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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Serra, Lacerda e a Petrobras



O Senado poderá colocar em pauta nos próximos dias o PLS 131/15, de José Serra (PSDB), que pretende alterar o regime de partilha do pré-sal. O projeto retira a condição da Petrobras como operadora única das atividades de extração e derruba a participação mínima de 30% da estatal na exploração de cada campo. Em suma, desfigura o marco regulatório aprovado em 2010. 

O projeto do tucano tem apoio de figuras importantes do PMDB, como os senadores Renan Calheiros e Eunício de Oliveira e o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão. E conta ainda com a simpatia do líder do governo no Senado, o petista Delcídio Amaral. 

O contexto é favorável para essa ampla aliança. Defender a Petrobras nos dias de hoje é automaticamente identificado a uma defesa da corrupção. Atacá-la e defender a entrega do petróleo às transnacionais do ramo parece soar como discurso perfeito para o fim da corrupção, do aparelhamento e defesa da eficiência econômica. O mesmo enredo foi produzido na década de 1990 para legitimar a entrega a preço de banana da Vale do Rio Doce e da Telebrás para empresas privadas. 

Este argumento não pode, é claro, minimizar o escândalo de corrupção na Petrobras. Os envolvidos, seja do lado da estatal seja das empreiteiras privadas, devem ser punidos pelos seus atos. A Petrobras deve construir sistemas de controle interno e fiscalização que impeçam novos cartéis. E fundamentalmente, a sociedade precisa se mobilizar para defender uma reforma política com o fim do financiamento empresarial de campanha, que está na raiz deste caso e de quase todos os esquemas de corrupção no Brasil. 

O que não é aceitável é que a corrupção seja utilizada para desmontar a Petrobras e encobrir interesses das grandes petroleiras internacionais. É o caso do projeto de Serra. O mesmo Serra que em telegrama diplomático divulgado pelo WikiLeaks em 2010 prometeu a uma alta-executiva da Chevron –petroleira norte-americana, cujos interesses no pré-sal foram contrariados– que o modelo de partilha seria revisto. Promessa é dívida. 

Nem o assunto nem a tática são novos. Aliás, a cada dia que passa os tucanos demonstram seu indisfarçável giro lacerdista. Carlos Lacerda era contra a criação da Petrobras em 1953 e defendia a participação estrangeira na exploração do petróleo. A famosa tática lacerdista de plantar escândalos para colher golpes –que funcionou tão bem no ano seguinte e em 1964– daquela vez falhou. 

Agora, Serra a recupera com a PLS 131/15. O que está em jogo é a expansão desregulada do modelo de concessões, que convenhamos não foi interrompido nos governos petistas. Os leilões de campos de petróleo se mantiveram, como no caso emblemático do campo de Libra. Não houve nacionalização do petróleo no Brasil. O que o modelo de partilha fez foi apenas limitar a exploração pelas empresas privadas estrangeiras. E mesmo isso já foi encarado como um ataque ao livre mercado por algumas delas que, sob este argumento, não participaram do leilão. 

Seu apetite é voraz, não aceitam limitações. Não aceitam aqui. Os Estados Unidos, país de origem da Chevron e de muitas das grandes petroleiras, proíbem por lei a exportação de petróleo, visando garantir o abastecimento futuro em detrimento do lucro empresarial de curto prazo. Embora essa lei tenha sofrido exceções, ainda é um pilar da regulação do petróleo norte-americano. 

O modelo adotado na Noruega destina as melhores áreas para a exploração estatal da Statoil, reservando campos menos promissores às empresas estrangeiras, mesmo assim com participação obrigatória da Statoil. No Reino Unido o governo exige legalmente das empresas estrangeiras que comprem todos os equipamentos no país. O que aqui é apenas uma indução –a política de conteúdo local– lá é obrigação. 

Não consta que vigorem governos bolivarianos nos Estados Unidos, Noruega ou Reino Unido. Não parecem tampouco ser exemplos fortes de antiliberalismo. Trata-se unicamente de regulações para impedir a espoliação dos recursos naturais e garantir a soberania nacional. 

