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sábado, 13 de junho de 2015

Você sabe o que é o Foro de São Paulo?



por Diogo Antonio Rodriguez

Composto por partidos e movimentos de esquerda da América Latina e Caribe, como o PT, o fórum desperta o medo e a desinformação.


O Foro de São Paulo, composto por partidos e movimentos de esquerda da América Latina e Caribe, como o PT, o fórum desperta o medo e a desinformação. Saiba qual é a origem dessa organização, quem são seus membros e o quais seus planos para o futuro.

O que é o Foro de São Paulo?

É uma organização que junta vários partidos e movimentos sociais populares e de esquerda da América Latina e do Caribe. Ele foi fundado em 1990 pelo PT do ex-presidente Lula e pelo Partido Comunista Cubano de Fidel Castro, entre outros.

O Foro é uma organização comunista?

Não. As organizações que fazem parte do Foro são, sim, de esquerda. E também é verdade que alguns partidos comunistas são membros, mas o Foro em si não pertence a nenhuma corrente específica. Ele se autodeclara como sendo de esquerda, anti-imperialista, socialista e democrático.

O que faz o Foro de São Paulo?

É um fórum de debates que discute as alternativas à visão neoliberal da economia e da política. Esses grupos e partidos de esquerda trocam experiências e conhecimento a respeito de como construir políticas sociais. Explico melhor: no final dos anos 80, com a queda da União Soviética, parecia que a esquerda estava destinada a acabar. Alguns até sugeriam que a visão neoliberal da sociedade – baseada na utopia de que o livre mercado seria capaz de promover crescimento econômico para todos – era o “fim da história”. O Foro surgiu justamente para oferecer um contraponto a essa visão.

Ouvi dizer que o objetivo do Foro é implementar o comunismo na América Latina e que já está fazendo isso em vários lugares, como na Bolívia e na Venezuela. É verdade?

Não. Como já dissemos, o Foro de São Paulo apenas reúne seus participantes de dois em dois anos para discutir questões que sejam pertinentes aos seus membros. E em vários países há governantes de partidos integrantes do Foro sem que isso tenha significado o fim da democracia. No Chile, por exemplo, onde Michelle Bachelet, socialista, governou por um mandato para dar lugar a um presidente conservador em seguida (Sebastián Piñera, do Renovação Nacional).

Que países são governados por políticos que fazem parte do Foro?

Vários países da América Latina e do Caribe. Os principais são Brasil, Uruguai (Pepe Mujica), Argentina (Cristina Kirchner), Bolívia (Evo Morales), Chile (Michelle Bachelet), Peru (Ollanta Humala) e Equador (Rafael Correa) e outros.

É verdade que as FARC fazem parte do Foro de São Paulo?

Não. As FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, grupo guerrilheiro) tentaram participar de duas reuniões em 2004 e 2008, mas não conseguiram porque foram impedidos e não fazem parte do grupo. Em 2008 inclusive quem barrou a presença das Farc foi o PT, que ocupava a secretaria-executiva da entidade.

Dizem que o Foro era secreto até 1997. Verdade?

O Foro nunca foi secreto. Talvez ele fosse desconhecido porque a esquerda latino-americana começou a crescer no final dos anos 90, mas, pelo menos desde 1995 os jornais brasileiros sabiam da existência do grupo e noticiavam seus encontros, mesmo que fosse de maneira discreta.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Uma noite de São Bartolomeu no Brasil?


Em seu clássico "Declínio e Queda do Império Romano", Edward Gibbon afirma que a religião é o refúgio do crédulo, um instrumento político nas mãos dos estadistas inescrupulosos, fonte de riqueza e boa vida para o clero e, principalmente, motivo de riso para os filósofos. A isto poderíamos acrescentar outra coisa: as religiões também são o fermento das guerras civis.

A Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572) em Paris, França, é uma prova eloquente de como as desavenças religiosas e políticas podem rapidamente degenerar em conflitos sangrentos. O mesmo pode se dizer da Guerra Civil Inglesa (também chamada de Revolução Inglesa) que de 1642 a 1649 ceifou milhares de vidas de católicos e protestantes na Inglaterra.

