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terça-feira, 7 de julho de 2015

"IMPEACHMENT É POUCO"





Você na rua, de novo. Que interessante. Fazia tempo que não aparecia com toda a sua família. Se me lembro bem, a última vez foi em 1964, naquela "Marcha da família, com Deus, pela liberdade". É engraçado, mas não sabia que você tinha guardado até mesmo os cartazes daquela época: "Vai para Cuba", "Pela intervenção militar", "Pelo fim do comunismo". Acho que você deveria ao menos ter tentado modernizar um pouco e inventar algumas frases novas. Sei lá, algo do tipo: "Pela privatização do ar", "Menos leis trabalhistas para a empresa do meu pai".

Vi que seus amigos falaram que sua manifestação foi uma grande "festa da democracia", muito ordeira e sem polícia jogando bomba de gás lacrimogêneo. E eu que achava que festas da democracia normalmente não tinham cartazes pedindo golpe militar, ou seja, regimes que torturam, assassinam opositores, censuram e praticam terrorismo de Estado. Houve um tempo em que as pessoas acreditavam que lugar de gente que sai pedindo golpe militar não é na rua recebendo confete da imprensa, mas na cadeia por incitação ao crime. Mas é verdade que os tempos são outros.

Por sinal, eu queria aproveitar e parabenizar o pessoal que cuida da sua assessoria de imprensa. Realmente, trabalho profissional. Nunca vi uma manifestação tão anunciada com antecedência, um acontecimento tão preparado. Uma verdadeira notícia antes do fato. Depois de todo este trabalho, não tinha como dar errado.

Agora, se não se importar, tenho uma pequena sugestão. Você diz que sua manifestação é apartidária e contra a corrupção. Daí os pedidos de impeachment contra Dilma. Mas em uma manifestação com tanta gente contra a corrupção, fiquei procurando um cartazete sobre, por exemplo, a corrupção no metrô de São Paulo, com seus processos milionários correndo em tribunais europeus, ou uma mera citação aos partidos de oposição, todos eles envolvidos até a medula nos escândalos atuais, do mensalão à Petrobras, um "Fora, Alckmin", grande timoneiro de nosso "estresse hídrico", um "Fora, Eduardo Cunha" ou "Fora, Renan", pessoas da mais alta reputação. Nada.

Se você não colocar ao menos um cartaz, vai dar na cara de que seu "apartidarismo" é muito farsesco, que esta história de impeachment é o velho golpe de tirar o sujeito que está na frente para deixar os operadores que estão nos bastidores intactos fazendo os negócios de sempre. Impeachment é pouco, é cortina de fumaça para um país que precisa da refundação radical de sua República. Mas isto eu sei que você nunca quis. Vai que o povo resolve governar por conta própria.

Como preparar a resistência a um golpe

Professor Thomas de Toledo

Tenho visto pessoas aflitas com a possibilidade de um golpe reacionário ser praticado no Brasil, mas quero ao mesmo tempo dar a esperança de que este golpe não ocorrerá, também alertar para que todos estejam prontos para uma reação imediata caso ocorra uma ruptura institucional.


Primeiro entendamos qual é a estratégia golpista e como ela tem procurado instalar o clima do golpe. Em segundo lugar, compreendamos como agir a fim de não deixar o golpe acontecer e caso aconteça, como revertê-lo. Por fim, que fique claro que não existe nada na história que é dado até que aconteça e mesmo o que acontece pode ser um fator aglutinador de resistência.

As forças interessadas no golpe atualmente são exatamente as mesmas que o fizeram em 1954 e 1964. São os meios comunicações hegemônicos (Globo, Veja, Folha, Estadão, etc), as grandes empresas multinacionais (em especial as petrolíferas concorrentes da Petrobrás), o imperialismo dos Estados Unidos (que não aceita a integração latino-americana e o BRICS) e a direita golpista (fascistas, ultraliberais e fundamentalistas religiosos). Este consórcio perdeu as eleições de 2002, 2006, 2010 e 2014 e está disposto a ir às útlimas consequências com o golpe para barrar o projeto de desenvolvimento autônomo com distribuição de renda que, aos trancos e barrancos, ainda é o que de melhor o cenário político nacional é capaz de oferecer.

