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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Felicidade realista - Martha Medeiros


Felicidade realista
De norte a sul, de leste a oeste, todo mundo quer ser feliz. Não é tarefa das mais fáceis. A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.

Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos pra pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica, a bolsa Loius Vuitton e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito.

É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Por que só podemos ser felizes formando um par, e não como ímpares? Ter um parceiro constante não é sinônimo de felicidade, a não ser que seja a felicidade de estar correspondendo às expectativas da sociedade, mas isto é outro assunto. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com três maridos, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.

Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para sentir-se seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.

Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um game onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo.


Referência: MEDEIROS, Martha. Montanha Russa. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2009 p. 54-55

A liberdade de expressão de oligopólios

Por Michelle Amaral

Elaboração de um marco regulatório para os meios de comunicação não avança no Executivo. Entidades consideram a Lei de Meios da Argentina um exemplo a ser seguido pelo governo brasileiro.

O debate sobre a necessidade de de­mocratização da comunicação no Bra­sil tem sido feito há muito tempo. Mo­vimentos sociais, parlamentares e orga­nizações da sociedade civil defendem a criação de um marco regulatório para o mercado midiático brasileiro, para que se amplie o acesso de diferentes vozes aos meios de comunicação em massa.

No final do segundo mandato do ex­presidente Luís Inácio Lula da Silva, em 2009, a esperança pela criação da lei pa­ra o setor foi fortalecida com a realiza­ção da Conferência Nacional de Comu­nicação (Confecom). No encontro, fo­ram levantadas mais de 600 propostas para a democratização da comunicação brasileira, que tratavam desde o fim do monopólio no setor até o fomento à pro­dução independente nacional. Um estu­do para a elaboração da nova legislação chegou a ser encomendado por Lula pa­ra o então ministro das Comunicações, Franklin Martins. No entanto, a discus­são não avançou no Executivo.

Como forma de pressionar o governo federal para a elaboração do marco re­gulatório, diversas entidades lançaram em agosto deste ano a campanha “Para expressar a liberdade, uma nova lei pa­ra um novo tempo”. A campanha, en­cabeçada pelo Fórum Nacional pela De­mocratização da Comunicação (FNDC), alerta para a urgência em se ter uma no­va lei de regulação da mídia. O atual Có­digo Brasileiro das Telecomunicações (CBT), única legislação do setor, com­pletou 50 anos em 2012 e, segundo as organizações sociais, “é de outro tem­po, de outro Brasil”. O ministro das Co­municações, Paulo Bernardo, chegou a anunciar que uma proposta seria apre­sentada em consulta pública ainda neste ano, o que não ocorreu até o momento.

Monopólios

Mesmo sem ter um avanço na elabo­ração da nova legislação, grandes grupos de comunicação e parlamentares a eles ligados acusam que a instituição do mar­co regulatório representaria uma tenta­tiva de cercear a liberdade de imprensa. A reação é decorrente da possibilidade de perderem concessões públicas de uso das radiofrequências e terem o controle do setor comprometido.

De acordo com o estudo Donos da Mí­dia, do FNDC, o Brasil possui 9.477 veí­culos de comunicação, mas quatro gran­des grupos nacionais controlam diferen­tes mídias, criando uma espécie de oli­gopólio no setor da comunicação. A Re-de Globo de Televisão possui 340 veí­culos; o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) tem 195; a Rede Bandeirantes de Televisão, 166; e a Rede Record, 142.

O marco regulatório visa, entre outras coisas, democratizar o acesso a essas concessões públicas, garantindo, assim, a pluralidade de meios e a diversidade de ideias e opiniões a serem difundidas. Es­te é, também, o objetivo da Lei de Servi­ços de Comunicação Audiovisual da Ar­gentina, mais conhecida como Lei de Meios. A lei foi aprovada em 2009, mas ainda não entrou em plena vigência de­vido ao embate travado pelo Grupo Cla­rín, expressão do monopólio midiático no país, contra o governo da presidenta Cristina Kirchner. O Clarín tem conse­guido impedir a aplicação da lei, que de­veria ter entrado em vigor no último dia 7 de dezembro, por meio de liminares ju­diciais. O motivo é que, com a nova le­gislação, o conglomerado perderá gran­de parte de seus veículos. Isto porque a Lei de Meios estabelece que nenhuma empresa pode ter mais do que dez emis­soras de rádio e televisão e 24 licenças de TV a cabo, nem superar 35% de alcance em relação ao total da população ou do total de assinantes. O Clarín possui 240 concessões no sistema de cabo, nove rá­dios AM, uma FM e quatro canais na te­levisão aberta.

