contra a homofobia não pode ser considerada uma pauta secundária.

Entre os projetos em tramitação no Congresso, vários têm o fantasma da “ideologia de gênero” como alvo. O PL 7180/2014 e o PL 7181/2014, ambos de autoria de Erivelton Santana (PSC/BA), determinam a mesma coisa: que “os valores de ordem familiar [têm] precedência sobre a educação escolar nos aspectos relacionados à educação moral, sexual e religiosa, vedada a transversalidade ou técnicas subliminares no ensino desses temas”. O primeiro projeto visa instituir esta regra na Lei de Diretrizes e Bases da Educação e o outro, redundantemente, quer torná-la obrigatória nos parâmetros curriculares (que já devem obedecer à LDBE).

A intocabilidade da família, como sujeito coletivo com direitos próprios, irredutíveis aos de seus integrantes, é o que fundamenta tal proposta. Muitas vezes, mesmo os grupos mais progressistas têm receio de discutir o statusatribuído à unidade familiar, preferindo deslocar a luta para a necessidade de pluralizar o entendimento do que é família. Claro que que é importante dar a todos que o queiram a possibilidade de buscar formar famílias, no formato que desejem, mas ainda precisamos dessacralizar a “família”. A família é também um lugar de opressão e de violência. A defesa de uma concepção plural de família não pode colocar em segundo plano a ideia de que, em primeiro lugar, estão os direitos individuais dos seus integrantes. E entre estes direitos está o de ter acesso a uma pluralidade de visões de mundo, a fim de ampliar a possibilidade de produção autônoma de suas próprias ideias.

As propostas do deputado baiano impedem a educação sexual e o combate ao preconceito e à intolerância nas escolas, sob o argumento de preservar a soberania da família na formação “moral” dos mais novos. Com isso, retiram da escola a possibilidade de contribuir para disseminar os valores de igualdade e de respeito à diferença, que são cruciais para uma sociedade democrática. E retiram dos jovens o direito de ter acesso a informações que são necessárias para que eles possam refletir sobre sua própria posição nesse mundo e avançar de maneira segura para a vida adulta.

Ainda mais bisonho, o PL 1859/2015, de autoria de Izalci Lucas (PSDB/DF), Givaldo Carimbão (PROS/AL) e outros, propõe que a LDBE inclua dispositivo que proíba as escolas de apresentar conteúdo “que tendam a aplicar a ideologia de gênero, o termo ‘gênero’ ou ‘orientação sexual’”. A política linguística destes deputados incorpora ao vocabulário legislativo o termo “ideologia de gênero”, inventado recentemente pela direita fundamentalista, e veta do vocabulário escolar os termos “gênero” e “orientação sexual”, impedindo assim que vastos setores do conhecimento produzido na sociologia e na psicologia cheguem ao ensino. O objetivo é evitar qualquer questionamento da percepção naturalizada dos papéis sexuais. É por isso que, quase 70 anos depois, Simone de Beauvoir ainda causa arrepios.

Na mesma linha, o PL 2731/2015, de Eros Biondini (PTB/MG), quer incluir, no Plano Nacional de Educação, uma proibição à “utilização de qualquer tipo de ideologia na educação nacional, em especial o uso da ideologia de gênero, orientação sexual, identidade de gênero e seus derivados, sob qualquer pretexto”. Para além do absurdo do texto (uma “ideologia” é “utilizada” na “educação nacional”?), o PL é significativo pelas punições previstas. O profissional de educação que descumprir a norma, isto é, que tematizar a desigualdade de gênero ou a homofobia, ou mesmo que apresente qualquer raciocínio crítico que seja rotulado como “ideológico”, perderá o cargo e estará sujeito às punições previstas, no Estatuto da Criança e do Adolescente, àqueles que submetem “criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou constrangimento ilegal”: seis meses a dois anos de prisão.

O projeto mais ambicioso, porém, é o PL 867/2015, novamente de Izalci Lucas, que é representante da ala do PSDB mais despreparada intelectualmente e retrógrada politicamente. Seu objetivo é incluir, nas diretrizes e bases da educação nacional, um programa intitulado “Escola sem Partido”. De fato, o deputado simplesmente apõe seu nome à iniciativa do “movimento” de mesmo nome. Assim, a educação deve ser baseada na “neutralidade política” e a escola não pode desenvolver nenhuma atividade que possa “estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes”. Embora escolas confessionais privadas possam exercer seu proselitismo, desde que contem com a anuência dos pais. O artigo 5º prevê que serão afixados cartazes nas escolas para que os estudantes saibam que podem denunciar seus professores. O programa se aplica ao material didático e a todos os níveis de ensino, incluindo o superior.

