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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Do outro lado da folha


Gregorio Duvivier

Um dos baratos da Folha é que ela tem muitas folhas, e cada folha tem muitos lados. Toda semana, do outro lado da folha, um filósofo diz o oposto —diametral— do que eu digo do lado de cá (se você colocar a coluna contra o Sol, consegue ler o que ele diz, mas não tente fazer isso no on-line).
Às vezes, ele alfineta: "As mulheres não gostam dos homens de direita e preferem os esquerdistas. É muito difícil para um homem de direita pegar mulher".

Em primeiro lugar, isso não é verdade. Existe a direita-pegadora, a direita-cafajeste, a direita-thug-life. Berlusconi coleciona amantes mundo afora. Sarkozy se casou com a mulher mais estonteante do planeta. Aécio personifica a direita festiva —é o rei do camarote e do Leblon. Vamos ser sinceros: talvez não seja dos homens de direita que as mulheres não gostam. Talvez —hipótese— seja de você. 

Não sei se isso serve de consolo, mas, lendo sua coluna, tenho a impressão de que você também parece não gostar delas. Será que não é por isso? Sim, talvez não seja por causa da careca, nem do cachimbo. As pessoas têm essa mania estranhíssima: parecem não gostar de ser maltratadas. E o conjunto "pessoas" (pasme!) inclui o conjunto "mulheres". Tem mulheres que gostam de apanhar, é claro. Assim como tem homens que gostam também.

E essa é a novidade pavorosa. Homens e mulheres são bastante parecidos. Mas há uma diferença anatômica! Um piu-piu é muito diferente de uma pepeca! Pois há mulheres que nascem com piu-piu e homens que nascem com pepeca, e há inclusive quem nasça com piu-piu e pepeca, e há quem mude de piu-piu para pepeca, e vice-versa, e cada um é o que for independente do formato da jeba, ou da racha.

Se já não é a saia que define a mulher, professor, e nem o que elas têm debaixo dela, o que é que une essa classe imensa de pessoas a que chamamos de "mulher"? Nada. A não ser, talvez, o fato de que elas não gostam de ser tratadas como se fossem uma pessoa só.

Resumindo: ser liberal não é o problema. O problema é ser misógino. Não estou certo de que todo liberal partilhe dos seus preconceitos. Quando o senhor destila machismos como se fossem de direita, pega um pouco mal para direita. Há muitas direitas, o senhor deve saber. Há, inclusive, mulheres na direita. Muitas delas (pasme!) são economistas. Sim, hoje em dia elas pensam por conta própria. Algumas inclusive (dizem) são feministas E de direita. Uou! "Mindfuck."

E há, também, muitas esquerdas. E a esquerda que o senhor diz que pega mulher —aborteira, maconheira, festiva— representa uma parcela muito pequena da esquerda hoje em dia —infelizmente. A ""esquerda"" (pode contar, pus oito aspas) que está no poder —corrupta, reacionária, populista— só quer saber de se perpetuar no poder.

Seu conceito de esquerda está ultrapassado. Seu conceito de mulher está ultrapassado. Seu cachimbo também, mas ele é legal.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Ao calar o Faustão, Marieta Severo deve ser a próxima global a receber ameaça de morte


Por Kiko Nogueira

O próximo empregado da Globo a sofrer ameaça de morte, depois de Jô Soares, será Marieta Severo. Pode anotar. Marieta foi ao programa do Faustão, uma das maiores excrescências da televisão mundial desde a era paleozóica.

Fausto Silva estava fazendo mais uma daquelas homenagens picaretas que servem, na verdade, para promover um programa da emissora. Os artistas vão até lá por obrigação contratual, não porque gostem, embora todos sorriam obsequiosamente. O apresentador insiste que são “grandes figuras humanas”.

Ele se tornou uma espécie de papagaio do que lê e vê em revistas e telejornais, tecendo comentários sem noção sobre política. Em geral, dá liga quando está com uma descerebrada como, digamos, Suzana Vieira ou um genérico de Toni Ramos.

Quando aparece alguém um pouco mais inteligente, porém, ele se complica. Faustão anda tão enlouquecido em sua cavalgada que não lembrou, talvez, de quem se tratava. Começou com aquela conversa mole sobre o Brasil não ter “estrutura”. A única coisa organizada aqui é o crime, em sua opinião. Somos “o país da desesperança”.