José Serra, Renan Calheiros, a Chevron e o petista Delcídio Amaral parecem não estar muito preocupados com essas garantias. Na atual conjuntura do Legislativo, há risco real de que esse retrocesso seja aprovado. Se for, pagaremos todos a conta.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

A agenda do obscurantismo

Por Luciano Martins Costa

Os jornais anunciam na quarta-feira (17/6) um acordo entre o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e a liderança do PSDB, para aprovar uma nova versão do projeto de redução da maioridade penal. A proposta tem o apoio dos partidos Democratas, PSB, Solidariedade e siglas de menor expressão, compondo uma aliança que reúne as correntes mais conservadoras do Parlamento. O que os autores chamam de “flexibilização” é a aplicação da pena de prisão para menores entre 16 e 18 anos que cometam crimes hediondos.

Paralelamente, o Poder Executivo busca uma alternativa que impeça a quebra da Doutrina da Proteção Integral de crianças e adolescentes, cujos fundamentos estão inscritos na Constituição e em tratados internacionais firmados pelo Brasil. A aposta é na sugestão do senador José Serra, defendida também pelo governador paulista, Geraldo Alckmin – ambos do PSDB –, que prevê aumento de três para oito anos o período de internação de menores infratores em casos mais graves.

O governo estuda outras sugestões do mesmo PSDB, como o aumento da pena para adultos que induzem menores de 18 anos ao crime ou que utilizam adolescentes em ações violentas. Também está sendo analisada a proposta de condicionar a aplicação da pena de prisão para menores de 18 anos à interpretação de um juiz. Nesse caso, a decisão judicial poderia determinar se um adolescente que pratique um crime hediondo seria processado com base no Código Penal, caso em que cumpriria a pena em estabelecimento separado do sistema prisional para adultos.

Como se vê, a ampliação do debate pode criar uma fórmula que vença o clima de linchamento criado por parlamentares da chamada “bancada da bala” e amplificado pelos programas policiais da televisão e do rádio.

O ponto não negociável, por parte do Executivo e da parcela do PSDB que ainda tem algum vínculo com as origens do partido, é preservar o princípio constitucional que fundamenta a posição do Brasil sobre a questão, para efeito interno e como parte do concerto mundial de nações: um sistema de justiça que garanta tratamento diferenciado a crianças e adolescentes, mesmo em caso de infração penal.

Igreja versus Estado

Até aqui, os argumentos contra a redução pura e simples da maioridade penal, defendida pelo presidente da Câmara com apoio do chamado “baixo clero” do Parlamento, têm obtido mais repercussão da mídia do que as teses daqueles que defendem um Estado garantidor dos direitos humanos, contra a proposta de um Estado punidor.

Por trás do empenho em criminalizar a adolescência vicejam algumas causas inconfessáveis, como o interesse de parlamentares ligados a seitas religiosas, que pretendem retirar a proteção do Estado sobre a parte mais vulnerável da sociedade, para cooptar famílias que têm filhos em situação de risco.

A imprensa tem oferecido pouca contribuição para esse debate, limitando-se a reproduzir declarações de políticos e os movimentos do Congresso. Na noite de terça-feira (16/6), o noticiário da televisão destacou estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) que desmente o mito da impunidade juvenil. Na quarta-feira, apenas o Estado de S. Paulo deu atenção ao trabalho em sua edição de papel.

A pesquisa do Ipea mostra que, ao contrário do que alardeiam muitos jornalistas e os defensores do retrocesso legal, “a justiça juvenil tende a ser aplicada de forma mais dura do que a Justiça penal comum”, diz o texto do jornal. Apesar de não haver estatísticas precisas sobre violência na maioria dos estados, pode-se comprovar que os menores de 18 anos são mais passíveis de internação e cumprem mais rigorosamente as penas de restrição de liberdade do que os adultos infratores.

A imprensa não costuma se empenhar em elucidar esse e outros enganos sobre a questão da maioridade penal. Um exemplo: na sexta-feira (12/6), o Estado de S. Paulo publicou na primeira página uma chamada para reportagem cujo título dizia: “Ato infracional é maior na faixa de 16 a 18 anos”. Lido rapidamente nas bancas, esse texto certamente induz muita gente a apoiar a proposta de redução da maioridade penal.

