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segunda-feira, 29 de junho de 2020

Piero Leirner: militares acabarão por criar ‘anomia’ da qual tanto falam

Para antropólogo, militares buscam espécie de "conversão cultural" de corações e mentes do povo brasileiro - por Pedro Marin | Revista Opera


Quando o antropólogo Piero Leirner, sob a insistência de sua orientadora, Maria Lúcia Montes, decidiu estudar o Exército, o Brasil vivia seu primeiro governo eleito por voto direto em 21 anos. A ideia de Leirner era fazer um estudo de campo em pelotões de fronteira na Amazônia, tema comum do discurso público dos militares nos idos dos anos 90. Acabou parando na Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME) no começo de 1992, onde, diz ele, foi “tratado como uma espécie de orientando ou estagiário”, posto para ler textos e fazer fichamentos, enquanto se preparava para estudar o que realmente queria. Acabou ficando lá por três anos, sem conseguir o tão desejado acesso aos pelotões de fronteira. “Um dia pensei ‘caramba, eu estou há anos aqui, indo toda hora para a Escola de Comando, e isso não é campo?’ Notei que eu tinha feito um campo; que muitas coisas sobre esse campo eram regidas pelas ideias de hierarquia militar”, diz. Transformou a experiência em um trabalho de mestrado, segundo estudo antropológico feito no Brasil sobre o tema, defendido em 1995 e publicado em 1997 pela FGV: “Meia volta volver: um estudo antropológico sobre a hierarquia militar”.

23 anos depois, num momento em que se diz cansado do Exército, o professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) volta mais uma vez os olhos aos militares, dessa vez em um cenário em que retornam ao centro do poder político, no trabalho “O Brasil no Espectro de uma Guerra Híbrida: militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica”. Em entrevista à Revista Opera, Piero Leirner explica sua pesquisa e a forma como vê a ascensão militar.

Revista Opera: Peço que você fale dessa sua nova tese, do porquê decidiu escrevê-la e porque escolheu essa abordagem, da Guerra Híbrida.

Piero Leirner: É uma tese que fiz para o cargo de professor titular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que é onde dou aula, onde estou há 22 anos. Depois do doutorado eu tinha trabalhado um monte de coisas, mas o tema do Exército tinha me enchido o saco. Tinha me afastado dessa conversa toda. 

Em 2010 eu fui para a Amazônia, fui para a área dos pelotões de fronteira, e voltei em 2013 – morei lá durante um semestre, em São Gabriel da Cachoeira (AM). Mas eu estava mais interessado em etnologia indígena do que nos militares; queria estudar os índios que estavam servindo lá, no Exército, mas de novo foi muito difícil, simplesmente o comandante “sumiu”. Então decidi partir para outra, disse que não queria nunca mais saber desse assunto. Fui estudar parentesco e hierarquia entre os índios Tukano da região do Alto Rio Negro.

Mas em 2016, quando começa a história do impeachment e todas aquelas agitações, a Maria Lúcia começou a demandar que eu passasse a fazer uma leitura sobre o que estava acontecendo com os militares. E nós entramos em um grupo de discussão por internet, no blog do Romulus – que tinha acabado de conhecer quando ele ainda era comentarista do GGN –, e fui puxado de novo para a discussão sobre os militares. E de fato comecei a suspeitar que eles estavam mexendo os pauzinhos de uma maneira muito estranha – porque você deve se lembrar bem, vocês na Opera provavelmente foram os primeiros a detectar isso, ninguém mais falava que eles iriam agir como atores primários nesse processo. O que o general [Eduardo] Villas Bôas transmitia o tempo inteiro é que eles se mantinham absolutamente neutros e distantes de todo o processo político. Foi aí que eu comecei a olhar um pouco a essa literatura sobre Guerra Híbrida, mais como uma curiosidade – mas nessa época começou a cair no meu colo textos em que os próprios militares descreviam o que eles consideravam ser uma Guerra Híbrida. Tinha alguma noção do que eles falavam pois por volta de 2008 acabei estudando, em um pós-doutorado, justamente manuais de operações psicológicas, contrapropaganda, etc. Isso porque havia nos EUA um uso institucional de antropólogos nas Forças Armadas, no Iraque e Afeganistão. E eu comecei a perceber, nesse processo, que os textos que eles escreviam aqui eram instrumentos de produção de desinformação, típicos de uma Guerra Híbrida: ou seja, eles estavam produzindo uma Guerra Híbrida interna.

Então, sobre a Guerra Híbrida, vejo muito mais como conceito nativo do que como uma realidade concreta e autoexplicativa, entende? Mas o conceito nativo começa a ser tão usado que passa a fazer sentido por ele próprio, quando os atores começam a acreditar demais naquilo que eles escrevem. Foi a partir disso que eu resolvi reunir as coisas que estava pensando de 2016 para cá e, em junho de 2019, comecei a escrever essa tese; terminei ela em setembro e defendi em dezembro.

Revista Opera: Na sua tese você cita algo que é um pouco desconhecido, no geral; essa aproximação que os militares têm mantido, pelo menos desde a redemocratização, com intelectuais, jornalistas, empresários, etc. Como você vê esse tipo de aproximação?

Piero Leirner: Logo depois do Plano Collor, eles estavam extremamente decepcionados com os rumos que o Collor tinha tomado, porque depositavam uma fé muito grande nele. Isso me era falado o tempo inteiro nessa época – e eles foram sucateados, era impressionante como às vezes eu pegava carona em viatura que servia coronel ou até general, e a porta da viatura não tinha tranca, o soldado ia segurando com o braço para fora. Estavam realmente muito preocupados e desconfiados com os rumos que a democracia estava tomando, o que casava um pouco com aquelas teorias sobre as ONGs e o interesse internacional na Amazônia, que estava começando a virar um protoplasma ideológico e algo doutrinário entre eles. Por que? Porque nesse momento, com o fim da Guerra Fria, falavam claramente que não ganharam nada no processo de alinhamento com os Estados Unidos, que na verdade saíram prejudicados, ao contrário do que aconteceu com a Europa depois da Segunda Guerra. Então pensavam que era necessário procurar um alinhamento nosso, próprio, autóctone – é daí que veio toda essa mitologia da Amazônia associada a Guararapes, ao nascimento da nacionalidade, etc. “Invenção do Exército Brasileiro” é um livro interessante de Celso Castro, no qual ele mostra como eles criam, a partir de coisas mais ou menos dispersas, essa história de Guararapes e sua associação à Amazônia.

Bom, nesse ínterim eles identificaram que não havia um projeto nacional; diziam “somos uma Força Armada procurando a nossa raiz e o nosso norte, mas a gente não tem na sociedade o mesmo tipo de movimentação. Então nós é que temos que fazer isso”. E o que fazem? Tiram da cartola, de novo, a ideia de que eles são a ossatura da nacionalidade, que vão conduzir o processo de gestão e formação da Nação. É nesse momento que eles começam a trazer, para dentro da Escola de Comando, um monte de gente; mas uma coisa meio sem critério, que ia de José Genoíno a Olavo de Carvalho. Então o que eu acho que eles estavam fazendo nessa época? Sondando as teorias que se encaixavam ali, produzindo a cacofonia que nós estamos vendo hoje, uma coisa absolutamente maluca. Juntar a ideia de soberania na Amazônia com a entrega da EMBRAER, sei lá eu. Parece algo completamente esquizofrênico – e é mesmo [risos]. Essa é a minha opinião: eles passaram por um processo de dissonância cognitiva, é o que acho que aconteceu durante anos ali dentro.

A partir disso eles começaram a armar essa rede, nos anos 90. Mas ela fica mais sólida quando eles acionam uma reação ao “comunismo” que estava voltando pro Brasil. Foi isso que galvanizou, a partir dos anos Lula, mas que aumenta para valer a partir de 2010, com a Dilma, que é quando eles procuram fazer costuras mais efetivas – sobretudo com empresários, por meios desses institutos, “Instituto Liberal”, “Mises”, etc., – mas também, sobretudo, botando lenha na ESG (Escola Superior de Guerra), chamando gente do próprio Estado lá para dentro. Você olha as listas a partir de 2010 dos frequentadores dos cursos da ESG e vê um monte de procurador e juiz entrando lá. O que é isso? De novo a formação daqueles complexos tipo IPES/IBAD (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais e Instituto Brasileiro de Ação Democrática) no pré-64. Igualzinho; a mesma coisa.

Revista Opera: Na tese você diz que se por um lado eles fazem esse movimento para dentro, isto é, esse processo de dissonância, há também um movimento de “domesticação do mundo de fora a partir do mundo militar”. 

Piero Leirner: Sim, é um pouco do que vi como experiência etnográfica na Amazônia. Essa noção, de que eles têm de carregar o País nas costas, no fundo ela é acompanhada pela noção de que eles são uma espécie de administradores de uma fazenda que têm como tarefa domesticar animais selvagens. O que significa isso? De certa maneira, trazer todo o campo de diferenças sociais para uma conversão, uma espécie de digestão e projeção, a respeito do que eles entendem como sendo parte da realidade. Que é uma realidade muito monótona (no sentido “narcísico” do termo), não é? Então não acho que seja um processo de tutela – tutela se faz com uma criança, na tutela você pressupõe que a criança estará sempre na mesma condição – o que eles querem é a conversão da população a uma outra forma, acho que há um projeto “cultural” de transformação da realidade, de corações e mentes alteradas. Por isso acho que é um projeto que embute, em seu interior, muito dessas operações psicológicas. Não é suficiente dizer que é só um interesse por cargos que faz eles irem nessa direção nos últimos anos.

Revista Opera: Você mencionou essa relação que os militares mantêm com setores do Judiciário. Cita na tese as relações que mantinham com gente do TRF-1, TRF-2 e TRF-4 – o que chama atenção. Como você vê agora, com esses militares do governo, essas relações? Como você vê isso tudo, levando em consideração a recente saída do Moro do governo?

Piero Leirner: A primeira coisa a se fazer é procurar escapar de uma visão trivial a respeito da posição deles em relação ao governo e a política. No processo que podemos recuar desde 2016 para cá, tudo é produzido em um movimento de pinça; sempre com estruturas mais ou menos duais. Se fôssemos resumir, eu diria o seguinte: eles usam um para-raios, tocam fogo em uma situação, e eles mesmos são os bombeiros que vão apagar o fogo que eles criaram. Em certo sentido o Bolsonaro representa esse papel. Uma coisa é falar em Bolsonaro, outra em governo – eu diria que ambos são governo, mas o governo em si é algo meio dualista.

O que eu vejo, por exemplo, em situações como a saída do Santos Cruz, que virou esse personagem imaculado que a imprensa toda mima. Creio que a saída do Santos Cruz, que pareceu ser uma saída por conta de conflitos com o governo, é uma válvula de escape do próprio governo – não que ele não tenha saído do governo, mas o governo, lato sensu, botou ele em uma posição de oposição controlada, compreende? Porque agora ele assume uma voz na oposição, de sensatez – sei lá como poderíamos chamar isso – mas não deixa de ser operado pelos mesmos agentes que era antes; os militares. É a válvula de escape dos militares operando como se fosse oposição, mas não é. Eles controlam ambas as posições. 

E eu acho que, em certa medida, o Moro entra nessa chave. Eles sempre vão estar batendo com um porrete e amansando com a outra mão. Interessa para eles uma posição que é de confronto, sempre, entre o Bolsonaro e uma outra posição, e eles aparecem como mediadores mais ou menos equidistantes disso. Não sei ainda qual vai ser o desfecho da questão da Polícia Federal, mas me parece que será exatamente essa posição: não vão nem pegar o Moro, nem o Bolsonaro, e vão pegar os dois ao mesmo tempo. Esse é meu palpite. Quer dizer, deve se repetir a mesma forma de Santos Cruz; Moro passa para uma “oposição” – bem entre aspas. [A entrevista foi realizada no dia 13 de maio, portanto antes de ser revelado o vídeo da reunião ministerial de Bolsonaro].

