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sábado, 2 de fevereiro de 2019

A culpa é da esquerda

A culpa é um afeto pouco transformativo. Assim como criticar tornou-se o mesmo que desqualificar e agredir, autocrítica tornou-se sinônimo de admissão de culpa.


Agora que o castelo de areia criado pelo ódio e pela desinformação começa a ser varrido pelas ondas de corrupção e lama que vêm caracterizando as primeiras semanas do governo Bolsonaro, talvez tenha chegado a hora da autocrítica da esquerda. Qual parte lhe cabe nesse latifúndio de miséria, ignorância e regressão? Imagino que vários outros (bem mais qualificados em ciência política e no entendimento de processos institucionais, que efetivamente comandam o chão de fábrica da política) tenham muito mais e melhor a dizer do que eu. Mas aqui vai minha contribuição lateral para esse começo de conversa que teve bons e maus motivos para ser adiada.

Uma das razões para este adiamento decorre do fato de que fazer autocrítica é reconhecer que esta teria sido insuficientemente realizada até então. A tentação de deter o monopólio da crítica tem suas raízes na afinidade histórica entre a esquerda e a invenção de outros modelos de mundo, de vida e de Estado, caracterizando, ainda que provisoriamente, a direita como campo da conservação e manutenção de um determinado estado de coisas. Por isso, reconhecer o atraso nesta matéria não é apenas assunto de correção e ajuste de rota, mas discussão de essências, pertinências e prerrogativas no uso do qualificativo: esquerda. Afinal, o estado natural da esquerda é ou deveria ser a crítica.

A autocrítica, como reverso interno e necessário da crítica, tem também suas patologias. Assim como criticar tornou-se o mesmo que desqualificar e agredir, autocrítica tornou-se sinônimo de admissão de culpa. Desde que certa esquerda chegou ao poder, o afeto político ascendente, neste quadrante, tornou-se a culpa. Culpa por não ser suficientemente representativa e por não estar à altura daqueles a quem se representa. Culpa por representar imperfeitamente aqueles até estão excluídos ou minorizados. Culpa de frequentar universidades, de possuir um pouco ou um muito a mais de capital cultural, social ou econômico. Culpa de pertencer à classe média, de ser elite, ainda que operária, negra, feminista ou LGBTI+. Culpa por sentir que não se está fazendo nada de “realmente relevante” (o que seria isso mesmo?). Culpa porque as mesas de congressos não contemplam proporcionalmente indígenas, ou porque não nos dedicamos de forma mais radical e comprometida à redução do preconceito à da desigualdade social. Culpa porque não exercemos controle crítico do Estado, dos partidos ou grupos que nos são próximos, ou de causas ecológicas e de sustentabilidade. Culpa e sentimento de impostura por invadir o lugar de fala alheio.

A culpa tornou-se afeto característico do sofrimento de classe. Percebe-se, por meio de uma enumeração errática como esta, que isso abriu espaço para a emergência do gozo cínico, que instrumentalizará a culpa alheia dizendo que ela é apenas vitimização, “mimimi” ou ritual narcísico de desimplicação. Creio que Francisco Bosco estava tentando nos alertar para isso. A culpa é um afeto individualizante que trava a ação coletiva. Isso se vê também no fato de que em estado de massa ou de anonimato digital perdemos de vista a função inibidora da culpa, nos tornando assim falsamente corajosos e hipercríticos. O sujeito pode sair orgulhoso do debate ou da reunião de condomínio, por destruir aquele colega que pisou em falso naquela expressão inconveniente ou que se excedeu nos argumentos, mas a disputa em torno da culpa é assim: o que hoje você expurga em cima de outro, amanhã lhe será retribuído em dobro. A anestesia provisória, criada pela superioridade moral vai sendo corroída pela culpa, que precisa cada vez de mais atos de exibição purificadores. Nesse ciclo, quem vence é sempre a culpa. Dois dias depois do #EleNão, perdeu-se a chance de uma virada no discurso, quando embarcamos na conversa da culpa.

Uma determinada culpa existencial, de extração católica, acompanhou a formação da esquerda no Brasil desde a Juventude Universitária Católica (JUC) até as Comunidades Eclesiais de Base. Uma culpa raiz que não servia nem à evasão nem à punição moral. Uma culpa que nos fazia pensar com Antônio Cândido e Alfredo Bosi, com Paulo Freire e Darcy Ribeiro, com João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector. Gradativamente, o universo dessa “terra em transe” baseada na autocontradição e na angústia que vinha da tomada de consciência sobre o que significa Brasil, derivou para outra economia moral. Mais simples e pragmática, essa nova consciência sedimentou-se na ideia de que culpa é apenas transgressão da norma, e a norma é bem posta, com exemplos claros e distintos. Aqui se diria que estou falando do neopentecostalismo, mas não é este o caso, pois trata-se de um movimento mais amplo e capilar. É a culpa dos professores impotentes porque lhes impingem mais e mais ideais, com menos e menos condições de cumpri-los. É a culpa dos trabalhadores massacrados por sua própria empregabilidade, dos apaixonados pelo compliance de suas corporações, das relações dietéticas e disciplinares com seus corpos, das relações veementes com seus desejos e palavras, dos axiomas de saúde que nos levam a uma série de pequenas resignações e ao recolhimento em uma vida funcional.

Bem antes de inventarem a Lava Jato – aliás, uma benfeitoria de Dilma – já estávamos culpados. Este é o ponto que quero trazer para a discussão. É certo que o chamado campo progressista, a esquerda ampla, partidária ou comunitária, organizada ou “meio intelectual meio de esquerda”, como formulou Antonio Prata, esquerda “caviar” ou popular, organizada em coletivos ou escrevendo textões nas redes sociais, enfim, todos nós (me incluo nisso) que nos engajamos nesse projeto de mudar a face miserável e faminta do Brasil nos vimos, durante todos estes anos, diante de coisas que não considerávamos corretas (deixo a lista para a próxima coluna). Mas a atitude era de aposta. Olhávamos para o lado e víamos a barbárie de sempre no outro lado e dizíamos a nós mesmos: melhor assim, porque outra coisa não dá.

O preço por essa união à base do mal menor foi alto. Quando renegamos nossos desejos, quando deixamos de nos implicar com o que queremos, quando barganhamos nossa responsabilidade com relação às nossas aspirações, o resultado é um só: culpa. Para a psicanálise, este é um ponto inegociável: cedeu de seu desejo, pode esperar que a fatura da culpa virá, cedo ou tarde, clara ou obscura. Uma esquerda culpada só pode operar por divisões cada vez mais fragmentadas de si mesmo, buscando saber quem é mais culpado do que eu e eliminando impurezas até chegar à solidão solipsista final. Quando entrei nesta conversa, esquerda era transgressão, confronto e desafio de normas, como bem colocou Kleber Mendonça, na pele de Sonia Braga, em Aquarius. Trinta anos depois, nos acostumamos a jogar para não perder.

Em determinado momento da história, a direita parece ter descoberto essa fragilidade. A coisa começou pela imputação de culpa e imoralidade generalizada. Traição aos ideais éticos praticada pelos líderes. A resposta, ainda que vacilante, confiava na ideia de que a Lava Jato era parte da autocrítica e que, na roleta geral da culpa, a esquerda ainda tinha farto capital moral para gastar. O erro impercebido foi ignorar que do outro lado emergia um adversário que tinha outra gramática para a culpa. Um adversário que fazia política na base da teologia da prosperidade, e na equação de que: se tenho mais, mais me é devido. Isso não é meritocracia, mas autojustificação do poder. É claro que essa retórica exige massiva repressão da culpa. Se você pensou que isso se faz à base do reforço delirante da convicção de que a culpa é do outro e somente do outro, acertou.

Portanto, há um fragmento de verdade na acusação de que faltou autocrítica. Faltou autocrítica e sobrou culpa. Certamente isso influiu nos julgamentos decisivos nos quais começamos a perceber matizes de vingança e parcialidade, bem como personagens “imunes” a culpa. Há um fragmento de verdade no déficit de autocrítica, na impossibilidade de reconhecer erros e na resistência a voltar a trás. Esse fragmento não foi o pedalinho do Lula, mas a gramática da culpa que se viu revertida e assumida pela direita como máquina de guerra. Foi assim que pessoas imorais, indecentes e com ficha corrida na corrupção puderam elevar-se à condição de acusadores. Isso só foi possível porque o lugar do acusador já estava feito, polido e esperando seu novo ocupante.

Quando dizíamos, generalizando o consenso de uma conversa interna, que o outro era fascista, machista, misógino, preconceituoso e homofóbico, nos vimos, estarrecidos e desprevenidos, diante de um interlocutor que dizia: “Sou sim, sem culpa alguma! Aliás, a culpa é do PT!” O argumento transitivista, próprio a toda narrativa de sofrimento, abriu o flanco para ouvirmos: “Se você é feminista, eu posso ser machista! Se você tem direito de achar que a terra é redonda, minha opinião de que a terra é plana tem que ter o mesmo valor e importância!” Essa parasitagem de argumentos, essa instrumentalização retórica talvez não tivesse acontecido se o afeto político hegemônico na esquerda não fosse a culpa.