Também na abertura da seção “Metrópole”, a reportagem principal (ver aqui) anunciava: “7 em cada 10 atos infracionais em SP envolvem adolescentes de 16 a 18 anos” – o que também reforça a ideia de que menores de 18 anos são os grandes responsáveis pela violência na capital paulista.

Mas o texto que se segue esclarece que “sete em cada dez atos infracionais cometidos por adolescentes na cidade de São Paulo tiveram como autor um menor entre 16 e 18 anos” – mas os crimes hediondos, como latrocínio, cometidos por adolescentes, representam menos de 3% desses crimes.


É com base em textos obtusos como esse que se manifestam os arautos do obscurantismo.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Maria Rita Kehl: Justiça não é vingança

"Alguém realmente acredita que reduzir a maioridade penal há de amenizar a violência social de que somos todos, sem exceção, vítimas?", questiona a psicanalista Maria Rita Kehl, que foi integrante da Comissão Nacional da Verdade; "As crianças arregimentadas pelo crime são evidências de nosso fracasso em cuidar, educar, alimentar e oferecer futuro a um grande número de brasileiros. Esconder nossa vergonha atrás das grades não vai resolver o problema"


247 – A psicanalista Maria Rita Kehl, uma das principais vozes do Brasil na defesa dos direitos humanos, se posiciona contra a redução da maioridade penal, no texto Justiça ou vingança?, publicado neste domingo.

"Alguém realmente acredita que reduzir a maioridade penal há de amenizar a violência social de que somos todos, sem exceção, vítimas?", questiona.

Ela também afirma que as punições de menores reproduzirão a lógica da desigualdade brasileira. "É muito evidente que os que conduzem a defesa da mudança na legislação estão pensando em colocar na cadeia, sob a influência e a ameaça de bandidos adultos já muito bem formados na escola do crime, somente os 'filhos dos outros'", diz ela.

"Quem acredita que o filho de um deputado, evangélico ou não, homofóbico ou não, será julgado e encarcerado aos 16 anos por ter queimado um índio adormecido, espancado prostitutas ou fugido depois de atropelar e matar um ciclista?"

Ela também afirma que as saídas são mais educação e mais igualdade. "As crianças arregimentadas pelo crime são evidências de nosso fracasso em cuidar, educar, alimentar e oferecer futuro a um grande número de brasileiros. Esconder nossa vergonha atrás das grades não vai resolver o problema."

sábado, 13 de junho de 2015

Você sabe o que é o Foro de São Paulo?



por Diogo Antonio Rodriguez

Composto por partidos e movimentos de esquerda da América Latina e Caribe, como o PT, o fórum desperta o medo e a desinformação.


O Foro de São Paulo, composto por partidos e movimentos de esquerda da América Latina e Caribe, como o PT, o fórum desperta o medo e a desinformação. Saiba qual é a origem dessa organização, quem são seus membros e o quais seus planos para o futuro.

O que é o Foro de São Paulo?

É uma organização que junta vários partidos e movimentos sociais populares e de esquerda da América Latina e do Caribe. Ele foi fundado em 1990 pelo PT do ex-presidente Lula e pelo Partido Comunista Cubano de Fidel Castro, entre outros.

O Foro é uma organização comunista?

Não. As organizações que fazem parte do Foro são, sim, de esquerda. E também é verdade que alguns partidos comunistas são membros, mas o Foro em si não pertence a nenhuma corrente específica. Ele se autodeclara como sendo de esquerda, anti-imperialista, socialista e democrático.

O que faz o Foro de São Paulo?

É um fórum de debates que discute as alternativas à visão neoliberal da economia e da política. Esses grupos e partidos de esquerda trocam experiências e conhecimento a respeito de como construir políticas sociais. Explico melhor: no final dos anos 80, com a queda da União Soviética, parecia que a esquerda estava destinada a acabar. Alguns até sugeriam que a visão neoliberal da sociedade – baseada na utopia de que o livre mercado seria capaz de promover crescimento econômico para todos – era o “fim da história”. O Foro surgiu justamente para oferecer um contraponto a essa visão.