Então eu acho que, primeiro, todas essas manifestações do Bolsonaro são provocadas, não são acidentais, estão dentro de um esquema que foi pensado – não precisa fazer muito plano para elaborar, basta bater nas costas do sujeito e dizer “vai lá, Jair, vai na manifestação e faça o que você faria normalmente”. A provocação para criar um dualismo com o Judiciário é evidente, mas ao mesmo tempo o Judiciário é refém deles faz tempo. Quem está lá? O general Ajax [Porto Pinheiro]. Olhe o vídeo do general Ajax a quinze dias das eleições. Todas as teses que estão no “Carta no Coturno” estão lá, todas, pode conferir. De que os comunistas estão prestes a transformar o Brasil na Venezuela, que o PT quer mexer dentro da sua casa, com seus valores, toda aquela paranoia. Quinze dias depois ele estava no STF, dizendo o que pode e o que não pode.

Então eu acho que o STF entrou agora nessa chave que eles estão produzindo: o STF estica a corda de um lado, o Bolsonaro estica do outro, e os militares vão aparecer como solução de ordem para algo que parece cada vez mais caótico. Porque vai chegar um ponto em que a tese que eles estão pondo, de que o Brasil está para entrar em uma situação de anomia, vai acontecer. Mas é uma anomia que foi provocada por eles mesmos. E aí eles vêm e se oferecem, “somos a solução para isso”. Você junta isso com um cenário de pandemia.

Veja bem se essa “sinergia” que eles falavam ter com o TRF-4, se acabou. Outro dia mesmo eu vi, Heleno passou a tarde tomando chá com duas desembargadoras – isso estava na agenda dele. Continuam distribuindo medalhas a torto e a direito para procuradores e juízes. Então como é essa história? Não brigou de fato com o Judiciário. Pelo contrário. Estão causando a cismogênese dentro dele, é isso que está acontecendo.

Revista Opera: Na tese você identifica um ponto-chave, entre 2013-2014, e diz perceber uma certa euforia dentro do Exército, com oficiais perdendo a calma sobre a Comissão Nacional da Verdade (CNV), a partir de 2011. Como você vê essa aparente virada, mobilizando o velho tema do anticomunismo e a Comissão Nacional da Verdade?

Piero Leirner: A virada foi um pouco antes. O que aconteceu na verdade foi que, no último ano do governo Lula, em 2010, a Casa Civil – cuja ministra era a Dilma – começou a esboçar a Comissão da Verdade. E o que acontece nessa época? Começa a ter um zum-zum-zum de militares, e temos também o primeiro militar da ativa que sai para falar a questão da Comissão da Verdade. Quem é esse camarada aí? É o general Maynard Santa Rosa, que estava no governo até pouco. O general Maynard foi exonerado da função em que estava em 2010, foi jogado para escanteio – já houve aí uma pequena reação, entende? Eles ficaram incomodados com a Dilma. Quando ela se torna o projeto do Lula para a continuação do Partido dos Trabalhadores no governo, esses caras ficam de cabelo em pé. Essa história já tinha se espalhado.

E aí ela se elege em 2010 e, no final de 2011, oficializa a CNV. Já começa a tensão entre a CNV e os militares porque, entre outras coisas, um monte de oficiais da ativa, especialmente do Exército, eram parentes de militares que tiveram participação na ditadura. Se não era algo que atingia a pessoa física deles, no mínimo atingia a “pessoa familiar”, vamos dizer. E dentro desse conceito de família militar que eles têm, que é algo complicadíssimo.

Seja como for, isso vai pegando, e quem vai se manifestando são os de sempre – sempre ao redor do Clube Militar. E aí há de considerar outro processo, que são aqueles grupos que tinham ficado de escanteio logo na abertura, que tinham passado por um processo de “limpeza” produzido pelo Geisel, que pegou todo o porão da máquina de repressão e informação e jogou para fora da hierarquia – nenhum deles subiu para general, Brilhante Ustra, etc. Muitas dessas pessoas ficaram nesses grupelhos, associações “civis” – TERNUMA, Inconfidência, Guararapes. Cada vez que acontecia de um militar entrar em atrito com a política, ele corria para esses grupos. Quando houve aquela briga do general Heleno com o Lula em 2008, por causa da Raposa Serra do Sol – que é uma briga prototípica, digamos, quase um arquétipo – Heleno correu para o TERNUMA. E esses grupos todos orbitando o Clube Militar, desde sempre, que passa a ser uma espécie de válvula de escape, um lugar onde se começa a expressar uma contrariedade em relação à Comissão Nacional da Verdade, e eles lançam um manifesto, acho que no início de 2012.

A Dilma fala para o Celso Amorim, ministro da Defesa na época, que tire esse manifesto do Clube, o Amorim ordena ao general Enzo Martins Peri fazer isso, e o general passa um pito no Clube Militar, que é uma associação da reserva, entende? Eles refazem o manifesto, agora com a indignação de terem sido “calados” por uma ordem “autoritária” – percebe como começa a inversão do jogo? – e hospedam um novo manifesto na página da internet do Ustra, “A Verdade Sufocada”. Esse movimento do porão da ditadura sempre existiu, mas era marginal – Ustra, coisas que o Olavo de Carvalho escrevia. Eles até podiam ter uma entrada dentro dos militares, mas não era algo assumido. São 800 coronéis que assinaram esse manifesto, não sei quantos generais, da reserva, da ativa, de tudo que é lugar. Aí você percebe que, bom, a guerra estava declarada.

Mas não foi só isso. Foi uma série de preocupações que eles estavam nutrindo. Por que? Somava-se isso a coisa das ONGs, da Amazônia, da “dissolução da família, dos valores”, por coisa de gays, etc. Aí vão começando a fabricar uma meleca, é assim que começam a ativar uma teoria interna, que parece ser algo que compram, mas na verdade fazem um rearranjo dela para os próprios propósitos, que é essa ideia da Guerra Híbrida. De que na verdade o centro emissor da Guerra Híbrida no Brasil eram o PT e o Governo Federal. Não é doido um negócio desses? Uma Guerra Híbrida produzida pelo núcleo do poder de um Estado? Mas é o que eles diziam: que o objetivo final do PT era dividir o País e aniquilar as Forças Armadas. E é isso o que eles pensam até hoje.

Revista Opera: Isso tem muitas semelhanças com certas leituras que eles faziam na década de 90 em relação a 1964. E é algo na verdade até anterior, porque na década de 50 eles falavam disso, usavam um termo engraçado pra quem seria pró-Getúlio, que era “Gregórios”, em referência ao Gregório Fortunato, chefe da guarda do Getúlio. Em 1964, há uma continuação, esses “Gregórios” agora chegam ao poder com João Goulart, e eles querem “comunizar o Brasil”, etc. Você vê essas semelhanças?

Piero Leirner: Sempre fazendo microatualizações, mas a coisa vem sempre em uma linha de continuidade. Em 1935, por exemplo, a Intentona Comunista vira uma espécie de “mito de origem” na cabeça deles. Em 1961 eles começam a falar de Guerra Revolucionária, e conseguem plasmar o anticomunismo nessa história. Aí vem 1964, depois a coisa esfria – mas a Amazônia está ali, entendeu? Ressuscitam a questão, mas invertendo o sinal: dizendo que o Exército teria que agir como uma resistência colonial contra os interesses das grandes potências. E o que fazem a partir de 2010? Começam a inventar a ideia de que o comunismo internacional estaria plasmado com o globalismo, que é um pouco essa ideia do Olavo de Carvalho. Então a resistência teria que ser contra esse comunismo que estaria embutido, “invisível”, eles gostam de dizer “homiziado” – têm uns termos assim – no interior da ideologia globalista, mas com os propósitos de fazer um “comunismo 2.0” vingar aqui no Brasil.

Então eles vêem a Dilma, o aspecto direto, e o aspecto indireto na ideia de que ela estaria disposta a vender o Brasil para a China. O que eles tiram do chapéu, para dar conta dessa realidade? A história da Guerra Híbrida. Pegam os paladinos das Forças Especiais, como o general Álvaro Pinheiro, que foi na Comissão da Verdade, porque participou no Araguaia, e que é alguém que estava introduzindo essa ideia sobre a Guerra Híbrida. Como eles lêem a Guerra Híbrida? Pensam como algo que gera a dissolução entre as fronteiras da guerra e da política, e que dilui militares e civis, galvanizando terrorismo, organizações criminosas e interesses anti-nacionais globalistas. Vira tudo uma coisa só, e eles começam a dizer que há uma suposta associação entre PT, FARC, Hezbollah e PCC, como um “grande projeto” de transformação do Brasil em uma espécie de Colômbia sob domínio chinês, onde as oligarquias instituiriam um comunismo chinês 2.0. Então tem essa história toda que começa a ganhar corpo. Um comunismo difuso, ressuscitando várias teorias, e agora pondo esse verniz novo da Guerra Híbrida, como se adicionassem um personagem numa historinha, para dar consistência a ela. Quando cruza a ideia de que o PT seria uma organização criminosa, é tudo que eles precisavam, porque casa com a teoria que eles estavam lendo a partir de Washington.

Revista Opera: Sobre esse cenário caótico, de vários acontecimentos que por vezes sequer conseguimos recompor, uma coisa que me chamou atenção na sua tese é que você menciona como o general Heleno diz que ao longo da carreira ele consolidou uma “longa experiência” trabalhando com a imprensa, foi até consultor de um grupo, parece. Isso é interessante porque aquela briga com o Congresso, que começou pouco antes da chegada da pandemia, foi justamente por causa de um “vazamento” de uma conversa em que ele dizia que o Congresso estava chantageando o governo. A senha para esse conflito entre governo e Congresso, que agora chega até o STF, foi dada por ele.

Piero Leirner: Claro. E ele soube o momento certo de recuar e parar de aparecer. Antes o que ele estava fazendo? Assumiu o protagonismo, estava sempre à direita do Bolsonaro, sentado, dando a palavra final. Quando a corda começou a esticar para valer, ele recuou. Botam o Braga Netto em uma chamada posição de “presidente operacional”, e o Bolsonaro começa a elevar o grau de tensão dos raios que caem na própria cabeça. É impressionante o jogo do Heleno. Há uma entrevista para estudantes de jornalismo em que ele diz que “tomou muito gosto por esse negócio de comunicação”.

Agora, a bomba mesmo eu vi recentemente, algo que eu nunca tinha me dado conta. O discurso de saída do general Rego Barros para assumir como porta-voz da Presidência da República, em fevereiro de 2019. A frase é simplesmente inacreditável: “Coube ao Exército mergulhar de cabeça no submundo das mídias sociais – Facebook, Instagram, Twitter, Whatsapp, portal responsivo, e-blog, etc., e se tornar o órgão público com maior influência no mundo digital no Brasil. Exigiu sangue frio e interlocução sem rosto, típica da internet […]”. Literalmente dizendo que o Exército foi para o submundo do Whatsapp. Esse negócio do “gabinete do ódio” é uma lorota. Botam o Bolsonaro e os filhos como os bois-de-piranha. Para mim ficou claríssimo que esse problema todo, que está no STF agora por conta das fake news do Whatsapp, em que o Bolsonaro aparece querendo proteger os filhos, no fundo interessa a quem? Interessa ao Exército. Porque os camufla de terem feito uma operação nessa coisa do Whatsapp. Está claro no discurso do Rego Barros, é impressionante.

