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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Não haverá 2018






No Brasil, toda a reflexão e ação política parece atualmente ter os olhos única e exclusivamente voltados para o ano de 2018.

Como se o país pudesse voltar a uma normalidade mínima depois de ficar dois anos nas mãos de um ocupante do lugar de presidente da República com perfil mais adaptado a trabalhar em filmes de aprendiz de gângsteres e com aceitação popular zero, de um Congresso Nacional composto de indiciados e oligarcas e de um Poder Judiciário exímio em operar com decisões completamente contraditórias de acordo com os interesses imediatos do juiz que julga.

No entanto há de se trabalhar com uma hipótese de grande plausibilidade, a saber, a de que 2018 não existirá.

A cada dia que passa fica claro que o Brasil está atualmente submetido a uma espécie de guerra civil capitaneada por aqueles que tomaram de assalto o Estado brasileiro contra os setores mais desfavorecidos da população. Sim, uma guerra civil silenciosa, mas tão brutal quanto as guerras abertas. Pois esta é uma guerra de acumulação e espoliação, de vida e de morte.

De um lado, um sistema financeiro com lucros inacreditáveis para um país que se diz em crise, sistema este com amplo controle das políticas do Estado. Junto a ele, a elite rentista do país com seus ganhos intocados, sua capacidade de proteger seus rendimentos de qualquer forma de tributação.

Na linha de frente, representando seus interesses, uma casta de políticos degradados que criam leis e usam deliberadamente o dinheiro público para se blindar, que mudam regras eleitorais para continuarem onde estão e defenderem os verdadeiros donos do poder.

Do outro, temos a massa da população empobrecida e agora submetida a um sistema de trabalho que retira o mínimo de garantias de segurança construídas nesse país, que faz aposentadoria se transformar em uma relíquia a nunca mais ser vista. Uma massa que sentirá rapidamente que ela tem apenas duas escolhas: ou a morte econômica ou a submissão ao patronato.

Junto a elas, a população que se vê humilhada da forma mais brutal por prefeitos que marcam crianças na escola para que elas não comam duas refeições, que violentam moradores de rua com jatos de água nos dias frios para que eles sumam, governadores que destroem a céu aberto universidades que não podem mais começar seu ano letivo por falta de verbas.

Toda essa população submetida a uma força policial que atira em manifestantes, invade reuniões públicas sem que nenhuma punição ocorra.

Seria suprema ingenuidade acreditar que esses que agora nos governam, esses senhores de uma guerra civil não declarada, esses mesmos que têm consciência absoluta de que nunca ganhariam uma eleição majoritária no Brasil para impor suas políticas aceitem ir embora de bom grado em 2018.

Quem deu um golpe parlamentar tão tosco e primário quanto o brasileiro (lembra-se das "pedaladas fiscais"? Quem mais foi punido neste país? Só o antigo governo federal dela se serviu?) não conta em sair do poder em 2018.

Só que há várias formas de 2018 não existir. A primeira delas e assistirmos uma eleição "bielorrussa". Trata-se de uma eleição na qual você impede de concorrer todos aqueles que têm chance de ganhar, mas que não fazem imediatamente parte do núcleo hegemônico do poder atual. Caso essa saída não dê certo, teremos uma mudança mais radical da estrutura do poder, ou seja, uma eliminação da eleição presidencial como espaço possível de mudança.

Então aparecerá a velha carta do parlamentarismo: o sonho de consumo das oligarquias locais que veriam enfim seu acesso direto ao poder central. Pois não confundam o parlamento brasileiro com o sueco. Entre nós, o Congresso sempre foi a caixa de ressonância de interesses oligárquicos com seus casuísmos eleitorais.

Por fim, se nenhuma das duas opções vingar, não há de se descartar uma guinada mais explicitamente autoritária. Não, esta hipótese não pode ser descartada por nenhum analista minimamente honesto da realidade nacional.

Neste sentido, pautar todo debate político atual a partir do que fazer em 2018 é simplesmente uma armadilha para nos prender em uma batalha que não ocorrerá, para nos obrigar a naturalizar mais uma vez uma forma de fazer política, com seus "banhos de Realpolitik", razão mesma do fracasso da Nova República e dos consórcios de poder que a geriram.

Melhor seria se estivéssemos envolvidos em um luta clara pela recusa dos modelos de "governabilidade" que nos destruíram.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

NAZISMO, FASCISMO E MARXISMO: UM POUCO DE HISTÓRIA

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Vivemos a Era da Pós-verdade, que consiste na disseminação de mentiras suportadas por argumentos forjados e interpretação equivocada ou propositalmente distorcida de contextos históricos e sociais. Aqueles que as disseminam o fazem por profunda ignorância sobre o assunto abordado ou por desonestidade intelectual crua.

Nas esteira das mentiras inconsistentes e absurdas - largamente difundidas por aqueles que querem crer em despautérios -, está a categorização das ideologias fascista e nazista como pensamento e prática das esquerdas. Esta afirmação parte de profundo desconhecimento sobre o tema ou mera má-fé?

Bem, como acredito na educação crítica como meio de transformação e desenvolvimento humano das pessoas, penso que importante tocar neste tema. Para se compreender a origem do fascismo e do nazismo é preciso conhecer contextos históricos, sociais e econômicos, que permitiram que estas ideologias brotassem e se consolidassem, nas primeiras décadas do século passado.

Durante a Primeira Grande Guerra houve maior intervenção e controle do Estado em praticamente todas as áreas, não obstante, com grande relevância na economia. A este processo, que recrudesceu na Europa durante o período após a Primeira Grande Guerra Mundial, denominamos Ordenação Estatal, resultado da necessidade de reconstrução de alguns países e da recuperação de suas economias.

As recorrentes crises econômicas acentuaram as pressões sociais e produziram transformações na conjuntura política. Neste período, o anarco-sindicalismo se tornou muito forte na Itália, especialmente por representar as reivindicações dos trabalhadores. O Partido Comunista Italiano também havia se organizado no país e tinha, por sua vez, fortes ligações com o socialismo da Revolução Bolchevique de 1917.

A monarquia parlamentar italiana era liderada pelo Primeiro Ministro, de matriz liberal, Giolitti. O principal partido que fazia oposição a Giolitti era o Partido Socialista Italiano (PSI), do qual Benito Mussolini foi membro até o momento em que apoiou a entrada da Itália na Primeira Guerra. Tal gesto contrariou as decisões do PSI, e Mussolini foi expulso da organização.

Em 1919, Benito Mussolini articulou uma nova organização de caráter paramilitar, formada por muitos ex-combatentes. Inicialmente, a batizaram de Fascio de combatimento, que remetia ao feixe de lictor (fascio de littorio), símbolo do poder do antigo Império Romano.

Os integrantes do Fascio vestiam uniformes paramilitares, com destaque para as camisas negras. Em 1920, Mussolini transformou essa organização em partido político, o Partido Nacional Fascista, que disputou as eleições no ano seguinte, ocupando 20 cargos para deputados. Em 1922, os fascistas promoveram a famosa Marcha sobre Roma, nos dias 26 e 27 de outubro, cujo objetivo era forçar o rei Vitor Emanuel III a nomear Mussolini Primeiro Ministro. O objetivo foi conquistado, no dia 30, o rei, cedendo às pressões, o encarregou de formar um novo governo para Itália.

À época, Mussolini foi uma uma espécie de terceira via, que divergiu do fracassado liberalismo italiano e se contrapôs violentamente ao socialismo e ao anarco-sindicalismo. Fraudou as eleições para controlar o Parlamento, mandou eliminar os adversários - entre eles o deputado comunista Giácomo Matteotti - suprimiu a liberdade de imprensa e proibiu os partidos políticos, exceto o Partido Fascista, tornando-se o Duce (O Guia) de uma sórdida ditadura.

O Estado fascista se construiu forte e centralizado, totalitário, corporativista, de caráter nacionalista, anticomunista e militarmente expansionista. Uma das muitas contradições é que, apesar de anti-liberal, o fascismo se aliou a alguns empresários e banqueiros italianos e recuperou a economia investindo em grandes obras públicas.

