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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Lampião - Literatura de Cordel



Lampião uma história inglória


Amigos tomem assento

Nessa roda de cordel

Que vou cantar um lamento
Um pouco de mel e fel.

Vou falar de um brasileiro

Em Vila Bela nascido

Que tornou-se cangaceiro
Arrojado e destemido.

Foi há cerca de cem anos

Na Fazenda Ingazeira

Isso salvo algum engano
Me avisem se é besteira.

Veio ao mundo um menino

De José e de Maria

Foi chamado Virgolino
Oito irmãos ele teria.

Era um menino comum

Tinha uma boa família

E assim como qualquer um
Foi seguindo a sua trilha.

Cedo parou de estudar.

Pra ajudar no sustento

Foi para o pasto aboiar,
Pra garantir o alimento.

Foram Antonio e Levino

Dois de seus oito manos

Que mudaram o destino
E criaram novos planos.

Envolveram-se em brigas

Por marcações de terrenos

E muitas outras intrigas
Outros conflitos pequenos.

Graças à antiga guerra

Que a todos envolvia

Pelas preciosas terras
Uma grande rixa havia.

Lampião foi envolvido

Por essa luta de classe

E enfim virou um bandido
Nesse terrível impasse.

Um seu José Saturnino

Com eles vivia às turras

E o pai de Virgolino
Morreu nessa guerra burra.

O delegado Batista,

Junto com um imediato

De forma meio alarmista
Foi lá desvendar um fato.

Mas sendo bem trapalhão

Matou o José Ferreira

Em desastrada ação
Fazendo grande besteira.

Pra resolver o dilema

O infeliz delegado

Criou um maior problema
Matando um pobre coitado.

Virgolino transtornado,

Resolveu buscar vingança

A ação do delegado
Acabou-se em matança.

Uma tropa existia

Sinhô era o comandante

E Virgolino iria
Entrar nela nesse instante.

Sinhô passa o comando

Para o amigo Lampião

Que vai liderar o bando
Com uma implacável mão.

Ele jamais se cansa

De procurar o conforto

E de buscar a vingança
Pelo seu pobre pai morto.

Mas também há ambição

E há sede de poder

Que guiam a sua mão
Transformando o seu ser.

Virou um temido bandido

Lá pras bandas do Nordeste

Vivia sempre escondido
Num sofrimento inconteste.

Em Juazeiro do Norte

Chamado por Padim Ciço

Pensou que mudaria a sorte
Com valoroso serviço.

Levou uma reprimenda

Pelo seu mau proceder

E teve por encomenda
No interior combater.

A Coluna Prestes era

Causa de muitos transtornos

Uma medonha quimera
No Nordeste e entorno.

Esse forte movimento

Político-militar

Era um grande tormento
Um mal a se extirpar.

Em troca receberia

Pela colaboração

Uma total anistia
E patente de Capitão.

E lá se foi Lampião

Embrenhar-se pelo mato

No cargo de Capitão
A fim de cumprir o trato.

Mas na verdade era falso,

Uma mentira fajuta.

A polícia foi no encalço
O que rendeu muita luta.

Paraíba, Ceará,

E também em Pernambuco

Unidos para caçar
Era coisa de maluco.

Para evitar o fracasso

Enquanto estava no prumo

O nosso Rei do Cangaço
Partiu para outro rumo.

Bandeou-se pra Bahia,

Sergipe e Alagoas.

Lá teve melhores dias
Aquela área era boa.

Por lá um dia ele vem

Conhecer Maria Bonita

Maria Déia Nenén
Numa paixão infinita.

Filha de um sapateiro

A morena enfeitiçou

O temido cangaceiro
E com ele se casou.

Mais tarde, Maria Bonita,

Com Lampião por parteiro

Deu à luz Expedita
Embaixo de um imbuzeiro.

Mas a vida era dura

E o destino sombrio.

No meio da mata escura
Era bomba sem pavio.

A criança foi deixada

Com um fiel guardião

E seguiu sua jornada
O bando de Lampião.

O Benjamin Abraão,

Com carta de Padim Ciço

Teve a autorização
Assumiu o compromisso

De filmar o acampamento

Para um documentário.