Nos últimos meses, talvez embriagados pelo poder conquistado na Câmara dos Deputados (atualmente presidida por um pastor) os evangélicos tem se tornado mais e mais agressivos. Em Minas Gerais uma mulher foi presa destruindo a imagem ao lado de uma Igreja Católica http://g1.globo.com/mg/vales-mg/noticia/2015/03/mulher-e-presa-destruindo-imagem-de-igreja-com-golpes-de-enxada-em-mg.html . A perseguição a Mãe Dede de Iansã por evangélicos pode ter causado a morte dela na Bahia http://oglobo.globo.com/sociedade/religiao/parentes-de-ialorixa-morta-dizem-que-ela-teve-infarto-causado-por-perseguicao-religiosa-16396381 . Uma imagem da Virgem Maria foi quebrada e, depois, mijada em público no Amazonashttp://portaldoamazonas.com/evangelicos-urinam-e-depois-queimam-imagem-de-nossa-senhora-na-regiao-de-cajazeiras . Isto para não falar dos linchamentos fatais que foram legitimados por jornalistas evangélicos como Rachel Sheherazade e das campanhas homofóbicas conduzidas por Malafaia, Marcos Feliciano e outros pastores de igual ou pior calibre.

Paciência tem limite. O brasileiro não é um povo pacífico, nem cordial. Nossa História é recheada de episódios de violências inenarráveis praticadas tanto por agentes do Estado quanto por milicianos inspirados por razões religiosas (guerra contra os invasores holandeses protestantes), raciais, econômicas, políticas, ideológicas e até trabalhistas.

Não sou religioso, apenas um observador atento dos fatos. Tenho percebido que os evangélicos, instigados por seus líderes políticos e midiáticos, estão brincando com fogo. Quando se queimarem não ficarei surpreso. Antes disto, porém, creio que o MPF e a PF precisam fazer algo, como por exemplo, infiltrar agentes policiais nos templos-caixas-registradoras para coletar informações. Em seguida os líderes políticos e religiosos que fomentam a intolerância e a violência evangélica contra aqueles que consideram ser os inimigos da fé e dos templos deles (gays, católicos, umbandistas, etc…).

É melhor que os responsáveis pela intolerância sejam identificados e respondam na forma da Lei, antes que toda legalidade seja destruída nas ruas. Uma reação direta e organizada dos membros das outras religiões e grupos sociais que tem sido perseguidos, agredidos, humilhados e sistematicamente provocados por evangélicos não é desejável, nem pode ser estimulada. Contudo, a inação do Estado pode ser percebida como conivência e neste caso as autoridades encarregadas de preservar a legalidade estarão flertando com a barbárie. Se o Estado se recusar a tomar providências as vitimas podem se convencer de que devem encontrar na vingança privada e coletiva um substituto necessário à justiça que lhes tem sido negada.

Este tema é espinhoso e desagradável. Por isto, sugiro aos leitores acalmarem seus ânimos escutando Raul Seixas e Marcelo Nova enquanto as autoridades fazem o que deve ser feito.



Contra o capitalismo global, a "ideia comunista"


Filósofos como Alain Badiou, Slavoj Zizek e Daniel Bensaid veem no comunismo o único horizonte contra a predação e a privatização do mundo.

Para alguns, defender o comunismo hoje é um anacronismo.

Alinhar-se a Karl Marx mesmo na civilizada França do século XXI pode ser arriscado. O filósofo Alain Badiou foi alvo de críticas que o viam como um "perigoso revolucionário" e até mesmo "defensor do regime de Terror", aquele que tomou conta da Revolução francesa e do comunismo stalinista. Seus detratores eram alguns dos chamados "novos filósofos", surgirdos na década de 70, que com o passar do tempo se tornaram anticomunistas intransigentes.

"O capitalismo global humanizado não pode ser o horizonte final da esquerda”, se insurge o filósofo e psicanalista Slavoj Zizek, para quem é preciso reabilitar a “ideia comunista”, não como algo que já fracassou mas como um universalismo a ser construído.

"Estou convencido que numerosos problemas como os ecológicos, biogenéticos e novas formas de apartheid não podem ser resolvidos pelo capitalismo global", esclarece Zizek, que organizou com Alain Badiou em 2009, em Londres, um colóquio chamado On the idea of communism, que se repetiu em Berlim, em 2010.

