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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O perigoso Haddad e a Paulista






Estive em São Paulo. Observei várias coisas interessantes desde a saída de Porto Alegre: voos lotados, filas imensas, aeroporto transbordando. Pensei ironicamente: só pode ser a crise. Sei que ela existe e é grave. Bicho está pegando. Fiquei procurando explicação para essa contradição acachapante. Hotel lotado. Saímos com amigos para jantar em São Paulo. Tempo médio de espera numa pizzaria da moda: duas horas. Ouvi a explicação de que a crise não pega parte da classe média. Deve ser isso mesmo.

Estamos bem no fundo do poço.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, é perigoso. Desconfio que seja até comunista. Adotou medidas terríveis que desencadearam a ira de parte dos paulistanos. Diminuiu a velocidade dos automóveis nas marginais e com isso aumentou a fluência do tráfego e reduziu o número de acidentes. Um paradoxo. Lesou os paulistanos no sagrado direito diário ao engarrafamento. Foi acusado de estar na contramão da história, de ser bicho-grilo, de odiar carros e de representar o bolivarianismo atrasado e ideológico. Liberou paredes para grafiteiros. Foi atacado por estimular o vandalismo. Está lindo. Dificilmente Haddad será reeleito. É visto por muitos como o pior prefeito do mundo.

Há eleitores que preferem opções mais gabaritadas e com experiência administrativa como João Doria e José Luís Datena, que desistiu ao descobrir, só agora, que o PP não é santo.

Outra atividade assustadora de Fernando Haddad, que pude comprovar pessoalmente, é o fechamento da imponente avenida Paulista aos carros nos domingos para que se transforme em área de lazer. Virou um terrível parque de diversões com ciclistas, mulheres tomando banho de sol, crianças correndo, músicos tocando e cantando, casais dançando, gente caminhando, correndo e pulando.

Mais uma vez, Haddad foi rotulado de anacrônico e ideológico.

O PSDB, sempre tão moderno e racional, entrou na justiça para tentar desbloquear a Paulista. José Serra foi ao local, num domingo de chuva, para demonstrar que é um desperdício fechá-la.

Fiquei com a impressão que Haddad está mal-informado: não sabe que a Paulista é o coração do capitalismo brasileiro e não pode ter tempo morto, salvo se, quem sabe, for cobrado pedágio dos que a ocupam aos domingos para se divertir infantilmente. Chega a ser humilhante ver a Paulista sem engarrafamento, salvo de bicicletas e gente sem camisa. Onde já se viu humanizar o núcleo trepidante da Pauliceia Desvairada! A ideia de reservar a Paulista para lazer aos domingos é tão ridícula que pretende ser copiada por Paris, que quer reservar a luxuosa Champs-Elysées para “promenades dominicales”.

Haddad propôs também a regulamentação do Uber em termos que serão ótimos para todas as partes, começando com uma consulta popular. A Câmara de Vereadores não pretende deixar passar tamanho absurdo. Voltei de São Paulo aturdido. Se eu morasse e votasse lá, Haddad jamais teria o meu voto. É muito perigoso. Deve ser até comunista. Além disso, até pouco tempo era apenas um poste do Lula. Se a capital paulista continuar com administrações desse tipo, a cidade perderá a sua identidade. É visível que está sendo descaracterizada. Um pouco mais e será um lugar habitável.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

“IMPRENSA NÃO MUDOU NADA DESDE CHATEAUBRIAND”

Autor da biografia Chatô, que acaba de ganhar uma nova edição, o jornalista e escritor Fernando Morais faz uma comparação da imprensa atual e a do tempo do magnata das comunicações e observa que, com algumas exceções, ela "continua sendo um instrumento exclusivamente dos interesses econômicos e políticos do dono"



247 – "Na essência", a imprensa de agora "não mudou nada" desde os tempos do magnata das comunicações Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (1892-1968). A opinião é do jornalista e escritor Fernando Morais, autor da biografia Chatô, que acaba de ganhar uma nova edição. "Continua sendo um instrumento exclusivamente dos interesses econômicos e políticos do dono", diz ele, em entrevista a Nirlando Beirão, da Carta Capital.

"Qual é a diferença que a gente vê entre os impérios midiáticos de hoje e o do Chatô? A personalidade do Chateaubriand. O caráter diabólico que ele tinha. Ao mesmo tempo que era capaz do pior gangsterismo, ele deixou o legado do melhor museu de arte do Hemisfério Sul, o Masp", detalha Morais, lembrando que o empresário também "mandou capar a tiros um sujeito com quem ele tinha uma dívida".