Os dois pilares são, portanto, a soberania da família, que se sobrepõe ao direito do estudante de obter elementos para produzir de forma autônoma sua visão de mundo, e uma ideia de “neutralidade” que se baseia na ficção de um conhecimento que não é situado socialmente. Um relato da história do Brasil ou do mundo que se limite a nomes ou datas, como no ensino do regime militar, pode parecer “neutro”, por não assumir expressamente juízos de valor. Mas, ao negar ao aluno as condições de situar os processos históricos e de compreender os interesses em conflito, cumpre um inegável papel conservador.

Se a “neutralidade” não existe, uma vez que toda produção de conhecimento parte de um lugar social específico, qual é o contrário da doutrinação? É o pensamento crítico, aquele que permite que os estudantes sejam não objetos, mas sujeitos da aprendizagem, refletindo sobre os conteúdos e construindo suas próprias percepções, no diálogo com professores e colegas. É esse pensamento crítico que assusta os promotores da “Escola sem Partido”. Seu discurso ensaiado não disfarça o fato de que são eles que desejam uma escola doutrinária, que imponha aos estudantes um pensamento fechado – o conformismo – e os impeça de pensar com as próprias cabeças e, pensando, quem sabe inventar um mundo novo.

***

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde edita a Revista Brasileira de Ciência Política e coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê, que mantém o Blog do Demodê, onde escreve regularmente. Autor, entre outros, de Democracia e representação: territórias em disputa (Editora Unesp, 2014), e, junto com Flávia Biroli, de Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014). Ambos colaboram com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

sábado, 26 de setembro de 2015

A esquerda depois do PT




É possível dizer que é injusta a maneira pela qual o Partido dos Trabalhadores se tornou o emblema de todos os vícios da política brasileira, enquanto seus concorrentes da direita são preservados sistematicamente por uma cobertura de mídia manipulada. É verdade. Caixa dois, loteamento do Estado, relações de compadrio com grandes grupos econômicos, corrupção: o PT não inventou nada disso; pelo contrário, tornou-se participante tardio de uma festa que começara muito antes (e, aliás, para a qual nem fora convidado). Nem por isso, os efeitos do desgaste do PT no eleitorado deixam de ser sentidos. Para a classe média, que se sentiu ameaçada pelo pequeno avanço dos mais pobres nos três mandatos presidenciais petistas, o discurso da indignação moral permite extravasar sua insatisfação, de maneira mais legítima do que se ficasse apenas no registro do simples egoísmo. E a maioria politicamente desmobilizada, com menor acesso a outros canais de informação, tem poucos recursos para resistir ao bombardeio da mídia.

Ao mesmo tempo, os grupos mais politizados à esquerda se sentem cada vez menos contemplados pelo partido que é responsável por um governo que implanta políticas altamente prejudiciais aos interesses dos trabalhadores e que, na busca da permanência no poder, não imagina outro caminho além de uma submissão cada vez mais profunda ao capital. Em nove meses de segundo mandato, a presidente Dilma Rousseff não foi capaz sequer de fazer um aceno simbólico aos movimentos populares, certamente por imaginar que tal gesto assustaria aqueles que ela tenta desesperadamente agradar. Na visão política de Dilma e seu círculo, os movimentos populares não existem. Todas as equações que fazem para sair da crise incluem os mesmo elementos: os grandes grupos econômicos, as elites políticas tradicionais, as oligarquias partidárias. Por mais que a conta nunca feche, não se cogita agregar um novo fator.

No início deste segundo mandato ainda era possível imaginar que, apesar de todo desgaste, o PT possuía lastro nos movimentos sociais para manter sua relevância como força política. Hoje, está claro que não. Por mais que o golpismo dos defensores do impeachment seja evidente, por mais que ver Fernando Henrique Cardoso e Aécio Neves entronizados no papel de guardiães da moralidade pública cause repulsa, quem quer defender um governo cujo único programa é o aumento do desemprego e a redução do investimento social?

Espremido entre a campanha ascendente da direita, uma mídia cada vez mais abertamente hostil e o seu governo, que age diariamente contra sua base social, o PT caminha para se esfarelar com uma velocidade inimaginável um ano atrás. Movimentos sociais acomodados com a interlocução com o PT estão percebendo que o partido perdeu a capacidade de expressar suas demandas. Mas também muitos deputados, prefeitos e vereadores petistas buscam novas legendas, por vezes até na direita, em geral por simples oportunismo – o que revela, por si só, como o PT se tornou parecido com os partidos tradicionais.

Evidentemente, tudo isso não é efeito apenas do descalabro do segundo governo Dilma. O PT nasceu com um projeto – inacabado, em aberto, contraditório. Apontava para um horizonte de transformação profunda da sociedade, incluindo algum tipo indefinido de socialismo, alguma forma nova de fazer política e também a revalorização da experiência das classes trabalhadoras. A busca de relações radicalmente democráticas, de uma política efetivamente popular, fazia parte da “alma do Sion”, como André Singer definiu o espírito original do partido, fazendo referência à sua fundação no Colégio Sion, em São Paulo, em 1980.

