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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Fake news de Bolsonaro aos italianos

Por Dilma Rousseff, em seu site:

O presidente Jair Bolsonaro divulgou uma fake news que seus apoiadores vêm disseminando há bastante tempo. Tornou-se transparente, assim, a origem dessas acusações, uma vez que agora foram feitas diretamente pelo próprio presidente para um público internacional.

Em entrevista concedida a um programa de auditório da RAI, emissora italiana de TV, o presidente proferiu acusação falsa e ignomiosa, atribuindo a mim participação na VPR, organização de oposição à ditadura militar. Construiu a sua fala, de modo a passar a ideia de que eu teria participado de ações violentas, em especial de uma que causou a morte de um soldado.

A verdade é que nunca fui integrante deste grupo, jamais participei de qualquer ação armada e não propus ou contribui para a morte de quem quer que seja.

Pertenci, na verdade, a outra organização política de oposição a ditadura, a VAR-Palmares.

O curioso é que os detalhes da minha atuação contra a ditadura militar no Brasil foram investigados e julgados pelos órgãos integrantes do aparato judicial-repressivo do regime militar, dos quais o então militar Bolsonaro foi próximo. Fui presa por três anos, fui torturada, e jamais me interrogaram ou julgaram por tais acusações, que agora, de forma irresponsável e injuriosa, me faz o presidente.

Meu nome também não é citado entre os militantes acusados de participarem da ação de São Paulo, no livro que trata do assunto, editado pelos próprios militares, após o fim da ditadura.

A ação específica a que Bolsonaro e seus apoiadores se referem ocorreu em São Paulo, em 26 de junho de 1968, período em que eu residia em Belo Horizonte e frequentava a Faculdade de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais. Não tinha o dom da ubiquidade, e ainda não tenho.

O presidente está apenas repetindo uma notícia falsa e insidiosa espalhada por seus apoiadores durante a campanha eleitoral, por meio de um vídeo comprovadamente forjado.

É a terceira vez que, por má-fé, essa mesma fake news é usada contra mim. A primeira foi em 2010, quando assumi a Presidência da República. A mentira foi divulgada por blogs fascistas. A segunda vez ocorreu na campanha eleitoral do ano passado, quando enormes somas de dinheiro foram gastas para espalhar notícias falsas contra os principais candidatos do PT, nas redes sociais. Agora, já na Presidência da República, Jair Bolsonaro repete aos telespectadores italianos informações falsas usadas para enganar o eleitor brasileiro.

É profundamente lamentável que um chefe de Estado venha a proceder dessa forma.

sábado, 17 de setembro de 2016

Capítulo grave







Nem bem terminava, na segunda (12), a novela Cunha, o núcleo curitibano da Lava Jato meteu o pé pelas mãos e abriu o capítulo mais grave desta crise. Depois da condução coercitiva e da divulgação de fitas ilegais, a exposição do procurador Deltan Dallagnol na tarde de quarta (14) foi tão vazia que caiu mal até nas hostes antipetistas. Em lugar da seriedade técnica que sobressaía nas primeiras aparições, o jovem funcionário deixou-se levar por arroubos que tiraram a credibilidade da denúncia contra Lula.

Isto posto, embora a derrapada dê ao ex-presidente vantagem na largada da nova partida, por outro lado deixa o país embrulhado numa situação delicada. O juiz Sergio Moro, autor das duas descabidas ações anteriores, está moralmente comprometido a aceitar a denúncia oferecida pelo Ministério Público. Com isso, irá deflagrar processo político cujo único julgador será ele mesmo, que não é instância adequada nem suficiente para julgar o que Dallagnol colocou em pauta.

O que vem pela frente é mais sério do que o impeachment de Dilma Rousseff. Convém lembrar que a ilegítima destituição da presidente foi decidida por um colegiado senatorial. As acusações eram de responsabilidade e a perda do poder por quem venceu nas urnas, embora manche a democracia, poderia ser corrigida pelo andamento da luta eleitoral, pois o PT teria chance de voltar a vencer.

Agora, o que está em questão é estrutural. Trata-se da tentativa de proscrever Lula e o PT do cenário para sempre, o que dará lugar a uma batalha de proporções épicas. Ao transformar as acusações específicas a Lula, na realidade, pequenas, ainda que desconfortáveis, no combate a uma suposta organização criminosa em que teria se convertido o PT, o procurador fez-se porta-voz da histeria ideológica que deseja "acabar com essa raça", como dizia um senador anos atrás.

Dallagnol não entende duas coisas. A primeira é que Lula e o PT ocupam um espaço garantido no Brasil. Por mais que sofram revezes, cometam erros — que precisariam ser explicados e corrigidos– e experimentem derrotas— como certamente vai acontecer nesta eleição municipal —, o partido e sua principal liderança respondem à necessidade profunda de representar as camadas populares no processo democrático.

Em segundo lugar, que a esquerda é especializada em resistir. Por ter nascido e crescido em oposição à ordem estabelecida, sabe melhor que ninguém como sobreviver em condições desfavoráveis. Não foi acaso que Lula, de camiseta vermelha, mencionou no discurso pronunciado quinta-feira (16) o orgulho de haver criado o maior partido de esquerda da América Latina. A mesma esquerda, por vezes, tão maltratada em outras frases suas.


Vai ter luta.

sábado, 20 de agosto de 2016

Dilma precisa apontar os responsáveis perante o tribunal da história







Enquanto o Parlamento afia a guilhotina que cortará ao meio o mandato de Dilma Rousseff, a presidente afastada produz documentos para o futuro. Nada de errado na postura. Pena que a carta endereçada aos senadores na última terça-feira (16) tenha se perdido em fantasiosas projeções em vez de trazer elementos novos a respeito de como chegamos a este ponto.

Quem sabe o pronunciamento da segunda (29) perante o Senado seja mais substancioso. Para ficar em apenas um aspecto, a presidente poderia revelar como, de um ano para cá, a dupla Michel Temer"" Eduardo Cunha atuou para derrubá-la, bombardeando qualquer possibilidade de acordo capaz de tirar o país da crise sem revogar direitos. Vale lembrar que, naquela época, empresários e trabalhadores começavam a conversar sobre um pacto de retomada do crescimento.