Em visita não-oficial ao Brasi em dezembro de 2012, o rela­tor especial para promoção e proteção do direito à liberdade de opinião e ex­pressão da Organização das Nações Uni­das (ONU), Frank La Rue, elogiou a lei argentina, justamente porque comba­te o monopólio dos meios de comunica­ção e cria um órgão regulador indepen­dente para o setor. “Na América Latina, temos permitido que a comunicação so­cial seja vista, especialmente o rádio e a TV, pela ótica comercial. E isto é um er­ro. Qualquer Estado, inclusive o Brasil, tem a obrigação de regular o uso das fre­quências audiovisuais como um patri­mônio da nação”, defende.

Segundo La Rue, o Uruguai também está produzindo uma legislação seme­lhante “ou mais avançada”. Para o rela­tor da ONU, todo país deve ter um órgão regulador no setor das comunicações porque as concessões são bens públicos e devem ser ofertadas de forma igualitá­ria entre todos. Ele pondera, contudo, que este órgão deve seguir princípios es­tabelecidos a partir de um amplo debate com os diversos setores da sociedade. “É importante que o órgão regulador seja coletivo, com a representação de muitos setores de diferentes partes, e que haja um processo de diálogo com a sociedade para a aplicação e implementação da re­gulação”, explica.

Democratização
Nesse sentido, Rosane Bertotti, coor­denadora-geral do FNDC, afirma que a Lei de Meios é um exemplo para os paí­ses que ainda não possuem uma regula­ção específica para o setor, como o Bra­sil. “Ela é fruto de um processo de debate e construção política pública feitos com o povo argentino”, descreve.

A mesma opinião é compartilhada por Pedro Eckman, do Coletivo Intervozes. Segundo ele, a lei tornou-se uma refe­rência internacional, pois “diminui a concentração de meios e aumenta a plu­ralidade e diversidade de pontos de vis­ta, atores e falas, o que reforça a questão da liberdade de expressão”.

No caso do Brasil, Eckman conta que a concentração midiática por alguns gru­pos específicos impede a consolidação da democracia no país, já que por meio de seus veículos influenciam a opinião de grande parte da população. “A de­mocracia, em seu sentido mais amplo, não vai se consolidar no Brasil enquan­to a gente nãhttp://www.brasildefato.com.br/node/11515o conseguir democratizar a comunicação, porque ela é parte consti­tuinte da cultura da sociedade”, afirma.

Por isso, de acordo com a deputada fe­deral Luciana Santos (PCdoB), o deba­te pela regulação das concessões públi­cas de frequências audiovisuais no país é estratégico e deve ser ampliado. “É im­portante enfatizar o papel da comunica­ção enquanto direito básico de qualquer cidadão, que repercute diretamente no seu modo de agir, de pensar e de se rela­cionar culturalmente”, analisa.

O relator da ONU, durante sua pas­sagem pelo país, ouviu diversos relatos de violação da liberdade de expressão e de dificuldades de setores da sociedade brasileira de terem acesso aos meios de difusão de informação. Ele disse espe­rar um convite oficial para que possa re­tornar ao Brasil para investigar os casos e produzir um informe com recomenda­ções ao governo brasileiro.
 
 
 
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/11515

sábado, 12 de janeiro de 2013

Meninos e meninas aprisionados

Os adolescentes respondem por 10% dos homicídios, mas compõem os 40% das vítimas desse mesmo crime. Diminuir a maioridade penal, como foi feito em países como os EUA, em nada diminuiu a violência entre menores

por Dora Martins*
Começa o ano e, não tarda, logo recomeçarão os falatórios sobre a redução da maioridade penal. Esse tema surge e some ao sabor de interesses eleitoreiros e quase sempre sob a comoção de algum fato trágico e violento que envolve adolescentes.

Quase sempre despossuídos de cidadania, sem estudo, casa, família ou respeito, meninos e meninas em fase de crescimento e desenvolvimento físico e psíquico, há muito expostos a diárias doses de violência, apenas fazem reproduzi-la, neste mundo em que o humano perde cada vez mais espaço para coisas compráveis. E eles, também querem comprar, e, para tanto, roubam e matam.

É preciso lembrar que diminuir a maioridade penal, tal como foi feito em países como os Estados Unidos, por exemplo, em nada diminuiu a violência que envolve crianças e adolescentes.

Aliás, segundo dados da Unicef eles, os adolescentes, respondem por pequena parcela da criminalidade, 10% dos homicídios, mas compõem os 40% das vítimas desse mesmo crime.

É muita hipocrisia querer convencer a sociedade que aprisionar meninos e meninas a quem se negam os básicos direitos vá fazê-los melhores, ou reabilitá-los para viver em sociedade. Se a sociedade não habilita a criança e o jovem para ser cidadão, nada restará para ser reabilitado.