Ouvi dizer que o objetivo do Foro é implementar o comunismo na América Latina e que já está fazendo isso em vários lugares, como na Bolívia e na Venezuela. É verdade?

Não. Como já dissemos, o Foro de São Paulo apenas reúne seus participantes de dois em dois anos para discutir questões que sejam pertinentes aos seus membros. E em vários países há governantes de partidos integrantes do Foro sem que isso tenha significado o fim da democracia. No Chile, por exemplo, onde Michelle Bachelet, socialista, governou por um mandato para dar lugar a um presidente conservador em seguida (Sebastián Piñera, do Renovação Nacional).

Que países são governados por políticos que fazem parte do Foro?

Vários países da América Latina e do Caribe. Os principais são Brasil, Uruguai (Pepe Mujica), Argentina (Cristina Kirchner), Bolívia (Evo Morales), Chile (Michelle Bachelet), Peru (Ollanta Humala) e Equador (Rafael Correa) e outros.

É verdade que as FARC fazem parte do Foro de São Paulo?

Não. As FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, grupo guerrilheiro) tentaram participar de duas reuniões em 2004 e 2008, mas não conseguiram porque foram impedidos e não fazem parte do grupo. Em 2008 inclusive quem barrou a presença das Farc foi o PT, que ocupava a secretaria-executiva da entidade.

Dizem que o Foro era secreto até 1997. Verdade?

O Foro nunca foi secreto. Talvez ele fosse desconhecido porque a esquerda latino-americana começou a crescer no final dos anos 90, mas, pelo menos desde 1995 os jornais brasileiros sabiam da existência do grupo e noticiavam seus encontros, mesmo que fosse de maneira discreta.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Uma noite de São Bartolomeu no Brasil?


Em seu clássico "Declínio e Queda do Império Romano", Edward Gibbon afirma que a religião é o refúgio do crédulo, um instrumento político nas mãos dos estadistas inescrupulosos, fonte de riqueza e boa vida para o clero e, principalmente, motivo de riso para os filósofos. A isto poderíamos acrescentar outra coisa: as religiões também são o fermento das guerras civis.

A Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572) em Paris, França, é uma prova eloquente de como as desavenças religiosas e políticas podem rapidamente degenerar em conflitos sangrentos. O mesmo pode se dizer da Guerra Civil Inglesa (também chamada de Revolução Inglesa) que de 1642 a 1649 ceifou milhares de vidas de católicos e protestantes na Inglaterra.

Nos últimos meses, talvez embriagados pelo poder conquistado na Câmara dos Deputados (atualmente presidida por um pastor) os evangélicos tem se tornado mais e mais agressivos. Em Minas Gerais uma mulher foi presa destruindo a imagem ao lado de uma Igreja Católica http://g1.globo.com/mg/vales-mg/noticia/2015/03/mulher-e-presa-destruindo-imagem-de-igreja-com-golpes-de-enxada-em-mg.html . A perseguição a Mãe Dede de Iansã por evangélicos pode ter causado a morte dela na Bahia http://oglobo.globo.com/sociedade/religiao/parentes-de-ialorixa-morta-dizem-que-ela-teve-infarto-causado-por-perseguicao-religiosa-16396381 . Uma imagem da Virgem Maria foi quebrada e, depois, mijada em público no Amazonashttp://portaldoamazonas.com/evangelicos-urinam-e-depois-queimam-imagem-de-nossa-senhora-na-regiao-de-cajazeiras . Isto para não falar dos linchamentos fatais que foram legitimados por jornalistas evangélicos como Rachel Sheherazade e das campanhas homofóbicas conduzidas por Malafaia, Marcos Feliciano e outros pastores de igual ou pior calibre.

Paciência tem limite. O brasileiro não é um povo pacífico, nem cordial. Nossa História é recheada de episódios de violências inenarráveis praticadas tanto por agentes do Estado quanto por milicianos inspirados por razões religiosas (guerra contra os invasores holandeses protestantes), raciais, econômicas, políticas, ideológicas e até trabalhistas.