Para pessoas treinadas nas tradições organizativas da esquerda, o PT original possuía uma perigosa indefinição programática, além de ser vítima de um basismo e de um purismo paralisantes. De fato, o partido surgiu num momento em que essas tradições estavam em xeque. Os equívocos do PT foram fruto de sua vontade de não repetir o trajeto dos partidos leninistas ou da social-democracia, que, cada um a seu modo, tenderam a se fossilizar em estruturas hierárquicas e burocráticas. Tratou-se de uma experiência inovadora, inspiradora para a parte da esquerda que tentava se renovar em muitos lugares do mundo.

Tal inovação apresentava custos crescentes, à medida em que o partido crescia. Na famosa lei de ferro das oligarquias, no início do século XX, Robert Michels afirmou que “quem fala organização, fala oligarquização”. Deixando de lado seu determinismo retrógrado, é possível dar crédito ao pensador alemão nos dois eixos centrais de sua reflexão: as camadas dirigentes tendem a desenvolver interesses próprios, diferenciados daqueles da massa de militantes, e a eficiência organizativa trabalha contra a democracia. De fato, é fácil “discutir com as bases” quando se é um ator político pouco relevante. Depois, fica cada vez mais claro que o timing da negociação política prevê a concentração das decisões nas mãos dos líderes.

Como costuma ocorrer em organizações políticas inovadoras, o crescimento levou a tensões crescentes entre percepções mais “realistas”, que julgavam necessário um esforço de adaptação ao mundo da política tal como ele é, e outras mais principistas. A conquista das primeiras prefeituras municipais foi, em muitos casos, dramática. Mas até então o partido lutava para não renunciar à possibilidade do exercício localizado do poder político sem abrir mão dos princípios gerais que orientavam sua organização.

É possível datar com precisão o momento em que o PT iniciou sua caminhada para se transformar naquilo que é hoje: o anúncio do resultado do primeiro turno das eleições de 1989. Quando Lula passa à etapa final da disputa, ao lado de Fernando Collor, parecia se tornar claro que um bom aproveitamento do clima político, aliado a um marketing eleitoral competente, proporcionaria um acesso mais rápido ao poder do que o trabalho de mobilização no qual o partido apostava desde sua fundação. O fato de que o partido hesitou em aceitar, no segundo turno, o apoio de políticos conservadores, mas democratas, é em geral apontado como uma demonstração de seu caráter naïf e de seu despreparo para a política real. É provável. Mas não dá para não respeitar tal purismo, sobretudo à luz do PT posterior, para o qual ninguém, de Maluf a Collor, de Sarney a Jader Barbalho, de Kátia Abreu a Michel Temer, está fora do alcance de uma possível aliança.

Entre a hesitação inicial de 1989 e a política de alianças indiscriminada adotada a partir de 2002 houve uma evolução paulatina, eleição após eleição. Evolução também no discurso, no programa político, na forma de fazer campanha. É razoável dizer que o PT abandonou a ideia de que a campanha eleitoral era um momento de educação política. Quando Duda Mendonça assume, na quarta candidatura presidencial de Lula, já está claro que não se deve mais disputar a agenda, nem os enquadramentos ou valores dominantes. Para ganhar a eleição, é mais fácil mudar o candidato para se encaixar nas expectativas vigentes. Estava surgindo o Lulinha paz e amor, que não é só uma persona do marketing eleitoral, mas a indicação da visão de que seria possível fazer política transcendendo os conflitos.

Só que os conflitos não são transcendidos, são escamoteados. E quando são escamoteados, isso sempre trabalha em favor daqueles que já estão em posição privilegiada. O governo Lula vendeu ao capital sua capacidade de apaziguar os movimentos sociais. Com a elite política, prosseguiu no toma-lá-dá-cá típico brasileiro, agravado pelo fato de que, dada a desconfiança que o PT precisava enfrentar, os termos da troca eram piores. Graças a isso, ganhou a possibilidade de levar a cabo uma política de combate à miséria. Sem negar sua importância, o fato é que foram 12 anos em que o avanço social se mediu exclusivamente pelo acesso ao consumo. A fragilidade de uma política que não enfrentou nenhuma questão estrutural nem desafiou privilégios fica patente pela facilidade com que os supostos avanços da era petista vão sendo desmontados. Voltamos ao momento do desemprego, da redução do poder de compra dos salários, do desinvestimento nos serviços públicos. E, como o ambiente parece propício, de roldão são acrescentados retrocessos ainda maiores: precarização das relações de trabalho, criminalização da juventude, legislação retrógrada no campo da família e da sexualidade.