A estratégia golpista tem sido experimentada de várias formas. A tentativa de invalidar as eleições, a rejeição das contas do governo pelo TCU ou da campanha de Dilma pelo TSE, alguma delação "premiada" que mesmo virtualmente associe a operação "Lava Jato" ao governo ou qualquer outro tipo de pretexto. Tudo isto está fácil com o Congresso controlado pelo PMDB de Eduardo Cunha e Renan Calheiros, que ainda têm o vice-presidente Michel Temer (os três na linha de sucessão). Muito provavelmente eles tentarão o golpe da mesma forma usada em Honduras ou no Paraguai, via legislativo ou judiciário. Vale lembrar que a mesma embaixadora dos Estados Unidos em Assunção na ocasião da deposição de Lugo, está hoje alocada em Brasília.

Mas um golpe sem apoio de parcelas significativas da população não se sustenta. Por isto vem o bombardeio dos meios de comunicação. Neste fim de semana, estava uma chuva tremenda, a estrada cheia de lama e o ônibus largou todos os passageiros no meio do caminho. Todos ficaram indignados, mas um senhor surpreendeu-me dizendo: "culpa dessa Dilma que essa estrada está deste jeito". Por sorte recordei-o de que quem deveria cumprir este papel era o prefeito e, depois de um certo conflito mental, parece que o senhor aceitou que nem todos os problemas políticos do mundo são culpas do bode expiatório fabricado pela mídia: a presidente e seu partido (Hoje, o bode espiatório chama-se Dilma. Ontem chamou Jango e anteontem seu nome era Getúlio). Este é um típico exemplo da desinformação propagada pela mídia.

E assim funciona a onda da ignorância: espalham por todos os meios que a culpa é de uma pessoa e de um partido. Enquanto só falam deles, todos os outros roubam à vontade, tocam o terror nos poderes legislativos e judiciários, fazem os piores crimes de descaso com a população no nível municipal e estadual, mas sempre nos fazem lembrar que a culpa é do bode expiatório. Os outros partidos, em especial o PSDB e o PMDB, podem roubar à vontade que ficam blindados pela mídia. E é exatamente por isso que interessa a eles o golpe.

Depois das manifestações "contra a corrupção com a camisa da CBF", a direita golpista mostrou sua cara. Mas seu intento de seguir mobilizada fracassou com o discurso do ódio prevalecendo na pauta. No entanto, várias ações fascistas isoladas têm proliferado como agressões a membros do partido da presidente e mesmo ataques à suas sedes. Isto, infelizmente, não tem sido enfrentado por parte do governo, que parece inerte perante tantas agressões. Além de ter uma péssima política de comunicação social, o governo tem agido de forma burocrática com despachos de gabinete sem travar o debate na sociedade, o que dificulta a resistência. Mas mesmo assim, é preciso lutar para que o golpe não ocorra e caso ocorra, ele precisa ser revertido, denunciado seus autores punindo-os devidamente.

É preciso construir uma frente ampla em defesa da democracia com partidos, movimentos sociais e a sociedade civil organizada. Também deve-se avançar na luta antifascista e na formação ideológica das forças populares e democráticas. Este caldo é fundamental para resistir a uma eventual quebra da institucionalidade democrática. Vale lembrar que existem muitos exemplos de contragolpes que foram não apenas bem sucedidos, mas principalmente reverteram as limitações do governo anterior e repactuaram as forças políticas do país num sentido mais progressista.