Segundo De Felice, a consolidação da ideologia fascista se deu por intermédio de uma concepção mística da política e da vida em geral; da exaltação da coletividade nacional - ao contrário do marxismo que pregava o internacionalismo -, e do indivíduo incomum (o mito do chefe); de um regime político de massa, baseado no sistema de partido único, da milícia partidária e do controle das fontes de informação e propaganda; de um revolucionarismo verbal e conservadorismo de fundo; da ascensão da pequena e média burguesia às classes dirigentes; da criação e valorização de forte aparato militar, e do controle da economia pelo Estado, porém, com objetivo de concentrar as riquezas nas classes dirigentes e não de distribuí-la.

Com relação à Alemanha, a derrota na Primeira Guerra Mundial conduziu à extinção da monarquia e a instalação de uma República Federativa Parlamentarista, a República de Weimar. O caos do pós-guerra, gerado principalmente pelas rigorosas condições impostas pelo Tratado de Versalhes, que submeteu o país à desmilitarização, a perda de territórios e a altas indenizações aos países vencedores, se intensificou após 1919.

O momento crítico da República de Weimar ocorreu em 1923, quando a inflação assumiu proporções dramáticas. Apesar dos grandes industriais e proprietários de terra a tolerarem, pois se favoreciam com a desvalorização monetária que permitia liquidarem suas dividas com o Estado, a hiperinflação solapou as classes trabalhadoras. Não obstante, França e Bélgica ocuparam a região industrial do rio Ruhr, com o pretexto de garantir a extração e o fornecimento de matérias-primas como parte do pagamento da divida de indenização de guerra, aprofundando ainda mais a crise alemã.

A miséria e o clima de convulsão levaram a greves gerais, manifestações de rua e até sabotagens, visando a queda do governo. Neste cenário, Adolf Hitler, um ex-combatente condecorado do exército alemão, de ideias nacionalistas, antissemitas, anticomunistas e revanchistas, bem como dono de excelente oratória, toma para si o Partido dos Trabalhadores Alemães, fundado por Anton Drexler. Apesar do nome, o partido tinha postura antissemita e anticomunista, mas com o objetivo de angariar massas o rebatizaram com o nome de Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, conhecido pela sigla NAZI.

Aproveitando-se do ambiente conturbado, Hitler tentou um golpe de estado (o Putsche de Munique, em 1923) e foi preso. Na prisão escreveu o primeiro volume de Mein kämpf (Minha luta). Nesta obra salta aos olhos o antissemitismo e o anticomunismo de Hitler. A ideologia nazista preconizava a supremacia racial ariana. Portanto, tinha por objetivo a construção de uma sociedade fortemente hierarquizada, em que os privilégios dos arianos deveriam ser garantidos por sua superioridade racial (embasaram-se no darwinismo social).

Em Mein kämpf, Hitler desonestamente caracteriza o marxismo como uma ideologia judaica - a família de Karl Marx era de origem judaica -, sendo assim, seria imprescindível combatê-la.

Separei alguns trechos do livro para ilustrar melhor suas ideias:

“Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo”

"No pequeno círculo em que agia, esforçava-me, por todos os meios ao meu alcance, por convencê-los da perniciosidade dos erros do marxismo e pensava atingir esse objetivo, mas o contrário é o que acontecia sempre.”

”A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura. Por essa maneira de encarar o universo, conduziria a humanidade a abandonar qualquer noção de ordem. E como nesse grande organismo, só o caos poderia resultar da aplicação desses princípios, a ruína seria o desfecho final para todos os habitantes da terra.”

"Se o judeu, com o auxílio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter.”

“Nos anos de 1913 e 1914 manifestei a opinião, em vários círculos, que, em parte, hoje estão filiados ao movimento nacional-socialista, de que o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo.”

“O marxismo, cuja finalidade última é, e será sempre, a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar, com espanto, que nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram e cada dia com mais ardor, se apresentavam ao serviço da pátria.”

A Crise de 29 promoveu o colapso completo do liberalismo econômico. Segundo Hobsbawn, a grande depressão destruiu o liberalismo econômico por meio século. E com o liberalismo combalido ‘”três opções competiam agora pela hegemonia intelectual-política. O comunismo marxista (...) Um capitalismo privado de sua crença na otimização de livres mercados, e reformado por uma espécie de casamento não oficial ou ligação permanente com a moderada social-democracia de movimentos trabalhistas não comunistas. (...) A terceira opção era o fascismo, que a Depressão transformou num (...) perigo mundial.

Neste ambiente, o NAZI se tornou o partido dirigente das classes médias alemãs, pois elas compunham seu principal eleitorado. As classes médias escolhiam sua política conforme seus temores, então, com medo do Partido Comunista alemão, fortemente influenciado pelas orientações bolcheviques, preferiram se submeter à ditadura nazista a apoiar os "comunas".

No entanto, a ascensão nazista ocorreu não somente pelo apoio das classes médias, mas também pela introdução de uma propaganda brutal que possibilitou a integração das massas. A propaganda nazista não oferecia somente o fim da crise e do desemprego, mas aparelhados e financiados pela burguesia, prometiam melhores salários, participação nos lucros, nacionalização dos trustes, reforma agrária, anulação de dividas de camponeses, isto é, ofereciam mudanças no próprio sistema capitalista.

Os nazistas levaram a sério suas mentiras propagandista e impressionaram com sua força de organização. O resultado disto todos conhecemos: o genocídio de milhões de pessoas (judeus, comunistas, ciganos, deficientes físicos, testemunhas de Jeová, entre outros).

É preciso que fique claro que o fascismo e o nazismo foram ideologias e governos de extrema-direita, e que estiveram muito distantes da direita liberal e democrática. Segundo Michel Gherman, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Centro de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, “(…) a razão de existência do Estado era manter as diferenças raciais. Estabelecer um estado racialmente hegemônico, escravizar e eliminar raças inferiores e combater e exterminar a oposição que falava em classes sociais.

O nazismo, ao contrário do socialismo, não pretendia a abolição da propriedade privada e nem a coletivização dos meios de produção. O nazismo gostaria de garantir a arianização da economia, buscava ter alianças com grandes empresas verdadeiramente alemães e buscava construir um estado corporativo. O nazismo constituía-se assim, como modelo de capitalismo excludente e estatal. Nada mais distante do que qualquer posição a esquerda.”

Portanto, é preciso que se refute as pós-verdades. A quem serve quem reproduz mentiras desonestamente forjadas? Opiniões, hoje tão banalizadas, devem ser embasadas em argumentos sólidos e honestos. O conhecimento só é real quando construído pelo próprio indivíduo, e isso se dá por intermédio de pesquisa, crítica sobre as fontes e profunda reflexão, e relações dialéticas, ou seja, o processo de se educar. Caso contrário, será um papagaio à serviço de pessoas ou instituições intelectualmente desonestas.

Reproduzir estas pós-verdades sem nenhuma crítica ou reflexão, é o que denomino ignorância ostentação, pois não basta ser ignorante, há de se ostentar.

Seguem algumas indicações bibliográficas para quem quiser conhecer um pouco mais sobre o tema.

(Texto: Cadu de Castro)

PARA SABER MAIS:

ALMEIDA, Angela Mendes. A República de Weimar e a ascensão do nazismo. São Paulo: Brasiliense, 1999.

DEFELICE, R. Explicar o fascismo. São Paulo: Edições 70, 1980.

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX São Paulo: Companhia das letras, 1995.

PARIS, R. As origens do fascismo. São paulo: Perspectiva, 1970.

POULANTZAS, N. Fascismo e ditadura. São Paulo: Martins Fontes, 1970.


Excelente vídeo-aula de René Duarte


*Poderia aqui sugerir também Mein kämpf, mas pela falta de senso crítico de muitos, pode ser perigoso.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Para entender a Venezuela




Por Marcelo Zero, no blog Viomundo:

I – Antecedentes

Não é possível se entender a atual crise da Venezuela e tampouco o regime chavista sem se compreender como era esse país antes da “revolução bolivariana” e qual o seu significado geopolítico para os EUA.

A Venezuela está sentada na maior reserva provada de petróleo do mundo. São 298,3 bilhões de barris, ou 17,5% de todo o petróleo do mundo. Este petróleo está a apenas 4 ou 5 dias de navio das grandes refinarias do Texas. Em comparação, o petróleo do Oriente Médio está entre 35 a 40 dias de navio dos EUA, maior consumidor de óleo do planeta.

