Total de visualizações de página

segunda-feira, 3 de março de 2014

“Mas é carnaval, vadia!” – ou quando os homens chegam ao fundo do poço


Adoro carnaval de rua. E São Paulo está ótima com os blocos que polvilham a cidade.

É claro que, em meio a essa fauna exuberante, há sempre alguns com a velha tática de “conquista'' da idade da pedra lascada, que consiste em “abater a presa e consumi-la ainda viva''.

Juro que não sei onde enfiar a cara de vergonha quando um rapaz agarra o braço de uma moça e insiste que só o largará quando receber um beijinho. Ou quando o piolho dá um “armlove'' e, insano, tenta arrastar a moça até ser contido por outros foliões – ou não. Presenciei uma cena patética e recorrente: depois de receber uma miríade de respostas desabonadoras, e sem soltar o braço de uma mulher bastante educada, um deles pediu “por favor, por favor, me dá um beijo''. Cara, cadê sua dignidade? Isso é o fundo do poço! O amor próprio é o primeiro a morrer quando a alcateia está olhando.

Mas, em comparação a outros carnavais, tenho a grata impressão de que há mais pessoas conscientes e sentindo-se empoderadas para não deixar barato esse tipo de assédio sexual. Fiquei sabendo de casos em que a polícia foi acionada e pôs água no chope dos desmiolados que achavam que a bunda alheia é patrimônio público. Não sei o que aconteceu, mas torço para que o boletim de ocorrência tenha sido devidamente registrado. Vai que o dito resolve prestar um concurso público no futuro…

Em outro momento, depois de dar um tapa na cara de um sujeito que tentara lhe beijar à força, uma colega ouviu em alto e bom tom, quase como uma crítica social: “Mas é carnaval, vadia! Quem está aqui sozinha é porque quer isso''. O sujeito aprendeu com amigos e família, viu na televisão, ouviu no rádio, que este é um momento em que as regras de convivência estão suspensas e todos procuram sexo. Para ele, a rua é um imenso Tinder offline (não que todos usem o app dessa forma, mas o desespero de alguns por lá é deprimente). Daí, quando rejeitados, expressam toda a sua perplexidade em bordões como “vagabundas'', “vadias'' e “piranhas''.

Convivo com cenas patéticas, como essa, com uma infeliz frequência. Afinal de contas, moro em São Paulo e seria impossível não me deparar com esse universo bizarro de jovens mimados que acham que a cidade é uma extensão da tela do seu videogame, as ruas, um anexo do banheiro que usam pela manhã diariamente e o carro, uma continuidade do seu pênis. Ou complemento, o que varia de acordo com a forma com que cada um encara suas frustrações. Tempos atrás postei alguns textos sobre isso, mas tratando da noite paulistana. Que também pode ser uma várzea completa.

E como já escrevi nessas ocasiões, para esses jovens, provavelmente não se enquadram na categoria de “vagabundas'' apenas suas mães e avós, que dormem o sono das santas católicas, enquanto quem é “da vida'' povoa o carnaval. Porque “mulher de bem'' está em casa a essa hora, não aceitaria nunca colocar um vestido acima do joelho e deixar as costas de fora, não bebe, fuma ou tem vícios detestáveis, não ama apenas por uma noite e não ri em público, escancarando os dentes a quem quer que seja. “Mulher de bem'' permanece em casa para servir o “homem de bem'' e estar à sua disposição como empregada, psicóloga, enfermeira, cozinheira ou objeto sexual, a qualquer hora do dia e da noite.

Por que? Porque, na sua cabeça, elas pertencem a eles. Porque assim sempre foi, é assim que se ensinou e foi aprendido. É a tradição, oras! E o discurso da tradição, muitas vezes construído de cima para baixo para manter alguém subjugado a outro não pode ser questionado. Quem ousa sair desse padrão, pode ser vítima de alguns “corretivos sociais''.

Esse tipo de ataque carnavalesco é sim uma forma de violência sexual cometida por ricos e pobres. E das mais perversas porque, como tal, não são encaradas. Ainda mais quando envolvem jovens ricos, bêbados ou não. Pois estes não cometem crimes, apenas fazem “molecagens'' e, portanto, fora de cogitação qualquer punição. Isso se aplica apenas a moços pobres.

E não se engane. Não é só meia dúzia de celerados. Ataques como esse traduzem o que parte da nossa sociedade machista pensa. Que uma mulher que conversa de forma simpática em um bloco de carnaval está à disposição, que uma mulher que se veste da forma como queira está à disposição, que um grupo de mulheres sem “seus homens'', brincando na rua, está à disposição.

Como já trouxe aqui, o homem precisa começar a mexer na sua programação que, desde pequeno, o ensina a ser agressivo e a tratar mulheres como coisas. Raramente a ele é dado o direito que considere normal oferecer carinho e afeto em público. Bom é xingar, machucar, deixar claro quem manda e quem obedece. O contrário é coisa de mina. Ou, pior, de bicha.

E quando uma mulher não tem a garantia de que não será importunada, ofendida ou violentada, com ações ou palavras, toda a sociedade tem uma parcela de culpa. Pelo que fez. Pelo que deixou de fazer.

Sheherazade convoca “Marcha da Família”

Por Altamiro Borges


Saiu neste sábado (1) na coluna de fofocas de Felipe Patury, da revista Época: “No próximo dia 22, em São Paulo, sai da Praça da República rumo à Catedral da Sé a segunda edição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. A original fez, em 1964, percurso semelhante dias antes de o ex-presidente João Goulart ser derrubado. Há 50 anos, a organização coube a então primeira-dama do estado, Leonor de Barros, e a mulheres de empresários. A atual foi convocada pelas redes sociais, recebeu apoio de lideranças evangélicas e, pelo Facebook, da apresentadora Rachel Sheherazade, do SBT. O grupo diz contar com a simpatia do filósofo Olavo de Carvalho e até de Denise Abreu, a petista que mandou na aviação civil no governo Lula e ficou famosa por sua predileção por charutos”.

De imediato, dei risada! Pensei que era piada carnavalesca. Mas não é. A patética marcha, que relembra a ação dos golpistas em 1964, está marcada para 22 de março e a âncora do SBT, que explora uma concessão pública de tevê, realmente está metida na sua convocação. Em sua página no Facebook, a nova musa de direita conclama seus seguidores: “Gente boa, sempre vou defender a família. Participe da marcha, divulgue, mostre sua defesa em favor dessa instituição criada por Deus”. E Rachel Sheherazade não é ingênua. Ela sabe que a tal marcha nada tem a ver com Deus ou a família, termos usados para enganar os mais ingênuos e tapados. Num dos sítios que convoca a manifestação ficam explícitos os seus objetivos golpistas e fascistóides.