O momento, em suma, é o da maior derrota das forças progressistas no Brasil após o golpe de 1964. E uma parcela considerável da responsabilidade recai sobre um partido que não soube ou não quis aproveitar as oportunidades de que dispôs para consolidar algum tipo de avanço político e social.

Ao fim do processo, a esquerda brasileira parece órfã. Nos últimos 30 anos, o PT ocupou uma posição de absoluta centralidade neste campo, seja sob a chave da utopia, seja sob a chave do possível. Mesmo os críticos, mesmo os não petistas, encaravam o partido com um pilar incontornável da esquerda. Hoje, é cada vez mais evidente que a única maneira de ler o PT é como um experimento fracassado. Torna-se necessário pensar novas formas de organização e ação, novos instrumentos para fazer política, superando o saldo de desencanto e de desesperança que o final melancólico dos governos petistas deixa.

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Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde edita a Revista Brasileira de Ciência Política e coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê, que mantém o Blog do Demodê, onde escreve regularmente. Autor, entre outros, de Democracia e representação: territórias em disputa (Editora Unesp, 2014), e, junto com Flávia Biroli, de Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014). Ambos colaboram com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Maringoni: A política dos puros





As manifestações de protesto contra o ajuste fiscal, de oposição à direita e pela democracia, marcadas para esta quinta (20) em diversas cidades, está suscitando séria celeuma entre as próprias forças progressistas.

Ela é convocada por entidades, como o MTST, o MST, a CUT, a CTB, a UNE, a Intersindical, a UBES e o PSOL.

Os eventos podem vir a ser ser um marco e um contraponto importante à escalada reacionária que toma conta da sociedade.

Grupos puristas de ultraesquerda lançam manifestos, declarações à praça e ucasses acusando os movimentos e o PSOL de estarem organizando um ato de apoio ao governo Dilma.

É bom deixar claro que isso não está na pauta da comissão organizadora da manifestação.

CONVOCATÓRIA

A convocatória, aprovada por diversas entidades, deixa explícito o que se pretende:

“Contra o ajuste fiscal! Que os ricos paguem pela crise!

A política econômica do governo joga a conta nas costas do povo. Ao invés de atacar direitos trabalhistas, cortar investimentos sociais e aumentar os juros, defendemos que o governo ajuste as contas em cima dos mais ricos, com taxação das grandes fortunas, dividendos e remessas de lucro, além de uma auditoria da dívida pública. Somos contra o aumento das tarifas de energia, água e outros serviços básicos, que inflacionam o custo de vida dos trabalhadores. Os direitos trabalhistas precisam ser assegurados: defendemos a redução da jornada de trabalho sem redução de salários e a valorização dos aposentados com uma previdência pública, universal e sem progressividade”.

Simples e direto.

É bem verdade que o evento está aberto à participação de quem quer que seja. Inclusive dos partidos que integram a base do governo. Afinal, acontecerá nas ruas e elas são públicas.

CONTAMINAÇÃO

Imaginar que o ato será “contaminado” por algum tipo de governismo demonstra um dois mais nocivos comportamentos para quem faz política, o purismo.

Quem faz política conversa com todos, faz acordos com quem pensa diferente, busca alianças com base em interesses comuns, mesmo que pontuais.

Os puros, não.

Esses não se misturam. Não convivem com a pluralidade. Não estão na vida para convencer e – eventualmente – serem convencidos.

Podem não realizar nada, pois para exercer sua pureza, precisam apenas conviver entre iguais, em ambientes de convertidos, em espaços reiterativos, nos quais nunca terão de muitas vezes colocar a mão nas impurezas do mundo. Mas isso não lhes importa.

Os puros são assépticos, limpinhos e almejam serem cheirosos.

Mas os puros apresentam uma vantagem, uma sacrossanta vantagem sobre todos os demais.

Podem – depois de tudo – erguer o dedo e acusar os que julgam impuros. E podem bradar a frase mágica:

– Eu não disse?? Eu não disse que não ia dar certo?

Sim, as coisas na vida podem dar certo e dar errado.

Mas o ruim não é isso. O ruim é não tentar.

SABEDORIA ORIENTAL

Os puros certamente são personagens como os que Vladimir Lenin (1870-1924) criticava em uma de suas obras mais conhecidas, o “Esquerdismo, doença infantil do comunismo”, escrito em 1920.

Nesse pequeno livro, o líder da Revolução Russa ataca pesadamente os ativistas de ultraesquerda que, sob o pretexto de manter o purismo de suas organizações, acabam por se distanciar da consciência popular.

A citação é quase um Danoninho teórico. Ou seja, vale por um bifinho político.

Ao comentar a recusa dos comunistas alemães em fazer acordos com facções burguesas no parlamento, Lenin diz:

“Há compromissos e compromissos. É preciso saber analisar a situação e as circunstâncias concretas de cada compromisso, ou de cada variedade de compromisso.

