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sábado, 26 de julho de 2014

O papel-higiênico do jornal

O Globo associa deputados do Psol e PC do B a atos violentos praticados por manifestantes e não ouve o chamado 'outro lado". Jean Wyllys (Psol-RJ) responde

por Jean Wyllys


Manifestação pediu a liberdade dos manifestantes presos no Rio

Eu tenho amigos trabalhando em O Globo. Estes sabem que os respeito e sabem que sei distingui-los do jornal em que ralam. Em outras palavras, eles sabem que eu sei separá-los do desejo editorial da empresa e dos interesses de seus patrões (trabalhei anos num jornal de direita e me lembro do quanto nos constrangia as imposições dos donos dos jornais e seus títeres na redação). Logo, meus amigos que trabalham em O Globo não tomarão este comentário como algo pessoal.

Embora o conteúdo de nossa reclamação ao CNJ (em razão da violação dos direitos dos manifestantes a um julgamento justo e a ampla defesa no tempo das garantias jurídicas perpetrada pelo governo do Rio de Janeiro com apoio de um juiz e de um promotor) seja evidente; embora o conteúdo da reclamação, por si só, deixe claro, para qualquer pessoa minimamente inteligente, que nossa intenção não é defender violência nem depredações praticadas por manifestantes, mas, sim, defender os princípios do Estado Democrático de Direito; e embora nós tenhamos publicado em El País e em nossas redes sociais - já que O Globo não abriu qualquer espaço para nos ouvir - uma nota esclarecendo DIDATICAMENTE (como se explica a uma pessoa com problemas de cognição) qual o objetivo de nossa reclamação, o editorial de hoje de O Globo volta a fazer as ilações desonestas que as "reportagens" do Fantástico e dos telejornais da TV Globo já haviam feito, no sentido de nos associar (nós os parlamentares do PSOL mais a deputada federal Jandira Feghali) a atos violentos praticados por manifestantes.

Há duas hipóteses para essa atitude de O Globo. A primeira é a de que o editor (aquele que dá a linha "editorial" à cobertura e assina o texto do editorial propriamente dito) é uma pessoa que sofre de problemas cognitivos e, por isso, não consegue ler e entender mais que fachada de loja. Esta hipótese, eu descarto. A segunda hipótese é a de que O Globo está dando seqüência ao que sabe fazer bem quando quer: tentar destruir reputações de pessoas que contrariam seus interesses, intoxicando seus leitores com deturpações e ilações canhestras e desonestas intelectualmente.

Ora, não estamos esquecidos da pesada e assustadora campanha difamatória empreendida por O Globo contra Marcelo Freixo, buscando associá-lo, de maneira desonesta e forçosa, baseada em disse-me-disse, à morte do cinegrafista Santiago Andrade. Dessa campanha difamatória, que só encontrou paralelo na edição fraudulenta do debate entre Collor e Lula feita pelo Jornal Nacional em 1989, com o intuito de derrubar o candidato petista, dessa campanha, O Globo saiu desmoralizado pela hastag #LigacaoComFreixo.

E não estamos esquecidos do tratamento que O Globo (e os telejornais da TV Globo) deram às manifestações populares de junho do ano passado - criminalizando-as e justificando a desmedida violência da polícia contra elas - antes de tentar tirar proveito político das mesmas contra o governo Dilma.

Há outros exemplos do comportamento anti-ético por parte de O Globo e dos telejornais da Globo, principalmente em ano eleitoral.

Logo, o editorial de O Globo de hoje cumpre seu gasto papel de difamar quem contraria seus interesses, ao, mais uma vez, deturpar o propósito de nossa reclamação ao CNJ e ignorar que o ministro do STF Marco Aurélio de Mello pensa da mesma forma que nós:

"Não devemos esquecer que a prisão preventiva é sempre uma exceção e não uma regra. Não consigo vislumbrar nessas manifestações, criminosos, pessoas perigosas. Há uma crítica ao que se fez que é primeiro prender para ver o que tem errado. Sem considerar o princípio da culpabilidade. Não vejo porque uma ordem de prisão nesse momento antes de instaurar inquérito. Para mim é extravagante."

O Globo também ignorou a nota de respeitados juristas do país, em que estes se posicionam contra a violação do Estado de Direito que as prisões dos manifestantes no Rio de Janeiro - sem o devido processo legal, sem o direito a defesa, sem que provas sejam apresentadas contra os acusados e com abuso de prisões preventivas e temporárias - representam.

Eu construí, nesses quatro anos, um mandato comprometido com a defesa e promoção dos Direitos Humanos e das liberdades individuais. Um mandato respeitado e elogiado inclusive internacionalmente. Conquistei essa posição com trabalho, transparência e coerência, enfrentando, desde o primeiro ano, os ataques e difamações vindos dos fascistas e fundamentalistas religiosos. Sou honesto material e intelectualmente. Esforço-me por resgatar, principalmente junto às novas gerações, o apreço pela política e pelo parlamento.

E aí, vem o jornal O Globo e tenta, ao seu bel-prazer e por entender que minha atuação, nesse caso (atuação coerente com minha atuação em outros casos de violação de Direitos Humanos), contraria os seus interesses, destruir minha reputação, associando-me a uma violência que repudio.

O Globo passa sua vida enchendo suas páginas com reclamações sobre a falta de qualidade dos políticos que representam o povo brasileiro, mas, não pensa duas vezes em tentar destruir alguém que tem as qualidades que ele tanto reivindica.

E são curioso os critérios jornalísticos de O Globo (e dos telejornais da Globo), que ignoram solenemente a tortura e o assassinato de um menor por agentes da polícia do Rio, bem como o "grampo" ilegal da polícia em telefones de advogados, para dar prioridade a manifestantes acusados de crimes que ainda não cometeram. Se este é o "papel de um jornal", só pode ser o papel higiênico.

domingo, 18 de maio de 2014

“Desde o início eu vejo que tentam sabotar esse governo”, diz Otto sobre Lula e Dilma



Músico falou também a respeito das táticas Black Bloc e sobre as manifestações

Por Redação

Em entrevista para a revista Cult, o cantor pernambucano Otto falou sobre os governos Lula e Dilma, comentou a respeito da Copa do Mundo e também abordou a questão das manifestações. “Sou contra a violência. Nunca concordei com Black Bloc, com as pessoas quebrarem coisas. Não achava que o Brasil precisava chegar num desespero tão grande”, comentou o cantor.

O músico acredita que há muita coisa acontecendo que é pensada para atrapalhar o governo federal. “O que eu vejo é uma politicagem, uma sabotagem em cima desse governo, algo que eu sinto desde o primeiro governo de Lula. Eu morava no alto Leblon quando Lula ganhou. Era só eu e mais dois apartamentos gritando e o resto calado”, disse Otto, que ainda declarou que é impossível andar pelo país e não notar a mudança. “Eu que ando pelo Brasil vejo que a gente nunca teve uma situação melhor. Mas tem pessoas que não aguentam ver o pobre garantir mais coisa”, criticou.

Otto declarou voto em Dilma Rousseff e apontou que a utilização da violência nas manifestações pode despertar os grupos de extrema direita do Brasil. “Fico do lado da democracia sempre. Principalmente em horas como agora. Torço muito por dona Dilma, mas tô esperando a votação, o que vai dar. Respeito isso aí. Mas sou contra essa manifestação toda, esse perigo no qual estão colocando o Brasil. Parar a Copa, acho isso tudo aí meio ingênuo (…) O Brasil tem uma coisa pacífica tão bonita e isso está se perdendo. Falava com meus amigos que estavam numa de quebrar tudo, de destruir: ‘Calma aí’. Senão isso vai atiçar os bolsonaros, pode ver que eles subiram todos. Nessa hora sobe esse ‘boa família’, preconceituoso, careta… Esse cara está amando na hora que radicaliza. Vem a marcha da família, essas coisas tristes”.

Por fim, Otto falou sobre as contradições da base governista e as alianças políticas. “Democraticamente eu consegui mudar esse país, com meu voto. Já fui um tempo mais radical, mas eu tinha Sarney de presidente. Hoje ele é apoiador da base do meu governo. E eu não posso derrubar o meu voto porque o Sarney está me apoiando. Tenho que defender um pouco o apoio dele. É delicada a coisa. A democracia se constrói pouco a pouco”.

sábado, 17 de maio de 2014

Manifestação pelo tumulto





Desculpem, mas não foi contra a Copa coisa nenhuma. Poderia ser, não foi. Hoje foi a favor de qualquer coisa que parasse o trânsito em nossas cidades, e pra isso bastam cem debiloides e alguns cartazes.
O que está acontecendo nesse momento no Brasil não é uma manifestação da insatisfação popular contra a Copa ou a FIFA. O que acontece é uma soma de ações de grupos organizados pelos mais diferentes motivos, mas sob o guarda-chuva da Copa. Isso é desonesto, mas quem vai cobrar honestidade de black bloc?

Em São Paulo, por exemplo, professores municipais em greve tomaram a avenida 23 de maio e sem-teto se deslocaram pela Zona Leste. O que isso tem a ver com Copa? Algumas centenas de black blocs e assemelhados subiram a avenida Consolação e quebraram uma concessionária de automóveis e queimaram lixo. Cadê o tema? A manifestação era contra ao capitalismo coreano, ou o não-recolhimento de lixo na capital? Que Copa?

