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domingo, 5 de outubro de 2014

10 motivos para ser contra a isenção de impostos para igrejas, sem a prestação de contas

Acid Back Nerd


Sem preconceito
Antes de qualquer coisa, preciso deixar uma coisa bem clara. Não sou nenhum ateuzinho revoltado do Facebook, tampouco um desses revoltados com a religião. Cresci numa religião, visitei e frequentei outras e creio que as religiões têm um papel positivo na sociedade..

Constituição
Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
VI – instituir impostos sobre:
b) templos de qualquer culto;

País laico
Vivemos num país laico. Não vejo por qual motivo nós deveríamos dar privilégios às igrejas sem que estas precisem prestar contas. Se somos um país laico, deveríamos tratar as igrejas com a mesma ética que tratamos as demais instituições.

Bom negócio

Caridade
Igrejas funcionam como empresas. Pastores e músicos muitas vezes recebem gordos salários para exercer seu “santo ofício”. Ao invés de viverem para deus, muitos são os que vivem de deus. A justificativa para a isenção de impostos para as igrejas seria o fato de que elas possuem um trabalho social que por si só contribuiria a sociedade.

Não irei discutir a importância social das igrejas, mas é muito estranho que essas igrejas não precisem prestar contas de seus gastos. Portanto, qualquer espertalhão pode abrir uma igreja e recolher as ofertas dos fiéis, sem praticar qualquer tipo de trabalho social. Esse sistema acaba sendo prejudicial até para as igrejas sérias, que veem malfeitores recorreream à religião para lucrar em cima dos privilégios têm.

Justiça
Se uma empresa tem uma arrecadação de 100 mil reais e é obrigada a pagar, digamos, 30% de impostos, uma igreja que tem uma arrecadação de 100 mil reais deveria ter que comprovar que gastou 30% de sua arrecadação no trabalho social (distribuindo cestas básicas, oferecendo serviços, doando roupas, doando remédios, etc).

10 motivos para ser contra a isenção tributária para as igrejas sem prestação de contas









9-“Dai a Cézar o que é de Cézar, e a Deus o que é de Deus.” Mt 22.20 – O texto bíblico é muito conhecido e no meio dos cristãos há quase uma unanimidade de que àqueles que querem seguir fielmente às Escrituras Sagradas devem “Dar a Cézar o que é de Cézar”, ou seja, pagar os seus tributos.Observa-se que esta ordenança bíblica deve ser aplicada a todas as pessoas, quer sejam pessoas físicas (naturais) ou jurídicas (empresas, entidades, igrejas, etc.). Logo, num país de maioria cristã, é inconcebíbel que igrejas não cumpram com aquilo que até a bíblia impõe.

10- Medidas como essas acabam sendo ruins para as religiões. Tocqueville já diziam que a religião que se mistura com o governo acaba sempre sendo prejudicada. A igreja não deve precisar de favores do Estado para não ser influênciada por ele. Em muitos países, clérigos são pagos pelo governo e por causa disso acabam sendo influenciados pelo governo, servindo de massa de manobra para interesses alheios a fé.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O genocídio contra a Palestina acontece todos os dias – com ou sem mídia


A única coisa que mudou depois do cessar-fogo é que agora é até possível contar nos dedos as mortes diárias.


Lara Sartorio

da Cisjordânia (Palestina)

Passado o momento do espetáculo, em termos midiáticos, dos bombardeios contra a Faixa de Gaza e os assassinatos indiscriminados na Cisjordânia, a Palestina retorna à sua invisibilidade cotidiana.

Na última semana, tanques adentraram diversos pontos da Cisjordânia, prendendo dezenas de jovens e crianças palestinos. Em Hebron, a cidade foi tomada pelo terror, com tanques, bombardeio de gás lacrimogêneo, tiros de balas de borracha e munição letal, além de invasões de casas. A operação na cidade deixou dois jovens mortos e um número não confirmado de feridos.

E o que mudou depois do cessar-fogo?

Certamente as centenas de assassinatos diários promovidos por Israel contra os moradores de Gaza. Agora é até possível contar nos dedos as mortes diárias.