Educação, somada a outros direitos básicos, é o único meio de fazer uma criança vir a ser um homem ou mulher que olhe seu próximo como a si mesmo. Sem isso, é construir presídios sem cessar e crer que leis e números no papel podem ser a salvação. É tapar o sol com a peneira que, precisamos reconhecer, já está muito furada.

*Dora Martins é membro da Associação Juízes para a Democracia e da Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo.
 
 
 

Nota da Embaixada da Venezuela sobre os comentários desastrosos de Arnaldo Jabor




Além de desrespeitar os venezuelanos, povo irmão do Brasil, e de proferir acusações sem base nos fatos reais, o comentário de Arnaldo Jabor nesta quinta-feira, 10 de janeiro, no Jornal da Globo, demonstra total desconhecimento sobre a realidade de nosso país.
Existe hoje na Venezuela, graças à decisão de um povoque escolheu ser soberano, um sistema político democrático participativo com amplo respaldo popular, comprovado pela alta participação da população toda vez que é convocada a votar em candidatos a governantes ou a decidir sobre temas importantes para o país. Desde que Hugo Chávez chegou ao poder, o governo já se submeteu a 16 processos democráticos de consulta popular - entre referendos, eleições ou plebiscitos.

Não nos parece ignorante ou despolitizado um povo que opta por dar continuidade a um projeto político que diminuiu a pobreza extrema pela metade, erradicou o analfabetismo, democratizou o acesso aos meios de comunicação e que combina crescimento econômico com distribuição de renda. Esse povo consciente de seus direitos não se deixa manipular pelas mentiras veiculadas por um setor da mídia corporativa - essa que circula livremente também na Venezuela.

Considerando o alto grau de organização e conscientização da população venezuelana, não são nada menos do que absurdas as acusações feitas por Jabor da existência de um aparato repressor contra o livre pensamento. Na Venezuela, civis e militares caminham juntos no objetivo de garantir a defesa, a segurança e o desenvolvimento da nação. É importante lembrar que se trata do mesmo comentarista que em 11 de abril de 2002, quando a Venezuela sofreu um golpe de Estado que sequestrou seu presidente durante 48 horas, saudou e comemorou este ato antidemocrático, durante comentário feito na mesma emissora, a Rede Globo.

Embaixada da República Bolivariana da Venezuela

Os milicianos da direita conservadora e golpista, já estão em campanha para 2014



A semana dos grandes erros na grande imprensa

Primeiro, a Folha noticiou uma reunião de emergência sobre o setor elétrico, que era rotineira. O Estadão, em letras garrafais, anunciou que o Ministério Público investigaria o ex-presidente Lula. E o Globo avisou que empresários já estariam fazendo seu próprio racionamento. Três exemplos "wishful thinking", em que a vontade política dos editores se impõe à objetividade dos fatos. Se isso não bastasse, Veja também derrapou feio ao anunciar uma megafusão bancária que não houve.

247 - Wishful thinking. A expressão inglesa é a melhor tradução para o comportamento dos grandes jornais brasileiros na semana que passou e expressa um dos principais erros do pensamento, que é o de transformar desejos em realidade. Em vez de narrar os fatos como eles são, a história é contada como gostaríamos (ou gostariam) que fosse.

Entre pessoas comuns, o erro é perdoado. Mas quando se trata de grandes jornais, que têm o dever da objetividade, a questão se complica. A semana que passou, para a grande imprensa, foi também a semana dos grandes erros. Não pequenos deslizes, mas erros colossais, que, em alguns casos, foram escritos em letras garrafais – fugindo até ao padrão gráfico das publicações.

O jogo dos erros começou com a Folha de S. Paulo, dos Frias, que, na segunda-feira, anunciou: "Escassez de luz faz Dilma convocar o setor elétrico". No subtítulo, a mensagem de que, na "reunião de emergência", seriam discutidas medidas contra o racionamento, sob a imagem de uma vela acesa na escuridão. Este era o desejo – o wishful thinking. A realidade, no entanto, é que a reunião não era emergencial nem haverá racionamento.

No dia seguinte, foi a vez do Estadão, principal concorrente da Folha, que não ficou atrás. O sonho da família Mesquita, que controla o jornal, talvez seja ver o ex-presidente Lula atrás das grades. E a manchete "MPF vai investigar Lula" veio em negrito e letras gigantes como se anunciasse que a Alemanha nazista foi derrotada pelos aliados. Mais um exemplo de wishful thinking. No mesmo dia, a "informação" foi negada pelo procurador-geral Roberto Gurgel.