Revista Opera: A despeito das diferenças pessoais que cada militar tem em relação a outro militar, eles têm uma noção de espírito de corpo que é bastante diferente do que vemos em partidos, por exemplo. Me pergunto se para eles é necessário realmente que conquistem a presidência, porque não precisam disso em última instância para operacionalizar a política. Como você vê as demissões de militares, que muitos argumentam ser uma derrota deles? E precisamos de fato ter o Mourão como presidente para ter um “governo militar”?
Piero Leirner: Primeiro as demissões: como disse sobre Santos Cruz, eles têm um mecanismo de válvula de escape, que já está um pouco pré-programado; com ou sem os demitidos terem ciência disso. Eu não sei por exemplo se o Santos Cruz é esse gênio todo, como dizem, para saber que ele estava indo em direção a uma fogueira que já estava armada. Aos poucos eles vão enxotando alguns militares e colocando outros em posições-chave – como se estivessem na oposição, para acentuar a ideia de que têm um aspecto técnico e neutro. Essas pessoas viram uma oposição controlada e potencial, para o futuro – sabe Deus se em 2022 ou o quê. Esse é o primeiro ponto: Moro e Santos Cruz são quase duas faces da mesma moeda.

E aí lucram nessa operação, jogando no colo do Bolsonaro e na família dele a ideia de que são completamente irascíveis, de que a loucura parte deles, que há um problema de personalidade, de que é tudo reflexo de uma chamada “ala ideológica” que é incontrolável e irracional, enquanto, por contraste, os militares são iluminados como salvadores da Pátria.

O que engata na segunda pergunta: agora estão em uma posição em que não aparecem como os emissores do caos, mas como a solução de ordem – como se eles não estivessem lá. E para isso eles têm de ocupar todas as posições do cenário.

Qual é o plano, então? Se eu fosse pensar em uma metáfora, que é aquela com a qual eu finalizo a tese, é que se isso fosse um sistema de computação, eles farão uma espécie de reinicialização, em que o computador é reiniciado em modo de segurança, são os administradores, que dizem o que pode e o que não pode operar no sistema. Não é todo programa que está instalado que vai rodar, entende? Primeiro a tomada do aparelho do Estado – aparelhar o Estado o máximo possível, isso eles já estão fazendo. Segundo, o processo – que é mais complicado – de “conversão ideológica” das pessoas. Algo mais complexo, mas considerando que eles tentam se colocar como elementos de mediação, de meio-termo, de bom senso, sensatos, nós vamos ver crescentemente eles aparecendo como “meio” entre dois polos radicais. Não é à toa que há quem esteja nesse esforço desesperado em dizer que Bolsonaro e Lula são a mesma coisa, para sugerir que o Brasil tem de “sair dos extremos” e eles se colocarem como força de coesão ideológica.

Então eu acho que é isso: primeiro um processo de aparelhamento de fato e depois vão para uma solução cultural de estilo “gramsciana” (falo ironicamente). Acho então que, a princípio, era melhor para eles manter o Bolsonaro até o fim do mandato, porque esse edifício continua todo de pé. Agora, é óbvio que em um campo cheio de incertezas, como a gente está, talvez não dê para segurar ele. As pessoas me perguntam: “Ele vai cair? Vai ter golpe?” – essa é a pergunta mais absurda, se vai ter golpe. Eu sempre falo: “Amigo, você acha que aconteceu o que? Recua aí na tua cabeça e se pergunte se teve!”. Então tendo a achar, sim, que o melhor seria manter a solução como está – mas concordo com você, meio que tanto faz. O ponto para eles é controlar o processo todo, como administradores do sistema; quem entra e quem sai. Aí, de fato, a posição de presidente é a que menos conta.

Revista Opera: Um outro ponto abordado na tese é a posição que o general Etchegoyen manteve dentro do governo Temer. Porque quando o Temer entra, ele reergue o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e o Etchegoyen fica responsável por isso. No meio de uma crise gerada por aquela gravação do Joesley, algo que no mínimo seria um descuido do GSI, é justamente Etchegoyen quem sai como homem forte e, até certo ponto, mantém o governo em pé.

Piero Leirner: Sim. Isso em 2017, até que eles arrematam isso em 2018 com a intervenção no Rio. Aí não sobra nada em pé, porque neutralizam completamente o governo Temer, e toda possibilidade do PSDB, por exemplo, conduzir uma transição para uma eleição em que eles estariam capitalizados. Porque durante a intervenção não tem mais Congresso para fazer votação de Reforma da Previdência, e esse era o grande ativo. Essa enorme psy-op (operação psicológica) no Rio de Janeiro serve para eles irem testando a ideia de intervenção militar como solução. Isso já está colocado no inconsciente das pessoas. E não é à toa que o Braga Netto, que era interventor, esteja hoje na posição que está. Interessantíssimo também o discurso de despedida do cargo do Villas Bôas, algo que não tinha me dado conta, onde ele diz que o Brasil tem três heróis nacionais: Bolsonaro, que tinha permitido nos livrarmos do comunismo, o Moro, que estava limpando a corrupção, e o Braga Netto – que ele deixa suspenso no ar. Ninguém deu bola para isso, quando ele falou isso o Braga Netto não era ainda o chamado “presidente operacional” do Brasil [risos]. Isso sugere que foi parte da armação, realmente começaram a construir isso, viram a janela de oportunidade para valer com o Temer assumindo.

Revista Opera: Como você avalia a postura dos últimos governos petistas em relação aos militares? Porque vendo o processo histórico a partir de 2016, fica evidente que o PT manteve, durante todo o tempo, uma postura quase que de anestesia em relação aos militares, como se eles não pudessem mais aparecer como atores na política. E mesmo quando apareciam – por exemplo com os tuítes do Villas Bôas, ou com a movimentação sobre a Comissão da Verdade – parece que ninguém levava isso a sério, o governo não levou a sério.

Piero Leirner: Você usou a palavra certa: é anestesia. Se blindaram para olhar o mundo, não viram um monte de coisas. Mas com os militares é talvez a postura mais absurda de todas; porque eles acharam, de fato, que poderiam prescindir deles. E talvez o que tenha acontecido tenha sido um processo narcísico tão absurdo, por conta de um governo que estava dando certo, que eles não perceberam que o tapete estava sendo puxado debaixo. Uma coisa é dizer: “Mas o Lula ouvia o conselho dos generais”. Mas ele tinha um serviço de informações decente? Ele tinha gente que falava o que estava se passando de A a Z? Tinha preocupação em ver o que estava sendo ensinado dentro das academias militares? Tinha preocupação em participar dos eventos militares, que é algo que para eles é dar doce para criança? Os militares diziam isso, em 2013, 2014: falavam de eventos em que os cadetes ficaram horas esperando debaixo do sol esperando alguém do governo chegar… Isso ia criando um ódio dentro deles. E eles começaram a sabotar. E então veio a Lava-Jato, o pessoal abrindo a porteira para a espionagem norte-americana. Furaram o que já era uma peneira, não é? E isso culminou com a Dilma querendo peitar eles; extinguindo o GSI, etc. E aí veio aquele grampo – que eu acho que era ambiental, não era no telefone do Lula, porque se ouve tudo o que estava se passando no gabinete antes do Lula atender a ligação – um absurdo, a imprensa obliterou isso, e não vi sequer o PT fazendo o escândalo que merecia. É a mesma história do Joesley; o GSI permitiu esse furo, que acabou com o governo do Temer. Então eu não sei, creio que foi de uma irresponsabilidade completa. Não leram Maquiavel: é preciso ter boas leis e boas armas. Fizeram leis terríveis e não deram bola nenhuma para as armas. Sobrou o que sobrou. Se eu acho que tem alguma coisa nesse sentido, de que é necessário a eles tirar os esqueletos do armário e fazer a autocrítica, é essa: “não prestamos atenção nos setores essenciais”. Vai além, mas aí é só ir tirando uma carta de cima da outra. Deixaram uma juristocracia condescendente tomar conta do partido, se estabelecendo como hegemônica, e ao mesmo tempo não prestaram atenção na questão mais essencial que poderia segurar o governo, como segurou o governo Temer até o fim. Por que Temer não caiu? Porque eles não deixaram. Só por isso. E foi assim que se instalaram no Planalto.


quinta-feira, 14 de maio de 2020

“As milícias bolsonaristas não vão aceitar a derrota e as esquerdas precisam se precaver”, diz historiador

Por Laércio Portela



Bolsonaro constituiu um dispositivo de milicianos e paramilicianos ligados às polícias militares que não vão aceitar a alternância de poder em caso de derrota no projeto de reeleição do atual presidente. A análise é do historiador Daniel Aarão Reis, professor da pós-graduação em História na Universidade Federal Fluminense (UFF), especialista em revoluções socialistas no século XX e pesquisador das esquerdas e da ditadura de 1964 no Brasil.

Aarão Reis compara o que pode acontecer em 2022 com a ação dos grupos radicais que se mobilizaram no final dos anos 1970 para desestabilizar o processo de transição para a democracia no país, praticando uma série de atentados. “É um pessoal truculento, agressivo e tá muito autoconfiante. Têm armas na mão e, provavelmente, vão usá-las se não forem dissuadidos”.

Autor de livros de referência sobre a ditadura militar no Brasil, Daniel Aarão Reis critica em entrevista à Marco Zero Conteúdo a postura dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff em relação às Forças Armadas brasileiras. “Nunca houve uma investida séria em chamar as Forças Armadas para discutir seu papel na democracia e reformular os seus currículos. Os governos sempre foram muito lenientes e civicamente covardes de enfrentar essas coisas”, analisa o historiador, contrapondo o Brasil ao que aconteceu no governo Néstor Kirchner, na Argentina, quando o Estado pediu desculpas públicas pelos crimes cometidos durante o regime de exceção.

Para Aarão, existem pelo menos três dimensões de análise para entender a ascensão de Bolsonaro até a Presidência da República: as tradições estruturais do autoritarismo no Brasil, a longa conjuntura (a partir do processo de redemocratização até 2018) e a conjuntura curta (a eleição presidencial propriamente). Teria contribuído decisivamente para a derrota, o fato de as esquerdas subestimarem o debate em torno da corrupção e da segurança pública. “São temas que extravasaram a classe média e atingem hoje as camadas populares. Questões de vida e morte… porque afetam a saúde, a educação, a democracia”.

Aarão lança uma provocação: “Todo mundo fala em derrubar o Bolsonaro, mas para fazer o que exatamente? Para voltar a aquelas alianças com as forças do atraso? As forças democráticas têm que apresentar um programa que seduza a população… A minha esperança é que venham articulações para defender a educação pública, para defender a ciência, políticas alternativas para enfrentar as desigualdades. Esse é o desafio das esquerdas e eu sou cético das possibilidades dos partidos, a chamada esquerda de Estado. Ou a esquerda social – sociedade civil, fóruns – vai formular e implementar essas alternativas ou então nós estamos mal”.

O quanto nossa transição democrática conciliatória – lenta, gradual e segura – que não questionou e debateu abertamente os crimes da ditadura militar tem a ver com a retomada desse discurso da extrema direita no Brasil e os pedidos de intervenção militar?