Ela discordou com classe: “Não, eu sou sempre otimista”. O país caminhou muito, falou. “Pra mim, tem uma coisa muito importante: a inclusão social, a luta contra a desigualdade. A gente teve muito isso nos últimos anos. Estamos numa crise, mas vamos sair dela”. Ainda criticou os evangélicos. “Nada contra religião. Só não quero uma legislando a minha vida”, afirmou.

Recentemente, Marieta, que está no papel principal de uma nova série, deu uma longa entrevista no Globo. Se confessou chocada com o que chamou de retrocesso nas conquistas de sua geração (ela tem 68 anos).

“Sou contra a redução da maioridade penal e contra muita coisa que está em evidência e que, para a minha geração, é chocante”, disse a ex-mulher de Chico Buarque. “Eu sou da década de 1960, do feminismo, da liberdade sexual, das igualdades todas”.

Não é preciso dizer que a entrevista no Faustão não foi muito além do script. Marieta deu um recado importante no mesmo dia em que Mantega foi novamente hostilizado num restaurante de São Paulo.

Nas redes sociais, os suspeitos de sempre a enxovalhavam por ter “defendido o PT” (ela não falou no nome do partido). Uma medida sensata seria MS contratar um guarda-costas daqui por diante — inclusive para circular no Projac.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A ditadura do corpo ideal e o preconceito velado

Texto de Amanda Nunes - Blogueiras Feministas


“Com a estética, o sujeito entra em uma relação sensível com o mundo que se diferencia conscientemente da natureza objetiva concebida a partir da revolução copernicana. A subjetividade torna-se então, por meio do sentimento representado, o fundamento de uma presença estética de uma natureza”. Rolf Kuhn¹.

A palavra estética refere-se à cognição pelos sentidos, ou seja, a “compreensão pelos sentidos”. É um ramo da filosofia que perpassa e ultrapassa o campo visual já que compreende um conjunto de sensações que refletem a percepção da beleza. Além das avaliações e julgamentos do que é o belo, contempla-se também a emoção que ela suscita nos seres humanos. Essa concepção está presente especialmente na arte, mas diz respeito a toda a natureza. Dessa forma, infere-se uma questão: “o que é a beleza?” e com ela, o chavão de que gosto não se discute.

É claro que não se pode definir objetivamente a beleza, visto que ela não é uma propriedade imutável que se atribui ou não aos objetos, mas uma sensação própria do sujeito que a percebe, ajustada aos seus valores pessoais, ainda que tais valores estejam inevitavelmente subordinados aos valores culturais e histórico-sociais de determinada sociedade em dado tempo histórico. A beleza é relativa, não há como negar, mas essa relativização é profundamente ofuscada pela busca de uma essência ideal, um padrão de beleza.

As transformações dos padrões de beleza do corpo feminino ao longo do tempo marcaram a evolução de diferentes visões sociais acerca do modelo estético que deveria ser incorporado pelas mulheres. A forma como as mulheres eram retratadas no período colonial, por exemplo, distancia-se bastante do modelo buscado atualmente. Além desse processo corrente, isso evidencia também que os padrões são produtos de uma cultura.

Ideal de beleza ao longo do tempo

O corpo da mulher durante o período colonial era tido como dentro dos padrões de beleza ao apresentar um aspecto saudável, simbolizado pela aparência rechonchuda, ou seja, quanto mais gorda a mulher fosse, mais bonita ela era considerada, isso porque o perfil untuoso do corpo remetia a um corpo bem nutrido e ao seu volume era atribuída uma visão de saúde e vigor. Já durante a antiguidade clássica, o ideal grego da beleza era outro, com base em uma construção intelectual artística, os gregos valiam-se da perfeição e equilíbrio das formas, bem como a harmonia e a proporcionalidade de todas as medidas, é quando surge o nu feminino e a valorização do movimento. Para a antiga sociedade Egípcia, a juventude era muito valorizada bem como o corpo esbelto e os traços finos e alongados.

Durante o século XIX, a forma mais avantajada ganha destaque novamente na classe da burguesia, mulheres gordas e de semblantes corados remetiam a riqueza e ostentação. Com a revolução industrial esse modelo estético foi resgatado do período renascentista, o uso de espartilhos também estava presente com força nessa época, e as mulheres os utilizavam cada vez mais apertados. O século XX recupera o ideal de boa forma, marcado, entre outros, pela emancipação feminina.