Mostrando alguns momentos
Numa vida de calvário.

E ele filmou a vida

Daquela sociedade.

Suas roupas, a comida
E toda a fraternidade.

Lampião em sua roda

Desenhava o figurino.

Ele ditava a moda
Criando modelos finos.

Os chapéus, as cartucheiras

Ornados de ouro e prata

Pra vida sem eira nem beira
Para andar pela mata.

Pra que andar bem vestido?

Parece até contra-senso.

Porém isso faz sentido
Quando a respeito eu penso.

Eles tinham sua arte

E regras de convivência

Em um mundinho à parte
Com sua própria ciência.

Lampião era uma lenda

Até uma madrugada

Quando estava na fazenda
De nome Angicos chamada.

Chegou, então, a volante

Eu um proceder perfeito.

Devagar e num instante
O estrago estava feito.

Tenente João Bezerra

E o sargento Aniceto

Naquele momento encerra
A busca do desafeto.

Cuspiam fogo as metralhas

Criando imenso horror.

Não se conhece o canalha
Que foi o seu traidor.

Uns poucos tiveram sorte

E escaparam com vida.

No meio de dor e mortes
Encontraram uma saída.

Lampião foi dos primeiros

A receber um balaço.

Era o fim do cangaceiro
E era o fim do cangaço.

Lampião é degolado

Num proceder bem covarde.

O corpo é esquartejado
Pra ser exemplo mais tarde.

Maria Bonita, ferida,

Também foi sacrificada.

Ela perdeu a vida
Naquela infame cilada.

Naquele inferno de Dante,

Numa sanha assassina

Os malditos da volante
O cangaço extermina.

As cabeças arrancadas

Do bando de Lampião

Correram o mundo mostradas
Numa vil exposição,

Agora, meu bom amigo,

Eu peço sua atenção

E que reflita comigo
Em delicada questão.

Lampião não era santo,

Ao menos pelo que sei

Mas convenha, no entanto,
Que pra isso existe a lei.

O proceder da volante

Foi coisa de carniceiro.

Atitude revoltante
Pior que a dos cangaceiros.



de Josafá Maia da Costa

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O documentário que faltava por aqui


De Maurice Capovilla "O último dia de Lampião" 1975

Sinopse:
"Depoimentos documentais somam-se à reconstituição das últimas 24 horas de Virgulino Ferreira, o Lampião.

Com narração de Sérgio Chapelin registram-se imagens e vozes de soldados da Volante e, também, de cangaceiros sobreviventes da emboscada (ocorrida em 28 de julho de 1938), na qual morreram Lampião, Maria Bonita e nove cangaceiros.

O cineasta pergunta a todos eles: 'onde você estava aquele dia?'. As filmagens contaram o episódio narrado, tanto sob o ponto de vista dos cangaceiros, quanto do ponto de vista dos 'macacos' (Soldados da Volante).

Começa em Piranhas, Alagoas, onde a tropa iniciou sua movimentação, até montar a emboscada na grota de Angico. Os sobreviventes foram levados aos locais onde tudo se passou. Atores e populares (alguns parentes dos envolvidos no conflito) atuaram.

A Polícia Militar de Alagoas forneceu o armamento e soldados da PM." , sinopse extraída do livro 'Cangaço, o Nordestern no Cinema Brasileiro', org.: Maria do Rosário Caetano, Avathar Soluções Gráficas, DF, 2005.)

Observações do Diretor

O tema do cangaço chegou à Blimp Film por acaso. *Um dentista, pesquisador do cangaço, era conhecido do diretor de produção da Blimp. Por isso, ele nos deixou, para nossa avaliação, enorme texto com dados importantes dos diversos bandos de cangaceiros, especialmente do bando de Lampião. O Guga (Carlos Augusto de Oliveira) me deu o material para eu dar uma olhada. Eram informações gerais e dispersas, abarcando um amplo universo dos conflitos do cangaço.

Achei interessante, pois a pesquisa citava nomes de cangaceiros e suas localizações no espaço geográfico do Nordeste. Entre eles, muitos se encontravam no coito de Angico por ocasião da morte de Lampião.