Ao contrário do que se esperava, a radicalização veio de dentro do próprio sistema político. Menos intuitivo ainda: emergiu do partido da conciliação e da cordialidade, o PMDB. Por isso, nestas plagas, é sempre prudente ler Sérgio Buarque com atenção e desconfiar da brandura exterior.

Vista em retrospecto, a senha de queimar as naves foi dada pelo atual interino na quarta-feira, 5 de agosto de 2015, quando declarou que o país precisava de alguém que tivesse a "capacidade de reunificar a todos". Veja-se a descrição da repórter Marina Dias : "Visivelmente nervoso, balançando o corpo para frente e para trás enquanto discursava a jornalistas, Temer fez um apelo público a partidos políticos e setores da sociedade".

Tratava-se de um apelo para defenestrar Dilma. A perplexidade com a possível traição do vice permitiu, que, na hora, a cortina de fumaça do mal-entendido funcionasse e, enquanto as interpretações proliferavam, o ex-presidente da Câmara, o qual havia anunciado o seu próprio rompimento com o Planalto poucos antes, agia. Não por acaso, o pedido de impeachment foi protocolado na Casa do Povo em 1º. de setembro.

Claro que a recessão e as revelações da Lava Jato (assuntos sobre os quais Dilma também deveria falar) criavam ambiente propício a extremismos. Assim, a dobradinha foi agregando apoio social à proposta golpista, desde o início alimentada por ala do PSDB. Porém, o suporte necessário demorou. Veio só com as manifestações de 13 de março passado, após Lula ser submetido à condução coercitiva e a sua nomeação para a Casa Civil bloqueada, ambos fatos divulgados de maneira maciça e mobilizadora.

Para a corte senatorial, pouco importa localizar os verdadeiros autores dos crimes de responsabilidade, pois o julgamento será político. Para o tribunal da história, no entanto, conta bastante.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Dilma acusa o golpe, rechaça o golpe e ataca o golpe em discurso que “inaugura” o seu segundo mandato






Nesta terça-feira 13, dia em que o Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, poderia receber e encaminhar um pedido de impeachment sem fundamento e até pavimentar o caminho para se tornar Presidente interino do Brasil, Dilma Rousseff realizou um dos mais contundentes e agudos discursos de sua carreira política.

Foi durante a cerimônia de abertura do 12º Congresso Nacional da CUT – CONCUT, em São Paulo, quando o STF já havia sepultado de vez o golpe articulado pela oposição.

Ladeada pelos Ex-Presidentes Pepe Mujica, do Uruguai, Luiz Inácio Lula da Silva e pelo Presidente da Central Única dos Trabalhadores, Vagner Freitas, Dilma fez valer as três liminares não contestadas que sua base ganhou no Supremo. Ela foi na jugular dos golpistas. “O que era inconformismo por terem perdido a eleição transformou-se em desejo de retrocesso e ruptura institucional, em golpismo. O golpe que os inconformados querem cometer é, mais uma vez, e como sempre, contra o povo. Mas podem ter certeza: não vão conseguir.”

Não por acaso, o Presidente Lula fez questão de afirmar, em discurso posterior, que Dilma, com este discurso incisivo, deixava de ser alguém que iria simplesmente se manter ali, no cargo de Presidente, para se tornar uma verdadeira líder política do país. Dilma realmente fez uma fala de força, e chamou para si a responsabilidade política do consenso – como desejava o Vice Michel Temer, meses atrás – “A hora é de unir forças. A hora é de arregaçar as mangas e combater o pessimismo e a intriga política. Quem quiser dialogar, construir a paz política, construir o futuro, terá meu governo como parceiro.”

Depois da ducentésima quadragésima sétima vez que Aécio Neves perdeu a oportunidade de virar Presidente, as suas credenciais foram direta e seriamente cobradas. Afinal de contas, culpa no cartório também é uma questão de comportamento social, responsabilidade administrativa e companhias, como insistem os moralistas de plantão. “Quem tem força moral, reputação ilibada e biografia limpa suficientes para atacar a minha honra? Lutarei para defender o mandato que me foi concedido pelo voto popular, pela democracia e por nosso projeto de desenvolvimento.” Disse a presidente, ovacionada de pé por um auditório lotado de líderes sindicais de todo o país.

Ataques à democracia não são novidade. O Brasil já passou, por exemplo, por tentativas malfadadas de transformar um conjunto de mestiços em arianistas fanáticos, um projeto fascista que pretendeu hegemonia. Um de seus líderes, depois jurista de renome, deu cria a um dos que subscrevem as peças jurídicas dos golpes de hoje. Pois é. As elites fascistas não só vingaram como se multiplicaram no país, insistindo em projetos demófobos, nefastos e autocráticos.

Então, a preocupação da Presidente tem fundamento. Ela identifica grupos que desejam o poder a qualquer custo e por quaisquer meios, inclusive os anti-democráticos – as elites gostam menos que tudo do povo, e a democracia, se sabe, é forma de governo que se sustenta pelo procedimento do voto popular. “Vivemos uma crise política séria, que se expressa na tentativa dos opositores ao nosso governo de fazer o terceiro turno. Essa tentativa começou após as eleições. Agora, ela se expressa na busca incessante da oposição de encurtar seu caminho ao poder. Querem chegar ao poder dando um golpe, com impedimento de um governo eleito pelo voto direto de 54 milhões de pessoas.”

O golpe foi sepultado. Os golpistas não. Eduardo Cunha ainda é Presidente da Câmara dos Deputados. Aécio, Serra e Aloysio – sem suspeitas na “Operação Lava-Jato” e sem alcaguetes na “Operação Zelotes” – ainda são Senadores da República. A mídia hegemoniza a pauta a favor dos grupos políticos golpistas e partes politicamente relevantes do judiciário ainda controlam delações, vazamentos seletivos e prisões sem fundamento, trazendo o terror usual das ditaduras veladas.