Pergunte a um desses blocs qual é exatamente o problema com a Copa? Lembram daqueles atorezinhos globais que fizeram um anúncio contra Belo Monte e não acertaram um só dos motivos pelos quais aquilo fosse mesmo a fonte de todo o mal? Seus bloc: qual o problema de vocês com a Copa? Corrupção? É na Copa que tem corrupção? É a questão dos aeroportos? Vocês se afligem muito com os aeroportos, isso?
O dinheiro que deveria ir pra Saúde? A Saúde gasta por ano mais de 100 bilhões de reais, e gasta bem e mal pra caramba. A Copa vai custar uns oito bilhões, pra sempre. Quem sabe se manifestar contra a burocracia que destrói a Saúde e desvia ou desperdiça bilhões fosse uma causa mais legítima para quem está mesmo indignado com os desvios do país? A Educação? De que adianta investir mais em uma Educação do século dezenove? Seu bloc: você está enfurecido pela desorientação do currículo escolar implementado pelo MEC, é isso?

Há um ano, a indignação era com os transportes, alguém lembra? Pra onde ela foi? Transporte e Copa são a mesma coisa? A Copa dura um mês, os transportes a gente usa e necessita a vida inteira. O que deveria nos preocupar mais? Aliás, com toda a indignação bloc, alguém viu alguma planilha de custos das empresas de transporte ser aberta e analisada? Em algum lugar? 

Ou seja, no ano passado a gente incendiou o país por uma causa justa – a falta de transparência nos pagamentos feitos a empresas de transporte que oferecem pouco e ganham muito. Nada se resolveu, nada avançou, mesmo que o aumento tenha sido suspenso, o que não resolve em nada o problema, uma vez que provavelmente as empresas estão sendo pagas com dinheiro público, pelo que deixaram de receber desde junho passado.

Nada do que era assunto no ano passado avançou um milímetro, e todos vocês já estão de novo colocando aquelas mascarazinhas ridículas por uma outra causa? De que adianta a indignação abastecida a molotov contra tudo isso que está aí? Vocês querem transformar radicalmente o aí? Para que servem vocês, se não sabem sequer o que são contra? Apenas para assassinar cinegrafistas e encher o saco de todo mundo?

O que acontece hoje, é que vocês assassinam causas. Vocês ridicularizam a democracia com essas máscaras sem sentido, e a democracia significa muito para mim, que vivi muitos anos sem ela. Vocês afastam todo mundo das ruas. Vocês são umas pragas.

O que eu quero ver é planilha de custos de ônibus, transparência e honestidade na definição dos custos e investimentos, e um transporte mais bem gerenciado, planejado, e quem roubou dinheiro dos trens e metrô na cadeia. O que eu quero ver é quem sobreorçou os estádios pagando por isso. Quero ver as mamatas expostas e os responsáveis chamados diante da Justiça e o dinheiro de volta. Quero ver o Ministério dos Esportes mostrando exatamente o que foi feito, o que não foi feito, e as causas, e não apenas gastando milhões com consultorias inúteis. Quero novos métodos de gestão do dinheiro público, com indicadores que nos permitam avaliar o retorno sobre TODOS os investimentos que bancamos com nossos impostos.

E isso, estimados blocs, não se consegue indo lá fora resolver nossos problemas com a autoridade paterna. Isso se resolve com ação contínua, organização dos cidadãos, com mobilização e disciplina, com meios de comunicação que queiram o bem do país, e não apenas os favores de quem apoiam. 

Isso tudo só se consegue com cidadania, algo adulto, que começamos (mal) em 1989 e estamos longe de acabar. 

Eu quero ver a Copa em paz. Já pagamos por ela, e temos esse direito. Eu quero começar a pensar na eleição presidencial e nos rumos que o Brasil vai tomar. Eu quero seguir em frente com o fortalecimento das instituições e do estado laico, deixando a Marina Silva longe de qualquer coisa parecida com poder. Eu quero seguir trabalhando, organizando, pensando e debatendo, porque sem isso o que existe é pauta e imposição. Se isso serve para os partidecos de exquerda, não serve para ninguém que viva no século 21.

Eu quero a gente curtindo a vida, sem desligar por um segundo da nossa responsabilidade para com ela e para com o país. Eu quero a gente livre dos black blocs e de volta às manifestações sérias, na dura tarefa de fazer o que tem que ser feito, e não apenas berrar ao vento pelo que nunca pode ou deve acontecer.

Gostaria ainda que a nossa Seleção fosse bem e não fizesse feio na frente de todo mundo. Mas, não sei se já perceberam, eu sei muito bem o que dá pra pedir, e o que é melhor deixar pra lá.

Um bom dia a todos, e vamos em frente.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"A burguesia brasileira é selvagem, racista e escravista”, diz Lincoln Secco


Reprodução
Para o historiador Lincoln Secco, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo, a burguesia não aceita de fato a democracia. Só o discurso democrático

Antônio David
de São Paulo (SP),
especial para o Brasil de Fato

A classe média brasileira é extremamente corrupta. Essa é a avaliação do historiador Lincoln Secco, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro História do PT (Ateliê Editorial, 2011). Segundo ele, a disputa está agora no campo dos valores, aquele em que o PT deixou de atuar.

Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Lincoln Secco analisa, entre outras questões, o papel do Partido dos Trabalhadores (PT) e suas transformações. Para ele, as transformações materiais pelas quais o PT passou afetaram tanto as alas de esquerda quanto as de direita porque todas tiveram que se profissionalizar e aceitar que fazem parte do governo. “Não acredito mais que haja contestação da ordem no PT. Há de maneira individual ou em tendências minoritárias que não têm a mínima chance de ganhar a direção”.

Segundo ele, é preciso entender que Lula mudou a estrutura de classes no Brasil e ao mesmo tempo não atacou concretamente a herança de FHC, o qual mudou a composição patrimonial do capitalismo no Brasil. “Ao entender a nova dinâmica das classes, a esquerda poderia começar a organizar a nova classe trabalhadora. Se é que isso é possível agora”.

Brasil de Fato – Em seu livro História do PT, você afirma que o Partido dos Trabalhadores concorreu decisivamente para “civilizar” a sociedade civil, conquistando nela um espaço político para os trabalhadores, tornando as greves legítimas. Gostaria que você explicasse melhor essa ideia, trazendo-a para os dias atuais.
Lincoln Secco – Florestan Fernandes dizia que nós temos uma sociedade civil não civilizada. Falava em capitalismo selvagem (a expressão era dele) e que cabia ao movimento operário cavar um espaço para os subalternos na sociedade civil. A gente esquece que nos anos de 1980 os trabalhadores não podiam fazer greve. Faziam, mas era proibido. Não é que um juiz julgava a greve abusiva. O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) simplesmente prendia todo mundo e cassava a direção do sindicato. É óbvio que a repressão continua de outra forma, mas o PT significou um polo antagônico dentro da sociedade civil. Os pobres também não podiam sequer ter certeza de comer no dia seguinte. Eu me lembro que era muito comum garotos de periferia terem só uma ou duas camisetas dadas por políticos. Na periferia não havia hipermercado e quase nunca se tomava iogurte que o pessoal só chamava de “danone”. As mulheres não compravam absorventes e não havia papel higiênico, só tiras de jornal pregadas na parede. Antigamente talvez fosse assim para quase todo mundo. Mas nos anos de 1980 a classe média já tinha tudo isso e os pobres não. O PT com todos os seus desvios continuou sua tarefa histórica ao realizar a diretriz de seu V Encontro de 1987: a criação de um mercado interno de massas.

Nesse mesmo livro, você utiliza com frequência a expressão "solo histórico" para afastar a ideia de que os limites do PT devam-se apenas à vontade ou à falta de vontade da direção do partido. Novamente, gostaria de pedir que você explique essa ideia.
O PT emergiu num momento em que o Brasil vivia dois processos internos determinantes: a crise econômica e política da Ditadura. Com isso, mascaravam-se mudanças externas que só aportariam mais tarde no Brasil sob a forma do neoliberalismo. Este “atraso” permitiu aquilo que eu chamo de Revolução Democrática que se deu entre 1984 e 1989. A “revolução” não venceu, mas nos deu um arcabouço constitucional progressista e um partido socialista de massas. Vivíamos um longo ciclo internacional recessivo desde os anos 70. O PT foi um ponto fora da curva. Não surgiu nada como ele em outros países latino-americanos. Quando este partido se estabelece como alternativa de poder, eis que o vendaval do neoliberalismo arrasa os sindicatos, destrói os empregos e joga o PT no canto do ring. Estávamos numa conjuntura de derrota política do neoliberalismo que podia ser aproveitada de maneira mais radical, o partido tinha se popularizado, mas ao mesmo tempo o partido tinha se profissionalizado e incorporado valores dos seus adversários. O neoliberalismo persistia na esfera dos valores. Neste contexto é difícil dosar o quanto transformações estruturais do partido e da sociedade e opções conscientes dos dirigentes responderam pela moderação do PT. Prefiro dizer que não dava para fazer muito desde 2003. Mas dava para fazer mais.

