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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Carta Aberta aos Imbecis





Democracia é mesmo muito bacana. Mas tem os seus percalços. Um dos maiores é a gente ter que tolerar o sagrado direito de manifestação dos imbecis, um direito pelos quais muitos deles não brigaram mas do qual desfrutam com louvor. Pior é que esses imbecis tentam desqualificar os que não são com epítetos de "comunistas", "esquerdistas", "socialistas" e "petistas". Tentam colocar ideologia na discussão para se esconder atrás dos pilares da ignorância que representam. 

Ora, pois. Imbecis temos de todos os matizes mas hoje no Brasil os mais daninhos (e muitos deles nem sempre são tão inócuos pois atingem corações e mentes ignorantes como as deles) são aqueles que vituperam inverdades , sem nenhum conhecimento histórico ou sociológico . A maioria deles , aliás, pouco conhece de São Paulo além das ruas dos Jardins. Do Brasil então nem se fala.

Não vou nominar nenhum desses imbecis pois todos sabemos os seus nomes sempre associados a intolerância. São raivosos, agressivos, racistas, ignorantes, desinformados, maldosos, desumanos, preconceituosos e manipuladores. Imbecis que apostam na imbecilidade alheia , deformada por anos e anos de péssima educação escolar, analfabetismo crônico e manipulação midiática.Muita gente, mas muita gente mesmo, acha que ler a revista "Veja" e ver o "Jornal Nacional" é estar por dentro dos fatos. Esses milhares de imbecilizados não se envergonham de pôr seus preconceitos para fora e o fazem na forma dos mais toscos e nojentos comentários em grandes portais de notícias inverídicas . Não sou a favor que se censurem esses comentários que dão a exata medida de nossas trevas. Gente assim provavelmente queimaria Joana D'Arc e aplaudiria os discursos nacionalistas de Hitler e Mussolini. Não é de se espantar que preguem inclusive que as "raças impuras" das periferias não deveriam frequentar recantos onde eles põe os pés, inclusive os aeroportos.

O que me repugna nos imbecis não é serem imbecis. É terem a pretensão da superioridade ética , estética, imagética. É moldar a realidade conforme a conveniência deles e , nesse caso, rotular de "petistas", "petralhas" e congêneres a todos os que discordam deles. É justamente jogar uma cortina de fumaça na imbecilidade que representam. Como se todos nós que discordamos deles fossemos entusiastas do mensalão, do petrolão ou de qualquer outro escândalo politico empreendido por desonestos e canalhas. Aliás desonestos e canalhas que pululam em todos os partidos. Daí a generalizada descrença dos conscientes com partidos políticos em geral.

Buscar o conjunto de mazelas que levaram o PT de 35 anos recém completados ao impasse que vive hoje – o resgate da surrada credibilidade entre tantos escândalos – é desnecessário visto que seus detratores na grande mídia fazem isso dia e noite sem parar como uma borracharia 24 horas espancando pneus e os esvaziando de ar. Mas, para aqui evocar uma velha canção de Gil, o PT já é um copo vazio , cheio de ar. O PT, o PSDB, o PMDB e outras agremiações menores e vorazes em benefícios e cargos públicos. Está tudo dominado . Só que o jogo está sendo jogado e a cruzada dos imbecis quer embolar tudo ainda mais quando aposta no "impeachment", o mais rápido caminho para o caos, ainda mais quando se pensa que o presidente que ocuparia o lugar de Dilma é o nefasto Temer. Tudo a temer seus imbecis.

Um dos sinais dos péssimos caminhos da mídia é justamente o grande número de leitores que tem os imbecis . O grande número de ouvintes que tem os biltres e ignorantes golpistas. Dar guarida irresponsável a esses irresponsáveis que só apostam no "quanto pior melhor" é uma tragédia consumada. No meu tempo de jovem repórter você tinha que "pastar" muito tempo pra emitir opinião. E quando a fizesse tinha que vir acompanhada de um excelente texto. Hoje qualquer "fraldão" faz porcaria que é publicada. Antes fossem apenas "coxinhas". São coisa muito pior e devido ao horário me eximo de escrever aqui os adjetivos específicos.

Tem hora que a gente cansa. Eu cansei de ficar só vendo, ouvindo e lendo tanta imbecilidade irresponsável. Não tenho a menor pretensão de com esse protesto ser ouvido. Mas agora na minha trincheirinha de boca solta eu vou bradar contra a ignorância. Ignorância é o golpismo que vocês pregam. Ignorância é querer tirar o país dos trilhos. Ora, se quem conduz a nação não é apto vamos ajudar. Muita ajuda quem não atrapalha. Sabemos que a nossa presidente fala da boca pra fora quando diz que a Educação será prioridade. Vamos fazer com que ela leve a "prioridade" a sério e obrigue a todos os imbecis, jovens e velhos, adolescentes e de meia idade a voltarem para as aulas de história. Talvez só assim eles percebam que pregar golpe é um golpe contra o futuro . Já vimos no que isso deu no nosso passado. Perdão , esqueci que os imbecis não conhecem o retrovisor e nem dão seta. Querem ultrapassar pelo acostamento e , lógico, pela direita.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

A falência da Fundação Casa

Em artigo, promotores de Justiça criticam fracasso de gestão do governo de São Paulo no atendimento a menores infratores

É passada a hora de reavaliar as políticas públicas relacionadas aos jovens e adolescentes em conflito com a lei

Inquestionavelmente, as políticas públicas relacionadas aos adolescentes infratores não apresentaram, ao menos no Estado de São Paulo, resultados minimamente satisfatórios. Exemplo típico que confirma esta constatação é a Fundação Casa, responsável pela execução das medidas de internação e semiliberdade. Contanto invista a expressiva quantia aproximada de dez mil reais por mês por cada adolescente, o serviço prestado está maculado por elevados índices de reincidência, superlotação de unidades, frequentes rebeliões, notícias regulares de torturas, e insalubridade das condições de moradia, dentre outras inúmeras deficiências do processo socioeducativo executado pela fundação estatal.

Este é o resultado das recentes apurações do Ministério Público do Estado de São Paulo. Promotores de Justiça de todas as regiões do estado detectaram diversas irregularidades no processo socioeducativo gerido pela Fundação Casa, a que são submetidos mais de dez mil adolescentes. E as graves falhas identificadas induzem a duas conclusões: a entidade não cumpre sua função adequadamente e, consequentemente, o produto do significativo valor despendido pelos cofres públicos é um serviço socioeducativo incompetente.