O Globo, dos Marinho, naturalmente, não poderia ficar de fora da festa e anunciou que grandes grupos empresariais já planejam racionar energia. Outra demonstração de um desejo – na quinta-feira, após uma reunião com a presidente Dilma, os principais empresários do País deram demonstrações públicas de que não estão trabalhando com a hipótese de apagão.

Se tudo isso não bastasse, houve também a barriga de Veja Online, que, também nesta semana, anunciou a fusão entre Bradesco e Santander. Neste caso, não era wishful thinking. Apenas um erro de informação e os jornalistas responsáveis foram demitidos.

De todo modo, a semana foi exemplar ao escancarar os riscos que se corre quando a vontade política dos editores se sobrepõe à objetividade dos fatos.

PS: até agora, apenas a Folha admitiu o erro, ainda que em letras miúdas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

José Genoino em entrevista ao Sul21


“Minha expectativa é exercer o mandato”, reforça José Genoino



Rachel Duarte

Pouco antes de completar dois meses após sua condenação do Supremo Tribunal Federal (STF), o deputado federal José Genoino (PT-SP) assumiu mandato na Câmara Federal. Eleito em 2010, com mais de 92 mil votos e em meio ao começo de uma campanha pública pela sua condenação por envolvimento no escândalo conhecido como Mensalão, o parlamentar defende a constitucionalidade da posse. O STF já decidiu por 5 votos a 4 pela cassação automática dos mandatos dos condenados na Ação Penal 470 – embora tanto o então presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), quanto um dos principais candidatos a assumir o posto, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), tenham afirmado que vão recusar a decisão, afirmando que cabe ao Legislativo definir a questão em votação secreta.

“A minha expectativa é de exercer o mandato, porque eu tomei posse respeitando a Constituição Federal e as leis do meu país. Além de responder aos 92.326 eleitores que votaram em mim”, diz José Genoino em entrevista ao Sul21. Ele rebateu acrítica do ex-governador gaúcho e colega de fundação do PT, Olívio Dutra, sobre macular a imagem do partido com o exercício do mandato após a condenação. “Eu respeito a opinião do governador Olívio Dutra e tenho uma divergência sobre isso. A ética e a moral de um país são dadas pelas normas gerais, leis e procedimentos normativos. Eu tenho o dever de segui-las e obedecê-las. Portanto, éticas individuais, de uma família, de um partido ou igreja não podem gerar julgamentos de A, B ou C”, afirma.

José Genoino diz que mesmo não concordando com as decisões da corte e possivelmente de uma eventual cassação do mandato na Câmara, irá cumpri-las. Reforça sua inocência quanto aos crimes de formação de quadrilha e corrupção ativa, das quais poderá cumprir pena de seis anos e 11 meses em regime semiaberto. “Eu sempre fiz política por ideais e sonhos. Nunca acumulei patrimônio ou riqueza com a política. É isso que conta para mim. Minha luta por um estado democrático e soberano e pela minha honestidade nunca se apagarão”, afirma.

José Genoino participou da fundação do PT depois de ser anistiado em 1979. Ex-integrante do PC do B, participou da Guerrilha do Araguaia e capturado pelos militares em 1972, passou cinco anos na prisão. Pelo PT, foi deputado federal por São Paulo entre 1982 e 2002. Em 2002, candidatou-se a governador de São Paulo, mas perdeu a eleição para Geraldo Alckmin (PSDB) no segundo turno. No mesmo ano, foi eleito presidente nacional do PT, em substituição a José Dirceu. Renunciou à presidência do PT em julho de 2005, após denúncias relacionadas ao escândalo do mensalão. Em março de 2011, foi nomeado assessor especial do Ministério da Defesa, cargo do qual pediu demissão no último dia 10 de outubro, um dia depois de ser condenado pelo STF.

“Eu estou nesta espécie de tortura psicológica há sete anos. Desde 2005 sofro campanhas pré-condenação. Quem tem muitas cicatrizes está mais preparado para enfrentar certos golpes, certas pancadas”

Sul21 – A sua decisão de tomar posse como deputado federal tem causado polêmica e críticas, até mesmo de companheiros de PT. Como o senhor recebe esses questionamentos?

José Genoino – A minha expectativa é exercer o meu mandato, porque eu tomei posse respeitando a Constituição Federal e as leis do meu país. Além de responder aos 92.326 eleitores que votaram em mim. Ao cumprir esta determinação legal, que é válida a todos os brasileiros, pretendo desempenhá-la como sempre fiz, sendo um deputado presente, de projetos e ideias. Eu sempre fui atuante em plenário e nas comissões. É isso que eu vou fazer. Exercerei meu mandato plenamente a cada dia. Sobre expectativas de futuro (condenação), não me compete especular.