O jornalista concordou que ainda se pratica muito hoje a máxima de que "se a verdade atrapalhar o que se quer dizer, esqueça-se a verdade", destacada pelo repórter. "Muito, muito. E com mais hipocrisia. É o avesso do que deveria ser o jornalismo", comenta.

Leia aqui a íntegra.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Breve tratado da imobilidade urbana



Uma das experiências temporais mais particulares ao Brasil é a repetição. Ela expressa, de maneira quase didática, a resistência imperial do poder à mudança e sua imunidade surda a toda pressão popular. Um dos exemplos privilegiados da força de tal repetição compulsiva diz respeito ao ritual periódico de aumento da tarifa do transporte público. Desde a Revolta do Vintém, lá pelos idos de 1879, a população brasileira sai periodicamente às ruas contra os preços extorsivos das tarifas. Desde aquela época, os governos, sejam eles de que partido forem, respondem à bala.

O resultado final foi muito bem descrito por Lucio Gregori. Gasta-se atualmente 13,5 minutos de um salário médio em São Paulo e no Rio para pagar uma tarifa. Em Paris e Pequim, gasta-se 4,5 minutos e em Buenos Aires gasta-se 2,5 minutos. Esses números resumem bem a irracionalidade de ser obrigado a aceitar um serviço entre os mais caros do mundo e criminosamente ruim. O problema não diz respeito ao aumento de tarifa, mas à aplicação de preços abusivos como se isso fosse uma fatalidade natural e inquestionável.

Quando os transportes públicos foram privatizados, no início dos anos 1990, prometeu-se uma melhoria radical da qualidade e eficiência. De todas as piadas contadas pelo neoliberalismo brasileiro, essa é a mais sem graça. Ao explodirem as manifestações de 2013, descobrimos, por exemplo, que, de 2004 a 2012, a quantidade de passageiros disparou 80% em São Paulo enquanto o número de ônibus em circulação simplesmente caiu de 14.100 para 13.900. O que não poderia ser diferente, já que as empresas privadas de ônibus têm, na verdade, apenas duas funções: fornecer dinheiro para campanhas políticas e rentabilizar seus investimentos. Não é por acaso que um dos brasileiros citados no escândalo das contas milionárias do HSBC suíço era Jacob Barata, o "rei do ônibus" carioca. Enquanto ele transportava a população carioca como quem transporta gado, sua conta crescia.

Já a situação catastrófica de São Paulo é conhecida de todos. A começar pelo metrô, que já ganhou o prêmio da expansão mais lenta do mundo, com atrasos sucessivos enquanto escândalos milionários de corrupção aparecem em tribunais internacionais e o governo paulista finge não ser com ele. No município, a acomodação à mediocridade por parte de um governo que se dizia expressão do "homem novo" fez com que nenhuma proposta de mudança estrutural (tarifa zero, subsídios, bilhete metropolitano, descolamento do preço entre metrô e ônibus, reestatização) fosse sequer realmente discutida.

Diante disso, a população começou uma jornada de manifestações. Temendo que ela possa servir como estopim de um novo 2013, a Polícia Militar colocou em cena suas práticas corriqueiras de banditismo institucionalizado contra manifestantes. Provocações, uso indiscriminado da violência e até mesmo a pérola de colocar explosivos em mochilas de manifestantes para incriminá-los, como vimos em vídeo veiculado na internet. Esta é a polícia paulista: tira selfies com manifestantes que pedem a volta da ditadura militar e joga bomba de gás lacrimogêneo contra populares que pedem uma tarifa de transporte minimamente honesta. No que o secretário de segurança de Alckmin, a ser confrontado com o fato de até mesmo a imprensa internacional ter noticiado o absurdo de transformar São Paulo em palco de batalha campal diante de uma manifestação que transcorria sem violência, respondeu: "A atuação da PM foi exemplar". É verdade, ela foi um belo exemplo do que a polícia realmente é e quem são seus inimigos reais.

Que o leitor permita-me terminar este artigo com um relato pessoal. Quando criança, lembro-me de meu pai levar-me a uma manifestação contra a ditadura militar, em Brasília. Terminamos correndo da polícia e de suas bombas. Nesta terça (12), tive de parar meu trabalho na universidade para correr à manifestação e tirar minha filha, uma adolescente de 16 anos, que tinha sido encurralada com suas amigas pelas bombas da polícia. Como se vê, o tempo do Brasil é o tempo da repetição e da luta desesperada, que passa de uma geração a outra, contra sua teimosa imobilidade.