Eu venho há muitos anos tentando chamar atenção para as correntes autoritárias da sociedade brasileira, que inclusive atravessam a sociedade de alto a baixo, não estão só presentes nas elites sociais. Uma tendência geral que é muito autoritária e estrutural. A partir do bolsonarismo, as pessoas passaram a reconhecer essa evidência. Eu fico feliz. É difícil você superar um problema quando sequer admite a existência dele. No entanto, a partir daí gerou-se uma perspectiva que não é muito construtiva porque vai de um extremo para outro. Antes, as tendências autoritárias sequer eram reconhecidas, agora passam a ideia de que esse país tem o autoritarismo na veia, de sorte que se elimina a política da história, como se o bolsonarismo fosse uma expressão mecânica dessa tradição. O que é uma incongruência porque essa mesma sociedade elegeu e reelegeu Fernando Henrique Cardoso, elegeu e reelegeu Lula, elegeu e reelegeu Dilma. Foi quando muita gente disse que as tendências autoritárias tinham acabado. Teriam sido absorvidas pelo processo da democratização. Antes disso, nos anos 1970, em seminários no Brasil e na América Latina, atribuíam-se as ditaduras no Brasil às nossas tradições ibéricas. Isso era então muito desanimador porque, se a gente está preso às tradições ibéricas, a gente não vai sair dessas tradições tão cedo. Até que a península ibérica, tanto a Espanha quanto Portugal, passaram por processos de democratização. E agora, vamos dizer então que as tradições ibéricas foram eliminadas? Não, elas continuam presentes. Mas ao tratar das questões estruturais você não pode eliminar a política da história. As tradições estruturais pesam, mas elas não resumem a história em termos exaustivos.

E como essa reflexão pode explicar o bolsonarismo?

Para a compreensão do bolsonarismo eu tenho introduzido a necessidade de refletir sobre duas outras dimensões, sem desprezar essa tradição estrutural. Uma delas é o que eu chamo da grande conjuntura, que vai desde o processo da transição para a democracia até o ano de 2018, quando houve as eleições que consagraram Bolsonaro. É uma grande conjuntura de 30 anos, no contexto da qual você teve muitas decisões políticas que foram contribuindo gradativamente para, de um lado, a manutenção dessas tradições autoritárias e, de outro lado, uma certa desilusão do sistema que foi sendo construído com base na Constituição de 1988. Esse sistema já teve muito prestígio, já teve muita adesão, mas progressivamente a confiança nele foi sendo corroída e isso, ao meu ver, deveu-se ao fato de que o nosso processo de redemocratização, a chamada Nova República, gerou dois partidos com vocações reformistas, o PT e o PSDB. Esses dois partidos nasceram anunciando projetos reformistas e, ao longo do tempo em que governaram, apesar de terem realizados algumas coisas bem positivas, eles não conseguiram empreender as reformas que anunciavam e que a população esperava. Reformas que pudessem realmente transformar esse país, que apresenta índices de desigualdade dos mais extremados no mundo. A reforma política é um exemplo. Um amigo meu, o Carlos Vainer (sociólogo e economista), cunha uma expressão com a qual eu comecei a trabalhar. Referindo-se às esquerdas institucionais, aos partidos políticos, ele fala de uma “esquerda de Estado” à qual ele antepõe uma “esquerda social”. A esquerda de Estado foi essa esquerda que se deixou recrutar, cooptar pelo jogo institucional, pelos calendários eleitorais. E foi perdendo gradativamente o contato com a sociedade. Eu trabalhei 35 anos na universidade, ainda trabalho na pós-graduação, e fui observando essa gradual perda de esperança da juventude. Isso também é muito claro nos estratos populares.

Uma desilusão…

O PT e o PSDB não foram capazes de articular uma aliança entre eles e cada um deles, ao seu modo, procurou o que havia de pior nas tradições brasileiras para se fortalecer no jogo institucional e foram contaminados por isso. De partidos reformistas se transformaram em partidos gestores, sempre com a ressalva de que eles, ao gerenciar a sociedade, fizeram melhor do que as chamadas forças do atraso, mas ao se alinharem a essas forças do atraso perderam a perspectiva de uma reforma política, de uma reforma econômica, de uma reforma tributária, uma reforma das polícias, do sistema penitenciário… Esse tipo de comportamento foi fazendo com que eles acabassem sendo compreendidos como um entre os outros.

Perdendo aderência na sociedade?

Eles foram perdendo o capital daquilo que os diferenciava. Eles nunca se interessaram em abrir uma discussão na sociedade sobre a ditadura, sobre as tradições autoritárias, sobre as Forças Armadas. As Forças Armadas mantiveram-se afastadas, remoendo seus ressentimentos, e formando as suas lideranças em padrões totalmente anacrônicos e autoritários. Nunca houve uma investida séria em chamar as Forças Armadas para discutir seu papel na democracia e reformular os seus currículos. Os governos sempre foram muito lenientes e civicamente covardes de enfrentar essas coisas. A ideia era: deixemo-las de lado e com o tempo a gente vai fazendo as mudanças. As mudanças iam acontecer naturalmente, mas nada na história acontece naturalmente. A intervenção humana é fundamental e eles ficaram lá remoendo esses ressentimentos. Eu me lembro a primeira vez que fui impactado por isso, nos anos 1990, quando li no jornal que os cadetes da Academia das Agulhas Negras escolheram como patrono o general Médici (Emílio Garrastazu MédicI, general-presidente entre 1969 e 1974). Como os jovens que estão se formando podem ter como patrono o que a ditadura tinha de mais sinistro? Isso significa que está havendo zero de discussão democrática dentro das Forças Armadas. Os governos civis não exigiram que isso fosse feito, de sorte que as Forças Armadas voltassem a ser o que eram antes de 1964, Forças Armadas plurais, onde havia uma discussão, onde havia tendências políticas diferenciadas. Mas a ideia era fazer que nem avestruz: meter a cabeça no chão e fingir que não havia um processo altamente deletério.

Ignorar o passado acabou fortalecendo a posição das Forças Armadas no presente?

A tal da GLO, Garantia da Lei e da Ordem, que foi um princípio autoritário inscrito na nossa Constituição e permite aos presidentes dos poderes chamar as Forças Armadas para garantir a lei e a ordem, pois bem, os governos petistas cansaram de fazer isso, inclusive colaborando com que as Forças Armadas fossem reobtendo um prestígio, vistas como aquelas “forças impolutas” – que faz muito o ideário das Forças Armadas brasileiras desde a proclamação da República. Os militares sempre se viram como vetores da República, como anjos da guarda da República, e isso é totalmente antirepublicano e antidemocrático. Ao invés dos governos do PSDB e do PT lidarem com isso, enfrentarem isso, enquanto eles tinham força e enquanto os generais de direita nas Forças Armadas não tinham força, eles não se mexeram. Isso foi feito com muita coragem cívica na Argentina. O Kichnner (Néstor Kirchner, presidente argentino entre 2003 e 2007), quando assumiu, chamou lá o ministro e disse: “você vai pedir desculpas à sociedade pelas arbitrariedades, pelos assassinatos..” e o ministro se recusou, foi demitido e veio outro… E daí por diante, quando veio o oitavo, o oitavo decidiu “eu acho isso razoável, eu não estou comprometido com essas matanças e acho que as Forças Armadas fizeram mal” e pediu desculpas. Aí você tem um processo de outra natureza. Não houve uma discussão dessas tendências autoritárias no Brasil, inclusive muitos acadêmicos que hoje reconhecem essas tendências dizem que antes não viram. Não viram porque não quiseram. Diziam que a democracia estava consolidada. Lula, Dilma, políticos, acadêmicos viviam dizendo isso, sem perceber que ali estavam as células autoritárias, cancerosas, à espera de um momento que lhes fosse favorável e esse momento chegou a partir da crise de 2008.

A crise de 2008 criou as condições para a volta do protagonismo do autoritarismo?

A crise de 2008 aprofundou as questões econômicas, o desemprego, a insegurança… Isso tudo foi contribuindo gradativamente para que a extrema-direita voltasse a ter voz. Ela, que nunca tinha exatamente desaparecido, ganhou força.

E o bolsonarismo?

Para entendermos o bolsonarismo, precisamos de uma terceira dimensão, além dessa da grande conjuntura. Uma dimensão mais concreta que é a conjuntura eleitoral do ano de 2018. Se você observar bem, em agosto de 2018, Bolsonaro ainda tinha de 15 a 20% de votos e muita gente não acreditava que ele pudesse crescer tanto a ponto de ganhar, e aí é que entra a necessidade de analisar a conjuntura curta. Temos as tradições autoritárias, a longa conjuntura, e a conjuntura curta que foi decisiva. Ao meu ver, a gente precisa discutir os erros que aconteceram na esquerda e os acertos de Bolsonaro para entendermos a vitória dele. Ele realmente tem aquele núcleo duro da extrema-direita que as pesquisas fixam em 12, 15, algumas dizem 20%, mas não passa disso. Acontece que ele ganhou as eleições com mais de 50%. O principal erro das esquerdas foi subestimar a força do bolsonarismo. A insistência em manter a candidatura Lula, depois fizeram do Haddad, no primeiro turno, um boneco do Lula. Todo mundo colocava a máscara do Lula no Haddad ou nas suas próprias figuras, de sorte que isso aí acabou tendo um efeito negativo. Eu penso que a incapacidade das esquerdas comporem uma frente para enfrentar o perigo bolsonarista foi muito decisiva para explicar a ascensão da extrema-direita.

O discurso de Bolsonaro obteve mais adesão do que o das esquerdas.

Foi decisiva a subestimação de alguns problemas que foram se tornando centrais e para os quais Bolsonaro apresentava falsas soluções, mas dizia que iria solucioná-los. Dois problemas que afetavam muito as classes populares e as classes médias. A questão da corrupção e a questão da segurança. As esquerdas sempre subestimaram a questão da corrupção, dizendo que essa questão era uma questão das elites, uma tradição da UDN, e era mesmo, só que extravasou muito além das classes médias para atingir as camadas populares. Essa ideia do sistema político brasileiro como corrupto, apodrecido, isso é um consenso que se estabelece muito para além da classe média. As esquerdas poderiam ter tido uma crítica a isso e uma autocrítica. É uma questão de vida e morte. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, desviaram os recursos da saúde para o bolso dos políticos ligados a Sérgio Cabral (ex-governador do Rio entre 2007 e 2014). Em muitos outros lugares do Brasil isso aconteceu, então é uma questão que impacta a educação, é uma questão que impacta a democracia porque desmoraliza a democracia. Fica parecendo que o sistema político é um sistema ocupado por ladrões. Bolsonaro surge – apesar de todas as evidências que o comprometiam com processos de corrupção – como o salvador da pátria. Nesse ponto de vista, reeditando discursos que tinham sido feitos no Brasil por Collor (Fernando Collor de Melo, presidente entre 1990 e 1992) e pelo Jânio Quadros (presidente eleito em 1960 e que renunciou em 1961). E esse não é um discurso só de classe média, é um discurso que tem ressonância popular.

E a questão da segurança?

A segurança passou a ser, nos grandes centros urbanos, e não só neles, o grande problema. Se as classes médias e as elites conseguem colocar grades e vigilantes nos condomínios, as classes populares estão à mercê dos bandidos e dos traficantes e sofrem demais com isso. Esses bandidos atacam também as camadas populares, quando entram em conflito entre eles mesmo, matando gente, interrompendo as aulas nas escolas, fechando os postos de saúde. Você não pode imaginar que uma criança e um jovem que deixam de ir à escola por causa de um tiroteio num dia, no dia seguinte vão à escola como se nada tivesse acontecido. Há um trauma. As esquerdas tinham uma ênfase justa nos direitos humanos, mas elas não contemplaram reformas no sistema penitenciário e reformas no sistema da ação da polícia. Se você faz uma comparação, os governos de esquerda não se distinguem dos governos de direita do ponto de vista da ação da Polícia Militar, do combate ao tráfico de drogas. E Bolsonaro vinha com uma proposta absolutamente absurda, primária – “a gente mata os bandidos” -, fazendo aquele gesto da arminha toda hora, e aquilo impactou muito.