Sul21 – O senhor imagina futuro prejuízo à sua vida política depois desta condenação?

José Genoino – Eu estou nesta espécie de tortura psicológica há sete anos. Desde 2005 sofro campanhas pré-condenação. Quem tem muitas cicatrizes está mais preparado para enfrentar certos golpes, certas pancadas. Mas eu estou tranquilo, tenho a serenidade da minha inocência. Vou provar isso. Mais cedo ou mais tarde, a verdade prevalecerá. Nesse período todo, os acusados (no mensalão) foram tratados como nunca antes no nosso país – mesmo assim, não quero emitir juízo de valor sobre isso por ter um compromisso profundo com a democracia, eu lutei por ela. Eu fiquei cinco anos preso por lutar pela democracia. Ingressei na política com 21 anos de idade. Sempre fiz política. Política por ideais e sonhos. Nunca acumulei patrimônio ou riqueza com a política. É isso que conta para mim. Continuo com a consciência que a minha luta por um estado democrático e soberano e pela minha honestidade nunca se apagarão.

Sul21 – O deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) que disputa a presidência da Câmara, já disse que, se eleito, tem intenção de descumprir a decisão do STF sobre a cassação automática do mandato dos condenados na Ação Penal 470. O senhor fica mais tranquilo com esta posição?

José Genoino – Eu não vou opinar sobre isso. Não é de minha competência, é de competência da Câmara Federal. Eu respeito os poderes constituídos. Reafirmo que, mesmo concordando ou discordando de decisões, eu as cumprirei.

Sul21 – Os críticos ao julgamento do mensalão afirmam que a condenação foi exagerada, que houve ausência de provas, que o STF atuou de forma política ou mesmo criticam uma suposta condenação antecipada por parte da imprensa. O senhor partilha de alguma dessas opiniões? 

José Genoino – Não emitirei opinião sobre o julgamento ou o processo, até porque ele não terminou. Quem responde pelo processo é o meu advogado. Lamentavelmente eu não sou advogado porque o AI-5 me cassou da faculdade de Direito. Eu não tenho elementos para fazer este tipo de avaliação. Eu penso que o Brasil está vivendo um bom momento de consolidação da democracia, bom momento econômico, com distribuição de renda e programas sociais exitosos, além de ter prestígio no exterior. A minha vida sempre foi dedicada às causas. Eu sempre fiz escolhas políticas. Estas escolhas foram desde governar com Lula e com a companheira Dilma, como pela democracia com a luta pelas Diretas e a Constituinte. Fiz política no movimento estudantil de 68, depois na luta de resistência armada. Isto faz parte da minha vida e da consciência que tenho de mim mesmo.

“Eu não estou assumindo cargo comissionado, não estou sendo nomeado, é um mandato eletivo. Aliás, eu exerci um cargo em comissão no governo federal e no dia seguinte à minha condenação eu abri mão dele”

Sul21 – O senhor afirma que não cometeu crime enquanto foi presidente do PT. Sua participação no escândalo está relacionada aos empréstimos que avalizou, mas que já teriam sido liquidados pelo partido.

José Genoino – Estão nos autos do processo os empréstimos que eu assinei. Um com o Banco Rural, no valor de R$ 3 milhões, e outro ao BMG, de R$ 2,5 milhões. Foram registrados na contabilidade oficial do partido e registrados junto ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e foram pagos judicialmente ao longo de quatro anos. Começaram a ser pagos em 2007 e terminaram em 2011. Negociação esta que não era mais na minha gestão e (que ocorreu) com aval da Justiça. Prestei contas das ordens de pagamento nos autos do processo. O que eu fazia como presidente do PT naquela época eram articulações políticas no momento difícil de início do governo Lula. Não podemos confundir escolhas políticas com crime. Eu tenho minha consciência tranquila de que eu não cometi crime enquanto presidente do PT. Respeito as pessoas que pensam diferente. Respeito as decisões da Suprema Corte brasileira, mesmo discordando. Independente de discordar, vou cumpri-las. O importante para mim é a consciência que eu tenho de mim mesmo. É uma história de vida de luta.

Sul21 – O ex-governador gaúcho e seu correligionário Olívio Dutra disse diretamente ao senhor na Rádio Guaíba nesta segunda-feira (07), que o senhor deveria renunciar ao mandato parlamentar em nome da imagem pública do partido que, segundo ele, está profundamente atingida com a atuação dos quadros condenados na Ação Penal 470. Qual a sua posição? 