As provas incontestáveis destes entendimentos são o elevado índice de reincidência (54%, conforme CNJ) e a crescente escalada infracional, suportada e identificada pela sociedade, e que explica, dentre outros fatores, o apoio de mais de 90% da população à redução da maioridade penal. A própria entidade admite que de 2005 a 2013 ocorreu aumento aproximado de 111% nas internações.

As mesmas investigações também apontam para algumas das causas da imprestabilidade do serviço que o Estado está obrigado a fornecer. A principal delas, indubitavelmente, é asuperlotação das unidades, cujo excesso assola, aproximadamente, 91,37% do sistema de internação – o que representa déficit mínimo de 1.470 vagas. Há unidade onde foi identificado o espetacular índice de 158,33% de superlotação - quase três adolescentes/jovens por vaga.

A mantença de um número de adolescentes superior àquele comportado tem três graves consequências diretas: configura flagrante desrespeito aos direitos humanos; prejudica o processo de ressocialização; e permite que outros menores, cuja internação foi decretada pela justiça, sejam colocados imediatamente em liberdade (meio aberto) ante a inexistência de vagas de internação. Sim! É essa a regra do artigo 40, inciso II da Lei 12.594/12. E são inúmeros os casos já constatados.

Outro dos prováveis motivos da improficuidade dos trabalhos da Fundação Casa é o abreviadíssimo período de internação dos infratores. Contando o prazo máximo seja de 3 anos, o Estado de São Paulo – e cuja fundação cabe apresentar relatório sobre o cumprimento da medida socioeducativa –, em média, em apenas sete meses oferece parecer técnico recomendando a desinternação dos adolescentes. O próprio órgão confessa que o período de internação, a depender da sua avaliação, dificilmente supera 232 dias.

Considerando que 90,2% dos internados definitivamente lá estão em razão da prática de atos infracionais graves (roubo, roubo qualificado, latrocínio, homicídio doloso qualificado, e tráfico de drogas), e tendo em vista a elevada reincidência, forçoso concluir que o período de internação atualmente empregado – contanto deva atingir seu fim reeducador com brevidade – é insuficiente para atender sua finalidade. O prematuro parecer de soltura elaborado pela Fundação Casa, e que deveria pautar-se exclusivamente pela aptidão do adolescente de retornar ao convívio social, pode estar sendo influenciado pela superlotação do sistema, e a necessidade ininterrupta de abertura de vagas que dá causa.

É passada a ora de reavaliar as políticas públicas relacionadas aos jovens e adolescentes em conflito com a lei, e a consequente gestão da Fundação Casa, braço do Estado de São Paulo responsável pelos autores dos mais graves atos infracionais. Dentre as medidas a serem adotadas será preciso solucionar, vez por todas, o problema da superlotação, e garantir um processo socioeducativo satisfatório pelo tempo necessário à reeducação dos adolescentes, que apresente à sociedade resultados eficientes e proporcionais ao expressivo investimento feito pelos cofres públicos. É o que o Ministério Público tem buscado, cotidianamente, nas diversas investigações e ações judiciais.

Por: Adriana de Morais, Daniela Hashimoto, Fabio José Bueno, Fabíola Moran Falopa, Marcos de Matos, Oswaldo Barberis, Oswaldo Monteiro, Paula Pruks, Pedro Eduardo de Camargo Elias, Santiago Miguel Nakano Perez, Tiago de Toledo Rodrigues –Promotores de Justiça

domingo, 1 de fevereiro de 2015

“Quem são os reaças? Onde vivem? De que se alimentam?”

Os sete tipos de reacionários (e como debater com eles)




Se você já perdeu tempo tentando discutir política com reacionários, deve ter percebido que existem tipos diferentes desses indivíduos, cada um com um estilo particular de “argumentação”. Nesse artigo bem humorado tentaremos desvendar os sete tipos de reacionário, o que há de errado com eles e como devemos agir.

“Quem são os reaças? Onde vivem? De que se alimentam?” (Sérgio Chapelin, sobre reacionários)

Começaremos pelos mais inteligentes e depois seguiremos em direção aos de comunicação mais difícil.

Reacionários Educados
Esses são os mais raros. Eventualmente você esbarra em um em público ou num fórum on-line. Podem ser os mais difíceis de lidar. Eles aprenderam tudo o que há pra se aprender sobre suas posições (de uma perspectiva reacionária). Educaram-se sobre todas as razões que justificam seus posicionamentos como corretos, mas não estão interessados em nada que contradiga suas crenças.

O problema: Qualquer um com internet e cinco minutos livres consegue encontrar algo que descredite completamente sua versão dos “fatos”. Mesmo quando rebatidos, continuam a voltar aos argumentos iniciais, tentam mudar o assunto para algo onde se sintam mais confortáveis ou começam a expressar opiniões sem mérito factual.

Debatendo: Mantenha-os no assunto. Não deixe que ignorem seus contrapontos e mudem o assunto para você. São mestres nisso, mas se você conseguir mantê-los no assunto, começarão a expressar opiniões para as quais você poderá dizer “você tem fatos ou estatísticas que sustentem essa opinião?”.

Reacionários “Globais”
Estes estão entre os mais raivosos. Assistem aos jornais da Globo ou outras mídias de massa burguesas, leem a Veja e acreditam que isso os faz especialistas em política (do mesmo modo que acreditam que assistir ao jogo os faz técnicos e assistir à missa os faz santos). O único conhecimento político que apresentam é uma papagaiada sem base. Quando você os contrapõe, te chamam de “esquerdopata”, “comuna”, “socialista”, etc. Eles acham que todo revolucionário é um socialista que quer tirar seu dinheiro e entregar para pessoas que não merecem.

O problema: Eles não têm ideia do que estão falando. Geralmente estão repetindo coisas ditas pelo Arnaldo Jabor ou, com mais azar, pelo Olavo de Carvalho. Eles acreditam que movimentos anticapitalistas querem roubar sua liberdade (toda a liberdade que o dinheiro possa comprar), mas não compreendem o conceito de capitalismo, nem reconhecem como esses movimentos foram cruciais para que ele tivesse os direitos que têm hoje. Eles acham que o PT é comunista, e se você discorda dizem que você é um leitor da Carta Capital. Dizem que você é uma ovelha, mas esperam que você aceite cegamente tudo o que dizem, sem questionar.