Isso mesmo! O cessar-fogo em Gaza significou o retorno à vida cotidiana palestina, que nada mais é que encarar a morte de frente e todo tipo de restrições e humilhações em seu próprio território.

Somado a isso, os palestinos na região da Cisjordânia enfrentam o maior roubo de terras de sua história e uma repressão nos moldes do holocausto judaico, transformando o território em uma câmara de gás ampliada com o lançamento de gás tóxico contra manifestantes cercados pelo Muro do Apartheid.

A derrota de Israel na operação realizada contra a Faixa de Gaza, levando em conta seu desprestígio na opinião pública internacional e – ainda que mínimas – as concessões realizadas em negociação com a autoridade de Gaza (Hamas), fez com que a reação após o cessar-fogo fosse de intensificar a brutalidade da ocupação militar colonialista.

Histórico

Não vamos esquecer que a injusta partilha, conduzida pela então recém-criada ONU, entregou 53% do território nas mãos da minoria de judeus; restando à época 47% da Palestina para os árabes, que representavam 70% da população total no território.

Do mesmo modo, temos que lembrar que, com o forte apoio de grandes potências, a dizer, o protagonismo dos Estados Unidos na região, Israel estufou o peito e orgulhou seus financiadores ao comprar uma guerra contra o mundo árabe, em 1967.

Posto isso, desde então, Israel mantém uma ocupação militar colonialista naquele pouco território que havia restado para os palestinos. Ao longo dos anos, construiu um muro que tomou mais 10% do território habitado pelos palestinos, isolou Gaza da Cisjordânia e transformou as duas regiões nas maiores prisões a céu aberto do mundo.

Sionismo

Tomando a colonização europeia e o nazismo como espelhos, Israel, lado a lado com os Estados Unidos, promove o mais brutal terrorismo de Estado da história. O sionismo, ideologia nacionalista judaica que fundamenta o Estado de Israel, não para por aí. Quando a sua liderança, Ben-Gurion, afirmou que era necessário arrancar da Palestina todos os árabes, seus súditos levaram bem a sério.

Foi com os acordos de “paz” de Oslo que se legitimou o roubo e controle de toda a água da Palestina, de suas terras férteis e cultivadas por gerações e gerações árabes, o controle total do espaço aéreo e marítimo e o controle militar oficial de mais de 80% do território palestino, que é transformado em 100%, na prática.

Os palestinos foram impedidos de ir à cidade santa, Jerusalém, onde foi delimitada uma pequena área que apenas aqueles que nasceram em Jerusalém poderiam habitar e visitar, com a condição de que perderiam sua identidade palestina – tornando-se israelenses em termos legais, mas sem direitos políticos.

Construções de assentamentos de colonos israelenses, através da expulsão e roubo de casas na região, aprisionamentos e torturas intermináveis fazem com que a pequena região de palestinos tenha cada vez menos palestinos.

Pontos de controle (checkpoints) são instalados por toda a região da Cisjordânia, onde soldados bem armados revistam, humilham e torturam palestinos cotidianamente. Além dos pontos, barreiras de pedra, muros, grades, portões cercas definem a arquitetura de destruição da Palestina, construída por Israel.


Menino palestino e soldado israelense diante do Muro da Cisjordânia. Foto: Justin McIntosh/CC

Paz para quem?

Fica evidente, com tantas experiências de acordos frustrados, que “soluções de paz” somente significariam paz para Israel.

Essa região de latentes conflitos e esse povo que o Ocidente adora chamar de “balconizado”, pronto para brigar entre si, é, na verdade, o tabuleiro de jogo preferido para as potências globais garantirem seu poder de dominação.

Uma região que detém o futuro energético (maiores reservas de hidrocarbonetos inexploradas do mundo), que ainda sofre os efeitos de uma independência tardia da colonização europeia e é culturalmente estranhada pelo resto do mundo globalizado em processo de ocidentalização se apresenta como o terreno perfeito para os detentores do capital moverem as peças do jogo ao seu bel prazer.

Não é à toa que a limpeza étnica promovida pelos Estados Unidos e Israel contra a Palestina segue seu massacre impune como gritos em mudo. Diferente do que nos fazem crer os meios de comunicação de massas, a questão da Palestina nunca foi uma questão étnica e muito menos religiosa.