José Genoino – Eu respeito a trajetória do companheiro Olívio Dutra, mas discordo democraticamente. Em primeiro lugar porque a ética e a moral de um país são dadas pelas normas gerais, leis e procedimentos normativos. Eu tenho o dever de segui-las e obedecê-las. Portanto, éticas individuais, de uma família, de um partido ou igreja não podem gerar julgamentos de A, B ou C. Aliás, a história da humanidade está rica de tragédias quando se coloca a ética e a moral acima da lei de condutas e direitos. Eu respeito a opinião do governador Olívio Dutra e tenho uma divergência sobre isso. Eu assumo mandato porque está dentro da lei e estou respeitando os eleitores que votaram em mim. Os mais de 92 mil votos que recebi foram em 2010, em plena campanha pública pela minha condenação. Eu tenho recebido inúmeras solicitações de pessoas que votaram em mim me incentivando a assumir. Eu não estou assumindo cargo comissionado, não estou sendo nomeado, é um mandato eletivo. Aliás, eu exerci um cargo em comissão no governo federal e no dia seguinte à minha condenação eu abri mão dele utilizando, ao fazer a carta de exoneração, a famosa frase de Mário Quintana: “Eles passarão, eu passarinho”. Portanto, eu respeito a opinião do Olívio, mas tenho uma visão diferente.

Sul21 – Alguns líderes petistas defendem a renovação do partido, outros falam em refundação. Qual o tamanho do impacto do mensalão na vida do partido?

José Genoino – O PT tem que olhar o seu futuro. Nós temos dez anos de governo vitorioso. Temos novos desafios pela frente. Teremos que olhar o país no pára-brisa e não no retrovisor. Eu estou no PT desde a fundação, participei de toda luta que levou o PT ao governo e nós melhoramos a vida das pessoas. Portanto, creio que o debate interno tem que ser com olhos no futuro e não no passado.

“A luta faz parte da minha vida e quem luta corre risco. Entre abaixar a cabeça e correr riscos, eu prefiro o risco da luta. Estou de cabeça erguida e seguirei vivendo a política com sangue na veia”

Sul21 – O PT mudou? Em que sentido?

José Genoino – Ao longo da história do PT o partido mudou, mas não mudou de lado. O PT amadureceu e governa com outras forças, fazendo alianças. Para governar tem que fazer alianças. Isto é uma exigência de uma sociedade democrática que se governa com maioria, tanto ao nível social como político. Este é o amadurecimento que o PT viveu. Mas não mudamos de lado. É visível o nosso compromisso com a distribuição de renda, com a melhoria salarial, com a geração de emprego, com a soberania nacional com política externa independente, com a recuperação do papel do Estado como indutor do desenvolvimento econômico. Eu entendo que o país está melhor e o PT, e tantos outros partidos que participaram desta caminhada, tiveram papel fundamental.

Sul21 – O senhor assumiu o mandato no mesmo dia em que o delegado alagoano Francisco Tenório assumiu vaga no parlamento após cumprir pena por crime de encomenda de assassinatos. Com base neste exemplo, o senhor se julga injustiçado? Acredita que está havendo supervalorização do seu caso?

José Genoino – Eu não gosto de opinar sobre a atuação da mídia. Os fatos falam por si só. Eu quero apenas dizer que, na minha relação com a mídia, eu conheci a poesia e o sangue. É isto que me fica claro. Tenho uma relação respeitosa com o princípio conquistado democraticamente da liberdade de expressão. Princípio este que deve ser pluralista, independente, com base em fatos e no direito de resposta e ao contraditório. Este processo que o Brasil está vivendo trará as próprias lições. Eu prefiro não fazer julgamento de órgãos de imprensa em particular, sobre determinadas condutas. Deixarei que os fatos falem por si.

Sul21 – Como estão a sua vida pessoal e o seu estado emocional com todo este processo de julgamento – e agora, com o senhor assumindo mandato parlamentar após o Supremo Tribunal Federal o ter condenado? 

José Genoino – A minha vida foi sempre de luta e de emoções e enfrentamentos. Isto faz parte da minha existência. Eu fiquei cinco anos preso e incomunicável. Fui anistiado e fui para luta política. A fundação do PT foi um processo difícil. Ser parlamentar por 24 anos foi também algo muito difícil. A luta faz parte da minha vida e quem luta corre risco. Entre abaixar a cabeça e correr riscos, eu prefiro o risco da luta. Estou de cabeça erguida e seguirei vivendo a política com sangue na veia. Nunca separei a minha vida da política. Faço política a qualquer hora, em qualquer lugar e de qualquer maneira. Foi assim que eu aprendi. Eu sou da geração de 68, que pode ser derrotada, mas não abaixa a cabeça e segue lutando. Eu aprendi isso com companheiros que são os verdadeiros heróis da democracia. Alguns nem estão mais aqui. É isso que me dá tranquilidade para viver minhas emoções, meus desafios, minha vida familiar e com meus amigos.