É preciso aprender a distinguir o homem que entregou aos bandidos sua bolsa e suas armas para diminuir o mal causado por eles e facilitar sua captura e execução, daquele que dá aos bandidos sua bolsa e suas armas para participar da divisão do saque.

Em política, isso está muito longe de ser sempre assim tão difícil como nesse pequeno exemplo de simplicidade infantil.

Seria, porém, um simples charlatão quem pretendesse inventar para os operários uma fórmula que, antecipadamente, apresentasse soluções adequadas para todas as circunstâncias da vida, ou aquele que prometesse que na política do proletariado nunca surgirão dificuldades nem situações complicadas”.

GUETO

O purismo é o caminho para o gueto e o isolamento.

Os puros não querem nem saber. A teoria, eles a querem pura, a política querem pura, a sociedade, querem pura e a vida idem ibidem…

Pura, pura.

Pura que o pariu!


(Puros, só os Havana).

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A direita e a falácia do caviar



O nível da direita brasileira já há tempos vinha em franco declínio. Primeiro abandonaram os argumentos para contentar-se com o ódio. Agora, acrescentam ao ódio o fuxico da vida alheia. Tornaram-se patrulhadores dos costumes da esquerda em nome de uma lógica bastante curiosa. 

Para eles, se você defende posições de esquerda, não pode comprar coisas no mercado, está proibido de viajar, frequentar botecos, restaurantes e deve repartir seu salário com os vizinhos. Se te pegam falando no telefone, esteja pronto para ouvir, em tom de triunfo: "Aha! É contra o capitalismo, mas usa celular!". 

Nas páginas do Manifesto Comunista, de 1848, Marx já havia debochado do tacanho pensamento elitista sobre a defesa da socialização: "Para o burguês, a mulher nada mais é do que um instrumento de produção. Ouvindo dizer que os instrumentos de produção serão explorados em comum, conclui naturalmente que o destino de propriedade coletiva caberá igualmente às mulheres". É socialista? Então socialize sua mulher! –diziam os direitistas do século 19. Quase duzentos anos depois, o nível parece o mesmo. 

Raciocínios como esse são mais velhos que o capitalismo. Revelam um primitivismo da razão, sem mediações nem conceitos. Aristóteles, já no século quatro antes de Cristo, dedicou seus Elencos Sofísticos a denunciar essa lógica manca. Dá exemplos: "Cinco é dois mais três. Dois é par e três é ímpar. Logo, cinco é par e ímpar". O argumento sofístico abusa da ambiguidade e da confusão, produzindo falácias racionais. 

É o que faz a direita de hoje. Confunde intencionalmente duas questões distintas: defender o capitalismo e viver no capitalismo. Vivemos em uma sociedade capitalista, com tudo o que isso implica. Viver nela não significa defendê-la, aliás para criticá-la e combatê-la é preciso estar nela. 

O argumento bronco considera tudo isso uma sutileza metafísica e diz, com a argúcia da Idade da Pedra: "Se é contra o agronegócio, então não coma!", "denuncia a privatização, mas usa energia elétrica da AES em casa!", "é socialista, mas tem computador!", e outras pérolas mais. Enfim, a esquerda de verdade deve se alimentar por fotossíntese, usar velas e mimeógrafo. 

Imaginem as mesmas sandices aplicadas do outro lado: "Aha! Vi você dando um pedaço de pão para o seu filho, seu socialista! Não dê o peixe, ensine a pescar!", "Bill Gates é comunista: tem fortes investimentos na China comandada pelo PC.", "pegou crédito imobiliário na Caixa? Seu petralha sem-vergonha! Vai pagar juros para o PT!". 

Recentemente, os bisbilhoteiros de plantão fotografaram o jornalista Leonardo Sakamoto em Nova York. Como pode? É de esquerda e vai para Nova York! Deixando de lado a questão das intrigantes motivações dessa Dona Fifi globalizada, que se dedica a perseguir e fotografar alguém em outro hemisfério, o nível do raciocínio é o mesmo denunciado por Aristóteles: "Sakamoto é de esquerda. Nova York é uma cidade capitalista. Logo, Sakamoto não pode pisar em Nova York". 

Não sabem talvez que o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, é considerado comunista pela direita de lá por ser admirador de Cuba e ter apoiado os sandinistas. Mas aí já fica complexo demais para o Tico e o Teco. 