A culpa é um afeto pouco transformativo. Em geral, assim que achamos o culpado nos desimplicamos do processo. Confundimos culpa e responsabilidade. Ser responsável é reparar, manter-se fiel ao processo, interessar-se pela sua continuidade. Ser culpado é o que basta para punirmos o outro, ou a nós mesmos, pela nossa própria impotência e cair fora. A lógica da culpa serve para esquecermos de nossa responsabilidade e implicação, por isso ela tem uma função catártica: uma espécie de alívio imediato, mas seguido de um aumento gradual da carga de angústia. No longo prazo, é pela culpa que nos devora o superego, este glutão que sempre quer mais, que nos diz sempre que ainda não está bom e que não chegamos… ainda, na perfeição. Quanto mais respondemos ao superego, mais ele pede e mais nos sentimos inadequados, infelizes e impotentes. Gozam pelo superego estes que se apaixonaram pela correção e pela acusação dos impuros. Gozam com a força da lei e com a humilhação do outro o seu parceiro fantasmático. Uma nova nova esquerda pode beneficiar-se com um deslocamento de afetos, permitindo que a autocrítica se separe da imputação de culpa colocando em sua cúspide o desejo de transformação.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Israel e o uso político de Brumadinho

Por Soraya Misleh, na revista CartaCapital:


Diante da tragédia em Brumadinho (MG), expressões de solidariedade vêm dos lugares mais distantes. Lamentavelmente, as vidas humanas ceifadas pela ganância do capital também despertam oportunismo. Caso do Estado de Israel, cuja violação de direitos humanos fundamentais é praxe. Frente ao espetáculo midiático em torno da ação dos seus mais de 130 soldados na região desde a última segunda-feira (28), pode ser vista por pessoas bem intencionadas com bons olhos. Natural.

Contudo, não é o caso. Nada mais fake do que a “ajuda humanitária” oferecida pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, anunciada por Bolsonaro em declaração à mídia brasileira em 26 de janeiro – dia seguinte à ruptura de quatro barragens de rejeitos na região. Ao contrário da propaganda que vem sendo feita, essa oferta israelense não tem nada de nobre, sequer é necessária. Visa transmitir ao mundo imagem positiva diante das denúncias do contínuo apartheid, colonização e ocupação desumanos a que estão submetidos os palestinos todos os dias, há mais de 70 anos. 

Nos territórios invadidos em 1967 – Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental –, a ocupação israelense ceifou quase 300 vidas palestinas somente em 2018 e coloca 2,5 milhões de pessoas necessitadas de assistência humanitária, além de 1,6 milhão em situação de insegurança alimentar, segundo relatório da Coordenação de Assuntos Humanitários da Organização das Nações Unidas de dezembro de 2018 (confira clicando aqui).

A ação israelense, repleta de “segundas intenções”, é denominada Aid Washing – em português, algo como “lavar de ajuda”. Por essa razão, tem motivado indignação e repúdio. Sem contar que a presença israelense se dá em violação a lei federal (nº 1.079/1950), que determina que o Presidente da República precisa da anuência do Congresso Nacional ao trânsito de tropas estrangeiras em território nacional. A autorização dada por Bolsonaro, passando ao largo do Legislativo, portanto, constitui crime de responsabilidade passível de impeachment.

É a primeira vez que Israel recorre a Aid Washing no Brasil, mas não é novidade no mundo. Entre os exemplos recentes, ação em setembro de 2017 durante o terremoto na Cidade do México que deixou mais de 300 mortos e, em julho de 2018, no resgate dos meninos tailandeses presos em caverna nesse último país – ambas tragédias que causaram comoção mundial, como essa da ruptura das barragens em Brumadinho. Relações públicas a serviço de encobrir crimes contra a humanidade e ampliar seus acordos com os governos cúmplices do apartheid na Palestina, que em nada beneficiam a sociedade local, seus trabalhadores e trabalhadoras.

Israel não é o único na história a usar tragédias: estudos demonstram que o regime de apartheid na África do Sul, que perdurou de 1948 a 1994, fez muita propaganda na intenção de vender imagem positiva ao mundo, antes de a campanha internacional de boicote se consolidar e mesmo na busca por contrapor-se a essa ação poderosa de solidariedade. Segundo reportagem publicada pela BBC em 1º de dezembro de 2017, a África do Sul realizara o primeiro transplante de coração do mundo em 1967, que serviu à campanha de relações públicas para encobrir a segregação que os negros enfrentavam no país. 


“No livro, ‘Cada Segundo Conta: A Extraordinária Corrida pelo Primeiro Transplante de Coração Humano’, publicado em 2006, o escritor sul-africano Donald McRae destaca que, minutos após ser informado do transplante, em 3 de dezembro de 1967, o primeiro-ministro John Vorster escreveu um memorando interno ao seu gabinete: ‘Nós podemos associar esse momento histórico da medicina a uma imagem positiva do país, após toda essa propaganda contrária a nós pelo mundo’(…).” Documentário intitulado “Terra, paz e propaganda” demonstra que, ao lado dos investimentos militares, com a ajuda de bilhões de dólares do imperialismo estadunidense, Israel conta com fortes inversões em relações públicas. Somente em ajuda militar, os Estados Unidos, ainda durante o Governo Obama em 2016, anunciaram o montante recorde de US$ 38 bilhões por dez anos.


Sem eficácia

Tecnologias como as que foram trazidas para Brumadinho são desenvolvidas com tais recursos. Não obstante, como se destinam à limpeza étnica e à manutenção da ocupação ilegal na Palestina, não tem eficácia para salvar vidas. Ao portal Folha/UOL de 28 de janeiro, o tenente-coronel Eduardo Ângelo, comandante das operações de resgate, afirmou que os equipamentos israelenses trazidos a Brumadinho “não são efetivos para esse tipo de desastre”. Ele acrescentou: “O ministro de Israel se pronunciou a respeito das dificuldades que eles tiveram. O imageador que eles têm pega corpos quentes, e todos os corpos [na região] são frios. Então esse já é um equipamento ineficiente.” Do alto da arrogância e falta de sensibilidade de quem representa um projeto colonial, o embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, também à mídia, desqualificou a declaração, dizendo que “há pessoas com ciúmes”. E completou: “Quem estiver frustrado com a melhora no relacionamento entre Israel e Brasil, que se acostume e ‘engula o chapéu’.”

Causa estranheza que o Governo de Minas e a Presidência da República saúdem a vinda israelense como necessária nesse momento, ao mesmo tempo em que recusam ajuda local, seja de bombeiros voluntários de outros estados, como São Paulo, seja de efetivo das Forças Armadas Brasileiras. É o que vem ocorrendo, conforme reportagem da Agência Estado de 28 de janeiro. Segundo a notícia, militares das Forças Armadas estão de prontidão desde dia 25 em Belo Horizonte “para serem empregados, em um primeiro momento, na tentativa de salvamento de pessoas que poderiam estar em áreas isoladas ou em meio à lama por causa do rompimento da Barragem em Brumadinho, e depois para auxiliar no resgate de corpos, para diminuir o sofrimento dos que estão em busca de seus parentes”. Contudo, segundo a matéria, o Governo de Minas não os requisitou, afirmando que há pouco espaço para manobra, a área é restrita e o risco de contaminação, elevado. “Penso que já deveriam ter usado (o pessoal das três Forças). Eu penso que a ajuda dos homens do Exército, da Marinha e da Aeronáutica é muito importante nesta hora. Eles têm experiência. O momento é de unir forças”, declarou ainda à Agência Estado o deputado Fábio Ramalho (MDB-MG).

Logo após a visita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ao País, a “ajuda” a Brumadinho, ao que tudo indica, vai ao encontro da aproximação explicitada pelos representantes sionistas e por Bolsonaro, como amplamente anunciado já durante a campanha eleitoral. Esse governo declara abertamente seu amor por Israel e promete mais acordos bilaterais. Assim, a ação traduz-se também em publicidade para a venda ao Brasil de mais tecnologias testadas sobre as “cobaias” humanas que Israel converte os palestinos cotidianamente. Na contramão do que reivindica o movimento de BDS (boicote, desinvestimento e sanções), que traz as reivindicações básicas ao fim da ocupação, entre elas que se cumpra o legítimo direito de retorno dos milhões de refugiados palestinos às suas terras. E algo bem distante da verdadeira solidariedade internacional – expressa às vítimas de Brumadinho também por palestinos em todo o mundo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Doria visa lucro para setor privado com o encarceramento em massa





por Jorge Ferreira / Mídia NINJA

João Dória (PSDB), governador de São Paulo, anunciou nessa sexta-feira (18) a privatização de ao menos 4 dos 12 presídios que estão em construção no estado. Segundo ele, as referências serão o presidio da cidade de Ribeirão das Neves – MG, e o sistema norteamericano. Os critérios apontados são a melhoria nas condições do cárcere e a ressocialização do apenado com o trabalho. No entanto as experiências de privatização de presídios apontam em outra direção: ampliação do encarceramento em massa.