Debatendo: Mantenha-se pedindo fatos e comprovações para as afirmações que fazem até que se desesperem e te chamem dos nomes já citados. Peça-os para enumerar quais os direitos que os movimentos anti-capitalistas já o roubaram (talvez eles digam que perderam o “direito de proibir a união homossexual” ou coisa do tipo, mantenha-se cobrando fatos). Eles tendem a ser violentos, então se estiver cara-a-cara, fique de olho em suas mãos.

Reacionários Cristãos
Estes reacionários são hipócritas. Eles fazem tudo em nome de Jesus, enquanto simultaneamente agem da maneira mais anticristã humanamente possível. Defendem armamento da população, são pró-militares, contrários à igualdade de direitos entre os sexos e à emancipação feminina e, principalmente, ignoram todos os trechos da bíblia que demonstram que Jesus era um personagem revolucionário (e libertário). As partes que mais esquecem são as de “amar o próximo como a si”, “não julgar” e a em que joga filhos contra pais e pais contra filhos. Porque o patriarcado não pode ser agredido, não é mesmo? Eles também acreditam que países em guerra estão assim por falta de Deus no coração, mesmo que quase a totalidade desses países seja de religião abraâmica e siga essencialmente o mesmo deus (com mais rigor!)… E eles odeiam os gays, claro.

O Problema: Eles fazem coisas horríveis em nome do Senhor. Eles acham que aqueles que discordam estão condenados ao inferno, porque são pessoas más. Eles acreditam que somos uma nação cristã, mesmo com uma influência inegável de cultos indígenas e afro-brasileiros em nossa cultura. E eles dizem defender a liberdade religiosa, mas condenam tudo o que não é cristão como “demoníaco”. Ah, eles também negam a evolução…

Debatendo: Insista na mensagem de “amor” cristão. Jesus os orientou a amar incondicionalmente e não julgar. Pergunte como eles acreditam que Cristo agiria no mundo de hoje frente à desigualdade social, e o que ele pensaria do dízimo que se paga às igrejas caça-níqueis. De qualquer forma, eles responderão com citações aleatórias e mostrarão que esse debate em específico é uma perda de tempo.

Reacionários “Contra a Corrupção”
Aqui estão os coleguinhas que vão aos protestos de branco, com a cara pintada de verde e amarelo, cantando o Hino Nacional ou a clássica do Geraldo Vandré. Eles querem um movimento bonito, higiênico, pacífico e, principalmente, passivo. Querem ir às ruas pra protestar por seus direitos, mas não conhecem seus direitos e menos ainda seus deveres. Acham que a polícia tem que sentar a borracha nos “vândalos” do Black Bloc, que eles nem sabem o que é. Dizem que a culpa do tráfico é do usuário, gostam de filmes como Tropa de Elite (alguns até citam Capitão Nascimento). O mais importante: defendem o fim da corrupção. Que corrupção? Não sabem. Mas quando dá preguiça de “vem pra rua”, eles ficam de “luto”.

O Problema: Esses indivíduos defendem pautas vazias. Aliás, eles querem enfiar essas pautas em qualquer lugar onde estejam, dizendo que as pessoas precisam ter foco (nas pautas vazias). São a pior praga dentro da Anonymous. Reproduzem-se como coelhos. Vão tentar levar qualquer debate para o eixo PT/PSDB, vão criminalizar movimentos sociais populares, mas vão defender reforma tributária (ignorando a transferência do poder do estado para o setor privado) e a reforma política (mesmo sem especificar o que é isso, significando, na prática, nada).

Debatendo: Peça que ele defina os conceitos que apresenta. Pergunte a que corrupção se refere, que reforma pretende. A melhor arma contra estes é a história. Tudo aquilo que eles almejam, na prática, até hoje foi conquistado com as práticas que eles condenam. Quando ironizarem o assistencialismo, traga estudos acadêmicos sobre seus resultados e deixe claro que esse é um pilar do capitalismo, para que ele mesmo não desabe em crise. Quando ele disser que o usuário financia o tráfico, pergunte se ele concorda que quem usa gasolina não é igualmente culpado pela guerra por petróleo no Oriente Médio.

Reacionários Xenófobos
Nessa categoria, incluem-se os que pensam que São Paulo é a locomotiva do Brasil, que defendem que o Sul se separe para formar um país de melhor IDH, que chamam tudo o que vive nas regiões Norte e Nordeste de “baiano” e os culpam pela crise urbana no Sudeste e, claro, as patricinhas e os mauricinhos que vão a aeroportos vaiar médicos cubanos. Esse tipo é complicado, porque é do tipo que tem medo de perder o pouquinho que tem pra “esses pobres”.

O Problema: Eles vão defender a superioridade de suas categorias. São meritocratas quando lhes convém, acham que um diploma te faz uma pessoa mais íntegra, mas colam em provas e compram carteiras de motorista. Eles acreditam que o êxodo rural encheu a cidade de gente “vagabunda”, mas dependem do serviço desses “vagabundos” até pra fazer um almoço. Quando você os contrariar, vão tentar te associar ao crime organizado ou ao terrorismo. E também vão dizer que “se usa chinelo não é índio”.

Debatendo: Desse grau pra baixo vai ficar difícil debater, já avisamos. Felizmente, as estatísticas atuam contra esses reacionários, assim como a política internacional, mas essas são esferas que eles não compreendem. E como eles também nunca “sentiram na pele” os problemas sociais, você vai ter que usar metáforas. Só não faça ironias com “Playstation” e “iPhone”, porque isso os deixa fora de controle.

Reacionários Racistas e Sexistas
Esses vêm quase por último por uma razão. Sabemos que racismo e sexismo não são exclusividade de reacionários. Sofremos muito com isso mesmo dentro dos grupos que se afirmam revolucionários. Mas essa junção funesta gera um dos piores tipos: o fascistóide. Eles não odeiam a Dilma pelas contradições de seu governo, mas essencialmente porque ela é mulher. Eles acreditam que liberdade de expressão é poder praticar ódio e discriminação sem sofrer consequências. Eles acreditam numa diferença “natural” fantasiosa entre homens e mulheres, entre brancos e negros, e entre heterossexuais e homossexuais que está muito distante da realidade científica. E por conta disso eles são máquinas de agressão e opressão, ainda que alguns de modo inconsciente.