Não sou religioso, apenas um observador atento dos fatos. Tenho percebido que os evangélicos, instigados por seus líderes políticos e midiáticos, estão brincando com fogo. Quando se queimarem não ficarei surpreso. Antes disto, porém, creio que o MPF e a PF precisam fazer algo, como por exemplo, infiltrar agentes policiais nos templos-caixas-registradoras para coletar informações. Em seguida os líderes políticos e religiosos que fomentam a intolerância e a violência evangélica contra aqueles que consideram ser os inimigos da fé e dos templos deles (gays, católicos, umbandistas, etc…).

É melhor que os responsáveis pela intolerância sejam identificados e respondam na forma da Lei, antes que toda legalidade seja destruída nas ruas. Uma reação direta e organizada dos membros das outras religiões e grupos sociais que tem sido perseguidos, agredidos, humilhados e sistematicamente provocados por evangélicos não é desejável, nem pode ser estimulada. Contudo, a inação do Estado pode ser percebida como conivência e neste caso as autoridades encarregadas de preservar a legalidade estarão flertando com a barbárie. Se o Estado se recusar a tomar providências as vitimas podem se convencer de que devem encontrar na vingança privada e coletiva um substituto necessário à justiça que lhes tem sido negada.

Este tema é espinhoso e desagradável. Por isto, sugiro aos leitores acalmarem seus ânimos escutando Raul Seixas e Marcelo Nova enquanto as autoridades fazem o que deve ser feito.



Contra o capitalismo global, a "ideia comunista"


Filósofos como Alain Badiou, Slavoj Zizek e Daniel Bensaid veem no comunismo o único horizonte contra a predação e a privatização do mundo.

Para alguns, defender o comunismo hoje é um anacronismo.

Alinhar-se a Karl Marx mesmo na civilizada França do século XXI pode ser arriscado. O filósofo Alain Badiou foi alvo de críticas que o viam como um "perigoso revolucionário" e até mesmo "defensor do regime de Terror", aquele que tomou conta da Revolução francesa e do comunismo stalinista. Seus detratores eram alguns dos chamados "novos filósofos", surgirdos na década de 70, que com o passar do tempo se tornaram anticomunistas intransigentes.

"O capitalismo global humanizado não pode ser o horizonte final da esquerda”, se insurge o filósofo e psicanalista Slavoj Zizek, para quem é preciso reabilitar a “ideia comunista”, não como algo que já fracassou mas como um universalismo a ser construído.

"Estou convencido que numerosos problemas como os ecológicos, biogenéticos e novas formas de apartheid não podem ser resolvidos pelo capitalismo global", esclarece Zizek, que organizou com Alain Badiou em 2009, em Londres, um colóquio chamado On the idea of communism, que se repetiu em Berlim, em 2010.

O comunismo, o futuro do Homem
Para defender Alain Badiou dos ataques dos "novos filósofos" Zizek e Fabien Barby escreveram, em março de 2010, um manifesto ao qual se juntaram centenas de filósofos e intelectuais do mundo inteiro. O texto do manifesto dizia claramente: "nós não renunciaremos jamais à ideia do comunismo". 

E continuava: "Por mais problemática que seja essa ideia, por mais nova que pareça sua forma de se tornar realidade, por mais críticos que sejamos sobre a história do comunismo no século passado, por mais diferentes que sejam nossas propostas, uma coisa é certa : um comunismo a ser reinventado, de um novo gênero ainda indefinido, é o único futuro do Homem. Porque esta é a eterna e única verdade política. A única justiça que a razão humana pode conceber de forma sadia".

O manifesto concluía: "O tempo não é mais, queiram ou não, dos fracos, pretensiosos e arrivistas ’novos filósofos’ mas dos filósofos da renovação".

Filósofos contemporâneos como Etienne Balibar, a exemplo de Badiou e Zizek, acham que Marx deve ser o contraponto do capitalismo atual. A mesma coisa pensava o filósofo Daniel Bensaïd, morto em 2010, em Paris.

O que os une é uma certeza: Karl Marx continua a ser um filósofo fundamental. Eles se debruçaram sobre os escritos de Marx e defenderam em livros e conferências a pertinência de seu pensamento e da idéia do comunismo, que Badiou chama de "hipótese comunista".