De fato, é preciso ter claro que este golpe não visa melhorar o país, tampouco salvá-lo de qualquer coisa. Ele simplesmente pretende barrar os avanços sociais da última década que foram importantes, mas pequenos. Porém, foram o suficiente para despertarem o ódio das elites que sempre entregaram nossos recursos naturais ao imperialismo e sempre tiveram por projeto a submissão do Brasil ao grande capital estrangeiro. Ou seja, trata-se de um golpe para mudar tudo, desde que tudo fique como está.

Portanto, transformemos a crise em oportunidade. Ao invés de cairmos num pessimismo ou autoflagelo da esquerda, estejamos com a certeza de que vale a pena lutar e resistir. Não esperemos uma reação do governo. Tomemos as ruas e as redes com palavras de ordens consequentes. Derrotar o fascismo, o golpismo e o entreguismo é dever e honra desta geração. Lutemos de cabeça erguida para que fique registrado nos anais da história não apenas que esta geração não fugiu à luta, mas que ela foi vitoriosa em garantir a democracia.

Os sentidos de Junho

[Faixa erguida na manifestação do dia 15 de março de 2015 na Avenida Paulista em São Paulo, reivindica oimpeachment de Dilma e o sentido das Jornadas de Junho.]




Por Ruy Braga.

As massivas manifestações pró-impeachment de Dilma Rousseff que tomaram as ruas das principais cidades brasileiras em março e abril deste ano confirmaram, ao menos aparentemente, as análises tanto de direitistas quanto de governistas a respeito das Jornadas de Junho de 2013. Para certos jornalistas ligados ao Instituto Liberal, Junho foi um levante de classe média galvanizado pelo MPL contra a corrupção do governo federal. Segundo esta perspectiva, a população teria abandonado as ruas logo que percebeu a presença ultra-esquerdista do PSOL e do PSTU por trás da exigência de revogação do aumento das tarifas do transporte público.1

Por outro lado, para alguns petistas, Junho foi uma onda de insatisfação manipulada pela grande mídia e protagonizada pelas classes médias tradicionais contra as políticas sociais do governo federal.2 Em consequência, a mudança na conjuntura política e a queda na popularidade da presidente teriam pavimentado o caminho para o avanço da direita, facilitando a eleição de um Congresso ainda mais conservador que o anterior.

A despeito da diversidade ideológica das análises, a conclusão é convergente, pois afirma uma continuidade essencial entre as manifestações de 2013 e de 2015. Afinal, as massas foram às ruas contra o governo federal, retornando quase dois anos depois para completar o trabalho que haviam iniciado. Resultado: as Jornadas de Junho não apenas se transformaram na campanha pelo impeachment de Dilma, como também asseguraram a vitória do PL 4330, da redução da maioridade penal, etc.

Gostaria de examinar estas alegações a partir de dois parâmetros: a base social dos protestos e sua direção política. Finalmente, pretendo elaborar uma hipótese alternativa apoiada na centralidade da fadiga do atual modelo de desenvolvimento para compreender o ciclo de polarização social que açambarcou a sociedade brasileira. Sem recorrermos à análise histórica das metamorfoses das classes, fatalmente cairemos no anacronismo, ou seja, a imposição de sentidos recolhidos no tempo presente ao passado.

Em primeiro lugar, como bem destacou Marcelo Badaró, não parece haver muita dúvida sobre as diferenças sociológicas existentes entre os manifestantes.3 Em Junho de 2013, na contracorrente de uma intensa campanha midiática, uma massa formada por jovens trabalhadores periféricos usuários do transporte público e vivendo em famílias com renda de até 3 salários mínimos tomou as ruas de várias capitais em reação à brutal repressão da PM ao protesto organizado pelo MPL no dia 13 em São Paulo. Àquela altura, os setores médios tradicionais fizeram-se presentes na ordem de aproximadamente 25% dos que participaram dos protestos.