Num país como o Brasil, com quase 800 mil presos, terceira maior população carcerária do mundo, deveria ser ponto de partida a discussão de como diminuir esse contingente, pois apesar do número de encarcerados ter aumentado em 170% somente entre 2000 e 2015, a segurança pública continua sendo um dos principais problemas apontado pelos brasileiros. É com essa constatação de que prender mais não é a solução que muitos países, incluindo Estados Unidos, tem caminhado no sentido de frear o encarceramento. A privatização das cadeias por sua vez aponta em direção oposta pois inclui no sistema empresas privadas que tem por objetivo lucrar na medida que se prende mais.

No contrato firmado com o presídio de Ribeirão das Neves, modelo para o governador de São Paulo, está previsto como “obrigação do poder público” a manutenção constante de ao menos 90% da demanda durante todo o tempo da parceria público -privado.

Ou seja, além de não ter no horizonte políticas para amenizar o encarceramento, existe na verdade uma lógica inversa. Não bastasse as garantias de lucro concedidas pelo estado à iniciativa privada, especialistas apontam também para o lucro em cima da mão de obra do preso, uma vez que a relação trabalhista não é regida pela CLT, e sim pela Lei de Execução Penal, que por sua vez afirma que presos podem ganhar menos que um salário mínimo, e ainda não ter benefícios. Com uma mão de obra mais barata, os produtos produzidos tem preço mais competitivo, e consequentemente as empresas lucram mais.

Quando se fala em prender mais no país que quase 70% dos presos são negros, não se pode deixar de lado o fator racial , e é por isso que a declaração de privatizar os presídios surge em paralelo com o discurso de intensificar a guerra às drogas, estrutura central do genocídio de negros e negras que ocorre no país.

A medida de João Dória não surpreende tendo em vista que ainda enquanto prefeito implementou o programa Cidade Linda, política higienista que visava tirar do centro da cidade pessoas em situação de rua, e não é preciso ir longe para compreender que os negros foram os mais atingidos.

Agora enquanto governador, parece não querer perder de vista, mas sim intensificar o controle sobre corpos negros, tudo em nome do lucro do setor privado.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Cultura inútil: Para que serve a utopia?

Mouzar Benedito propõe uma reflexão sobre utopia hoje, e faz um fértil apanhado das melhores frases e ditados sobre o tema, de Lamartine a Simone de Beauvoir, passando por Rosa Luxemburgo e Glauber Rocha.



Por Mouzar Benedito.

Para que chorar o que passou?
Lamentar perdidas ilusões,
Se o ideal que sempre nos acalentou
Renascerá em outros corações.
(Trecho da música tema do filme Luzes da Ribalta, de Charles Chaplin.)

Em 1516, o inglês Thomas More publicou o livro Utopia, palavra que significa “não lugar” ou “lugar que não existe”. Neste livro, descreve um lugar uma ilha com uma sociedade perfeita, ideal, harmoniosa, sem guerras, sem poderosos, sem exploração das pessoas umas pelas outras. Segundo li em algum lugar, Thomas Morus baseou suas ideias em informações passadas por Américo Vespúcio sobre o que ele viu no novo continente, principalmente no Brasil. Nossos povos indígenas teriam sido inspiradores da Utopia do escritor e humanista.

E a palavra utopia ganhou um outro significado, além do dado por ele, de sociedade ideal. É também algo irrealizável, ideia generosa mas impraticável, fantasia…

Mas para muita gente (inclusive eu) é algo extremamente necessário para que a vida valha a pena. Maluquice? Pode ser. Mas maluquice das boas. Eduardo Galeano escreveu: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

Muitas vezes temos que nos consolar por reconhecer que nossos sonhos são utópicos, quer dizer, irrealizáveis. Eu mesmo tenho como utopia um mundo sem governos, sem fronteiras, sem exploração, em que todos vivam bem e harmoniosamente. Anarquista! Sim, minha utopia é esta. Mas para que o mundo seja assim, é preciso que todas as pessoas sejam boas, a ponto, por exemplo, de não precisar de existir polícia, sistema judiciário e prisões. Isso é pra lá de utópico, pelo menos por uns séculos a virem, né? Mas a gente sonha assim mesmo. No meu caso, enquanto meus sonhos são irrealizáveis, me contentaria com um socialismo real, democrático, mas continuaria com meu sonho anarquista. Sonho. Utopia.

Bom… Um intervalo aqui. Antes de falar mais um pouco sobre utopia (ou ausência dela), quero lembrar que Thomas Morus era um filósofo cristão, influenciou bastante Henrique VIII no início de seu reinado, na Inglaterra. Mas quando desaprovou o divórcio do rei, que pretendia se casar com Ana Bolena, foi afastado do cargo e preso. Condenado à morte, o rei – vejam que bonzinho – lhe deu o privilégio de escolher a forma como queria ser morto: enforcado, afogado, eviscerado (eviscerar é retirar as vísceras) ou esquartejado. Ele preferiu ser decapitado. Canonizado em 1935, com o nome Thomas More, é santo da igreja católica.

Voltemos à utopia.

Algumas pessoas se sentem incomodadas com uma coisa: o sentimento de que estamos vivendo, em certos aspectos, numa situação pior do que durante a ditadura. Tudo na ditadura era pior. Esta é a regra. E eu acredito nela, quase totalmente.

Mas uma questão mexe comigo: a utopia. A utopia estava mais presente nos pensamentos e nas ações das pessoas “do nosso lado”. Ou melhor, tinha mais gente utopista. A primeira meta do nosso sonho não era chegar ao mundo utópico, mas o começo de uma caminhada rumo a ele. Era derrubar a ditadura, depois partir para a demorada construção de uma sociedade ideal, justa, como a da Utopia de Thomas More.

Parece que há um tempo as utopias vem se rareando. Podemos dizer que as pessoas (em seu conjunto – claro que há indivíduos que destoam do conjunto, e nem são poucos) têm uma utopia? Qual é ela?

Aí é que a coisa pega. O individualismo está vencendo e não sabemos até onde vai isso, até quando… As pessoas que vivem uma mesma situação parecem não ter intenção de se unirem para a procura de um bem comum. Elas competem umas com as outras. O modelo de sociedade em que vivemos tem muito a ver com isso. Por exemplo: lá pelos anos cheios de utopia, estudantes que pretendiam fazer vestibular estudavam juntos e colaboravam uns com os outros, torcendo para que todos eles fossem aprovados. Tinha, claro, uma boa porcentagem de gente que queria só “subir na vida”, ganhar dinheiro, enriquecer. Mas tinha também os cheios de utopias, os que queriam fazer juntos o curso universitário e ajudar a construir juntos o mundo com que sonhavam.

A sociedade brasileira (e do mundo todo) mudou muito, e as pessoas acompanham as mudanças, mas tem umas “coisinhas” que é bom lembrar, e que caracterizam um pouco o momento em que se vive. Detalhes reveladores, acho. Por exemplo, isso de estudar juntos, somando conhecimentos. Na época, o vestibular avaliava os conhecimentos dos estudantes, e quem tinha nota acima de 5 estava capacitado para entrar na universidade. Então, se todos nós tirássemos nota acima de 5, todos estávamos aprovados. Claro, houve a questão dos excedentes, quando o número de aprovados era maior do que o número de vagas. Então sobravam alguns dos aprovados. Mas os que eram aceitos e matriculados brigavam juntos com os excluídos, os excedentes, pela inclusão de todos.

Há algum tempo, o vestibular é “classificatório”, o que significa que, por exemplo, um curso que tem 50 vagas para calouros, aprova os primeiros 50 classificados, independente da nota que tiraram. Então, o sujeito pensa: e se meu colega for o número 50 e eu for o 51? Tá aí o pomo da discórdia. O companheiro vira concorrente. E isso parece valer para tudo, empregos inclusive. Então, vivemos num mundo de competição e não de colaboração e companheirismo. Em vez de soma, divisão.

E surgem defensores da tal “meritocracia”, por pessoas que se julgam com mais méritos que as outras. Torna-se comum a indiferença com a miséria alheia, com sofrimentos alheios…

Como tenho feito sobre outros temas, coletei alguns pensamentos sobre este. O que disseram sobre utopia, sonhos utópicos?

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Anatole France: “Sim, o sonho! Sim, a quimera! Sim, a ilusão! Sem os sonhos, sem as quimeras, sem as ilusões a vida não tem sentido e não oferece interesse. A utopia é o princípio de todo o progresso. Sem as utopias de outrora, os homens viveriam miseráveis e nus nas cavernas. Foram os utopistas que traçaram as linhas da primeira cidade… Dos sonhos generosos nascem as realidades benéficas”.