A esquerda deixou de fazer outros debates importantes?

O terceiro elemento que eu acho que foi muito pouco discutido pelas esquerdas foi o diálogo com as igrejas evangélicas, que cresceram muito no país. As esquerdas fizeram como fizeram com as Forças Armadas. Esses grandes caciques das igrejas evangélicas, os Malafaia da vida, foram aquinhoados com meios de comunicação. O Lula, a Dilma e o Fernando Henrique Cardoso iam lá beijar as mãos deles, legitimar a liderança dessa gente. Ao invés de entrar em discussão, porque os milhares de pastores dessas igrejas não são todos necessariamente de direita e desempenham um papel importante. Na medida em que o Estado deixa de aparecer em algumas regiões, eles ali vão criando redes de apoio mútuo de solidariedade que são muito importante. E aí você oblitera uma dimensão da realidade fundamental para ficar lá com seus próprios preconceitos. Esses erros todos foram se acumulando e corroendo as bases eleitorais das esquerdas, enquanto Bolsonaro foi muito rápido em constituir alianças, tanto do ponto de vista da luta contra a corrupção quanto do ponto de vista da luta pela segurança e também articulou o apoio do capital financeiro junto com o Paulo Guedes. A vitória de Bolsonaro não estava dada, ela foi construída, apoiada nas grandes tradições autoritárias, mas também na progressiva corrosão da confiança no sistema político, na grande conjuntura, e, finalmente, na curta conjuntura. É da união dessas três dimensões que podemos entender porque esse homem tão tosco e absurdamente grosseiro assumiu a Presidência da República.

Até que ponto uma derrota de Donald Trump na eleição presidencial deste ano nos Estados Unidos pode impactar os governos autoritários pelo mundo e, especificamente, o governo Bolsonaro no Brasil?

Nós estamos vivendo desde os anos 1960 um processo profundo de desestruturação geral da economia, da sociedade, da cultura, da política, a revolução digital, da informação. Outro dia o Márcio Pochmann (economista, ex-presidente do Ipea) dizia que o Brasil de uns 40 anos pra cá mudou completamente. Ele começava com a análise do berço operário do Lula, lá no ABC Paulista, e que hoje desapareceu. Aquelas empresas já foram quase todas elas robotizadas, ou migraram para outros lugares. Essa revolução digital está desestruturando tudo. As pessoas sentem o chão tremer, vacilar, e esse é um processo mundial que está favorecendo em toda parte o crescimento de tendências autoritárias porque elas crescem nessas ocasiões de desespero, de desesperança, de crise de identidade. Você tem milhões e milhões de pessoas jogadas no desespero, e essa gente tem um potencial grande de apoiar os líderes salvacionistas, que aparecem em toda a parte, às vezes até responsabilizando o capital financeiro, os plutocratas, responsabilizando a riqueza, os comunistas, qualquer coisa, de modo a que você tenha ali uma tábua de salvação. O crescimento das governanças autoritárias é um fenômeno mundial e o Trump está nesse contexto e, ele ganhando, potencializa enormemente o contexto em função da importância dos Estados Unidos. Bolsonaro é a expressão radical desse processo aqui no Brasil e isso se vê na sua atitude muito dependente, sabuja mesmo, com o Trump. Essa coisa de bater continência à bandeira norte-americana, de estar sempre ali adulando o Trump, de uma maneira até constrangedora… Evidentemente uma derrota do Trump vai ter um impacto bastante positivo para as forças democráticas em toda a parte aqui da América Latina e do Brasil em particular.

O sr. acha que as esquerdas ainda vivem a “utopia do impasse” como no começo da ditadura de 1964, quando apostavam que o regime militar não ia se sustentar, que estava fadado a cair. Muitos setores da esquerda hoje parecem pensar assim sobre o governo Bolsonaro, como pensaram antes sobre o governo Temer.

Quando formulei essa ideia da “utopia do impasse” foi muito para entender aquela esquerda que a gente tinha e que se formou logo depois do golpe de 1964 e que foi uma esquerda que passou a alimentar um ceticismo muito grande a qualquer hipótese de mudança na ditadura que não fosse na luta armada. A ideia que a gente tinha, e eu fui um militante daquela época, era de que a ditadura tendia a piorar cada vez mais. Nesse sentido, quando veio o AI-5, até a gente achou que estávamos certos e que ia piorar. Mas não vimos ali duas coisas, que aquele sistema podia sim evoluir em outras circunstâncias e, segundo, que a sociedade, as camadas populares, principalmente, não estavam a fim de nos acompanhar no enfrentamento armado. A gente não teve essa sensibilidade. A ideia que a gente tinha era a de que o povo estava nos cascos, pronto a nos acompanhar se houvesse uma ação de vanguarda. Foi um raciocínio completamente equivocado e por isso nós pagamos caro.

E no caso do governo Bolsonaro?

Às vezes me impressiona muito essa obsessão com Bolsonaro. Ela é uma imposição das circunstâncias, mas às vezes as esquerdas ficam muito a reboque disso, sempre comentado a última do Bolsonaro, quando a gente tem que investir na recomposição das forças democráticas, na recomposição das alianças e da formulação de um programa alternativo ao Bolsonaro. Todo mundo fala em derrubar o Bolsonaro, mas para fazer o que exatamente? Para voltar o lulismo? Para voltar aquela política de ampla conciliação de classes da esquerda petista? Para voltar a aquelas alianças com as forças do atraso? As forças democráticas têm que apresentar um programa que seduza a população. A população hoje está aí encurralada com a pandemia, mas mesmo assim é impressionante como Bolsonaro mantém 30% de apoio da população. Você tem que apresentar uma alternativa. Tudo bem, é preciso denunciar o Bolsonaro, mas o que é que a gente tem a dizer de novo, de alternativo?

O sr. acredita na capacidade dos partidos de esquerda de formularem essa alternativa?

Eu me pergunto é se os partidos políticos de esquerda vão ser capazes disso. Eu estou cada vez mais achando que é da chamada esquerda social que a gente deve esperar um movimento decisivo. A minha esperança vai mais é para que a sociedade civil, fóruns, articulações da sociedade civil, comecem a se formar, porque elas terão uma credibilidade muito maior do que os partidos de esquerda, que estão muito envolvidos no calendário eleitoral, nesses conchavos. A minha esperança é que venham articulações para defender a educação pública, para defender a ciência, políticas alternativas para enfrentar as desigualdades. Esse é o desafio das esquerdas e eu sou cético das possibilidades dos partidos, a chamada esquerda de Estado. Ou a esquerda social vai formular e implementar essas alternativas ou então nós estamos mal. Essa é minha esperança em relação às esquerdas.

O que acha do modus operandi de Bolsonaro? Ele está sempre tensionando as instituições, promovendo uma retórica de que o Executivo está tendo seus preceitos constitucionais invadidos pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Congresso Nacional. Chegou a dizer que ele é a Constituição e que detém o apoio das Forças Armadas. Está em curso um autogolpe? Nos moldes de um Estado de direito autoritário, como o sr. apontou no primeiro momento do regime militar de 1964, antes da fase da ditadura escancarada?

Você vê essa perspectiva em muitos lugares do mundo. Na Rússia, na Hungria… As lideranças autoritárias, sem golpear a Constituição, às vezes vão mudando as coisas… Você veja que o primeiro-ministro da Hungria (Viktor Orbán) conseguiu passar no Parlamento, onde ele tem maioria, um decreto que prorroga por tempo indeterminado os plenos poderes. Ele não mudou a Constituição, mas aprovou medidas que acabam concentrando nas suas mãos muito poder. Acho que a gente está arriscado realmente a viver isso. A democracia no Brasil está em risco. Bolsonaro está fazendo no Brasil muitas coisas nesse sentido, de emparedar as outras instituições, sempre com esse argumento, que é o argumento que ele vai usar na campanha eleitoral de 2022, de que “eu quis fazer mas não deixaram…”. Os líderes salvacionistas sempre recorrem a essa coisa. Como eles são eleitos na base de um programa muito simplista, que não funciona, quando se vêm emparedados, eles tendem a esse discurso. Aconteceu com Jânio Quadro, com Collor… Então Bolsonaro vai utilizar esse tipo de discurso intensamente em 2022, se a gente chegar até lá. “Não me deixaram governar, me deem um voto de confiança” e vai, naturalmente, propor que ele tenha uma concentração de poderes para ele aprovar o que for necessário no Parlamento.

Vê a possibilidade de um autogolpe antes das eleições?

Eu penso que, para a conjuntura atual, um golpe ou um autogolpe não seja muito viável, mas se houver uma conflagração social, sim, essa hipótese pode se atualizar. Mas no momento atual eu acho que não. Eu até estou surpreso com isso. Eu imaginava que Bolsonaro ia tratorar o Congresso e o Supremo. E está acontecendo o contrário, você tá vendo que, muito timidamente, tanto o Congresso quanto o Supremo, cortaram as asas dele, para impedir que ele vá mais longe. Naturalmente, ele vai utilizar isso depois: “eu quis fazer e não deixaram.” Para vencer esse discurso, as esquerdas estão desafiadas a apresentar um programa alternativo e não apenas denunciar Bolsonaro.

O sr. vê outras ameaças à ordem democrática?

Sim. Eu penso que Bolsonaro constituiu um dispositivo militar, que são as milícias e as paramilícias dentro das Polícias Militares e ele tem ali um apoio muito substancial. Eu estou seguro que esse dispositivo não vai aceitar pacificamente uma alternância de poder. Eu tenho a impressão de que, se Bolsonaro perder as eleições de 2022, essa gente vai partir pra ignorância. Vai partir pra uma explosão semelhante a aquela que as forças de segurança promoveram no final dos anos 1970, tentando impedir o processo de transição no Brasil, explodindo bombas, matando gente… Eu acho que esse dispositivo militar, que não é propriamente o dispositivo das Forças Armadas legais, mas é um dispositivo informal que é muito poderoso, está muito extremado, é muito agressivo e não vai hesitar em partir pra violência. As forças democráticas precisam se preparar para enfrentar isso porque se elas não se prepararem corremos o risco de ver muitas das nossas lideranças ceifadas, assassinadas, porque não tiveram a sabedoria de se precaver. Você vê muitas vezes o discurso dessa gente nas redes sociais. É um pessoal truculento, agressivo e tá muito autoconfiante. Tem armas na mão e, provavelmente, vão usá-las se não forem dissuadidos.

O sr. acredita na reeleição de Bolsonaro?

Do jeito que as coisas, vão eu não acredito na reeleição. Eu acho que Bolsonaro está lá com seu núcleo duro, mas tá perdendo gradativamente suas bases, na direita democrática e no centro, e que foram muito pra ele em função do anti-petismo. Mas as forças em torno dele não vão aceitar uma transição democrática tranquila.

E quanto às Forças Armadas? Hoje são nove os militares no primeiro escalão e mais de 2 mil militares nos segundo e terceiro escalões do governo Bolsonaro. Numa situação de confrontação aberta e de possível ruptura institucional de que lado elas vão ficar?