Propus então realizar um programa que centrasse o foco nos últimos dias de Lampião, isto é, as últimas 24 horas do bando. O Guga topou na hora e o Boni (José Bonifácio Oliveira Sobrinho, irmão dele e executivo da Globo) analisou e aprovou o projeto. Necessitávamos da aprovação dele, uma vez que o orçamento para esse filme extrapolava custos habituais.

'O último dia de Lampião' foi realizado em duas etapas. Na primeira viajei com a equipe precursora e subi de Salvador, passando por Alagoas e Sergipe, Até chegar ao Recife. Fui encontrando e captando depoimento dos cangaceiros. Em Alagoas encontrei dois soldados da volante, Abdon ePanta - este foi o militar que matou Maria Bonita.




Soldados Abdon e José Panta de Godoy


Em Piranhas, consegui o depoimento dos traidores, Joca Bernardes e Durval, o irmão de Pedro de Cândido, os dois coiteiros de Lampião, que nunca tinham confessado a traição.


João de Almeida Santos, o Joca Bernardes.

Voltei a São Paulo com o material, montei e segui para a segunda etapa, que consistia em reconstituir, a partir das entrevistas feitas, os fatos que culminaram com a morte de Lampião. De grande ajuda foi Cila, mulher de José Sereno - que estava hospitalizada em São Paulo. O depoimento dela tem valor de confirmar informações contraditórias. Cila era a melhor amiga de Maria Bonita, era também a figurinista do bando e foi a nossa também. Os chapéus foram confeccionados por Dadá, mulher de , na Bahia.




Enfim, tive sorte de encontrar testemunhas oculares da história, que deram a credibilidade necessária à reconstituição dos fatos (...)'

- Trecho de depoimento de Maurice Capovilla, extraído do livro 'Cangaço, o Nordestern no Cinema Brasileiro', org.: Maria do Rosário Caetano, Avathar Soluções Gráficas, DF, 2005."

"Depoimentos dos remanescentes do grupo residentes na capital paulistana que se achavam presentes no dia da morte de Lampião e daquele que deu o tiro inicial, Abdon, nunca antes entrevistado".

Vamos ao deleite...



Fonte: Canal do excelente DocsPrimus no You Tube. Texto: www.cinemateca.gov.br
Fotos: DocsPrimus e Prints do vídeo.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Por que Lampião era chamado de Capitão?


Muito curiosa a história de sua patente de oficial do exército, obtida do governo federal. No início do ano de 1926, a Coluna Prestes percorria o Nordeste em sua peregrinação revolucionária, trazendo apreensão aos governantes e colocando em risco a segurança da nação, segundo avaliação do governo central. Em meados de janeiro, estavam prontos para entrar no Ceará. A tarefa de organizar a defesa do estado coube, em parte, a Floro Bartolomeu, de Juazeiro. A influência de Floro, perante todo o país, devia-se ao seu estreito relacionamento com o Padre Cícero Romão. Por sugestão do Padre Cícero, só havia em todo Nordeste uma pessoa que poderia combater a Coluna e sair-se bem da empreitada. Indicou então o nome de Virgulino.

Floro reuniu uma força de combate, composta, em sua maioria, de jagunços do Cariri. Os Batalhões Patrióticos, como foram chamados, ganharam armas dos depósitos do exército, porque tinham apoio material e financeiro do governo federal. A tropa, organizada, foi levada por Floro a Campos Sales, no Ceará, onde se esperava a invasão. Floro mandou uma carta a Virgulino, convidando-o a fazer parte do batalhão. O convite foi aceito nos primeiros dias de março, quando a Coluna Prestes já estava na Bahia. Em virtude da doença e posterior morte de Floro, em 8 de março, coube ao Padre Cícero a recepção a Lampião.

Lampião chegou à vizinhança de Juazeiro no princípio de março de 1926. Só atendeu ao convite porque reconheceu a assinatura de Cícero no documento. Acompanhado por um oficial dos Batalhões Patrióticos, entrou na comarca de Juazeiro em 03 de março, tendo os cangaceiros uma conduta exemplar. Prometeram a ele, o seu perdão e o comando de um dos destacamentos, caso aceitasse combater os revoltosos. Na audiência com o Padre Cícero, foi lavrado um documento, assinado por Pedro de Albuquerque Uchôa, inspetor agrícola do Ministério da Agricultura, nomeando Virgulino capitão dos Batalhões Patrióticos. Esse documento dava livre trânsito a Lampião e seu grupo, de estado a estado, para combater a coluna.