Esse povo com história milenar, que conviveu harmonicamente com os judeus até o fim do século 19, foi prejudicado por interesses de dominação claros das grandes potências. A questão que está colocada quando analisamos a situação palestina é uma luta entre opressores e oprimidos, colonizadores e colonizados, exploradores e explorados, capitalistas e trabalhadores.

A colonização e o imperialismo são expressões evidentes e radicais do sistema capitalista. A luta de classes apresentada sem mediações, que transfere para a colônia as mazelas do capital, é o que determina a população palestina hoje: 85% abaixo da linha de pobreza e 56% de desemprego.

O bloqueio realizado por Israel contra a Palestina garante que cerca de 80% dos produtos que chegam à Palestina sejam israelenses, criando ali um grande mercado próprio, além das taxações realizadas por Israel dos palestinos que vivem lá, que representam parte significativa da economia palestina, e que não são repassadas à Autoridade Palestina como deveria ser feito.

E a ANP?

Como criação dos Acordos de Oslo, não poderia ser diferente: a Autoridade Nacional Palestina (ANP) nada mais é que uma extensão do poder colonial na correlação de forças internas da Palestina.

É a elite governante da Palestina que não se importa em fazer o jogo do capital e articular pela manutenção do controle da classe dominante. Não é à toa, por exemplo, que a polícia palestina é treinada pelos Estados Unidos e seus salários são pagos diretamente pelos imperialistas.

Foi chocante observar a postura da polícia palestina que durante as manifestações da Cisjordânia fez um muro humano de proteção do Muro do Apartheid contra a resistência palestina. Seu desserviço ficou ainda mais evidente quando foram iniciados aprisionamentos indiscriminados de palestinos pelo exército de Israel de maneira articulada também pela polícia palestina.

Um ou dois Estados?

A discussão em torno da solução do “conflito” vem sendo promovida de forma a polarizar a questão com a solução de “dois Estados para dois povos” ou de “um Estado palestino para os dois povos”.

A solução de dois Estados já vem sendo arquitetada por debaixo dos panos há algum tempo. Não é à toa que a despeito da discordância dos discursos oficiais dos EUA e de Israel já exista há alguns anos – ao passo que os EUA declaram apoio aos dois Estados.

Há quatro anos, a demanda de dois Estados que se concentrava no discurso da esquerda israelense foi aderida também pela extrema-direita de Israel. O que isso significa? Significa que há uma mudança tática, mas que a estratégia permanece a mesma.

Ou seja, em vez de criar um Estado israelense na Palestina, o projeto sionista é o de arrancar o máximo de território e deixar o mínimo possível de palestinos nele. O objetivo colonizador permanece o mesmo, e é o que vem sendo implementado nos últimos 66 anos, a solução de dois Estados nada mais é que a garantia da realização do projeto sionista.

O sionismo está moldando ao seu interesse mais uma dessas soluções de paz que somente lhes serve. As expropriações de terra, a expansão dos assentamentos ilegais de colonos israelenses na Palestina, a divisão da terra – de maneira que posteriormente não importará se os palestinos chamarem de Estado ou não –, os bombardeios genocidas regulares, as condições de vida palestina e os ataques que fizeram dos palestinos a maior população de refugiados do mundo – tudo isso faz com que a realidade presente seja garantida na realidade futura de uma legitimação internacional da ideia de dois Estados formados.

O teatro da solução de dois Estados está sendo armado de tal forma que Israel se apresentará em breve como o democrático e flexível a propor a solução de dois Estados, e os palestinos serão os que “não querem a paz”. Claro, a paz para o grande capital. Isso se ainda persistir uma maioria na Palestina que não aceite a solução sionista.

Mesmo que não tivermos clara uma solução imediata para o conflito, é preciso ter em mente que não se divide uma terra entre colonos e nativos. Eles continuam sendo colonos e nativos.