* * *

Anatole France, de novo: “A utopia é o princípio de todo progresso e o direito de um porvir melhor”.

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Agostinho da Silva: “De uma maneira geral, todas as ideias que visam o futuro são utópicas, ainda não estão realizadas em parte alguma, por isso são tanto mais ativas quanto menos realizadas são”.

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Alphonse de Lamartine: “As utopias são, muitas vezes, verdades prematuras”.

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Oscar Wilde: “O progresso não é senão a realização de utopias”.

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Millôr Fernandes: “A maior utopia é a resistência diária”.

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Eugênia Thereza de Andrade (diretora de teatro, comentando a peça “Liberdade, Liberdade”, de Millôr Fernandes, que ela dirigiu): “A utopia não é uma moda, ela não passa. Ela é o desejo do homem de ter e dar afeto”.

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Oscar Niemeyer: “A humanidade precisa de sonhos para suportar a miséria; nem que seja por um instante”.

* * *

Niemeyer, de novo: “A gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem”.

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Victor Hugo: “Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã”.

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Marcela Serrano: “Sem uma dimensão utópica, o efêmero rodeia-me, apanha-me e diz-me que a vida é apenas isso: o que vejo e toco. Nada mais. A utopia ainda é possível?”.

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Mário Quintana: “Se as coisas são inatingíveis… Ora! / Não é motivo para não querê-las… / Que tristes os caminhos, se não fora / A presença das estrelas”.

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Helen Keller: “Literatura é minha utopia. Não há barreira que possa tirar esse prazer. Os livros falam comigo em impedimentos de qualquer tipo”.

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Nietzsche: “O filósofo é o homem de amanhã, aquele que recusa o ideal do dia, aquele que cultiva a utopia”.

* * *

Nietzsche, de novo: “É preciso seguir sonhando para não sucumbir”

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Caio Fernando Abreu: “Porque no fundo eu sei que a realidade que eu sonhava afundou num copo de cachaça e virou utopia”.

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Gabriel García Márquez: “Eu acredito que ainda não é tarde demais para construir uma utopia que nos permita compartilhar a terra”

* * *

Gramsci: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Neste interregno, um monte de sintomas mórbidos aparecem”.

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Glauber Rocha: “O cinema novo ficou com a utopia brasileira. Se ela é feia, irregular, suja, confusa, caótica, é também bonita, desarmônica, iluminante, revolucionária”.

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Paulo Freire: “Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo utiliza toda possibilidade que tenha para não falar da minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes”.

* * *

Afonso Duarte de Barros: “O homem que não sonha embrutece ainda mais o mundo”.

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Maria Lacerda de Moura: “A resposta ao despeito, ao fanatismo, ao sectarismo, às injúrias, às calúnias, será continuar a pensar e a viver nobremente a coragem excepcional de dizer, bem al, o que penso, o que sinto, o que sonho”.

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Simone de Beauvoir: “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância”.

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Machado de Assis: “Os sonhos antigos foram aposentados e os modernos moram no cérebro da pessoa”.

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Olavo Bilac: “O que realizamos nunca é tão belo como o que sonhamos”.

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Jean-Paul Sartre: “Como todos os sonhadores, confundi o desencanto com a verdade”.

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Rosa Luxemburgo: “Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.
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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar(2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária(1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2017, e-book). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Um panorama inicial do governo Bolsonaro

Por Pedro Breier, no blog Cafezinho:

Começo este panorama inicial pela posse de Bolsonaro, a qual acompanhei por mais ou menos uma hora. Peguei o emocionante trecho em que Bolsonaro deu um estrondoso chá de cadeira no público, na imprensa e nos que acompanhavam pela televisão ou pela internet. O presidente tomava um café com os presidentes da Câmara e do Senado enquanto todos lhe esperavam, apalermados.

Meu destaque daquele fatídico dia vai para a cobertura da imprensa. Mais especificamente, de Boris Casoy e Amanda Klein, da RedeTV!, que produziram uma monstruosa quantidade de frases absurdas, as quais pareciam ter sido enviadas diretamente pela assessoria de imprensa do nosso novo presidente. Coisas como “agora as nomeações vão ser todas técnicas” e “acabou o toma lá, dá cá, segundo o presidente”. Não há mais, pelo jeito, preocupação em sequer esconder o alinhamento ou a falta de objetividade da cobertura. Acompanhemos como agirá a Globo, que não se bica muito com a família Bolsonaro.

As abundantes nomeações, para cargos no governo, de políticos que não se elegeram em 2018 são um belo exemplo de nomeações estritamente técnicas. Se acabou o toma lá, dá cá, imagino que nada será exigido em troca dos partidos desses derrotados da eleição.

É como a nomeação de Sérgio Moro para o ministério após este retirar o líder das pesquisas do páreo, condenando-o sem provas. Ou a nomeação do genro de Léo Pinheiro para a presidência da caixa; Pinheiro é o delator que mudou sua versão dos fatos para incriminar Lula, também sem provas. Deve ser tudo apenas uma mistura inocente entre estrita meritocracia e esquisitas coincidências.

Outro fato ocorrido no primeiro dia do novo governo é tão grave que não permite qualquer tipo de ironia. O esvaziamento da Funai, ao ser transferida para o Ministério da Agricultura a identificação, delimitação e demarcação de terras indígenas é, provavelmente, a medida mais triste de Bolsonaro até o momento. A expressão “colocar a raposa para cuidar do galinheiro” encaixa à perfeição aqui. No embalo da medida, a terra indígena Arara, no Pará, foi invadida por madeireiros há poucos dias. Essa verdadeira tragédia ambiental, social e cultural pode se tornar corriqueira no próximo período.

Voltemos ao assunto “nomeações técnicas”. Causou furor a escolha do filho do vice-presidente, o general Mourão, para o cargo de assessor especial do novo presidente do Banco do Brasil. Hamilton Mourão, filho do general, teve seu salário triplicado ao assumir o cargo.

A pitoresca deputada Joice Hasselmann (PSL), cuja votação avassaladora em São Paulo foi impulsionada por sua popularidade entre o público de direita na internet, postou, sobre o tema, um tweet do ex-tucano e agora bolsonarista Xico Graziano, no qual este afirma que a espetacular promoção do filho de Mourão é “normal” e que “quem estranha tá de sacanagem”. O post de Joice teve uma enxurrada de comentários. Dê uma olhada no post da deputada clicando aqui. Entre os comentários com maior número de reações há, é claro, as tiradas de sarro de pessoas de esquerda. Também aparecem, contudo, muitos eleitores de Bolsonaro decepcionados. Em outros posts da deputada é fácil encontrar outro tanto de desiludidos com a turma do PSL que prometeu mudar tudo isso daí.

Menciono tal fato porque ele é emblemático de que a correlação de forças começou a mudar. São apenas dez dias de governo e figuras como Joice já sentem na pele a diferença entre ser metralhadora giratória e ser vidraça. Imaginem como estará o capital político de Bolsonaro daqui a alguns meses, após a imparável sucessão de burradas dos integrantes do governo e a probabilíssima ausência de qualquer feito revelante em prol da população.

Uma matéria de ontem do Uol demonstra com acuidade o nível de insanidade do nosso momento político: “Olavo de Carvalho questiona se a Terra orbita o Sol; o que diz a ciência?”

Olavo de Carvalho é o homem que indicou “apenas” os ministros da educação e das relações exteriores. Como disse o Chico Buarque, “Com esses ministros, é preferível que a Cultura não tenha ministério”.

As patacoadas do novo governo continuam sucedendo-se implacavelmente – e não há sinais de que serão interrompidas:

- Um edital para compra de livros didáticos que autorizava citações sem bibliografia, materiais com erros de revisão e a existência de publicidade foi divulgado. O governo recuou após a avalanche de críticas.


- O Brasil saiu do Pacto Global para a Migração da ONU. É irrisório o número de imigrantes que buscam o Brasil como destino; a medida deve prejudicar inúmeros brasileiros que migram para o exterior.

- Bolsonaro falou em diminuição da alíquota máxima do IR e em aumento do IOF. Foi desmentido por Onyx Lorenzoni e pelo secretário da Receita Federal, Marcos Cintra. O presidente deve se abster de fazer novas declarações sobre economia.

- Onyx, ministro da Casa Civil, protagonizou o momento mais cômico do novo governo (até agora). Segundo a coluna Painel, da Folha, as demissões em massa de funcionários considerados “petistas” fizeram com que faltasse gente para tocar pedidos de exoneração e nomeações.

Você consegue imaginar um cenário em que essa mistura esdrúxula de loucura anticomunista/anti-intelectual com ultraliberalismo econômico resulte em algo diferente do caos? Nem eu.

Me parece ser questão de (nem tanto) tempo (assim), portanto, o derretimento da popularidade de Bolsonaro.