Eu sinto nos próprios especialistas em Forças Armadas uma certa perplexidade. Como aqueles pilotos que estão num vôo cego. Essa característica que você falou aí é verdade, centenas de oficiais do Exército migraram para órgãos de poder, mas isso quer dizer que as instituições vão estar do lado do Bolsonaro, por exemplo, num processo golpista? Nas circunstâncias atuais, eu acho difícil. Agora, também me recinto muito de uma informação minuciosa, mais clara, a respeito de como andam os humores, as tendências das Forças Armadas. A verdade é que a grande maioria dos militares votou em Bolsonaro, mas muito mais animadas pelo anti-petismo e com a expectativa de que elas iriam domesticar o homem. Essa perspectiva hoje está completamente vencida. Bolsonaro já mostrou que ele é incontrolável. Agora, as Forças Armadas vão ficar a reboque dele? Até quando? Até que limite? Isso é um ponto de interrogação que se coloca aí. Alguns argumentam que mesmo que elas fiquem neutras, você pode ter um golpe efetuado pelas milícias. Num padrão boliviano. Lá, as Forças Armadas ficaram nos quartéis, a polícia também. E atuaram as milícias.

Acha possível essa postura no Brasil?

Eu acho que o Brasil é um país muito complexo para isso. Se as milícias atuam, elas vão querer depois ter uma força correspondente e esse é um nó que tem aí entre as forças de apoio ao Bolsonaro porque as Forças Armadas são as forças que detêm formalmente o monopólio das armas e elas estão vendo, nós estamos vendo, crescer esse poder paralelo das milícias, que é um poder armado também e que começa a determinar a vida de inúmeras comunidades Brasil afora. Então eu penso que isso aí é uma contradição que pode implodir a frente bolsonarista.

Existem também divergências do ponto de vista da economia no campo bolsonarista?

A aliança do Bolsonaro com os ultraliberais é muito impressionante porque a tradição das Forças Armadas é nacional estatista. Conversei outro dia com um pesquisador, que tem um estudo sobre as Forças Armadas, e ele me disse que isso se alterou gradativamente. Ele apontou o exemplo do Chile, em que as Forças Armadas fecharam os olhos a um processo ultraliberal porque lhes foi concedido um estatuto particular na sociedade: sistema de saúde próprio, remunerações próprias, gratificações. Hoje, a Constituição do Chile reserva às Forças Armadas um percentual fixo obtido com as exportações do cobre, que é a principal riqueza chilena, e com isso elas mantêm um sistema que as diferencia radicalmente do conjunto do funcionalismo público civil. Esse processo poderia acontecer no Brasil? A reforma da Previdência deu indicação nesse sentido. As mudanças que impactaram no funcionalismo civil preservaram as Forças Armadas, que tiveram inclusive reajustes salariais. A verdade também é que o ultraliberalismo do Guedes ainda não foi à prática, houve a aprovação da reforma da Previdência, à qual ele teve que fazer uma série de concessões, e as privatizações e os avanços da reforma Tributária que ele quer fazer ainda não foram para frente, assim como a reforma administrativa.

E com a pandemia essa agenda pode ficar comprometida, não é?

A resistência a isso fica muito grande. E foi muito impressionante surgir, agora, no contexto da pandemia, esse plano do Pró-Brasil, que é um plano que tem a ver com a tradição nacional estatista das Forças Armadas. Me lembro quando Bolsonaro nomeou Guedes e Moro para o seu Ministério e vozes experientes da política brasileira disseram que era um erro, nomear um ministro que você não possa demitir. Os dois eram vistos como indemissíveis. Um já foi. O Moro. E o outro já é cogitado para ser demitido caso essa política ultraliberal não dê certo. E parece que não vai dar mesmo porque o pós-pandemia aponta em todo mundo para os nacionalistas crescerem e não o ultraliberalismo. Guedes então vai se achar, de repente, numa situação anacrônica porque o programa dele se encaixa no contexto da globalização e a globalização pode sofrer fortes impactos com a pandemia.

O sr. acha a centro-direita vai construir uma candidatura para fazer frente a Bolsonaro em 2022?

Acho que sim. Eles estão manobrando nesse sentido. E têm dois potenciais candidatos, Moro e Dória (João Dória, governador de São Paulo). Os dois já vêm trabalhando nesse sentido. Mas o fato é que a gente não tem um quadro claro do pós pandemia. Estão anunciando aí uma grande crise econômica internacional, com impactos evidentemente no Brasil, e isso vai fazer crescer uma demanda muito grande por Estado. Claro que os liberais vão dizer que não são contra o Estado, desde que o Estado sirva à educação, à segurança, e dizer que eles são contra o Estado que se imiscua na economia, mas essa vai ser uma exigência para enfrentar o pós pandemia. Há muitas variáveis aí que a gente não domina, mas a tendência é o crescimento do Estado e isso é contra o Guedes, contra a linha liberal do Guedes. Eu penso que a centro-direita, sobretudo se Bolsonaro se inclinar para essas políticas estatistas, vai efetivamente tentar jogar uma alternativa. Existem forças muito consideráveis entre as elites que estão insatisfeitas com Bolsonaro. Aliás, as últimas pesquisas dão uma queda muito grande na aprovação ao governo exatamente nas elites sociais, entre aqueles que recebem mais de 10 salários mínimos. Já Moro vai ficar aí como uma reserva moral a ser acionada e pode realmente ter resultados bem expressivos. Sendo assim, Bolsonaro pode ser empurrado de novo para aquele nicho de 12, 15 e 20%, que é a extrema-direita no Brasil.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

O poder como capricho

Caso o convite a Eduardo Bolsonaro para a embaixada em Washington seja oficializado, é responsabilidade do Senado barrar a indicação, que avilta o bom senso


Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2019 | 03h00


É um disparate, em todos os sentidos, a ideia de o presidente Jair Bolsonaro indicar o seu filho Eduardo para o posto de embaixador do Brasil em Washington. Caso o convite seja oficializado, é responsabilidade do Senado barrar a indicação de pai para filho, indicação essa que avilta o bom senso, menospreza a defesa técnica e qualificada do interesse nacional, transforma o Estado em assunto de família e manifesta, uma vez mais, a dificuldade de Jair Bolsonaro para compreender o que é ser presidente da República, muito diferente de ser chefe de um clã.


“No meu entender, (Eduardo Bolsonaro) poderia ser uma pessoa adequada e daria conta do recado perfeitamente em Washington”, disse o presidente, após apontar as razões pelas quais entende que seu terceiro filho poderia ser o embaixador do Brasil nos Estados Unidos: “Ele é amigo dos filhos do Trump, fala inglês e espanhol, tem vivência muito grande de mundo”.

O papel do embaixador é representar o País e o interesse nacional, numa relação de confiança e, ao mesmo tempo, de independência perante outro país. As nações que têm a pretensão de serem respeitadas no cenário internacional dispõem de um corpo diplomático bem formado e tecnicamente qualificado. Não faz nenhum sentido que o Brasil, com uma tradição diplomática do mais alto nível, deixe a embaixada em Washington nas mãos de um amador, por mero capricho familiar.


O embaixador não está em representação de uma pessoa, de um partido ou de uma causa. Ele representa o Estado brasileiro. Tanto é assim que “compete privativamente ao Senado Federal aprovar previamente, por voto secreto, após arguição em sessão secreta, a escolha dos chefes de missão diplomática de caráter permanente”, como dispõe a Constituição.

Após o presidente Jair Bolsonaro anunciar o possível mimo ao filho, Eduardo disse que “aceitaria qualquer missão que o presidente me der”. Mostrando que sabe tão pouco quanto o pai sobre a diplomacia, o deputado federal pelo PSL falou de suas credenciais para o cargo. “Não sou um filho de deputado que está do nada vindo a ser alçado a essa condição. (...) Sou presidente da Comissão de Relações Exteriores, tenho uma vivência pelo mundo, já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos Estados Unidos, no frio do Maine, Estado que faz divisa com o Canadá, no frio do Colorado, em uma montanha lá. Aprimorei o meu inglês, vi como é o trato receptivo do norte-americano para com os brasileiros”, disse.

A fala de Eduardo Bolsonaro, absolutamente adequada em uma cena de comédia e absolutamente inadequada na discussão sobre o preenchimento de um posto diplomático da importância da embaixada em Washington, só confirmou sua ignorância sobre as relações internacionais. Em novembro do ano passado, na condição de filho do presidente eleito, Eduardo circulou pelos Estados Unidos com um boné de cabo eleitoral de Donald Trump. A Constituição de 1988 define, entre os princípios que devem nortear o País em suas relações internacionais, a independência nacional, a autodeterminação dos povos e a igualdade entre os Estados. Com o boné “Trump 2020”, Eduardo Bolsonaro desrespeitou, de uma só vez, os três princípios constitucionais.

Na mesma viagem aos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro deu outro exemplo de seu desconhecimento sobre a complexidade das relações internacionais e o interesse nacional. Questionado sobre uma possível mudança da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, Eduardo pontificou: “A questão não é perguntar se vai, a questão é perguntar quando será”. A ideia, mera imitação dos caprichos de Trump e que poderia custar muito caro ao Brasil, foi por ora abandonada pelo governo.

É evidente que Eduardo Bolsonaro não tem nenhuma credencial para o cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos. O único atributo que leva seu nome a ser cogitado para o posto em Washington é ser filho de Jair Bolsonaro. Uma indicação assim, tão despótica – no sentido mais exato do termo –, desmerece o País interna e externamente. Se o capricho familiar for adiante, que o Senado, em sinal de respeito ao País e à Constituição, lhe aponha o devido veto.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Um panorama inicial do governo Bolsonaro

Por Pedro Breier, no blog Cafezinho:

Começo este panorama inicial pela posse de Bolsonaro, a qual acompanhei por mais ou menos uma hora. Peguei o emocionante trecho em que Bolsonaro deu um estrondoso chá de cadeira no público, na imprensa e nos que acompanhavam pela televisão ou pela internet. O presidente tomava um café com os presidentes da Câmara e do Senado enquanto todos lhe esperavam, apalermados.

Meu destaque daquele fatídico dia vai para a cobertura da imprensa. Mais especificamente, de Boris Casoy e Amanda Klein, da RedeTV!, que produziram uma monstruosa quantidade de frases absurdas, as quais pareciam ter sido enviadas diretamente pela assessoria de imprensa do nosso novo presidente. Coisas como “agora as nomeações vão ser todas técnicas” e “acabou o toma lá, dá cá, segundo o presidente”. Não há mais, pelo jeito, preocupação em sequer esconder o alinhamento ou a falta de objetividade da cobertura. Acompanhemos como agirá a Globo, que não se bica muito com a família Bolsonaro.

As abundantes nomeações, para cargos no governo, de políticos que não se elegeram em 2018 são um belo exemplo de nomeações estritamente técnicas. Se acabou o toma lá, dá cá, imagino que nada será exigido em troca dos partidos desses derrotados da eleição.

É como a nomeação de Sérgio Moro para o ministério após este retirar o líder das pesquisas do páreo, condenando-o sem provas. Ou a nomeação do genro de Léo Pinheiro para a presidência da caixa; Pinheiro é o delator que mudou sua versão dos fatos para incriminar Lula, também sem provas. Deve ser tudo apenas uma mistura inocente entre estrita meritocracia e esquisitas coincidências.

Outro fato ocorrido no primeiro dia do novo governo é tão grave que não permite qualquer tipo de ironia. O esvaziamento da Funai, ao ser transferida para o Ministério da Agricultura a identificação, delimitação e demarcação de terras indígenas é, provavelmente, a medida mais triste de Bolsonaro até o momento. A expressão “colocar a raposa para cuidar do galinheiro” encaixa à perfeição aqui. No embalo da medida, a terra indígena Arara, no Pará, foi invadida por madeireiros há poucos dias. Essa verdadeira tragédia ambiental, social e cultural pode se tornar corriqueira no próximo período.