Essas imensas reservas começaram a ser exploradas no governo de Juan Vicente Gómez (1908-1935).

A renda gerada pela produção e exportação de hidrocarbonetos possibilitou a construção de uma infraestrutura viária e portuária, assim como permitiu a implantação de aparelho de Estado centralizado, que substituiu uma administração fragmentada e difusa.

Contudo, essa consolidação do Estado Nacional venezuelano embasou-se apenas na exportação de petróleo para o mercado norte-americano, o que levou à Venezuela a desenvolver “relações privilegiadas” com os EUA. Tal vinculação econômica e política marcou profundamente a política externa da Venezuela, bem como sua política interna.

Na década de 50 do século passado, a Venezuela já havia se convertido no segundo produtor e no primeiro exportador mundial de petróleo. No entanto, essa notável afluência econômica, obtida numa relação de estreita dependência com os EUA, não se refletia na diminuição de suas graves desigualdades sociais, na diversificação de sua estrutura produtiva e na implantação de um regime democrático estável. Tampouco numa política externa que combatesse seu alto grau de dependência.

Na realidade, esse processo econômico e político marcado por tal profunda dependência resultou em três grandes consequências que têm de ser levadas em consideração em qualquer análise séria sobre a Venezuela:

1) Um sistema político formalmente democrático, porém profundamente oligárquico.

2) Uma política externa avessa à integração regional e a uma articulação com outros países periféricos.

3) Uma estrutura social marcada pela desigualdade e a pobreza.

a) O sistema político oligárquico

Em 1957, foi celebrado o Pacto de Punto Fijo, articulado pelos EUA, pelo qual os partidos tradicionais e conservadores aceitaram alternar-se no poder, sem permitir a entrada de novos partidos. O objetivo, para os EUA, era garantir alguma estabilidade política na Venezuela, diante de sua importância como fornecedora de petróleo.

A realização de eleições presidenciais periódicas apenas entre os dois partidos conservadores (Ação Democrática-AD, de orientação socialdemocrata, e o Comitê de Organização Política Eleitoral Independente-COPEI, de tendência democrata-cristã), fez com que a Venezuela fosse apresentada como um exemplo raro de “democracia na América do Sul”.

Trata-se, é claro, de uma grosseira falácia. A bem da verdade, o sistema político gerado pelo Pacto de Punto Fijo era muito semelhante à política do “café-com-leite” da República Velha brasileira: por trás de uma fachada de democracia, escondia-se um sistema fortemente oligárquico.

Avalia-se que cerca de 50% da população teria sido excluída do exercício do voto desde os anos 60. Como o registro eleitoral era facultativo e como as zonas de inscrição estavam situadas apenas nas zonas mais prósperas do país, a população mais pobre não participava, na prática, de quaisquer decisões eleitorais.

Além disso, o federalismo venezuelano era profundamente autoritário. Cabia ao Presidente da República nomear todos os governadores e prefeitos biônicos, muitos dos quais hoje militam na oposição venezuelana.

Apenas em 1989 foram realizadas as primeiras eleições para prefeitos e governadores. Não bastasse, eram comuns as prisões de jornalistas, em razão da publicação de matérias que desgostassem o governo de plantão.

b) A política externa satélite dos interesses estratégicos do EUA

A “estabilidade” democrática, ainda que conservadora, formal e excludente, a afluência econômica proporcionada pelo petróleo e as relações privilegiadas com os EUA, mesmo que eventualmente contraditórias, fizeram com que Venezuela se isolasse do restante da América do Sul e dos demais países em desenvolvimento.

Na década de 60, esse relativo isolamento foi exacerbado pela aplicação, no plano das relações externas venezuelanas, da chamada Doutrina Betancourt, criada em homenagem ao ex-presidente Rómulo Betancourt.

De acordo com essa doutrina, a Venezuela deveria restringir o estabelecimento ou a manutenção de relações diplomáticas apenas a países que tivessem governos eleitos democraticamente conforme regras constitucionais estáveis.

Criada para agradar os EUA, pois justificava o isolamento diplomático de Cuba, a doutrina Betancourt, porém, complicou as relações com vários vizinhos da Venezuela aliados de Washington, inclusive o Brasil.

Assim, durante vários anos, a Venezuela recusou-se manter relações diplomáticas com o Brasil, que vivia uma ditadura. Por uma ironia da história, a “cláusula democrática”, que hoje o Brasil do golpe tenta impor à Venezuela no Mercosul, já foi usada contra nós pelos venezuelanos conservadores.

Após levar um “puxão de orelhas” de Washington, a Venezuela flexibilizou sua cláusula democrática e passou a usá-la apenas contra Cuba, contemplando os interesses dos EUA.

Esse isolacionismo da Venezuela, que privilegiava somente suas relações bilaterais com os EUA, fez até que aquele país aderisse tardiamente ao GATT, à Comunidade Andina e a outros organismos regionais e multilaterais, numa demonstração de total falta de iniciativa própria no cenário mundial.

Tal isolacioanismo dependente da Venezuela só começou a ser parcialmente revisto ao final da década de 80, quando a relativa abundância de petróleo no mercado internacional, que fez diminuir o preço dessa commodity, somada à crise da dívida, que viria a atingir aquele país ao final do decênio, produziu uma modesta mudança na estratégia de sua política externa.

De fato, a política externa isolacionista, baseada na noção de uma suposta superioridade político-democrática, na afluência econômica do petróleo e nas relações privilegiadas com os EUA, principal comprador dessa commodity, passou a ser substituída progressivamente por uma estratégia de inserção no cenário externo mais realista, na qual o Caribe e a América do Sul passaram a ter lugar de destaque.

Contudo, mesmo com essa mudança modesta e parcial, a Venezuela continuou a orbitar em torno dos interesses estratégicos do EUA na região, constituindo-se, junto com a Colômbia, no seu aliado mais fiel.

c) A estrutura social marcada pela desigualdade e a pobreza

Antes do “cruel e ditatorial” governo bolivariano, a Venezuela, o país com a maior reserva de óleo do mundo, tinha 70% de sua população abaixo da linha da pobreza e 40% do seu povo na pobreza extrema. Isso diz tudo sobre os governos anteriores.

Antes do governo de Chávez, em 1998, 21% da população estavam subnutridos. É isso mesmo. No país que, como Celso Furtado escreveu em 1974, tinha tudo para se tornar a primeira nação latino-americana realmente desenvolvida, 1 em cada 5 habitantes passava fome. Essa era a Venezuela dos Capriles, dos López e da “oposição democrática”.

Em relação à saúde pública, é preciso ressaltar que a mortalidade infantil era de 25 por mil, em 1990, quase o dobro da brasileira de hoje (13,8 por mil). Em relação à educação, apenas 70% das crianças concluía o ensino primário e o acesso às universidades era restrito às elites e à pequena classe média.

Além disso, o Estado de Bem Estar venezuelano tinha alcance mínimo. Com efeito, na era pré-Chávez, apenas 387.000 idosos venezuelanos tinham aposentadorias ou pensões. A maioria simplesmente vivia à míngua.

Desse modo, a Venezuela chegava ao fim do século XX com uma contradição gritante e insustentável: apesar das grandes riquezas derivadas da exportação de petróleo, o país convivia com problemas sociais muito graves.

Em 1989, no contexto de uma crise econômica, manifestações populares se multiplicaram por todo o país.

Uma delas, o “Caracazo”, foi duramente reprimida pelo Estado, cujas forças mataram indiscriminadamente entre 1000 e 3000 pessoas. Em muitas ocasiões, as manifestações estudantis foram também reprimidas, tendo sido ordenado o fechamento da Universidade Central da Venezuela, que durou três anos, em 1968.

Durante vários meses, as favelas de Caracas foram cercadas por forças militares e submetidas a toque de recolher.

Entretanto, isso não comoveu muito a “comunidade internacional”, que hoje chora as cerca de 100 vítimas dos embates nas ruas da Venezuela.

Afinal, eram apenas pobres e excluídos sendo submetidos a um regular massacre na América Latina. Em todo caso, já estava claro, na época, que o modelo econômico, social e político plasmado no Pacto de Punto Fijo tinha atingido seu limite.