Em Os sentidos do lulismo, o cientista político André Singer sustenta que no PT ainda coexistiriam “duas almas”: ao lado da alma da aceitação da ordem, coexistiria a alma da contestação dessa mesma ordem. Você concorda com essa imagem
É uma boa escolha estilística. Mas não acredito mais que haja contestação da ordem no PT. Há de maneira individual ou em tendências minoritárias que não têm a mínima chance de ganhar a direção. O problema não é esse. Não acredito que o PT trocou sua alma. Ele passou por um aggiornamento gradual como um todo. Isso se deveu às escolhas que ele fez em 2002 e ao “solo histórico”, como já conversamos aqui. As transformações materiais pelas quais o PT passou afetaram tanto as alas de esquerda quanto as de direita porque todas tiveram que se profissionalizar e aceitar que fazem parte do governo. O que não quer dizer que as alas e as pessoas sejam iguais em suas crenças, compromissos ideológicos e esperanças, é óbvio.

André Singer argumenta também que o PT teria adquirido "características que lembram as do PTB anterior a 1964". Você concorda com essa comparação?
Se pensarmos em termos da “função” do PTB no “sistema” político da época, talvez o paralelo seja correto. Ao longo do tempo ele atingiu os votos dos pobres urbanos e teve dificuldade de se implantar em São Paulo onde disputou com o voto popular conservador de Ademar, Jânio etc. Só que o PTB foi criado de cima para baixo por um ex-ditador enquanto o PT foi autenticamente popular. Os analfabetos não votavam, a instabilidade político-militar era muito maior, as pressões golpistas dos Estados Unidos eram explícitas e a Constituição de 1946 era muito mais conservadora do que a atual. São ambientes totalmente distintos. O que dá para pensar é em algumas permanências daquele ambiente político, sem esquecer que tivemos uma Ditadura Militar no meio que destruiu a vida política e cultural do Brasil.

Em seu livro, ao abordar as transformações sofridas pelo PT, você indaga: “Mas é melhor manter os princípios e nunca chegar ao governo e não fazer mudanças favoráveis aos mais pobres? Chegar assim ao poder muda essencialmente a sorte dos de baixo?”. Com base nessas questões, como você avalia o debate na esquerda sobre a experiência dos governos Lula e Dilma?
Se você se refere aos pequenos partidos críticos do PT, eles não permaneceram pequenos porque seus objetivos programáticos estão errados. A crítica deles às insuficiências do governo e até aos desmandos brutais e alianças corrompidas é correta. Mas eles têm uma cegueira ideológica que impede avaliar a conjuntura. Não quero dizer que algum gênio avaliaria corretamente, mas uma direção partidária deveria fazê-lo. O primeiro passo é entender que Lula mudou a estrutura de classes no Brasil e ao mesmo tempo não atacou concretamente a herança de FHC, o qual mudou a composição patrimonial do capitalismo no Brasil. Mas qual esquerda discute isso? Por incrível que pareça setores internos do PT promovem este debate. O livro do André Singer contribuiu muito. A Fundação Perseu Abramo do PT também. Ao entender a nova dinâmica das classes, a esquerda poderia começar a organizar a nova classe trabalhadora. Se é que isso é possível agora.

Pouco tempo depois do escândalo do “mensalão” ter estourado, ocorreram eleições internas no PT. Em seu livro, ao abordar as eleições no PT ocorridas em 2005, você afirma: “a militância do PT salvou o partido”. Por quê?
Naquele momento a militância tradicional já estava afastada. Ela se mantinha como uma torcida na arquibancada. Não tinha mais pretensões de jogar. A crise de 2005 reacendeu por um átimo a chama da velha militância petista e ela foi silenciosa, mas corajosamente defendeu o PT. Organizações como o MST e a UNE foram importantes, mas os militantes anônimos é que foram ao PED (processo de eleição direta) quando a imprensa vaticinava baixo comparecimento e o fim do partido. O PED fez com que os setores da oposição que desejavam a derrubada de Lula percebessem que o custo político seria alto demais. Derrotar assim um partido de massas e um presidente com a história do Lula mantendo a fachada democrática seria impossível. É claro que setores da burguesia não estavam incomodados com o governo e não desejavam (como nunca desejam) crises políticas que afetem os negócios. Mas aquela era uma crise eminentemente política e as decisões foram tomadas em função da relação entre o custo político do impeachment e a esperança de vitória da oposição em 2006.

Na sua opinião, qual é o significado político das campanhas de doação financeira para o pagamento das multas de José Genoíno e Delúbio Soares? Aqui também se pode dizer que a militância salvou o partido?

Neste caso, eu acho que a militância não salvou o partido porque se ele quer ser salvo de alguma coisa é da própria lembrança do chamado mensalão. Ela talvez tenha sido incômoda para os dirigentes atuais porque os impede de esquecer seus antigos líderes que estão presos.

Ainda com relação ao escândalo do "mensalão", em seu livro você critica a passividade da direção do PT, que, na sua opinião, não politizou a crise. Por que a direção petista deveria ter politizado a crise e como você avalia a postura da direção do PT agora, pós-julgamento?

Esta é uma questão que precisa ser situada em três tempos. Na crise de 2005 era possível politizar e confrontar. Havia risco? Sempre há. Mas o PT teria saído com mais força ainda para fazer reformas profundas no II mandato. O PT não quis politizar a crise e deixou a iniciativa para a oposição. Ela continua politizando o “mensalão” até hoje. O segundo tempo foi o do julgamento, calculado para atrapalhar as pretensões eleitorais do PT. Naquele momento as perspectivas de politização eram menores e a tática do avestruz empregada por Lula “já tinha dado certo”. Afinal, o PT foi o grande vitorioso nas duas ultimas eleições (2010 e 2012). Agora estamos no terceiro tempo: os réus já estão condenados e presos. Não há mais nada a ser feito. Eles só serão soltos quando cumprirem parte de sua pena e politicamente já estão fora do jogo. E exatamente nesta etapa é que a direção do partido deu o maior número de declarações contra o julgamento. Ainda foi uma reação tímida. Mas a militância do PT aprendeu que o “mensalão” não interfere no resultado eleitoral e foi além de sua direção na solidariedade aos condenados.

Quais são as implicações políticas do julgamento do “mensalão” e da prisão de dirigentes do PT?
Este já é um assunto da história do PT. Não tem mais a mínima importância para os dirigentes atuais, salvo o constrangimento de ter que dar satisfações eventuais aos militantes. É óbvio que se pudessem escolher, eles prefeririam ver José Dirceu absolvido. Não é disso que se trata. A hora da reação já passou há muito. Exceto se houvesse uma improvável radicalização do governo num possível terceiro mandato, a crise de 2005 poderia ser reavaliada. Hoje o fato é este: o PT foi derrotado politicamente, apesar de suas vitórias eleitorais. Em nenhum partido social democrata do planeta seria normal aceitar a prisão de dois ex-presidentes do partido num julgamento totalmente político. Nem vou discutir o mérito das acusações. O julgamento é político porque as inovações que ele comporta foram casuísticas e só valeram para o PT. Juristas conservadores se assustaram com os vícios formais e o desrespeito à lei.

Como você avalia o resultado do último PED, que consagrou Ruy Falcão como presidente do PT com uma votação superior a 70% dos votos?
Eu poderia explicar o número com exemplos que ouvi dentro do PT, mas prefiro não enveredar pelo caminho das denúncias de filiações em massa e falsificação de votos. Não que isso não seja importante. Mas sempre aconteceu no PT em alguma medida. Há dois aspectos da vitória de Ruy Falcão por ampla margem. O primeiro deriva da profissionalização da militância e do uso de recursos financeiros. Mas o segundo tem a ver com o apoio incondicional que a nova base de filiados ao PT dá de fato ao governismo.

Na sua opinião, que implicações as manifestações de junho tiveram do ponto de vista da correlação de forças na sociedade? O PT e o governo Dilma souberam aproveitar a energia das ruas?
Junho iniciou um novo ciclo político no Brasil. Novíssimos movimentos sociais assumiram mais legitimidade popular do que os partidos tradicionais e estes terão que mudar. O governo ficou acuado juntamente com todo o sistema político. Mas Dilma foi quem ofereceu a resposta mais avançada: a reforma política. Mas o problema não está no conteúdo da reforma, rapidamente rechaçado por todos os partidos. Está na forma. Por que os políticos aceitariam reformar-se? E por que ela resolveu se dirigir a eles? Acredito que ela quis dar uma satisfação às ruas sem se comprometer realmente com a reforma. Ou seja, ela não esperava nada de sua proposta. Caso contrário teria se dirigido às ruas. Só que um governo de coalizão com partidos conservadores como o dela não pode fazer isso.

Como você encara a declaração do ex-presidente Lula, em seu artigo no New York Times publicado logo após as manifestações, de que o PT "precisa renovar-se profundamente"?
Ele também foi o que dentro do PT deu declarações mais favoráveis aos protestos de junho. Mas prefiro não comentar.

Você é um dos autores do livro Cidades Rebeldes. Em seu artigo, você afirma que o MPL, organização horizontal e autonomista, mas dirigente, foi o ator mais importante na primeira fase dos protestos [de junho]. Na sua opinião, que papel o MPL poderá cumprir na conjuntura política do país?
A geração que saiu às ruas certamente vai fornecer no futuro os melhores quadros de esquerda do Brasil. Neste caso, não me refiro ao MPL apenas, embora os seus jovens membros tenham uma qualidade de leitura da conjuntura e uma capacidade de luta que muitos partidos de esquerda não têm. Eu admiro os que eu conheci na USP. É possível que o MPL continue sendo o principal atrativo para manifestações legitimadas por amplos segmentos sociais. Mas mesmo que o MPL não seja essa força principal, o conjunto dos novíssimos movimentos sociais vai cumprir este papel. Eles vão continuar demonstrando que há insatisfação na sociedade.