Mas a Presidente sentiu que este era o momento para funcionar politicamente. E, com certeza, com o apoio e influência de gente do gabarito de Jacques Wagner e do próprio Lula, que não escondia o orgulho de ver a sua sucessora ir para a batalha da política, sem medo de bater.

Dilma encarou o desafio e reafirmou porque todos deveriam estar ali pelo governo, pelo projeto político e pelo Brasil. Não restou dúvidas. “Sou presidenta porque fui eleita pelo povo, em eleições lícitas. Tenho a legitimidade das urnas, que me protege e a qual tenho o dever de proteger. Sou presidenta para dar continuidade ao processo de emancipação do nosso povo da pobreza e da exclusão, e para fazer do Brasil uma nação de oportunidades para todas e todos.”

Depois de responder a uma reivindicação insistente da militância, de que reafirmasse seus compromissos com um projeto de esquerda, sobrou um afago para o já lendário Pepe Mujica, o quixotesco cruzado pela democracia social e política da América Latina. “Democracia não se reduz, se amplia.” E se pode dizer, sem sombra de dúvida que Dilma, finalmente, iniciou o seu segundo mandato.

sábado, 3 de outubro de 2015

Impeachment enfraquecido



A descoberta das contas secretas do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na Suíça e o anúncio de concessões substantivas ao PMDB na reforma ministerial enfraqueceram a hipótese, antes provável, de que fosse considerado admissível o pedido de impeachment protocolado há quinze dias por Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr. A aventura golpista não está afastada, mas pode ter perdidomomentum.

Desde fevereiro, quando foi eleito presidente da Câmara com 267 votos, Cunha tornou-se o líder, às vezes semioculto, do movimento pelo impedimento de Dilma Rousseff. Os obstáculos que interpôs aos projetos do Executivo no primeiro semestre, a ruptura teatral com o governo em julho, a incrível divulgação na semana passada da maneira regimental por meio da qual a presidente seria defenestrada não deixavam dúvida a respeito das intenções do parlamentar carioca.

Convém lembrar que está entre as atribuições daquele que dirige a Casa do Povo considerar, de maneira discricionária, admissível qualquer proposta de impeachment que tiver cumprido as exigências burocráticas básicas. O passo seguinte seria instaurar Comissão Especial de 66 deputados de todos os partidos para exarar, em quinze sessões, parecer a respeito. Imagine-se a confusão que tomaria conta das ruas do país.

Agora, com as contas a descoberto, a autoridade de Cunha para tomar tal decisão perdeu legitimidade. Legalmente, enquanto estiver no cargo, ainda está habilitado a fazê-lo, mas o pêndulo da opinião pública deslocou-se para longe dele.

Outro caminho seria aprovar a admissibilidade do pedido de impeachment por meio de maioria simples dos deputados em plenário. Significaria contar com 257 votos, caso o conjunto da Câmara estivesse presente. Embora a recente aproximação da bancada do PSB ao bloco pró-impeachment formado por PSDB, DEM, PPS, PSC e SDD tenha aumentado a musculatura do grupo, a manobra não será possível sem o PMDB.

Foi esta aritmética básica que orientou a reforma ministerial. Atrair votos do PMDB de modo a desidratar a bancada do impedimento é o seu único móvel. A cada cargo negociado devem corresponder x sufrágios trazidos para o lado do "não" e, portanto, retirados do time do "sim".

Desde esse ângulo, o movimento aconselhado por Lula é chocante, mas inevitável. Entregar os anéis da Saúde e da Ciência e Tecnologia, interromper a gestão de Renato Janine Ribeiro na Educação, tirar a interlocução com os movimentos populares de dentro do Planalto, diminuir o status de órgãos que cuidam dos direitos dos trabalhadores constituiu-se no preço para salvar os dedos de Dilma. Vamos ver se, mesmo com a possível condenação das contas de Dilma pelo TCU, dará certo.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Hoje tem amanhãs

Janio de Freitas


As crises atraem todo o pensamento para elas, e não para o que, nelas, mais importa: o seu amanhã, os desdobramentos que persistem, historicamente, no mau hábito de fugir a todo controle. É o que estamos vendo, no impeachment sim ou não, no "ajuste" sim ou não. Como se as crises institucionais desde a morte de Getúlio, e seus desdobramentos sempre para pior, nada ensinassem para o futuro que são os nossos dias.

Políticos rasos são imediatistas. Logo, os políticos brasileiros só pensam em sua conveniência imediata. Esta é origem da tese de impeachment. A "desconstrução" que Aécio não conseguiu fazer na disputa eleitoral quer, agora, levar a oposição a obtê-la por outro meio. Sem risco, porque um novo fracasso estaria isentado de qualquer consequência funesta. A permissividade vigente na política brasileira garante.

Não se dá o mesmo com os movimentos reivindicatórios, tipo Movimento dos Sem-Terra, o dos Sem-Teto, a CUT, movimentos de professores e universitários, de funcionários públicos, enfim, aquilo tudo que muitos chamam de "a esquerda". Ser contrários ao "ajuste" arrochante é óbvio, para eles. Mas até onde? –eis a dificuldade além do óbvio e do imediato.

O "ajuste" será com Dilma ou será com outro. Será, é ponto pacífico: no mundo político não se vislumbra segmento algum capaz de se elevar para impor correções econômicas não arrochantes. A rejeição prática e absoluta ao "ajuste" de Dilma/Levy confunde-se com o impeachment, ainda que sem tal intenção. Já é assim, e as manifestações programadas tendem a dar a esse embaralhamento evidência e força influentes.

Também por isso, mas não sobretudo por isso, Dilma impôs às duras discussões sobre cortes no Orçamento, contra a quase indiferença na equipe econômica, certa imunidade de vários programas à tesoura. Como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida, assim depois destacados, entre outros, pelo próprio Levy.

Se não conduzido pelo atual governo, o "ajuste" será no mais puro e duro neoliberalismo. Caso o governo ficasse com o PMDB, estaria minado por uma falta de quadros próprios que o obrigaria a sujeitar-se às exigências direitistas do PSDB. O PMDB de hoje é numeroso e vazio. Mercantilista e vazio. Amorfo e vazio.