O comunismo, o futuro do Homem
Para defender Alain Badiou dos ataques dos "novos filósofos" Zizek e Fabien Barby escreveram, em março de 2010, um manifesto ao qual se juntaram centenas de filósofos e intelectuais do mundo inteiro. O texto do manifesto dizia claramente: "nós não renunciaremos jamais à ideia do comunismo". 

E continuava: "Por mais problemática que seja essa ideia, por mais nova que pareça sua forma de se tornar realidade, por mais críticos que sejamos sobre a história do comunismo no século passado, por mais diferentes que sejam nossas propostas, uma coisa é certa : um comunismo a ser reinventado, de um novo gênero ainda indefinido, é o único futuro do Homem. Porque esta é a eterna e única verdade política. A única justiça que a razão humana pode conceber de forma sadia".

O manifesto concluía: "O tempo não é mais, queiram ou não, dos fracos, pretensiosos e arrivistas ’novos filósofos’ mas dos filósofos da renovação".

Filósofos contemporâneos como Etienne Balibar, a exemplo de Badiou e Zizek, acham que Marx deve ser o contraponto do capitalismo atual. A mesma coisa pensava o filósofo Daniel Bensaïd, morto em 2010, em Paris.

O que os une é uma certeza: Karl Marx continua a ser um filósofo fundamental. Eles se debruçaram sobre os escritos de Marx e defenderam em livros e conferências a pertinência de seu pensamento e da idéia do comunismo, que Badiou chama de "hipótese comunista".

Provocativo e dotado de um senso de humor inabalável, Zizek declarou a um jornal francês: "Continuo comunista porque todo mundo pode ser socialista, até mesmo Bill Gates".

Badiou e Zizek são os dois filósofos europeus mais conhecidos, traduzidos e comentados no mundo. Para Badiou, como para Zizek, "o desatre obscuro" do stalinismo (como o denomina Alain Badiou) e o fracasso do “socialismo real” não invalidam o horizonte de emancipação radical que é a “ideia comunista”, que eles reatualizam em novas formas de ação. Ambos afirmam um universalismo concreto, um universalismo de combate.

Alain Badiou apresentou seu amigo Zizek em 2008 e novamente este ano em seu seminário como alguém que vem de um horizonte filosófico diferente. "O pensamento de Zizek é fruto da tensão entre o idealismo alemão (Kant, Schelling, Hegel) e Lacan. Sua dialética é mais a da negação, numa elaboração que se faz do lado de Hegel e do real, num conceito que ele encontra em Lacan".

Quanto a seu próprio horizonte filosófico, Badiou diz que ele se constituiu na tensão dialética entre a ideia e a liberdade, entre Platão e Sartre tentando uma resposta à pergunta, "como a soberania da ideia, da verdade, pode ser compatível com a liberdade?"

Renovar a vocação igualitária do comunismo
Citado por Etienne Balibar, o filósofo Louis Althusser, seu mestre, dizia que o comunismo estava presente no meio de nós, imperceptível, invisível, nos interstícios da sociedade capitalista, em lugares onde os homens se associam em atividades sem fins lucrativos.

De passagem por Paris este mês de junho, Zizek foi convidado a falar no seminário que Alain Badiou dá na École Normale Supérieure de Paris, que frequento há alguns anos. Ele estava na capital francesa para o lançamento de seu livro Menos que nada - Hegel e a sombra do materialismo dialético, prefaciado por Badiou, que o considera "um dos mais importantes livros de filosofia lançado nos últimos anos".

Em um livro anterior, Primeiro como tragédia, depois como farsa, Zizek voltava a Hegel, que considerava que a história se repete necessariamente. Karl Marx observou: "uma vez como tragédia e na vez seguinte como farsa". Ao que Herbert Marcuse acrescentou: "a farsa pode ser mais terrível que a tragédia que ela repete". Considerado por muitos como o "filósofo mais perigoso do Ocidente", o agitado Zizek tem como ambição defender a “ideia comunista”, recomeçar do início, "o que significa não reproduzir o que foi um fracasso mas diante dele renovar a vocação igualitária original do comunismo".

Dito isto, é evidente que ele não vê solução no mercado.