O que essa turma não entende –e possivelmente nunca entenda– é que defender posições de esquerda não significa voto de pobreza, viver a pão e água. Quem impõe a vida a pão e água a bilhões de pessoas ao redor do planeta é o capitalismo e é exatamente por isso que a esquerda o combate. Não se trata de defender a socialização da miséria, mas sim das riquezas. Algo, aliás, profundamente atual num mundo onde elas estão concentradas em 1% da população.

domingo, 19 de abril de 2015

Fora Dilma é estratégia contra Lula, diz Amaral



247 - Ex-ministro e ex-presidente nacional do PSB, Roberto Amaral considera que a estratégia de destruição do PT levada a cabo pela oposição tem como objetivo maior barrar uma nova candidatura de ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2018. “É uma tolice discutir se era elite branca ou só elite. Existe descontentamento, e a utilização desse descontentamento tem um fim, que é impedir uma eventual candidatura do Lula em 2018”, avalia Amaral, em entrevista ao Estado.

“Para atingir o Lula, é fundamental destruir o PT. O problema grave, do meu ponto de vista, é que a destruição do PT está levando consigo a destruição de forças progressistas e do campo da esquerda, que estão sendo envolvidas no mesmo balaio”, adverte.

Voz dissidente no PSB ao apoio ao senador Aécio Neves (PSDB-MG), Amaral iniciou a articulação de uma frente nacional popular, que reúne intelectuais, movimentos sociais, políticos com ou sem mandato e empresários para enfrentar a “falência da reflexão da esquerda”. “A esquerda deixou de refletir, de ter estratégia, de ter projeto. Eu não sei hoje qual o projeto da esquerda brasileira.”

A frente se sustenta em quatro pilares: a democracia, a soberania do País, os direitos trabalhistas e a redução das desigualdades em geral.

A frente não se pauta pelo calendário eleitoral, mas intensificou-se diante do momento de mobilização de setores liberais e dos riscos oferecidos pelo enfraquecimento do governo Dilma Rousseff. “O mais grave é o fato de vermos o Congresso desmontando uma a uma as conquistas sociais que obtivemos (desde 2003) e impondo uma pauta conservadora, tanto do ponto de vista econômico como dos valores sociais.”

Amaral também critica o próprio partido. Para ele, é “inconcebível” o apoio de parlamentares do PSB ao projeto que regulariza a terceirização da mão de obra, ao mesmo tempo em que setores no partido querem se reaproximar do governo o partido rompeu com Dilma em 2013 para lançar a candidatura de Eduardo Campos ao Planalto. “A discussão não é se aproximar ou não do PT, isso é muito pouco. O problema é se aproximar cada vez mais das forças conservadoras. Ainda que o partido sobreviva materialmente, ele rasgou seu programa, negando suas origens e a justificativa de sua existência. O PSB resolveu mudar para poder ganhar, e não ganhar para poder mudar.”

terça-feira, 14 de abril de 2015

Vitória parcial




Apesar do empurrão da pesquisa Datafolha, divulgada na véspera, os atos contra Dilma perderam um tanto de sua força. Mas não é o caso de desqualificá-los. Pelo contrário. Comprovou-se que há gente engajada no que acredita ser o melhor para o país. Isso é relevante num movimento com marcas de despolitização, como desconhecimento da história brasileira --parecendo crer que a corrupção começou há 12 anos-- e apreço pequeno pela democracia duramente conquistada. 

No jogo de especulações sobre por que a revolta retraiu, talvez valha pensar em dois pontos, dentre outros. Um é que, mesmo sendo o impeachment o tesouro procurado, parte dos anseios dos descontentes já vem sendo atendida: esfacelamento do PT, que virou uma coisa invertebrada, etriunfo de uma agenda conservadora --redução da maioridade penal, leis para estimular a violência das polícias, bloqueio da ampliação dos direitos de mulheres e gays. 

É significativo que, em protestos que têm a corrupção como inimiga, seja difícil ver cartazes contra Eduardo Cunha. Ao emparedar o PT e devolver ao reacionarismo um vigor político que não tinha desde a ditadura, o presidente da Câmara dos Deputados realiza muito do que desejam os manifestantes. 

O segundo ponto é que o movimento ainda está sendo guiado mais pelo fígado (ódio ao PT) do que pelo estômago (desemprego, perda de renda); mais por vontade do que por necessidade. Para quem conhece o Rio, foi fácil perceber que não havia em Copacabana gente em situação financeira precária. Eram 10 mil pessoas de uma classe média que segue a pauta dos grupos de comunicação, claramente favoráveis aos protestos. 

Se a crise se instalar com a força que se espera e os mais pobres saírem às ruas, é possível que a turma deste domingo corra para seus apartamentos. E chame a polícia.

Morre o escritor uruguaio Eduardo Galeano, aos 74 anos



O escritor uruguaio Eduardo Galeano morreu nesta segunda-feira em Montevidéu, aos 74 anos, informou sua editora a este jornal. Na sexta-feira, ele havia sido internado por causa de um câncer de pulmão.

Galeano era autor de As Veias Abertas da América Latina, livro que desde seu lançamento, em 1971, se tornou um clássico da literatura política latino-americana. Sua obra, na qual se destaca também Memória do Fogo (1986), foi traduzida para cerca de 20 idiomas.

