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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Exclusivo: Fernando Haddad fala sobre Marta, Chalita, a lógica do MPL e o caipirismo do PSDB

por : Kiko Nogueira




O prefeito de São Paulo Fernando Haddad recebeu o DCM para uma entrevista em seu gabinete no antigo Edifício Matarazzo, no Viaduto do Chá.

Sem gravata, terno preto com camisa branca, o inconfundível cabelo dividido ao meio, Haddad falou sob o impacto de um novo protesto do Movimento Passe Livre, ocorrido no dia anterior. Para ele, o MPL prefere o “tudo ou nada” a uma negocição gradual. Haddad fez um balanço de seus dois anos de governo, falou do polêmico convite feito a Gabriel Chalita (PMDB) para a secretaria de educação e de seu relacionamento com Marta Suplicy, sua possível adversária em 2016.

A seguir, os principais trechos da conversa.

A nomeação de Gabriel Chalita 

Acho que as pessoas se surpreendem com o convite por não prestarem atenção aos desdobramentos e aos eventos históricos. Minha relação com o Chalita começou antes de eu ser ministro. Participamos da reforma educacional do governo federal.

Naquele momento, o PSDB se comportava de forma suprapartidária. Os projetos eram considerados de estado, não de governo. O Chalita teve um papel fundamental como mediador de conflitos com o pensamento conservador em proveito de uma agenda mais avançada.

Na campanha para a prefeitura em 2012, aquele que perdeu apoiou quem ganhou. Foi visto como natural pela população que o Chalita me apoiasse — ou vice-versa, se ele tivesse passado para o segundo turno. Isso me deu a vitória. É uma relação de dez anos. Já era boa quando ele estava no PSDB. Valorizo nele essa capacidade de interlocução.

Não foi indicação do Lula. Aliás, aconteceu o contrário… Chalita e eu comunicamos ao Temer e ao Lula esse desejo. Em se tratando de uma aproximação desta natureza, eu achei de bom tom que o ex-presidente ficasse ciente e opinasse. Os dois saudaram a aproximação, que foi vista como um ganho para a educação.

Marta Suplicy

Minha primeira função pública foi na gestão da Marta. Adorei ter participado da experiência. Nos dois primeiros anos fui testemunha do esforço que foi feito para valorizar a educação. Participei da equipe que fez os CEUs. Sempre nos demos muito bem.

Sempre foi uma relação muito respeitosa — até aqui, pelo menos. Gosto muito das pessoas envolvidas nessa história [a ruptura de Marta com o PT] para dar uma opinião sobre a atitude dela.

Os protestos do Movimento Passe Livre 

Os prefeitos todos do Brasil estamos na mesma situação. Todos querem ampliar a gratuidade da tarifa. Sou o primeiro a reconhecer a questão do transporte.

Mas, em março de 2013, portanto 70 dias antes do primeiro protesto daquele ano, defendi a municipalização da Cide, tributo que incide sobre a gasolina. Foi na Folha. Falei que a Cide [sigla para Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico] deveria ser municipalizada para dar aos prefeitos a condição de adotar uma política mais agressiva de modicidade tarifária.

Imaginava naquele momento que aquilo fosse ensejar um debate sobre tarifa. Não vou transferir recursos de saúde e educação.

Para minha surpresa, quando o MPL esteve com a presidenta Dilma, entregou uma carta defendendo a minha tese de março. Infelizmente, parece ter abandonado essa bandeira. Daria para os prefeitos do Brasil uma perspectiva de, sem prejudicar saúde, educação, poder criar um mecanismo para mexer na tarifa.

É possível ampliar os direitos gradualmente. Sem radicalizar. Mas a tática deles é claramente binária: ou levo tudo ou não levo nada. Ou você me dá 100% do que estou pedindo ou você é meu inimigo.

O prefeito é o elo fraco da federação. Houve uma reconcentração de recursos públicos na esfera da União que começou no governo Fernando Henrique. Tem havido um esforço para mudar.

O custo do transporte é de 6 bilhões de reais por ano. Imaginar que você possa abrir mão desse recurso de uma hora para outra é complicado.

Quem vai remover as ciclovias?