Em março e abril de 2015, ao contrário, houve uma flagrante predominância da população adulta, concentrada entre 30 e 50 anos, esmagadoramente branca e recebendo mais de 5 salários mínimos. Este ano, os manifestantes populares, isto é, aqueles vivendo em famílias que ganham até 3 salários mínimos, não passaram de 20%. Em resumo, estamos diante de uma acentuada reviravolta social e não de uma anacrônica continuidade linear.

Se adicionarmos as diferenças relativas ao conteúdo político dos dois ciclos de protestos, entenderemos com mais clareza a distância entre 2013 e 2015. Há exatos dois anos, as demandas levadas às ruas, apesar da natural diversidade existente em um protesto espontâneo de massas, decantaram-se em uma pauta popular a favor de mais investimentos públicos em transporte, saúde e educação. Os institutos de pesquisa foram unânimes em identificar esta tendência em todo o país. Nada espantoso, considerando…

  1. Transporte. A atual onda de segregação espacial que acompanhou a financeirização das terras urbanas e o deslocamento forçado de trabalhadores em condições precárias de vida e de trabalho para as periferias mais distantes das cidades.
  2. Saúde. O aumento do adoecimento derivado da intensificação dos ritmos do trabalho e do incremento da rotatividade laboral que têm levado cada vez mais trabalhadores precarizados ao SUS.
  3. Educação. A intensificação da busca destes trabalhadores por qualificações decorrente do aumento da competição laboral que faz com que eles recorram à educação como única via de progresso ocupacional.

Por outro lado, as manifestações de direita, além do apoio midiático, foram dirigidas e financiadas por organizações com claros vínculos classistas – algumas delas, ligadas a think tanks estadunidenses –, cujo foco foi o impeachment de Dilma. Em suma, a ampla luta redistributivista subjacente a Junho com sua demanda por mais investimentos estatais chocando-se com os gastos com juros e amortizações da dívida pública foi substituída por ataques estreitos contra o governo federal.

No entanto, é inegável que existe uma relação entre as duas ondas de protestos. Afinal, Junho abriu uma nova conjuntura política marcada pelo fim da pacificação social característica dos governos de Lula da Silva. O ano de 2013 anunciou a chegada de uma nova era de luta de classes no país e, consequentemente, da crise do lulismo como modo de regulação apoiado na combinação do consentimento popular com o consentimento das direções dos movimentos sociais ao projeto do PT. Em grande medida, arrisco-me a afirmar que esta crise advém basicamente da fadiga do atual modelo de desenvolvimento que por dez anos proporcionou certa margem para pequenas concessões populares, como o aumento dos gastos sociais e a valorização do salário mínimo.

A atual crise econômica aprofundou o ressentimento das classes médias tradicionais com o governo petista. As razões são variadas. O ciclo de formalização do emprego associado à valorização do salário mínimo aumentou os preços dos serviços, em especial, o valor do trabalho doméstico. A relativa desconcentração de renda entre aqueles que vivem dos rendimentos do trabalho somada ao crédito popular fez com que massas de trabalhadores invadissem os shoppings e aeroportos, antes espaços exclusivos das classes altas e médias. E, por fim, o aumento de vagas em universidades particulares e públicas fez com que a competição por empregos de classe média aumentasse entre os jovens. Tudo somado, a natureza anti-popular e conservadora da reação dos estratos intermediários da pirâmide social era bastante previsível.

E do lado das massas populares, as políticas recessivas adotadas pelo governo liquidaram o que ainda restava de apoio popular a Dilma Rousseff. Os trabalhadores perceberam que a presidente está empenhada em implementar políticas anti-trabalhistas, como as MPs 664 e 665, a fim de rebaixar o preço da força de trabalho. O aumento do desemprego, em especial, entre os jovens, espreme o orçamento de famílias trabalhadoras cada dia mais endividadas. Trata-se de uma tríade infernal para os trabalhadores: precarização, endividamento, desemprego. Em resumo, o ressentimento popular com o governo federal tende a aumentar, pulverizando a popularidade da presidente.