Receberam uniformes, armamentos e munição para o combate. Lampião já tinha pensado muitas vezes em deixar o cangaço. Sem dúvida, aquela era uma grande oportunidade, proporcionada pelo seu protetor e padrinho Padre Cícero. Estava disposto a cumprir sua parte no trato e todas as promessas feitas ao Padre. Daquele momento em diante, passou a chamar a si próprio de "Capitão Virgulino".

As Batalhas de Lampião: Serrote Preto

Por Antonio Andrade - publicado no jornal Folha Solta.

Entre as centenas de batalhas enfrentadas por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, contra as volantes constituídas por civis e policiais de sete estados do Nordeste, três delas se destacaram pelo número de feridos e mortos e também pela grande quantidade de soldados se comparada à de cangaceiros. Essas batalhas foram a de Serra Grande, no município de Serra Talhada (cidade onde nasceu Lampião), em Pernambuco; a de Serrote Preto, no município de Mata Grande, oeste de Alagoas; e a terceira batalha foi na Fazenda Maranduba, no sertão de Sergipe.

Lampião é reconhecido pelos seus atos heróicos e epopéicos de bravura. Segundo o historiador britânico Eric Hobsbawn, em seu livro "Bandidos", Lampião foi o maior bandoleiro do ocidente. 

Em Serrote Preto, em fevereiro de 1925, o bando de Lampião era composto por 40 cangaceiros, entre eles dois irmãos de Virgulino, Antonio e Livino Ferreira. Já na volante formada por policiais da Paraíba e de Pernambuco havia 90 homens, inclusive três oficiais (tenentes). Os números oscilam nos livros que registram os combates, estes citados estão no livro "De Virgulino a Lampião", escrito por Antonio Amaury e Vera Ferreira, neta de Lampião.

As forças policiais já estavam no encalço dos bandoleiros desde as cidades pernambucanas de Custódia, Buíque e Águas Belas. Quando chegaram em Mata Grande, o cangaceiros já haviam atacado a cidade, deixado dois mortos, vários feridos e casas incendiadas. Devido a resistência policial e da população local, o bando seguiu em retirada para a divisa com Pernambuco e se alojou na sede da Fazenda Serrote Preto.

A partir de informações da população, a volante partiu em direção à fazenda e localizou os bandoleiros no final da tarde. Eles estavam descansando e alguns jogavam cartas, estes perceberam a aproximação da polícia e começaram a despejar uma chuva de bala. A tropa foi massacrada em uma verdadeira chacina. Segundo Rodrigues de Carvalho, em seu livro "Serrote Preto", foram quinze soldados mortos e três bandoleiros (Asa Negra, Guri e Corró). No livro "De Virgulino a Lampião", diz que foram dez soldados e dois oficiais mortos, mais 30 feridos.

Os oficiais mortos foram Francisco de Oliveira e Joaquim Adauto. O terceiro tenente, João Gomes, sobreviveu e bateu em retirada com seus subordinados.

As batalhas de Lampião: Maranduba

Cartaz de 1930 em que o governo da Bahia oferece recompensa pela captura de Lampião


A terceira grande batalha enfrentada por Lampião e seu bando ocorreu em janeiro de 1932, no sertão sergipano, na fazenda Maranduba. Os militares estavam em número três vezes maior e subestimavam os cangaceiros. Lampião demonstrou superioridade tática sobre os militares, principalmente por conhecer muito bem o terreno onde se travou o embate.