Para que velhos dicionários sejam rompidos, é preciso primeiramente debater o fim do Estado sionista, racista e terrorista de Israel. A partir daí, é possível construir novas concepções, tendo em mente os limites de reivindicar um Estado, seja ele qual for.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Também, peço voto em Dilma! Vote 13

VOTO EM DILMA





Nunca foi tão necessário derrotar o pensamento conservador, o eterno obscurantismo que tenta fazer a roda da História andar para trás

Minha razão para votar em Dilma tem origem na convicção fundamental de que o dever principal do Estado e dos governantes é defender os humildes e os desprotegidos, os que não tiveram oportunidade.

Também se baseia nas melhores estatísticas, que podem ser lembradas sempre que necessário, e ajudam a entender quem fez o quê, quando, para quem.

Estou falando da distribuição de renda, para lembrar que queremos viver num Brasil de cidadãos iguais, homens e mulheres. Acredito que é preciso manter a prioridade no emprego e no salário, no mercado interno, porque sabemos que só progresso no bem-estar da população de baixo gera melhoras reais para o conjunto da sociedade.

Não tenho religião mas tenho uma fé política: creio que numa democracia todos os poderes emanam do povo. Não imagino um país de cabeça baixa, refúgio de escravos tristes e senhores de sorriso amarelo pelo excesso de esperteza.

Não acredito em contos de fada nem admiro heróis de álbum de figurinha.

Não creio num futuro de privilégios nem de favores. A hierarquia não eleva. A inferioridade incomoda.

Só a luta pela igualdade é ética.

Penso em Dilma quando tentam nos assustar com o medo ridículo de mais uma queda na Bolsa, querendo ligar o destino do país ao enriquecimento de tubarões de um cassino pobre e podre, habituados a embolsar seus lucros e transferir suas desgraças para a maioria da população.

Penso em Dilma quando vejo um candidato aparecer na TV sem conseguir — apesar de muito treinamento — disfarçar sua conversa vazia. Nada consegue dizer porque muito tem a esconder.

Penso nela quando até um ator de Hollywood, envergonhado, sentiu-se no dever de informar que fez papel de bobo e retira o apoio a uma concorrente.

Os analistas de gabinete estão atônitos, os economistas de encomenda e os consultores milionários fogem de clientes inconformados. Faltam poucos dias para o povo ir às urnas e tudo que imaginaram, prometeram, deu errado. Mentiram, apenas mentiram, mentiram de novo.

Apesar do massacre cotidiano, das cortinas de fumaça, das trapaças, das demonstrações de má fé, milhões de brasileiros foram capazes de compreender aonde estão seus interesses, distinguir quem zela por suas necessidades e tem disposição de lutar por elas. Não é de hoje que aprenderam o que é classe social.

Por vários caminhos, com as idéias mais exóticas, incongruentes na origem mas idênticas na finalidade, formou-se uma grande aliança para tentar fazer a roda da história andar para trás. Deu errado.

Dilma só é chamada de agressiva, e suas críticas são chamadas de ataques, porque é assim que acontece com quem desafia o coro das ideias dominantes.

Nunca os mais pobres conseguiram vencer tantos enganos, tantas ilusões.

Nunca tiveram a mesma oportunidade de arrumar o país para ficar um pouco do seu jeito, onde possam fazer valer sua vontade e serem tratados com dignidade.

Nunca foi tão necessário derrotar o preconceito, a ideologia nefasta dos senhores de sempre, o pensamento conservador do eterno obscurantismo — marcas daquilo que muitos anos atrás nosso maior poeta do século XX chamou de mundo caduco.

Em meio a tanta dificuldade, tanta injustiça, tanta mudança a ser feita, vivemos num país onde 94% dos favelados dizem que estão felizes com a vida que levam.

Por isso, voto e peço voto em Dilma.

domingo, 28 de setembro de 2014

O paulistano que sempre diz não

Por que os moradores de São Paulo protestam contra ciclovias, metrô e museus, elementos positivos em qualquer outra cidade?