Após o fim da segunda guerra, o corpo feminino curvilíneo, valorizando quadris e seios ganha ênfase. A mulher dos anos 50 é mais sofisticada, adornada e a beleza é de grande importância e preocupação social, bem como o uso de joias, cosméticos, salto alto, tintura para cabelo, entre outros assessórios. Os anos 60 foram marcados pelos movimentos de contracultura e o movimento hippie foi o precursor dos novos perfis que surgiram na época, tais como o modelo estético, que valorizou um corpo de aspecto adolescente, sem muitas curvas. Com a consolidação do movimento hippie, nos anos 70, os cabelos eram longos, crespos e armados, maquiagem forte nos olhos e muito blush no rosto. Enquanto os anos 80 pregaram o exagero, um estilo de extravagâncias e excessos, os anos 90 trouxeram a naturalidade, a simplicidade.

Durante a década de 90 e inicio dos anos 2000, a ditadura da magreza parece se tornar mais hegemônica, talvez como consequência da expansão da comunicação e da imagem como símbolo. Ser magra torna-se uma verdadeira obsessão, mulheres altas e magras consagram o novo modelo estético. Alcançar esse padrão torna-se um esforço com a utilização de dietas malucas e a busca cada vez mais árdua pelo corpo “ideal”, a bulimia e a anorexia passam a ser frequentes.

Atualmente, o padrão de beleza feminino estampado nas imagens midiáticas é: corpo magro, malhado, seios grandes, bumbum perfeito, pernas torneadas e barriga chapada. Em nome desse corpo ideal, as academias estão lotadas e as cirurgias plásticas para colocar silicone e lipoaspirações são cada vez mais comuns.

Baixa, gorda e linda?
Barbie Plus Size, criada em 2011 pelo artista Bakalia para o worth1000.com, um site onde há concursos diários de criação de imagens.

Desde sempre existe essa pressão social em cima das mulheres e seus corpos. Em todos os lugares é possível captar essa imposição e padronização inexplicável que se faz do corpo feminino, nas revistas, nos outdoors, nas propagandas, nos filmes, nas novelas, nas passarelas. Sempre encontramos mulheres com corpos “perfeitos” ou o famoso ‘corpo violão’, corpo esse que é símbolo de saúde, de sensualidade, de beleza, tido como único que atrai e que é aceito. Esses paradigmas ditam muito mais do que como deve ser o corpo feminino como também a roupa que combina com qual tipo de corpo, o sapato, o corte de cabelo adequado para as altas, para as baixas… A questão é: por que ser baixa, gorda ou não ter um corpo violão faz você não ser considerada uma mulher linda?

Você não vai encontrar uma mulher de estatura mediana, com alguns quilinhos a mais em um desfile de moda ou estampada em outdoors usando um biquíni, mas por que isso? A maioria das mulheres não são como os padrões ditam, muito pelo contrário, mas ainda assim um modelo estético adotado pela minoria é considerado padrão, por quê? Por que não fazem desfiles com mulheres reais? As mulheres vêm em todas as formas e tamanhos, são diferentes, lindas de formas diversas, não há motivo nenhum para mudarem seus corpos ou seus estilos para se adaptarem a um padrão que nem ao menos faz sentido.

“Há uma corrente de teóricos que acreditam que, com tantos avanços femininos, a ditadura do corpo ideal é uma forma de ainda deter a mulher. E faz sentido, já que a maior parte acaba cedendo à pressão”, afirma a psicóloga Marjorie Vicente em matéria do portal UOL. O cinema, a TV e a publicidade não enxergam a mulher gorda como qualquer outra, não exploram sua personalidade sem levar em consideração o físico ou apelar para o humor. A mídia age como se ser gorda não fosse o natural (não somente gorda, como ser baixinha, ter um corpo sem curvas ou uma deficiência física). O mercado é cruel com quem está fora dos padrões e a sociedade também.