Evidentemente, Lula da Silva já percebeu o naufrágio iminente e tem investido numa tentativa um tanto ou quanto patética de se afastar de Dilma e fortalecer uma frente de esquerda que viabilize sua campanha em 2018. Alimentado pelo escândalo do Petrolão, a superposição do ressentimento das classes médias com o ressentimento popular pode ameaçar a continuidade do governo petista. E, de quebra, levar de roldão a esquerda anti-governista rumo a uma profunda crise de legitimidade. Para evitar que isso aconteça, devemos tirar as lições corretas de Junho.

As forças progressistas que vêem uma continuidade linear entre os dois ciclos de protestos estão fazendo uma leitura fundamentalmente errada do que acontece no país e irão naufragar junto com o governo federal. Mais do que nunca, é urgente nos afastarmos do governismo para disputarmos os sentidos de Junho, reinventando uma esquerda à altura das tarefas impostas pelo atual ciclo de luta de classes. Para tanto, devemos fortalecer nossa análise estratégica e apostar em novas coalizões entre o sindicalismo rebelde e os movimentos sociais urbanos. Para os que afirmam que as manifestações de 2013 prepararam a redução da maioridade penal em 2015, é necessário responder que Junho ainda pulsa no atual ciclo grevista, assim como na insurgência dos trabalhadores sem-teto. Os verdadeiros herdeiros de Junho são os trabalhadores precarizados e não a direita.

NOTAS
1 Ver: Flavio Morgenstern. Por trás da máscara: Do Passe Livre aos Black Blocs, as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo, Record, 2015.
2 Ver: Marcelo Barbosa e Kadu Machado. “A segunda onda”, Agência PT, 16 de março de 2015.
3 Ver: Marcelo Badaró. “Junho e nós: das jornadas de 2013 ao quadro atual”.Blog Junho, 2 de julho de 2015.

***

Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (Xama, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista, tema abordado em seu mais novo livro,A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. É também um dos autores do livro de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. (Boitempo, Carta Maior, 2013). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

domingo, 5 de julho de 2015

Sobre intolerâncias




Guido Mantega

A muito custo o Brasil conseguiu construir uma democracia sólida, com instituições fortes e ampla participação popular. Na democracia convivem análises, percepções e posições diferentes. Essa é uma disputa entre forças que tonifica a política e engrandece a sociedade.

Manifestações e protestos são partes integrantes do regime democrático. O contraditório é sempre necessário e muito bem-vindo, estimula o debate e constitui um avanço para o país. A democracia criou mecanismos e instituições que permitem esse debate e garantem a pluralidade de ideias, um pilar que vem sendo erguido há 30 anos.

O Brasil, no entanto, parece caminhar em terreno perigoso. Há algo diferente no ar. Algo que ameaça essa pluralidade. Trata-se do fantasma do autoritarismo, raiz de golpes, que, infelizmente, se manifesta de forma corriqueira, sempre pronto a agir no dia a dia das pessoas.

Atitudes autoritárias podem ocorrer no trânsito, na porta de uma escola, num museu, num hospital ou num restaurante. Não é porque a democracia está consolidada que devemos descuidar dela. Nós, cidadãos, temos que regar essa planta frágil todos os dias --o que nem sempre tem acontecido.

O aumento da intolerância tem provocado atitudes antidemocráticas praticadas por cidadãos que se acham acima do bem e do mal. Alguém escreveu esses dias que o brasileiro está deixando de ser cordial. No Rio, uma pedra foi atirada na cabeça de uma menina de apenas 11 anos por intolerância religiosa.

Eu mesmo, em episódios que nem de longe têm a mesma gravidade, tenho sido alvo de uma intolerância que extrapola o limite da convivência e o direito à liberdade.

Quem é a principal vítima? A menina? O ex-ministro? Não. A vítima é a democracia. Não podemos permitir que essa intolerância se instaure na sociedade brasileira, sob pena de estarmos nos descuidando do mais precioso dos bens.