Qual é a sua opinião sobre os Black Blocs?
Trata-se de uma tática. Depende do momento já que a tática é a arte de operar com os meios que você tem no “campo de batalha”. Alguém pode condenar um mascarado que se protege da espionagem policial e de suas prisões arbitrárias O problema desde junho de 2013 não está na destreza tática dos jovens. Isso eles têm de sobra. Está na ausência de uma estratégia política. Ou seja, na arte de conduzir inúmeras batalhas para vencer a “guerra”.

Há poucos dias você publicou um artigo no qual fala dos riscos da “democracia racionada”, e que estaríamos diante de um dilema: “mais democracia ou mais um passo para trás”. Por quê?
Porque essa é a nossa tradição histórica. A burguesia brasileira é selvagem, racista e escravista. Ela não aceita de fato a democracia. Só o discurso democrático. É mais ou menos como aquela burguesia paulista que em 9 de julho de 1932 se mobilizou pela democracia e dois dias antes prendeu todos os comunistas e anarquistas. A democracia racionada é basicamente assim: quando se abandona uma ditadura aberta, permite-se que os direitos políticos avancem, mas não os sociais. Mas isso é impossível, por isso também os direitos sociais avançam. Diante disso, a política recua. O que há de novo em nossa época é o uso ostensivo do poder judiciário para barrar os avanços sociais sem afetar a fachada democrática.

Num artigo publicado recentemente, você fala do “direito à violência”, e argumenta: “o isolamento a que estão sendo condenados os novíssimos movimentos sociais é produto da recusa da contraviolência legítima”. Por quê?
É que há um consenso proveniente da Ditadura: manifestantes devem apanhar calados. Ora, se há uma polícia militar que é uma criação da Ditadura, acostumada a violar seus direitos, por que você não pode se defender? Nem sou tão radical quanto às constituições originais da burguesia europeia ou dos EUA que admitiam o direito do povo de derrubar seus governos ilegítimos. O Brasil está longe da democracia burguesa. Também não me refiro à luta armada e sim ao conservantismo da imprensa que acusa manifestantes de portar vinagre e estilingue.

Passados mais de dez anos da eleição de Lula, como você encara a disputa ideológica na sociedade? Quem está ganhando a disputa de “corações e mentes”?
É cedo para dizer. O melhor é que os novíssimos movimentos sociais despertassem uma nova consciência crítica. Já a aposta da classe média tradicional pode ser a de uma falsa terceira via (Campos e Marina). Ela aceitaria as políticas sociais de Lula e romperia com o PT, o suposto responsável pela violação dos princípios da classe média: eficiência do Estado, ética etc. Tudo mentira, é claro. A classe média brasileira é extremamente corrupta. Já o PSDB ainda não aprendeu com aquele artigo de FHC sobre o papel da oposição. A disputa está agora no campo dos valores, aquele em que o PT deixou de atuar.

Como você avalia o primeiro ano do governo de Fernando Haddad em São Paulo?
Regular. Teve o imprevisível: as manifestações de junho. Não soube lidar com elas. Depois, avaliou mal (como todo o PT) o novo aspecto da dominação burguesa no Brasil que deslocou sua hegemonia do discurso do mercado para o judiciário. Foi assim que um IPTU garantido pela Câmara Municipal foi derrotado. A comunicação é ruim porque o prefeito não consegue sequer explicar as coisas boas que fez, como novos corredores de ônibus. E como bom petista, o prefeito não vai radicalizar.

Por fim, gostaria de perguntar que balanço você faz da gestão Rodas (2010-2013) na Universidade de São Paulo.
Ele foi uma figura singular num período especial da história da USP. Hoje ela é uma universidade com forte discurso neoliberal. Mas Rodas trazia práticas da ditadura Militar, à qual ele servira. Ao mesmo tempo surfou na onda de aumento da arrecadação do ICMS. Ele foi uma espécie de Maluf da reitoria, ou seja, alguém com apoio “popular” conservador. Fez e desfez obras sem se preocupar com os gastos e distribuiu dinheiro sem aumentar salários convenientemente, através de prêmios, cartões de refeição e bolsas.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Quem é ele que se vestia com a mesma roupa do Caio e que está ao lado da polícia?

Renato Rovai, / Blog do Rovai


"O melhor é assistir esse vídeo inteiro, mas se não tiver tempo, vá até o minuto 3:48 e siga ao menos até os 3:55. Antes disso fica claro que as cenas são do exato momento em que o cinegrafista, da Band, Santiago Andrade é atingido pelo rojão que acaba levando-o a morte. Há muitas circulando na rede a partir da divulgação desse vídeo. Veja o vídeo antes e depois leia as considerações abaixo dele.


1) Esse manifestante tem as roupas com as mesmas características que o acusado de jogar o rojão utilizava. E estava tão suado quanto o que apareceu no vídeo inicial.

2) Ao mesmo tempo apareceu hoje uma foto de Caio Silvo de Souza, que foi preso hoje pela manhã, em Feira de Santana, Bahia, brigando na catraca da estação da Central do Brasil naquele dia do conflito. E as fotos comprovam que ele também usava calça jeans e camisa cinza. Ao mesmo tempo surgiu essa montagem que pode ser apenas uma montagem diversionista (mas que também pode ser séria) onde ele não usa relógio na foto da Central e que estaria com relógio no momento em que é flagrado pelo vídeo que o levou a prisão.


Há ainda uma outra série de perguntas que estão sendo realizadas na rede.

3) Por que o advogado que está defendendo Caio é o mesmo que defende Fábio Raposo, que também foi preso por lhe entregar o rojão?

4) Qual a relação desse advogado, Jonas Tadeu Nunes, com as milícias do Rio de Janeiro?

5) Por que a primeira declaração que o advogado deu foi tentando levar Marcelo Freixo para dentro da história?

6) Por que ele antes mesmo de conversar por mais tempo com o seus clientes já saiu dizendo que eles recebiam dinheiro de partidos para participar das manifestações, mas não revelou quem os pagava? A quem essa narrativa interessa?

7) Por que o advogado Jonas Tadeu está usando uma estratégia tão arriscada para os seus clientes?

Há outras perguntas a serem feitas e este blogue não está afirmando nada.
Uma pergunta que é quase um xeque mate em todas as outras é:

8) Por que Caio assumiria um crime que não cometeu?

Essa é uma pergunta importante, mas que na opinião deste blogueiro não invalida todas as outras.

Se essas questões não forem respondidas rapidamente, vai se criar um clima de suspeita sobre as investigações. Até porque a polícia do Rio já foi flagrada mais de uma vez armando cenas contra manifestantes e utilizando P2 para isso. Até o Jornal o Globo já deu flagrante neles. Mas segue um vídeo da Mídia Ninja mostrando a farsa de forma clara."



Boechat e a Band também precisam pedir perdão à família de Santiago Andrade

Renato Rovai

A mais nova modalidade da praça é atribuir aos black blocs a responsabilidade por todos os problemas da violência no Brasil. E aproveitar o ensejo para criminalizar a todos os movimentos sociais que estão nas ruas. O mais estúpido dos atos neste sentido é a tentativa de aprovação a toque de caixa da lei anti-terrorismo no Senado.

Isso isenta a tática da violência por parte de grupos que estão nas ruas de suas responsabilidades? Claro que não. E aqui neste espaço alguns textos já foram escritos neste sentido. A quem interessar possa, seguem dois: este eeste.

Mas ao mesmo tempo será que não é o caso de verificar quem são os outros atores que apostaram nesta mesma violência que hoje condenam com tanta veemência? Um deles, você pode assistir no vídeo a seguir.

O jornalista Ricardo Boechat da TV Bandeirantes tem inúmeras qualidades. Mas fez neste vídeo o que muitos dos seus colegas fizeram, com, digamos, um pouco mais de acidez. Pede mais protestos violentos dizendo, entre outras coisas:

“Sou favorável a arranhar carro, sou favorável a revolta, sou favorável a quebra-quebra e o caralho. Mas isso é vandalismo? Vandalismo é o cacete.”

Recentemente a apresentadora Racquel Sherazade, do concorrente SBT, também defendeu a legitimidade da violência contra “o marginalzinho amarrado ao poste”. E tratou a ação como legítima defesa coletiva.

A morte de Santiago Andrade precisa ser levada em consideração e se tornar um ponto de inflexão para aqueles que nas ruas ou no conforto do Facebook defendiam a tática da violência como instrumento legítimo de luta. Mesmo que houvesse quase nada a justificar essa opção no contexto atual. Mesmo que não houvesse nenhum indício de que isso poderia levar o movimento e o país a algum ponto melhor do que o atual.

Mas ao mesmo tempo a morte de Santiago Andrade não pode se tornar uma bandeira na mão de grupos da violência. Que em geral são mobilizados por discursos midiáticos do tom de Sherazade. E até de um jornalista muito mais responsável, como Boechat.

E que também são mobilizados por veículos de comunicação como a Band, que tem nos programas de violência policial suas principais audiências.