Pois bem, a eleição de Hugo Chávez, em 1998, se insere justamente no colapso do Pacto de Punto Fijo: para uma população desprovida de sistemas públicos includentes (saúde, educação, moradia, etc.), a plataforma política de Chávez surgiu como proposta sem precedentes na história do país, o que explica, em grande parte, a sua popularidade nas camadas historicamente excluídas do povo venezuelano.

Embora o chavismo não tenha alterado, de forma significativa, a estrutura produtiva da Venezuela, que permaneceu estreitamente dependente das exportações do petróleo, Chávez implodiu as arcaicas estruturas sociais e políticas da Venezuela, bem como a política externa de alinhamento automático aos EUA.

A desigualdade, medida pelo índice de Gini, foi reduzida em 54%. A pobreza despencou de 70,8%, em 1996, para 21%, em 2010, e a extrema pobreza caiu de 40%, em 1996, para 7,3%, em 2010.

O chavismo implantou as chamadas misiones, projetos sociais diversificados e amplos que beneficiam cerca de 20 milhões de pessoas, e passou a criar um verdadeiro Estado de Bem Estar Social na Venezuela. Hoje, 2,1 milhões de idosos recebem pensão ou aposentadoria, ou seja, 66% da população da chamada terceira idade.

Na Venezuela pós-chavismo, a desnutrição é de apenas 5%, e a desnutrição infantil 2,9%.

Após o chavismo, a Venezuela tornou-se o segundo país da América Latina (o primeiro é Cuba) e o quinto no mundo com maior proporção de estudantes universitários.

Em relação à saúde pública, é preciso ressaltar que a mortalidade infantil diminuiu de 25 por mil, em 1990, para apenas 13 por 1000, em 2010.

Atualmente, 96% da população já tem acesso à água potável. Em 1998, havia 18 médicos por 10.000 habitantes, atualmente são 58.

Os governos anteriores ao de Chávez construíram 5.081 clínicas ao longo de quatro décadas, enquanto que, em apenas 13 anos, o governo bolivariano construiu 13.721, um aumento de 169,6%. Barrio Adentro, o programa de atenção primária à saúde que recebe a ajuda de mais de 8.300 médicos cubanos, salvou cerca de 1,4 milhões de vidas.

Nove anos após as grandes inundações de 1999, que destruíram centenas de e milhares de lares, o governo de Chávez deu início a um ambicioso programa de habitações populares. Já foram construídas e entregues 2 milhões de casas. Trata-se, proporcionalmente, do maior programa de habitação popular da América Latina.

Esses amplos e inegáveis avanços sociais fizeram daquele nosso país irmão um modelo de cumprimento dos Objetivos do Milênio da ONU.

No campo da política externa, Chávez rompeu com o paradigma anterior de país periférico e dependente e investiu na integração regional e no eixo estratégico da geoeconomia e geopolítica Sul-Sul, com destaque para as relações bilaterais com o Brasil, o que acabou conduzindo à adesão da Venezuela como membro pleno do Mercosul, algo que nos beneficia muito.

A Venezuela chavista tornou-se uma grande parceira do Brasil, comprando vorazmente nossos produtos e recompensando-nos com elevados superávits comerciais e com forte apoio político à integração do nosso subcontinente. Chávez era, sobretudo, um grande amigo do Brasil.

Ademais, Chávez estabeleceu relações próximas com Rússia, China e Cuba e passou a apoiar experiências políticas que divergiam da ordem mundial dominada pelos interesses dos EUA.

Em contraste com o isolacionismo anterior, Chávez fundou a ALBA e criou a Petrocaribe, objetivando fornecer petróleo a preços convidativos para os países daquela região. Isso explica porque a OEA, apesar dos esforços febris dos EUA e do Brasil, não consegue aprovar uma resolução forte contra o governo de Maduro.

Mas o principal mérito do chavismo foi ter implodido o conservador e excludente modelo político venezuelano, baseado no Pacto de Punto Fijo.

Com Chávez, assim como com Lula, Morales, Rafael Correa e outros, aqueles que não tinham voz e vez passaram a se fazer ouvir e a se fazer cidadãos. Passaram a comer, a se educar, a morar. Deixaram de ser invisíveis, miseráveis anônimos, e passaram a ser sujeitos da história.

O chavismo, entretanto, foi além e organizou e mobilizou as massas destituídas da Venezuela, bem como passou a dominar setores importantes do aparelho de Estado, como as Forças Armadas e o poder judiciário. Isso acabou privando as oligarquias venezuelanas de seus principais instrumentos de intervenção política. São esses fatores que ajudam explicar a radicalidade do atual processo político venezuelano.

II - A Reação

Com todos sabem, a reação das oligarquias ao chavismo não tardou. Além do conhecido golpe de 2002, que quase resultou na execução de Chávez, houve também o processo conhecido como “paro petrolero”, a suspensão das atividades da PDVSA, a estatal do petróleo da Venezuela.

A suspensão das atividades da PDVSA, controlada então pelas oligarquias venezuelanas, resultou numa contração do PIB de 18%, entre 2002 e 2003, inflação, carestia de produtos básicos, desemprego, aumento do risco país, etc.

No país com a maior reserva de petróleo do mundo, houve até falta de gasolina. O governo brasileiro, ao final de 2002, enviou navio tanque com gasolina para suprir parcialmente a carência de combustíveis na Venezuela.

O “paro petrolero” forçou o chavismo a intervir na PDVSA, dominando-a, assim como o golpe de 2002 forçou o chavismo a controlar mais fortemente as forças armadas.

Entretanto, essas ações antidemocráticas e destrutivas, das quais participaram as atuais das oposições venezuelanas, como López, Capriles e Ledezma são eloquentes da falta de compromisso real das oligarquias venezuelanas com a democracia.

O “paro petrolero”, em particular, evidencia que tais oligarquias não têm pruridos em arruinar a economia do país, desde que isso signifique uma oportunidade para voltar a controlar o poder perdido.

Desde então, o processo político venezuelano permanece bastante radicalizado.

Ainda assim, há de se constatar que o chavismo manteve seus compromissos democráticos. Desde a ascensão de Chávez e a implosão do Pacto de Punto Fijo, foram realizadas nada menos que 21 eleições, inclusive a de um referendo revogatório. Todas elas limpas e internacionalmente auditadas.

Ademais, na Venezuela há partidos de oposição que funcionam regularmente e imprensa livre, mesmo após a cassação da concessão do canal RCTV, que articulou o golpe de Estado de 2002.

A crítica de que o chavismo controla setores do aparelho de Estado, como o poder judiciário, por exemplo, não deixa de ser curiosa.

Na Venezuela, como em quase toda a América Latina, os setores estratégicos do aparelho de Estado sempre foram fortemente controlados pela direita. No entanto, tal controle nunca foi questionado como algo antidemocrático.

Ao contrário, o caráter de classe desses segmentos estatais sempre foi considerado como parte intrínseca e natural do modus operandi dos sistemas políticos do subcontinente. O controle só se torna um “problema” quando passa a ser exercido, ainda que parcialmente, pela esquerda.

Assim sendo, não se pode falar em quebra da ordem democrática na Venezuela, apesar da radicalização do processo político e dos graves problemas institucionais que acometem o país vizinho. A última vez em que houve realmente quebra da ordem democrática na Venezuela foi no golpe militar de 2002.

III - Desdobramentos Recentes

A situação da Venezuela atual é muito próxima da existente no período 2002-2003.

Com a morte de Chávez, em 2013, a oposição radicalizada da Venezuela, considerou que poderia derrotar facilmente o sucessor na revolução bolivariana.

Entretanto, a vitória de Maduro sobre Capriles, ainda que por pequena margem, frustrou as expectativas da oposição.

Pouco tempo depois, os setores mais radicalizados da oposição venezuelana, liderados por Leopoldo López, iniciaram o processo denominado de “la salida”, que consiste na utilização de manifestações violentas de rua, com a formação de barricadas, as chamadas “guarimbas”, incêndio de edifícios públicos e até mesmo de atos terroristas com o intuito de derrubar o governo eleito.

Trata-se de uma estratégia que teve êxito na chamada “revolução colorida da Ucrânia”, diretamente financiada e estimulada pelos EUA.