É oportuna a advertência do teólogo protestante alemão Martin Niemöller diante da escalada do autoritarismo. "Primeiro perseguiram os socialistas, e não protestei porque não era socialista. Então perseguiram os sindicalistas, e não protestei porque não era sindicalista. Então perseguiram os judeus, e não protestei porque não era judeu. Então vieram atrás de mim, e não tinha sobrado ninguém para falar por mim."

Não podemos nos permitir acordar tarde demais para essa realidade. Na França, o ataque ao jornal satírico "Charlie Hebdo" fez com que as pessoas adotassem prontamente, em repúdio à intolerância, o lema "Je suis Charlie". Nos EUA, o presidente Barack Obama se engajou no repúdio ao massacre racista em um templo religioso.

Se deixarmos nos apedrejar, física ou moralmente, daqui a pouco estaremos diante de um Estado fascista. O fascismo, como bem definiu Hannah Arendt, nasceu muito antes de sua existência formal.
Não podemos permitir que se instaure entre nós esse espírito autoritário. Atitudes como essas são perniciosas para o convívio democrático na sociedade brasileira.

Qualquer cidadão tem o direito de discordar do que fiz como ministro da Fazenda, mas no terreno das ideias, do debate. A agressão, a injúria, a difamação são inaceitáveis e devem ser respondidas dentro da lei.

Em nove anos à frente do Ministério da Fazenda, esforcei-me para aumentar o emprego e expandir a produção do país, mesmo num cenário de grave crise internacional, que aliás ainda não acabou.
O resultado foi que o PIB cresceu, a renda subiu e a situação dos brasileiros, ricos ou pobres, melhorou. Apesar dos problemas que nós e outros países enfrentamos, o Brasil deu um salto de qualidade e nos tornamos a sétima economia do mundo.

O Brasil passa hoje por problemas conjunturais que podem perfeitamente ser superados com determinação do governo e da classe política. O país continua sólido para enfrentar qualquer turbulência internacional, como a que pode ser provocada pela Grécia.

Temos US$ 370 bilhões em reservas, somos credores do FMI, nossa dívida externa é pequena, nosso sistema financeiro é saudável e temos um dos maiores mercados consumidores do mundo, que continua atraindo investimento.

Ninguém é obrigado a concordar com essas análises e perspectivas, mas temos que nos manifestar de acordo com as regras democráticas, além de dizer não ao autoritarismo.



GUIDO MANTEGA, 66, economista, é professor da Escola de Economia de São Paulo, da FGV. Foi ministro da Fazenda (governos Lula e Dilma) e ministro do Planejamento (governo Lula)

Viva o povo grego!!!


Apesar do terrorismo, das Globos e Vejas locais e das pesquisas fajutas, gregos rejeitam acordo com a troika por ampla maioria



Houve terrorismo por parte das autoridades europeias encarregadas de impor a austeridade, sob o olhar severo da chanceler Angela Merkel, que comandou a vilificação dos gregos como perdulários e preguiçosos — “mediterrâneos” está para a direita europeia como “nordestinos” está para a brasileira.

Provavelmente houve manipulação de pesquisas com o objetivo de modificar o resultado, da mesma forma que houve no referendo revogatório de Hugo Chávez em 2004 — uma delas, produzida por uma empresa de Washington, previa derrota chavista por 60% a 40%, mas deu o inverso.

Ainda assim, os eleitores gregos votaram OXI de forma maciça: 60% a 40%.

Saul Leblon, na Carta Maior, produziu uma importante reflexão antes mesmo de saber o resultado.

Porém, acrescentamos que existe uma diferença essencial entre o Syriza e o partido que no papel deveria conduzir a resistência ao neoliberalismo no Brasil, o PT. Este último tornou-se co-gestor da austeridade e, portanto, corre o mesmo risco enfrentando pelos antigos partidos gregos de esquerda e pelo PSOE espanhol: sumir do mapa.