Em uma matéria feita na revista Marie Claire, chamada: “Por que o mundo odeia as gordas”; uma pesquisa realizada com as leitoras da revista revela dados estatísticos que evidenciam o preconceito. Das respostas, 66% admitiram já ter feito um comentário maldoso ao ver uma mulher gorda usando biquíni; 58% já se sentiram secretamente felizes porque a ‘ex’ do namorado engordou muito; 52% acham que é pior engordar 15 quilos do que reduzir o salário em 30%; 37% ficam incomodadas vendo uma mulher gorda comer hambúrguer com batatas fritas; 36% não iriam a um médico de regime que fosse gordo; 21% acreditam que as gordas são preguiçosas; 21% imaginam que, se um bonitão está com uma mulher gorda, é porque existem outros interesses; 18% dizem que uma pessoa muito gorda deveria pagar por dois assentos nos aviões.

As mulheres gordas sofrem discriminação diariamente, nos mais simples eventos cotidianos. Quantas vezes já não ouvimos alguém dizer: “ela é linda de rosto” ou “ela é bonita, mas é gorda” ou ainda: “se emagrecesse ficaria linda”. Por que uma mulher não pode ser linda sendo gorda? Por que ser gorda não é natural? Por que estar fora dos padrões não é bonito? A sociedade está alienada, não consegue abrir a mente e ver que a mulher não precisa seguir padrões para ser considerada bonita. Ser gorda não impede uma mulher de ser linda e atraente, mas a mulher gorda sofre extremamente com tal realidade, desde a dificuldade que enfrenta para encontrar roupas no seu tamanho até a competição com uma magra por um emprego. É vergonhoso e infeliz o quão cruel a sociedade pode ser com quem foge aos padrões de beleza. Todos os dias, diferentes mulheres que não se encaixam nos padrões, sofrem preconceitos, são vitimas de insultos e levam desvantagem somente por não estarem na “medida certa”.

Em 2011, o artista Bakalia criou uma Barbie plus size. Muitas marcas de roupas e revistas aderiram ao polêmico modelo plus size, lançando campanhas com modelos gordinhas e criando roupas especiais para a maioria das mulheres. Essa inovação gerou controvérsias e muitas pessoas rejeitaram a criação de Bakalia, a Barbie gordinha não agradou todo mundo e recebeu duras criticas, tais quais: “ninguém é gordo naturalmente, isso mandaria uma mensagem para as meninas de que é OK não ser saudável”;“Barbie não precisa de queixo duplo. Você pode ser plus size sem ter esse queixo”; “nem gorda, nem muito magra, por uma Barbie saudável”. É um grande equivoco achar que “só é gorda quem quer”, emagrecer é um processo que depende de cada organismo e de outros fatores externos que influenciam. Ser magra não significa ter um ótimo atestado de saúde.

As mulheres são diferentes, podem ser altas, baixas, gordas, magras, de todas as formas e tamanhos e não há nada de errado em fugir do padrão, assim como segui-lo. Toda mulher deveria simplesmente amar seu corpo. A beleza é tão somente uma contemplação subjetiva e relativa, não deveria ser enquadrada em padrões que excluem e discriminam. Pode ser clichê, mas é legítimo: bonita é ser você.

Referência
¹ KUHN, Rolf. Em: HUISMAN, Denis (dir.). Dicionário dos filósofos. 2 v. São Paulo: Martins Fontes, 2001.p. 123

Autora
Amanda Nunes é estudante de comunicação social, apaixonada por livros, música e cinema. E, feminista, claro.

Via:http://mariadapenhaneles.blogspot.com.br/

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

E quem vai me pedir desculpas?



Texto de Jamil Cabral Sierra.

No futebol brasileiro (1) é assim: jogador pede desculpa por dar selinho no amigo, jogador pede desculpa por sair com pessoas trans*, jogador pede desculpas por dar pinta em campo. Agora, pedir desculpa por inflar a homofobia, por espalhar a transfobia, por reiterar o machismo e o (cis)sexismo nenhum desses jogadores vem a público se desculpar.