O Problema: Eles são preconceituosos e discriminadores, mas quando você apontar isso, alegarão perseguição. Eles vão dizer que o dia da consciência negra e as cotas nas universidades é que são racistas, porque desprezam a história e a cultura do país, se pautando num silogismo pobre. Eles não sabem diferenciar a violência do opressor e a resistência do oprimido. Acima de tudo, eles não conseguem compreender porque as pessoas os chamam de machistas, racistas ou homofóbicos quando eles abriram um discurso com “eu tenho vários amigos gays, mas…” ou “eu respeito muito minha mulher e minhas filhas, mas…”. Pra finalizar, eles não entendem que democracia é o governo do povo. Todo o povo, e não só a maioria do povo.

Debatendo: Não se debate com fascistóides. Se os expurga. Você teria mais trabalho tentando convencer algum desses xucros sem educação do que são direitos humanos do que se tentasse convencer uma macieira a dar laranjas.

Reacionários Mal Educados
Esses reacionários são reacionários porque eles acham descolado. Eles têm amigos economistas, ou assistiram a uma meia dúzia de vídeos do Olavinho ou do Dâniel Fraga, então eles pensam que sabem do que estão falando. Eles têm uma gramática horrível, ignoram pontuações e têm uma tendência a escrever tudo em caixa alta (caps lock) e com vários pontos de exclamação, ASSIM!!! ACORDA BRASIL!!! ESSE É O PAÍS QUE VAI SEDIAR A COPA!!!???!!!. Irritante, não? Eles também esperam que você acredite em tudo o que eles dizem, só porque estão dizendo. E também citam vídeos de opinião quando você pede fontes que comprovem o que eles dizem.

O Problema: É difícil categorizar problemas num debate de ogros que não sabem se comunicar. Eles mal compreendem qual é seu posicionamento político, só repetem o que ouviram de um amigo ou viram num vídeo. Eventualmente, publicarão essas correntes mentirosas, com casos de um “famoso professor” que nunca existiu, ou do “grande economista” que nunca disse aquilo. Eles são 100% cegos aos fatos e só dão atenção ao que reforça suas crenças irracionais.

Debatendo: Não há lógica ou fatos que os vá convencer de nada. Você pode ser doutor na área, eles vão inventar uma desculpa do tipo “seu professor de história mentiu pra você” ou “esquerda e direita é coisa do passado”. No lugar de discutir com eles, tente explicar álgebra ao seu animal de estimação. Há mais chances de sucesso.

Esperamos que esse informativo lhes seja útil, ou ao menos que tenha servido como um desabafo coletivo. Lembrem-se disso antes de entrar em debates incansáveis nas redes sociais, pois nem sempre vale a pena. E saiba que esses grupos de reacionários reproduzem entre si e evoluem, como pokémons, então você poderá encontrar híbridos ou formas muito extremas de qualquer um deles.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Mobilizar e unir

Gente, ontem na assembleia para definir as diretrizes da greve, os caciques do sindicato junto com os associados, ficou acordado para acontecer a partir de março. Cabe lembrar que existia uma grande vontade de iniciar essa greve já. Mas será que teríamos um número bom de docentes para tal desejo? Refleti sobre as propostas apresentas pelo sindicado, e percebi que é a mais coerente. Não adianta no calor da manifestação buscar a radicalização, pois para vencer essa luta necessitamos de diálogo e unificação. É sabido que uma grande parte dos docentes tem uma certa inércia política, e isso tem nos prejudicado para derrotar essa política perversa do Alckmin. Portanto, precisamos nos mobilizar e nos organizar para que a base tenha voz nas decisões e rumo da luta.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Todos à la place. Por quê?

A adesão imediata à manifestação de Paris mostra como é fácil hoje manipular uma opinião pública tolhida para o exercício do espírito crítico

por Mino Carta 


Perguntaria Hamlet: “Ser ou não ser?” Charlie, está claro. A personagem de Shakespeare é o paradigma da dúvida atormentada pela invulnerabilidade do efêmero. Surpreende, porém, e até espanta, a rapidez com que a larga maioria fez sua escolha. Por quê? A que se deve o imediatismo da resposta? Agir às pressas, de impulso, precipita amiúde equívocos, enganos, erros. Não seria o caso de parar para pensar?

Pois é, pensar. Explorar a faculdade que o ser humano tem de constatar sua pessoal existência. O mundo vive uma quadra de enormes incertezas e de graves conflitos, e a situação se apinha de inúmeros por quês. Por que aqui estamos a padecer uma crise econômica que poupa somente banqueiros e especuladores, aliás, a eles aproveita acintosamente? Por que o rentismo grassa enquanto o desemprego aumenta? Por que o desequilíbrio social se aprofunda em todos os cantos? Por que uma centena de multinacionais impõe sua vontade a Estados soberanos? Por que a senhora Merkel e seus banqueiros ditam as regras à inteira Comunidade Europeia e decretam a austeridade em lugar do desenvolvimento? Por que o atual presidente da UE é o ex-premier do Luxemburgo, o aprazível paraíso fiscal?

Interrogações sem conta, propostas pela circunstância. Pode-se, se quisermos, perguntar aos nossos botões por que o mundo carece hoje de poetas, ou por que pagam-se dezenas de milhões de dólares por um tubarão morto mergulhado em uma caixa de vidro cheia de formol, ou por que navegantes da internet divulgam aos quatro ventos o cardápio do seu jantar da noite anterior. Ou por que, de súbito, a humanidade concentra-se na Place de la République, de corpo presente ou em espírito, para manifestar contra o terrorismo.

O espetáculo parisiense assinala, ao mesmo tempo, o triunfo do modismo e da hipocrisia. Fácil identificar o lado de cada qual, a ser clara a desfaçatez das autoridades. Em boa parte, tem responsabilidades em relação ao terrorismo, quando não são seus instigadores, cúmplices, ou até mesmo praticantes, competentes ou não. Conseguiram o que queriam, admitamos. Juntaram o Ocidente em uma praça parisiense para ostentar os seus poderes e cuidar dos seus interesses políticos, sem exclusão de golpes baixos, ações de guerra, assaltos aos cofres públicos e terrorismo de Estado, sem contar as violações dos Direitos Humanos.

Diante deles, incitada pelas frases feitas da propaganda midiática, súcuba dos apelos da retórica globalizada, a grei automatizada. Incapaz de entender se, de pura e sacrossanta verdade, o massacre na redação do Charlie Hebdo configura um ataque sem precedentes à liberdade de imprensa, ou de expressão. Ou à liberdade na acepção total, sem qualificativos.