Provocativo e dotado de um senso de humor inabalável, Zizek declarou a um jornal francês: "Continuo comunista porque todo mundo pode ser socialista, até mesmo Bill Gates".

Badiou e Zizek são os dois filósofos europeus mais conhecidos, traduzidos e comentados no mundo. Para Badiou, como para Zizek, "o desatre obscuro" do stalinismo (como o denomina Alain Badiou) e o fracasso do “socialismo real” não invalidam o horizonte de emancipação radical que é a “ideia comunista”, que eles reatualizam em novas formas de ação. Ambos afirmam um universalismo concreto, um universalismo de combate.

Alain Badiou apresentou seu amigo Zizek em 2008 e novamente este ano em seu seminário como alguém que vem de um horizonte filosófico diferente. "O pensamento de Zizek é fruto da tensão entre o idealismo alemão (Kant, Schelling, Hegel) e Lacan. Sua dialética é mais a da negação, numa elaboração que se faz do lado de Hegel e do real, num conceito que ele encontra em Lacan".

Quanto a seu próprio horizonte filosófico, Badiou diz que ele se constituiu na tensão dialética entre a ideia e a liberdade, entre Platão e Sartre tentando uma resposta à pergunta, "como a soberania da ideia, da verdade, pode ser compatível com a liberdade?"

Renovar a vocação igualitária do comunismo
Citado por Etienne Balibar, o filósofo Louis Althusser, seu mestre, dizia que o comunismo estava presente no meio de nós, imperceptível, invisível, nos interstícios da sociedade capitalista, em lugares onde os homens se associam em atividades sem fins lucrativos.

De passagem por Paris este mês de junho, Zizek foi convidado a falar no seminário que Alain Badiou dá na École Normale Supérieure de Paris, que frequento há alguns anos. Ele estava na capital francesa para o lançamento de seu livro Menos que nada - Hegel e a sombra do materialismo dialético, prefaciado por Badiou, que o considera "um dos mais importantes livros de filosofia lançado nos últimos anos".

Em um livro anterior, Primeiro como tragédia, depois como farsa, Zizek voltava a Hegel, que considerava que a história se repete necessariamente. Karl Marx observou: "uma vez como tragédia e na vez seguinte como farsa". Ao que Herbert Marcuse acrescentou: "a farsa pode ser mais terrível que a tragédia que ela repete". Considerado por muitos como o "filósofo mais perigoso do Ocidente", o agitado Zizek tem como ambição defender a “ideia comunista”, recomeçar do início, "o que significa não reproduzir o que foi um fracasso mas diante dele renovar a vocação igualitária original do comunismo".

Dito isto, é evidente que ele não vê solução no mercado.

“Se há uma lição a tirar do fracasso da União Soviética é que o dirigismo da economia nacionalista só funciona numa certa etapa de desenvolvimento industrial tradicional. Não tenho uma fórmula clara. Mas a solução que entrevejo é a de um Estado sustentado por um movimento popular, por uma mobilização extraparlamentar”, declarou ele em 2010, em conferência parisiense. Ele citava como digna de grande interesse a experiência de Evo Morales na Bolívia. Para Zizek, Morales conseguiu uma poderosa mobilização da maioria silenciosa indígena. Assim, ele é sustentado por uma mobilização permanente da maioria.

Ainda não havia o Podemos, na Espanha, nem o Syriza, na Grécia, que empolgam o filósofo hoje.

Segundo Zizek, o stalinismo foi algo muito mais enigmático que o nazismo. Por isso ele concorda com Badiou que chamou o período stalinista de "desastre obscuro". Para Zizek, os dois totalitarismos não podem ser comparados por múltiplas razões que explica.


Na conferência que faria no mês em que morreu, em Paris, em janeiro de 2010, Daniel Bensaïd, filósofo e militante trotskista escreveu um longo texto no qual reafirmava sua convicção que o comunismo é único horizonte contra "a predação e a privatização do mundo".