PS: Agrego neste post o editorial da Band pedindo as forças de reação para punir os baderneiros.


domingo, 3 de novembro de 2013

Privatista Fernando Henrique Cardoso pediu dura repressão do Estado aos Black Blocs

FHC QUER REPRIMIR BLACK BLOCS, MAS CULPA O PT


Em artigo, ex-presidente pede repressão aos atos de vandalismo, condena a sugestão de diálogo feita pelo ministro Gilberto Carvalho e afirma que por trás de toda a insatisfação juvenil está um modelo errado de desenvolvimento; "Os governos petistas puseram em marcha uma estratégia de alto rendimento econômico e político imediato, mas com pernas curtas e efeitos colaterais negativos a prazo mais longo", diz ele, afirmando que a aposta no consumo produziu o caos nas grandes cidades; no mesmo artigo, FHC também condenou a Ley de Medios argentina

247 - Em seu artigo mensal, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pediu dura repressão do Estado aos atos de vandalismo nas manifestações, mas aproveitou para cutucar o PT. Segundo ele, a insatisfação é o subproduto de um modelo de desenvolvimento, segundo ele, esgotado. Leia abaixo sua análise:


Sem complacência

Fernando Henrique Cardoso

Temos assistido ultimamente ao encolhimento do Estado diante da fúria de vândalos, aos quais aderem agora facções do crime organizado

As notícias da semana que terminou não foram auspiciosas, nem no plano internacional nem no local. Uma decisão da Corte Suprema da Argentina, sob forte pressão do governo, sancionou uma lei que regula a concessão de meios de comunicação. Em tese, nada de extraordinário haveria em fazê-lo. No caso, entretanto, trata-se de medida tomada especificamente contra o grupo que controla o jornal “El Clarín”, ferrenho adversário do kirchnerismo. Cerceou um grupo de comunicação opositor ao governo sob pretexto de assegurar pluralidade nas normas de concessão. Há, contudo, tratamento privilegiado para o Estado e para as empresas amigas do governo.

Da Venezuela, vem-nos uma patuscada incrível: as cidades do país apareceram cobertas de cartazes contra a “trilogia do mal”, ou seja, os principais líderes opositores, aos quais se debitam as falências do governo! Seria por causa deles que há desabastecimento, falta de energia e crise de divisas, além da inflação. Tudo para incitar ódio popular aos adversários políticos do governo, apresentando-os como inimigos do povo.

O lamentável é que os governos democráticos da região assistem a tudo isso como se fosse normal e como se as eleições majoritárias, ainda que com acusações de fraudes, fossem suficientes para dar o passaporte democrático a regimes que são coveiros das liberdades.

No Brasil, também há sinais preocupantes. Às manifestações espontâneas de junho se têm seguido demonstrações de violência, desconectadas dos anseios populares, que paralisam a vida de milhões de pessoas nas grandes cidades. A estas se somam às vezes atos violentos da própria polícia. Com isso, deixa-se de ressaltar que nem toda ação coercitiva da polícia ultrapassa as regras da democracia. Pelo contrário, se nas democracias não houver autoridade legítima que coíba os abusos, estes minam a crença do povo na eficácia do regime e preparam o terreno para aventuras demagógicas de tipo autoritário.

Temos assistido ao encolhimento do Estado diante da fúria de vândalos, aos quais aderem agora facções do crime organizado. Por isso, é de lamentar que o secretário-geral da Presidência se lamurie pedindo mais “diálogo” com os black blocs, como se eles ecoassem as reivindicações populares. Não: eles expressam explosões de violência anárquica desconectadas de valores democráticos, uma espécie de magma de direita, ao estilo dos movimentos que existiram no passado no Japão e na Alemanha pós-nazista.

Esses atos vandálicos dão vazão de modo irracional ao mal-estar que se encontra disseminado, principalmente nas grandes cidades, como produto da insensatez da ocupação do espaço urbano com pouca ou nenhuma infraestrutura e baixa qualidade de vida para uma aglomeração de pessoas em rápido crescimento. O acesso caótico aos transportes, o abastecimento de água deficiente e a rede de serviços (educação, saúde e segurança) insuficiente não atendem às crescentes demandas da população. Sem mencionar que a corrupção escancarada irrita o povo. Não é de estranhar que, conectados aos meios de comunicação, que tudo informam, os cidadãos queiram dispor de serviços de países avançados ou de padrão Fifa, como dizem. Sendo assim, mesmo que a situação de emprego e salário não seja ruim, a qualidade de vida é insatisfatória. Quando, ainda por cima, a propaganda do governo apresenta um mundo de conto da Carochinha, e o cotidiano é outro, muito mais pesado, explicam-se as manifestações, mas não se justificam os vandalismos.

Menos ainda quando o crime organizado se aproveita desse clima para esparramar terror e coagir as autoridades a não fazer o que deve ser feito. Estas precisam assumir suas responsabilidades e atuar construtivamente. É necessário dialogar com as manifestações espontâneas, conectadas pela internet, e dar respostas às questões de fundo que dão motivos aos protestos. A percepção de onde o calo aperta pode sair do diálogo, mas as soluções dependem da seriedade, da competência técnica, do apoio político e da visão dos agentes públicos.

Os governos petistas puseram em marcha uma estratégia de alto rendimento econômico e político imediato, mas com pernas curtas e efeitos colaterais negativos a prazo mais longo. O futuro chegou, na esteira da falta de investimento em infraestrutura, do estímulo à compra de carros, do incentivo ao consumo de gasolina, em detrimento do etanol, e do gasto das famílias via crédito fácil, empurrado pela Caixa Econômica Federal. Os reflexos aparecem nas grandes cidades pelo país afora: congestionamentos, transporte público deficiente, aumento do nível de poluição atmosférica etc.

De repente caiu a ficha do governo: tudo pela infraestrutura, na base da improvisação e da irresponsabilidade fiscal. Primeiro, o governo federal subtraiu receitas de estados e municípios para cobrir de incentivos a produção e compra de carros. Depois, em vista do “caos urbano” e da proximidade das eleições, afagou governadores e prefeitos, permitindo-lhes a contratação de novos empréstimos, sobretudo para gastos em infraestrutura. A mão que os afaga é a mesma que apedreja a Lei de Responsabilidade Fiscal, ferida gravemente pela destruição de uma de suas cláusulas pétreas: a vedação ao refinanciamento de dívidas dentro do setor público. Mais uma medida, esta especialmente funesta, que alegra o presente e compromete o futuro.

Não haverá solução isolada e pontual para os problemas que o país atravessa e as grandes cidades sentem mais do que quaisquer outras. Os problemas estão interconectados, assim como as manifestações e demandas. Não basta melhor infraestrutura se o crime organizado continua a campear, nem ter mais hospitais e escolas se a qualidade da Saúde e da Educação não melhora. As soluções terão de ser iluminadas por uma visão nova do que queremos para o Brasil. Precisamos propor um futuro não apenas materialmente mais rico, mas mais decente e de melhor qualidade humana. Quem sabe assim possamos devolver aos jovens e a todos nós causas dignas de serem aceitas, que sirvam como antídoto aos impulsos vândalos e à complacência com eles.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Francisco Carlos Teixeira desiste da GloboNews por criminalização de movimento social

Para professor da UFRJ, “o jornalismo se esqueceu de narrar a violência cotidiana dentro de trens, ônibus, repartições públicas, hospitais e escolas contra a população trabalhadora do país”


Francisco Carlos Teixeira, professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desistiu da GloboNews, de quem era colaborador. “Eu não posso aceitar e eu não posso estar presente em num processo onde há uma criminalização do movimento social”, afirmou o docente. A declaração foi dada ao programa PCOTV, do Partido da Causa Operária (PCO).

Para Teixeira, “acusação de baderna e vandalismo ela é política, moral e penal, porque na verdade vandalismo é um artigo da Lei 9.072, que está incorporado ao Código Penal”. Portanto, para o professor há uma tentativa de criminalizar o Black Block e esse serviço “não cabe ao jornalista fazer.”

O professor condena a lógica de narração dos fatos da mídia, e aponta erros na cobertura jornalística. “O jornalismo se esqueceu de narrar a violência cotidiana dentro de trens, ônibus, repartições públicas, hospitais e escolas contra a população trabalhadora do país.”


domingo, 27 de outubro de 2013

A brecha que o sistema queria


Diante da violência a um policial, não se pode esquecer quem comete a maior delas


por Piero Locatelli 
Manifestantes no parque Dom Pedro II
Na última sexta-feira 25, um militante da fanfarra do M.A.L. tocava com a cara marcada de agressões e um trompete torto. Era o resultado da ação de um grupo de policiais que o haviam cercado, o imobilizado, o jogado no chão e pisoteado sua cara na quarta-feira 23, em protesto no distante bairro do Grajaú.

Naquele mesmo dia, abusos ocorreram quando os manifestantes foram obrigados a entrar na avenida Presidente Kennedy, prensados entre mansões e a represa, sem ter para onde fugir. Lá, ao menos vinte e três militantes foram detidos para averiguação, em claro desrespeito à constituição. Entre outros abusos, um advogado que tentava liberar presos chegou a ser estrangulado por policiais. Ninguém ganhou capas de jornais.