Cristianismo de esquerda: Teologia da Libertação comemora 50 anos de existência. Michael Lowy analisa o significado e a influência da ideologia religiosa nos movimentos sociais brasileiros





A contribuição da Teologia da Libertação

do Brasil de Fato

Sociólogo Michael Löwy realiza análise sobre os 50 anos do movimento cristão progressista no país

08/01/2013
por Gustavo Xavier, de São Paulo (SP)

Michael Löwy é um sociólogo marxista brasileiro, radicado na França, onde é diretor de pesquisas emérito em ciências sociais do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS). Ele é um dos pesquisadores que vem buscando compreender o movimento da Teologia da Libertação. Sentindo-se impactado pelo que vinha acontecendo com a Igreja brasileira no final dos anos 1970 e, sobretudo, pela participação massiva de cristãos na Revolução Sandinista de 1979, ele começou a escrever sobre marxismo e Teologia da Libertação a partir dos anos 80. Com o material reunido ao longo dos anos, tal como entrevistas e documentos, Löwy escreve o livro Guerra dos deuses – religião e política na América Latina, com a primeira edição em inglês, no ano de 1996, e publicado no Brasil em 2000 pela Editora Vozes. Este livro analisa o campo de forças político-religioso na América Latina desde o final dos anos 50 e foi o ganhador do prêmio Sérgio Buarque de Holanda, na categoria ensaio social. Seguindo a coerência de sua adesão ético-política, Löwy doou o dinheiro do prêmio ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Nesta entrevista ao Brasil de Fato, concedida pela ocasião dos 50 anos da Ação Católica Operária/ Movimento dos Trabalhadores Cristãos (ACO/MTC) no Brasil, ele reflete sobre a trajetória deste movimento como parte do cristianismo da libertação.


Brasil de Fato – Há pontos de contato entre o horizonte de movimentos como a ACO e o projeto socialista? Quais?


Michael Löwy – Movimentos como a Juventude Universitária Católica (JUC), a Juventude Operária Católica (JOC), a ACO, promoveram, em particular nos anos de 1960 e 1970, uma crítica radical do capitalismo, inspirando-se não só em fontes cristãs – desde encíclicas papais até escritos da esquerda católica francesa, como Emmanuel Mounier etc. – mas também em textos de Marx e dos marxistas latino-americanos (teoria da dependência). Entre seu horizonte sociorreligioso, o reino de deus, e o reino da liberdade socialista, existe uma espécie de afinidade eletiva.


Na sua avaliação, quais são as principais contribuições sociais, políticas, ideológicas de movimentos do cristianismo da libertação, entre os quais a ACO? E quais as principais limitações?


O cristianismo da libertação é um vasto movimento social que aparece no Brasil desde o começo dos anos 1960 – bem antes da aparição dos primeiros livros da teologia da libertação. Este movimento inclui setores significativos do clero – padres, freiras, ordens religiosas, bispos – dos movimentos religiosos leigos, como a Ação Católica, a JUC, a JOC, a ACO, das comissões pastorais, como Justiça e Paz, Pastoral da Terra, Pastoral Operária, e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Trata-se de uma ampla e complexa rede que ultrapassa os limites da Igreja como instituição, e que reúne, a partir dos anos 1970, milhões de cristãos que partilham a opção prioritária pelos pobres. Sem a existência deste movimento social, sem o cristianismo da libertação – o que inclui ao mesmo tempo uma prática social emancipadora, novas formas de prática religiosa e uma reflexão espiritual (mais tarde teológica) que corresponde a esta experiência – é impossível entender o conflito entre a Igreja e o regime militar no curso dos anos de 1970, assim como, a partir de 1978, o espetacular surgimento de um novo movimento das classes subalternas, dos trabalhadores da cidade e do campo: o Partido dos Trabalhadores, a Central Única dos Trabalhadores e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Com efeito, uma grande parte dos militantes e quadros dirigentes dessas novas organizações vêm das CEBs e pastorais populares, e é no cristianismo da libertação que se encontra a motivação primeira de seu compromisso social e de sua mística política.