“Se há uma lição a tirar do fracasso da União Soviética é que o dirigismo da economia nacionalista só funciona numa certa etapa de desenvolvimento industrial tradicional. Não tenho uma fórmula clara. Mas a solução que entrevejo é a de um Estado sustentado por um movimento popular, por uma mobilização extraparlamentar”, declarou ele em 2010, em conferência parisiense. Ele citava como digna de grande interesse a experiência de Evo Morales na Bolívia. Para Zizek, Morales conseguiu uma poderosa mobilização da maioria silenciosa indígena. Assim, ele é sustentado por uma mobilização permanente da maioria.

Ainda não havia o Podemos, na Espanha, nem o Syriza, na Grécia, que empolgam o filósofo hoje.

Segundo Zizek, o stalinismo foi algo muito mais enigmático que o nazismo. Por isso ele concorda com Badiou que chamou o período stalinista de "desastre obscuro". Para Zizek, os dois totalitarismos não podem ser comparados por múltiplas razões que explica.


Na conferência que faria no mês em que morreu, em Paris, em janeiro de 2010, Daniel Bensaïd, filósofo e militante trotskista escreveu um longo texto no qual reafirmava sua convicção que o comunismo é único horizonte contra "a predação e a privatização do mundo".

Ele escreveu: "De todas as formas de nomear 'o outro', o que está em face do obsceno capitalismo, a palavra comunismo é aquela que conserva maior sentido histórico. É ela que melhor evoca o comum que se dá na partilha e na igualdade, a partilha do poder, a solidariedade que se opõe ao cálculo egoísta e à concorrência generalizada, a defesa dos bens comuns da humanidade, naturais e culturais, a extensão de um campo de gratuidade dos serviços e bens de primeira necessidade, contra a predação generalizada e a privatização do mundo".

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Seria o papa Francisco comunista?





Ao criticar abertamente o livre mercado, o papa Francisco dividiu os católicos: aqueles mais à esquerda passaram a endeusá-lo, enquanto os representantes da direita o acusam de ser comunista.

A cisão decorre das últimas declarações do pontífice. O líder da Igreja Católica vem fazendo duras críticas ao capitalismo - primeiro como fonte de desigualdade e segundo como uma economia que "mata".

Mas seria o papa um marxista radical?

Ao retornar das comemorações do Dia da Vitória em Moscou, na Rússia, no mês passado, o presidente cubano Raúl Castro parou em Roma para agradecer ao papa Francisco por seu papel em reaproximar Cuba e Estados Unidos. "Se o papa continuar nesse caminho, eu vou voltar a rezar e retornar à Igreja ─ não estou brincando", disse Castro.

Em setembro deste ano, o papa Francisco poderá devolver os elogios ao fazer uma escala em Cuba durante sua viagem aos Estados Unidos, na que pode ser a visita internacional mais difícil de seu pontificado.

O apoio de Raúl Castro tende a prejudicar o papa Francisco junto à direita americana, cujos principais integrantes reagiram duramente à reaproximação do presidente Barack Obama com Havana.

"Há muito ceticismo entre os católicos americanos", diz Stephen Moore, economista-chefe do centro de estudos conservador The Heritage Foundation, em Washington.

Moore, que se diz católico, acusa o pontífice de ter "claramente tendências marxistas".

"É inquestionável que ele tem se mostrado bastante cético em relação ao capitalismo e ao livre mercado, e eu acho isso muito preocupante".

O radialista conservador Rush Limbaugh é menos cerimonioso. Ele descreve a exortação apostólica do papa Francisco Evangelii Gaudium ("A Alegria dos Evangelhos") como "puro marxismo".

Visões diferentes

Os EUA estão longe de ser a nação mais cristã do Ocidente. Há 80 milhões de católicos batizados, e se trata da maior denominação religiosa do país. Muitos de seus integrantes encaram o agora santo João Paulo 2º como um papa-herói porque ele era um valente opositor da Guerra Fria ─ e isso aumenta o sentimento deles de traição em relação a Francisco.

Embora a taxa de aprovação do atual pontífice ainda seja alta, especialmente entre católicos democratas, Francisco tem uma presença polarizada, e a questão "o papa é comunista?" realmente importa.

João Paulo 2º e Francisco vêm de mundos muito diferentes, e isso inevitavelmente influenciou o pensamento dos pontífices em assuntos como economia e justiça social.