Nesta sexta, o tenente coronel agredido por black blocs, salvo por um P2 (policial à paisana), foi a grande notícia do último protesto da semana de luta pelo transporte público. Ao olhar as notícias e opiniões publicadas, parece que nada mais aconteceu naquele ato. Na lógica da grande mídia, a agressão de um policial vale mais do que dezenas de prisões arbitrárias e agressões contra manifestantes.

Ignorou-se que a mesma policia assistiu de braços cruzados à maior parte da depredação do terminal parque Dom Pedro II. Os 800 policias que acompanhavam o ato esperaram o fim dele para agir com contundência. Instantes depois de um jogral na praça da Sé, os militantes cantavam em clima de festa "violência é a tarifa, fascista é a policia". Foi quando ocorreu uma chuva de gás lacrimogêneo, vinda de todos os lados da praça. Milhares de pessoas tentavam correr dela, sob disparos de balas de borracha, muitas delas sozinhas.

A depredação na região se intensificou, e o medo era a regra pelas estreitas ruas do centro. A partir dali, ocorreu uma série de “detenções para averiguação”. Dos 92 presos, dois foram responsabilizados pela agressão ao policial. Vi pessoas sendo levadas ao hospital, com a perna sangrando após serem atingidas por policiais. Atrás da praça da Sé, manifestantes vomitavam em cima do meio fio graças aos efeitos do gás.

O processo do dia seguinte a este ato lembra o do dia 11 de junho, uma terça-feira, quando os jornais estamparam um policial sangrando, cercado por manifestantes, em uma imagem fora de contexto. Esqueceram dos detidos que passaram os próximos cinco dias sofrendo abusos em presídios simplesmente por estar protestando.

No dia seguinte, o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo ofereceu ajuda ao governo estadual com o que fosse necessário. Dois dias depois, o que se viu foi um estado de exceção sem precedentes no centro da cidade. Desta vez, é a própria presidenta Dilma Rousseff que oferece: “o Governo Federal coloca à disposição do Governo de São Paulo o que ele julgar necessário.”

A agressão ao policial lembra o momento em que, na narrativa de Mano Brown em “Diário de um Detento”, presidiários brigam em uma cela. Depois, são usados como desculpa para a invasão do presídio, e o esquecimento dos direito humanos no massacre do Carandiru. Nas palavras de Brown, foi “a brecha que o sistema queria”.

Não se trata aqui de defender a atitude de alguns dos adeptos do black bloc que espancaram o policial. A violência física não é adequada para tratar quem ali exerce a sua profissão, seja ela qual for. A maioria dos policiais não escolheram seu ofício por sadismo, mas pela simples necessidade de salário. Para conter os abusos dessa instituição, acho que vale mais a pena combater a sua própria existência. Além disso, o próprio histórico da tática black bloc não é de agressão às pessoas, mas da destruição de símbolos do capitalismo, entre outras ações. Também é preciso ponderar até que ponto esse tipo de ação direta difusa pode resultar em alguma conquista efetiva.

Mas, independente da discussão sobre a validade da tática dos blocs, a violência cometida pelos policiais, e pelo Estado, é desproporcional àquela cometida pelos ditos vândalos. Ao igualar a violência do opressor com a do oprimido, a opinião publicada mais uma vez dá o aval para a Polícia cometer seus excessos.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Estudante revela por que virou Black Bloc

"Estamos lutando por algo que ainda não sabemos o que é, mas que pode ser o início de algo muito grande que pode acontecer mais para frente", diz uma integrante Black Bloc



A estudante de 23 anos escolheu o nome fictício de Iuan para conversar com a reportagem da BBC Brasil pelo telefone. Após o primeiro contato pela página Black Bloc RJ no Facebook, a ativista ligou na hora marcada para a redação para dar a entrevista. Não queria divulgar seu número de telefone.

A jovem também se recusou a dar mais detalhes de sua vida e de sua participação no movimento. Só aceitou conversar com a garantia de total anonimato.

A estudante iniciou a entrevista ressaltando que não fala pelo movimento, reafirmando o caráter descentralizado e “sem lideranças” do Black Bloc.

Iuan se define como revolucionária, porém diz ser realista porque avalia que o Brasil ainda não oferece o cenário político e social favorável para uma revolução.

“Eu não diria que a revolução é uma realidade agora. Sabemos que revoluções de pensamento levaram dois séculos para acontecer. Mas posso dizer que isso pode ser o início de uma coisa muito grande daqui para frente”, diz.

A estudante conta ter um “histórico de manifestações”. Em junho, quando o país foi sacudido por uma onda de protestos, ela foi às ruas com o rosto pintado de verde-amarelo. “Aí, um dia, olhei para mim, me vi com verde e amarelo no rosto e pensei: por que eu estou assim, já que eu não tenho orgulho disso? Aí eu pensei: preto combina muito mais”, conta a jovem.

Proteção

Para Iuan, as cores da bandeira nacional, que já haviam sido usadas como propaganda da “ditadura” não estavam à altura de seu nível de indignação.

“Eu não conhecia o movimento Black Bloc antes. Aí você começa a ir para a rua, começa a conhecer melhor e perceber que aquilo (o movimento) te representa muito mais.”

“Principalmente uma pessoa como eu que já tem algum tipo de luta social e não conseguia se enquadrar em lugar nenhum. Eu vi isso (representatividade) no Black Bloc”, acrescenta.

Ela identifica os black blocs com “uma tática de manifestação cujo objetivo é proteger os manifestantes da repressão policial”, mas admite que, muitas vezes, os ativistas acabam sozinhos “porque as pessoas ficam com medo, saem”.

Questionada sobre se não é contraditório falar em proteger o manifestante quando algumas práticas do grupo acabam gerando reação ainda mais agressiva da polícia, ela menciona a retirada violenta de professores que haviam ocupado o plenário da Câmara Municipal do Rio de Janeiro há duas semanas.

“Eles foram expulsos com muita truculência pela polícia, e a atuação dos Black Blocs no dia seguinte deu mais visibilidade ao movimento dos professores”, respondeu, sem entrar em detalhes sobre como, de fato, ocorre a proteção dos manifestantes.

“Tinha gente saindo do trabalho, e todo mundo estava sendo duramente reprimido, com bombas de gás. E as pessoas estavam resistindo. Isso foi importante”, diz, argumentando que a “resistência” só foi possível porque as pessoas se sentiram protegidas pelos Black Blocs que estavam na rua naquele dia “para desafiar a polícia”.

Violência

Além de capuzes pretos e panos cobrindo os rostos, as imagens de quebradeira em agências bancárias e pontos de ônibus tornaram-se outra marca dos Black Blocs.

“Quebrar os bancos é uma revolta contra o sistema bancário”, justifica. “Quanto a quebrar orelhão e lixeiras, isso é parte da tática, para evitar o avanço da polícia, é para fazer uma barricada mesmo”, diz a manifestante.

Iuan enumera vários motivos que a levaram optar pela tática Black Bloc, entre os quais uma reflexão sobre a má qualidade dos serviços públicos de transporte e saúde e a concentração de renda no país.

Não seria então contraditório defender serviços públicos de qualidade enquanto orelhões e lixeiras são quebrados, onerando o Estado, que terá de pagar para repô-los?

Ao responder a pergunta, Iuan cita “os juros abusivos pagos pela União” na rolagem da dívida pública do país. “Uma lixeira ou orelhão não é nada frente a tudo o que a gente paga, os grandes tributos, a falta de serviços públicos”, afirma. “Isso destrói sonhos.”

Os Black Blocs dividem opiniões na sociedade, sendo classificados como anarquistas por alguns e como vândalos e baderneiros por parte da opinião pública e por autoridades. Muitos criticam suas ações, enquanto outros defendem o movimento.

Após o desfecho violento da manifestação dos professores há uma semana, que acabou com bancos e prédios públicos depredados no Rio e em São Paulo, alguns dos trabalhadores em greve chegaram a agradecer os Black Blocs pela presença no protesto.

Apesar de querer atrair a simpatia da opinião pública para a estratégia de protesto, a ativista Black Bloc diz que as pessoas “não precisam quebrar nada”. “Espero que entendam que estamos fazendo isso por todo mundo”, diz a jovem. “É uma luta pela humanidade.”

Representação política

Iuan conta que votou em todas as eleições, mas que ainda não sabe se vai escolher algum representante no próximo ano, em “uma urna eletrônica em que não confia”, como faz questão de ressaltar.

A estudante critica o mau preparo dos candidatos e as ações do governo. Ela fala da necessidade de distribuir melhor a renda, mas diz que não é de todo contra a existência do Estado.

Questionada se não estaria sendo mais reformista do que anarquista, ao reconhecer algum valor no Estado, a jovem contornou a pergunta e respondeu que tem de ser realista.

Mas Iuan diz que descarta a possibilidade de se candidatar a um cargo político no futuro porque não concorda com o atual sistema de arranjo do Estado e, como outros Black Blocs, não quer representação política.


Via:http://contextolivre.blogspot.com.br

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Uma barbárie como nos tempos mais sombrios do país

Que polícia é essa que mata quando deveria proteger



O esclarecimento que começa a surgir de forma mais detalhada da tortura e morte do pedreiro Amarildo – uma barbárie que só tivemos notícia nos tempos mais negros do Brasil – revolta não só a população carioca, mas todo o país. O Rio de Janeiro, que serviu de exemplo para os demais estados da federação no início da implantação de sua política de segurança pública, estaria agora mostrando o fracasso desse projeto? A população carioca torce muito para que essa possibilidade não seja verdade.