Lembro-me, até hoje, como eram sacrificantes para mim as aulas de Educação Física (2) na escola, especialmente quando, nessas aulas, eu era obrigado, por imposição de docentes, a jogar futebol. Me sentia tão humilhado e fracassado nessas aulas que a única coisa que eu queria era sumir da escola e das aulas de Educação Física e nunca mais voltar. Essa violência a que eu era submetido cotidianamente materializava-se por caminhos cruéis e, evidentemente, promotores de exclusão. Mesmo que, à época, eu me apresentasse socialmente como um garoto branco, cis, de classe média e bom nos estudos eu não tinha garantia alguma de que tais privilégios fossem suficientes para me salvar das ofensas que pululavam da cabeça de coleguinhas adolescentes que se achavam mais homens do que eu por terem sido treinados a chutar a bola – e a chutar, consequentemente, toda a diferença que incomodavam a norma para fora da quadra. E por que tais privilégios não eram suficientes para garantir minha paz em campo? Eu era branco como eles, eu me vestia como como eles, eu tinha uma bola Topper como a deles, eu tinha pinto como eles… mas eu era gay e eles não. Isso bastava para que me colocassem em uma determinada categoria identitária desprezada e, com isso, me enquadrassem no campo da anormalidade, revogando-se, assim, todo e qualquer direito que, supostamente, eu poderia acessar. Meu único direito era o de ser escolhido por último para o time.

Minha gueizidade me fazia querer experimentar o corpo de outras formas, me lançava na experimentação do físico muito menos para me afirmar como homem e muito mais para, no contato com outros corpos, inventar relações das quais eu pudesse extrair algum tipo de prazer. Como não via ali, no futebol, nada que pudesse me dar prazer, eu não fazia. Acolhia-me, junto às meninas, na mesa de ping-pong, na amarelinha, no pega-pega. Com elas, ao menos, experimentava certa afetividade e contato corporal que me satisfaziam. Em vista disso, as aulas de Educação Física se constituíam, para mim, apenas como um lugar em que se processavam, no interior da escola, as mesmas violências com as quais eu era obrigado a lidar fora dela, o que significava que eu não estava seguro em lugar algum: nem na rua, nem na escola; nem no campinho do vizinho, nem na quadra do colégio.

Foto de Cesinha Marin no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Evidentemente que na época eu não conseguia perceber, de forma mais analítica, o quanto eu era violentado por meio do esporte, em especial, pelo futebol. Não reconhecia, obviamente, como o futebol se convertia numa tecnologia que além de operar a fabricação dos gêneros operava, também, como diz Foucault (3), o governo de corpos de modo a conduzir a conduta daqueles moleques todos em direção à heteronormatividade, à cissexualidade, ajudando a construir, assim, o machismo e o (cis)sexismo que, no futuro, seriam seus comparsas em campo e fora dele. Não era capaz de enxergar que o culpado não era eu. Não via, ao contrário, que eu era a vítima de todos eles que me imputavam rótulos e me perseguiam feito gafanhotos. Não conseguia perceber que não gostar de futebol não era um problema intrinsicamente meu, que não era uma obrigação minha – por ter sido designado como menino ao nascer, compulsória e naturalmente, como uma inscrição em meu DNA – saber dar dribles e acertar o gol. A adolescência é, de fato, cruel com a gente, não é?

Por tudo isso, não se enganem. O futebol, como vários outros esportes, é uma maquinaria disposta a fabricar gêneros, a reforçar os lugares do feminino e do masculino, a reiterar performatividades hegemônicas, engendrando formas de violência e exclusão. O campo de futebol, lugar em que se reitera o dispositivo da sexualidade, como descreveu Foucault (4), publiciza uma noção de masculinidade que ignora as múltiplas vivências masculinas, que invisibiliza outros modos viver o corpo-homem, que subjulga e ignora as masculinidades trans*. O campo de futebol, como lugar em que se produz o macho-atacante, em que se negociam as formas de ser e parecer homem de verdade, em que se refratam gritos e gestos de intimidação tão tipicamente preconceituosos se transforma em um lócus privilegiado de produção do machismo e do (cis)sexismo que vemos por aí. O torcedor ou o jogador que entre as quatro linhas ofende o juiz chamando-lhe de “filho da puta” e zoa com o adversário chamando-lhe de “viado” é feito, em grande parte das vezes, do mesmo amalgama do homem que, ao chegar em casa, depois de ver o jogo da arquibancada, bate na esposa e achincalha o filho gay por não ter ido ao estádio com ele participar desse espetáculo homofóbico e machista.

Por isso, não adianta dar selinho no amigo para fazer média com a opinião pública, se depois vai ter que pedir para torcida do time desculpas pela “tamanha obscenidade” praticada. O que acontece hoje nos campos de futebol não é diferente das mesmas violências que praticavam os meus colegas nas aulas de Educação Física. Pessoas, inclusive, que me devem, até hoje, um pedido de desculpas.