A mudança de paradigma veio para ficar. Uma vez que a malha viária é a mesma e a ideia de túneis e viadutos se provou um fracasso do ponto de vista urbanístico, qual é a alternativa para a mobilidade? O conceito está estabelecido mundialmente: transporte público, ciclovias, respeito ao pedestre. De um ponto de vista da transversalidade: como isso dialoga com saúde pública, com causas ambientais e com causas sociais. Uma agenda transversal.

Li um estudo recente sobre a saúde dos ciclistas amadores, impressionantemente melhor que a dos sedentários. A saúde do usuário de transporte público também é melhor que a do cara que usa só o carro. Você precisa caminhar até a estação de metrô ou o ponto.

Se os 400 quilômetros de ciclofaixas estiverem prontos até o final deste ano (ele entregou 170 por enquanto), multiplica por 1 metro e meio, a largura de uma ciclovia, e estamos falando de 600 mil metros quadrados — 40% do parque Ibirapuera. Ou seja, você está tirando muito pouco para o impacto todo que estamos tendo.

Ninguém vai ousar remover essas ciclovias. Faixas de ônibus são a mesma coisa. No ano passado, parecia que o mundo ia acabar. Fui acusado de falta de planejamento, falta de tudo…

O trânsito aumentou de 2011 para 2012 14,8%; de 2012 para 2013, 7,8%; de 2013 para 2014, 2,8%, segundo a CET. A cidade se acomoda de outra maneira. Obviamente que o preconceito, o dogmatismo, a intolerância falam alto. Fica mais fácil esbravejar nas rádios do que fazer a conta do que realmente acontece de bom.

Um professor de esquerda

A maioria da população apoia as iniciativas e quem fala nos meios de comunicação não são as pessoas para as quais essas políticas são forjadas. O cara que só critica não dialoga com o mundo moderno, com a contemporaneidade.

O jogo eleitoral é muito pesado. Eu não sou nada além de um professor de esquerda. Um professor de esquerda, filho de imigrantes, chegar a ministro da educação e a prefeito de São Paulo é difícil de engolir para muitas pessoas. É difícil assimilar. Quando você faz algo que eles poderiam ter feito e nunca fizeram, fica um ressentimento. “Como você ousou fazer uma obviedade dessas?” Tem uma coisa psicanalítica nisso, que transcende a política.

Convivência

O Brasil tem um resquício escravocrata. É um país de presente escravocrata. Agora nós democratizamos as oportunidades. Não havia democratização das oportunidades. Isso mudou, o que significa que brancos terão que conviver cada vez mais com negros, ricos com pobres etc, como aliás acontece na Europa, nos Estados Unidos etc. Algumas pessoas vêem isso como ameaça. Ameaça, na verdade, é uma sociedade desigual como a nossa. O que ameaça o mundo desenvolvido é a desigualdade. Isso põe em risco a democracia. O risco à democracia não é só cultural e ideológico. É material. Isso é o que nós não queremos admitir.

Viva o centro 

É crescente o número de lançamentos no centro. E ele ainda vai crescer. Mais construtoras vão se interessar pela região. A reforma que nós vamos fazer no Anhangabaú vai dar uma cara boa pro centro.

Acho que iniciativas como a ciclovia do Minhocão, as praias urbanas, a desfavelização do Largo de São Francisco… tudo isso está mudando o lugar. Praticamente não havia praças sem barraco. Fizemos uma limpeza sem expulsar ninguém. Sem higienizar. Estamos fazendo coleta de lixo aos domingos. Eu tinha uma ideia de que o centro não tinha gente nesse dia. Pois nós tiramos 100 toneladas de lixo aos domingos.

Rolezinho

Tenho o hábito de passear no centro aos domingos. Vou com o motorista. Eu vou trabalhar às vezes de ônibus, de metrô ou de bicicleta. Gostaria de ir mais, só que o ajudante de ordens não deixa… Eu falo “não precisa ninguém me acompanhando”. “Mas se ninguém te acompanhar vai ficar ruim pra nós”, eles dizem.

Estamos pensando em fazer visitas guiadas de bicicleta para as pessoas terem uma primeira experiência estética com o grafite. Pode ser uma porta de entrada para a arte para essas pessoas. Vai ser a primeira galeria de arte de rua com visita guiada no mundo.

O humor do paulistano e o caipirismo do PSDB

São Paulo é uma montanha russa de humor. Tudo influencia tudo. Uma volubilidade muito grande. Por isso, se você tem um projeto para a cidade, execute e se dê por satisfeito.