Mas, não sendo verdade, como explicar uma polícia que mata e tortura? Em nome de quem? Que polícia é essa que leva mais de 90 dias para esclarecer a morte de uma pessoa assassinada, por mais de dez homens, sem nenhuma chance de defesa? Surgem agora os relatos velados desse momento de horror, só encontrando fato similar nos períodos mais nefastos da ditadura, quando pessoas inocentes eram torturadas nos porões dos quarteis.

Como podemos explicar aos nosso jovens, que felizmente não viveram os anos mais duros da repressão, valores de uma sociedade honrada e digna, se os exemplos que surgem são indignos, execráveis e que deveriam estar enterrados de vez num passado sombrio? Como dizer a nossos jovens que se manifestam, se rebelam e promovem a quebradeira, nos protestos pela cidade, que o vandalismo é errado? Quais argumentos ? Com essa polícia que deveria ser responsável pela ordem e segurança dos cidadãos?

São muitas as perguntas e poucas as respostas, principalmente de quem deveria dar todas as respostas para nossa sociedade: o poder público, que nesses momentos se cala e fica ausente, trasparecendo ter adotado a estratégia da sobrevivência dos desesperados.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Um salve aos que Lutam

Segundo o manifesto nas redes sociais, o ato de ontem seria em solidariedade aos camaradas (professores do Rio). Mas o evento tomou uma dimensão política muito maior. O que não pode acontecer é um grupo querer que suas pautas, anseios e ideologias partidárias seja a linha de frente para mídia golpista. Escutar de alguns alunos da USP que o movimento era deles não dar. Abri uma discussão com eles tentando mostrar que a luta naquele momento era de todos. É sabido que em todas manifestações os Black Bloc SP faz a função de linha de frente, não no sentido de querer aparecer nas manchetes jornalísticas. Eles nos ajuda e com louvor na hora da repressão policial. Sei que muitos não concordam a forma como o bloco age. Mas no momento não vou discutir isso. Cabe lembrar que, a principal pauta dos alunos da USP era "democracia". Se querem "democracia" na instituição, precisam entender que a rua é de todos. O que quero dizer com isso: junto e misturado.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Professores mantêm greve, convocam novo ato e declaram apoio aos Black Blocs

No Rio, educadores afirmaram que violência durante protesto foi cometida pela polícia; na próxima terça-feira, Dia dos Professores, novo ato pela Educação promete reunir 1 milhão


O Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (Sepe/RJ) declarou apoio incondicional aos Black Blocs em relação aos confrontos com a polícia ocorridos na manifestação de segunda-feira (7). 

Em assembleia, os professores também decidiram dar continuidade na greve, que já dura dois meses. O encontro aconteceu nesta última quarta-feira (9) no Clube Municipal, na Tijuca, zona norte do Rio. 

O coordenador geral do Sepe, Alex Trentino, disse ainda que os Black Blocs não foram os causadores dos conflitos, mas sim a polícia. 

Segundo ele, muitos dos professores afirmaram terem sido protegidos pelos ‘jovens de preto’ dos excessos cometidos pelos policiais. Ainda relataram que os jovens fizeram os primeiros socorros de pessoas feridas durante as confusões. 

Esse apoio aos ativistas por parte dos professores já tinha ficado evidente desde a semana passada, quando o protesto da categoria foi reprimido com extrema violência policial. 

“Faço aqui meu sincero agradecimento ao Black Bloc que se juntou aos profissionais de Educação nas manifestações [...] muito obrigado Black Bloc. Estive junto de muitos de vocês nesta terça-feira e me senti amparado em muitos momentos em que o gás lacrimogênio ardia em meu rosto e olhos”, diz um, dos muitos depoimentos deixados pelos professores na página do Facebook do Black Bloc do Rio de Janeiro. 

Na próxima terça-feira (15), Dia do Professor, um novo ato está marcado e promete ser maior do que o da última segunda-feira (7). A concentração será às 17h em frente à Candelária. Mais de 12 mil pessoas já confirmaram presença pelo evento criado no Facebook. 

Os professores, que estão em greve desde o dia 8 de agosto, reivindicam, entre outras coisas, melhores estruturas no plano de carreira e condições de trabalho. A pauta passa também pelo fim da lógica do professor polivalente e da meritocracia, o que estimula a aprovação automática.

Via:http://www.brasildefato.com.br

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O 7 de Setembro de máscaras e por um mundo sem catracas

Por Davis Sena Filho — Blog Palavra Livre


Vamos relembrar. As manifestações de junho tiveram como pavio para explodirem nas ruas em reivindicações de toda ordem, violência e depredações do patrimônio público e privado, além do enfrentamento com as polícias, o Movimento Passe Livre (MPL), que defende a adoção da tarifa zero para o transporte coletivo de concessão pública. Seu bordão principal: “Por um mundo sem catracas!”

Como se observa, uma pauta e pleito nitidamente de esquerda e, evidentemente, não reivindicada pelos direitistas mascarados que oportunistamente tomaram as ruas, de forma anárquica ao tempo que fascista. Muitas dessas pessoas não sabiam por que estavam a protestar, pois não tinham pautas e muito menos conhecimento das questões brasileiras.

Os mascarados dos diferentes grupos de Ananymous e Black Blocs se autodenominaram “apartidários” e “apolíticos”, palavras estas muito usadas pelos seguidores de Adolf Hitler e Benito Mussolini — e deu no que deu. Alemães e italianos saíram às ruas para apoiá-los e depois viram suas cidades serem bombardeadas e ocupadas por forças estrangeiras. Aqui no Brasil, diversos grupos e partidos de direita, além dos coxinhas reacionários de classe média, realizaram a Marcha da Família com Deus e pela Liberdade. E deu no que deu: 21 anos de ditadura militar.

A verdade é que o MPL foi fundado no Fórum Social Mundial em 2005, em Porto Alegre. O fórum, como todo mundo sabe, reúne ativistas, militantes, partidos e entidades do campo da esquerda, que discutem e debatem soluções para que o Brasil e as outras nações se transformem em sociedades mais justas e democráticas, a ter sempre como meta a melhoria da qualidade de vida das pessoas. 

Os protestos contra o preço alto e o aumento das tarifas começaram em 2013, na capital gaúcha. Logo depois o movimento se espalhou pelas principais capitais do País, sendo que em São Paulo o MPL foi reprimido pela PM paulista controlada pelos políticos do PSDB há 20 anos. A corporação é reconhecida mundialmente como uma força pública repressora e que trabalha como se fosse segurança da elite econômica do estado bandeirante, uma das mais conservadoras e perversas do mundo.

Hoje é véspera do dia 7, mas há cerca de dois meses os Ananymous e os Black Blocs anunciam, por intermédio da internet, “o maior protesto da história do Brasil”, como se este País estivesse a começar agora a sua história, bem como não tivesse ocorrido, no decorrer desses cinco séculos, guerrilhas, movimentos, protestos e manifestações, a exemplo das Diretas Já, do Comício da Central e de outras centenas de marchas e quebra-paus, que sacudiram a sociedade brasileira. É muita presunção.

Os Ananymous e os Black Blocs aproveitaram uma pauta de esquerda e foram às ruas e passaram a quebrar o que viam pela frente. Comportam-se como centuriões romanos da classe média coxinha e dos setores mais conservadores da sociedade brasileira, que, inconformados com a ascensão social e financeira de milhões de pessoas das classes desprivilegiadas, acreditam, equivocadamente, que tais mudanças vão prejudicá-las em seus interesses de classes e categorias tradicionais, que sempre tiveram acesso às sobras do establishment.

É ridícula a visão desprovida de senso crítico das classes médias tradicionais e de grupos mascarados que não percebem que o Brasil mudou e para melhor em todos os sentidos, segmentos, áreas da economia e da sociedade civil. Quando mascarados vão às ruas, de forma não representativa e ilegal, pois esconder o rosto é a mesma coisa que não assumir as conseqüências e desrespeitar os limites e as leis de um País plural, que se alicerça no estado democrático de direito.

Mascarados que não representam a si mesmos e não são representados por ninguém, conforme suas opiniões e decisões, mas que meteram medo nos coxinhas que rapidinho abandonaram as ruas e foram tratar de suas vidinhas burguesas, confortáveis, fazer festinhas, happy hour, viagens, poupançasn e realizar estudos, trabalho e afazeres domésticos. Enquanto isso, os mascarados, três meses após junho, continuam a fazer manifestações “apartidárias”, “apolíticas” e “pacíficas”, como gosta de afirmar a imprensa de negócios privados e que hoje morre de medo de ser alvo de violência e de contestações.


A imprensa burguesa que detesta ser questionada, contestada e principalmente receber retaliações dos Black Blocs, que expulsaram os repórteres da CBN e da Globo das ruas, jogaram literalmente merda na sede da Globo em São Paulo, e, juntamente com os partidos de esquerda, sindicatos e associações de trabalhadores, além de setores da academia, reivindicam a efetivação de um marco regulatório das mídias, bem como a quebra do monopólio e dos oligopólios controlados por meia dúzia de famílias bilionárias e que são useiras e vezeiras em promover golpes de estado, conflitos, discórdias e todo tipo de “disse me disse”, que inferniza a vida republicana brasileira.