Voltemos ao assunto “nomeações técnicas”. Causou furor a escolha do filho do vice-presidente, o general Mourão, para o cargo de assessor especial do novo presidente do Banco do Brasil. Hamilton Mourão, filho do general, teve seu salário triplicado ao assumir o cargo.

A pitoresca deputada Joice Hasselmann (PSL), cuja votação avassaladora em São Paulo foi impulsionada por sua popularidade entre o público de direita na internet, postou, sobre o tema, um tweet do ex-tucano e agora bolsonarista Xico Graziano, no qual este afirma que a espetacular promoção do filho de Mourão é “normal” e que “quem estranha tá de sacanagem”. O post de Joice teve uma enxurrada de comentários. Dê uma olhada no post da deputada clicando aqui. Entre os comentários com maior número de reações há, é claro, as tiradas de sarro de pessoas de esquerda. Também aparecem, contudo, muitos eleitores de Bolsonaro decepcionados. Em outros posts da deputada é fácil encontrar outro tanto de desiludidos com a turma do PSL que prometeu mudar tudo isso daí.

Menciono tal fato porque ele é emblemático de que a correlação de forças começou a mudar. São apenas dez dias de governo e figuras como Joice já sentem na pele a diferença entre ser metralhadora giratória e ser vidraça. Imaginem como estará o capital político de Bolsonaro daqui a alguns meses, após a imparável sucessão de burradas dos integrantes do governo e a probabilíssima ausência de qualquer feito revelante em prol da população.

Uma matéria de ontem do Uol demonstra com acuidade o nível de insanidade do nosso momento político: “Olavo de Carvalho questiona se a Terra orbita o Sol; o que diz a ciência?”

Olavo de Carvalho é o homem que indicou “apenas” os ministros da educação e das relações exteriores. Como disse o Chico Buarque, “Com esses ministros, é preferível que a Cultura não tenha ministério”.

As patacoadas do novo governo continuam sucedendo-se implacavelmente – e não há sinais de que serão interrompidas:

- Um edital para compra de livros didáticos que autorizava citações sem bibliografia, materiais com erros de revisão e a existência de publicidade foi divulgado. O governo recuou após a avalanche de críticas.


- O Brasil saiu do Pacto Global para a Migração da ONU. É irrisório o número de imigrantes que buscam o Brasil como destino; a medida deve prejudicar inúmeros brasileiros que migram para o exterior.

- Bolsonaro falou em diminuição da alíquota máxima do IR e em aumento do IOF. Foi desmentido por Onyx Lorenzoni e pelo secretário da Receita Federal, Marcos Cintra. O presidente deve se abster de fazer novas declarações sobre economia.

- Onyx, ministro da Casa Civil, protagonizou o momento mais cômico do novo governo (até agora). Segundo a coluna Painel, da Folha, as demissões em massa de funcionários considerados “petistas” fizeram com que faltasse gente para tocar pedidos de exoneração e nomeações.

Você consegue imaginar um cenário em que essa mistura esdrúxula de loucura anticomunista/anti-intelectual com ultraliberalismo econômico resulte em algo diferente do caos? Nem eu.

Me parece ser questão de (nem tanto) tempo (assim), portanto, o derretimento da popularidade de Bolsonaro.

E é aí que entra o papel do campo popular. Se fizermos um bom trabalho, a virtualmente inevitável desmoralização do presidente pode ser acompanhada do debacle desse conjunto de ideias e valores conservadores e reacionários que coloca energia em coisas absolutamente ridículas ao mesmo tempo em que escanteia, não por acaso, as questões fulcrais para o país – alguém tem notícia de alguma medida do governo para melhorar o nível de emprego no país, aliás?

Estou no time dos que pensam que é saudável, sim, a avalanche de piadas e memes sobre coisas como o apoteótico anúncio da ministra Damares Alves de que, a partir de agora, meninos vestem azul e meninas vestem rosa. Entretanto, seremos sábios se direcionarmos toda essa criatividade também para temas mais complexos, como reforma da previdência ou o ataque à Justiça do Trabalho. Dá mais trabalho, mas certamente rola.

A irreverência e o humor são armas poderosas na disputa ideológica. Se a política pode ser definida como a arte do convencimento, que sejamos inteligentes e criativos para convencer usando a bizarrice do governo Bolsonaro a nosso favor.

A serenidade e a alegria são os estados internos benéficos que devemos buscar para aproveitar nosso potencial criativo na luta. Mas como, se estamos sob a égide do governo mais boçal da história do Brasil e à beira de uma tragédia social sem precedentes?

Assim ensinam os grandes mestres espirituais da história da humanidade: se dependermos do que acontece externamente a nós, estamos mal arranjados. O externo é caótico, muda o tempo todo e, não raro, pode nos jogar para baixo.

Se aceitarmos a transitoriedade das coisas do mundo, podemos tornarmo-nos cada vez mais capazes de alcançar a serena paz e a sutil alegria que estão sempre disponíveis, dentro de nós mesmos, caso foquemos toda nossa atenção no momento presente. Dica quente para ajudar no processo: meditação.

Assim, lutando uma batalha por vez com tranquilidade, disposição e criatividade, passaremos incólumes (ou quase) por este momento de fortes turbulências e saborearemos a inexorável vitória sobre as trevas. A luta fica mais gostosa se for travada com alegria.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Uma reflexão sobre o trabalhismo

Sobre a dificuldade da esquerda em entender o trabalhismo como uma prática progressista, fundamental para o desenvolvimento do Brasil

A esquerda brasileira, principalmente a que foi formada na segunda metade dos anos 1970, na esteira das greves de São Bernardo do Campo, e em toda a região do Grande ABC, tem dificuldade de enxergar o trabalhismo como prática política progressista. Informados e formados pela sociologia paulista de inspiração contrária ao varguismo, os marxistas da luta contra a ditadura civil-militar associaram o trabalhismo ao populismo. É como procurar agulha no palheiro um intelectual uspiano que seja simpático ao legado de Vargas, Jango e Brizola . Pudera! A USP, fundada em 1934, é a consequência das derrotas de São Paulo em 1930 e na Revolução Constitucionalista de 1932.

Getúlio Vargas

Há uma tradição reacionária em matéria de política em São Paulo. A imprensa paulista sempre foi contra os interesses nacionais. A “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, que foi uma das manifestações que desencadearam o golpe de 1964, teve o apoio entusiasmado de Carlos Lacerda, que com os olhos lacrimejantes disse: “São Paulo começa a salvar o Brasil”. O II Exército, sediado em São Paulo e sob o comando o general Amaury Kruel , foi decisivo para o sucesso dos militares.

A USP foi criada para formar líderes que, baseados nas metodologias científicas, pudessem entender o país e governá-lo. Qual intelectual uspiano se levantou, na época, contra o golpe? Qual deles esocreveu algo positivo sobre João Goulart? Em que livro o professor Florestan Fernandes analisou Vargas, Jango e Brizola? Aliás, Florestan criticou Brizola por seu “nacionalismo machão”. Alfredo Bosi foi o único intelectual uspiano que abriu o jogo: A USP não se interessou pelo golpe de 1964. Em 1994, quando a USP chega ao poder, Fernando Henrique Cardoso em discurso de posse soltou o verbo: precisamos enterrar a Era Vargas.

Origem e evolução do trabalhismo

Com origem na Inglaterra, a partir da Revolução Industrial, o trabalhismo se estabeleceu e começou a se organizar enquanto movimento objetivando lutar por melhores condições de vida para os trabalhadores. Formou-se, então, um conjunto de doutrinas com ênfase no cenário econômico. Com seu crescimento, o movimento trabalhista dialogou com diferentes ideologias sob a mesma matriz, como democracia-cristã, social-democracia, socialismo, anarquismo e comunismo. No Brasil, começou a ganhar corpo no início do século XX, durante a fase final da República Velha, tornando-se mais presente em 1945, com a fundação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), inspirado por Getúlio Vargas. Teve um papel fundamental como principal braço político da esquerda moderada, durante as décadas de 1950 e 1960, especialmente porque atraía pessoas que não se identificavam com os extremos (direita e comunismo). No final dos anos 1970, o PTB perdeu seus ideais originais trabalhistas, principalmente depois da morte de Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio Vargas. O grupo liderado por Leonel Brizola criou o Partido Democrático Trabalhista (PDT), que reuniu grande parte dos trabalhistas de esquerda. Outras pequenas correntes do trabalhismo se concentraram em outras legendas, como o Partido Trabalhista do Brasil e o Partida Trabalhista Nacional.

TEORIA DO POPULISMO

A teoria do populismo etiquetado com grife de Weffort fez muito mal à interpretação da história política do Brasil. Populismo entendido como prática política que usa o povo como massa de manobra é um conceito que liga nada a coisa nenhuma. O pior é que esse conceito é responsável por uma das maiores esquizofrenias do pensamento sociológico brasileiro. Faz com que a chamada esquerda marxista seja contra o golpe militar de 1964 e, ao mesmo tempo, contra os trabalhistas que foram apeados do poder.

Amaury Kruel » General de exército, depois marechal, Amaury Kruel (1901-1996) formou-se na Escola Militar do Realengo e participou da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. Era chefe do Gabinete Militar e, depois, ministro da Guerra de João Goulart. Aderiu, porém, ao golpe de 1964.

Octavio Ianni » Professor emérito na Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além de ter lecionado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Octavio Ianni (1926-2004) foi um dos maiores sociólogos da história do Brasil. Produziu trabalhos sobre racismo, desenvolvimento, mudança social, populismo, teoria sociológica e nova ordem global.

A teoria do populismo teve o disparate de fazer com que o maior inimigo da esquerda fosse o trabalhismo. Octavio Ianni chega a dizer que Vargas impediu o desenvolvimento do comunismo no Brasil. Será apenas fruto da manipulação das massas o fato de Getúlio Vargas ter sido idolatrado pelos trabalhadores? Como um ex-ditador “sanguinário” e “fascista” que defendia os empresários e iludia o povo volta eleito para a Presidência em 1950?

Usando o raciocínio lógico: se o trabalhismo deveria ser eliminado suas realizações tinham que ter o mesmo destino. Uma árvore ruim não pode dar frutos bons. Então são péssimas as seguintes realizações: a criação do Ministério do Trabalho; a CLT; o voto secreto; o voto feminino; a nacional Vale do Rio Doce; a luta contra o imperialismo; o aumento de 100% do salário mínimo em 1953; a criação da Petrobras; o anteprojeto de criação da Eletrobrás e a lei contra a remessa de lucros. Todas essas ações, portanto, são execráveis porque contribuíram para tirar a autonomia organizacional da classe trabalhadora. 
A deportação de olga Benário, companheira de Prestes, para a Alemanha nazista foi um episódio lamentável da era Vargas

Confinar Getúlio Vargas ao período de Estado Novo, de 1937 até 1945, é um reducionismo histórico. É outro Vargas de 1950-1954. Tancredo Neves, no episódio do atentado da rua Toneleros, quando Vargas abriu desnecessária e temerariamente o Palácio do Catete à devassa da República do Galeão, disse que o ex-presidente tinha complexo de ditador. Ou seja, que tinha bode com esse passado, de modo que não criou nenhum empecilho às investigações.

A crítica mais emblemática a Vargas é em relação à deportação para a Alemanha de Olga Benário, que viria a morrer numa câmara de gás. É absolutamente lamentável esse fato. Contudo, é sintomático que Luiz Carlos Prestes tenha defendido a Constituição com Getúlio logo que deixou a prisão. Só para constar: Prestes era marido de Olga Benário. E não deixa de ser curioso que os trabalhadores conquistaram seus maiores direitos no Estado Novo.