Antes de se tornar um intelectual destacado da esquerda latino-americana, Galeano trabalhou como operário industrial, desenhista, pintor, mensageiro, datilógrafo e caixa de banco, entre outros ofícios.

As Veias Abertas... saiu quando Galeano tinha 31 anos. Naquela época, como admitiu depois o próprio escritor, ele não tinha formação suficiente para a tarefa à qual se dispôs. “Tentou ser uma obra de economia política, só que eu não tinha a formação necessária”, afirmou ele sobre o seu livro mais famoso. “Não me arrependo de tê-lo escrito, mas é uma etapa que, para mim, está superada”, acrescentou.

Em 2009, durante a Quinta Cúpula das Américas, o então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, presenteou seu colega norte-americano, Barack Obama, com um exemplar de As Veias Abertas da América Latina livro que havia sido proibido nos anos setenta pela censura das ditaduras militares do Uruguai, Argentina e Chile. 


domingo, 14 de dezembro de 2014

Para que servem os partidos de esquerda?



Hoje, recoloca-se com força a questão do papel dos partidos de esquerda nos processos de construção de alternativas superadores do neoliberalismo.

por Emir Sader

Ao longo da década de 1990 a esquerda resistiu como pôde aos avanços do neoliberalismo. Parecia que estávamos frente a uma onda irresistível, até que alguns governos latino-americanos reagiram e começaram a construir alternativas a esse modelo

Duas correntes conviviam na resistência ao neoliberalismo: uma, que defendia a autonomia dos movimentos sociais, a rejeição à política, aos partidos e ao Estado. Outra, que propunha a necessidade de resgate da política, dos partidos e do Estado para conquistar hegemonia e construir alternativas ao neoliberalismo.

Triunfou esta segunda corrente, dado que a superação do neoliberalismo requer a construção de um bloco de forças hegemônico e a construção prática de novas políticas de caráter público, que requerem redirecionar o Estado, superando a centralidade do mercado, promovida pelo neoliberalismo. Trata-se de resgatar o Estado e a política e não de abandoná-los, o que faz o jogo do neoliberalismo.

O resgate do papel ativo do Estado, tanto como indutor do crescimento econômico, como na sua qualidade de garantia dos direitos sociais, foi decisivo na capacidade de governos para avançar na superação do modelo neoliberal. A ultraesquerda foi derrotada porque não soube compreender a natureza da disputa e do papel do Estado nela. 

Os que propunham a autonomia dos movimentos sociais não foram capazes de passar da força acumulada no plano social na resistência ao neoliberalismo à construção de alternativas políticas a esse modelo. Permaneceram na fase de resistência a esse modelo. Algumas forças praticamente desapareceram – como foi o caso dos piqueteros na Argentina – outras ficaram reduzidas à intranscendência – como é o caso dos zapatitas no México. 

Foi decisivo o papel do Estado nos avanços na superação do neoberalismo, tanto no plano econômico, como no social. Mas a desmoralização da política e o enfraquecimento dos partidos não se deteve sequer nos países que resgataram a importância do Estado.

Hoje, recoloca-se com força a questão do papel dos partidos de esquerda nos processos de construção de alternativas superadores do neoliberalismo. Como se trata de governos de alianças amplas, de centro esquerda, esses devem representar a alternativa de esquerda, que representa a superação radical do neoliberalismo. E, mais além dessa luta, apontar para alternativas anticapitalistas.

Por outro lado, o papel de um partido de esquerda é o de formular estratégias para chegar aos objetivos do programa dos partidos. Enquanto os governos se movem no plano das conjunturas, é necessário apontar para esses objetivos, para que não se percam nos enfrentamentos imediatos.

Além disso, os partidos devem discutir permanentemente com os movimentos populares as plataformas de luta, as formas de organização dos distintos setores populares, as relações com os governos. Porque são esses movimentos – sindicatos, movimentos sociais, culturais, etc. – os que devem se dedicar a organizar os mais amplos setores de massa.

É também responsabilidade dos partidos as constantes avaliações das conjunturas, das relações de força, dos aliados, do inimigos.

Em síntese, o papel dos partidos é o de dar direção política, de elaborar e construir a hegemonia dos programas estratégicos da esquerda e as formas de sua realização.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O gol contra de Vladimir Safatle




Por Erick da Silva

Houve um tempo em que a figura política do "intelectual" exercia um importante papel na sociedade. Os franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir seguramente foram os mais influentes e significativos exemplos no século XX deste perfil de intelectual que não restringe sua atuação aos "muros da universidade". Com o fim do comunismo soviético e a vitória relativa do neoliberalismo este perfil de intelectual foi modificado, perdendo muito de sua relevância pública, não raro voltando-se quase que exclusivamente para dentro da vida acadêmica, alheios ao mundo que os cerca.