Resta entender o significado e o alcance das palavras. Sabemos, em primeiro lugar, ou pretendemos saber, que a liberdade de cada um acaba na liberdade do semelhante. Nem todos se dão conta disso. De qualquer forma, a liberdade proclamada pela Revolução Francesa acaba por ser de poucos se não for completada pela igualdade. Livre é realmente uma sociedade de iguais. Se há canto da Terra onde esta simbiose acontece, louvado seja quem fez o milagre. Nem se fale do Brasil, o país de casa-grande e senzala.

Outra questão diz respeito à liberdade de imprensa, que na mídia nativa conta com paladinos aguerridos. A liberdade que defendem é a de fazer o que bem entendem. Não é assim em outros países democráticos e civilizados, onde a mídia é devidamente regulamentada, para impedir, entre outros objetivos, o monopólio e o oligopólio. Na França, é certo, o Charlie Hebdo podia circular à vontade, a despeito dos seus discutíveis propósitos e de certo autoritarismo a vingar na redação. O cartunista Siné, célebre desde o fim dos anos 50, foi despedido porque suas charges não tinham a desejada agressividade e evitavam certos assuntos.

A virulência antimuçulmana, no Charlie Hebdo, não é inferior àquela dirigida contra as religiões monoteístas de cristãos e judeus. Tempos atrás, uma charge mostrava, da forma mais crua, o encontro (seria um rendez-vous?) entre a Virgem Maria e um centurião romano, com o resultado de trazer à vida quem mais, se não Jesus Cristo. Ocorre a lembrança de um Pif-Paf, a seção entregue pelo O Cruzeiro dos Diários Associados a Millôr Fernandes, por mais de duas décadas. O humorista estava disposto a contar a história fracassada de Adão e Eva no Paraíso Terrestre. Jocosa e sem vulgaridade, no traço steinberguiano de Millôr.

ACNBB protestou oficialmente, e Millôr foi despedido com a habitual pusilanimidade. Não houve manifestação na Cinelândia carioca.

Não convém ao Ocidente aceitar a ideia de que a tragédia decorre de uma ação de guerra levada a cabo por um comando bem treinado, mas é assim que pensam os fanáticos arregimentados pela Jihad. Se uma bomba um dia desses explodir, digamos, no Grand Palais, não podemos alegar o atentado contra a liberdade de expressão, como não o foi o ataque às Torres Gêmeas. O objetivo do terrorismo, de resto, é solapar a capacidade de resistência do inimigo designado, de certa maneira é semear o pânico com a humilhação do alvejado.

Não se trata, de todo modo, de buscar explicações, e sim de entender que a liberdade de expressão tem necessariamente limites, bem como a intenção de provocar, desbragada na publicação satírica. O que talvez esclareça quanto ao seu escasso êxito junto ao público francês. Nesta semana, o Charlie Hebdo saltou de uma tiragem de algumas dezenas de milhares de cópias para milhões. Também este é fruto do modismo, a contar, para a manipulação da opinião pública, com instrumentos cada vez mais capilares e eficazes. Vezos e tendências momentâneos assumem a ribalta e tomam conta da plateia de forma avassaladora. Até levá-la, se for o caso, à Place de la République.

É provável que na multidão também figurassem muitos cidadãos franceses de origem árabe, ou africana, e de religião muçulmana, impelidos pela repulsa ao terrorismo, conquanto ofendidos pela charge que visava o Profeta. Que fazer com 6 milhões de muçulmanos franceses donos de todos os direitos de cidadania? Expulsá-los em bloco? Não faltarão aqueles que aprovariam a solução com entusiasmo. Caso se trate de torcedores do futebol, a xenofobia os teria levado a não considerar o triste destino da seleção francesa, privada de muitos entre seus melhores craques.

Deste ponto de vista, o Brasil é um país resolvido, embora não isento do preconceito racial e social. Por aqui pobres e pretos vivem sob suspeita. Manda, porém, o jus soli, pelo qual somos todos brasileiros. Na França, e em toda a Europa, meta de forte migração de áreas subdesenvolvidas, a questão suscita ásperas polêmicas, mesmo porque em muitos países a tradição soletra ojus sanguinis. O sangue determina a cidadania. Eventos como o massacre que abalou o mundo vão excitar o ódio racial na França, na Europa, e alhures, em benefício da direita mais reacionária.

Quem leva vantagem? Na França, Marine Le Pen, que se fortalece como candidata à Presidência da República. Na Itália, crescerá a Lega. Na Alemanha, o Pegida, grupo ultradireitista. Rajoy, na Espanha, reforça seu poder. De todos os líderes, Netanyahu é aquele que, ao carregar sua campanha eleitoral até Paris, exibe com maior clareza seus propósitos. E a orquestração bem trabalhada acaba por acentuar as incompatibilidades, os contrastes, as divergências, os conflitos. A violência e o desvario em geral.

Neste caldo de cultura germinam, como no magma primevo a se esfriar teria nascido a vida do planeta, o fanatismo assassino, a criminalidade nas suas distintas fisionomias. Isto é do conhecimento até do mundo mineral, mas não de todos os homens. Fatos como a chacina parisiense repetem-se à toda hora, provocados pelo fanatismo, pela revolta, pela insanidade, pela desgraça. E pelo terror de Estado. Não cabe justificar o horror. Recomenda-se, entretanto, aquilatar envolvimentos e responsabilidades. E anotar que inomináveis delitos cometidos pelos senhores do mundo ocidental não costumam merecer a repulsa das praças lotadas.

Para evocar fatos próximos, é da incompetência impafiosa da diplomacia norte-americana que eclode a Guerra do Iraque, ou brota a maior ameaça terrorista representada pelo Estado Islâmico. Tal é a inexorável verdade factual. Há culpas em cartório, contribuições transparentes ao descalabro dos dias de hoje, às quais a maioria se presta de pronto porque tolhida fatalmente ao exercício da razão.

O alpiste servido aos incautos, aos desmemoriados, aos crédulos, aos ignorantes, é a versão dos cavalheiros tão bem representados na praça parisiense. Aproveitam-se da eficácia dos instrumentos chamados a entorpecer as consciências e demolir o mais pálido resquício de espírito crítico.