A marcha tem como principal intento exigir “intervenção militar constitucional já”. Entre outras bandeiras, ela prega: “1- destituir a presidente Dilma Rousseff e o vice-presidente Michel Temer; 2- dissolver o Congresso Nacional; 3- prisão de todos os conspiradores por servirem aos interesses estrangeiros através do Foro de São Paulo, uma invasão sigilosa do território nacional executada pelo regime de Cuba através de agentes infiltrados; 4- dissolução de todos os partidos e investigação com punição das organizações integrantes do Foro de São Paulo; 5- Intervenção em todos os governos estaduais e municipais e nos seus respectivos legislativos; 6- combate à corrupção e à subversão; 7- intervenção no STF, cuja presença de ministros simpáticos aos conspiradores é clara e evidente”.

Já um folheto distribuído pelas ruas da capital paulista afirma que “há 50 anos, no dia 19 de março de 1964, nossos pais e avós foram às ruas e conseguiram a redenção do povo brasileiro. Eles tiveram coragem. Agora é a nossa vez”. O panfleto prega “intervenção militar constitucional” e rosna: “Fora o comunismo, o marxismo e as doutrinas vermelhas”; “Não seremos uma nova Cuba nem uma nova Venezuela”. Outro texto critica “a contratação de médicos cubanos e os gastos para a realização de grandes eventos esportivos no Brasil” e conclama: “Todos juntos nas ruas dizendo um não à tirania do PT, em apoio aos irmãos venezuelanos e contra a ditadura esquerdista... Todos em defesa da nossa pátria. Nossa bandeira é verde e amarelo e não foice e martelo”.

A apresentadora do SBT se soma a estas mensagens – um misto de fanatismo direitista e maluquice fascista. Em sua página no Facebook, os fiéis seguidores elogiam sua “coragem” e chegam a lançá-la para disputar cargos eletivos. Amilton Augusto, por exemplo, defende “Joaquim Barbosa (presidente) e Rachel Sheherazade (vice-presidente)”. Elias Machado comenta: “Não sei se ela tem vocação política, mas seria uma ótima opção para presidente”. Já Arthur Roque declara: “Eu apoio a intervenção militar. Somente isto para acabar com esta corja de comunistas. Está na hora do pau! Avante general Heleno, avante Jair Bolsonaro”. Só falta a emissora de Silvio Santos estampar uma convocatória para a "Marcha da Família"!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Lula: Por que o Brasil é o país das oportunidades


Por Luiz Inácio Lula da Silva

Passados cinco anos do início da crise global, o mundo ainda enfrenta suas consequências, mas já se prepara para um novo ciclo de crescimento. As atenções estão voltadas para mercados emergentes como o Brasil. Nosso modelo de desenvolvimento com inclusão social atraiu e continua atraindo investidores de toda parte. É hora de mostrar as grandes oportunidades que o país oferece, num quadro de estabilidade que poucos podem apresentar.

Nos últimos 11 anos, o Brasil deu um grande salto econômico e social. O PIB em dólares cresceu 4,4 vezes e supera US$ 2,2 trilhões. O comércio externo passou de US$ 108 bilhões para US$ 480 bilhões ao ano. O país tornou-se um dos cinco maiores destinos de investimento externo direto. Hoje somos grandes produtores de automóveis, máquinas agrícolas, celulose, alumínio, aviões; líderes mundiais em carnes, soja, café, açúcar, laranja e etanol.

Reduzimos a inflação, de 12,5% em 2002 para 5,9%, e continuamos trabalhando para trazê-la ao centro da meta. Há dez anos consecutivos a inflação está controlada nas margens estabelecidas, num ambiente de crescimento da economia, do consumo e do emprego. Reduzimos a dívida pública líquida praticamente à metade; de 60,4% do PIB para 33,8%. As despesas com pessoal, juros da dívida e financiamento da previdência caíram em relação ao PIB.

Colocamos os mais pobres no centro das políticas econômicas, dinamizando o mercado e reduzindo a desigualdade. Criamos 21 milhões de empregos; 36 milhões de pessoas saíram da extrema pobreza e 42 milhões alcançaram a classe média.

Quantos países conseguiram tanto, em tão pouco tempo, com democracia plena e instituições estáveis?
A novidade é que o Brasil deixou de ser um país vulnerável e tornou-se um competidor global. E isso incomoda; contraria interesses. Não é por outra razão que as contas do país e as ações do governo tornaram-se objeto de avaliações cada vez mais rigorosas e, em certos casos, claramente especulativas. Mas um país robusto não se intimida com as críticas; aprende com elas.

A dívida pública bruta, por exemplo, ganhou relevância nessas análises. Mas em quantos países a dívida bruta se mantém estável em relação ao PIB, com perfil adequado de vencimentos, como ocorre no Brasil? Desde 2008, o país fez superávit primário médio anual de 2,58%, o melhor desempenho entre as grandes economias. E o governo da presidenta Dilma Rousseff acaba de anunciar o esforço fiscal necessário para manter a trajetória de redução da dívida em 2014.

Acumulamos US$ 376 bilhões em reservas: dez vezes mais do que em 2002 e dez vezes maiores que a dívida de curto prazo. Que outro grande país, além da China, tem reservas superiores a 18 meses de importações? Diferentemente do passado, hoje o Brasil pode lidar com flutuações externas, ajustando o câmbio sem artifícios e sem turbulência. Esse ajuste, que é necessário, contribui para fortalecer nosso setor produtivo e vai melhorar o desempenho das contas externas.

O Brasil tem um sistema financeiro sólido e expandiu a oferta de crédito com medidas prudenciais para ampliar a segurança dos empréstimos e o universo de tomadores. Em 11 anos o crédito passou de R$ 380 bilhões para R$ 2,7 trilhões; ou seja, de 24% para 56,5% do PIB. Quantos países fizeram expansão dessa ordem reduzindo a inadimplência?

O investimento do setor público passou de 2,6% do PIB para 4,4%. A taxa de investimento no país cresceu em média 5,7% ao ano. Os depósitos em poupança crescem há 22 meses. É preciso fazer mais: simplificar e desburocratizar a estrutura fiscal, aumentar a competitividade da economia, continuar reduzindo aportes aos bancos públicos, aprofundar a inclusão social que está na base do crescimento. Mas não se pode duvidar de um país que fez tanto em apenas 11 anos.

Que país duplicou a safra e tornou-se uma das economias agrícolas mais modernas e dinâmicas do mundo? Que país duplicou sua produção de veículos? Que país reergueu do zero uma indústria naval que emprega 78 mil pessoas e já é a terceira maior do mundo?

Que país ampliou a capacidade instalada de eletricidade de 80 mil para 126 mil MW, e constrói três das maiores hidrelétricas do mundo? Levou eletricidade a 15 milhões de pessoas no campo? Contratou a construção de 3 milhões de moradias populares e já entregou a metade?