Por exemplo, eu aprovei um Plano Diretor que é considerado pela ONU um dos mais avançados do mundo. Aprovamos a renegociação da dívida com a União que vai trazer uma redução do estoque de 26 bilhões de reais. São êxitos poucos podem dizer que vão alcançar.

São Paulo tem condições de reassumir o protagonismo no Brasil, condição que perdeu nos últimos 20 anos. Não existe cidade do mundo do tamanho de São Paulo que não interaja com o governo central. Essa crítica do excesso de dependência do governo federal é mais uma amostra do caipirismo que tomou conta do PSDB. O PSDB era um partido antenado com o que acontece no mundo. Hoje é o partido mais caipira do Brasil. Ou melhor, provinciano — porque eu gosto dos caipiras. Lamentável que o PSDB tenha chegado aonde chegou.

O PSDB e a judicialização da política 

Eu esperava muitas coisas quando candidato. O que não estava no meu horizonte é a judicialização da política. O PSDB entra na Justiça por qualquer coisa. Costumo dizer que o ditado “a justiça tarda, mas não falha”, no caso da política, está errado: a justiça tarda e falha. Política é tempo.

A outra surpresa como prefeito é a postura do MPL. Não esperava isso, sobretudo de pessoas que têm uma bagagem para entender o que é a intolerância. A intolerância não é de esquerda. É um fundamentalismo que eu lamento. O Charlie Hebdo é vítima do infeliz crescimento dessa intolerância que cresce no mundo. Nós devemos cerrar fileira com aqueles que são comprometidos com as causas libertárias.

domingo, 27 de outubro de 2013

A brecha que o sistema queria


Diante da violência a um policial, não se pode esquecer quem comete a maior delas


por Piero Locatelli 
Manifestantes no parque Dom Pedro II
Na última sexta-feira 25, um militante da fanfarra do M.A.L. tocava com a cara marcada de agressões e um trompete torto. Era o resultado da ação de um grupo de policiais que o haviam cercado, o imobilizado, o jogado no chão e pisoteado sua cara na quarta-feira 23, em protesto no distante bairro do Grajaú.

Naquele mesmo dia, abusos ocorreram quando os manifestantes foram obrigados a entrar na avenida Presidente Kennedy, prensados entre mansões e a represa, sem ter para onde fugir. Lá, ao menos vinte e três militantes foram detidos para averiguação, em claro desrespeito à constituição. Entre outros abusos, um advogado que tentava liberar presos chegou a ser estrangulado por policiais. Ninguém ganhou capas de jornais.

Nesta sexta, o tenente coronel agredido por black blocs, salvo por um P2 (policial à paisana), foi a grande notícia do último protesto da semana de luta pelo transporte público. Ao olhar as notícias e opiniões publicadas, parece que nada mais aconteceu naquele ato. Na lógica da grande mídia, a agressão de um policial vale mais do que dezenas de prisões arbitrárias e agressões contra manifestantes.

Ignorou-se que a mesma policia assistiu de braços cruzados à maior parte da depredação do terminal parque Dom Pedro II. Os 800 policias que acompanhavam o ato esperaram o fim dele para agir com contundência. Instantes depois de um jogral na praça da Sé, os militantes cantavam em clima de festa "violência é a tarifa, fascista é a policia". Foi quando ocorreu uma chuva de gás lacrimogêneo, vinda de todos os lados da praça. Milhares de pessoas tentavam correr dela, sob disparos de balas de borracha, muitas delas sozinhas.

A depredação na região se intensificou, e o medo era a regra pelas estreitas ruas do centro. A partir dali, ocorreu uma série de “detenções para averiguação”. Dos 92 presos, dois foram responsabilizados pela agressão ao policial. Vi pessoas sendo levadas ao hospital, com a perna sangrando após serem atingidas por policiais. Atrás da praça da Sé, manifestantes vomitavam em cima do meio fio graças aos efeitos do gás.

O processo do dia seguinte a este ato lembra o do dia 11 de junho, uma terça-feira, quando os jornais estamparam um policial sangrando, cercado por manifestantes, em uma imagem fora de contexto. Esqueceram dos detidos que passaram os próximos cinco dias sofrendo abusos em presídios simplesmente por estar protestando.