Notas e Referências

(1) Falo aqui especialmente do futebol masculino, aquele jogado por homens cis e, em sua grande maioria, héteros. Não falo do futebol feminino, por achar que nessa modalidade há algumas especificidades que o diferem, inclusive em termos de reprodução da lógica machista, do futebol masculino.

(2) Evidentemente que falo aqui de uma experiência de aulas de Educação Física muito particular e pessoal, fruto do meu processo de escolarização em uma cidade muito pequena, do interior do Paraná, entre os anos de 1980 e 1990. Lógico que talvez há, hoje, outras possibilidades de experienciação do corpo nas aulas de Educação Física mais dissociadas dos processos de heteronormatividade pelos quais eu passei.

(3) FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

(4) FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber. V. 1. 14 ed. Rio de Janeiro: Graal, 2001.

Jamil Cabral Sierra é professor da UFPR, pesquisador na área de Gênero e Diversidade Sexual e, como não canto, não danço, não atuo, não toco nenhum instrumento, não pinto… nem bordo (só às vezes), não desenho e não esculpo, resta apenas inventar-me na/pela escrita. Uso os caracteres como arma de guerrilha.

Via:http://mariadapenhaneles.blogspot.com.br/

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Te quero, mas não te assumo

Por Silvia Nascimento para as Blogueiras Negras

A classe C compõe 54% da população brasileira. Estima-se que nos últimos anos, mais de 23milhões de pessoas saíram da classe D e E para integrar grupo que se tornou condutor da locomotiva do crescimento do país. Números do instituto de pesquisa Data Popular apontam que a classe C movimenta R$ 1 trilhão por ano na economia nacional. Esse parcela é formada em sua maioria por negros, mulheres e jovens. “Colocar negros na comunicação tem a ver com um mercado de R$ 720 bilhões”, assegura o sócio-diretor do instituto Renato Meirelles.

Fazer ações de marketing que dê visibilidade a este nicho de mercado, não é uma questão de responsabilidade social, muito menos de reconhecimento da diversidade, ou altruísmo, trata-se de uma questão de sobrevivência. O mercado de cosmético demorou mas despertou para atender este público que dá valor ao seu dinheiro e exige qualidade. A partir deste panorama econômico vamos refletir: será que o investimento na fabricação de produtos para este público, também passa pelo esforço em retratar esses novos consumidores em suas campanhas publicitárias, sejam elas impressas, pela TV, pontos de venda ou Internet? Negativo.

Para O Boticário, ela é invisível

O Boticário, empresa que completou 34 anos em 2013, com mais de 3 mil lojas espalhadas no Brasil e que reconhece a diversidade nos tons de pele da brasileira, por meio da generosa gama de cores da sua linha de maquiagem oferecida em suas lojas, não transporta a mesma estratégia realista na escolha das modelos da sua nova campanha publicitária para a linha Make B Rio Sixties, inspirada na beleza do Rio nos anos 60. “A beleza do Rio que encantou o mundo” é retratada pelo vídeo da campanha, de pouco mais de 30 segundos, por modelos de pele branca branca cantando a famosa marcha “Cidade Maravilhosa”. O sol está lá, a praia aparece ao fundo, a “vibe” é tropical, mas as protagonistas do comercial não representam o biotipo das mulheres brasileiras. Há até uma estrangeira que canta com seu sotaque mas nenhuma negra, como aquelas que habitam nosso imaginário quando lembramos do carnaval. Para O Boticário, a mulher carioca que atrai os olhares do mundo é branca, de olhos claros, cabelos longos e loiros.

Indignadas com a campanha, muitas internautas prontamente manifestaram seu repúdio ao vídeo. Uma delas, a blogueira Carolina Candido escreveu uma longa mensagem ao departamento de marketing retratando sua indignação. “Como que num país com diversidade étnica tão grande quanto o Brasil, apenas uma etnia pode ser representada em uma propaganda, ainda mais se tratando de uma campanha que busca enaltecer as belezas da cidade do Rio de Janeiro? ”, protesta Carolina . A empresa se defende e diz que a “campanha Make B. Rio Sixties foi criada com muito carinho, especialmente para todas as mulheres que adoram novidades de make up”. Todas as mulheres?