Qual o país no mundo, segundo a OCDE, que mais aumentou o investimento em educação? Que triplicou o orçamento federal do setor; ampliou e financiou o acesso ao ensino superior, com o Prouni, o FIES e as cotas, e duplicou para 7 milhões as matrículas nas universidades? Que levou 60 mil jovens a estudar nas melhores universidades do mundo? Abrimos mais escolas técnicas em 11 anos do que se fez em todo o Século XX. O Pronatec qualificou mais de 5 milhões de trabalhadores. Destinamos 75% dos royalties do petróleo para a educação.

E que país é apontado pela ONU e outros organismos internacionais como exemplo de combate à desigualdade?

O Brasil e outros países poderiam ter alcançado mais, não fossem os impactos da crise sobre o crédito, o câmbio e o comércio global, que se mantém estagnado. A recuperação dos Estados Unidos é uma excelente notícia, mas neste momento a economia mundial reflete a retirada dos estímulos do Fed. E, mesmo nessa conjuntura adversa, o Brasil está entre os oito países do G-20 que tiveram crescimento do PIB maior que 2% em 2013.

O mais notável é que, desde 2008, enquanto o mundo destruía 62 milhões de empregos, segundo a Organização Internacional do Trabalho, o Brasil criava 10,5 milhões de empregos. O desemprego é o menor da nossa história. Não vejo indicador mais robusto da saúde de uma economia.

Que país atravessou a pior crise de todos os tempos promovendo o pleno emprego e aumentando a renda da população?

Cometemos erros, naturalmente, mas a boa notícia é que os reconhecemos e trabalhamos para corrigi-los. O governo ouviu, por exemplo, as críticas ao modelo de concessões e o tornou mais equilibrado. Resultado: concedemos 4,2 mil quilômetros de rodovias com deságio muito acima do esperado. Houve sucesso nos leilões de petróleo, de seis aeroportos e de 2.100 quilômetros de linhas de transmissão de energia.

O Brasil tem um programa de logística de R$ 305 bilhões. A Petrobras investe US$ 236 bilhões para dobrar a produção até 2020, o que vai nos colocar entre os seis maiores produtores mundiais de petróleo. Quantos países oferecem oportunidades como estas?

A classe média brasileira, que consumiu R$ 1,17 trilhão em 2013, de acordo com a Serasa/Data Popular, continuará crescendo. Quantos países têm mercado consumidor em expansão tão vigorosa?

Recentemente estive com investidores globais no Conselho das Américas, em Nova Iorque, para mostrar como o Brasil se prepara para dar saltos ainda maiores na nova etapa da economia global. Voltei convencido de que eles têm uma visão objetiva do país e do nosso potencial, diferente de versões pessimistas. O povo brasileiro está construindo uma nova era – uma era de oportunidades. Quem continuar acreditando e investindo no Brasil vai ganhar ainda mais e vai crescer junto com o nosso país.


Luiz Inácio Lula da Silva é ex-presidente da República e presidente de honra do PT


Este artigo foi originalmente publicado no jornal Valor Econômico: http://www.valor.com.br/opiniao/3442426/por-que-o-brasil-e-o-pais-das-oportunidades

Via:http://wwwterrordonordeste.blogspot.com.br/

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"A burguesia brasileira é selvagem, racista e escravista”, diz Lincoln Secco


Reprodução
Para o historiador Lincoln Secco, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo, a burguesia não aceita de fato a democracia. Só o discurso democrático

Antônio David
de São Paulo (SP),
especial para o Brasil de Fato

A classe média brasileira é extremamente corrupta. Essa é a avaliação do historiador Lincoln Secco, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro História do PT (Ateliê Editorial, 2011). Segundo ele, a disputa está agora no campo dos valores, aquele em que o PT deixou de atuar.

Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Lincoln Secco analisa, entre outras questões, o papel do Partido dos Trabalhadores (PT) e suas transformações. Para ele, as transformações materiais pelas quais o PT passou afetaram tanto as alas de esquerda quanto as de direita porque todas tiveram que se profissionalizar e aceitar que fazem parte do governo. “Não acredito mais que haja contestação da ordem no PT. Há de maneira individual ou em tendências minoritárias que não têm a mínima chance de ganhar a direção”.

Segundo ele, é preciso entender que Lula mudou a estrutura de classes no Brasil e ao mesmo tempo não atacou concretamente a herança de FHC, o qual mudou a composição patrimonial do capitalismo no Brasil. “Ao entender a nova dinâmica das classes, a esquerda poderia começar a organizar a nova classe trabalhadora. Se é que isso é possível agora”.

Brasil de Fato – Em seu livro História do PT, você afirma que o Partido dos Trabalhadores concorreu decisivamente para “civilizar” a sociedade civil, conquistando nela um espaço político para os trabalhadores, tornando as greves legítimas. Gostaria que você explicasse melhor essa ideia, trazendo-a para os dias atuais.
Lincoln Secco – Florestan Fernandes dizia que nós temos uma sociedade civil não civilizada. Falava em capitalismo selvagem (a expressão era dele) e que cabia ao movimento operário cavar um espaço para os subalternos na sociedade civil. A gente esquece que nos anos de 1980 os trabalhadores não podiam fazer greve. Faziam, mas era proibido. Não é que um juiz julgava a greve abusiva. O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) simplesmente prendia todo mundo e cassava a direção do sindicato. É óbvio que a repressão continua de outra forma, mas o PT significou um polo antagônico dentro da sociedade civil. Os pobres também não podiam sequer ter certeza de comer no dia seguinte. Eu me lembro que era muito comum garotos de periferia terem só uma ou duas camisetas dadas por políticos. Na periferia não havia hipermercado e quase nunca se tomava iogurte que o pessoal só chamava de “danone”. As mulheres não compravam absorventes e não havia papel higiênico, só tiras de jornal pregadas na parede. Antigamente talvez fosse assim para quase todo mundo. Mas nos anos de 1980 a classe média já tinha tudo isso e os pobres não. O PT com todos os seus desvios continuou sua tarefa histórica ao realizar a diretriz de seu V Encontro de 1987: a criação de um mercado interno de massas.

Nesse mesmo livro, você utiliza com frequência a expressão "solo histórico" para afastar a ideia de que os limites do PT devam-se apenas à vontade ou à falta de vontade da direção do partido. Novamente, gostaria de pedir que você explique essa ideia.
O PT emergiu num momento em que o Brasil vivia dois processos internos determinantes: a crise econômica e política da Ditadura. Com isso, mascaravam-se mudanças externas que só aportariam mais tarde no Brasil sob a forma do neoliberalismo. Este “atraso” permitiu aquilo que eu chamo de Revolução Democrática que se deu entre 1984 e 1989. A “revolução” não venceu, mas nos deu um arcabouço constitucional progressista e um partido socialista de massas. Vivíamos um longo ciclo internacional recessivo desde os anos 70. O PT foi um ponto fora da curva. Não surgiu nada como ele em outros países latino-americanos. Quando este partido se estabelece como alternativa de poder, eis que o vendaval do neoliberalismo arrasa os sindicatos, destrói os empregos e joga o PT no canto do ring. Estávamos numa conjuntura de derrota política do neoliberalismo que podia ser aproveitada de maneira mais radical, o partido tinha se popularizado, mas ao mesmo tempo o partido tinha se profissionalizado e incorporado valores dos seus adversários. O neoliberalismo persistia na esfera dos valores. Neste contexto é difícil dosar o quanto transformações estruturais do partido e da sociedade e opções conscientes dos dirigentes responderam pela moderação do PT. Prefiro dizer que não dava para fazer muito desde 2003. Mas dava para fazer mais.