Ele escreveu: "De todas as formas de nomear 'o outro', o que está em face do obsceno capitalismo, a palavra comunismo é aquela que conserva maior sentido histórico. É ela que melhor evoca o comum que se dá na partilha e na igualdade, a partilha do poder, a solidariedade que se opõe ao cálculo egoísta e à concorrência generalizada, a defesa dos bens comuns da humanidade, naturais e culturais, a extensão de um campo de gratuidade dos serviços e bens de primeira necessidade, contra a predação generalizada e a privatização do mundo".

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Seria o papa Francisco comunista?





Ao criticar abertamente o livre mercado, o papa Francisco dividiu os católicos: aqueles mais à esquerda passaram a endeusá-lo, enquanto os representantes da direita o acusam de ser comunista.

A cisão decorre das últimas declarações do pontífice. O líder da Igreja Católica vem fazendo duras críticas ao capitalismo - primeiro como fonte de desigualdade e segundo como uma economia que "mata".

Mas seria o papa um marxista radical?

Ao retornar das comemorações do Dia da Vitória em Moscou, na Rússia, no mês passado, o presidente cubano Raúl Castro parou em Roma para agradecer ao papa Francisco por seu papel em reaproximar Cuba e Estados Unidos. "Se o papa continuar nesse caminho, eu vou voltar a rezar e retornar à Igreja ─ não estou brincando", disse Castro.

Em setembro deste ano, o papa Francisco poderá devolver os elogios ao fazer uma escala em Cuba durante sua viagem aos Estados Unidos, na que pode ser a visita internacional mais difícil de seu pontificado.

O apoio de Raúl Castro tende a prejudicar o papa Francisco junto à direita americana, cujos principais integrantes reagiram duramente à reaproximação do presidente Barack Obama com Havana.

"Há muito ceticismo entre os católicos americanos", diz Stephen Moore, economista-chefe do centro de estudos conservador The Heritage Foundation, em Washington.

Moore, que se diz católico, acusa o pontífice de ter "claramente tendências marxistas".

"É inquestionável que ele tem se mostrado bastante cético em relação ao capitalismo e ao livre mercado, e eu acho isso muito preocupante".

O radialista conservador Rush Limbaugh é menos cerimonioso. Ele descreve a exortação apostólica do papa Francisco Evangelii Gaudium ("A Alegria dos Evangelhos") como "puro marxismo".

Visões diferentes

Os EUA estão longe de ser a nação mais cristã do Ocidente. Há 80 milhões de católicos batizados, e se trata da maior denominação religiosa do país. Muitos de seus integrantes encaram o agora santo João Paulo 2º como um papa-herói porque ele era um valente opositor da Guerra Fria ─ e isso aumenta o sentimento deles de traição em relação a Francisco.

Embora a taxa de aprovação do atual pontífice ainda seja alta, especialmente entre católicos democratas, Francisco tem uma presença polarizada, e a questão "o papa é comunista?" realmente importa.

João Paulo 2º e Francisco vêm de mundos muito diferentes, e isso inevitavelmente influenciou o pensamento dos pontífices em assuntos como economia e justiça social.

O primeiro passou grande parte de sua vida sob regimes totalitários ─ primeiro sob ocupação nazista durante a 2ª Guerra Mundial, depois a dominação soviética e stalinista da Polônia durante a Guerra Fria. Tudo o que ele experimentou como padre e bispo fizeram com que ele visse o comunismo como inimigo.

Em contrapartida, Francisco ─ ou Jorge Bergoglio, seu nome de batismo ─ viveu sob o regime do líder nacionalista argentino, Juan Carlos Perón.

Austen Ivereigh, que escreveu a biografia do papa Francisco e estudou teologia na Argentina, diz que, embora tenha dominado a política argentina, o peronismo é difícil de ser definido em termos políticos convencionais.

"Não é nem de esquerda nem de direita", diz ele. "Mas o peronismo bebe de um tipo de ressurgimento nacionalista na Argentina, nas décadas de 30 e 40, e era muito identificado com a classe operária, acima de tudo, e especialmente com os sindicatos".

Ivereigh acredita que o jovem Bergoglio tenha sido profundamente influenciado pelas ideias peronistas.