Essas manifestações, muito concentradas nos bairros do leste de Caracas e algumas outras poucas municipalidades dominadas pela classe média e pelas classes afluentes da Venezuela são amplificadas por uma mídia nacional e internacional comprometida com os interesses conservadores.

De um modo geral, as informações sobre as manifestações são produzidas com o auxílio das agências de inteligência e propaganda norte-americanas, que as repassam às agências internacionais de notícias, como a Reuters. A partir daí, elas se disseminam para o mundo inteiro, gerando uma percepção falaciosa do processo político venezuelano.

Entre 2013 e 2016, esse processo político radicalizado pela oposição de direita acabou provocando a morte de pelos menos 46 pessoas, a maioria chavistas ou de pessoas sem afiliação política, bem como danos milionários a equipamentos públicos.

Tais “guarimbas” foram e são financiadas desde o exterior. Com efeito, há uma conexão clara da direita venezuelana, particularmente dos setores ligados a Leopoldo López, com a extrema direita da Colômbia, principalmente com Álvaro Uribe e seus grupos de extermínio.

São essas conexões e os reiterados atos de violência que levaram à prisão de López e Antonio Ledezma na Venezuela.

Caracterizá-los como presos políticos que tivessem cometido “crimes de consciência”, como faz a imprensa brasileira, é desconhecer a realidade de uma direita que não tem, de fato, qualquer compromisso com a democracia e os direitos humanos e que aposta sistematicamente na violência como arma política preferencial.

Concomitantemente, foi iniciado um processo econômico que visa produzir carestia, desabastecimento e inflação, tal com o ocorreu, por exemplo, no Chile de Allende ou mesmo na própria Venezuela dos anos 2002 e 2003.

De fato, a este respeito é necessário que a crise econômica da Venezuela tem dois aspectos claros: um natural e outro artificial.

O natural, por assim dizer, tange ao fato óbvio de que a economia venezuelana, apesar dos esforços de chavismo para diversificá-la, ainda é muito dependente das exportações do petróleo e tem agricultura e indústria débeis.

A arrecadação tributária da Venezuela é muito baixa, apenas 13,5% do PIB, bem abaixo da brasileira, por exemplo, que está em cerca de 35% do PIB. Assim, o gasto público depende estreitamente da renda petroleira. Com a grande queda dos preços dessa commodity a partir de 2012, a economia da Venezuela passou enfrentar dificuldades reais graves, particularmente problemas cambiais.

Entretanto, há também aspectos artificialmente induzidos na crise econômica venezuelana. Há uma guerra econômica em curso.

Entre os instrumentos utilizados dessa guerra econômica estão: 1) o desabastecimento programado de bens essenciais; 2) a inflação induzida; 3) o boicote a bens de primeira necessidade; 4) o embargo comercial disfarçado; e 5) o bloqueio financeiro internacional.

O desabastecimento é produzido pela especulação cambial e pelo boicote político. O governo fornece aos importadores e comerciantes dólares cotados, pelo câmbio oficial, a apenas 10 bolívares. Entretanto, no câmbio negro, o dólar chega a ser cotado a milhares de bolívares. Na semana passada, cegou a 16 mil bolívares por dólar.

O que acontece é que muitos importadores simplesmente não importam o que deveriam. Fazem os contratos, mas importam apenas uma fração e depositam dólares no exterior. Além disso, boa parte (cerca de 35%) dos alimentos comprados são contrabandeados para o exterior, principalmente para a Colômbia, onde são vendidos com muito lucro. Outra parte é vendida no mercado interno, mas a preços excessivos, gerando carestia e inflação.

Ressalte-se que as importações de alimentos na Venezuela totalizaram US$ 7,7 bilhões em 2014, sendo que em 2004 elas foram de apenas US$ 2,1 bilhões. Ou seja, nesse período elas cresceram 259%. E, no caso de medicamentos importados, em 2014 as importações foram de US$ 2, 4 bilhões, enquanto que, em 2004, elas somaram apenas 608 milhões. Um aumento de 309%.

Portanto, a falta de alimentos, medicamentos, kits de higiene, peças sobressalentes para transporte e outros produtos, bem como as longas filas, não podem ser explicadas porque o setor privado não conseguiu receber uma quantidade suficiente de dinheiro para as importações. Esse dinheiro foi simplesmente desviado. Dessa forma, os depósitos em dólares de empresas venezuelanas no exterior cresceram 233% em apenas cinco anos.

Outro fator da guerra econômica tange à inflação induzida pela especulação. Em 2016, a economista venezuelana Pasqualina Curcio estimou, com base nas reservas e na liquidez monetária, que taxa real de câmbio deveria ser de 84 bolívares por dólar. No entanto, no câmbio negro o dólar já chegava a 1.212 bolívares por dólar. Essa discrepância dilatada e sem base real alimenta um índice inflacionário inteiramente especulativo.

Além de tudo isso, Venezuela sofre, desde 2013, com uma espécie de bloqueio financeiro não oficial. Ele consiste em tornar cada vez mais difícil e caro para a República e, especialmente, PDVSA, o acesso ao crédito no mercado internacional e em obstaculizar as transações financeiras.

Nesta área, as armas são invisíveis: tratam-se principalmente da publicação de níveis elevados de índice de risco país e do retardamento das transações financeiras costumeiras. Observe-se que, mesmo com a crise, a Venezuela vem cumprindo estritamente as suas obrigações financeiras, de modo que tais obstáculos não têm base racional e real.

No entanto, o fato concreto é que essa guerra econômica vem ajudando a radicalizar ainda mais o processo político venezuelano.

Nos últimos 4 meses, morreram mais de 100 pessoas nos conflitos de ruas. Houve linchamentos de chavistas, inclusive de um que foi queimado vivo, atentados terroristas, incêndios de prédios públicos, inclusive de uma maternidade. Houve também, é claro, a morte de manifestantes da oposição pelas forças de segurança. A violência se generalizou.

Ao mesmo tempo, o impasse institucional entre o Poder Executivo e a Asamblea Nacional, dominada pela oposição congregada na MUD, agravou-se, sem quaisquer iniciativas de ambos os lados para um diálogo sério e construtivo.

Assim sendo, a Venezuela de hoje está à beira de uma guerra civil de proporções calamitosas e consequências imprevisíveis.

Ante tal impasse, o governo chavista optou pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, prontamente rejeitada pela oposição.

A oposição logo alegou que a convocação era inconstitucional e que visava perpetuar o poder de Maduro.

Bom, em primeiro lugar, tal convocação não é inconstitucional. A convocação da Assembleia Constituinte pelo presidente da república está prevista clara e explicitamente no artigo 348 da Constituição da Venezuela.

Em segundo lugar, a Assembleia Constituinte não substitui a Asamblea Nacional (o parlamento unicameral da Venezuela), como foi afirmado falsamente, a qual continuará a funcionar e a cumprir suas funções legislativas.

Em terceiro lugar, a convocação de assembleias constituintes é um mecanismo frequentemente usado em países democráticos como solução pacífica para impasses políticos e institucionais como o que acomete a Venezuela atual.

Em quarto lugar, a convocação teve apoio expressivo da população. O número de votantes para a assembleia (mais de 8 milhões) foi superior aos votos que teriam sido obtidos pelo plebiscito informal que a oposição convocou uma semana antes contra a assembleia ( cerca de 7,2 milhões de votos).

Observe-se que esse plebiscito é que foi, sim, inteiramente ilegal. Não fosse o clima de violência criado pela oposição, as barricadas que impediram o acesso aos centros de votação e o boicote ostensivo das empresas de transporte, que fizeram locaute no dia da votação, a participação eleitoral poderia ter sido bem superior.

Em quinto lugar, os objetivos estratégicos da Assembleia Constituinte são bem mais amplos do que o suposto desejo de perpetuar Maduro no poder.

A Assembleia visa essencialmente constitucionalizar as misiones sociais, bem como estabelecer as bases jurídicas e institucionais de uma economia pós-petroleira. A preocupação fundamental é impedir retrocessos sociais, como os que ocorrem atualmente no Brasil, e criar mecanismos econômicos que levem a Venezuela a ampliar a base produtiva de sua economia, de modo a superar definitivamente a sua dependência dos hidrocarbonetos.