Caso o governo ficasse com o PSDB, por uma eleição precipitada, contaria com serviços bem pagos do PMDB, como foram os do PFL no governo precedente dos peessedebistas. Para o "ajuste" de retorno ao Brasil que começara a deixar-se superar, aos 500 anos de história.

A escolha dos movimentos reivindicatórios é óbvia? Não. É de sua índole e de sua sobrevivência que combatam o "ajuste" de Dilma. Na concepção de comando e tática desses movimentos, está sempre a ideia de que as chamadas lutas sociais e o estrato político-social que comanda o país são entidades à parte. Cada qual sabe de si e cuida de como enfrentar o outro. Fora dessa concepção, os movimentos caem na perplexidade emudecida a que o PT sucumbiu, diante do governo Lula –que em momento algum foi governo do PT.

Em qualquer destinação da crise, é muito provável o recrudescimento dos movimentos reivindicatórios organizados. Menos acirrados e duradouros, em um dos casos, e muito mais nos outros. Com que modos e até que ponto final, o Brasil está muito mudado para que se se tente imaginar. Sobre isso basta lembrar que os militares mostram-se muito mais civilizados do que os civis.

sábado, 12 de setembro de 2015

O erro colossal que é confundir Dilma com Collor.

Ela tem que ir até 2018


Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

É hora de defender vigorosamente a permanência de Dilma até o final de seu mandato.

Sobretudo nas ruas, mas não só nelas: as redes sociais são hoje um importante polo formador de opiniões.

Não se trata de defender Dilma em si e muito menos o PT: é a defesa da democracia, da justiça, da Constituição.

E, mais que tudo, é a defesa da decência.

O pequeno grupo que fez o Brasil ser a sociedade abjetamente desigual que é tenta, com métodos grotescos e argumentos sórdidos, cassar 54 milhões de votos.

Desde o momento em que a derrota de Aécio foi confirmada, iniciou-se uma louca cavalgada pelo golpe.

Da suspeição absurda sobre as urnas eletrônicas até o dinheiro de doações que irrigaram tanto a campanha de Dilma quanto a de Aécio, sucedem-se argumentos aos quais cabe um adjetivo: criminosos.

A direita brasileira, inflada pela imprensa, já provou que não é mais civilizada que a direita venezuelana, ou a equatoriana, ou a argentina.

Todas essas direitas fazem, neste momento, a mesma coisa: sabotam a democracia. Tratam seus países como republiquetas, passíveis de serem ludibriadas para a perpetuação de privilégios e mamatas ancestrais. E para a manutenção e ampliação do maior câncer da região: a desigualdade social.

O país seria atirado a um abismo com um impeachment, a uma noite longa e escura.

O maior erro é confundir Dilma com Collor. Collor não tinha sustentação nenhuma. Ninguém iria chorar a morte de sua presidência, sabia-se, e ninguém chorou exceto ele mesmo.

Mesmo com o desgaste de todos estes anos de poder, o PT tem uma base forte, a começar pela CUT e pelo MST.

Outros movimentos sociais haveriam certamente de se insurgir contra um golpe. Guilherme Boulos, do MST, já disse que é vital a união dos progressistas contra as manobras dos golpistas.

O Brasil, num caso de impeachment claramente forçado como este ora tramado, ficaria simplesmente ingovernável.

Para reprimir os que se manifestarem contra o golpe, a polícia vai ter que bater pesado. Seremos um enorme Paraná.

Ecos da ditadura ressurgirão na repressão aos protestos. Sangue de brasileiros correrá, como aconteceu num passado ainda recente.

É uma distopia, e é também um cenário altamente provável no caso de um golpe.

Tenho para mim que, no fundo, os sabotadores sabem disso. E estão, essencialmente, promovendo um terror contínuo para manter Dilma imobilizada e para sangrar o PT até 2018.

A hipótese de que eles acham mesmo que poderiam roubar a presidência é simplesmente tétrica.

Eles teriam que ser muito cegos e muito canalhas para imaginar que um golpe seria engolido com docilidade pelos brasileiros.

Dilma não é Jango



Dilma não é Jango. O primeiro foi deposto pela mira de canhões por um golpe de Estado. A segunda pode ser deposta por instituições democráticas que seu poder sustenta: ações do Tribunal Superior Eleitoral e do Tribunal de Contas da União, que justificariam um pedido de impeachment ao Congresso. Tropas e tanques, dispensados.

Poder Legislativo e Judiciário, com a implosão do Executivo, a destronariam. Sua baixa popularidade é uma aliada que cria rachas por todo lado. Num infeliz (ou bem calculado) comentário, Michel Temer, vice-presidente, lembra Francis Underwood, protagonista de House of Cards, que colabora para enfraquecer a presidência. 

Dilma deve saber, porque até eu sei por conversas aqui e ali com fontes bem informadas e boêmias: Temer nega a intriga, mas passou agosto visitando empresas de comunicações e federações empresariais, apresentando suas credenciais; o PSDB já prometeu a primeira valsa; o segundo escalão do TCU, o técnico, ameaça um motim caso o primeiro escalão, o político, não condene as contas de Dilma, como manda a cartilha.

Gilmar Mendes, do STF e TSE, já partiu para a grosseria ao classificar o arquivamento do pedido de investigação da campanha de Dilma, do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como “ridículo”, que “vai de infantil a pueril”. Janot voltou atrás e aceitou a denúncia.

O racha no Brasil de Jango era parte de um complô da guerra fria. A ameaça comunista, as Reformas de Base, que tocavam em pontos sensíveis do capitalismo, como reforma agrária e controle de remessa de lucros, a radicalização do discurso e motins de soldados e marinheiros uniram partidos da oposição, a Igreja, órgãos de imprensa, políticos populares e as Forças Armadas, que já tinham tentado um golpe anos antes, para impedir a posse de Juscelino.

Em pesquisa secreta do Ibope, feita na véspera do movimento militar de 1964 em três cidades paulistas de diferentes portes (São Paulo, Araraquara e Avaí), encomendada pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo, diferentemente de Dilma, Jango tinha apoio popular: 45% consideravam seu governo ótimo ou bom, 24% regular, e 16% mau ou péssimo.