João Paulo 2º era considerado por muitos católicos como 'papa-herói' por sua luta contra o comunismo durante Guerra Fria
Os dois papas também tinham entendimentos muito diferentes da Teologia da Libertação, movimento polêmico baseado na convicção de que os evangelhos exigem a opção preferencial pelos pobres.

João Paulo 2º era um crítico dessa corrente teológica. Em sua opinião, a Teologia da Libertação aproximava os padres e bispos de uma ideologia quase violenta e marxista.

Já Francisco, apesar de ter rejeitado o marxismo, aceitou muitos dos princípios da Teologia da Libertação, expondo o que Ivereigh chama de "versão nacionalista" do movimento, ou a chamada "Teologia do Povo".

'Doutrina Social da Igreja'

No entanto, os escritos econômicos tanto de João Paulo 2º quanto de Francisco também refletem uma tradição intelectual, a Doutrina Social da Igreja - conjunto de orientações reunidas em 1891 em uma encíclica chamada de Rerum Novarum, na qual o papa Leão 13 discorria sobre o "espírito de mudança revolucionária" que então varria a Europa.

Muitos dos ensinamentos são uma clara refutação das ideias comunistas que eram parte dessa mudança, mas também uma crítica de aspectos do capitalismo. Sendo assim, trata-se de uma mistura pouco convencional que não se adequa ao maniqueísmo esquerda-direita que dominaria a política do século seguinte.

Maurice Glasman, economista britânico mais alinhado à esquerda, estudou a Doutrina Social da Igreja em seu PhD. Ele foi atraído pela maneira como a corrente teológica rejeita as ideologias convencionais tanto da direita quanto da esquerda.

"Ela (Doutrina Social da Igreja) realmente se opõe à ideia de que há um Estado ou o mercado", diz ele. "A corrente teológica acredita em incentivar a sociedade ─ o que chama de solidariedade ─ para que possa resistir à dominação dos pobres pelos ricos, mas por meio de sindicatos e associações vocacionais e o que é chamado de subsidiariedade, que é a descentralização do poder".

Glasman diz que a Doutrina Social da Igreja se opõe ao comunismo porque "mantém o direito à propriedade privada" e é "anticoletivista".

Ele tem ainda vivo na memória um episódio em que foi criticado por um economista americano depois de apresentar um trabalho em uma recente conferência no Vaticano sobre a corrente teológica.

"Uma palavra (define) o que você está falando", teria dito o americano a Glasman. "Isso se chama comunismo. Você está tentando interferir nas prerrogativas de administração, você está tentando interferir com o capital, você está tentando interferir nos preços. E isso vem sendo tentado há muito – pela União Soviética".

Durante a discussão que se seguiu às acusações, Glasman ficou maravilhado ao ser apoiado tanto pelo papa quanto pelo arcebispo de Munique, coincidentemente chamado Cardeal Marx.

A interpretação de Francisco da Doutrina Social Católica certamente soa mais radical do que a de seus antecessores. Na Argentina, ele reforçou que os padres devem ver o mundo através dos olhos dos pobres, ao morar entre eles, e trouxe essa abordagem com ele quando chegou a Roma.

Evangelii Gaudium – o documento que enfureceu Rush Limbaugh - argumenta que a desigualdade cria "um estado de pecado social que clama ao céu". O papa Francisco também já disse que o desemprego é o "resultado de uma escolha mundial, de um sistema econômico que levou a uma tragédia, um sistema econômico que tem a seu centro um Deus falso, um Deus falso chamado dinheiro".

Philip Booth, economista católico que trabalha no Institute for Economic Affairs, em Londres, descreve Francisco como um "corporativista" que acredita no Estado provedor e opina que as declarações do papa são "perigosas" porque elas podem "nos levar à política ruim".

Comunista?

A resposta para a pergunta no título desta reportagem é "não". Há muitos à esquerda que admiram o papa Francisco, e há muitos à direita que o criticam, mas ele definitivamente não é comunista.

Por outro lado, ele parece gostar de provocar as pessoas. Ele publicará em breve uma encíclica sobre o aquecimento global, e um padre que já teve acesso ao conteúdo disse à BBC que "se algumas pessoas acham que ele (Francisco) é um marxista (agora), espere para ver o que ele diz sobre o meio ambiente".