Em Os sentidos do lulismo, o cientista político André Singer sustenta que no PT ainda coexistiriam “duas almas”: ao lado da alma da aceitação da ordem, coexistiria a alma da contestação dessa mesma ordem. Você concorda com essa imagem
É uma boa escolha estilística. Mas não acredito mais que haja contestação da ordem no PT. Há de maneira individual ou em tendências minoritárias que não têm a mínima chance de ganhar a direção. O problema não é esse. Não acredito que o PT trocou sua alma. Ele passou por um aggiornamento gradual como um todo. Isso se deveu às escolhas que ele fez em 2002 e ao “solo histórico”, como já conversamos aqui. As transformações materiais pelas quais o PT passou afetaram tanto as alas de esquerda quanto as de direita porque todas tiveram que se profissionalizar e aceitar que fazem parte do governo. O que não quer dizer que as alas e as pessoas sejam iguais em suas crenças, compromissos ideológicos e esperanças, é óbvio.

André Singer argumenta também que o PT teria adquirido "características que lembram as do PTB anterior a 1964". Você concorda com essa comparação?
Se pensarmos em termos da “função” do PTB no “sistema” político da época, talvez o paralelo seja correto. Ao longo do tempo ele atingiu os votos dos pobres urbanos e teve dificuldade de se implantar em São Paulo onde disputou com o voto popular conservador de Ademar, Jânio etc. Só que o PTB foi criado de cima para baixo por um ex-ditador enquanto o PT foi autenticamente popular. Os analfabetos não votavam, a instabilidade político-militar era muito maior, as pressões golpistas dos Estados Unidos eram explícitas e a Constituição de 1946 era muito mais conservadora do que a atual. São ambientes totalmente distintos. O que dá para pensar é em algumas permanências daquele ambiente político, sem esquecer que tivemos uma Ditadura Militar no meio que destruiu a vida política e cultural do Brasil.

Em seu livro, ao abordar as transformações sofridas pelo PT, você indaga: “Mas é melhor manter os princípios e nunca chegar ao governo e não fazer mudanças favoráveis aos mais pobres? Chegar assim ao poder muda essencialmente a sorte dos de baixo?”. Com base nessas questões, como você avalia o debate na esquerda sobre a experiência dos governos Lula e Dilma?
Se você se refere aos pequenos partidos críticos do PT, eles não permaneceram pequenos porque seus objetivos programáticos estão errados. A crítica deles às insuficiências do governo e até aos desmandos brutais e alianças corrompidas é correta. Mas eles têm uma cegueira ideológica que impede avaliar a conjuntura. Não quero dizer que algum gênio avaliaria corretamente, mas uma direção partidária deveria fazê-lo. O primeiro passo é entender que Lula mudou a estrutura de classes no Brasil e ao mesmo tempo não atacou concretamente a herança de FHC, o qual mudou a composição patrimonial do capitalismo no Brasil. Mas qual esquerda discute isso? Por incrível que pareça setores internos do PT promovem este debate. O livro do André Singer contribuiu muito. A Fundação Perseu Abramo do PT também. Ao entender a nova dinâmica das classes, a esquerda poderia começar a organizar a nova classe trabalhadora. Se é que isso é possível agora.

Pouco tempo depois do escândalo do “mensalão” ter estourado, ocorreram eleições internas no PT. Em seu livro, ao abordar as eleições no PT ocorridas em 2005, você afirma: “a militância do PT salvou o partido”. Por quê?
Naquele momento a militância tradicional já estava afastada. Ela se mantinha como uma torcida na arquibancada. Não tinha mais pretensões de jogar. A crise de 2005 reacendeu por um átimo a chama da velha militância petista e ela foi silenciosa, mas corajosamente defendeu o PT. Organizações como o MST e a UNE foram importantes, mas os militantes anônimos é que foram ao PED (processo de eleição direta) quando a imprensa vaticinava baixo comparecimento e o fim do partido. O PED fez com que os setores da oposição que desejavam a derrubada de Lula percebessem que o custo político seria alto demais. Derrotar assim um partido de massas e um presidente com a história do Lula mantendo a fachada democrática seria impossível. É claro que setores da burguesia não estavam incomodados com o governo e não desejavam (como nunca desejam) crises políticas que afetem os negócios. Mas aquela era uma crise eminentemente política e as decisões foram tomadas em função da relação entre o custo político do impeachment e a esperança de vitória da oposição em 2006.

Na sua opinião, qual é o significado político das campanhas de doação financeira para o pagamento das multas de José Genoíno e Delúbio Soares? Aqui também se pode dizer que a militância salvou o partido?

Neste caso, eu acho que a militância não salvou o partido porque se ele quer ser salvo de alguma coisa é da própria lembrança do chamado mensalão. Ela talvez tenha sido incômoda para os dirigentes atuais porque os impede de esquecer seus antigos líderes que estão presos.

Ainda com relação ao escândalo do "mensalão", em seu livro você critica a passividade da direção do PT, que, na sua opinião, não politizou a crise. Por que a direção petista deveria ter politizado a crise e como você avalia a postura da direção do PT agora, pós-julgamento?

Esta é uma questão que precisa ser situada em três tempos. Na crise de 2005 era possível politizar e confrontar. Havia risco? Sempre há. Mas o PT teria saído com mais força ainda para fazer reformas profundas no II mandato. O PT não quis politizar a crise e deixou a iniciativa para a oposição. Ela continua politizando o “mensalão” até hoje. O segundo tempo foi o do julgamento, calculado para atrapalhar as pretensões eleitorais do PT. Naquele momento as perspectivas de politização eram menores e a tática do avestruz empregada por Lula “já tinha dado certo”. Afinal, o PT foi o grande vitorioso nas duas ultimas eleições (2010 e 2012). Agora estamos no terceiro tempo: os réus já estão condenados e presos. Não há mais nada a ser feito. Eles só serão soltos quando cumprirem parte de sua pena e politicamente já estão fora do jogo. E exatamente nesta etapa é que a direção do partido deu o maior número de declarações contra o julgamento. Ainda foi uma reação tímida. Mas a militância do PT aprendeu que o “mensalão” não interfere no resultado eleitoral e foi além de sua direção na solidariedade aos condenados.