Jango e Brizola foram outras vítimas da direita e da teoria do populismo dos marxistas brasileiros. Os dois são responsabilizados pelo golpe de 1964. O primeiro era visto como fraco, com desejo insaciável pelo poder, um despreparado e incapaz de governar o Brasil. Quem fugiu dessa interpretação reacionária foi Darcy Ribeiro. Para o antropólogo, Jango foi deposto por causa de suas virtudes. O segundo foi chamado de populista, demagogo, dinossauro, lunático, radical, descolado da realidade, etc. Num congresso da UNE de 1998, quando Leonel Brizola começou a discursar os estudantes do PT começaram a entoar o seguinte coro: “Eu vou, eu vou, eu vou entrar de sola, fazer reforma agrária, na fazenda do Brizola”. Um absurdo revelador da falta de conhecimento histórico do que representou Leonel Brizola na política brasileira.

Qual líder da esquerda no Brasil fez o que Brizola conseguiu em 1961 na época da campanha da legalidade? foi a primeira e única vez que a esquerda (…) teve apoio da opinião pública.

A CAMPANHA DA LEGALIDADE

Leonel Brizola morreu antes de conseguir realizar o seu destino histórico: ser presidente do Brasil
Qual líder da esquerda no Brasil fez o que Brizola conseguiu em 1961 na época da Campanha da Legalidade? Foi a primeira e única vez que a esquerda (situo o trabalhismo à esquerda do espectro político) teve apoio da opinião pública. Pelas ondas do rádio, Brizola armou a população do Rio Grande do Sul, dividiu o Exército e poderia ter subido com o povo até Brasília e feito uma transformação social e política no Brasil. Atitude populista? Inclusive Carlos Lacerda, que se referia à Campanha da Legalidade como “gracinha trágica”, disse que Brizola ganhou a batalha das comunicações.

Quando governador do Rio Grande do Sul fez a primeira reforma agrária do país – em Sarandi. Aos trabalhadores acampados colocou toda a estrutura do Estado para apoiá-los. Desapropriou terras e realizou o assentamento. Nacionalizou duas multinacionais, a ITT e a Bonde & Share. Criou o Banco Estadual para fomentar o desenvolvimento industrial. No Rio de Janeiro criou os CIEPs e enfrentou como nenhum outro político brasileiro o poder de Roberto Marinho. O conceito de perdas internacionais como uma bomba de sucção drenando nossas riquezas, Brizola o desenvolveu vinculando a partir de sua prática como governador, quando sentiu de perto a espoliação que os estados menos desenvolvidos e o país sofriam.


Roberto Marinho » Empresário da comunicação, Roberto Pisani Marinho (1904-2003) é uma das figuras mais controversas da história do Brasil. Construiu um verdadeiro império, as Organizações Globo, porém seu maior crescimento ocorreu durante a ditadura civil-militar. Católico, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. O lado sombrio de sua trajetória é narrado no documentário britânico Muito além do cidadão Kane (1993), exibido pela emissora pública do Reino Unido Channel 4.

Palavras de Gilberto Vasconcellos

“[…] Às vezes eu me pergunto se o balé antipopulista da USP sociológica não é uma paranoia elitista inimiga do folclore, pois no Sul a figura lendária do caudilho se origina de gaudério, assim como no Nordeste o jagunço cangaceiro é uma invenção sertaneja. O cineasta Glauber Rocha já dizia, num artigo belíssimo sobre o romancista José Lins do Rego, que a prosa brasilianista da sociologia substituiu o ciclo épico do cangaço, ou seja, o boom sociológico dos anos 60, fabricado pela ideologia automobilística dos Esteites, é uma armação colonialista para eliminação do nosso imaginário a linguagem do romance nordestino de 1930 […].” (VASCONCELLOS, 1989, p. 53)

“Somos governados pelas palavras. Então a consulta ao dicionário torna-se fundamental, antes, durante e depois da campanha. Não nos esqueçamos de que a crise brasileira é também a crise da linguagem. O que é autoritário? Qual a definição de populista? E caudilho, o que significa?

Autoridade é o direito de tomar decisões, o poder legítimo de se fazer obedecer. É o caso do piloto de avião que exerce uma autoridade racional. Inquestionável. Portanto, sem autoridade é impossível viver.

Autoritário é o abuso da autoridade que procura se impor pela força. Despótico. Quem manda sem o poder legítimo de mandar. Arrogante. Violento. Ditatorial. Dominador. Golpista.

Populista é o amigo do povo.

Caudilho ou chefe, civil e militar. Aquele que conduz o povo. Sem líder não há povo.” (VASCONCELLOS, 1989, p. 99)


“[…] Segundo as análises sociológicas, cabe ao governo João Goulart a culpa do golpe de 64, porque foi um governo que provocou a agitação política das massas, e não a agitação política de classe. Trata-se de raciocínio abstrato, mera inadequação do ‘tipo ideal’ weberiano, construído por quem passou inteiramente alheio à vida política em 1964. A sociologia da USP sobre o fracasso janguista é post factum. Os sociólogos metapopulistas não estão interessados em explicar o destino trágico e sim preocupados apenas em testarem os conceitos de suas teses acadêmicas […].” (VASCONCELLOS, 1989, p. 107-108)

O que estamos presenciando no atual estágio político brasileiro não deixa de ser interessante. Primeiro deixa claro que a direita, quando perde seguidamente, como a UDN nos anos 40, 50 e 60 do século passado, recorre ao expediente golpista. Antes usaram os militares, agora usam politicamente a Justiça. Segundo: o único movimento teórico e político que efetivamente se contrapõe ao modelo hegemônico neoliberal é o trabalhismo. De modo que o PSDB e o PT, amlenin bos gestados na ideologia antigetulista, jogaram água no moinho de gastar gente do grande capital.

Lenin dizia que a prática é o único critério da verdade. lendo a história do Brasil, o trabalhismo foi a única força que enfrentou na prática o imperialismo. Portanto, não é incompatível com o socialismo

Não dá para desconhecer que com todos os avanços sociais que vivenciamos nesses últimos anos com o PT na Presidência nunca os empresários e principalmente banqueiros ganharam tanto. Agora que a política de conciliação de classes entrou em crise por conta da queda no preço das commodities, a direita se rearticula para implementar políticas de superexploração do trabalho. Trocando em miúdos: o desmonte de direitos que foram implantados pelos líderes trabalhistas. A prosódia é horrorosa: custo Brasil, flexibilização das leis trabalhistas, privatizações, choque de capitalismo, mais mercado menos estado, etc.

O PT nunca enfrentou o capital internacional. Qual a contradição do partido com as privatizações? As denúncias contra as privatizações foram usadas como retórica marqueteira contra o PSDB. No governo, o PT também privatizou. Henrique Meirelles, eleito deputado pelo PSDB, foi catapultado a presidente do Banco Central. Até essa onda de denúncias pela imprensa – que se transformou em partido político -, qual a contradição real do PT com a Rede Globo? Só agora, em 2016, Lula resolveu enfrentar a Globo.

Quando Brizola volta do exílio, em 1979, vai até o sindicato dos metalúrgicos se encontrar com Lula e propor uma aliança entre o trabalhismo e o sindicalismo paulista. Lula o faz esperar por duas horas e quando conversa com Brizola o trata de forma fria e absolutamente deselegante. Deu no que deu! Gilberto Vasconcellos em 1989 escreveu um livro chamado Brizulla, em que defende a aliança para as eleições presidenciais de Brizola e Lula. O samba Brizulla da democracia atravessou. Collor é eleito, Itamar, empossado depois do impeachment, e FHC, com o Plano Real, cumpre a função de vender o Brasil.

POLARIZAÇÃO POLÍTICA

Nesse momento de polarização extrema da política brasileira, Lula deveria fazer uma profunda autocrítica. Simbolicamente deveria ir até São Borja, e se reconciliar com Vargas, Jango e Brizola e, diante dos túmulos dos líderes trabalhistas, assumir o compromisso histórico de tomar a Carta-Testamento em suas mãos e lutar em defesa da soberania nacional. Não há povo sem líder, de modo que essa aversão ao caudilho é incompatível com o momento decisivo em que nos encontramos.

É visível o fracasso da interpretação histórica uspiana que desaguou na tragédia do desmonte do Estado nacional. É urgente a retomada do fio da história. Usar como discurso que a perseguição que sofre da imprensa é igual à que Vargas e Jango também sofreram como Lula vem fazendo não basta. Vargas e Jango foram vítimas de uma campanha sórdida porque bateram de frente com os latifundiários; com a burguesia; com os banqueiros; com o capital internacional e com os EUA.
Contra as manifestações elitistas recentes, é preciso investir no trabalhismo e no desenvolvimentismo de esquerda
Lula tem a chance histórica, como o maior líder de massa no Brasil atual, de pegar a bandeira do trabalhismo. A Petrobras está mais uma vez no epicentro da crise política. As mesmas forças que hoje se assanham para se apossar do nosso petróleo são as mesmas que levaram o presidente Vargas ao suicídio. O capital internacional de olho em nossas riquezas faz alianças com setores entreguistas da Nação, e com a mesma estratégia de sempre utiliza a imprensa para preparar a opinião pública.

Não dá para desconhecermos uma verdade inquestionável: o Brasil está sob o bombardeio do imperialismo das multinacionais que, se precisar, em conluio com os Estados de maior poderio bélico, roubam os bens naturais de que não dispõem. O trabalhismo era o obstáculo. Em 1964 foi eliminado. Brizola não poderia nunca chegar à Presidência, não conseguiu. Tiraram dele a sigla PTB, depois de uma campanha sem tréguas para desmoralizá-lo promovida principalmente pela Rede Globo. Inclusive o PT foi um dos responsáveis pela não eleição de Brizola em 1989. Leonel Brizola morreu sem cumprir seu destino histórico: ser presidente do Brasil.

Lenin dizia que a prática é o único critério da verdade. Lendo a história do Brasil, o trabalhismo foi a única força que enfrentou na prática o imperialismo. Portanto, não é incompatível com o socialismo. Aliás, Brizola acreditava que o trabalhismo era o caminho para o socialismo. Por isso, não resta outra opção para o PT – e Lula – que não seja brizolar.


Yago Junho é sociólogo e mestre em Teoria da literatura e identidade cultural pela Universidade federal de Juiz de fora (UfJf) e autor do livro sociologia Pau Brasil (multifoco, 2014). e-mail: yeuzebio@gmail.com.


REFERÊNCIAS


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____________ Brizola e o trabalhismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. 203 p.
CAZARRONI, André. Getúlio Vargas. Rio de Janeiro: José olympio, 1939. 295 p.
FERREIRA, Jorge. João Goulart, uma biografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. 713 p.
FREITAS, décio; LARANGEIRA, Álvaro (orgs.). A serpente e o dragão. Porto Alegre: Sulina, 2003. 160 p.
LEITE FILHO, F. C. El caudillo – Leonel Brizola, um perfil biográfico. São Paulo: Aquariana, 2008. 543 p.
NETO, lira. Getúlio. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 3 v
RIBEIRO, Darcy. Jango e eu. Brasília: UnB, 2010. (Darcy no Bolso), 107 p.
RIBEIRO, José augusto. A Era Vargas. rio de Janeiro: casa Jorge editorial, 2001. 3 v.
VASCONCELLOS, Gilberto Felisberto. Brizulla – o samba da democracia ou a parafernália do populismo. Brasília: Pajelança, 1989.
____________________ Jangada do Sul. são Paulo: casa amarela, 2005. 133 p.
VILLA, marco antonio. Jango, um perfil (1945-1964). são Paulo: globo, 2004. 287 p.


Revista Sociologia Ed. 64 ( Texto completo, com imagens )