Noutra pesquisa de eleitores de oito capitais, feita em março de 64 pelo Ibope e também engavetada, descoberta recentemente em arquivo da Unicamp, 49,8% admitiam votar em Jango se ele pudesse se candidatar à reeleição, o que não era permitido pela Constituição em vigor.

Márcia Cavallari, diretora do Ibope, disse que os critérios aplicados na pesquisa da década de 60 são semelhantes às recentes, como a encomendada pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) e divulgada em julho, que apontou que a avaliação do governo Dilma é de apenas 9% como ótimo ou bom, 21% regular, e 68% ruim ou péssimo. 

Se Jango tinha 45% de aprovação, Dilma tem 9%. Mas a inflação de Jango era aterrorizante: chegou a 23% no primeiro trimestre de 1963, e a variação em 12 meses acelerou de 45,6% em dezembro de 1962 para 69,9% em março de 1963. 

A crise política e com o mercado externo e FMI detonou o Plano Trienal de Jango. A inflação fechou em 1963 encostando em 80%, bem pior que a de Dilma. Mas a taxa de crescimento do PIB era um pouco melhor: caiu de 6,6% em 1962 para 0,6% em 1963.

Jango e seu PTB foram depostos em horas, com o racha de base aliada, o PSD. Dilma e o PT vêm a base aliada rachar, mas sem a ameaça de intervenção militar e a menor possibilidade de um golpe de Estado, já que as instituições democráticas estão preservadas, oposição envolvida nos mesmos escândalos de corrupção, que provam a falência do sistema partidário e das regras políticas em vigor.

Um paradoxo interessante explica o Golpe de 1964. A popularidade de Jango teria sido decisiva para a sua deposição pela força, já que as frentes políticas adversárias não se sentiam encorajadas: em outra pesquisa engavetada pelo Ibope, 59% dos entrevistados eram a favor das medidas anunciadas em 13 de março de 64 no comício da Central do Brasil por Jango, as que desencadearam o golpe. 

Porém, os movimentos sociais pouco fizeram para impedir o desmantelamento do governo. Uma Greve Geral convocada pelas Centrais Sindicais e pela UNE em 1.º de abril atrapalhou mais do que ajudou. Tropas marcharam sem encontrar resistência, o que surpreendeu o próprio governo deposto.

É impensável calcular como os movimentos sociais ligados ao PT e partidos de esquerda, movimentos sindicais, CUT, sem-teto e sem-terra, mercado externo, acionistas, EUA, FMI, ONU, OEA, Mercosul reagiriam no caso de um impeachment, sintoma da instabilidade da República brasileira, que raramente vê um presidente cumprir o prazo designado pelo voto.

Deodoro da Fonseca ficou dois anos e foi forçado a renunciar na Revolta da Armada, depois de destituir o Legislativo. Floriano e Afonso Pena, que morreu antes de completar o mandato, ficaram só três anos. Rodrigo Alves, como Tancredo Neves, morreu antes de tomar posse. 

Washington Luís foi deposto pela Revolução de 1930, e seu sucessor eleito, Júlio Prestes, não tomou posse. Dutra ficou cinco anos, como Sarney. Getúlio entrou para a história e deu um tiro no peito. Café Filho foi afastado por motivo de saúde e ficou um ano. Carlos Luz, seu sucessor, foi deposto, e JK assumiu antes. 

Jânio Quadros viu forças ocultas e renunciou dois anos depois de ter sido eleito. Jango foi deposto, Collor, impeachado. FHC era para ficar quatro anos, ficou oito. E Dilma... 

Cumpre a sina da maldição presidencial do nosso doente processo representativo. E já tentamos de tudo: mandato de quatro anos, de cinco, de quatro com reeleição, vice eleito de outra chapa, junta militar provisória, parlamentarismo (em dois plebiscitos rejeitados), até monarquia, ironicamente, o governo mais estável da nossa história.

Muita gente festejará a queda de Dilma, como uma vitória da democracia. Mas deveria lamentar o nosso fracasso de projeto republicano.

Ódio? Sim, de classe

O governo cede às pressões da casa-grande e aceita o naufrágio dos avanços sociais que ele próprio promoveu nos últimos 12 anos





A crise econômica oferece à casa-grande a oportunidade de impor sua vontade, favorecida pela leniência de quem haveria de resistir. E está claro que, antes de econômica, a questão é política e social, e diz respeito à estrutura medieval da sociedade nativa. Sofre de miopia quem supõe, do ponto de vista político, que tudo se resuma na disputa do poder entre PT e PSDB, acirrada por níveis de ódio nunca dantes navegados, enquanto PMDB ora assiste de camarote, ora joga lenha na fogueira. Que o diga o vice Temer ao vaticinar impávido que Dilma, de tão impopular, não resiste até o fim do mandato.

Quem não precisa de oculista, percebe, isto sim, que o País é sempre o mesmo e que a situação propicia à casa-grande a oportunidade da revanche depois de 12 anos de batalhas perdidas. O ódio, aquecido pela chance, é o de classe. Ou seja, o de sempre. Na moldura, a chantagem evidente. Dilma fica, vinga, porém, o receituário neoliberal, e o sofrimento da senzala, minorado ao longo de três mandatos petistas, volta a ser aquele que lhe cabe na visão dos senhores.

Programas implementados por Lula, e por Dilma no seu primeiro mandato, responsáveis pela evolução das classes menos favorecidas, ou melhor, miseráveis, são atacados de rijo, a ponto de questionar, paradoxalmente, a razão de ser de um partido dito dos trabalhadores, a se apresentar na origem como de esquerda. Tentativas de escapar ao retorno, do passado, são frustradas no nascedouro, tanto mais agora que uma das agências de rating escaladas pelo neoliberalismo para arbitrar a sorte do mundo sentencia o Brasil como mau pagador.