O primeiro passou grande parte de sua vida sob regimes totalitários ─ primeiro sob ocupação nazista durante a 2ª Guerra Mundial, depois a dominação soviética e stalinista da Polônia durante a Guerra Fria. Tudo o que ele experimentou como padre e bispo fizeram com que ele visse o comunismo como inimigo.

Em contrapartida, Francisco ─ ou Jorge Bergoglio, seu nome de batismo ─ viveu sob o regime do líder nacionalista argentino, Juan Carlos Perón.

Austen Ivereigh, que escreveu a biografia do papa Francisco e estudou teologia na Argentina, diz que, embora tenha dominado a política argentina, o peronismo é difícil de ser definido em termos políticos convencionais.

"Não é nem de esquerda nem de direita", diz ele. "Mas o peronismo bebe de um tipo de ressurgimento nacionalista na Argentina, nas décadas de 30 e 40, e era muito identificado com a classe operária, acima de tudo, e especialmente com os sindicatos".

Ivereigh acredita que o jovem Bergoglio tenha sido profundamente influenciado pelas ideias peronistas.

João Paulo 2º era considerado por muitos católicos como 'papa-herói' por sua luta contra o comunismo durante Guerra Fria
Os dois papas também tinham entendimentos muito diferentes da Teologia da Libertação, movimento polêmico baseado na convicção de que os evangelhos exigem a opção preferencial pelos pobres.

João Paulo 2º era um crítico dessa corrente teológica. Em sua opinião, a Teologia da Libertação aproximava os padres e bispos de uma ideologia quase violenta e marxista.

Já Francisco, apesar de ter rejeitado o marxismo, aceitou muitos dos princípios da Teologia da Libertação, expondo o que Ivereigh chama de "versão nacionalista" do movimento, ou a chamada "Teologia do Povo".

'Doutrina Social da Igreja'

No entanto, os escritos econômicos tanto de João Paulo 2º quanto de Francisco também refletem uma tradição intelectual, a Doutrina Social da Igreja - conjunto de orientações reunidas em 1891 em uma encíclica chamada de Rerum Novarum, na qual o papa Leão 13 discorria sobre o "espírito de mudança revolucionária" que então varria a Europa.

Muitos dos ensinamentos são uma clara refutação das ideias comunistas que eram parte dessa mudança, mas também uma crítica de aspectos do capitalismo. Sendo assim, trata-se de uma mistura pouco convencional que não se adequa ao maniqueísmo esquerda-direita que dominaria a política do século seguinte.

Maurice Glasman, economista britânico mais alinhado à esquerda, estudou a Doutrina Social da Igreja em seu PhD. Ele foi atraído pela maneira como a corrente teológica rejeita as ideologias convencionais tanto da direita quanto da esquerda.

"Ela (Doutrina Social da Igreja) realmente se opõe à ideia de que há um Estado ou o mercado", diz ele. "A corrente teológica acredita em incentivar a sociedade ─ o que chama de solidariedade ─ para que possa resistir à dominação dos pobres pelos ricos, mas por meio de sindicatos e associações vocacionais e o que é chamado de subsidiariedade, que é a descentralização do poder".

Glasman diz que a Doutrina Social da Igreja se opõe ao comunismo porque "mantém o direito à propriedade privada" e é "anticoletivista".

Ele tem ainda vivo na memória um episódio em que foi criticado por um economista americano depois de apresentar um trabalho em uma recente conferência no Vaticano sobre a corrente teológica.

"Uma palavra (define) o que você está falando", teria dito o americano a Glasman. "Isso se chama comunismo. Você está tentando interferir nas prerrogativas de administração, você está tentando interferir com o capital, você está tentando interferir nos preços. E isso vem sendo tentado há muito – pela União Soviética".

Durante a discussão que se seguiu às acusações, Glasman ficou maravilhado ao ser apoiado tanto pelo papa quanto pelo arcebispo de Munique, coincidentemente chamado Cardeal Marx.

A interpretação de Francisco da Doutrina Social Católica certamente soa mais radical do que a de seus antecessores. Na Argentina, ele reforçou que os padres devem ver o mundo através dos olhos dos pobres, ao morar entre eles, e trouxe essa abordagem com ele quando chegou a Roma.