Talvez estejamos no limiar de uma nova Idade Média, contradição apenas aparente do dito progresso tecnológico. Se o homem dispõe de computador e celular de infinitas funções, e vive bem mais do que as gerações precedentes, nem por isso ganha em sabedoria, pelo contrário. O respeito à memória, base de todo conhecimento, dispersa-se na moda contingente. Nesta moldura, o livro tende a se tornar objeto obsoleto. Na mesmice globalizada instalam-se, disfarçados pela banalidade, a ignorância, a indiferença. E os desbordantes porquês não logram resposta.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Boaventura: a Europa à beira do estado de sítio

POR BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS





A liberdade de expressão e seus limites — inclusive no “Charlie Hebdo”… “Valores ocidentais” ou hipocrisia? EUA alimentam o fundamentalismo islâmico. As vidas festejadas e as vidas esquecidas


O crime hediondo que foi cometido contra os jornalistas e cartunistas do Charlie Hebdotorna muito difícil uma análise serena do que está envolvido neste ato bárbaro, do seu contexto e seus precedentes e do seu impacto e repercussões futuras. No entanto, esta análise é urgente, sob pena de continuarmos a atear um fogo que amanhã pode atingir as escolas dos nossos filhos, as nossas casas, as nossas instituições e as nossas consciências. Eis algumas das pistas para tal análise.

A luta contra o terrorismo, tortura e democracia. Não se podem estabelecer ligações diretas entre a tragédia do Charlie Hebdo e a luta contra o terrorismo que os EUA e seus aliados travam desde o 11 de setembro de 2001. Mas é sabido que a extrema agressividade do Ocidente tem causado a morte de muitos milhares de civis inocentes (quase todos muçulmanos) e tem sujeitado a níveis de tortura de uma violência inacreditável jovens muçulmanos contra os quais as suspeitas são meramente especulativas, como consta do recente relatório apresentado ao Congresso norte-americano. E também é sabido que muitos jovens islâmicos radicais declaram que a sua radicalização nasceu da revolta contra tanta violência impune.

Perante isto, devemos refletir se o caminho para travar a espiral de violência é continuar seguindo as mesmas políticas que a têm alimentado, como é agora demasiado patente. A resposta francesa ao ataque mostra que a normalidade constitucional democrática está suspensa e que um estado de sítio não declarado está em vigor, que os criminosos deste tipo, em vez de presos e julgados, devem ser abatidos, que este fato não representa aparentemente nenhuma contradição com os valores ocidentais. Entramos num clima de guerra civil de baixa intensidade. Quem ganha com ela na Europa? Certamente não o partido Podemos, na Espanha, ou o Syriza, na Grécia.

A liberdade de expressão. É um bem precioso mas tem limites, e a verdade é que a esmagadora maioria deles são impostos por aqueles que defendem a liberdade sem limites sempre que é a “sua” liberdade a sofrê-los. Exemplos de limites são imensos: se na Inglaterra um manifestante disser que David Cameron tem sangue nas mãos, pode ser preso; na França, as mulheres islâmicas não podem usar o hijab; em 2008 o cartunista Maurice Siné foi despedido do Charlie Hebdo por ter escrito uma crônica alegadamente antissemita. Isto significa que os limites existem, mas são diferentes para diferentes grupos de interesse. Por exemplo, na América Latina, os grandes meios de comunicação, controlados por famílias oligárquicas e pelo grande capital, são os que mais clamam pela liberdade de expressão sem limites para insultar os governos progressistas e ocultar tudo o que de bom estes governos têm feito pelo bem-estar dos mais pobres.

Aparentemente, o Charlie Hebdo não reconhecia limites para insultar os muçulmanos, mesmo que muitos dos cartuns fossem propaganda racista e alimentassem a onda islamofóbica e anti-imigrante que avassala a França e a Europa em geral. Para além de muitos cartuns com o Profeta em poses pornográficas, um deles, bem aproveitado pela extrema-direita, mostrava um conjunto de mulheres muçulmanas grávidas, apresentadas como escravas sexuais do Boko Haram, que, apontando para a barriga, pediam que não lhes fosse retirado o apoio social à gravidez. De um golpe, estigmatizava-se o Islã, as mulheres e o estado de bem-estar social. Obviamente, que, ao longo dos anos, a maior comunidade islâmica da Europa foi-se sentindo ofendida por esta linha editorial, mas foi igualmente imediato o seu repúdio por este crime bárbaro. Devemos, pois, refletir sobre as contradições e assimetrias na vida vivida dos valores que alguns creem ser universais.

A tolerância e os “valores ocidentais”. O contexto em que o crime ocorreu é dominado por duas correntes de opinião, nenhuma delas favorável à construção de uma Europa inclusiva e intercultural. A mais radical é frontalmente islamofóbica e anti-imigrante. É a linha dura da extrema direita em toda a Europa e da direita, sempre que se vê ameaçada por eleições próximas (o caso de Antonis Samara na Grécia). Para esta corrente, os inimigos da civilização europeia estão entre “nós”, odeiam-nos, têm os nossos passaportes, e a situação só se resolve vendo-nos nós livres deles. A pulsão anti-imigrante é evidente. A outra corrente é a da tolerância. Estas populações são muito distintas de nós, são um fardo, mas temos de as “aguentar”, até porque nos são uteis; no entanto, só o devemos fazer se elas forem moderadas e assimilarem os nossos valores. Mas o que são os “valores ocidentais”?

Depois de muitos séculos de atrocidades cometidas em nome destes valores dentro e fora da Europa — da violência colonial às duas guerras mundiais — exige-se algum cuidado e muita reflexão sobre o que são esses valores e por que razão, consoante os contextos, ora se afirmam uns, ora se afirmam outros. Por exemplo, ninguém põe hoje em causa o valor da liberdade, mas já o mesmo não se pode dizer dos valores da igualdade e da fraternidade. Ora, foram estes dois valores que fundaram o Estado social de bem-estar que dominou a Europa democrática depois de segunda guerra mundial. No entanto, nos últimos anos, a proteção social, que garantia níveis mais altos de integração social, começou a ser posta em causa pelos políticos conservadores e é hoje concebida como um luxo inacessível para os partidos do chamado “arco da governabilidade”. A crise social causada pela erosão da proteção social e pelo aumento do desemprego, sobretudo entre jovens, não será lenha para a fogueira do radicalismo por parte dos jovens que, além do desemprego, sofrem a discriminação étnico-religiosa?