E é aí que entra o papel do campo popular. Se fizermos um bom trabalho, a virtualmente inevitável desmoralização do presidente pode ser acompanhada do debacle desse conjunto de ideias e valores conservadores e reacionários que coloca energia em coisas absolutamente ridículas ao mesmo tempo em que escanteia, não por acaso, as questões fulcrais para o país – alguém tem notícia de alguma medida do governo para melhorar o nível de emprego no país, aliás?

Estou no time dos que pensam que é saudável, sim, a avalanche de piadas e memes sobre coisas como o apoteótico anúncio da ministra Damares Alves de que, a partir de agora, meninos vestem azul e meninas vestem rosa. Entretanto, seremos sábios se direcionarmos toda essa criatividade também para temas mais complexos, como reforma da previdência ou o ataque à Justiça do Trabalho. Dá mais trabalho, mas certamente rola.

A irreverência e o humor são armas poderosas na disputa ideológica. Se a política pode ser definida como a arte do convencimento, que sejamos inteligentes e criativos para convencer usando a bizarrice do governo Bolsonaro a nosso favor.

A serenidade e a alegria são os estados internos benéficos que devemos buscar para aproveitar nosso potencial criativo na luta. Mas como, se estamos sob a égide do governo mais boçal da história do Brasil e à beira de uma tragédia social sem precedentes?

Assim ensinam os grandes mestres espirituais da história da humanidade: se dependermos do que acontece externamente a nós, estamos mal arranjados. O externo é caótico, muda o tempo todo e, não raro, pode nos jogar para baixo.

Se aceitarmos a transitoriedade das coisas do mundo, podemos tornarmo-nos cada vez mais capazes de alcançar a serena paz e a sutil alegria que estão sempre disponíveis, dentro de nós mesmos, caso foquemos toda nossa atenção no momento presente. Dica quente para ajudar no processo: meditação.

Assim, lutando uma batalha por vez com tranquilidade, disposição e criatividade, passaremos incólumes (ou quase) por este momento de fortes turbulências e saborearemos a inexorável vitória sobre as trevas. A luta fica mais gostosa se for travada com alegria.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

A síndrome de Pelé



A base ideológica da proibição da reeleição reside numa persistente visão que despreza a capacidade da população reconhecer seus interesses: "o povo não está preparado para votar"

O debate sobre o direito de presidentes, governadores e prefeitos disputarem a reeleição é uma dessas conversas permanentes da política brasileira. Seu horizonte é a improvisação e o preconceito. Periodicamente, tenta-se manipular a reeleição ou a não-reeleição ao sabor das conveniências do momento.

Ao votarem contra a reeleição os deputados assumiram uma escolha irracional e anti-democrática. Em minha opinião, ninguém pode impedir a população de reconduzir ao cargo — pelo voto, em eleições limpas — um governante de seu agrado. Isso não a ver com regras eleitorais, mas com respeito a soberania popular.

Costuma-se dizer que, por causa da reeleição, o Brasil tem uma tradição de maus governos. Por ironia, é um raciocínio extremamente generoso com a quase totalidade de nossos políticos, já que a reeleição é um direito novo em nosso processo político, tendo sido experimentado, pela primeira vez, em 1998.

Será que as dezenas de presidentes, centenas de governadores e milhares de prefeitos que tivemos desde a proclamação da República foram governantes exemplares, cônscios de seus deveres e responsabilidades? Quantos não deixaram o palácio sem deixar saudades? Quantos não foram embora por que o povo queria sua permanência?

Outro problema envolve Luiz Inácio Lula da Silva, o mais popular presidente de nossa história. Lula conservou e ampliou a aprovação popular justamente no segundo mandato. Deixou o Planalto consagrado. Mau exemplo? De que? Para quem?

Na verdade, a lógica contra o direito de disputar uma reeleição é tão primitiva que não resiste a uma segunda reflexão.

Consiste em dizer que o cidadão eleito já inicia o primeiro mandato motivado pela má-intenção de fazer “tudo” para ser eleito uma segunda vez. Falta responder a pergunta oposta. Por que não imaginar que o sujeito que sabe que não pode disputar um segundo mandato “nada” será um preguiçoso que nada fará para conservar e até ampliar o apoio conquistado, condenando o país a uma gestão medíocre?

Uma decisão que retira do eleitor o direito de escolher seus governantes entre os candidatos que achar melhor se apoia numa verdade inconfessável mas real. Estou falando do profundo desprezo pela capacidade da população de reconhecer quais são seus interesses reais e escolher quem está mais preparado para defendê-los.

A certeza de que muito possivelmente a população será levada a fazer escolhas erradas está por trás da visão de que uma regra, elaborada pelo Congresso, deve se sobrepor a seu direito de escolha. O que se está propondo, afinal, é mutilar a soberania popular.

Pode-se votar uma vez — ainda bem, não é mesmo? — mas quem já ocupou determinado cargo não pode permanecer no posto.

O direito de um presidente disputar a reeleição foi estabelecido em 1997, quando Fernando Henrique Cardoso aprovou a emenda que lhe deu o direito de tentar a reeleição. Depois de 1997, todos os presidentes que tentaram a reeleição conseguiram um segundo mandato. Você pode achar, como dizia Pelé sob o regime militar, que o povo não sabe votar.

Ou pode reconhecer que o eleitor costuma fazer a melhor escolha de que é capaz, nas condições dadas no momento em que se dirigiu às urnas.

Surpresas agradáveis e decepções profundas são uma contingente natural dos regimes democráticos, esse sistema que é muito superior a todos os outros exatamente porque, ao contrário das ditaduras, admite com honestidade um grau inevitável de incerteza nas decisões políticas e na maioria das decisões humanas.

O democrata Franklin Roosevelt permaneceu quatro mandatos consecutivos na Casa Branca e é muito provável que, sem ele, a recuperação do país após a Depressão teria sido muito mais prolongada e difícil. Mas é claro que o segundo mandato pode ser menos empolgante do que o primeiro. O começo de Dilma Rousseff, em seus cinco meses de 2015, não guarda a menor relação a fase inicial do primeiro. Mesmo os aliados de FHC estão convencidos de que o primeiro mandato foi bom — e o segundo, muito ruim.

Não por acaso, o cientista político Adam Przeworski, que conheceu de perto os rigores das ditaduras comunistas do Leste, cunhou uma frase insubstituível: “Amas a incerteza e serás um democrata.”

Os países com regimes democráticos mais duradouros aceitam o direito à reeleição e, nos casos da Europa parlamentarista, sequer se debate um limite para o direito de um primeiro-ministro — titular do poder de fato — disputar quantos pleitos conseguir. Margareth Thatcher permaneceu quinze anos no posto. O trabalhista Tony Blair ficou quinze. Na Alemanha, Charles Adenauer foi reeleito quatro vezes, entre 1949 e 1963 e Angela Merkel já completou dez anos no posto. Nos regimes presidencialistas, a reeleição também costuma ser permitida. Depois que Franklin Roosevelt venceu quatro eleições consecutivas, o Congresso norte-americano estabeleceu que um presidente eleito só tem direito a disputar uma reeleição. Na França, a regra aceita dois mandatos consecutivos, também.

Você pode ter uma opinião sobre o desempenho de cada um desses governantes. Pode achar que foram um desastre ou a maravilha de sua época.

Dificilmente irá negar que só conseguiram uma longa permanência em seus respectivos cargos depois de demonstrar que eram bom de serviço — pelo menos, na opinião da parcela da população que lhe deu a vitória na primeira vez.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A situação escandalosa dos professores do Estado de São Paulo



Do professor Silvio Prado

Por que os professores não se revoltam?

Os salários são ofensivos e desrespeitosos. As condições de trabalho são incrivelmente estafantes e detonam o professor já no primeiro semestre. No segundo semestre, o professor busca ânimo em alguma força desconhecida para ver se chega inteiro até dezembro. Ufa, que luta insana!

Sobre a violência que circunda a maioria das escolas estaduais paulistas e explode inclusive dentro da sala de aula, ela é tão escandalosa e rotineira que a imprensa, mesmo sendo tucana e financiada por verbas da FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação), não consegue escondê-la como gostaria o governador Geraldo Alckmin.

Difícil a escola que não tenha professor ou funcionário agredidos fisicamente, pois agressão moral e verbal professores e funcionários sofrem todo o dia. Devido a esse massacre moral, não é por acaso que em São Paulo um número elevado de professores vivem largados à depressão, sem cuidado algum do estado, responsável direto pelo acréscimo desmedido de profissionais doentes.

No riquíssimo estado paulista (204 bilhões de reais é o orçamento de 2015), o caos toma conta do setor mais importante para o desenvolvimento social e econômico do país, a educação.

Nela, encontramos professor com mais de duas décadas de ensino tendo um mínimo de aulas e sob salário miserável, deteriorando suas condições materiais de vida e zerando seu ânimo para trabalhar em sala de aula.

Milhares de outros professores estão na humilhante categoria O, chantageados (e sacaneados) moral e profissionalmente pela politica irresponsável de um governo que em vinte anos mexeu e remexeu na educação e a ela nada acrescentou de positivo.