No dia seguinte, o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo ofereceu ajuda ao governo estadual com o que fosse necessário. Dois dias depois, o que se viu foi um estado de exceção sem precedentes no centro da cidade. Desta vez, é a própria presidenta Dilma Rousseff que oferece: “o Governo Federal coloca à disposição do Governo de São Paulo o que ele julgar necessário.”

A agressão ao policial lembra o momento em que, na narrativa de Mano Brown em “Diário de um Detento”, presidiários brigam em uma cela. Depois, são usados como desculpa para a invasão do presídio, e o esquecimento dos direito humanos no massacre do Carandiru. Nas palavras de Brown, foi “a brecha que o sistema queria”.

Não se trata aqui de defender a atitude de alguns dos adeptos do black bloc que espancaram o policial. A violência física não é adequada para tratar quem ali exerce a sua profissão, seja ela qual for. A maioria dos policiais não escolheram seu ofício por sadismo, mas pela simples necessidade de salário. Para conter os abusos dessa instituição, acho que vale mais a pena combater a sua própria existência. Além disso, o próprio histórico da tática black bloc não é de agressão às pessoas, mas da destruição de símbolos do capitalismo, entre outras ações. Também é preciso ponderar até que ponto esse tipo de ação direta difusa pode resultar em alguma conquista efetiva.

Mas, independente da discussão sobre a validade da tática dos blocs, a violência cometida pelos policiais, e pelo Estado, é desproporcional àquela cometida pelos ditos vândalos. Ao igualar a violência do opressor com a do oprimido, a opinião publicada mais uma vez dá o aval para a Polícia cometer seus excessos.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O 7 de Setembro de máscaras e por um mundo sem catracas

Por Davis Sena Filho — Blog Palavra Livre


Vamos relembrar. As manifestações de junho tiveram como pavio para explodirem nas ruas em reivindicações de toda ordem, violência e depredações do patrimônio público e privado, além do enfrentamento com as polícias, o Movimento Passe Livre (MPL), que defende a adoção da tarifa zero para o transporte coletivo de concessão pública. Seu bordão principal: “Por um mundo sem catracas!”

Como se observa, uma pauta e pleito nitidamente de esquerda e, evidentemente, não reivindicada pelos direitistas mascarados que oportunistamente tomaram as ruas, de forma anárquica ao tempo que fascista. Muitas dessas pessoas não sabiam por que estavam a protestar, pois não tinham pautas e muito menos conhecimento das questões brasileiras.

Os mascarados dos diferentes grupos de Ananymous e Black Blocs se autodenominaram “apartidários” e “apolíticos”, palavras estas muito usadas pelos seguidores de Adolf Hitler e Benito Mussolini — e deu no que deu. Alemães e italianos saíram às ruas para apoiá-los e depois viram suas cidades serem bombardeadas e ocupadas por forças estrangeiras. Aqui no Brasil, diversos grupos e partidos de direita, além dos coxinhas reacionários de classe média, realizaram a Marcha da Família com Deus e pela Liberdade. E deu no que deu: 21 anos de ditadura militar.

A verdade é que o MPL foi fundado no Fórum Social Mundial em 2005, em Porto Alegre. O fórum, como todo mundo sabe, reúne ativistas, militantes, partidos e entidades do campo da esquerda, que discutem e debatem soluções para que o Brasil e as outras nações se transformem em sociedades mais justas e democráticas, a ter sempre como meta a melhoria da qualidade de vida das pessoas. 

Os protestos contra o preço alto e o aumento das tarifas começaram em 2013, na capital gaúcha. Logo depois o movimento se espalhou pelas principais capitais do País, sendo que em São Paulo o MPL foi reprimido pela PM paulista controlada pelos políticos do PSDB há 20 anos. A corporação é reconhecida mundialmente como uma força pública repressora e que trabalha como se fosse segurança da elite econômica do estado bandeirante, uma das mais conservadoras e perversas do mundo.

Hoje é véspera do dia 7, mas há cerca de dois meses os Ananymous e os Black Blocs anunciam, por intermédio da internet, “o maior protesto da história do Brasil”, como se este País estivesse a começar agora a sua história, bem como não tivesse ocorrido, no decorrer desses cinco séculos, guerrilhas, movimentos, protestos e manifestações, a exemplo das Diretas Já, do Comício da Central e de outras centenas de marchas e quebra-paus, que sacudiram a sociedade brasileira. É muita presunção.