Quais são as implicações políticas do julgamento do “mensalão” e da prisão de dirigentes do PT?
Este já é um assunto da história do PT. Não tem mais a mínima importância para os dirigentes atuais, salvo o constrangimento de ter que dar satisfações eventuais aos militantes. É óbvio que se pudessem escolher, eles prefeririam ver José Dirceu absolvido. Não é disso que se trata. A hora da reação já passou há muito. Exceto se houvesse uma improvável radicalização do governo num possível terceiro mandato, a crise de 2005 poderia ser reavaliada. Hoje o fato é este: o PT foi derrotado politicamente, apesar de suas vitórias eleitorais. Em nenhum partido social democrata do planeta seria normal aceitar a prisão de dois ex-presidentes do partido num julgamento totalmente político. Nem vou discutir o mérito das acusações. O julgamento é político porque as inovações que ele comporta foram casuísticas e só valeram para o PT. Juristas conservadores se assustaram com os vícios formais e o desrespeito à lei.

Como você avalia o resultado do último PED, que consagrou Ruy Falcão como presidente do PT com uma votação superior a 70% dos votos?
Eu poderia explicar o número com exemplos que ouvi dentro do PT, mas prefiro não enveredar pelo caminho das denúncias de filiações em massa e falsificação de votos. Não que isso não seja importante. Mas sempre aconteceu no PT em alguma medida. Há dois aspectos da vitória de Ruy Falcão por ampla margem. O primeiro deriva da profissionalização da militância e do uso de recursos financeiros. Mas o segundo tem a ver com o apoio incondicional que a nova base de filiados ao PT dá de fato ao governismo.

Na sua opinião, que implicações as manifestações de junho tiveram do ponto de vista da correlação de forças na sociedade? O PT e o governo Dilma souberam aproveitar a energia das ruas?
Junho iniciou um novo ciclo político no Brasil. Novíssimos movimentos sociais assumiram mais legitimidade popular do que os partidos tradicionais e estes terão que mudar. O governo ficou acuado juntamente com todo o sistema político. Mas Dilma foi quem ofereceu a resposta mais avançada: a reforma política. Mas o problema não está no conteúdo da reforma, rapidamente rechaçado por todos os partidos. Está na forma. Por que os políticos aceitariam reformar-se? E por que ela resolveu se dirigir a eles? Acredito que ela quis dar uma satisfação às ruas sem se comprometer realmente com a reforma. Ou seja, ela não esperava nada de sua proposta. Caso contrário teria se dirigido às ruas. Só que um governo de coalizão com partidos conservadores como o dela não pode fazer isso.

Como você encara a declaração do ex-presidente Lula, em seu artigo no New York Times publicado logo após as manifestações, de que o PT "precisa renovar-se profundamente"?
Ele também foi o que dentro do PT deu declarações mais favoráveis aos protestos de junho. Mas prefiro não comentar.

Você é um dos autores do livro Cidades Rebeldes. Em seu artigo, você afirma que o MPL, organização horizontal e autonomista, mas dirigente, foi o ator mais importante na primeira fase dos protestos [de junho]. Na sua opinião, que papel o MPL poderá cumprir na conjuntura política do país?
A geração que saiu às ruas certamente vai fornecer no futuro os melhores quadros de esquerda do Brasil. Neste caso, não me refiro ao MPL apenas, embora os seus jovens membros tenham uma qualidade de leitura da conjuntura e uma capacidade de luta que muitos partidos de esquerda não têm. Eu admiro os que eu conheci na USP. É possível que o MPL continue sendo o principal atrativo para manifestações legitimadas por amplos segmentos sociais. Mas mesmo que o MPL não seja essa força principal, o conjunto dos novíssimos movimentos sociais vai cumprir este papel. Eles vão continuar demonstrando que há insatisfação na sociedade.

Qual é a sua opinião sobre os Black Blocs?
Trata-se de uma tática. Depende do momento já que a tática é a arte de operar com os meios que você tem no “campo de batalha”. Alguém pode condenar um mascarado que se protege da espionagem policial e de suas prisões arbitrárias O problema desde junho de 2013 não está na destreza tática dos jovens. Isso eles têm de sobra. Está na ausência de uma estratégia política. Ou seja, na arte de conduzir inúmeras batalhas para vencer a “guerra”.

Há poucos dias você publicou um artigo no qual fala dos riscos da “democracia racionada”, e que estaríamos diante de um dilema: “mais democracia ou mais um passo para trás”. Por quê?
Porque essa é a nossa tradição histórica. A burguesia brasileira é selvagem, racista e escravista. Ela não aceita de fato a democracia. Só o discurso democrático. É mais ou menos como aquela burguesia paulista que em 9 de julho de 1932 se mobilizou pela democracia e dois dias antes prendeu todos os comunistas e anarquistas. A democracia racionada é basicamente assim: quando se abandona uma ditadura aberta, permite-se que os direitos políticos avancem, mas não os sociais. Mas isso é impossível, por isso também os direitos sociais avançam. Diante disso, a política recua. O que há de novo em nossa época é o uso ostensivo do poder judiciário para barrar os avanços sociais sem afetar a fachada democrática.

Num artigo publicado recentemente, você fala do “direito à violência”, e argumenta: “o isolamento a que estão sendo condenados os novíssimos movimentos sociais é produto da recusa da contraviolência legítima”. Por quê?
É que há um consenso proveniente da Ditadura: manifestantes devem apanhar calados. Ora, se há uma polícia militar que é uma criação da Ditadura, acostumada a violar seus direitos, por que você não pode se defender? Nem sou tão radical quanto às constituições originais da burguesia europeia ou dos EUA que admitiam o direito do povo de derrubar seus governos ilegítimos. O Brasil está longe da democracia burguesa. Também não me refiro à luta armada e sim ao conservantismo da imprensa que acusa manifestantes de portar vinagre e estilingue.

Passados mais de dez anos da eleição de Lula, como você encara a disputa ideológica na sociedade? Quem está ganhando a disputa de “corações e mentes”?
É cedo para dizer. O melhor é que os novíssimos movimentos sociais despertassem uma nova consciência crítica. Já a aposta da classe média tradicional pode ser a de uma falsa terceira via (Campos e Marina). Ela aceitaria as políticas sociais de Lula e romperia com o PT, o suposto responsável pela violação dos princípios da classe média: eficiência do Estado, ética etc. Tudo mentira, é claro. A classe média brasileira é extremamente corrupta. Já o PSDB ainda não aprendeu com aquele artigo de FHC sobre o papel da oposição. A disputa está agora no campo dos valores, aquele em que o PT deixou de atuar.