Os Ananymous são grupos de direita e de extrema direita liderados por militares e policiais aposentados, executivos, comerciantes, empresários, estudantes direitistas, além da Juventude do PSDB, do DEM e do PPS. São pessoas também ligadas à área rural, que historicamente remonta o que temos de mais conservador neste País, a exemplo da UDR, sem me esquecer de citar o Instituto Millenium, que é uma concentração de neocons, sendo que muitos deles chegam às raias do fascismo.

Os Black Blocs se consideram anarquistas; mas, apesar de terem jogado merda na Globo, quebrarem bancos e sedes de instituições públicas e lojas de automóveis caríssimos, que simbolicamente representam poder econômico e status, muito de seus comportamentos tem conotação e coloração fascista, à direita do que pregam, com ações violentas e protegidas pelos rostos cobertos por máscaras negras.

Mascarados são um acinte à democracia, porque as máscaras permitem encobrir crimes, o que facilita, inclusive, a tentativa de golpes por parte daqueles que, em nome de um Brasil melhor, querem, na verdade, destituir quem está no poder eleito legitimamente, bem como, se possível, desmoralizar a autoridade e desconstruir as instituições republicanas e principalmente o que foi conquistado pelo povo brasileiro nos últimos 11 anos.

Para se ter uma ideia da incongruência e desfaçatez desses movimentos “apartidários” e “apolíticos”, bem como “pacíficos” para a imprensa cínica e alienígena, em nenhum momento vi os inúmeros grupos Ananymous pedirem pela reforma agrágria, defenderem os médicos cubanos e programas sociais da importância do Bolsa Família. Também não reivindicaram a quebra do monopólio nas comunicações ou exigiram para que o mensalão tucano e os escândalos de mais de R$ 600 milhões do PSDB denunciados pela Siemens e a sonegação de mais R$ 600 milhões da Rede Globo fossem duramente investigados e os seus autores punidos.

Nem pensar. Os Ananymous, os Black Blocs, em menor intensidade, e os coxinhas mequetrefes alienados e reacionários se preocuparam com a seguinte pauta: 1) Não à PEC 37; 2) Saída imediata de Renan Calheiros da Presidência do Congresso Nacional; 3) Investigação dos investimentos da Copa do Mundo; 4) Corrupção como crime hediondo; e 5) O fim do fórum privilegiado.

Como se observa, as lideranças dos mascarados reivindicam questões constitucionais e jurídicas, que não passam pelo crivo do Poder Executivo, pois são temas ligados ao Legislativo e ao Judiciário. Não tem nada haver com saúde, educação e segurança, porque o movimento de extrema direita é político e visa enfraquecer o governo trabalhista da presidenta Dilma Rousseff, bem como colocar a faca no pescoço do Congresso e do Judiciário. As reivindicações são políticas e constitucionais e essa gente do Anaymous distorce os fatos e deturpa a realidade. Afinal quem usa máscara só pode tergiversar e mentir.

Amanhã vai ser o Dia 7 de Setembro, data da Independência do Brasil. Os mascarados dos Black Blocs e dos Ananymous vão às ruas. Os primeiros se consideram anarquistas e sem lideranças e partidos. Os segundos pregam também a mesma coisa. Os Ananymous são fascistas quando não nazistas e pensam em golpe de estado. Os Black Blocs se promovem, pois querem aparecer como força política, apesar de serem “apartidários”. Eles querem fazer parte do panorama político e social brasileiro de máscaras!

Os Black Blocs se vestem de preto e se dizem anarquistas, mas na verdade são anarco-fascistas, pois são autoritários e querem ganhar a vez no grito e na violência pura e simples. Os anarquistas respeitam o indivíduo, o outro e prezam pela vida; e, sem sombra de dúvida, esses caras não respeitam ninguém. Viva o Brasil! É isso aí.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Carta branca à desobediência civil

O que é Black Bloc e o que esperar dessa juventude que ganha as ruas



22/08/2013

Flávia Alves,

de São Paulo (SP)

Após uma série de protestos e passeatas contra o aumento da passagem em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Fernando Haddad (PT) anunciaram, no dia 19 de junho, a redução das tarifas de ônibus e trem. A vitória dos manifestantes provou a força da articulação virtual e abriu um novo caminho de se fazer política.

“Estamos experimentando outra maneira de expressão política, típica de uma geração fruto do período democrático mais longo da história brasileira”, aponta Dennis de Oliveira, professor da USP e pesquisador de Comunicação Popular, ao se referir sobre quem são esses novos atores que surgem.

A maioria dos manifestantes tem cerca de 20 anos, portanto, todos nascidos em regime político flexível, como também fazem parte da “era da informação”, em que todos estão conectados em rede pelas plataformas digitais.

“Por isso, surgem organizações que se articulam em arranjos táticos pontuais para garantir determinadas reivindicações”, explica Oliveira, sem deixar de ressaltar que apesar desses jovens não estarem conectados com as grandes narrativas ideológicas, eles reconheçam que elas ainda existem e têm a sua importância.

Após a redução da tarifa, as manifestações assumiram outras pendências por conta da insatisfação geral do brasileiro com o governo.

Quanto a essa guinada nas manifestações, Oliveira aponta que esse fenômeno expressa a formação de uma nova esfera pública, na qual múltiplas ideias e ideologias estão em disputa.

“Não se trata apenas de uma pauta de reivindicações para ser negociada com os governantes, é preciso construir um espaço para o diálogo entre sociedade civil e instituições.”

O professor afirma também que a situação atual mostra uma população que quer se autorrepresentar no espaço político, e não que seus representantes façam política por ela, e relembra: “Essa população não tem uma ideologia definida. É um espaço em disputa, por isso grupos de direita também saíram às ruas para expressar suas bandeiras”.

A desobediência civil e o Black Bloc

Não há dúvida que o Movimento Passe Livre (MPL) e o Black Bloc saem dessas manifestações como dois dos seus principais protagonistas.

O primeiro prioriza a ação direta não-violenta; interditaram ruas e estradas e ocuparam prédios públicos. Respondem como um grupo organizado com pautas objetivas e metas de conduta dentro de uma manifestação.

Já o Black Bloc não é um grupo, nem possui nenhum tipo de representação. Carregam semelhanças com o grupo Anonymous, uma rede de troca de ideias e informação sem líderes e completamente anônima.

O Black Bloc é definido no momento da manifestação e formado por um grupo de pessoas que agem de maneira autônoma com algumas afinidades - enfrentam a polícia, constroem barricadas nas ruas e depredam empresas-símbolo do Capital.

De acordo com Pablo Ortellado, professor de Políticas Públicas da PUC, o Black Bloc não pode ser considerado uma tática de ação violenta, já que seus adeptos destroem o patrimônio público e não a integridade física das pessoas.

Com vandalismo

Para entender melhor como agem os membros do Black Bloc, Yargo Gurjão, membro do coletivo Nigéria, acompanhou de perto as manifestações de junho e julho em Fortaleza, registrando depoimentos de manifestantes e as cenas de conflito.

O resultado é o documentário "Com vandalismo", que mostra quem são e o que querem esses mascarados. Gurjão explica que antes de qualquer julgamento ou contextualização histórica, o importante é dialogar com eles, e de preferência com muitos.

“O Black Bloc deve ser visto de maneira cuidadosa, a ideia é não haver unidade ou liderança, mas existe o espírito de solidariedade entre eles”, alerta.

O integrante do coletivo Nigéria também aponta que é preciso diferenciar o ato violento daquele que é feito como resistência a uma violência.

“A grande mídia não se interessa pela motivação de quem pratica a desobediência civil. Tachar manifestante de ‘vândalo’ esgota as chances de tentar compreender a complexidade de toda a situação”, resume ele.

O documentário "Com vandalismo" mostra que os manifestantes mudam a sua maneira de agir de acordo com o calor do momento. O vídeo registra jovens pacifistas na linha de frente dos conflitos com o batalhão de choque da Polícia Militar e mascarados carregando outros manifestantes para longe do gás lacrimogêneo. Portanto, é coerente afirmar que não há como definir quem são esses “vândalos”.

Solidariedade

“A linha de frente foi o lugar onde mais vimos atos de solidariedade”, diz Yargo, ao argumentar que é preciso entender o que leva esses jovens ao conflito direto com os policiais. Segundo ele, a impotência das pessoas perante o aparato repressor da polícia também faz com que aumente o espírito coletivo dos que se encontram nessa situação.

Apesar de não simpatizar com as táticas do Black Bloc, Dennis de Oliveira, por sua vez, faz uma ressalva no mesmo sentido. A de que ação é justificada pela “existência de uma polícia contaminada com a ideologia militarista de combate ao inimigo interno, oriunda da ditadura militar”.

“A brutal concentração de riquezas, em especial pelos bancos e instituições financeiras, e a impunidade desses segmentos sociais por parte das instituições do poder público é que facilitam a geração dessa revolta expressa dos Black Blocs”,complementa.

O momento ainda é cedo para se ter uma definição exata do que seja essa mobilização de jovens. A única coisa que se pode afirmar sobre essas pessoas é que são muito mais do que “vândalos” e que cabe à sociedade se perguntar de onde vieram e por quem lutam os Black Blocs.

Via:http://www.brasildefato.com.br