Aqui na região de Taubaté, Vale do Paraíba, encontramos professores trabalhando em até 4 escolas, recheados de aulas picadas, horários que se chocam, gastos escandalosos com combustível , alimentação, saúde sendo destruída.Alguns outros amargam, da residência ao local de trabalho, entre ida e volta, até 160 quilómetros de distância e ainda são castigados com o pagamento de pedágios, como acontece com quem sai de Taubaté para lecionar no bairro do Cedro, na distante cidade de Paraibuna.

Dentro do quadro macabro desenhado por Mario Covas, José Serra e Geraldo Alckmin encontramos o drama do funcionário adoecido e que não recebe do estado sequer uma aspirina como socorro imediato. Da rotina do professor doente podemos extrair histórias dignas de Kafka. Professores de educação física, com artrose comprovada por laudo médico, obrigados a dar aula como se estivessem em condições físicas ideais. Outros professores doentes, devido ao desmonte do sistema de perícias médicas, viajam 1400 km para serem periciados. Sabe-se de professores comprovadamente destruídos física e moralmente que, depois de gastar o que não tinham nas mãos de médicos particulares, ou de sofrer humilhações permanentes nas filas do IAMSP, mesmo não curados se viram obrigados a voltar para a sala de aula.

Num outro quadro de sofrimento e descaso, São Paulo tem hoje de cinco a dez mil professores com direito a aposentadoria humilhados numa espécie de fila indiana que não se sabe onde começa e nem termina. E a aposentadoria tão sonhada nunca chega para, finalmente, livra-lo do campo minado da escola pública, algo, antes que os tucanos transformassem num pesadelo, era para o magistério um sonho tão bonito.O clima da educação de São Paulo vive marcado pela insegurança, caos administrativo, mão dura implacável do secretário da educação e do governador, queda na qualidade de ensino, escola divorciada dos interesses estratégicos da sociedade, assédio moral adotado como prática administrativa dos negócios do ensino.Tudo isso tem consequências graves, como produção massiva de analfabetos funcionais, um nivelamento cultural primário e o despreparo intelectual e politico da juventude paulista, hoje refém das perniciosas ideias neoliberais assumidas por um Estado que foge de seu papel social transformador e se adequa aos interesses que não são os da população.

Vejam que aqui nem foi tocada na questão da tal FDE, cofre de 3,5 bilhões de reais arrombados faz tempo por inúmeras gangs de engravatados ligadas ao mundo de negociatas tucanas.Compras superfaturadas,reformas de prédios escolares com preços estratosféricos, destruição criminosa de material didático, assinaturas de jornais e revistas (sem o processo de licitação), que dão amparo ideológico ao PSDB e blindam o governo na grande mídia.

Todos esses e mais outros fatos receberam a confirmação do Ministério Público, por investigações de deputados na Assembleia Legislativa e pela imprensa que não tem o bolso preso com os tucanos. Só em Taubaté, o Ministério Público confirmou que o PSDB arrancou 1,7 milhões de reais para financiar a eleição de Ortiz Jr, filho de Bernardo Ortiz, amigo pessoal de Geraldo Alckmin, que até 2013 tinha a chave dos cofres daquela fundação, criada para financiar a educação, mas que...

Olhando de perto a educação de São Paulo não é possível entender porque a grande mídia hoje tem centrado fogo apenas na questão da Petrobras. Se há crimes e estão ocultos naquela poderosa e estratégica estatal, em São Paulo os crimes cometidos contra a educação estão visíveis há 20 anos e não se vê na imprensa denúncias que mostrem a tragédia da escola pública paulista, afetando negativamente 250 mil professores, outros milhares de funcionários, quase cinco milhões de alunos e toda uma população de 40 milhões de habitantes impactados pelo crescimento da violência e criminalidade entre os jovens, fato que pode ser computado ao descaso do governador com a formação da juventude, impossível de ser realizada com uma escola pública intencionalmente funcionando sob frangalhos.

Fala-se tanto em impeachment da presidente Dilma. E o impeachment do médico anestesista (e anestesista social) Geraldo Alckmin, quando é que a grande mídia vai tocar no assunto? Nunca. Afinal fica muito chato investigar os podres de quem lhe enche os cofres e, com tanto dinheiro, coloca um pouco de gás nessa mafiosa organização jornalística que perde a cada dia terreno para a Internet.

Para encerrar, diante de quadro tão desfavorável é sempre bom perguntar: por que as 4500 escolas e os duzentos e cinquenta mil professores paulistas não se revoltam contra tantos desmandos de um governo autoritário, destrutivo e irresponsável?

Silvio Prado

Professor da rede Estadual de Ensino

sábado, 7 de fevereiro de 2015

A falência da Fundação Casa

Em artigo, promotores de Justiça criticam fracasso de gestão do governo de São Paulo no atendimento a menores infratores

É passada a hora de reavaliar as políticas públicas relacionadas aos jovens e adolescentes em conflito com a lei

Inquestionavelmente, as políticas públicas relacionadas aos adolescentes infratores não apresentaram, ao menos no Estado de São Paulo, resultados minimamente satisfatórios. Exemplo típico que confirma esta constatação é a Fundação Casa, responsável pela execução das medidas de internação e semiliberdade. Contanto invista a expressiva quantia aproximada de dez mil reais por mês por cada adolescente, o serviço prestado está maculado por elevados índices de reincidência, superlotação de unidades, frequentes rebeliões, notícias regulares de torturas, e insalubridade das condições de moradia, dentre outras inúmeras deficiências do processo socioeducativo executado pela fundação estatal.

Este é o resultado das recentes apurações do Ministério Público do Estado de São Paulo. Promotores de Justiça de todas as regiões do estado detectaram diversas irregularidades no processo socioeducativo gerido pela Fundação Casa, a que são submetidos mais de dez mil adolescentes. E as graves falhas identificadas induzem a duas conclusões: a entidade não cumpre sua função adequadamente e, consequentemente, o produto do significativo valor despendido pelos cofres públicos é um serviço socioeducativo incompetente.

As provas incontestáveis destes entendimentos são o elevado índice de reincidência (54%, conforme CNJ) e a crescente escalada infracional, suportada e identificada pela sociedade, e que explica, dentre outros fatores, o apoio de mais de 90% da população à redução da maioridade penal. A própria entidade admite que de 2005 a 2013 ocorreu aumento aproximado de 111% nas internações.

As mesmas investigações também apontam para algumas das causas da imprestabilidade do serviço que o Estado está obrigado a fornecer. A principal delas, indubitavelmente, é asuperlotação das unidades, cujo excesso assola, aproximadamente, 91,37% do sistema de internação – o que representa déficit mínimo de 1.470 vagas. Há unidade onde foi identificado o espetacular índice de 158,33% de superlotação - quase três adolescentes/jovens por vaga.

A mantença de um número de adolescentes superior àquele comportado tem três graves consequências diretas: configura flagrante desrespeito aos direitos humanos; prejudica o processo de ressocialização; e permite que outros menores, cuja internação foi decretada pela justiça, sejam colocados imediatamente em liberdade (meio aberto) ante a inexistência de vagas de internação. Sim! É essa a regra do artigo 40, inciso II da Lei 12.594/12. E são inúmeros os casos já constatados.

Outro dos prováveis motivos da improficuidade dos trabalhos da Fundação Casa é o abreviadíssimo período de internação dos infratores. Contando o prazo máximo seja de 3 anos, o Estado de São Paulo – e cuja fundação cabe apresentar relatório sobre o cumprimento da medida socioeducativa –, em média, em apenas sete meses oferece parecer técnico recomendando a desinternação dos adolescentes. O próprio órgão confessa que o período de internação, a depender da sua avaliação, dificilmente supera 232 dias.

Considerando que 90,2% dos internados definitivamente lá estão em razão da prática de atos infracionais graves (roubo, roubo qualificado, latrocínio, homicídio doloso qualificado, e tráfico de drogas), e tendo em vista a elevada reincidência, forçoso concluir que o período de internação atualmente empregado – contanto deva atingir seu fim reeducador com brevidade – é insuficiente para atender sua finalidade. O prematuro parecer de soltura elaborado pela Fundação Casa, e que deveria pautar-se exclusivamente pela aptidão do adolescente de retornar ao convívio social, pode estar sendo influenciado pela superlotação do sistema, e a necessidade ininterrupta de abertura de vagas que dá causa.

É passada a ora de reavaliar as políticas públicas relacionadas aos jovens e adolescentes em conflito com a lei, e a consequente gestão da Fundação Casa, braço do Estado de São Paulo responsável pelos autores dos mais graves atos infracionais. Dentre as medidas a serem adotadas será preciso solucionar, vez por todas, o problema da superlotação, e garantir um processo socioeducativo satisfatório pelo tempo necessário à reeducação dos adolescentes, que apresente à sociedade resultados eficientes e proporcionais ao expressivo investimento feito pelos cofres públicos. É o que o Ministério Público tem buscado, cotidianamente, nas diversas investigações e ações judiciais.