Penso no fracasso da proposta de reeditar a CPMF, recomendável de todos os pontos de vista e de seguro efeito. Por que soçobrou muito antes de alcançar a praia? Porque mexe com os interesses do privilégio, por menores que sejam, mínimos para o pessoal graúdo. Em compensação, qualquer corte na Educação, ou na Previdência Social, é recebida com indiferença absoluta pelos usuários do cheque.

Como de hábito, paga a maioria, em um país que alega ser democrático e onde a civilização é confundida com o luxo provinciano e espalhafatoso dos bairros ditos nobres, embora despidos de qualquer nobreza em proveito do exibicionismo vulgar. A situação empurra o praticante do jornalismo honesto a duas conclusões.

A primeira diz respeito ao governo. Da Nação ou da minoria? Ou simplesmente desarmado, acuado pela pressão e incapaz de reação? Ou inadequado à gravidade do momento? Ou súcubo da prepotência da casa-grande? CartaCapital sempre defenderá o legítimo, intocável mandato de Dilma Rousseff contra o golpismo que nem me abalo a definir como reacionário, pois anterior à ideia de reação, bem mais moderna, digamos assim.

No princípio, no nosso miúdo universo, não era o verbo, e sim coabitavam o hábito da prepotência e o hábito da submissão. Para romper com esta turva realidade, resistente até hoje, são indispensáveis ousadia intelectual e desassombro moral. Por exemplo, para levar adiante, tenazmente, a proposta do retorno à CPMF, de mais e mais sacrifício tão pequeno para quem pode contribuir à saída da crise.

O desastre ocorre se também um governo eleito dentro da lei entrega-se ao hábito da submissão. Murmuram sinistramente os meus botões: falta é peito, e também coerência. Por parte do governo, que faz genuflexão aos pés do altar do deus mercado, assim como do PT, ameaçado literalmente de extinção.

Governo e partido parecem incapacitados para a aposta certa, no próprio povo brasileiro, esse bem tão importante quanto as dádivas da natureza. Povo espezinhado, mantido o quanto for possível na senzala material e moral. Se porções da população subitamente conseguem evadir-se, que sejam reconduzidas às condições iniciais como o escravo fugido. Trata-se agora de reduzir os percalços de uns poucos para dilatar o sofrimento de muitos.

A segunda conclusão decorre da primeira, e não leva em conta o confronto entre PSDB e PT, ambos traidores, a seu modo, dos princípios e valores que diziam defender. Cabe dividir os brasileiros, não direi em duas classes, e sim em duas categorias. De um lado, aqueles que só cogitam da felicidade própria e dos seus pares, fechados no mundo do privilégio. Do outro, aqueles que se percebem responsáveis pelo destino do País e da Nação, e enxergam sua terra como sua casa e como iguais os conterrâneos, próximos ou distantes.

domingo, 23 de novembro de 2014

60 anos depois, cerco a Dilma lembra Getúlio


Por Ricardo Kotscho, no blog Balaio do Kotscho:


Se a presidente Dilma Rousseff já terminou de ler o último volume da trilogia de Lira Neto sobre Getúlio Vargas, editado pela Companhia das Letras, deve ter bons motivos para ficar preocupada nesta entressafra entre o seu primeiro e o segundo governo.

Talvez isso explique a indecisão dela para anunciar os integrantes da nova equipe econômica, como demonstrou a dança de nomes cogitados para o Ministério da Fazenda nesta semana que chega ao fim, mantendo o suspense no ar.

Era este o livro que a presidente carregava na mão ao descer do helicóptero no Alvorada, quando retornou a Brasília, depois de alguns dias de folga numa praia da Bahia, logo após sua vitória apertada na eleição de 26 outubro.

É neste terceiro volume que o brilhante jornalista cearense Lira Neto mostra o cerco formado por forças civis, militares e midiáticas contra Getúlio Vargas, que começou antes da sua posse, e botou fogo no país, na segunda metade do seu governo constitucional (1951-1954), levando-o a se matar com um tiro no peito. 

Dilma não é Getúlio, eu sei, o Brasil e o mundo não são os mesmos de 60 anos atrás, mas há muitas circunstâncias e personagens bem semelhantes nestes distintos períodos da vida nacional.

Não por acaso, o nome de Carlos Lacerda, o comandante em chefe da guerra contra Getúlio, nunca foi tão lembrado numa campanha eleitoral como nesta última.

Pintado pelos adversários como "O Corvo", com muita propriedade, Lacerda ressuscitou nos discursos e nas manifestações contra a reeleição de Dilma Rousseff, durante e após a campanha de 2014, que mobilizou os setores mais conservadores do empresariado e da imprensa, a serviço de múltiplos interesses estrangeiros, exatamente como aconteceu na tragédia de 1954.

Não por acaso, também, um dos principais focos da campanha contra o então presidente da República era a Petrobras, por ele criada sob controle estatal, após longa batalha no Congresso Nacional.

O papel que era da UDN (União Democrática Nacional) de Carlos Lacerda foi agora alegremente assumido pela aliança da oposição liderada por PSDB-DEM-PPS, que trouxe de volta, com Aécio Neves, até o mote do "mar de lama", para atacar a presidente, o PT e a Petrobras, a bordo do discurso sobre o "maior escândalo de corrupção da nossa história".

Extinta pela mesma ditadura militar-cívico-midiática de 1964, que ajudou a implantar, dez anos após a morte de Getúlio, a UDN voltou às ruas de São Paulo no último dia 15 de novembro, pedindo o impeachment de Dilma e a volta dos mesmos golpistas ao poder, empunhando as mesmas bandeiras de sempre, contra a corrupção e a inflação.

Foi neste dia comemorativo da Proclamação da República que, em Roma, no café Ponte e Parione, ao lado da Piazza Navona, terminei de ler o livro de Lira Neto e, embora tendo diante de mim algumas fas imagens mais bonitas do mundo, não conseguia deixar de pensar no que estava acontecendo no nosso Brasil naquele preciso momento. Passado e presente se confundiam na minha cabeça e confesso que fiquei deveras impressionado com tantas coincidências.