“Só tem loiras no Brasil”, “No Brasil só tem brancos?”, “O Rio é repleto de negros e caso O Boticário não saiba, o negro é lindo”, dos manifestos das consumidoras na página da marca no Youtube, onde a Central de Relacionamento ao consumidor pede desculpas e se compromete a encaminhar as mensagens à equipe de marketing.

Qual nome se dá a uma empresa que investe na sua linha de produção para um determinado público que ela não assume ter publicamente? Dizer que a empresa cria produtos, de forma especial, para mulheres que adoram novidades em make up, mas nas campanhas publicitárias ignora as negras, não é o mesmo que dizer que seus produtos são feitos apenas para brancas?

O velho ditado diz que só valorizamos o que perdemos. A mulher negra brasileira tem o perfil da consumidora em potencial. Hoje ela finalmente tem o poder econômico para escolher produtos que suas mães e avós nem sonhavam em ter. Na hora de compra, ela deve optar por empresas que reconheçam sua beleza, não apenas por estar de olho na sua carteira, mas por promover ações publicitárias que deem visibilidade e enalteçam suas características físicas sim, mas também seu hábitos culturais e comportamentais. Para O Boticário na cidade cheia de encantos mil, a negra é invisível.

domingo, 1 de setembro de 2013

Se ouvir “Eu não sou preconceituoso, mas…”, corra para longe

Leonardo Sakamoto

Eu não sou preconceituoso, mas…

Esta frase é deliciosa. Não é um aviso de “olha, não encare isso como preconceito”, mas um alerta. Do tipo “segura, que lá vem um preconceito”. A ressalva, completamente inútil, serve, pelo contrário, para reforçar que a pessoa em questão é exatamente aquilo pelo qual não gostaria de ser tomada.

Cultivamos nosso medo e ódio, mas, às vezes, pega mal expressá-los em público assim, tão abertamente. Porque pode ser visto como crime ou delito. Ou serem criticados – mesmo que os críticos compartilhem da mesma visão de mundo que você. E, além do mais, como todos sabemos, o Brasil é o país da alegre miscigenação, em que todos são considerados iguais em direitos. Os que discordam disso devem se mudar ou levar um corretivo para deixarem de serem bestas. É isso: ame-o ou deixe-o.

É engraçado como o preconceituoso não se vê como tal. Quem solta um “Eu não sou preconceituoso, mas…” separa essa palavra de seu significado e pensa o preconceito como algo abstrato, etéreo. Uma ideia que não teria nada a ver com tratar pessoas de forma diferente ou fazer um julgamento prévio de seu caráter devido à sua classe social, orientação sexual, cor de pele, etnia, nacionalidade, identidade de gênero, pela presença de alguma deficiência e por aí vai.

E cabe tanta abobrinha em um “Eu não sou preconceituoso, mas…” que ele se tornou o novo “Amar é…”, presente naqueles livrinhos simpáticos da minha infância.

Duvida?

Eu não sou preconceituoso, mas bandido bom é bandido morto.

Eu não sou preconceituoso, mas baiano é foda. Quando não faz na entrada faz na saída.

Eu não sou preconceituoso, mas mulher no volante é um perigo.

Eu não sou preconceituoso, mas tenho medo desses escurinhos mal encarados qe pedem dinheiro no semáforo.

Eu não sou preconceituoso, mas cigano é tudo vagabundo.

Eu não sou preconceituoso, mas os gays podiam não se beijar em público. Assim, eles atraem a violência para eles.

Eu não sou preconceituoso, mas acho o ó ter um terreiro de macumba na nossa rua.

Eu não sou preconceituoso, mas é aquela coisa: não estudou, vira lixeiro.

Eu não sou preconceituoso, mas não gostaria de ver minha filha casada com um negro. Não por ele, é claro, mas eles sofreriam muito preconceito.

Eu não sou preconceituoso, mas esses sem-teto são todos vagabundos.

Eu não sou preconceituoso, mas chega de terra para índio, né? Se eles ainda produzissem para o país, mas nem isso acontece.

Eu não sou preconceituoso, mas esses mendigos deviam ir para a periferia onde não incomodariam ninguém.

Eu não sou preconceituoso, mas sabe como é esse pessoal de esquerda. É tudo petralha.

Eu não sou preconceituoso, mas sabe como é pessoal da direito. É tudo tucanalha.

Eu não sou preconceituoso, mas São Paulo é São Paulo, né amiga? Não é Fortaleza.