Os Ananymous e os Black Blocs aproveitaram uma pauta de esquerda e foram às ruas e passaram a quebrar o que viam pela frente. Comportam-se como centuriões romanos da classe média coxinha e dos setores mais conservadores da sociedade brasileira, que, inconformados com a ascensão social e financeira de milhões de pessoas das classes desprivilegiadas, acreditam, equivocadamente, que tais mudanças vão prejudicá-las em seus interesses de classes e categorias tradicionais, que sempre tiveram acesso às sobras do establishment.

É ridícula a visão desprovida de senso crítico das classes médias tradicionais e de grupos mascarados que não percebem que o Brasil mudou e para melhor em todos os sentidos, segmentos, áreas da economia e da sociedade civil. Quando mascarados vão às ruas, de forma não representativa e ilegal, pois esconder o rosto é a mesma coisa que não assumir as conseqüências e desrespeitar os limites e as leis de um País plural, que se alicerça no estado democrático de direito.

Mascarados que não representam a si mesmos e não são representados por ninguém, conforme suas opiniões e decisões, mas que meteram medo nos coxinhas que rapidinho abandonaram as ruas e foram tratar de suas vidinhas burguesas, confortáveis, fazer festinhas, happy hour, viagens, poupançasn e realizar estudos, trabalho e afazeres domésticos. Enquanto isso, os mascarados, três meses após junho, continuam a fazer manifestações “apartidárias”, “apolíticas” e “pacíficas”, como gosta de afirmar a imprensa de negócios privados e que hoje morre de medo de ser alvo de violência e de contestações.


A imprensa burguesa que detesta ser questionada, contestada e principalmente receber retaliações dos Black Blocs, que expulsaram os repórteres da CBN e da Globo das ruas, jogaram literalmente merda na sede da Globo em São Paulo, e, juntamente com os partidos de esquerda, sindicatos e associações de trabalhadores, além de setores da academia, reivindicam a efetivação de um marco regulatório das mídias, bem como a quebra do monopólio e dos oligopólios controlados por meia dúzia de famílias bilionárias e que são useiras e vezeiras em promover golpes de estado, conflitos, discórdias e todo tipo de “disse me disse”, que inferniza a vida republicana brasileira.

Os Ananymous são grupos de direita e de extrema direita liderados por militares e policiais aposentados, executivos, comerciantes, empresários, estudantes direitistas, além da Juventude do PSDB, do DEM e do PPS. São pessoas também ligadas à área rural, que historicamente remonta o que temos de mais conservador neste País, a exemplo da UDR, sem me esquecer de citar o Instituto Millenium, que é uma concentração de neocons, sendo que muitos deles chegam às raias do fascismo.

Os Black Blocs se consideram anarquistas; mas, apesar de terem jogado merda na Globo, quebrarem bancos e sedes de instituições públicas e lojas de automóveis caríssimos, que simbolicamente representam poder econômico e status, muito de seus comportamentos tem conotação e coloração fascista, à direita do que pregam, com ações violentas e protegidas pelos rostos cobertos por máscaras negras.

Mascarados são um acinte à democracia, porque as máscaras permitem encobrir crimes, o que facilita, inclusive, a tentativa de golpes por parte daqueles que, em nome de um Brasil melhor, querem, na verdade, destituir quem está no poder eleito legitimamente, bem como, se possível, desmoralizar a autoridade e desconstruir as instituições republicanas e principalmente o que foi conquistado pelo povo brasileiro nos últimos 11 anos.

Para se ter uma ideia da incongruência e desfaçatez desses movimentos “apartidários” e “apolíticos”, bem como “pacíficos” para a imprensa cínica e alienígena, em nenhum momento vi os inúmeros grupos Ananymous pedirem pela reforma agrágria, defenderem os médicos cubanos e programas sociais da importância do Bolsa Família. Também não reivindicaram a quebra do monopólio nas comunicações ou exigiram para que o mensalão tucano e os escândalos de mais de R$ 600 milhões do PSDB denunciados pela Siemens e a sonegação de mais R$ 600 milhões da Rede Globo fossem duramente investigados e os seus autores punidos.