Como você avalia o primeiro ano do governo de Fernando Haddad em São Paulo?
Regular. Teve o imprevisível: as manifestações de junho. Não soube lidar com elas. Depois, avaliou mal (como todo o PT) o novo aspecto da dominação burguesa no Brasil que deslocou sua hegemonia do discurso do mercado para o judiciário. Foi assim que um IPTU garantido pela Câmara Municipal foi derrotado. A comunicação é ruim porque o prefeito não consegue sequer explicar as coisas boas que fez, como novos corredores de ônibus. E como bom petista, o prefeito não vai radicalizar.

Por fim, gostaria de perguntar que balanço você faz da gestão Rodas (2010-2013) na Universidade de São Paulo.
Ele foi uma figura singular num período especial da história da USP. Hoje ela é uma universidade com forte discurso neoliberal. Mas Rodas trazia práticas da ditadura Militar, à qual ele servira. Ao mesmo tempo surfou na onda de aumento da arrecadação do ICMS. Ele foi uma espécie de Maluf da reitoria, ou seja, alguém com apoio “popular” conservador. Fez e desfez obras sem se preocupar com os gastos e distribuiu dinheiro sem aumentar salários convenientemente, através de prêmios, cartões de refeição e bolsas.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Nova Palestina, a incrível cidade dos sem-teto


Casas de madeirite. Grupos de trabalho, mutirões e assembleias. Como lutam e vivem 30 mil pessoas que ocuparam terreno gigante em S.Paulo



Reportagem de Isabel Harari e Roberto Oliveira, da Agência Vaidapé | Fotos: Victor Santos

Clodoaldo Santos Costa acorda todos os dias às 7h e sai para buscar água para a cozinha coletiva do G3, maior grupo, com mais de mil barracos, da ocupação Vila Nova Palestina. Sem isso, não há café da manhã. Quando ele volta com o primeiro dos quase 20 galões que carrega às costas todo dia, as cozinheiras já o esperam, limpando e organizando o refeitório, prontas para colocar a água no fogo e preparar o café que, com bolachas e o pão com manteiga doado por um padeiro da vizinhança, ajudam a acordar e sustentar os trabalhadores que saem à labuta diária.

“Aqui se aprende a lutar por nós e pelos outros também”, afirma Clodoaldo, que há mais de dez anos vive de aluguel e aprendeu com seu cunhado que é possível conquistar a casa própria através dos movimentos sociais. “Aqui não tem vitória sem luta”, ele garante. Clodoaldo deixou mulher e filhos para viver na ocupação, em busca da casa própria. Com frequência, a família o visita e participa das atividades do acampamento.

Enquanto isso, nos demais setores da ocupação, a cena se repete – os galões de água se amontoando ao lado das cozinhas. Pois além do café tem a louça e as demais refeições do dia, que está só começando na Nova Palestina. Antes de partirem para trabalhar ou estudar (há muitas crianças em todos os grupos da ocupação), os moradores assinam a lista de presença diária – método utilizado pelo MTST para controlar a frequência em suas ocupações.

Porém, muita gente permanece na Nova Palestina. Porque não faltam tarefas e atividades cotidianas na pequena cidade. Quem fica na ocupação dá conta dos chamados mutirões: de limpeza, infraestrutura, água, segurança, alimentação. Tudo funciona coletivamente, através de setoriais que cumprem diferentes papéis no acampamento. “Fazemos tudo aqui por mutirão, hoje [5/2] vamos fazer a troca da rede elétrica da ocupação”, diz Dorgival Duarte, do G5, que morava de aluguel no Jardim São Luiz, zona sul, até que o proprietário decidiu vender o imóvel e ele ficou desabrigado. Ele explica que não é permitido ter pontos de luz nos barracos dos acampados, pelo perigo de causar incêndios nas lonas de plástico. Assim, foram construídas verdadeiras ruas e avenidas na Nova Palestina, margeadas por postes de luz.



Além da água que cada setor tem que se organizar para buscar pela manhã, há tarefas como a manutenção das lonas e madeirites e a coleta do lixo – que os moradores levam para a rua Clamecy, ao lado do barranco em que se construiu a Nova Palestina, para que haja a coleta pelo caminhão da Prefeitura uma vez por semana. Fato que implica num cheiro forte na entrada do terreno e, pior, na multiplicação dos riscos para a saúde dos acampados. Apesar da coordenação da ocupação ter requerido à administração municipal uma caçamba de lixo para que esta situação seja amenizada, o pedido ainda não foi atendido.

Meio-dia. O sol forte está a pino sobre a Nova Palestina quando se ouve gritos por toda parte: “Olha o almoço no G3″; “saindo almoço no G5″; “olha o rango no G20″. E as pessoas, escondidas debaixo de alguma réstia de sombra, começam a aparecer, uma a uma, em suas respectivas cozinhas coletivas. As filas vão se formando no momento mais aguardado desde o café da manhã. O almoço quase sempre é composto por feijão, arroz, legumes, como batata ou cenoura, e um pedaço de carne – vermelha ou branca, como as tilápias que os acampados pescam com rede no açude que fica a poucos metros em declive no fundo do terreno.

Se possível, há ainda um copo de refrigerante para cada pessoa; quando não, a água gelada mata a sede e o calor do mesmo jeito. Os mantimentos e utensílios são doados pelos próprios moradores ou por pessoas solidárias ao movimento. Às vezes, também há doações de mercados e centros de distribuição de alimentos. Aos poucos, o amontoado de pessoas dá lugar a uma pilha de pratos e talheres sujos, e o silêncio vai tomando conta de cada grupo da ocupação, como numa sesta coletiva.

O silêncio se rompe, porém, com o corre-corre das crianças – umas chegando, outras saindo para a escola. E muitas brincando, de pega-pega, futebol, pular corda, no terrão descampado no centro do terreno da ocupação. “Nós estamos construindo uma brinquedoteca para as crianças aqui no G5, para elas não ficarem debaixo do sol forte e terem um lugar pra brincar”, diz Edilaine Ferreira, uma das coordenadoras do Grupo 5 da ocupação, que morava de favor do Jardim Aracati, quando o proprietário pediu de volta o terreno e ela ficou sem um teto. Edilaine tem quatro filhos e conta que uma das maiores dificuldades na Nova Palestina é conseguir matricular as crianças em escolas públicas.

Vídeo por João Miranda e Vinícius Pereira

Em sua maioria, elas permanecem nos colégios que estudavam antes da ocupação: o Jardim Aracati, Jardim dos Reis e Capela IV, a cerca de 30, 40 minutos do acampamento. Não é possível realizar a matrícula em escolas mais próximas à Nova Palestina, pois os acampados não possuem comprovante de residência. Só nesse grupo, são em torno de 250 crianças.

Quem também ajuda a coordenar o G5 é “Dona Mônica”, como é respeitosamente chamada. Ela está no acampamento “desde as 11h45 do dia 29 de novembro do ano passado”, quando o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) ocupou o terreno de quase 1 milhão de metros quadrados ao lado da rua Clamecy, numa perpendicular da estrada do M’boi Mirim, sentido represa do Guarapiranga, na região do Jardim Ângela.