Há de se enfatizar, além disso, que o texto que sairá dessa Assembleia só terá valor jurídico se for aprovado pela população em referendo.

Tal constatação minimiza a crítica da oposição de que o sistema de votação estabelecido para a Assembleia Constituinte criava um “jogo de cartas marcadas”.

Na realidade, dos 545 membros da Assembleia, dois terços (364) foram eleitos em base territorial, e um terço (181) com base em setores organizados da sociedade civil, como estudantes, agricultores, sindicatos de trabalhadores, organizações empresariais, representantes das comunidades indígenas, etc.

Embora se possa argumentar que tal sistema gera uma distorção na proporcionalidade do voto, é necessário se entender que tal distorção é menor do que a distorção na proporcionalidade que se verifica em muitos países democráticos que adotam o voto distrital.

No Reino Unido, por exemplo, o Partido Liberal tem sido frequentemente prejudicado, pois o percentual de cadeiras que recebe é sempre inferior ao seu percentual de votos. O partido foi sub-representado em todas as eleições para a Câmara dos Comuns no pós-1945: com uma média de 12,4% dos votos, obteve uma média de 1,9% das cadeiras. A diferença mais acentuada ocorreu em 1983, quando recebeu 25,4% dos votos e elegeu apenas 3,5% dos representantes.

Entretanto, as distorções também se dão entre os partidos principais. Por exemplo, nessas ultimas eleições britânicas, os conservadores tiveram apenas 2,4% a mais de votos entre os eleitores que o Partido Trabalhista (42,4% x 40,0%). Contudo, conseguiram eleger 55 representantes a mais que os trabalhistas (317×262). Pela proporcionalidade do voto, tal diferença deveria ter resultado em apenas 15 cadeiras a mais.

Na França moderna, nas duas eleições em que um partido obteve mais de 50% de cadeiras, ele o fez por intermédio de maiorias manufaturadas por distorções: em 1968, os gaullistas (atual RPR) receberam 38% dos votos e 60% das cadeiras; em 1981, o Partido Socialista, com 37% dos votos, ficou com 57% das cadeiras.

Assim sendo, caracterizar a convocação da Assembleia Constituinte como um “golpe” ou uma “ruptura da ordem democrática” é algo de evidente má-fé. Pode-se não concordar com tal convocação, mas não se pode denominá-la de “golpe”. Golpe foi que aconteceu no Brasil.

A alternativa à Assembleia Constituinte parece ser uma guerra civil aberta. Ao menos, a Assembleia Constituinte cria uma oportunidade para que se estabeleça um diálogo que supere o atual impasse político e institucional daquele país.

Lamentável, em todo esse processo, é a posição do governo golpista e sem voto do Brasil. Desde que assumiu ilegitimamente o poder, esse governo fez da suspensão da Venezuela do Mercosul e da derrubada do governo chavista a sua diretriz principal em política externa, atuando como braço auxiliar dos EUA no subcontinente.

Ao fazê-lo, o governo golpista apequenou o Brasil e retirou qualquer possibilidade do nosso país atuar como mediador de conflitos na região, como vinha fazendo nos governos do PT.

O empenho do Brasil contra a Venezuela foi de tal ordem que a suspendeu duas vezes do Mercosul. Com efeito, antes da última decisão de utilizar a cláusula democrática do Protocolo de Ushuaia, a Venezuela já estava suspensa, na prática, do Mercosul desde dezembro do ano passado, sob a escusa, sem embasamento jurídico, de que o país não havia internalizado todas as normas do bloco, situação que se verifica em todos os Estados Partes.

Assim, a decisão de utilizar a cláusula democrática representa mera peça propagandística contra o governo legitimamente eleito da Venezuela.

Além de empenhado nos retrocessos socais e políticos internos, o governo do Brasil está empenhado também em forçar retrocessos na região.

Nosso principal produto de exportação é hoje o golpe.

* Marcelo Zero é sociólogo, especialista em Relações Internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI).

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Coluna do Torcedor: “Flamengo, meu amor!”




Tenho aversão a fanatismos de qualquer espécie, “prefiro ser essa metamorfose ambulante” em quase tudo. Flamengo é o nome do fanatismo que eu me autorizo. Flamenguista é, talvez, a única coisa que eu estou certa de ser até morrer, sobre todo o resto estou em aberto. A identidade de ter um time de futebol é algo tão fundamental pra mim que acho estranho quem diz que não torce pra time nenhum. Imagino que deva ser um vazio imenso. Como assim, nenhum time de futebol pra chamar de seu? E no meu vocabulário não tem essa de trocar de time. Aliás, existem dois tipos de pessoa que eu olho com desconfiança: as que não gostam de gatos e as que são capazes de trocar de time. Pode até ser preconceito de minha parte, mas acho que quem é capaz de mudar de time é capaz de qualquer coisa.

Eu sou flamenguista de berço – herança paterna que eu não reneguei – mas aprendi a amar o Flamengo, de fato, em 1981, aos 12 anos de idade, numa época em que era extremamente fácil se apaixonar pelo time rubro-negro. A geração de 1980 a 1983 foi a mais vitoriosa do clube e das coisas mais sensacionais que o futebol brasileiro já viu. Assim, tive o privilégio de me apaixonar por futebol ao mesmo tempo em que me apaixonei por aquele Flamengo, tão belo quanto vitorioso.

A fim de reverenciar aquele elenco dos sonhos, eu poderia falar de Zico – sem duvida o maior craque rubro-negro de todos os tempos – eu poderia falar de Adílio, de Tita, de Júnior, mas vou falar daquele que plantou definitivamente meu coração no Flamengo. Vou falar de João Batista Nunes de Oliveira – o Nunes. Nunes foi o segundo homem que fez meu coração bater mais forte nessa vida. O primeiro foi Herivelton, que não era exatamente um homem, mas um garoto da escola, por quem fui apaixonada. Ele nunca soube disso, eu acho. Bastava Herivelton me pedir a borracha emprestada para eu quase botar o coração pela boca. Nessa época, sem Facebook ou WhatsApp, a gente mandava indiretas amorosas emprestando ou pedindo a borracha emprestada.

Mas voltando a falar de Nunes, foi ele quem me ensinou a amar futebol e o Flamengo. Aqueles cabelos encaracolados e balançantes, a precisão oportunista na hora de fazer o gol e aquele shortinho curto para homens que só os anos 80 conheceram, foi o que de mais sexy minha mente de garota de 12 anos pôde alcançar. Nunes era para mim o homem mais lindo do mundo, depois de Herivelton, é claro! E eu guardei na memória o lance em que o jogador me arrebatou e entregou meu coração de vez ao Flamengo e ao futebol.

Lógico que eu já estava enamorada pelo time assistindo com meu pai a campanha do Flamengo naqueles anos de 1980 e 81, mas teve o momento exato onde o arrebatamento aconteceu, e eu me lembro como se fosse hoje: Era a final do Campeonato Mundial Interclubes contra o Liverpool, Nunes recebe um lançamento preciso de Zico pela meia direita (daqueles que Zico sabia fazer como ninguém) e sai em velocidade com a bola, acertando o canto esquerdo do gol adversário. Eu nunca mais esqueci aquele gol. Não sei se gritei, se comemorei, só me lembro de estar na sala da nossa casa na época, e de um arrepio que invadiu todo o meu corpo. Naquele momento, entendi a mágica do futebol e o tipo de emoção que ele poderia me dar. Naquela fração de segundos eu entendi a beleza que era torcer pelo Flamengo.

Só digo que o que eu senti foi amor sim! Amor de puro encantamento. Amor para a eternidade. Amor fanático e cego pelo manto rubro-negro. Amor pela emoção de celebrar o gol do time que faz meu coração bater mais (des)compassado que o normal. E, sobretudo, amor pelo futebol; esse esporte lindo, mágico e encantador. Amor devotado pelos que sabem dominar a bola com os pés, mas que apenas os melhores sabem como fazer isso usando a cabeça. Ah, os inteligentes com a bola nos pés! Esses eu reverencio com minha alma.

Pra finalizar deixo aqui toda minha gratidão e uma declaração apaixonada a Nunes, meu primeiro e inesquecível amor em campo.

Vida longa ao futebol!

Flamengo, meu amor!