Nem pensar. Os Ananymous, os Black Blocs, em menor intensidade, e os coxinhas mequetrefes alienados e reacionários se preocuparam com a seguinte pauta: 1) Não à PEC 37; 2) Saída imediata de Renan Calheiros da Presidência do Congresso Nacional; 3) Investigação dos investimentos da Copa do Mundo; 4) Corrupção como crime hediondo; e 5) O fim do fórum privilegiado.

Como se observa, as lideranças dos mascarados reivindicam questões constitucionais e jurídicas, que não passam pelo crivo do Poder Executivo, pois são temas ligados ao Legislativo e ao Judiciário. Não tem nada haver com saúde, educação e segurança, porque o movimento de extrema direita é político e visa enfraquecer o governo trabalhista da presidenta Dilma Rousseff, bem como colocar a faca no pescoço do Congresso e do Judiciário. As reivindicações são políticas e constitucionais e essa gente do Anaymous distorce os fatos e deturpa a realidade. Afinal quem usa máscara só pode tergiversar e mentir.

Amanhã vai ser o Dia 7 de Setembro, data da Independência do Brasil. Os mascarados dos Black Blocs e dos Ananymous vão às ruas. Os primeiros se consideram anarquistas e sem lideranças e partidos. Os segundos pregam também a mesma coisa. Os Ananymous são fascistas quando não nazistas e pensam em golpe de estado. Os Black Blocs se promovem, pois querem aparecer como força política, apesar de serem “apartidários”. Eles querem fazer parte do panorama político e social brasileiro de máscaras!

Os Black Blocs se vestem de preto e se dizem anarquistas, mas na verdade são anarco-fascistas, pois são autoritários e querem ganhar a vez no grito e na violência pura e simples. Os anarquistas respeitam o indivíduo, o outro e prezam pela vida; e, sem sombra de dúvida, esses caras não respeitam ninguém. Viva o Brasil! É isso aí.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Carta branca à desobediência civil

O que é Black Bloc e o que esperar dessa juventude que ganha as ruas



22/08/2013

Flávia Alves,

de São Paulo (SP)

Após uma série de protestos e passeatas contra o aumento da passagem em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Fernando Haddad (PT) anunciaram, no dia 19 de junho, a redução das tarifas de ônibus e trem. A vitória dos manifestantes provou a força da articulação virtual e abriu um novo caminho de se fazer política.

“Estamos experimentando outra maneira de expressão política, típica de uma geração fruto do período democrático mais longo da história brasileira”, aponta Dennis de Oliveira, professor da USP e pesquisador de Comunicação Popular, ao se referir sobre quem são esses novos atores que surgem.

A maioria dos manifestantes tem cerca de 20 anos, portanto, todos nascidos em regime político flexível, como também fazem parte da “era da informação”, em que todos estão conectados em rede pelas plataformas digitais.

“Por isso, surgem organizações que se articulam em arranjos táticos pontuais para garantir determinadas reivindicações”, explica Oliveira, sem deixar de ressaltar que apesar desses jovens não estarem conectados com as grandes narrativas ideológicas, eles reconheçam que elas ainda existem e têm a sua importância.

Após a redução da tarifa, as manifestações assumiram outras pendências por conta da insatisfação geral do brasileiro com o governo.

Quanto a essa guinada nas manifestações, Oliveira aponta que esse fenômeno expressa a formação de uma nova esfera pública, na qual múltiplas ideias e ideologias estão em disputa.

“Não se trata apenas de uma pauta de reivindicações para ser negociada com os governantes, é preciso construir um espaço para o diálogo entre sociedade civil e instituições.”

O professor afirma também que a situação atual mostra uma população que quer se autorrepresentar no espaço político, e não que seus representantes façam política por ela, e relembra: “Essa população não tem uma ideologia definida. É um espaço em disputa, por isso grupos de direita também saíram às ruas para expressar suas bandeiras”.

A desobediência civil e o Black Bloc

Não há dúvida que o Movimento Passe Livre (MPL) e o Black Bloc saem dessas manifestações como dois dos seus principais protagonistas.

O primeiro prioriza a ação direta não-violenta; interditaram ruas e estradas e ocuparam prédios públicos. Respondem como um grupo organizado com pautas objetivas e metas de conduta dentro de uma manifestação.