Alguns historiadores tentam "minimizar" a vitória obtida por Lampião depois de uma feroz batalha, admitindo, apenas, de que, no final das contas, houve “perdas humanas tanto entre os cangaceiros como entre as forças volantes, porém com maior prejuízo para estas...” Para que se tenha uma idéia do que representou esta batalha para ambos os lados e para a história das lutas sociais do Nordeste, dois pontos devem ser ressaltados:

O primeiro ponto importante refere-se à participação, nesta batalha, dos aguerridos e temíveis Nazarenos. Os nazarenos, uma força policial dedicada em tempo integral na busca e, se possível, destruição de Lampião e seu bando, já eram lendários nos sertões nordestinos, por suas ações militares. Nesta batalha participaram sob o comando do Tenente Manoel Neto.



O segundo ponto a ser destacado é que, apesar da longa, dolorosa e sangrenta campanha contra Lampião e da experiência militar adquirida, mais uma vez os chefes militares deram provas de que sua inteligência sempre ficou abaixo dos arroubos da valentia. A raiva, a fúria e a arrogância foram confrontadas com o sangue-frio, a paciência e a inteligência de Lampião. Rodrigues de Carvalho chegou a afirmar, analisando estas e outras batalhas que Lampião tinha praticado “façanhas de deixar muito curso do Estado Maior com água na boca”.

No caso específico de Maranduba, o historiador Rodrigues de Carvalho não hesita em afirmar que, apesar da superioridade em homens e armas, por parte das forças militares, Lampião demonstrou uma superioridade tática sobre seus adversários. Escreve ele: “E a verdade deve ser dita: quem primeiro abandonou o campo de luta foi a força”. E, mais adiante: “O fato é que durante a extensão da tremenda refrega, que foi por toda a tarde, pode dizer-se sem medo de cometer injustiça, o domínio da situação pertenceu ao ardiloso facínora. Estava todo o tempo, como se diz vulgarmente, serrando de cima”.

O fato ficou conhecido como "Fogo de Maranduba" e um registro da época diz que "no local em que aconteceu o fogo de Maranduba, durante vários anos, das árvores e dos matos rasteiros não ficaram folhas. Tudo era preto, como se tivesse passado um grande fogo. As árvores ficaram completamente descascadas de cima abaixo, de balas".

(Fonte: blog Cariri Cangaço)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Serra Talhada é destino obrigatório para quem quer conhecer história do cangaço

De todas as cidades do sertão pernambucano, a de história mais interessante - quase com certeza - é a de Serra Talhada. A notabilidade do município deve-se exclusivamente a um movimento - e a uma figura: o cangaço e Lampião. Foi naquele pedaço de terra que Virgolino Ferreira da Silva, personagem mais ambíguo da história nordestina, nasceu, viveu e fez história. Para o bem ou para o mal, Lampião foi conhecido. O maior cangaceiro da história foi herói, vilão - ou nenhum dos dois. Certo é que a ele não se fica indiferente.




"Lampião foi herói, mas também foi bandido. É preciso entender ele com essas duas visões. É um dos homens mais importantes da região nordestina", diz Edilson Leite, guia turístico.


É exatamente este o mote do museu do cangaço, de onde Edilson é guia, de Serra Talhada: "Lampião, nem herói, nem vilão". De acordo com ele, são cerca de 20 visitantes diários ali. "Vem muita gente aqui, na última semana, recebemos um casal de italianos e dois russos", afirma Leite, que acredita que deve expandir ainda mais a visibilidade do cangaço nos próximos anos, com a realização da Copa da Mundo e das Olimpíadas no Brasil.



O passeio turístico pela cidade inclui, além do museu, onde estão artigos raros da história do movimento, também uma ida ao sítio onde Virgolino nasceu. Hoje, a casa é - também um museu - mantido pelo grupo Cabras de Lampião. Serra Talhada também é conhecida por ser a capital brasileira do xaxado.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O Cangaço - Grande Debate


O debate teve como ponto principal o livro Iconografia do Cangaço, organizado por Ricardo Albuquerque e que traz um conjunto de imagens da época em que o fenômeno do cangaço imperava pelos sertões nordestinos.








domingo, 1 de julho de 2012

Baile Perfumado



RESUMO

Homem de confiança de Padre Cícero, o fotógrafo árabe Benjamin Abrahão, parte de Juazeiro, no Ceará, nos anos 30, para levantar recursos e filmar Lampião e seu bando. Graças à sua habilidade para estabelecer contatos, Benjamim localiza o cangaceiro e registra o cotidiano do grupo.
O filme, no entanto, é proibido pela ditadura do governo de Getúlio Vargas, durante o Estado Novo.