A Vila Nova Palestina, conforme batismo na primeira assembleia, conta hoje com oito mil famílias, cerca de 30 mil pessoas e é dividida em 21 grupos, os conhecidos “gês”. Cada grupo tem uma média de cinco coordenadores, que ajudam a organizar as tarefas do cotidiano: fazer a lista de presença, a coleta do lixo, a busca d’água, a manutenção da infraestrutura, mobilizar as pessoas para as assembleias e, principalmente, resolver os conflitos existentes em toda família – normalmente briga de casais e desavenças entre crianças. “A gente encontra aqui uma nova família e vive a realidade de outras pessoas. Às vezes pensamos que nosso sofrimento é maior que o dos outros, mas sempre tem gente sofrendo mais que a gente”, diz ela, explicando que a ocupação é uma grande escola de vida.

O MTST reivindica que a prefeitura revogue o Decreto de Interesse Social lançado na gestão Kassab, que determina a construção de um parque na região e assegura apenas 10% de área edificada. Jussara Basso, militante do MTST, aponta para o Parque Ecológico do Guarapiranga, distante apenas 50 metros da ocupação, fato que evidencia a arbitrariedade da medida. A luta é pela mudança do tipo de zoneamento para uma ZEIS-4 (Zona Especial de Interesse Social 4), em que 30% da área possa ser habitada.



Os proprietários do terreno, Nelson Luz Roschel e Roberto Roschel afirmaram em nota no dia 13 de janeiro que concordam em dialogar com o movimento e entregar o terreno para os moradores caso a Prefeitura mude o zoneamento. A secretaria de Direitos Humanos preparava-se para realizar uma primeira reunião com os movimentos de luta por moradia na quinta-feira, dia 13 de fevereiro.

Assim como possuir pontos de luz nos barracos, também é proibido construí-los em alvenaria, pois o objetivo da ocupação é conquistar moradia digna para todas as pessoas, e não se transformar em mais uma favela de São Paulo. Assim, na Nova Palestina as construções são de madeirite. “A ideia não é permanecer dessa forma. Não sabemos quanto tempo vamos ficar aqui, pode ser até o Plano Diretor ser votado, ou daqui a seis meses, é uma incerteza…”, aponta Jussara.

Além disso, também não é permitido o consumo de drogas na ocupação, à exceção do cigarro e de “uma cervejinha ou outra no final de semana”. A água, por sua vez, é levada através de uma mangueira às cozinhas coletivas até o G8, mas já há um plano de extensão do sistema até o G16. Enquanto isso não acontece, os moradores dos demais grupos vão buscando galões dia após dia para satisfazer tanto as necessidades individuais como coletivas de seus respectivos grupos.

Do ponto de vista cultural, acontecem algumas atividades para integração e diversão dos moradores da pequena cidade. De vez em quando, bingos e gincanas são organizados e a rádio, que fica em frente ao terrão onde são realizadas as assembleias, está sempre ligada, tocando música e disponível para divulgar qualquer informação que transcenda os grupos.

As assembleias, aliás, costumavam acontecer todo dia. Mas agora são realizadas em dias intercalados, sempre às 19h, quando a grande maioria dos moradores empregados chega do trabalho. Nelas, discute-se o cotidiano da Nova Palestina e questões políticas, como atos e reuniões de negociação, por exemplo, e também é passada uma lista de presença – que se soma à lista do dia a dia e à dos protestos para controlar a frequência dos acampados nas atividades da Nova Palestina. Segundo o MTST, quanto maior a presença das pessoas no conjunto de atividades, melhor a colocação delas nas listas para conseguir moradia via programas habitacionais, como o Minha Casa, Minha Vida, do Governo Federal, ou o CDHU, estadual.

Após a assembleia, o jantar é servido às 20h. Depois de se alimentarem, os moradores assistem TV ou conversam em pequenas rodas. Então, começa a última atividade do dia (e uma das mais importantes): a trilha, uma espécie de ronda no acampamento para garantir a segurança dos moradores durante a noite. “A gente não é polícia, só organizamos as trilhas para garantir tranquilidade das pessoas dormirem”, afirma Dorgival, que faz parte da setorial de autodefesa. Segundo ele, cerca de 40, 50 pessoas se dividem em trilhas que vagam, umas, nos grupos e, outras, em toda a ocupação – sempre divididos em quatro ou cinco pessoas.

Além de Dorgival, muitas outras pessoas que passam o dia no acampamento se dispõem a fazer as trilhas. Entre elas, está Clodoaldo Santos Costa, coordenador do G3 que, após longas caminhadas, vai dormir às 3h. Afinal, às 7h ele precisa estar em pé – vai buscar galões de água para fazer o café, que sustentará os moradores da Vila Nova Palestina em mais um dia de luta, dentro e fora da ocupação.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Paulo Henrique Amorim responde a editorial da Rede Globo “vestido” de black bloc



Via:http://wwwterrordonordeste.blogspot.com.br/

A democracia e a liberdade de expressão estão em risco

A frase tem sido repetida à exaustão nas manchetes de jornais, em meio à enorme comoção causada pela trágica morte do cinegrafista da Band Santiago Ilídio Andrade, atingido por um rojão no dia 06 de fevereiro de 2014, enquanto cobria uma manifestação no centro do Rio de Janeiro contra o aumento das passagens de ônibus. A violência no contexto das manifestações não é de hoje.

Desde junho de 2013, foram ao menos 118 agressões a jornalistas em todo o Brasil, a maioria delas cometidas pela polícia. O número de manifestantes atingidos gravemente por balas de borracha e estilhaços de bombas “de efeito moral” é incontável e expressa a força estatal da repressão militarizada. Essa violência institucional que vem sendo acionada para coibir as manifestações também produziu vítimas fatais: contabilizam-se ao menos 18 mortes em todo o Brasil, incluídas neste número as execuções de 9 moradores da Maré durante uma operação da PMERJ, com apoio da Força Nacional de Segurança, no dia 24 de junho, a partir da justificativa de “buscar suspeitos” de terem realizado um arrastão durante uma manifestação em Bonsucesso.

A democracia e a liberdade de expressão estão em risco quando assistimos a um sinistro avanço de medidas de repressão extrema às lutas sociais no Brasil: prisões para averiguação, detenção pelo crime de desacato, flagrantes forjados, violação do segredo nas comunicações e espionagem por meio de redes sociais, sigilo nas investigações policiais e falta de acesso à informação sobre os trâmites dos processos. Adiciona-se a essa lista o uso de legislações que remetem ao período de exceção – como a lei de segurança nacional (antes aplicada para punir quem lutava contra a ditadura civil-militar) e o projeto de lei 499 de 2013 que tramita no Senado e tipifica o crime de terrorismo.