Ciclistas se manifestam a favor de uma ciclovia em São Paulo. / FOLHAPRESS

Acontece em São Paulo um fenômeno intrigante. De tempos em tempos um abaixo-assinado acaba tendo tanta ou mais repercussão que uma iniciativa da Avaaz.org contra a mudança climática. Essas petições, geralmente assinadas por moradores endinheirados, viajados e com diplomas universitários, não pedem mais segurança nas ruas, nem salários dignos para seus empregados, nem a interrupção do trânsito nos fins de semana para poder passear, nem mesmo o fechamento de enormes shoppings que asfixiam a vida do bairro. O que querem é acabar com aquilo que moradores de qualquer cidade do mundo gostariam: estações de metrô, ciclovias, ônibus mais rápidos e, agora, um museu.

Dizem que essas coisas atraem gente não tão viajada e com menos dinheiro, gente diferente, vendedores ambulantes e ônibus com crianças. Ou quase pior: afastam de suas vias, restaurantes e butiques o cidadão exclusivo, como advertia anos atrás aquela cabeleireira de Moema angustiada ao ver sua rua pintada de vermelho: “Onde vou colocar a minhas clientes milionárias que vêm com seus carros importados?! Acha que vão vir de bicicleta?!”.

Os moradores dos bairros ricos sentem-se inconformados, desprotegidos e protestam estacionando seus carros no ‘tapete’ vermelho destinado às bicicletas, desabafam no facebook contra os farofeiros e mobilizam-se em busca de assinaturas. O que acontece com o paulistano?

“Esse é um sintoma da elite. Essas regiões – Moema, Higienópolis, Jardim Europa – sempre foram protegidas pela polícia. O fato de uma nova classe média, agora com algum dinheiro, tomar a cidade, para eles significa insegurança”, diz Altair Moreira, do Instituto Polis , uma ONG que defende cidades sustentáveis e mais democráticas. “É um fenômeno novo e importante no Brasil, a população da periferia e de outros bairros não tão privilegiados está assumindo a cidade como um todo, enquanto gera esse incômodo na elite, que não está acostumada a compartilhar seu espaço”.

Contra essa elite foi organizado no sábado um “churrasco de gente diferenciada”. Quase uma centena de pessoas plantou-se na rua da idosa que liderou a coleta de assinaturas contra o suposto caos que o Museu da Imagem e do Som (MIS) gera aos ilustres moradores do Jardim Europa, um bairro com casas que têm mais estrutura e funcionários que muitos condomínios. Os diferenciados comeram farofa, gritaram contra o preconceito e tocaram música. Mas os ricos promotores da iniciativa estavam passando o fim de semana fora, de modo que só ouviram a gritaria os agentes de segurança encarregados de cuidar do patrimônio na ausência dos patrões.

“O Brasil ainda não desenvolveu essa noção de espaço público. Perdura a característica de considerar que o espaço público é um espaço privado. As ciclovias, o MIS, o metrô em Higienópolis deixam claro que existe uma parte da elite da sociedade que não quer ver o espaço público se transformar em algo de todos, afirma Emerson Ricardo Girardi, professor de sociologia da FAAP.

Sirva de consolo que não se trata de algo exclusivo do Brasil, nem de São Paulo: moradores com raiva das ciclovias existem até em Nova York. É o que ficou demonstrado em 2011 quando os protestos de um grupo de moradores chegaram ao New York Times. A matéria foi intitulada:“ Desenvolvimento verde? Sim, mas não no meu quintal ”. Eram progressistas e ecologistas, mas queriam acabar com uma ciclovia, que continua lá.

"A cidade organizou-se de uma forma individualista e privatista, tendo em mente a predominância dada ao automóvel. Uma parte da sociedade acostumou-se durante muito tempo a privilégios que não lhe correspondiam. É um problema para eles porque os iguala socialmente. Nessa questão, acho que a ideia de distinção é central, até agora se distinguiam por viver em um espaço determinado, privilegiado, que começa a ser usado por todos. Essa elite que se queixa tem uma grande dificuldade em lidar com o diferente e o espaço público”, diz Alexandre Barbosa Pereira, antropólogo e professor da Unifesp.

Enquanto os ânimos do churrasco murchavam e algum morador atendia os jornalistas pelo interfone de sua mansão, o jornaleiro negro do bairro respondia espontâneo demais a uma pergunta impertinente: Os moradores daqui são legais?
- Não, claro que não. No máximo dizem "oi" e "tchau" ou mandam o motorista buscar o jornal.