CONTEXTO HISTÓRICO

A passagem para o século XX no Brasil é marcada pela abolição da escravatura e pela proclamação da República. Apenas um aparente avanço, já que a República foi proclamada por um golpe de Estado articulado pela aristocracia rural com apoio do exército. O negro, apesar de não ser mais escravo, permanece excluído na sociedade. Soma-se a esta estagnação, a manutenção do latifúndio monocultor como base econômica da República Velha.
Mudava apenas a forma. A República não era pública, e sim oligárquica.
A monarquia caiu porque se tornou obsoleta frente a algumas mudanças sócio-econômicas representadas pela vida urbana no Sudeste. Enquanto isso, no campo, o povo continuou vivendo em condições sub-humanas e excluído do processo político. O trabalhador rural permaneceu pobre e explorado e com as dificuldades econômicas da República Velha, a situação da população rural se agravou ainda mais produzindo uma série de movimentos populares.
Foi nesse contexto que no início do século XX, grupos armados chamados de cangaceiros começaram a atuar no sertão nordestino, constituindo o que o historiador Eric Hobsbawm chamou de banditismo social. Eram homens pobres e destemidos que atacavam armazéns e fazendas, distribuindo comida para o povo, sendo por um outro lado, extremamente cruéis com seus inimigos, não hesitando em torturar, estuprar e executar. A população pobre que colaborava com os cangaceiros era protegida e tratada com generosidade.
A violência do cangaço é produzida pela condição de miséria e fome a que se encontrava submetida à população rural e pela própria violência que caracterizava as relações sociais, que estruturadas através do coronelismo e do latifúndio, marginalizavam o sertanejo, excluindo-o dos direitos mais elementares, inclusive do direito à vida.
É natural que um movimento social sem definição ideológica, desorganizado e irracional, seja facilmente manipulado, sendo comum presenciarmos bandos de cangaceiros prestando serviços para coronéis rivais, sem contar que o próprio Lampião, convidado pelo padre Cícero, recebeu armas para inutilmente atacar Luiz Carlos Prestes e sua famosa "coluna". A repressão do governo acabou com o cangaço entre 1930 --40.
Nessa mesma realidade histórica, destaca-se uma atuação diferenciada. Trata-se do padre Cícero Romão Batista, em Juazeiro, que até hoje, muito depois de sua morte (1934), é venerado como um santo.
Sua atuação ambígua foi marcada com ações de caridade para população pobre (organizou verdadeiros mutirões para montar pequenos postos de saúde, escolas e orfanatos) ao mesmo tempo em que favorecia latifundiários, (destacando-se a família Acioly, a mais poderosa do Ceará) explorando seus discípulos como mão-de-obra para construção de açudes e para colheita de algodão.
Durante o governo de Hermes da Fonseca (1910-1914) inicia-se a Política das Salvações, onde interventores federais substituíram as velhas oligarquias estaduais, sob comando do gaúcho Pinheiro Machado. Esta nova política presidencial enfrentou uma série de movimentos de rebeldia, destacando-se a Revolta do Juazeiro, liderada pelo padre Cícero, que restabeleceu a velha oligarquia dos Acioly ao poder, depondo os grupos hermistas que estavam controlando o Ceará.

Fonte: http://www.historianet.com.br

domingo, 17 de junho de 2012

As influências do cangaço na nossa cultura

A vida do rei do cangaço e sua trajetória, tornou-se fonte de inspiração nas diversas manifestações artísticas. 






As marcas do cangaço

O cangaço deixou marcas não apenas na história, cultura e costumes brasileiros. Muitos saíram dos confrontos com cicatrizes profundas, prejuízos irreparáveis e lembranças que vivem até hoje.




Loja do senhor Antonio Campos, na cidade de Triunfo (PE), saqueada pelo cangaceiro Sabino, em maio de 1926.


Panfleto distribuído pelo governo da Bahia, na região do sertão, em 1930. 