Por: Adriana de Morais, Daniela Hashimoto, Fabio José Bueno, Fabíola Moran Falopa, Marcos de Matos, Oswaldo Barberis, Oswaldo Monteiro, Paula Pruks, Pedro Eduardo de Camargo Elias, Santiago Miguel Nakano Perez, Tiago de Toledo Rodrigues –Promotores de Justiça

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Por que só a Ditadura foi investigada pela CNV?



Como todos já devem saber, em 10 de dezembro de 2014, Dia Internacional dos Direitos Humanos, a Comissão da Verdade, criada pela Lei 12528/2011 e instituída em 16 de maio de 2012 pela Presidenta Dilma, enfim entregou seu relatório final que apura, esclarece, indica as circunstâncias e os autores das graves violações de Direitos Humanos praticadas por agentes do Estado entre 1946 e 1988 (o período entre as duas últimas constituições democráticas brasileiras), com o objetivo de efetivar o direito à memória e a verdade histórica e promover a reconciliação nacional.

A parte final do parágrafo anterior eu retirei do próprio site da CNV, onde você pode acessar o relatório final, mas traduzindo para o bom português, o que a CNV fez foi o seguinte: apontar torturadores, seus apoiadores e suas vítimas, além de sugerir à Justiça as medidas cabíveis para estes crimes.

E aí começou o mimimi…
Por que não investigar os “terroristas da esquerda?”

Veja só que coisa, nobre cidadão de bem: os veículos de mídia que apoiaram o Golpe em 1964 (oi Folha!), ou ganharam “musculatura” durante a Ditadura Militar (oi O Globo!), levantaram a lebre da falta de investigação que aponte os “terroristas”, que inclusive mataram bravos soldados e policiais que estavam a serviço do Brasil.

Mas o que o nobre cidadão – de bem, sempre de bem – precisa saber é que se a gente estudar o período só um pouquinho que seja, vai descobrir que o Brasil não corria o menor risco de ter uma Revolução Comunista. Longe disso!

O Brasil antes do Golpe de 1964 era um país democrático, onde a população elegia seus presidentes, senadores, deputados, governadores etc… por voto direto há algumas décadas, e que não havia condições materiais e logísticas dos “vermelhos” tomarem o Poder no Brasil via luta armada.

Expliquei melhor este ponto no texto onde respondo algumas perguntas sobre o Golpe de 1964. Recomendo fortemente a leitura antes de prosseguirmos por aqui.

Até agora, esse é o único “Golpe Comunista no Brasil” que se tem notícia…

Leu o texto? Beleza, podemos continuar.

Como eu ia dizendo, o Brasil tinha um sistema democrático de governo. Inclusive, contava na época com um presidente que buscava agradar os dois lados, esquerda e direita. É óbvio que quando agradava um lado, o outro reclamava e vice-versa. Mas isto não era motivo para GOLPE e derrubada do presidente.

João Goulart estava governando para um país grande e multi-ideológico. Aliás, isto acontece HOJE com a Dilma. Quem aí não gostou da Katia Abreu no Ministério da Agricultura? Pois é…

Mas voltando ao nosso assunto, mesmo com toda a vaselina do Jango, veio o Golpe em 1964. Caiu o presidente, as eleições foram suspensas, fechou-se o Congresso Nacional, partidos foram colocados na ilegalidade e pessoas passaram a ser perseguidas por terem OPINIÕES diferentes daquele grupo que tomou o Poder.

Agora me responda, “homem de bem”, ONDE ESTÁ O MALDITO RESTABELECIMENTO DA DEMOCRACIA que vocês vivem vomitando para defender o Golpe? Onde está a tal da “Ditabranda” – aliás, expressão de mal-gosto, hein? – no momento em que o AI-5 permitiu o chamado regime de exceção, onde qualquer um podia ser preso a qualquer momento “em nome da ordem”? E estas pessoas passaram a ser torturadas para ceder informações sobre outros “subversivos”.

Vou usar a linha de raciocínio do jornalista Breno Altman, que desenha – ou melhor, explica – de forma mais fácil e direta.

Toda quebra da ordem constitucional, para submeter uma nação à ditadura, estabelece imediatamente o pleno direito de insurgência contra a usurpação antidemocrática.

Adquire lastro ético toda e qualquer forma de ação resistente, contra quaisquer alvos, civis ou militares, que representem o arbítrio.

Ao mesmo tempo, torna-se ilegítimo qualquer julgamento ou ato repressivo, sob regime de exceção, contra aqueles que se levantam, de forma armada ou pacífica, para derrubar a tirania.

Não é por outra razão, por exemplo, que militantes fascistas, na Itália pós-Mussolini, foram levados a juízo, ao contrário dos guerrilheiros que se alçaram contra o despotismo.

Nem sempre este paradigma é respeitado, mas trata-se de uma das mais importantes linhas de corte para identificar a higidez democrática: a violação da soberania popular e das garantias constitucionais universaliza o direito de resistir.

Melhor explicado que isto, impossível, ou seja: os brasileiros que se levantaram contra a Ditadura viviam em uma Democracia. Tiraram este direito com o Golpe. E agora eles tem que sofrer investigação por causa de sua resistência contra esta opressão???

Como dizia um antigo personagem do humorista Jô Soares, “Me tira o tubo!”(*)

Hoje em dia, só pessoas desprovidas de senso democrático apoiam a volta da Ditadura, mas a DEFESA de torturadores e assassinos que causaram este tipo de sofrimento utilizando recursos DO ESTADO para tal fim, é de uma falta de caráter sem igual!

(Quem defende este ponto de vista normalmente são as mesmas pessoas que nos últimos tempos vem chamando petistas e simpatizantes do partido de “bandidos”, só porque eles votam em um governo que deixa a Polícia e a Justiça Federal trabalharem, ao invés de engavetarem os crimes, tendo o próprio governo sofrido “baixas” de seus quadros justamente por estas investigações. Mas isto é outro assunto…)

Repito: o grupo que tomou o Poder em 1964 utilizou as estruturas do Estado para torturar e matar pessoas apenas porque estas pensavam diferente da “ordem” vigente! Um exemplo clássico foi citado em nosso texto sobre a música brasileira nas décadas de 1960 e 1970: o escritor Paulo Coelho ficou preso um mês porque estava andando na rua usando uma camisa da seleção de futebol do Paraguai. O delegado achou aquilo um insulto à pátria. E ele deve ter levado alguns cascudos por isso. Era a regra!

Puxando para os dias atuais, onde tem uma pequena horda de desmiolados pedindo a volta da Ditadura, se é este tipo de liberdade que merece ser tolhida da população porque o Brasil está virando um país “comunista” (pausa para rir, por favor), dá logo minha passagem para Cuba, ou para o Uruguai!

Termino o texto com a linha de raciocínio do escritor Luis Fernando Veríssimo em seurecente texto sobre este assunto



Um último apelo: menos pensamento irracional, gente. Por favor. E mais livros de História!

Senão, daqui a pouco vai ter gente falando pra SUA MÃE que não a estupra “porque ela não merece”… não, péra…
Notas:

(*) é, eu sei, eu coloquei justamente este personagem do Jô Soares de propósito. Quem conhece sabe o porquê… rsrs

- O desenho-crítica que abre o post é do genial Benett.

domingo, 30 de novembro de 2014

Procura-se um amor que goste de chupar



Publicado no site Casal Sem Vergonha. A autora é a blogueira Laís Montagnana.


Não precisa ligar no dia seguinte. Muito menos se oferecer pra pagar a conta. Não precisa tecer elogios inéditos. Nem abrir a porta do carro. Não precisa ser do tipo que manda mensagens de “bom dia”. Não precisa ter decorado todas as regras do novo acordo ortográfico. Nem saber fazer combinações satifatórias com suas peças de roupa. Não precisa amar o Bukowski. Nem o Chico. Ou o Caetano. Não precisa nem ter visto o meu top3 de séries indispénsaveis pra se viver. Não precisa preferir drama à ação. Nem gostar mais de Jameson que de Jack. Ou achar Beatles melhor que Stones. Tenho apenas uma condição. Só almejo uma peculiaridade. Minha única e mais urgente exigência é por um cara que goste de chupar. É isso mesmo que você leu: LAMBER-VAGINAS. Pode pendurar aí a plaquinha de “procura-se um amor que goste de chupar pepecas”.

Engana-se quem acha que esse meu pedido é singelo. Sim, homens adoram sexo oral. Mas só receber porque, na hora de oferecer, a coisa, ou melhor, os números mudam: uma pesquisa recente afirma que de um total de 1.252 homens heterossexuais, 78% recebe sexo oral frequentemente, mas quase a metade, 43% deles, não o pratica de volta. Ficou chocada? Pois ainda não terminou: dos caras que praticam, 1/3 tem nojo de fazer sexo oral na sua parceira. Ou seja, mesmo dentre os que fazem sexo oral, 35% diz que só o fazem porque têm “medo de ser considerado gay”, “medo de ser traído”, “porque tô com tesão e não penso na hora”, “porque amo minha parceira”, “para dar prazer a ela” e “para retribuir”. E isso me leva a uma terrível indagação. Caras que não chupam: onde vivem? De que se alimentam? Por que existem? De onde vem esse nojinho? Como lidar?