Eu não sou preconceituoso, mas esse aeroporto tá parecendo uma rodoviária.

Eu não sou preconceituoso, mas adoro esse shopping. Só tem gente bonita por aqui.

Eu não sou preconceituoso, mas sobe o vidro, amor. Você não tá nos Jardins.

Eu não sou preconceituosa, mas vocês não acham que essas médicas cubanas têm cara de empregada doméstica?

Cuidado, seja sutil. Preconceito é para ser dito, repetido e aplicado, mas com naturalidade. Diluído no dia a dia, aparece como uma forma de manter a ordem das coisas e de lembrar quem manda. E quem obedece.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Contra Ana Carolina: Pelo direito de levantar bandeiras

Por Vitor Angelo - Blogay
 
Em entrevista para o Uol Música, nesta quarta-feira, 29, segundo o texto, a cantora Ana Carolina se posiciona da seguinte maneira sobre a questão homossexual: “À esteira do casamento gay de Daniela Mercury, ela elogia a colega, mas se mantém contrária ao mesmo pensamento que teve na época [de se declarar bissexual para uma revista]: levantar bandeira ‘é um preconceito ao contrário’. [...] ‘Não gosto disso. Fica essa coisa de nós gays contra os héteros. Isso é preconceito ao contrário. Acho legal a Daniela estar casada e a postura que ela teve, influencia aquela pessoa babaca, ignorante, que gosta da Daniela. Ele pensa: Talvez eu esteja errado. Fico um pouco assim com as pessoas que levantam bandeirinha, mas fica puta se o filho for gay. Não precisa levantar bandeira. É só agir de maneira honesta e respeitosa”, explica.
 
Ana Carolina: é isso aí, só que não (Divulgação)

Existe uma confusão tão gigante de pensamentos torpes que nem sei por onde começar. Ela diz que levantar bandeira é preconceito ao contrário, mas gostaria de saber se quando Chiquinha Gonzaga levantou a bandeira da mulher como compositora no começo do século 20, estava ocorrendo um preconceito dela contra os compositores e os homens? Aliás, se a grande compositora de marchinhas não levantasse esta bandeira talvez não tivéssemos o desprazer de ler esta entrevista de Ana Carolina, pois a cantora como mulher não teria nem status para estar nas páginas de jornais. Viva Chiquinha Gonzaga!

Gostaria de saber se Ana Carolina acredita que quando Elizabeth Eckford, a negra que desafiou o racismo norteamericano e, em 1957, foi a uma escola mista e os brancos a xingaram incessantemente, ela estaria cometendo algum tipo de preconceito com os brancos? Viva Elizabeth Eckford!

E os gays e lésbicas que tomaram as ruas do Village em Nova York, no final dos anos 1960, pedindo tratamento justo e que a polícia não mais os humilhassem por sua orientação sexual? Se eles não tivessem levantado a bandeira, Ana Carolina, a senhora nem poderia imaginar se declarar bissexual na revista “Veja” nos anos 90. Viva Stonewall!

E que pensamento pobre é este de: “Fica essa coisa de nós gays contra os héteros”? Nem precisa ir muito longe. Hoje mesmo, os Tribalistas – formados por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown -, que, até onde a gente sabe, são heterossexuais, fizeram um hino para o casamento igualitário e para a Parada Gay de São Paulo. Então onde existe esta guerra entre gays versus héteros quando se levanta uma bandeira? Só na cabeça dos mal intencionados, dos perversos e dos mal resolvidos, pois héteros muito bem resolvidos não tem problema nenhum com gays e, muito pelo contrário, levantam sim a bandeira para que os LGBTs tenham um vida mais igualitária a deles.

Levantar bandeira seja contra, seja a favor, é tomar posições e isto é coisa para os fortes, a covardia dos egodistônicos, aqueles que estão em desintonia com seus desejos e vivências sexuais públicas e privadas, é a maior tristeza vivencial de alguém que não é heterossexual, pois traça em vis desculpas a incapacidade de assumir para si e para o mundo o que realmente ama. E age de maneira desonesta e desrespeitosa com os outros e principalmente para si.

E antes que os fã-náticos de todo o tipo venham aqui falar em liberdade de expressão, eu digo que ela é não é uma rua de mão única. Do mesmo jeito que Ana Carolina tem o direito de se expressar, eu também tenho o meu de questioná-la pela minha expressão. E é isso aí!