Pedro J. Santos, castrado pelo grupo de Lampião, em 17.10.1930, no município de Nossa Senhora das Dores-SE.


José Custódio Oliveira, o Zé do Papel, teve a sua orelha esquerda cortada por um cangaceiro, em outubro de 1930, em Aquidabã-SE.





Maria Marques, uma das mulheres marcadas a ferro com as iniciais de José Baiano, membro do grupo, em 06.01.1932, por ter contrariado Lampião.


Ferimentos sofridos por Lampião

1921 - Ferimento à bala no ombro e na virilha, no município de Conceição do Piancó-PB.
1922 - Ferimento na cabeça. “Só por um milagre escapei”, disse Lampião em entrevista ao Dr. Otacílio Macedo.
1924 - Ferimento à bala no dorso do pé direito, em Serra do Catolé, município de Belmonte-PE.
1926 - Ferimento leve à bala, na omoplata, em Itacuruba, município de Floresta-PE.
1930 - Ferimento leve à bala, no quadril, em Pinhão, município de Itabaiana-SE.


Cultura Itinerante

"As Marias"

Por Fabiana Maranhão

Início do século XX. Sertão nordestino. Uma Maria fez escolhas. Contrariou costumes da época, seguiu o caminho do coração e entrou para a história. É Maria Bonita, mulher de Virgulino Lampião. Para lembrar o centenário de nascimento dela, comemorado no dia 8 de março de 2011, a TV Jornal/SBT exibiu a série de três reportagens "As Marias". Conheça a vida dessa jovem e a história de outras "Marias" que até hoje quebram regras, desafiam preconceitos e, acima de tudo, amam!

Participação de João de Sousa Lima, Vera Ferreira, Frederico Pernambucano de Mello entre outros.






O Cangaço

Entre o final do século XIX e começo do XX (início da República), surgiu, no nordeste brasileiro, grupos de homens armados conhecidos como cangaceiros. Estes grupos apareceram em função, principalmente, das péssimas condições sociais da região nordestina. O latifúndio, que concentrava terra e renda nas mãos dos fazendeiros, deixava as margens da sociedade a maioria da população.


Portanto, podemos entender o cangaço como um fenômeno social, caracterizado por atitudes violentas por parte dos cangaceiros. Estes, que andavam em bandos armados, espalhavam o medo pelo sertão nordestino. Promoviam saques a fazendas, atacavam comboios e chegavam a seqüestrar fazendeiros para obtenção de resgates. Aqueles que respeitavam e acatavam as ordens dos cangaceiros não sofriam, pelo contrário, eram muitas vezes ajudados. Esta atitude, fez com que os cangaceiros fossem respeitados e até mesmo admirados por parte da população da época.

Os cangaceiros não moravam em locais fixos. Possuíam uma vida nômade, ou seja, viviam em movimento, indo de uma cidade para outra. Ao chegarem nas cidades pediam recursos e ajuda aos moradores locais. Aos que se recusavam a ajudar o bando, sobrava a violência. 

Como não seguiam as leis estabelecidas pelo governo, eram perseguidos constantemente pelos policiais. Usavam roupas e chapéus de couro para protegerem os corpos, durante as fugas, da vegetação cheia de espinhos da caatinga. Além desse recurso da vestimenta, usavam todos os conhecimentos que possuíam sobre o território nordestino (fontes de água, ervas, tipos de solo e vegetação) para fugirem ou obterem esconderijos. 

Existiram diversos bandos de cangaceiros. Porém, o mais conhecido e temido da época foi o comandado por Lampião (Virgulino Ferreira da Silva), também conhecido pelo apelido de “Rei do Cangaço”. O bando de Lampião atuou pelo sertão nordestino durante as décadas de 1920 e 1930. Morreu numa emboscada armada por uma volante, junto com a mulher Maria Bonita e outros cangaceiros, em 29 de julho de 1938. Tiveram suas cabeças decepadas e expostas em locais públicos, pois o governo queria assustar e desestimular esta prática na região. 

Depois do fim do bando de Lampião, os outros grupos de cangaceiros, já enfraquecidos, foram se desarticulando até terminarem de vez ,no final da década de 1930.