Já o Black Bloc não é um grupo, nem possui nenhum tipo de representação. Carregam semelhanças com o grupo Anonymous, uma rede de troca de ideias e informação sem líderes e completamente anônima.

O Black Bloc é definido no momento da manifestação e formado por um grupo de pessoas que agem de maneira autônoma com algumas afinidades - enfrentam a polícia, constroem barricadas nas ruas e depredam empresas-símbolo do Capital.

De acordo com Pablo Ortellado, professor de Políticas Públicas da PUC, o Black Bloc não pode ser considerado uma tática de ação violenta, já que seus adeptos destroem o patrimônio público e não a integridade física das pessoas.

Com vandalismo

Para entender melhor como agem os membros do Black Bloc, Yargo Gurjão, membro do coletivo Nigéria, acompanhou de perto as manifestações de junho e julho em Fortaleza, registrando depoimentos de manifestantes e as cenas de conflito.

O resultado é o documentário "Com vandalismo", que mostra quem são e o que querem esses mascarados. Gurjão explica que antes de qualquer julgamento ou contextualização histórica, o importante é dialogar com eles, e de preferência com muitos.

“O Black Bloc deve ser visto de maneira cuidadosa, a ideia é não haver unidade ou liderança, mas existe o espírito de solidariedade entre eles”, alerta.

O integrante do coletivo Nigéria também aponta que é preciso diferenciar o ato violento daquele que é feito como resistência a uma violência.

“A grande mídia não se interessa pela motivação de quem pratica a desobediência civil. Tachar manifestante de ‘vândalo’ esgota as chances de tentar compreender a complexidade de toda a situação”, resume ele.

O documentário "Com vandalismo" mostra que os manifestantes mudam a sua maneira de agir de acordo com o calor do momento. O vídeo registra jovens pacifistas na linha de frente dos conflitos com o batalhão de choque da Polícia Militar e mascarados carregando outros manifestantes para longe do gás lacrimogêneo. Portanto, é coerente afirmar que não há como definir quem são esses “vândalos”.

Solidariedade

“A linha de frente foi o lugar onde mais vimos atos de solidariedade”, diz Yargo, ao argumentar que é preciso entender o que leva esses jovens ao conflito direto com os policiais. Segundo ele, a impotência das pessoas perante o aparato repressor da polícia também faz com que aumente o espírito coletivo dos que se encontram nessa situação.

Apesar de não simpatizar com as táticas do Black Bloc, Dennis de Oliveira, por sua vez, faz uma ressalva no mesmo sentido. A de que ação é justificada pela “existência de uma polícia contaminada com a ideologia militarista de combate ao inimigo interno, oriunda da ditadura militar”.

“A brutal concentração de riquezas, em especial pelos bancos e instituições financeiras, e a impunidade desses segmentos sociais por parte das instituições do poder público é que facilitam a geração dessa revolta expressa dos Black Blocs”,complementa.

O momento ainda é cedo para se ter uma definição exata do que seja essa mobilização de jovens. A única coisa que se pode afirmar sobre essas pessoas é que são muito mais do que “vândalos” e que cabe à sociedade se perguntar de onde vieram e por quem lutam os Black Blocs.

Via:http://www.brasildefato.com.br

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A garota black bloc na capa da Veja responde à revista

“Emma” aponta os erros na matéria em que foi o personagem central



por Mauro Donato,


“Emma, de 25 anos, integrante dos black blocs no Rio”, conforme legenda que identifica o rosto coberto por uma camiseta na capa da Veja, está indignada. E afirmou que irá redigir uma “Carta aberta à Veja”.

Na tarde de sábado, logo após a revista chegar às suas mãos, Emma, acampada no Ocupa Cabral, apoderou-se do celular que fazia transmissão ao vivo pelo TwitCasting e passou mais de uma hora vociferando contra a publicação (vídeo aqui).

Revoltada, demonstrava discordar de A a Z da matéria. Ainda na capa, ela aponta um erro que considera primário ao inseri-la como membro de um grupo. “Black bloc não é grupo e sim uma tática de manifestação. Não tenho como ser integrante de uma coisa que não existe.” A chamada (O bando dos caras tapadas) também desperta ira quanto ao trocadilho que ela diz ser “digno do Zorra Total” e que jornalistas deveriam se envergonhar de trabalhar numa revista como aquela.