Evangelii Gaudium – o documento que enfureceu Rush Limbaugh - argumenta que a desigualdade cria "um estado de pecado social que clama ao céu". O papa Francisco também já disse que o desemprego é o "resultado de uma escolha mundial, de um sistema econômico que levou a uma tragédia, um sistema econômico que tem a seu centro um Deus falso, um Deus falso chamado dinheiro".

Philip Booth, economista católico que trabalha no Institute for Economic Affairs, em Londres, descreve Francisco como um "corporativista" que acredita no Estado provedor e opina que as declarações do papa são "perigosas" porque elas podem "nos levar à política ruim".

Comunista?

A resposta para a pergunta no título desta reportagem é "não". Há muitos à esquerda que admiram o papa Francisco, e há muitos à direita que o criticam, mas ele definitivamente não é comunista.

Por outro lado, ele parece gostar de provocar as pessoas. Ele publicará em breve uma encíclica sobre o aquecimento global, e um padre que já teve acesso ao conteúdo disse à BBC que "se algumas pessoas acham que ele (Francisco) é um marxista (agora), espere para ver o que ele diz sobre o meio ambiente".

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Caras de pau-brasil

Foi preciso que o FBI entrasse em cena para desencadear o escândalo do futebol. Porque, se dependesse do governo, da mídia, dos torcedores... Bem, deixemos para lá



O mundo se curva, o Brasil docet, diriam os antigos romanos. Ensina, leciona de cátedra. Não somos por acaso o país do futebol, a pátria de chuteiras. Em matéria, há tempo deixamos de ser os reis da bola, somos, porém, imbatíveis no gramado da corrupção.

Tudo escancarado há mais de 40 anos, sem ser denunciado e punido. A imponente mazela perpetrada em todos os campos do futebol nativo, a falcatrua constante, o engodo feroz, são vergonhosamente ignorados até pela mídia, esportiva ou não, com raríssimas e digníssimas exceções. Quando não são secundados, ou mesmo incentivados.

Tudo começa, no plano internacional, com João Havelange, dono da Fifa desde 1974, e chega agora a José Maria Marin. Na origem e no desenvolvimento os protagonistas nativos campeiam, graças à inestimável contribuição, com efeitos determinantes no cenário nacional por uma época farta, de Ricardo Teixeira, antecessor de Marin, autoexilado, para salvar a pele, em Boca Raton, paradeiro de nome bastante persuasivo. Nem por isso, seguro, a esta altura do campeonato.

Criatura de Havelange, de quem já foi genro, Teixeira corre riscos até ontem inesperados: entrou no enredo o FBI, aquele que a gente se acostumou a ver triunfar na televisão, e Marin, finalmente alcançado na Suíça, uma vez deportado para os Estados Unidos, lá será julgado e condenado com o rigor de quem leva as coisas a sério. Parece que Teixeira caiu na brasa.

Não haverá um Gilmar Mendes ianque para tirar da enrascada os envolvidos na grande tramoia. Como se deu, só para citar um exemplo, com o banqueiro Daniel Dantas, alcançado pela Operação Satiagraha, preso duas vezes e duas vezes libertado pela intervenção de Mendes, capaz, aliás, de emperrar o funcionamento da Suprema Corte brasileira em proveito dos seus próprios objetivos públicos.

Há certo parentesco entre os casos, a se considerar que Dantas já foi condenado fora do País, em Nova York, em Cayman e em Londres, enquanto aqui na terrinha pode-se permitir viver à larga em perfeito sossego. Desde a clamorosa roubalheira-bandalheira da privatização das comunicações, o maior escândalo da história pátria, até o enterro da Satiagraha e o desterro do delegado Paulo Lacerda para Portugal.

Não recordo que por ocasião destes dois momentos da trajetória de Dantas a mídia nativa tenha entrado em ação para martelar diuturnamente em denúncias e acusações como se dá hoje em relação ao “petrolão”. Do período que vai da Operação Chacal à Satiagraha sobrou a constrangedora impressão de que o banqueiro do Opportunity vive em paz por ter todo mundo no bolso.

A diferença entre Marin, e quantos mais vierem atrás dele, e Dantas, é representada, em primeiro lugar, pela presença do FBI, sem contar que logo após virá a Justiça americana, e os EUA são muito severos em relação à lavagem de dinheiro dentro de suas fronteiras. Por ora, Joseph Blatter, o presidente da Fifa, e outros, estrangeiros e nacionais, todos herdeiros diretos ou indiretos de Havelange, escapam aparentemente à investigação do Federal Bureau. Não se excluam surpresas, contudo.