A grande diferença é que, agora, os militares estão recolhidos às suas tarefas constitucionais, e não dão o menor sinal de apoio aos Bolsonaros da vida, que reencarnaram Carlos Lacerda na avenida Paulista. Além disso, o país não está paralisado por greves orquestradas para encurralar Getúlio pela esquerda e pela direita. E, pelos menos até aonde a minha vista alcança, não há tropas americanas se mobilizando para apoiar qualquer movimento contra a democracia que vigora forte em terras brasileiras.

A história costuma dar muitas voltas para voltar ao mesmo lugar, mas não precisa ter necessariamente os mesmos desfechos. Fiz algumas anotações sobre o que têm em comum estes momentos conturbados, separados por seis décadas:

* Os jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, então alguns dos protagonistas da ofensiva da mídia armada contra Getúlio, continuam os mesmos, nas mãos das mesmas famílias, a desafiar o resultado das urnas e a vontade da maioria _ simplesmente, não aceitam mais um período do PT no Palácio do Planalto, completando, ao final do mandato de Dilma, 16 anos no poder.

* A TV Tupi, primeira e única emissora de televisão brasileira nos tempos de Getúlio, que abriu câmeras e microfones para Carlos Lacerda detonar o presidente e seu governo todas as noites, ao vivo, em horário nobre, teve o mesmo destino da UDN e fechou as portas faz tempo, mas os métodos dos Diários Associados de Assis Chateaubriand sobrevivem em outros veículos do grupo, como o jornal O Estado de Minas mostrou na campanha passada. Com maior ou menor sutileza, outras emissoras de TV, a começar pela toda poderosa Globo, que dominaram o mercado após o golpe de 1964, cumprem mais ou menos o mesmo papel nos governos petistas.

* A revista semanal Veja e seus escribas alucinados reproduzem os melhores momentos da Tribuna da Imprensa, criada e comandada por Lacerda, que foi o porta-voz oficial e amalgamou as forças reunidas para a derrubada de Vargas.

* A flácida base parlamentar montada por Getúlio em tudo lembra a de Dilma, embora ambos tivessem maioria no Congresso Nacional, balançando entre contemplar direita e esquerda em seus ministérios, para se equilibrar no centro, provocando assim sucessivas crises políticas e econômicas.

* O PT de Dilma e Lula, com todas as suas contradições e divisões internas, está cada vez mais parecido com o PTB de Getúlio, com o PMDB agora no lugar do velho PSD das oligarquias regionais.

A lista do que há em comum é grande, e eu poderia passar o resto do dia aqui escrevendo sobre isso. Antes de concluir este texto, porém, é necessário registrar outra grande diferença: ao contrário de Getúlio, que tinha a Última Hora, de Samuel Wainer, a seu lado, Dilma não conta com a boa vontade de nenhum veículo da grande imprensa para mostrar e defender as conquistas do seu governo, que também existem.

Dizem que a história só se repete como farsa, mas é bom Dilma tomar cuidado. Recomendo a leitura desta bela obra do Lira Neto, não para assustar ninguém, mas para vocês entenderem melhor o que está em jogo, agora como em 1954. Foi o que aconteceu comigo.

Que Dilma e nós tenhamos melhor sorte.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Também, peço voto em Dilma! Vote 13

VOTO EM DILMA





Nunca foi tão necessário derrotar o pensamento conservador, o eterno obscurantismo que tenta fazer a roda da História andar para trás

Minha razão para votar em Dilma tem origem na convicção fundamental de que o dever principal do Estado e dos governantes é defender os humildes e os desprotegidos, os que não tiveram oportunidade.

Também se baseia nas melhores estatísticas, que podem ser lembradas sempre que necessário, e ajudam a entender quem fez o quê, quando, para quem.

Estou falando da distribuição de renda, para lembrar que queremos viver num Brasil de cidadãos iguais, homens e mulheres. Acredito que é preciso manter a prioridade no emprego e no salário, no mercado interno, porque sabemos que só progresso no bem-estar da população de baixo gera melhoras reais para o conjunto da sociedade.

Não tenho religião mas tenho uma fé política: creio que numa democracia todos os poderes emanam do povo. Não imagino um país de cabeça baixa, refúgio de escravos tristes e senhores de sorriso amarelo pelo excesso de esperteza.

Não acredito em contos de fada nem admiro heróis de álbum de figurinha.

Não creio num futuro de privilégios nem de favores. A hierarquia não eleva. A inferioridade incomoda.

Só a luta pela igualdade é ética.

Penso em Dilma quando tentam nos assustar com o medo ridículo de mais uma queda na Bolsa, querendo ligar o destino do país ao enriquecimento de tubarões de um cassino pobre e podre, habituados a embolsar seus lucros e transferir suas desgraças para a maioria da população.

Penso em Dilma quando vejo um candidato aparecer na TV sem conseguir — apesar de muito treinamento — disfarçar sua conversa vazia. Nada consegue dizer porque muito tem a esconder.

Penso nela quando até um ator de Hollywood, envergonhado, sentiu-se no dever de informar que fez papel de bobo e retira o apoio a uma concorrente.

Os analistas de gabinete estão atônitos, os economistas de encomenda e os consultores milionários fogem de clientes inconformados. Faltam poucos dias para o povo ir às urnas e tudo que imaginaram, prometeram, deu errado. Mentiram, apenas mentiram, mentiram de novo.

Apesar do massacre cotidiano, das cortinas de fumaça, das trapaças, das demonstrações de má fé, milhões de brasileiros foram capazes de compreender aonde estão seus interesses, distinguir quem zela por suas necessidades e tem disposição de lutar por elas. Não é de hoje que aprenderam o que é classe social.

Por vários caminhos, com as idéias mais exóticas, incongruentes na origem mas idênticas na finalidade, formou-se uma grande aliança para tentar fazer a roda da história andar para trás. Deu errado.

Dilma só é chamada de agressiva, e suas críticas são chamadas de ataques, porque é assim que acontece com quem desafia o coro das ideias dominantes.

Nunca os mais pobres conseguiram vencer tantos enganos, tantas ilusões.

Nunca tiveram a mesma oportunidade de arrumar o país para ficar um pouco do seu jeito, onde possam fazer valer sua vontade e serem tratados com dignidade.