Acredito que essa atitude perante às nossas digníssimas vaginas só pode ter uma explicação: egoísmo ou nojinho. E sentir nojinho de buceta é misoginia. Não adianta vir me dizer que é uma questão de gosto ou que eu tô cagando regra porque esse é um assunto que atinge diretamente a vida sexual feminina. Há muitas mulheres que nunca tiveram um orgasmo na vida porque não conhecem o próprio corpo. E por que elas não se conhecem? Porque existem esse monte de estigmas sobre o órgão sexual feminino. A vagina sempre foi demonizada, somos ensinadas desde criança que ela é algo vergonhoso, o que leva muitas mulheres a sentir repúdio e nojo de si mesmas. A indústria pornô também pesa nessa realidade porque fortalece um modelo padrão de vaginas desprovídas de um único pelo. O cheiro, o gosto, a umidade, os pelos e a aparência da vagina são padronizados, plastificados, camuflados e adquirem a única função de satisfazer seu parceiro britadeira humana – e dificilmente ser saciada.

Resolvei adotar uma decisão bêbada para o resto da vida sóbria: NÃO CHUPADORES NÃO PASSARÃO! Quando tive esse lampejo de consciência, para provar meu compromisso com a causa, imediatamente deletei do whatsapp um PA que não cumpria o requisito. Até tinha cogitado continuar com o cara, mesmo com esse empecilho, afinal ele era gostosinho e mandava bem apesar dos pesares. Pensei em tratar na mesma moeda: já que você não me chupa, também não vou te chupar. Só que acontece que eu realmente gosto de cair de boca no que eu deveria retaliar. Cheguei à conclusão de que não seria justo. Não é legal pregar o revanchismo no sexo, porque o sexo representa justamente o avesso disso. Sexo é harmonia. É um momento em que não há separatismos, e sim comunhão de corpos. É chupar cada centímetro do corpo alheio e ser retribuído, é lamber cu, chupar buceta, levar tapa, levar dedada, dar tapa, gozar na cara, deixar ser gozado, amarrado, mordido, sentado, dominado. É sentir prazer em provocar prazer no outro. Sem censuras, sem inibições e sem nojinhos. Não rola dar pra quem tem nojo de uma parte minha tão importante. Quem ama, chupa.

domingo, 23 de novembro de 2014

60 anos depois, cerco a Dilma lembra Getúlio


Por Ricardo Kotscho, no blog Balaio do Kotscho:


Se a presidente Dilma Rousseff já terminou de ler o último volume da trilogia de Lira Neto sobre Getúlio Vargas, editado pela Companhia das Letras, deve ter bons motivos para ficar preocupada nesta entressafra entre o seu primeiro e o segundo governo.

Talvez isso explique a indecisão dela para anunciar os integrantes da nova equipe econômica, como demonstrou a dança de nomes cogitados para o Ministério da Fazenda nesta semana que chega ao fim, mantendo o suspense no ar.

Era este o livro que a presidente carregava na mão ao descer do helicóptero no Alvorada, quando retornou a Brasília, depois de alguns dias de folga numa praia da Bahia, logo após sua vitória apertada na eleição de 26 outubro.

É neste terceiro volume que o brilhante jornalista cearense Lira Neto mostra o cerco formado por forças civis, militares e midiáticas contra Getúlio Vargas, que começou antes da sua posse, e botou fogo no país, na segunda metade do seu governo constitucional (1951-1954), levando-o a se matar com um tiro no peito. 

Dilma não é Getúlio, eu sei, o Brasil e o mundo não são os mesmos de 60 anos atrás, mas há muitas circunstâncias e personagens bem semelhantes nestes distintos períodos da vida nacional.

Não por acaso, o nome de Carlos Lacerda, o comandante em chefe da guerra contra Getúlio, nunca foi tão lembrado numa campanha eleitoral como nesta última.

Pintado pelos adversários como "O Corvo", com muita propriedade, Lacerda ressuscitou nos discursos e nas manifestações contra a reeleição de Dilma Rousseff, durante e após a campanha de 2014, que mobilizou os setores mais conservadores do empresariado e da imprensa, a serviço de múltiplos interesses estrangeiros, exatamente como aconteceu na tragédia de 1954.

Não por acaso, também, um dos principais focos da campanha contra o então presidente da República era a Petrobras, por ele criada sob controle estatal, após longa batalha no Congresso Nacional.

O papel que era da UDN (União Democrática Nacional) de Carlos Lacerda foi agora alegremente assumido pela aliança da oposição liderada por PSDB-DEM-PPS, que trouxe de volta, com Aécio Neves, até o mote do "mar de lama", para atacar a presidente, o PT e a Petrobras, a bordo do discurso sobre o "maior escândalo de corrupção da nossa história".

Extinta pela mesma ditadura militar-cívico-midiática de 1964, que ajudou a implantar, dez anos após a morte de Getúlio, a UDN voltou às ruas de São Paulo no último dia 15 de novembro, pedindo o impeachment de Dilma e a volta dos mesmos golpistas ao poder, empunhando as mesmas bandeiras de sempre, contra a corrupção e a inflação.

Foi neste dia comemorativo da Proclamação da República que, em Roma, no café Ponte e Parione, ao lado da Piazza Navona, terminei de ler o livro de Lira Neto e, embora tendo diante de mim algumas fas imagens mais bonitas do mundo, não conseguia deixar de pensar no que estava acontecendo no nosso Brasil naquele preciso momento. Passado e presente se confundiam na minha cabeça e confesso que fiquei deveras impressionado com tantas coincidências.

A grande diferença é que, agora, os militares estão recolhidos às suas tarefas constitucionais, e não dão o menor sinal de apoio aos Bolsonaros da vida, que reencarnaram Carlos Lacerda na avenida Paulista. Além disso, o país não está paralisado por greves orquestradas para encurralar Getúlio pela esquerda e pela direita. E, pelos menos até aonde a minha vista alcança, não há tropas americanas se mobilizando para apoiar qualquer movimento contra a democracia que vigora forte em terras brasileiras.

A história costuma dar muitas voltas para voltar ao mesmo lugar, mas não precisa ter necessariamente os mesmos desfechos. Fiz algumas anotações sobre o que têm em comum estes momentos conturbados, separados por seis décadas:

* Os jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, então alguns dos protagonistas da ofensiva da mídia armada contra Getúlio, continuam os mesmos, nas mãos das mesmas famílias, a desafiar o resultado das urnas e a vontade da maioria _ simplesmente, não aceitam mais um período do PT no Palácio do Planalto, completando, ao final do mandato de Dilma, 16 anos no poder.

* A TV Tupi, primeira e única emissora de televisão brasileira nos tempos de Getúlio, que abriu câmeras e microfones para Carlos Lacerda detonar o presidente e seu governo todas as noites, ao vivo, em horário nobre, teve o mesmo destino da UDN e fechou as portas faz tempo, mas os métodos dos Diários Associados de Assis Chateaubriand sobrevivem em outros veículos do grupo, como o jornal O Estado de Minas mostrou na campanha passada. Com maior ou menor sutileza, outras emissoras de TV, a começar pela toda poderosa Globo, que dominaram o mercado após o golpe de 1964, cumprem mais ou menos o mesmo papel nos governos petistas.

* A revista semanal Veja e seus escribas alucinados reproduzem os melhores momentos da Tribuna da Imprensa, criada e comandada por Lacerda, que foi o porta-voz oficial e amalgamou as forças reunidas para a derrubada de Vargas.

* A flácida base parlamentar montada por Getúlio em tudo lembra a de Dilma, embora ambos tivessem maioria no Congresso Nacional, balançando entre contemplar direita e esquerda em seus ministérios, para se equilibrar no centro, provocando assim sucessivas crises políticas e econômicas.

* O PT de Dilma e Lula, com todas as suas contradições e divisões internas, está cada vez mais parecido com o PTB de Getúlio, com o PMDB agora no lugar do velho PSD das oligarquias regionais.

A lista do que há em comum é grande, e eu poderia passar o resto do dia aqui escrevendo sobre isso. Antes de concluir este texto, porém, é necessário registrar outra grande diferença: ao contrário de Getúlio, que tinha a Última Hora, de Samuel Wainer, a seu lado, Dilma não conta com a boa vontade de nenhum veículo da grande imprensa para mostrar e defender as conquistas do seu governo, que também existem.

Dizem que a história só se repete como farsa, mas é bom Dilma tomar cuidado. Recomendo a leitura desta bela obra do Lira Neto, não para assustar ninguém, mas para vocês entenderem melhor o que está em jogo, agora como em 1954. Foi o que aconteceu comigo.

Que Dilma e nós tenhamos melhor sorte.