Redução da Maioridade Penal

Poema em revide aos recentes retrocessos


quinta-feira, 2 de julho de 2015

Até onde irá Eduardo Cunha?



O declínio da democracia brasileira teve uma noite promissora. Trucidando o regimento, cortando microfones e deixando de lado os ritos mais elementares do Parlamento, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), reverteu em menos de 24 horas a votação sobre a redução da maioridade penal.

Não foi a primeira vez. No fim de maio, havia aplicado a mesma manobra para reverter a derrota da PEC (Proposta de Emenda Constitucional), que enxerta o financiamento empresarial de campanha na Constituição. Isso em meio ao escândalo das “doações” das empreiteiras na Lava Jato. Não houve grande alarde. Por que então não tentar de novo?

Dessa vez seria até mais fácil. A construção midiática de que a violência deve ser combatida com maior endurecimento penal cimentou uma ampla opinião social em favor da redução. Tipos como Datena e Marcelo Resende fizeram sua parte.

Mesmo considerando que a reincidência no sistema prisional é três vezes maior que nas instituições para adolescentes. Mesmo sabendo que o Brasil está abaixo da média mundial no que se refere a crimes praticados por menores.

Ao contrário, o Brasil é um dos países em que se mata mais jovens. O Mapa da Violência, divulgado esta semana, mostrou que o número de homicídios contra jovens de 16 e 17 anos ultrapassou 10 por dia. Mas, nada disso importa. Era preciso reduzir a maioridade penal. Assim como era preciso aprovar o financiamento das campanhas por empresas. Assim como será preciso rever o modelo de partilha do pré-sal. Vox Cunha, Vox Dei.

Se perderem as votações, vota-se de novo. Simples assim, até ganhar. Ele é o dono da bola e faz questão de deixar isso claro. Conduz as sessões com seu sorriso cínico, deixa a votação correr até assegurar a maioria, telefona da cadeira de presidente para os deputados faltantes, convocando-os. Sem nenhum pudor impõe suas regras ao processo democrático.

Aprovará o que quiser naquela Casa. Sua meta de longo prazo é o parlamentarismo. Daremos um doce aos que acertarem quem ele imagina como primeiro-ministro. Um belo atalho ao poder máximo da República para alguém que não o conseguiria pelo voto popular.

Cunha é bom de bastidores, de lidar com deputados sedentos por pequenas vantagens. Mas uma eleição presidencial é menos recomendada para quem tem telhado de vidro. Talvez alguém resolva falar do escândalo da Telerj, ou da corrupção na Cehab (companhia de habitação do Rio), do flat luxuoso pago por um doleiro, ou ainda dos negócios escandalosos de Furnas. Talvez alguém se recorde que ele é hoje um dos principais investigados na Lava Jato.

Por enquanto, ele conta com o silêncio complacente da mídia. Nenhuma palavra sobre seu passado e seus procedimentos abusivos. Em relação a Lava Jato é como se seu nome não estivesse lá. Afinal, está prestando bons serviços aos conservadores de plantão. E segue como um trator, desmoralizando a democracia brasileira.

Aos que aplaudem, não custa lembrar o poema de Bertolt Brecht: “Primeiro levaram os negros/ Mas não me importei com isso / Eu não era negro / Em seguida levaram alguns operários / Mas não me importei com isso / Eu também não era operário / Depois prenderam os miseráveis / Mas não me importei com isso / Porque eu não sou miserável / Depois agarraram uns desempregados / Mas como tenho meu emprego / Também não me importei / Agora estão me levando / Mas já é tarde / Como eu não me importei com ninguém / Ninguém se importa comigo.”

Eduardo Cunha avança numa marcha avassaladora. Viola regras democráticas e repete votações a seu gosto. A complacência de hoje poderá ter um preço alto no futuro. Precisa ser barrado, antes que seja tarde para o Brasil.