Felizmente nem todas e todos seguiram esse roteiro e trilharam caminhos buscando combinar o esforço reflexivo com uma atuação militante. Intelectuais que se dispõem a disputar publicamente suas posições é algo que devemos louvar, principalmente, tratando-se de um intelectual de esquerda, figura sempre "maldita" pelos grandes meios e cujo espaços são duramente conquistados. Furar o bloqueio é uma tarefa difícil e Vladimir Safatle é um destes raros casos. Professor livre-docente da USP, tornou-se conhecido por um público maior sobretudo por sua atividade como colunista no jornal Folha de S. Paulo. Ainda que não necessariamente concordando com todas suas colocações, seus artigos eram elementos de rara crítica em uma mídia dominada pelo culto ao "deus mercado".

No entanto, o Safatle que anteriormente buscava articular importantes reflexões críticas sobre a sociedade, tendo alguns momentos de brilhantismo e inspiração, teve suas análises afetadas após as "jornadas de junho". Ao final de 2013, quando se filia ao Psol com a perspectiva de ser candidato pela sigla ao governo de São Paulo, colocou-se claramente em um outro lugar, isto é, o da disputa institucional e partidária - o que obviamente não deve ser objeto de crítica. O grande problema parece ter vindo depois da não confirmação da sua candidatura, visivelmente expressado em dois artigos anti-copa.

O primeiro com o título "Não teve Copa", publicado dois dias antes do seu início, afirmou taxativamente que "não há grande evento que consiga esconder o desencanto de um povo." Em sua aposta agourenta, previa que este desencanto converteria-se em protestos, "cuja revolta pode explodir a qualquer momento". A Copa aconteceu e não houve nenhuma "explosão de revolta". O clima da Copa no Brasil contagiou cada canto deste país, não sem problemas pontuais e alguns poucos protestos vanguardistas que não causaram impacto algum na conjuntura. A identidade dos brasileiros com o futebol foi desconsiderada na análise exposta em seu artigo. Pretender entender o seu próprio povo, com toda as suas potencialidades e contradições não é fácil; exige o esforço de saber enxergar a realidade para além de seus desejos e expectativas. Apostava-se que após esta derrapada o filósofo teria a humildade de reconhecer que errou completamente em suas avaliações. Ledo engano!

Safatle voltou à carga em artigo publicado na Folha em 01 de Julho, onde partiu para o ataque já no título, classificando de "Esquerda Padrão Fifa" os setores que apoiam ao Governo Dilma e a realização da Copa do Mundo no Brasil. Se por um lado, ele acertou ao dizer que nem todos os que são críticos à Copa fazem o jogo da direita, por outro, desconsiderou o fato de que existe uma direita golpista no país disposta a manipular a democracia em nome de seus interesses eleitorais imediatos. A direita inúmeras vezes manifestou que esperava, através do mantra "imagina na Copa", produzir uma desestabilização potente o suficiente para funcionar como a "bala de prata" para derrotar a reeleição do governo petista.

Não podemos negar os inúmeros equívocos que ocorreram no processo de preparação para a Copa, com destaque para o grave problema das remoções por conta das obras para o evento. Esta crítica aos megaeventos é necessária e pertinente. Mas não é este o caminho que Safatle trilha em seu artigo. Usando com alguma competência certos artifícios retóricos, e no mesmo tom do artigo anterior, fica evidente que a leitura que faz destila se não incompreensão, uma dose elevada de amargura e pessimismo. A crítica à Copa é usada com o objetivo de atacar ao PT. Equiparar, por exemplo, o PT ao CNA, da África do Sul, é desconsiderar todas as particularidades gritantes que existem na formação dos dois partidos e de seus governos, como é próprio de generalizações sem fundamentação em dados empíricos concretos.

Em uma postura de terra arrasada, na qual os parâmetros de pureza ideológica são usados para uma crítica de conjunto ao PT, faz transparecer que o seu principal adversário é o petismo e não a direita e o capital. Afirmar que "a esquerda morre quando negocia sua força critica por alguns ingressos de futebol", para além do efeito da frase, pouco aponta de concreto.

A derrota do "Não vai ter Copa", ainda não assimilada por Safatle, turva a sua análise sobre a dinâmica da luta de classes no país. O PT segue sendo, com todas as suas contradições, o principal partido a organizar e servir como referência para as lutas populares e o único partido com condições reais de força para disputar a hegemonia. Para além das necessárias críticas que se possa ter ao Governo Dilma, não está colocada uma alternativa à esquerda com alguma viabilidade. Apostar na derrota do PT, com irresponsabilidade e imaturidade política contribui para o jogo da direita, além de bloquear a construção de alternativas críticas aglutinadoras no campo da esquerda.

Fonte:http://www.aldeiagaulesa.net/