Rita Almeida

domingo, 9 de julho de 2017

Corrupção por Prof. Rodrigo Perez Oliveira



Corrupção

Por Prof. Rodrigo Perez Oliveira

Professor Adjunto de Teoria da História e Historiografia Brasileira da Universidade Federal da Bahia


Acho que em uma coisa estamos todos de acordo: “corrupção” é a palavra chave da gravíssima crise institucional que está desestabilizando a vida de todos nós desde 2013.

Isso nem é exatamente uma novidade; de alguma forma, a corrupção também estava no centro de crises institucionais anteriores, como aquelas que aconteceram nas décadas de 1880, 1920 e 1960.

Mas nos concentremos na crise atual.

Todos os que saíram, e saem, às ruas clamando pela prisão de Lula e Dilma e pela criminalização do PT estão agindo em nome de um significado específico do termo “corrupção”.

Pois sim, meus amigos, essa palavrinha mágica tem vários significados, cada qual traduzindo uma certa maneira de compreender a dinâmica do jogo político.

É exatamente porque existem esses muitos sentidos que tanto eu como os coxinhas podemos dizer, em alto e bom som: o Brasil está atolado na lama da corrupção.

É claro que não estamos falando da mesma corrupção.

Explico melhor.

Os coxinhas são movidos por um sentido muito estreito de corrupção.

Para eles, corrupção só acontece no espaço público, especificamente quando os políticos profissionais roubam dinheiro público. Temos aí um tratamento muito pobre da ideia e da prática da corrupção, limitado a dois aspectos:

1) A corrupção é tratada apenas na perspectiva liberal-burguesa, entendida como sinônimo de roubo . É possível tratar esse conceito, pelo menos, em duas outras perspectivas (a marxista e a republicana), como mostro daqui a pouco.

2) A corrupção é vista como algo exclusivo da esfera da política, como se não houvesse roubalheira no poder judiciário ou em grandes empresas privadas.

Já cá do meu lado, a corrupção é pensada de outras maneiras, tendo desdobramentos muito mais complexos.

Primeiro, inspirado em Marx, que abordou o assunto no livro “A luta de classes na França em 1848”, parto do princípio de que o mundo regulado pelo poder do capital, em si, é corrupto.

Tipo, como disputar uma eleição em um sistema político no qual as grandes empresas fazem volumosas doações aos partidos políticos? Não aceitar essas doações significa não competir em situação de igualdade, significa não vencer.

Aqui pra nós, né amigos, partido político de esquerda que optou por jogar no campo da democracia que não vence eleições não serve pra nada. Mais honesto é ir fazer luta armada.

Por isso, encaro com muita naturalidade o fato de o Partido dos Trabalhadores ter se enroscado com as grandes empresas, pois deixar de fazê-lo significaria absolutamente não existir como protagonista na cena política nacional.

Então, é óbvio que João Vaccari, Lula e Dilma dançaram a ciranda da corrupção geral do sistema, e qualquer um no lugar deles faria a mesma coisa. Agora, nenhum dos três roubou, nenhum deles botou dinheiro no bolso ou em conta fantasma na Suíça.

Desafio qualquer um a provar o contrário.

Lula não é Eduardo Cunha; Dilma não é Michel Temer. São corrupções diferentes e, ao menos na minha métrica pessoal, incomparáveis entre si.

Segundo, inspirado em autores como Aristóteles e Maquiavel, tendo a valorizar o poder regulador da República.

A República tem uma função primordial: garantir a convivência civilizada, possibilitar que adversários políticos convivam sem se esfaquearem.

Sabem por que? Porque em uma República virtuosa, as pessoas acreditam nas instituições. Ou em outras palavras, para que o meu ponto fique bem claro:

Se eu acredito nas instituições que me governam, mesmo quando eu perco algum conflito (seja com meu vizinho, com a mãe do meu filho ou mesmo com o meu adversário político), eu coloco meu rabinho entre as pernas, choro na cama que é lugar quentinho e sigo a vida. No máximo, tento reverter o jogo, mas sempre no plano das instituições.

O problema maior da atual crise, meus amores, não está nem nos partidos políticos, nem nas grandes empresas e nem no financiamento privado de campanha.

O problema atual está nos juízes, que deveriam zelar pela capacidade da República em limitar os conflitos as instituições.

Os juízes viraram estrelas, cada um querendo brilhar mais que o outro. Os juízes são os verdadeiros corruptores da República.

Como fico, meus amigos, vivendo num país onde um juiz manda sequestrar um jornalista, apreende seus documentos e depois vaza o material para outros veículos da imprensa? Para veículos que são adversários ideológicos do jornalista preso. Como isso é possível?

Como podemos confiar nas instituições?

Como a Polícia Federal pode se tornar uma espécie de milícia a serviço de um juiz?

E o próximo cidadão que se sentir violentado pelas instituições? E se as pessoas começarem a receber a Polícia Federal à bala?

E se Sérgio Moro decidir prender Lula, assim, sem provas? O que vai impedir uma parcela relevante da sociedade brasileira de agir à revelia e contra às instituições?

Sim, concordo com os coxinhas: nossa República está corrompida.

A diferença entre nós é que eles aplaudem o corruptor maior, o Sabotador Geral da República.

terça-feira, 27 de junho de 2017

O Lulismo não é utopia, não é projeto. O Lulismo é experiência.


Rodrigo Perez Oliveira


Pesquisa eleitoral é aquele tipo de coisa que a galera despreza, diz que não serve pra nada, mas que atrai a atenção de todo mundo, fundamentando análises e pitacos aqui e acolá.


É justo.

Afinal, não há outra maneira de olhar para além do nosso próprio umbigo e de nossas relações pessoais mais próximas que não seja através das pesquisas, dos dados estatísticos.

Curto muito os dados. Muito mesmo.

Os institutos de pesquisa erram? De montão. Mas como é o que temos, vão lá os meus pitacos. Assim, organizadinhos, pois sou desses.

1°) Aos companheiros petistas orgânicos.

Não se iludam! A popularidade não é do PT. É do Lula.

Sim, isso mesmo, sem piti! Tem uma galera no PT que é mimizenta, parece até PSOL. Chatos até não poderem mais.

O PT sem Lula não chega nem a 4%, meus amores. Haddad, com todas ciclovias, com os prêmios internacionais, os projetos urbanos, com aquele charme de intelectual uspiano, não dá nem pra saída.

A força do PT está na combinação entre o carisma de Lula e a memória popular. As pessoas sabem que nos tempos de Lula a vida era melhor, que o prato estava mais cheio.

É que esse negócio de “classe trabalhadora” é mais uma abstração do que um dado real, entendem? É claro que o conceito é importante, pois é o fundamento da nossa identidade ideológica; tem alguma utilidade como ferramenta analítica.

Mas cá pra nós, assim, no miudinho, sem os reaças ouvirem: na prática a ideia de "classe", assim, fria, não serve pra muita coisa.

Os afetos, as demandas, as opções eleitorais das pessoas são configurados pelas suas experiências, entendem? É ali, no nível da prática, que a coisa acontece. O negócio é quente.

E num país como o Brasil, onde historicamente 35% da população é formada por pobres e outros 20% por miseráveis, o povão, o povão mesmo, tá preocupado com ganhos de curto prazo.

O povão só quer ter uma vidinha digna: trabalhar, ter acesso ao crédito, aposentadoria, 13°, colocar os meninos na escola. Comprar geladeira. Namorar. Fazer neném.

Só isso.

Essa galera não tá ligando pra revolução, pra reforma política, pra ciclovia, pra camada de ozônio, pra identidade de gênero.

Essas pautas aí vêm depois que a barriga tá cheia e cá no Brasil, amigos, nós só ensaiamos o Estado de Bem Estar Social. Mal começamos a encher as barrigas e os caras vieram e pá! Golperaram.

Só que o golpe se dá no plano das instituições, da política formal, e não nos afetos. Por mais que a mídia manipule, o povão não é burro.

O povão olha pra Lula e vê exatamente a tal vidinha digna, que via também na imagem do "Dr Getúlio".

O povão não quer sabe se o lulismo surfou na onda do boom das commodities, se é ideologicamente conservador, se tencionou ou não as estruturas do grande capital.

O povão não quer saber se o itaú ganhou milhões de reais.