Faz duas semanas, CartaCapital dedicou uma capa à CBF de Marco Polo Del Nero. A Confederação queixou-se, alegou não ter sido procurada para dirimir nossas dúvidas, como se não estivéssemos largamente habilitados a imaginar quanto teríamos de ouvir. Retrucamos, de todo modo, que muito nos agradaria entrevistar o próprio presidente da entidade, com total liberdade para formular perguntas. Não houve resposta.

Sabemos que na terra brasilis, os donos de poder, em qualquer instância, são intérpretes insuperáveis de uma secular tradição de desfaçatez, prepotência e hipocrisia na certeza da impunidade por direito divino. São os caras de pau-brasil. O futebol, está claro, entre nós não é assunto de somenos, e algo intrigante é a razão por que, sempre a ficar em meros exemplos, as partidas noturnas tenham necessariamente de acontecer depois da novela da Globo. Ah, sim, a Globo... Quanto valerão tantas benesses que lhe foram concedidas?

E é possível que o governo federal, hoje representado por um ministro do Esporte inepto, não intervenha nos gramados da política do futebol, entregue a uma máfia de cartola? Permito-me lembrar que a seleção canarinho adentra aos gramados do mundo ao som do Hino Nacional.

Quem é o boçal que atacou um imigrante haitiano e por que ele não está na cadeia.


Barbosa, um criminoso

Por Kiko Nogueira, via DCM

O nome dele é Daniel Barbosa. Tem 42 anos, é “gerente de vendas”, consome Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo e Danilo Gentili no Facebook, mora na região metropolitana de Porto Alegre, é evangélico e é um boçal.

Mais do que um boçal, é um criminoso.

Barbosa aparece num vídeo que viralizou importunando um haitiano num posto de gasolina. O frentista está enchendo um tanque quando ele o intimida com um interrogatório maluco sobre o desemprego no Brasil e como ele tinha “sorte”.

Para a câmera, operada por um cúmplice, Daniel fala da invasão bolivariana, do comunismo e de como o sujeito faria parte de um exército do “Foro de São Paulo”.

O Foro de São Paulo é o último refúgio do canalha, como diria Samuel Johnson.

Em sua cabeça convoluta, Barbosa acha que quem vem do Haiti tem como objetivo criar a “Pátria Grande”. O passo seguinte é o negro invadir a casa dele, fazer reforma agrária em sua samambaia, fumar maconha em seu quarto e fornicar com sua mulher.

Na filmagem, ele está vestindo o uniforme camuflado do Bope, a tropa de elite da polícia do Rio de Janeiro imortalizada por Wagner Moura. “Aqui tem um dos milhares de haitianos trazidos pelo governo comunista da Dilma Rousseff enquanto milhares, só no mês passado, perderam o emprego no Brasil. Parabéns, irmão, você é muito competente. Aqui no Brasil, são todos incompetentes”, diz ele.

Questiona também o rapaz sobre o treinamento militar que ele teria. Diante da negativa, sai com uma conversa insana: “Vocês estão vendo como funciona o negócio? Meu irmão, a gente já está em guerra”.
Barbosa faz parte de um grupo chamado Cruzada pela Liberdade, bando de desocupados de extrema direita cujo lema é “lutar contra a corrupção”. Esteve em todas as manifestações anti Dilma, acredita em intervenção militar, é fã de Kim Kataguiri.

Enfim, é uma besta. Mas não uma besta inofensiva e nem uma exceção.

Deveria estar na cadeia. A lei nº 7 716, de 5 de janeiro de 1989, em seu artigo 1º, diz que “serão punidos os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Portanto, isso engloba a conduta de segregar estrangeiros, que vem a ser delito inafiançável e imprescritível de acordo com a Constituição, artigo 5º, inciso XLII.

É, de certa forma, um tipo novo de animal por aqui. O Brasil que se orgulhou de receber italianos, judeus, alemães, portugueses etc tem agora um espécime que não fazia parte da nossa fauna: o xenófobo, eventualmente filho ele mesmo de imigrantes.

Quanto tempo até um depravado como Daniel Barbosa linchar um haitiano? Eu diria pouco. Pouquíssimo.