Uma das principais contribuições ideológicas do cristianismo da libertação – objeto de críticas incessantes de parte do Vaticano e das correntes conservadoras da Igreja no Brasil – é a integração, em maior ou menor grau, segundo os casos, de elementos fundamentais do marxismo. Obviamente, existe uma grande diversidade neste terreno, indo desde a desconfiança ou a hostilidade de alguns até a explícita autodefinição de grupos ou indivíduos como “cristãos marxistas” – passando por várias formas de prudente e implícita utilização de alguns aspectos. A grande maioria dos militantes de base do cristianismo da libertação provavelmente nunca ouviu falar em Marx, mas isto não impede que em sua cultura político-religiosa se encontrem, mais ou menos diluídos, temas e conceitos do marxismo. Obviamente se trata de uma integração seletiva: são rejeitados elementos como o ateísmo materialista, e assimilados outros como a crítica do capitalismo – em particular em sua forma dependente, no Brasil e na América Latina – e do poder das classes dominantes, a inevitabilidade do conflito social e a perspectiva da auto-emancipação dos explorados.


A descoberta do marxismo pela esquerda cristã não foi um processo puramente intelectual ou universitário. Seu ponto de partida foi um fato social evidente, uma realidade massiva e brutal no Brasil: a pobreza. O marxismo foi escolhido porque parecia oferecer a explicação mais sistemática, coerente e global das causas desta pobreza e, ao mesmo tempo, uma proposta radical para sua supressão. Para lutar de forma eficaz contra a pobreza, e superar os limites da visão caritativa tradicional da Igreja, era necessário compreender suas causas. Como o resumiu com ironia e humor Dom Helder Câmara: “Enquanto eu pedia às pessoas que ajudassem aos pobres, diziam que eu era um santo. Mas quando fiz a pergunta: ‘porque existe tanta pobreza?’, me chamaram de comunista”.


A principal limitação de alguns – não todos – setores do cristianismo da libertação, sobretudo na hierarquia da Igreja, tem a ver com a dificuldade de aceitar o direito das mulheres a disporem de seu corpo: divórcio, contracepção, aborto.



Em seu ponto de vista, militantes de base marxista podem enriquecer sua militância ao tomar contato com a trajetória destes movimentos cristãos? Como avalia este contato entre militantes marxistas e militantes cristãos?


Em primeiro lugar, é preciso enfatizar que vários destes “militantes cristãos” também são marxistas. A pergunta então seria: o que podem os marxistas ateus ou sem fé religiosa aprender com os militantes do cristianismo da libertação? Acho que em primeiro lugar, uma visão mais dialética da religião, que não pode sempre ser reduzida a um simples “ópio do povo” – coisa que Friederich Engels, Antonio Gramsci, José Carlos Mariátegui e vários outros marxistas haviam entendido muito bem. Também há muito que aprender com o trabalho de base, paciente e obstinado, destes militantes nos bairros populares, buscando a auto-organização e a conscientização dos oprimidos. Finalmente, é enriquecedor o contato com a fé, a dedicação, a entrega, a mística destes militantes cristãos das lutas sociais.


Para o senhor, quais as iniciativas de maior peso da ACO em sua história?


Entre outras, a resistência à ditadura militar e a contribuição à formação da Pastoral Operária, que teve papel decisivo na formação do novo movimento operário brasileiro. Desde 1978, os militantes da ACO estão presentes em sindicatos – como membros ativos e dirigentes sindicais –, em associações de trabalhadores, fundos de greve, sociedades de amigos de bairros, partidos políticos de esquerda.


E qual sua avaliação do papel dos movimentos do cristianismo da libertação, especialmente a ACO, durante a ditadura militar?


Os movimentos ligados ao cristianismo da libertação, entre eles a ACO, tiveram um papel importante na transformação da Igreja brasileira, levando-a, a partir de 1970, a romper com o regime militar – o qual havia apoiado em 1964 – tornando-se sua principal força de oposição.


Muitos militantes cristãos, inclusive padres e religiosos, participaram diretamente de atividades de resistência contra a ditadura, chegando, em alguns casos, a apoiar a resistência armada. Os militantes da ACO trataram de desenvolver correntes sindicais opostas ao regime e dispostas a lutar contra a tirania patronal nas fábricas.


Qual o balanço dos avanços e retrocessos relacionados aos movimentos do cristianismo da libertação até os dias atuais?


Como observamos, os avanços são consideráveis, e levaram à formação do novo movimento operário, camponês e popular no Brasil a partir do fim dos anos de 1970. Mas a partir de 2002, com a institucionalização governamental do Partido dos Trabalhadores e da direção da CUT, uma parte desta militância oriunda do cristianismo da libertação perdeu sua mística, seu horizonte utópico, e acabou enveredando pelos caminhos do pragmatismo político tradicional. Felizmente muitos setores da militância cristã, em particular nas fileiras do MST, mas também outros movimentos sociais ou políticos, preservaram a chama sagrada da luta pela libertação dos explorados e dos oprimidos.