O povão sabe, pela experiência, que antes a vida tava melhor, e isso já basta.

Não sei se se esses afetos serão suficientes para trazerem o povão pra rua numa eventual prisão de Lula: às vezes acho que sim, às vezes acho que não.

Mas tenho certeza de que esses afetos são mais que suficientes para fazerem as pessoas apertarem 13 nas urnas em 2018.

Apertar 13 se a foto que aparecer lá for a de Lula, com aquela barba, com as covinhas na bochecha.

Se não for a foto a de Lula, meus amigos, vai ser difícil, muito difícil.

Capital político não se transfere assim, como se fosse dinheiro em conta corrente.

Se rolar um empenho grande de Lula na campanha, pode até ser que se repita o que aconteceu com Dilma. Mas não se iludam, amigos petistas, isso não é garantido, não é nada garantido.

Quem sobreviveu à crise foi Lula, e não o PT.

Seria prudente, então, que os companheiros Lindberg e Tarso baixassem as bolas, pois parece que eles não entenderam o que está acontecendo. Tão cabaçando, pagando de psoletes, tão fechando na errada, fechando com gente errada.

2°) Sobre o bolsonarismo.

É claro que o que mais chama atenção nessa pesquisa divulgada pelo DataFolha é o tal bolsonarismo, que já bate nos 15%.

Bom, vamos lá, no meio termo entre o desespero e a indiferença.

Por um lado, é óbvio que o bolsonarismo não pode ser ignorado, não mais. Mas duvido, e muito, que tenha fôlego para vencer eleição majoritária.

Acho mesmo que numa campanha eleitoral, o fôlego político de Bolsonaro não é tão grande. É muita barbaridade junta, e isso seria explorado à exaustão.

Ele bate no teto dos 10% e daí não passa.

Só que o fato de termos 10% dos eleitores brasileiros votando na barbárie já é um problemão.

O termo é exatamente esse "barbárie": o bolsonarismo não é uma ideologia política, pois o que temos ali não são propostas políticas.

Tudo bem ser liberal e achar o que o Banco Central deve ter autonomia. Discordo, mas beleza, estamos aqui na esfera do debate politico.

Tudo bem ser conservador e questionar os debates sobre gênero no sistema educacional. Discordo, pois acho essas discussões fundamentais, principalmente para adolescentes. Pra crianças de primeira infância, tenho lá minhas dúvidas.

E sim, posso tê-las, pois aqui estamos no reino da opinião, da controvérsia, dos debates políticos. Nem adianta o piti!

Agora, não dá, de forma alguma, pra defender a tortura, o estupro, o extermínio como política de Estado.

Não dá pra debochar dos desaperecidos do Araguaia. É indigno.

Aqui, não estamos mais no terreno da opinião. Direitos Humanos não são matéria de opinião. Desrespeitar os direitos humanos não é uma opção. É crime.

Por isso, os 10% do bolsonarismo traduzem, de um lado, o aspecto mais terrível da crise; uma crise que não é apenas política, que não é só institucional. A crise é civilizacional.

Por outro lado, essa direita incivilizada, bárbara, não é exatamente uma novidade. Essa galera tava se escondendo sob as asas tucanas do PSDB desde os anos 1990.

Venho lendo muito sobre o PSDB. Tô muito convencido de que a face mais triste da dimensão política da crise foi o colapso do PSDB.

Um partido que nasceu marcado pelas ventos mais renovados do marxismo pós-estruturalista se tornou isso que é hoje: uma legenda de gangsters, um amontoado de golpistas. É triste.

Seria muito saudável para o nosso sistema político se o PSDB tivesse se tornado, de fato, um partido social-democrata, com tendências liberais.

Nunca foi.

Talvez tenha sido ali no comecinho, entre a fundação, em 1988, e o início do primeiro governo de FHC, em 1995.

Depois se tornou o portador de um neoliberalismo entreguista da pior espécie e, já no século XXI, um partido sustentado por um eleitor sem identidade, pelo voto antipetista, pelo voto de direita, de uma direita raivosa e violenta.

Uma pena, uma pena mesmo.

Cerca de 60% dos eleitores do PSDB, segundo dados de uma pesquisa realizada em 2006, tinham identidade eleitoral negativa. Ou seja, votavam no PSDB porque odiavam o PT. A semente do bolsonarismo já estava ali.

Acontece é que a crise está muito marcada por um certo conceito deontológico de corrupção. Aí o tal Bolsonaro consegue surfar nessa onda da “honestidade”.

Somem isso à mobilização de algumas tópicas com grande capilaridade na cultura popular, como "família" e "honra masculina", e temos a força do bolsonarismo. Uma força relevante, mas limitada, ao menos na minha avaliação.

O bolsonarismo, portanto, é um problemaço, mas não tem força pra vencer eleição majoritária. Sou capaz de apostar várias cervejas nisso.

3°) Por último, aquilo que anula tudo que falei até agora.

A pesquisa eleitoral, nas atuais circunstâncias, é pura ficção.

Por que estamos ainda muito longe das eleições? Não, não e não.

Eleição sugere a saúde do sistema político e a atual crise é, exatamente, a crise geral do sistema político.

A classe política, já há algum tempo, não está no controle da crise. Ela é um passageiro desesperado em uma locomotiva desorientada, sem comando central.

O capital especulativo não está comando da crise, e já entendeu que Temer não entregará as tais reformas, ao menos não como prometeu.

A classe política olha para Temer e vê nele a única esperança de salvação, através do controle do judiciário, especialmente da Procuradoria Geral da República.

Temer já mandou matar um ministro do STF e nomeou para vaga um homem da sua confiança. Temer nomeou três ministro do TSE para salvar o seu mandato.

Temer irá substituir Rodrigo Janot na PGR, nomeando um engavetador geral da Reública. E fará assim, tudo na base do "foda-se o que vocês pensam".

Uma coisa temos que admitir: Temer está dando uma aula de como defender um mandato.

A força de Temer, cuja popularidade é uma margem de erro de 2%, está no sentimento corporativo da classe política, quase toda envolvida em escândalos de corrupção.

Temer está manipulando esse sentimento, esse medo, com maestria.

Por isso, amigos, tirem o cavalinho da chuva: Temer não cai pela via da política. Rodrigo Maia não abre um processo de impeachment nem que a vaca dance forró. Os parlamentares estão com o Temer, não exatamente na agenda das reformas, pois o preço político desse apoio é caro.

Os parlamentares estão com o Temer no contra-ataque ao judiciário. O núcleo duro da crise tá aqui: Políticos X Juízes.

Então, amores, podemos colocar dez milhões nas ruas, tatuar "Fora Temer" nas nossas testas e nas nossas bundas que o vampiro não irá cair.

Se depender da política, Temer governará até 18, para proteger a si mesmo e os seus pares. O país ficará parado. Os pobres, que são os que mais precisam do governo, sofrerão muito.

A outra possibilidade é a Procuradoria Geral da República entrar em cena.

Provavelmente, Rodrigo Janot denunciará Michel Temer. Aí, o jogo muda um pouco, pois o Congresso Nacional precisará decidir se aceita ou não a denúncia. Até que ponto os parlamentares irão se expor para defender Temer?

Nesse cenário, a peça fundamental passa a ser Rodrigo Maia. Se o gordinho convencer a turma de que ele mesmo pode proteger a rapaziada da jornada moralizante de Janot, Temer tá fudido. Do contrário, nada muda, e Temer fica exatamente onde está.

Hoje, o grande problema do Brasil não é Michel Temer. O grande problema do Brasil é a PGR, comandada por Rodrigo Janot. Se o projeto de poder desses caras se concretizar, se eles escaparem da ofensiva comandada pela classe politica, sob a liderança de Michel Temer, joguem as pesquisas no lixo, pois eles darão as cartas e o voto será moeda sem valor.

Ah, vocês acham que o voto já não tem valor em um sistema político corrompido pelo captial? Esperem só pra ver numa ditadura da toga. A coisa sempre pode piorar.

Confesso pra vocês que nessa disputa, to torcendo pros políticos. O político corrupto nós podemos derrubar nas urnas. Já o juiz ninguém controla. O juiz é Deus. E brigar com Deus é "barril", como se costuma falar cá na Bahia.

"Barril"! Adoro essa expressão.