O choque de fanatismos, não de civilizações. Não estamos perante um choque de civilizações, até porque a cristã tem as mesmas raízes que a islâmica. Estamos perante um choque de fanatismos, mesmo que alguns deles não apareçam como tal por nos serem mais próximos. A história mostra como muitos dos fanatismos e seus choques estiveram relacionados com interesses econômicos e políticos que, aliás, nunca beneficiaram os que mais sofreram com tais fanatismos. Na Europa e suas áreas de influência é o caso das cruzadas, da Inquisição, da evangelização das populações coloniais, das guerras religiosas e da Irlanda do Norte. Fora da Europa, uma religião tão pacífica como o budismo legitimou o massacre de muitos milhares de membros da minoria tamil do Sri Lanka; do mesmo modo, os fundamentalistas hindus massacraram as populações muçulmanas de Gujarat em 2003 e o eventual maior acesso ao poder que terão conquistado recentemente com a vitória do Presidente Modi faz prever o pior; é também em nome da religião que Israel continua a impune limpeza étnica da Palestina e que o chamado califado massacra populações muçulmanas na Síria e no Iraque.

A defesa da laicidade sem limites numa Europa intercultural, onde muitas populações não se reconhecem em tal valor, será afinal uma forma de extremismo? Os diferentes extremismos opõem-se ou articulam-se? Quais as relações entre os jihadistas e os serviços secretos ocidentais? Por que é que os jihadistas do Emirato Islâmico, que são agora terroristas, eram combatentes de liberdade quando lutavam contra Kadhafi e contra Assad? Como se explica que o Emirato Islâmico seja financiado pela Arábia Saudita, Qatar, Kuwait e Turquia, todos aliados do Ocidente? Uma coisa é certa: pelo menos na última década, a esmagadora maioria das vítimas de todos os fanatismos (incluindo o islâmico) são populações muçulmanas não fanáticas.

O valor da vida. A repulsa total e incondicional que os europeus sentem perante estas mortes devem-nos fazer pensar por que razão não sentem a mesma repulsa perante um número igual ou muito superior de mortes inocentes em resultado de conflitos que, no fundo, talvez tenham algo a ver com a tragédia do Charlie Hebdo? No mesmo dia, 37 jovens foram mortos no Yemen num atentado a bomba. No ano passado, a invasão israelense causou a morte de 2000 palestinos, dos quais cerca de 1500 civis e 500 crianças. No México, desde 2000, foram assassinados 102 jornalistas por defenderem a liberdade de imprensa e, em Novembro de 2014, 43 jovens, em Ayotzinapa. Certamente que a diferença na reação não pode estar baseada na ideia de que a vida de europeus brancos, de cultura cristã, vale mais que a vida de não europeus ou de europeus de outras cores e de culturas assentes noutras religiões ou regiões. Será então porque estes últimos estão mais longe dos europeus ou são pior conhecidos por eles? Mas o mandato cristão de amar o próximo permite tais distinções? Será porque os grande media e os líderes políticos do Ocidente trivializam o sofrimento causado a esses outros, quando não os demonizam ao ponto de fazerem pensar que eles não merecem outra coisa?

Exclusivo: Fernando Haddad fala sobre Marta, Chalita, a lógica do MPL e o caipirismo do PSDB

por : Kiko Nogueira




O prefeito de São Paulo Fernando Haddad recebeu o DCM para uma entrevista em seu gabinete no antigo Edifício Matarazzo, no Viaduto do Chá.

Sem gravata, terno preto com camisa branca, o inconfundível cabelo dividido ao meio, Haddad falou sob o impacto de um novo protesto do Movimento Passe Livre, ocorrido no dia anterior. Para ele, o MPL prefere o “tudo ou nada” a uma negocição gradual. Haddad fez um balanço de seus dois anos de governo, falou do polêmico convite feito a Gabriel Chalita (PMDB) para a secretaria de educação e de seu relacionamento com Marta Suplicy, sua possível adversária em 2016.

A seguir, os principais trechos da conversa.

A nomeação de Gabriel Chalita 

Acho que as pessoas se surpreendem com o convite por não prestarem atenção aos desdobramentos e aos eventos históricos. Minha relação com o Chalita começou antes de eu ser ministro. Participamos da reforma educacional do governo federal.

Naquele momento, o PSDB se comportava de forma suprapartidária. Os projetos eram considerados de estado, não de governo. O Chalita teve um papel fundamental como mediador de conflitos com o pensamento conservador em proveito de uma agenda mais avançada.

Na campanha para a prefeitura em 2012, aquele que perdeu apoiou quem ganhou. Foi visto como natural pela população que o Chalita me apoiasse — ou vice-versa, se ele tivesse passado para o segundo turno. Isso me deu a vitória. É uma relação de dez anos. Já era boa quando ele estava no PSDB. Valorizo nele essa capacidade de interlocução.

Não foi indicação do Lula. Aliás, aconteceu o contrário… Chalita e eu comunicamos ao Temer e ao Lula esse desejo. Em se tratando de uma aproximação desta natureza, eu achei de bom tom que o ex-presidente ficasse ciente e opinasse. Os dois saudaram a aproximação, que foi vista como um ganho para a educação.

Marta Suplicy

Minha primeira função pública foi na gestão da Marta. Adorei ter participado da experiência. Nos dois primeiros anos fui testemunha do esforço que foi feito para valorizar a educação. Participei da equipe que fez os CEUs. Sempre nos demos muito bem.

Sempre foi uma relação muito respeitosa — até aqui, pelo menos. Gosto muito das pessoas envolvidas nessa história [a ruptura de Marta com o PT] para dar uma opinião sobre a atitude dela.

Os protestos do Movimento Passe Livre 

Os prefeitos todos do Brasil estamos na mesma situação. Todos querem ampliar a gratuidade da tarifa. Sou o primeiro a reconhecer a questão do transporte.

Mas, em março de 2013, portanto 70 dias antes do primeiro protesto daquele ano, defendi a municipalização da Cide, tributo que incide sobre a gasolina. Foi na Folha. Falei que a Cide [sigla para Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico] deveria ser municipalizada para dar aos prefeitos a condição de adotar uma política mais agressiva de modicidade tarifária.

Imaginava naquele momento que aquilo fosse ensejar um debate sobre tarifa. Não vou transferir recursos de saúde e educação.

Para minha surpresa, quando o MPL esteve com a presidenta Dilma, entregou uma carta defendendo a minha tese de março. Infelizmente, parece ter abandonado essa bandeira. Daria para os prefeitos do Brasil uma perspectiva de, sem prejudicar saúde, educação, poder criar um mecanismo para mexer na tarifa.

É possível ampliar os direitos gradualmente. Sem radicalizar. Mas a tática deles é claramente binária: ou levo tudo ou não levo nada. Ou você me dá 100% do que estou pedindo ou você é meu inimigo.