Nunca foi tão necessário derrotar o preconceito, a ideologia nefasta dos senhores de sempre, o pensamento conservador do eterno obscurantismo — marcas daquilo que muitos anos atrás nosso maior poeta do século XX chamou de mundo caduco.

Em meio a tanta dificuldade, tanta injustiça, tanta mudança a ser feita, vivemos num país onde 94% dos favelados dizem que estão felizes com a vida que levam.

Por isso, voto e peço voto em Dilma.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O ódio ao PT beira a idiotia


Pergunte para qualquer dessas pessoas que querem acabar com a raça do PT o motivo de tanto ódio.
Em 101% dos casos, a resposta será do tipo "o PT só rouba" ou "o governo é corrupto".
Nenhum dado econômico ou social sobre o Brasil será apresentado.
Porque não há como contestar os avanços que o país experimentou, em todas as áreas, nessa década de governo trabalhista.
O ódio ao PT parte, essencialmente, das camadas mais ricas da população, de porção da classe média e, em menor escala, dos mais pobres, sugestionados pela guerra de desinformação montada pela oligarquia, que inclui praticamente todos os meios de comunicação e seitas religiosas que se confundem com organizações criminosas.

O PT é atacado não pelo seu fracasso, mas pelo seu sucesso.
Seus inimigos são aqueles que não suportam ver o filho da faxineira cursar uma faculdade e a própria faxineira viajar de avião - e reivindicar direitos trabalhistas.
A mentalidade escravagista perdura em boa parte desse pessoal.
A generalização falsamente moralista dos ataques ao PT se dá, portanto, num nível puramente emocional.
O partido e seus integrantes são tachados de ladrões sem que nenhuma prova concreta seja apresentada - a exceção é o julgamento do tal "mensalão", que a cada dia suscita mais dúvidas sobre os reais motivos de sua realização.
Quanto à corrupção... 
Bem, se houve algum governo que mais a combateu neste país foi o trabalhista, que deixou a Polícia Federal agir livremente e criou um órgão que tem tido trabalho exemplar no combate a esse câncer social, a Controladoria-Geral da União.
Fora essas alegações vazias, resta aos inimigos do PT praticamente nada.
Ah, há sim outra coisa: a infâmia da disseminação de boatos completamente estapafúrdios, como esses recorrentes sobre um dos filhos de Lula, ou sobre o próprio Lula ou a presidenta Dilma.
Na própria campanha eleitoral essa falta de argumentos parece inundar a campanha de Aécio Neves e Marina Silva, os opositores reais de Dilma Rousseff.
Como não conseguem contrariar os números que mostram a evolução do Brasil nos campos social e econômico, se apegam a bobagens sem sentido como a desqualificação da Petrobras, ou a simples mentiras, como a do perigo da volta da inflação alta.
O debate político deveria ser feito de outra forma para a democracia avançar. 
A maneira como ele se realiza mostra que o Brasil ainda tem carências profundas, principalmente de educação.
Há, infelizmente, muitos brasileiros que cultivam e propagam o preconceito contra os diferentes, as minorias, os imigrantes, os negros, os nordestinos, os pobres, os homossexuais - e os petistas.
Sofrem de uma doença séria, que beira a idiotia.

sábado, 2 de agosto de 2014

O preço político de aparecer ao lado de Edir

Diário do Centro do Mundo



Imagine que você é um jovem idealista.

Sonha por um mundo melhor, se indigna com a desigualdade social e pensa em militar em algum partido.

Aí então você vê a inauguração do Templo de Salomão.

Mais especificamente, você vê Dilma ao lado de Edir Macedo, agora com uma barba branca interminável.

Edir, o homem que inventou no Brasil a máquina evangélica de tirar dinheiro dos ingênuos, dos inocentes, dos crédulos – dos pobres.

Alckmin está lá também, contrito. Mas você não se surpreende com isso. Não espera de nada dele, e então sua presença não decepciona você.

Mas Dilma?

Num templo faustoso, para cuja construção milhões de fieis contribuíram muitas vezes com o que tinham no bolso.

Você vai pensar: não é esta espécie de política que eu quero fazer. Não é aquele partido que vai me ter.

Bem, todo o meu introito foi para dizer o custo de imagem para Dilma, e para o PT, de fazer um tipo de política tão parecido com tudo que está aí.

O comparecimento à inauguração do templo é apenas um entre tantos gestos.

Apenas para ficar num caso: você consegue ver Mujica no beija-mãos do Edir Macedo do Uruguai?

Mujica não foi sequer à consagração de Francisco em Roma, só para compararmos.

Ah, razões pragmáticas levaram Dilma ao Templo de Salomão. Ela tem que disputar os votos dos evangélicos. Tem que agradá-los.

Mas a que preço.

Você não apenas associa sua imagem à de um homem que é uma espécie de anti-Francisco. Um cultua a simplicidade, e a igualdade. O outro cultua o dinheiro, e a ostentação.

Você acaba também abraçando causas conservadoras apenas para não arriscar a perda de votos evangélicos.

Discutir coisas como o aborto? Esqueça. A legalização da maconha? Esqueça também.

Mas pior ainda.

Você parece mais um na multidão dos velhos políticos, sobretudo aos olhos de jovens idealistas que são, ou deveriam ser, o futuro de um partido como o PT.

Os princípios, na sofreguidão da busca por votos, vão sendo atirados ao mar como peso do qual você tem que se livrar.

Sobra o quê?

Pragmatismo, quando é demais, vira oportunismo cínico.

Não.

Não é baixo o “Custo Edir” para Dilma e para o PT.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Financiamento público de campanha, voto proporcional, voto distrital, fidelidade partidária: enfim, o que é a Reforma Política?




O debate abaixo ocorreu em 2011. Na sua essência continua atual.




Já o debate abaixo aconteceu em 2013, logo após os protestos de julho. O tema é o plebiscito proposto pelo governo Dilma na época para a formação de uma Constituinte para a Reforma Política:




Via:http://opensadordaaldeia.blogspot.com.br/