A democracia e a liberdade de expressão estão em risco quando mais uma vez se atualiza a tentativa de deslegitimar e criminalizar os movimentos sociais e a indignação popular. A luta pelos direitos humanos fortalece a democracia . É inaceitável a morte de Santiago e também a perseguição e ameaça àqueles que atuam para assegurar o direito de defesa de todo e qualquer manifestante.
A democracia e a liberdade de expressão estão em risco quando mortes são usadas politicamente para manipular a opinião pública, abafar as pautas das manifestações e atacar defensores de direitos humanos de forma extremamente irresponsável. O problema a ser enfrentado é e sempre foi justamente o oposto: as violações a esses direitos.

Assinam essa nota:
Organizações
Apafunk – Associação dos Profissionais e Amigos do Funk
Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia – AATR
Associação Homens e Mulheres do Mar da Baía de Guanabara – AHOMAR
Associação Nacional de Ação Indigenista – ANAI
Associação Pela Reforma Prisional – ARP
Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto/BA
Casa da Mulher Trabalhadora – CAMTRA
CEDECA Rio De Janeiro
Centro de Direitos Humanos Dom Oscar Romero – CEDHOR
Centro de Convivência É de Lei – Redução de Danos/São Paulo
Centro de Teatro do Oprimido – CTO/RJ
Coletivo Das Lutas
Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher – CLADEM
Comitê pela Desmilitarização da Policia e da Política
Comunicadores Populares RJ
CONECTAS
Conselho Regional de Psicologia/RJ
Cultura Verde – coletivo antiproibicionista e antimanicomial
Dignitatis
Diretoria da Adunirio – SS do ANDES – Sn
Equipe Clínico-Política RJ
Federação das Associações de Favelas do Estado do Rio de Janeiro – FAFERJ
Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE
Fórum de Reparação e Memória do Rio de Janeiro
Fórum de Saúde do Rio de Janeiro
Fórum Social de Manguinhos
Frente Estadual Drogas e Direitos Humanos – RJ
Geledés – Instituto da Mulher Negra
Grupo Tortura Nunca Mais/RJ
Ibase
Instituto Búzios
Instituto de Defensores de Direitos Humanos (DDH)
Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul – PACS
Instituto Práxis de Direitos Humanos
Instituto Terra Trabalho e Cidadania (ITTC)
Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
ISER
Justiça Global
Laboratório de Análise da Violência da UERJ
Movimento Mães de Maio
Movimento Nacional de Luta por Moradia
Movimento pela Legalização da Maconha
Núcleo de Direitos Humanos do Departamento de Direito da PUC-Rio
Pastoral Carcerária Nacional
Quilombo Xis-Ação Cultural Comunitária
Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência – RJ
Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicadorxs – Renajoc
Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares – RENAP
Sociedade Maranhense de Direitos Humanos
Tribunal Popular
Viração Educomunicação
Visão da Favela Brasil
Indivíduos
Abrahão de Oliveira Santos – Professor de Psicologia da UFF
Adriana Britto – Defensora Pública e Articuladora do Fórum Justiça
Alexandre Anderson – AHOMAR
Ana Maria Bezerra Galdeano – Agente comunitária de saúde
Bruno Marinoni – Jornalista
Bruno Ramos Gomes – Psicólogo, coordenador do Centro de Convivência É de Lei
Cecília Coimbra – Professora da Universidade Federal Fluminense e fundadora do GTNM/RJ
Celi Cavallari – Psicóloga, psicanalista, conselheira da REDUC (Rede Brasileira de Redução De Danos) e membro da ABRAMD (Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas)
Charles Toniolo de Sousa – Professor da Escola de Serviço Social da UFRJ/Presidente do Conselho Regional de Serviço Social (CRESS-RJ) entre 2011 e 2013
Christiane dos Passos Guimarães – CRES
Claudio Gomes Ribeiro
Danichi Hausen Mizoguchi – Professor de Psicologia da Universidade Federal Fluminense
Daniela Albrecht – Núcleo Estadual do Movimento da Luta Antimanicomial do RJ e Fórum de Saúde do RJ
Danielle Vallim – Socióloga. Doutoranda visitante da Universidade de Columbia
Débora Rodrigues – Assistente social
Diogo Justino – Advogado, mestre e doutorando em Teoria e Filosofia do Direito (UERJ) e professor da Universidade Cândido Mendes
Eduardo Baker – Advogado
Eduardo Passos – Professor de Psicologia da UFF
Fernanda Pradal – Advogada
Fernando Delgado – Advogado
Flávia Fernando Lima Silva – Psiquiatra
Geandro Ferreira Pinheiro – EPSJV/Fiocruz
Geo Britto – Ator e sociólogo
Heliana Conde – Professora de Psicologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Helen Sarapeck – CTO/RJ
Ignácio Cano – Professor da UERJ
Janne Calhau – Psicóloga institucional
Julia Bustamante – Diretora do DCE da UFRJ
Julia Horta Nasser – Psicóloga, membro do Fórum de População Adulta em Situação de Rua
Leonardo Vidal Mattar – Membro do Fórum de Saúde/RJ
Luís Fernando Tófoli – Psiquiatra, professor da UNICAMP
Marcos Arruda – Educador
Maria Gorete Marques de Jesus – Socióloga e pesquisadora
Maria Rosário de Carvalho – Antropóloga
Maria Virgínia Botelho
Maurício Renault de Barros Correia – Membro da Frente Estadual Drogas e Direitos Humanos/RJ
Monique Ribeiro Alves – Assistente social e membro do Fórum de Saúde/RJ
Moniza Rizzini – Advogada
Patricia Birman – Professora da UERJ
Paulo César de C. Ribeiro – Diretor da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio – Fiocruz
Renato Roseno – Advogado
Repper Fiell
Rita de Cássia Santos Fortes – Assistente social
Roberto Leher – UFRJ
Rodolfo Valente – Advogado
Rodrigo Mattei – Membro do Cultura Verde, da Frente Estadual Drogas e Direitos Humanos/RJ, do Planta na Mente e do DCE-UFRJ
Rogério Alimandro – PSOL/RJ
Rosane M. Reis Lavigne – Defensora Pública e Articuladora do Fórum Justiça
Sandra Lucia Goulart, antropóloga, Doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, Professora da Faculdade Cásper Líbero
Sandra Quintela – Economista
Silvia Dabdab Calache Distler – Assistente social
Taiguara L. S. e Souza – Professor de Direito Penal
Tânia Kolker
Taniele Rui – Pós-doutoranda do Social Science Research Council
Tiago Joffily – Promotor de Justiça – RJ
Tiago Régis – Psicólogo, doutorando no Programa de Pós-Graduação de Psicologia da UFF
Vera Malaguti Batista – Instituto Carioca de Criminologia
Vera Vital Brasil – Psicóloga