Auxiliada por um mascarado que a ajuda a folhear a revista cujas páginas estão rebeldes por causa do vento da praia, Emma vai analisando e xingando trechos preconceituosos e moralistas. Sua revolta (e dos que estão ao redor) aumenta diante do relato sobre consumo de drogas e sexo promíscuo. “Entre um baseado e um gole de vodka, (…) vinho barato e cocaína ! Onde isso?”

Ela segue jogando molotovs na Veja até chegar ao quadro de fundo cinza, parte que considera ter sido feita especialmente para si. Abaixo de uma foto em que aparece lendo História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman, o texto procura atingi-la de modo a reduzir suas insatisfações a desvarios adolescentes. Emma ridiculariza a tentativa da revista de expor intimidades e frases soltas apenas para diminuí-la.

O mascarado também faz seu desabafo: “Isso foi tudo inventado. A grande mídia faz assim, ela conta a história que ela quer. Essa matéria aqui é completamente mentirosa, não é nem falaciosa, é mentirosa mesmo. A intenção é manipular a opinião pública”, diz ele.

Emma aponta a câmera para as barracas: “Olha lá, todo mundo transando e se drogando.” Ela se enfurece com o golpe baixo ao ser chamada de namoradeira e suspeita que gente infiltrada a delatou na passagem em que “fica” com dois acampados num mesmo dia.

As fotos nas quais ela aparece (capa e miolo) são assunto polêmico. Ainda que através de uma elíptica fenda apenas se revelem os olhos azuis, sobrancelhas finas e um pouco do nariz, todos de traços sugestivamente médio-orientais e de ar misterioso, fica evidente que Emma mexe com a curiosidade. Enquanto conta que o fotógrafo se fez passar por membro de agência internacional, Emma recebe um elogio à sua beleza através do chat interativo. “Obrigada, mas a reportagem não mexeu com meu ego. Não adianta nada a foto estar bonita se o conteúdo é escroto”, disse. “Não vendi foto nenhuma, publicaram isso sem minha autorização”. Uma senhora que estava ao lado pergunta se ela pode processar a revista por uso indevido de imagem. “Sim”, responde Emma. Um outro espectador bem humorado diz ter sentido falta de um poster central na revista. “Poster o caralho, já falei para parar com a idolatria. Não vim aqui para mostrar a bunda, vim mostrar o que tenho no cérebro.”

Emma diz ter sido procurada no acampamento por uma repórter da Veja e também pelo Globo. Dá a entender que recusou ambos os convites por não concordar com a grande mídia. Afirmou ter dito à repórter da Veja que não conversaria com ela pois o editor manipularia tudo conforme seu interesse. Contudo, enquanto lia a reportagem, por diversas vezes declarou: “Eu não disse isso, desse jeito.”

Além dos equívocos denunciados por Emma, a matéria afirma que os blacks blocs são um grupo pequeno e não chegariam a duzentos miilitantes. Apenas na frente da Assembleia Legislativa de São Paulo, na semana passada, havia um grupo de aproximadamente cem indivíduos. Comunidades black blocs no Facebook são encontradas em São Paulo, Caxias do Sul, Minas, Ceará, Niterói, Rio de Janeiro. Só a do Rio possui mais de 23 mil “curtidores”.

Também não é verdade quando a revista afirma que black blocs haviam queimado uma catraca durante uma manifestação (o ato é simbólico e religiosamente proporcionado pelo MPL, não teve nada a ver com black blocs) ou quando alega que nenhum McDonald’s ou Starbucks escapem ilesos de protestos em que haja pelo menos um mascarado (na noite de sexta-feira, novamente na Assembleia, nenhuma guerra de spray ou gás ocorreu mesmo na presença de 60 ou 70 black blocs).

Criticando professores universitários admiradores do movimento, a Veja incita a polícia a enquadrar os “arruaceiros” pelo crime de formação de quadrilha, algo ainda não feito, obviamente, por não ser possível juridicamente (como foi dito por um membro dos Advogados Ativistas aqui no Diário).

Na Carta ao Leitor da mesma edição, lê-se que “VEJA sempre se pautou pela busca da informação correta em nome do interesse público.” Ao encerrar sua participação no Twitcasting, Emma diz para a Editora Abril: “A população está vendo o que vocês estão fazendo.”