O prefeito é o elo fraco da federação. Houve uma reconcentração de recursos públicos na esfera da União que começou no governo Fernando Henrique. Tem havido um esforço para mudar.

O custo do transporte é de 6 bilhões de reais por ano. Imaginar que você possa abrir mão desse recurso de uma hora para outra é complicado.

Quem vai remover as ciclovias?

A mudança de paradigma veio para ficar. Uma vez que a malha viária é a mesma e a ideia de túneis e viadutos se provou um fracasso do ponto de vista urbanístico, qual é a alternativa para a mobilidade? O conceito está estabelecido mundialmente: transporte público, ciclovias, respeito ao pedestre. De um ponto de vista da transversalidade: como isso dialoga com saúde pública, com causas ambientais e com causas sociais. Uma agenda transversal.

Li um estudo recente sobre a saúde dos ciclistas amadores, impressionantemente melhor que a dos sedentários. A saúde do usuário de transporte público também é melhor que a do cara que usa só o carro. Você precisa caminhar até a estação de metrô ou o ponto.

Se os 400 quilômetros de ciclofaixas estiverem prontos até o final deste ano (ele entregou 170 por enquanto), multiplica por 1 metro e meio, a largura de uma ciclovia, e estamos falando de 600 mil metros quadrados — 40% do parque Ibirapuera. Ou seja, você está tirando muito pouco para o impacto todo que estamos tendo.

Ninguém vai ousar remover essas ciclovias. Faixas de ônibus são a mesma coisa. No ano passado, parecia que o mundo ia acabar. Fui acusado de falta de planejamento, falta de tudo…

O trânsito aumentou de 2011 para 2012 14,8%; de 2012 para 2013, 7,8%; de 2013 para 2014, 2,8%, segundo a CET. A cidade se acomoda de outra maneira. Obviamente que o preconceito, o dogmatismo, a intolerância falam alto. Fica mais fácil esbravejar nas rádios do que fazer a conta do que realmente acontece de bom.

Um professor de esquerda

A maioria da população apoia as iniciativas e quem fala nos meios de comunicação não são as pessoas para as quais essas políticas são forjadas. O cara que só critica não dialoga com o mundo moderno, com a contemporaneidade.

O jogo eleitoral é muito pesado. Eu não sou nada além de um professor de esquerda. Um professor de esquerda, filho de imigrantes, chegar a ministro da educação e a prefeito de São Paulo é difícil de engolir para muitas pessoas. É difícil assimilar. Quando você faz algo que eles poderiam ter feito e nunca fizeram, fica um ressentimento. “Como você ousou fazer uma obviedade dessas?” Tem uma coisa psicanalítica nisso, que transcende a política.

Convivência

O Brasil tem um resquício escravocrata. É um país de presente escravocrata. Agora nós democratizamos as oportunidades. Não havia democratização das oportunidades. Isso mudou, o que significa que brancos terão que conviver cada vez mais com negros, ricos com pobres etc, como aliás acontece na Europa, nos Estados Unidos etc. Algumas pessoas vêem isso como ameaça. Ameaça, na verdade, é uma sociedade desigual como a nossa. O que ameaça o mundo desenvolvido é a desigualdade. Isso põe em risco a democracia. O risco à democracia não é só cultural e ideológico. É material. Isso é o que nós não queremos admitir.

Viva o centro 

É crescente o número de lançamentos no centro. E ele ainda vai crescer. Mais construtoras vão se interessar pela região. A reforma que nós vamos fazer no Anhangabaú vai dar uma cara boa pro centro.

Acho que iniciativas como a ciclovia do Minhocão, as praias urbanas, a desfavelização do Largo de São Francisco… tudo isso está mudando o lugar. Praticamente não havia praças sem barraco. Fizemos uma limpeza sem expulsar ninguém. Sem higienizar. Estamos fazendo coleta de lixo aos domingos. Eu tinha uma ideia de que o centro não tinha gente nesse dia. Pois nós tiramos 100 toneladas de lixo aos domingos.

Rolezinho

Tenho o hábito de passear no centro aos domingos. Vou com o motorista. Eu vou trabalhar às vezes de ônibus, de metrô ou de bicicleta. Gostaria de ir mais, só que o ajudante de ordens não deixa… Eu falo “não precisa ninguém me acompanhando”. “Mas se ninguém te acompanhar vai ficar ruim pra nós”, eles dizem.

Estamos pensando em fazer visitas guiadas de bicicleta para as pessoas terem uma primeira experiência estética com o grafite. Pode ser uma porta de entrada para a arte para essas pessoas. Vai ser a primeira galeria de arte de rua com visita guiada no mundo.

O humor do paulistano e o caipirismo do PSDB

São Paulo é uma montanha russa de humor. Tudo influencia tudo. Uma volubilidade muito grande. Por isso, se você tem um projeto para a cidade, execute e se dê por satisfeito.

Por exemplo, eu aprovei um Plano Diretor que é considerado pela ONU um dos mais avançados do mundo. Aprovamos a renegociação da dívida com a União que vai trazer uma redução do estoque de 26 bilhões de reais. São êxitos poucos podem dizer que vão alcançar.

São Paulo tem condições de reassumir o protagonismo no Brasil, condição que perdeu nos últimos 20 anos. Não existe cidade do mundo do tamanho de São Paulo que não interaja com o governo central. Essa crítica do excesso de dependência do governo federal é mais uma amostra do caipirismo que tomou conta do PSDB. O PSDB era um partido antenado com o que acontece no mundo. Hoje é o partido mais caipira do Brasil. Ou melhor, provinciano — porque eu gosto dos caipiras. Lamentável que o PSDB tenha chegado aonde chegou.

O PSDB e a judicialização da política 

Eu esperava muitas coisas quando candidato. O que não estava no meu horizonte é a judicialização da política. O PSDB entra na Justiça por qualquer coisa. Costumo dizer que o ditado “a justiça tarda, mas não falha”, no caso da política, está errado: a justiça tarda e falha. Política é tempo.

A outra surpresa como prefeito é a postura do MPL. Não esperava isso, sobretudo de pessoas que têm uma bagagem para entender o que é a intolerância. A intolerância não é de esquerda. É um fundamentalismo que eu lamento. O Charlie Hebdo é vítima do infeliz crescimento dessa intolerância que cresce no mundo. Nós devemos cerrar fileira com aqueles que são comprometidos com as causas libertárias.